Josué 10
Argumento
Neste capítulo temos o relato da conquista dos reis e reinos do sul da terra de Canaã; no capítulo seguinte, será relatada a conquista do norte. Juntas, elas completaram os gloriosos êxitos das guerras em Canaã. Aqui se conta: I. Como as forças dos reis foram derrotadas no campo de batalha: 1. A aliança que fizeram contra os gibeonitas (vv. 1-5).
- O pedido dos gibeonitas a Josué por ajuda (v. 6); 3. A rápida marcha de Josué, animado por Deus, para socorrê-los (vv. 7-9); 4. A derrota dos exércitos dos reis aliados (v. 10, 11); 5. O prolongamento milagroso do dia, com o sol parado em favor dos vencedores (vv. 12-14).
II. A execução dos reis que escaparam da batalha (vv. 15-27). III. A conquista de cidades específicas e a destruição total dos que nelas foram encontrados: Maquedá (v. 28); Libna (v. 29, 30); Laquis (v. 31, 32) e o rei de Gezer, que tentou socorrê-la (v. 33); Eglom (v. 34, 35); Hebrom (v. 36, 37); Debir (v. 38, 39).
Por fim, todo aquele território foi entregue a Israel (vv. 40-42), e o exército voltou ao quartel-general (v. 43).
Versículos 1 a 6
A Coalizão Contra Gibeão. (a.C. 1450.)
Josué e os exércitos de Israel já estavam havia bastante tempo na terra de Canaã, mas pouco haviam conquistado. Tomaram Jericó por milagre, Ai por estratégia e Gibeão por rendição; nada mais. Até então, o avanço de suas vitórias não parecia à altura da pompa da entrada e da glória do começo.
É provável que os impacientes com a demora se queixassem da lentidão de Josué e perguntassem por que não penetravam imediatamente no interior do país, antes que os inimigos reunissem forças para enfrentá-los; por que ficavam de braços cruzados, embora tivessem tanta certeza do direito à terra e da vitória. Talvez assim censurassem a prudência de Josué como preguiça, covardia e falta de coragem.
Mas Canaã não seria conquistada num dia. Deus dissera que expulsaria os cananeus pouco a pouco (Êxodo 23:30). Quem crê não se apressa: não deve concluir que a promessa jamais se cumprirá só porque não se cumpre tão depressa quanto esperava.
Josué esperou que os cananeus tomassem a iniciativa. Que atacassem Israel ou os aliados de Israel primeiro; assim, sua destruição seria, ou ao menos pareceria, mais justa e justificável. Josué tinha autorização suficiente para atacá-los, mas esperou que dessem o primeiro golpe, para proceder com honestidade aos olhos não só de Deus, mas também dos homens.
Assim também seriam ainda menos desculpáveis por resistir depois de verem o favor que Israel concedera aos gibeonitas.
- Era vantajoso para Israel esperar um pouco, até que os exércitos daqueles pequenos reis se unissem numa única força e pudessem ser destruídos mais facilmente num só golpe. Deus tinha isso em vista quando pôs no coração deles que se unissem contra Israel.
Embora eles pretendessem fortalecer-se uns aos outros, Deus planejava “reuni-los como feixes na eira”, para que caíssem juntos sob o mangual (Miquéias 4:12). Muitas vezes, o aparente paradoxo “Espere um pouco, e terminaremos mais depressa” se revela conselho salutar.
Depois de Israel esperar algum tempo por uma oportunidade de guerrear contra os cananeus, surgiu uma boa ocasião.
- Cinco reis se aliaram contra os gibeonitas. Adoni-Zedeque, rei de Jerusalém, foi o primeiro a agir e o líder da coalizão. Tinha um bom nome — significa “senhor da justiça” — e talvez descendesse de Melquisedeque, rei da justiça. Apesar do bom nome e da família, parece que era um homem mau e inimigo implacável dos descendentes de Abraão, a quem seu antecessor Melquisedeque fora tão fiel amigo.
