Matthew Henry

Josué 13

Argumento

Neste capítulo começa o relato da divisão da terra de Canaã entre as tribos de Israel por sorteio. Essa narrativa não é tão agradável nem tão instrutiva quanto a conquista, mas foi considerada própria para integrar a história sagrada e mostrar o cumprimento da promessa feita aos patriarcas.

A promessa era que essa terra seria dada à descendência de Jacó, a eles e a mais ninguém. Preservar o registro dessa divisão seria muito útil à nação judaica, obrigada pela lei a manter a distribuição original e a não transferir heranças de uma tribo para outra (Números 36:9).

Esse relato também nos ajuda a explicar outras Escrituras. Os estudiosos sabem quanta luz a descrição geográfica de uma região lança sobre sua história. Portanto, não devemos pular estes capítulos de nomes difíceis como se fossem inúteis e indignos de atenção.

Onde Deus tem uma boca para falar e uma mão para escrever, devemos ter ouvidos para ouvir e olhos para ler. Que Deus nos dê um coração disposto a aproveitar o que lemos!

Neste capítulo:

I. Deus informa Josué sobre as partes da região prometida a Israel que ainda não haviam sido conquistadas nem ocupadas (vv. 1-6).

II. Apesar disso, manda que ele faça a divisão do que já havia sido conquistado (v. 7).

III. Para completar o relato, repete-se a divisão feita por Moisés da terra do outro lado do Jordão, primeiro em termos gerais (vv. 8-14) e depois em particular: a parte de Rúben (vv. 15-23), de Gade (vv. 24-28) e da meia tribo de Manassés (vv. 29-33).

Versículos 1 a 6

A Divisão de Canaã. (a.C. 1445.)

I. Deus lembra Josué de que ele estava velho (v. 1). 1. Diz-se que Josué era velho e avançado em idade; naquele tempo, ele e Calebe eram os únicos anciãos entre os milhares de Israel. De todos os que haviam sido contados no monte Sinai, ninguém mais estava vivo.

Josué fora homem de guerra desde a juventude (Êxodo 17:10), mas agora cedia às limitações da velhice, contra as quais nem os mais fortes conseguem lutar.

Ao que parece, na velhice, Josué não teve a mesma força e vigor que Moisés. Nem todos chegam à idade avançada da mesma maneira; em geral, os dias da velhice são dias difíceis, sem prazer nem expectativa de serviço.

  1. Deus lhe chama a atenção para isso: “Tu és velho”. Repare: é bom lembrar aos que estão velhos e avançados em idade que de fato estão assim. Alguns têm cabelos grisalhos aqui e ali e nem percebem (Oseias 7:9). Não gostam de pensar nisso e, por isso, precisam ser avisados, para se apressarem a fazer o trabalho da vida e se prepararem para a morte, que se aproxima depressa.

Deus menciona a idade e as limitações crescentes de Josué: (1) como razão para ele deixar de pensar em prosseguir a guerra. Não podia esperar que ela terminasse logo, pois ainda restava muita terra por ocupar, talvez mais do que imaginava, em lugares distantes uns dos outros.

Naquela idade, não seria adequado submetê-lo ao desgaste de renovar a guerra e levá-la a regiões tão distantes. Já bastava ter conquistado a parte central do país. “Que ele seja recolhido ao descanso com honra e com a gratidão do povo pelos bons serviços que lhe prestou. A conquista das regiões periféricas fique para os que vierem depois.”

Assim como ele participou do trabalho de Moisés, outros participem do dele e coloquem a pedra de remate — tarefa que muito depois foi reservada a Davi.

Observe que Deus leva em conta as limitações de seu povo e não quer sobrecarregá-lo com trabalho além de suas forças.

Não se pode esperar que os idosos façam por Deus e por sua pátria tudo o que fizeram antes.

(2) Deus menciona a idade de Josué como razão para ele se dedicar logo à divisão daquilo que havia conquistado. Esse trabalho precisava ser feito, e depressa. Era necessário que ele presidisse a divisão; portanto, como estava velho e avançado em idade, e era pouco provável que vivesse muito mais, devia fazer disso seu último serviço a Deus e a Israel.

Todos, mas especialmente os idosos, devem apressar-se em fazer o que precisa estar pronto antes de morrer, para que a morte não os impeça (Eclesiastes 9:10).

II. Deus lhe dá um relato específico da terra ainda não conquistada, destinada a Israel, da qual seriam senhores no tempo devido, desde que não pusessem uma tranca na própria porta. Mencionam-se diversos lugares: alguns no sul, como a região dos filisteus, governada por cinco príncipes, e a terra na direção do Egito (v. 2, 3); outros a oeste, na direção dos sidônios (v. 4).

A leste ficava todo o Líbano (v. 5); e ao norte, a região na entrada de Hamate (v. 5).

Josué recebeu essa informação e a transmitiu ao povo: 1. Para que se comovessem ainda mais com a bondade de Deus ao lhes dar aquela boa terra e se sentissem comprometidos a amá-lo e servi-lo. Se aquilo que já tinham fosse pouco, Deus ainda lhes daria tais e tais coisas (2 Samuel 12:8).

  1. Para que não fossem tentados a fazer aliança nem a cultivar intimidade perigosa com aqueles vizinhos, aprendendo seus costumes; antes, deviam desconfiar deles como de um povo que os privava de seus direitos e contra o qual tinham justa causa de contenda.

  2. Para que se mantivessem prontos para a guerra e não pensassem em tirar a armadura enquanto restasse terra por ocupar. Tampouco nós devemos deixar de lado nossa armadura espiritual nem abandonar a vigilância até que nossa vitória se complete no reino da glória.

III. Deus promete fazer dos israelitas senhores de todas aquelas regiões ainda não subjugadas, embora Josué estivesse velho e sem condições de conquistá-las, e provavelmente não vivesse para ver isso acontecer. Aconteça o que acontecer conosco, e ainda que sejamos postos de lado como vasos quebrados e desprezados, Deus fará sua obra no tempo dele (v. 6): “Eu os expulsarei”.

O original é enfático: “Sou eu quem fará isso; eu, que posso fazê-lo depois que você morrer, e o farei se Israel não falhar consigo mesmo”. A versão caldaica traduz: “Eu o farei pela minha Palavra”, como em muitas outras passagens, referindo-se à Palavra eterna, capitão dos exércitos do Senhor.

Deus promete expulsá-los de diante dos israelitas, mas isso pressupõe uma condição: os próprios israelitas deveriam tentar eliminá-los e marchar contra eles. De outro modo, não se poderia dizer que seriam expulsos diante deles.

Se mais tarde Israel, por preguiça, covardia ou afeição por aqueles idólatras, ficasse parado e os deixasse em paz, deveria culpar a si mesmo, não a Deus, por não tê-los expulsado.

Devemos realizar a nossa salvação; então Deus operará em nós e conosco. Devemos resistir aos nossos inimigos espirituais; então Deus os esmagará debaixo dos nossos pés. Devemos sair para nosso trabalho e combate cristãos; então Deus irá adiante de nós.

Versículos 7 a 33

I. Josué recebe a ordem de destinar a cada tribo sua parte daquela terra, inclusive a região ainda não subjugada. Ela deveria ser incluída no sorteio, com a confiança de que seria conquistada quando Israel se multiplicasse e precisasse dela (v. 7): “Agora, divida esta terra”. Josué pensava que tudo precisava ser conquistado antes de qualquer divisão.

Deus lhe diz: “Não. Já foi conquistado o suficiente para as necessidades de vocês por enquanto. Divida o que têm e tirem o melhor proveito; esperem pelo restante mais adiante”. Repare: devemos desfrutar do que temos, mesmo sem alcançar tudo o que desejamos. Observe:

  1. A terra deveria ser dividida entre as diversas tribos; elas não viveriam para sempre em comunidade, como viviam então. Seja qual for a forma justa de adquirir uma propriedade, é vontade do Deus que deu a terra aos seres humanos que exista propriedade, que cada um saiba o que é seu e não invada o que pertence a outro.

O mundo deve ser governado pelo direito, não pela força; pela lei da equidade, não pelas armas.

  1. A terra deveria ser dividida como herança, embora tivesse sido conquistada. (1) A promessa da terra lhes veio como herança dos pais: a terra prometida pertencia aos filhos da promessa, amados por causa de seus pais e em cumprimento da aliança com eles. (2) Eles a transmitiriam aos filhos como herança.

Muitas vezes, o que se obtém à força logo se perde; mas Israel tinha um título incontestável à terra por concessão divina e podia vê-la assegurada como herança para sua descendência. Deus preservava essa misericórdia para milhares de seus descendentes.

  1. Josué não deveria dividi-la segundo a própria vontade. Embora fosse muito sábio, justo e bom, não cabia a ele dar o que quisesse a cada tribo. Deveria fazê-lo por sorteio, deixando o assunto inteiramente a cargo de Deus e de sua decisão, pois é ele quem determina os limites da nossa habitação, e o julgamento de cada pessoa deve proceder dele.