Convocou os vizinhos para se unirem contra Israel, talvez por ser o príncipe mais honrado e ter precedência entre aqueles reis — quem sabe dependessem dele ou lhe prestassem deferência, por ser o homem mais conhecido, poderoso e ativo entre eles —, ou talvez por ser o primeiro ou o mais preocupado com o perigo que ameaçava seu país.
O perigo vinha não só da conquista de Jericó e Ai, mas da rendição de Gibeão, que parece ter sido o fato que mais o alarmou, pois era uma das cidades fronteiriças mais importantes. Por isso, dirigiu contra Gibeão todas as forças que pudesse reunir: “Venham ajudar-me, para atacarmos Gibeão”. Resolveu fazê-lo:
(1.) Por estratégia, para recuperar a cidade, que era forte e de grande importância para o país que a possuísse; ou (2.) por ressentimento, para castigar os cidadãos por terem feito as pazes com Josué.
Alegava que haviam traído deslealmente seu país e fortalecido o inimigo comum, quando na realidade haviam feito o maior bem imaginável ao dar ao país um bom exemplo, se os outros quisessem segui-lo.
Assim Satanás e seus instrumentos guerreiam contra os que fazem as pazes com Deus. Não se admirem se o mundo os odiar e tratar como desertores os que se convertem a Cristo.
- Os gibeonitas informaram Josué da aflição e do perigo em que estavam (v. 6). Agora esperavam receber benefício do pacto com Israel, pois, embora o tivessem obtido por engano, ele foi confirmado depois que a verdade veio à tona. Consideravam Josué obrigado a ajudá-los:
(1.) Por dever de consciência, pois eram seus servos. Não por mera formalidade, como disseram na primeira abordagem: “Somos teus servos” (Josué 9:8); eles haviam sido feitos servos da congregação de fato. Cabe aos senhores cuidar até dos servos mais pobres e humildes e não permitir que sejam injustiçados quando podem defendê-los. É razoável que os que prestam lealdade esperem proteção.
Assim Davi pleiteia com Deus: “Sou teu; salva-me” (Salmos 119:94). Nós também podemos dizer isso, se de fato pertencemos a ele.
(2.) Por honra, pois os inimigos os atacavam justamente pelo respeito que demonstraram a Israel e pela confiança que depositaram na aliança com Israel. Josué não podia recusar-se a ajudá-los, pois eram atacados por causa de sua afeição a ele e ao nome de seu Deus. Davi vê nisso um bom motivo para pleitear com Deus: “Por tua causa tenho suportado afronta” (Salmos 69:7).
Quando nossos inimigos espirituais se organizarem contra nós e ameaçarem nos devorar, recorramos com fé e oração a Cristo, nosso Josué, em busca de força e socorro. Como Paulo, receberemos dele a mesma resposta de paz: “Minha graça é suficiente para ti” (2 Coríntios 12:8, 9).
Versículos 7 a 14
O Sol e a Lua Param. (a.C. 1450.)
I. Josué decide ajudar os gibeonitas, e Deus o anima nessa decisão. 1. Ele subiu de Gilgal (v. 7), isto é, planejou, decidiu e preparou essa expedição para socorrer Gibeão. É provável que, antes mesmo de dar um passo, Deus lhe tenha falado para animá-lo. Foi generoso e justo da parte de Josué ajudar seus novos aliados.
Talvez o rei de Jerusalém, ao atacá-los, nem imaginasse que Josué estaria tão disposto a socorrê-los; esperava que os abandonasse por serem cananeus, ainda mais porque haviam conseguido o pacto com ele por meio de fraude. Por isso, fala com tanta confiança em atacar Gibeão (v. 4).
Josué sabia que a promessa de deixá-los viver o obrigava não só a não matá-los, mas também a não ficar parado vendo que fossem mortos, quando estava ao seu alcance impedir isso (Provérbios 24:11, 12). Sabia que, ao abraçarem a fé e o culto do Deus de Israel, passaram a confiar à sombra de suas asas (Rute 2:12); portanto, como seus servos, tinha o dever de protegê-los.
- Deus o anima para a expedição (v. 8), dizendo-lhe que não tenha medo, isto é: (1.) “Não duvide da justiça da sua causa nem da clareza do seu chamado. Embora vá socorrer os gibeonitas, você está no caminho do dever e Deus está verdadeiramente com você”; (2.) “Não tema o poder do inimigo.”
“Embora tantos reis tenham se aliado contra você e estejam decididos a fazer o máximo para tomar Gibeão, talvez lutando desesperadamente por uma causa desesperada, ainda assim não desanime: eu os entreguei em sua mão.” Aqueles que Deus marcou para a destruição não conseguem resistir nem escapar.
II. Josué se põe a executar essa decisão, e Deus o ajuda. Temos aqui:
- O grande empenho de Josué e o poder de Deus agindo com ele para derrotar o inimigo:
(1.) Nesta ação, Josué demonstrou sua boa vontade com a pressa em socorrer Gibeão (v. 9): ele chegou até eles de repente, pois a situação era tão urgente que não admitia demora.
Se uma tribo de Israel corresse perigo, ele não poderia demonstrar maior cuidado nem zelo para socorrê-la do que demonstrou por Gibeão. Lembrava-se de que deve haver uma só lei para o estrangeiro convertido e para o nascido na terra.
Mal os reis aliados haviam reunido as tropas e acampado diante de Gibeão, Josué já estava sobre eles; a surpresa os deixou na maior confusão. Agora que o inimigo já estava reunido numa só força — como se todos tivessem um só pescoço —, a rapidez servia à causa dele tanto quanto antes a demora, enquanto esperava essa reunião geral.
Agora que tudo estava pronto para a ação, ninguém foi mais rápido do que Josué, que antes parecera lento. Nunca se poderá dizer dele: “Deixou para amanhã o que podia fazer hoje”.
Ao perceber que não conseguiria chegar a Gibeão num só dia, Josué marchou a noite inteira, decidido a não dar sono aos olhos nem cochilo às pálpebras até terminar a missão. Não queria perder nenhuma vantagem real contra o inimigo, nem sequer parecer que falhara ou negligenciara seus novos aliados.
Felizmente, seus soldados eram homens valentes, fortes no corpo e no espírito, determinados e comprometidos com a causa; do contrário, não teriam capacidade nem vontade de suportar a fadiga. Teriam murmurado ao comandante: “É esse o descanso prometido em Canaã?” Mas entenderam que o esforço presente visava a um estabelecimento feliz e aceitaram-no.
Que os bons soldados de Jesus Cristo aprendam com isso a suportar as dificuldades, seguindo o Cordeiro aonde quer que vá, e não se considerem arruinados se a religião às vezes lhes custa uma noite de sono. Haverá tempo suficiente para descansar quando chegarmos ao céu.
Mas por que Josué e seus homens precisavam esforçar-se tanto? Deus não lhe prometera que entregaria sem falta os inimigos em suas mãos? Sim; porém, as promessas de Deus não servem para diminuir nem substituir nossos esforços, mas para impulsioná-los e animá-los. Quem crê não se apressa a se antecipar à Providência, mas se apressa, com diligência e sem desconfiança, a acompanhá-la.
(2.) Deus mostrou seu grande poder ao derrotar os inimigos que Josué atacava com tanto vigor (v. 10, 11). Josué tinha consigo um exército numeroso e poderoso, suficiente para dispersar um inimigo desalentado segundo o curso comum da guerra.
Mas Deus mesmo se manifestaria naquela batalha grandiosa e decisiva e voltaria contra os cananeus a artilharia do céu, para mostrar ao povo que não conquistou a terra com a própria espada nem foi salvo pelo próprio braço; foi pela mão direita e pelo braço de Deus (Salmos 44:3). “O Senhor os desbaratou diante de Israel”. Israel fez o que podia, mas Deus fez tudo.