Josué, porém, deveria presidir essa questão, conduzir esse solene apelo à Providência e verificar que o sorteio fosse feito com justiça e sem fraude, e que cada tribo aceitasse o resultado. De fato, a sorte faz cessar a disputa (Provérbios 18:18). Mas, se surgisse alguma controvérsia, caberia a Josué resolvê-la com sabedoria e autoridade, evitando consequências ruins.

Josué teria a honra de dividir a terra: (1) porque havia suportado o desgaste de conquistá-la; quando cada tribo recebesse sua parte por meio dele, teria ainda mais consciência de suas obrigações para com ele. E que prazer isso devia dar a um homem de tão grande espírito público: ver o povo que lhe era tão querido desfrutar do fruto de seu trabalho!

(2) A divisão o tornaria uma figura de Cristo, que não só conquistou para nós as portas do inferno, mas também nos abriu as portas do céu; e, tendo comprado a herança eterna para todos os que creem, no tempo devido os colocará de posse dela.

II. Relata-se aqui a divisão da terra do outro lado do Jordão entre os rubenitas, os gaditas e a meia tribo de Manassés. Observe:

  1. Por que esse relato é introduzido: (1) para explicar por que a terra deste lado do Jordão deveria ser dividida apenas entre nove tribos e meia: as outras duas e meia já haviam recebido sua parte. (2) Como modelo para Josué no trabalho que tinha diante de si. Ele vira Moisés distribuir aquela terra; isso o ajudaria a distribuir esta e lhe daria uma medida para seguir.

Só que esta seria dividida por sorteio; parece que Moisés fez a outra divisão conforme a sabedoria que lhe fora dada.

(3) Para incentivar Josué a apressar a divisão desta terra, a fim de que as nove tribos e meia não fossem privadas por mais tempo que o necessário de sua herança, já que seus irmãos das duas tribos e meia estavam tão bem instalados na deles. Deus, o Pai de todos, não queria que se fizesse tamanha distinção entre seus filhos.

  1. Os detalhes do relato.

(1) Há uma descrição geral da região dada às duas tribos e meia por Moisés, exatamente como Moisés a deu (v. 8). A repetição confirma a concessão: Moisés decidiu essa questão, e assim permaneceria; Josué não tentaria alterá-la sob pretexto algum. Sugere-se a razão: Moisés era servo do Senhor, agiu nessa questão sob orientação secreta dele e, como servo, foi fiel.

[1.] São estabelecidos os limites da região que a separavam das nações vizinhas (v. 9 etc.). Israel deveria conhecer o que lhe pertencia e ater-se a isso. Não poderia, sob o pretexto de ser o povo peculiar de Deus, invadir os vizinhos nem tomar seus direitos e propriedades, aos quais eles tinham bom e firme título pela providência, embora não tivessem, como Israel, título pela promessa.

[2.] Uma parte da região concedida é excluída da posse de Israel: a dos gesuritas e dos maacatitas (v. 13). No tempo de Moisés, não tiveram tempo de subjugar todos os lugares remotos e pouco conhecidos; depois, não quiseram, contentando-se com o que já tinham.

Assim, os que não encontram limites nas promessas de Deus ainda são limitados pela própria fé, pelas próprias orações e pelos próprios esforços.

(2) Há um relato muito específico da herança dessas duas tribos e meia: como foram separadas umas das outras e quais cidades, com seus povoados, aldeias e campos, reconhecidos como dependências, pertenciam a cada tribo.

Tudo é registrado com muitos detalhes para que as gerações futuras, ao lerem essa história, se comovessem ainda mais com a bondade de Deus para com seus antepassados: veriam a extensão e a fertilidade da terra, e a quantidade de cidades grandes e famosas que lhes deu. As dádivas de Deus se revelam melhor quando examinamos os detalhes.

O registro também fixa com precisão os limites de cada tribo e pode evitar disputas, comuns entre tribos quando as fronteiras não foram definidas nem estabelecidas com certeza.

Temos razão para crer que esse registro público da parte de cada tribo foi muito útil a Israel nas gerações seguintes: muitas vezes se recorria a ele, e sua autoridade sempre era aceita para decidir o meum e o tuum — o meu e o teu.

[1.] Temos aqui a parte da tribo de Rúben, primogênito de Jacó. Embora tivesse perdido a dignidade e o poder da primogenitura, parece ter tido a vantagem de ser atendido primeiro. Talvez os dessa tribo tenham considerado isso ao pedir para se estabelecer deste lado do Jordão: como não podiam esperar a melhor parte, ao menos teriam a honra de receber primeiro.

Observe, primeiro, que no relato da parte dessa tribo se menciona a morte de: 1. Seom, rei dos amorreus, que reinava naquela região e poderia ter conservado a terra e a vida se tivesse agido como vizinho e permitido que Israel atravessasse seu território.

Mas, ao tentar opor-se a eles, trouxe a ruína sobre si (Números 21:21 etc.). 2. Os príncipes de Midiã, mortos depois, em outra guerra (Números 31:8). Aqui são chamados de duques de Seom e se diz que foram mortos com ele porque eram seus tributários ou aliados na oposição a Israel e apoiavam de coração seus interesses. A queda de Seom abriu caminho para a deles pouco depois.

  1. Balaão também é mencionado em particular. Ele teria amaldiçoado Israel se pudesse, mas pouco depois recebeu a paga pela maldade de sua tentativa (Salmos 28:4), pois caiu com os que o incitaram.

Isso já havia sido registrado (Números 31:8) e aqui é repetido porque frustrar o propósito de Balaão de amaldiçoar Israel e converter a maldição em bênção foi uma demonstração do poder e da bondade de Deus que merecia ser lembrada para sempre. Veja Miquéias 6:5.

Em segundo lugar, dentro da parte dessa tribo ficava o monte Pisga, do alto do qual Moisés contemplou a Canaã terrena e alçou o voo para a celestial. Não muito longe dali estava Elias quando foi levado ao céu num carro de fogo.

A separação dessa tribo das demais pelo rio Jordão foi lamentada por Débora; ela censurou a preferência deles por seus interesses particulares em detrimento dos interesses públicos (Juízes 5:15, 16).

Nessa tribo ficavam Hesbom e Sibma, famosas por seus campos férteis e vinhedos. Veja Isaías 16:8, 9; Jeremias 48:32. Essa tribo, junto com a de Gade, foi duramente golpeada por Hazael, rei da Síria (2 Reis 10:33); depois, foi removida e levada ao cativeiro vinte anos antes do cativeiro geral das dez tribos pelo rei da Assíria (1 Crônicas 5:26).

[2.] A parte da tribo de Gade (vv. 24-28) ficava ao norte da de Rúben. A região de Gileade ficava nessa tribo, tão famosa por seu bálsamo que realmente causa estranheza não haver bálsamo em Gileade. Também ficavam ali as cidades de Jabes-Gileade e Ramote-Gileade, que lemos muitas vezes nas Escrituras.

Sucote e Penuel, mencionadas na história de Gideão, pertenciam a essa tribo. Também ficava ali a floresta chamada de floresta de Efraim — assim chamada pela matança que Jefté fez ali dos efraimitas —, na qual o exército rebelde de Absalão foi derrotado enquanto seu pai, Davi, estava em Maanaim, uma das cidades fronteiriças dessa tribo (v. 26).

Sarom, famosa por suas rosas, também ficava nessa tribo. E dentro de seus limites moravam os gadarenos que amavam mais os porcos do que o Salvador, mais dignos de serem chamados girgaseus do que israelitas.

[3.] A parte da meia tribo de Manassés (vv. 29-31) incluía Basã, o reino de Ogue, famoso pela melhor madeira — como atestam os carvalhos de Basã — e pelo melhor gado, como atestam os touros e carneiros de Basã. Essa tribo ficava ao norte de Gade, chegava ao monte Hermom e incluía parte de Gileade.

Mispá ficava nessa meia tribo; Jefté foi uma de suas figuras ilustres, assim como Elias, pois nela ficava Tisbe, de onde ele é chamado tesbita. Jair foi outra figura ilustre. Na extremidade da tribo ficava Corazim, honrada pelas obras maravilhosas de Cristo, mas destruída pela justa condenação que ele proferiu contra ela por não ter aproveitado essas obras.

[4.] Observa-se duas vezes neste capítulo que Moisés não deu herança alguma à tribo de Levi (v. 14, 33), conforme Deus havia determinado (Números 18:20). Se os levitas tivessem recebido uma parte inteira, Moisés teria atendido primeiro à sua tribo, não por ser a dele, mas por ser a tribo de Deus.

Porém, deveriam ser providos de outro modo: suas moradas seriam espalhadas por todas as tribos, seu sustento viria de todas elas, e o próprio Deus seria a porção de sua herança e de seu cálice (Deuteronômio 10:9; 18:2).


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