[1.] Perceber que o próprio céu lutava contra eles deve ter enchido os inimigos de terror e confusão. Quem pode enfrentar, fugir ou se defender dos poderes celestiais? Eles afrontaram o Deus verdadeiro e lhe roubaram a honra, adorando o exército dos céus e dando à criatura o culto devido apenas ao Criador.
Agora o exército dos céus luta contra eles; até aquela parte da criação que idolatravam guerreia contra eles e triunfa em sua ruína (Jeremias 8:2).
Não há como tornar qualquer criatura favorável a nós, nem mesmo com sacrifício ou oferta. Só fazendo paz com Deus e permanecendo em seu amor isso é possível. Já bastaria para tornar os cananeus presa fácil dos israelitas vitoriosos, mas não foi só isso.
[2.] Além do terror que sentiram, grande número deles foi morto pelas pedras de granizo, tão grandes e impetuosas que o granizo matou mais homens do que a espada dos israelitas, embora sem dúvida estivessem lutando. Deus fala a Jó de tesouros, ou depósitos, de neve e granizo que reservou para o dia da batalha e da guerra (Jó 38:22, 23); agora foram usados para destruir os cananeus.
O granizo foi disparado pela grande artilharia de Deus: atingia com certeza quem quer que fosse o alvo — nunca os israelitas misturados a eles — e, onde atingia, matava com certeza. Veja como são miseráveis os que têm Deus por inimigo e como certamente perecerão. É terrível cair em suas mãos, pois não há como escapar delas.
Alguns observam que Bete-Horom ficava ao norte de Gibeão, e Azeca e Maquedá ao sul. Assim, fugiram em direções diferentes; mas, para onde quer que fossem, as pedras de granizo os perseguiam e os alcançavam a cada passo.
- A grande fé de Josué, e o poder de Deus coroando-a com a parada milagrosa do sol, para prolongar o dia das vitórias de Israel e derrotar completamente o inimigo.
As pedras de granizo não vinham de lugar mais alto que as nuvens; para mostrar que a ajuda de Israel vinha de cima delas, o próprio sol — que, com seu movimento constante, serve a toda a terra — parou quando necessário, serviu aos israelitas e lhes prestou um favor. “O sol e a lua pararam em sua morada, à luz das tuas flechas”, que deram o sinal (Habacuque 3:11).
(1.) Temos a oração de Josué para que o sol parasse. Chamo-a de oração porque se diz que ele falou com o Senhor (v. 12), assim como Elias, embora apenas leiamos que profetizou a seca (1 Reis 17:1), é descrito como tendo orado por ela (Tiago 5:17). Observe:
[1.] Josué não se cansou de servir a Deus e a Israel. Marchara a noite inteira e lutara o dia todo; poderíamos esperar que quisesse repousar, dormir um pouco e dar algum descanso ao exército. Como trabalhador contratado, poderia ansiar pela sombra e dar boas-vindas à noite depois de um dia tão duro. Em vez disso, nada desejou mais do que o prolongamento do dia.
Os que esperam no Senhor e trabalham para ele renovam as forças: correm sem se cansar, caminham sem desfalecer (Isaías 40:31).
[2.] A oração mostra sua grande fé no poder todo-poderoso de Deus, acima da natureza e capaz de controlar e alterar seu curso habitual. Sem dúvida, Josué recebeu uma impressão ou impulso extraordinário no espírito, que reconheceu como divino e que o levou a pedir esse milagre naquela ocasião. Do contrário, teria sido presunção pedir ou esperar tal coisa.
A oração não teria sido atendida pelo poder divino se a graça divina não o tivesse inspirado. Deus produziu nele essa fé e depois lhe disse: “Seja-lhe feito conforme sua fé e sua oração de fé”.
Não se pode imaginar que esse pedido lhe tivesse ocorrido se Deus não o tivesse inspirado. Mil outros planos para concluir a vitória lhe passariam pela cabeça antes que pensasse em pedir que o sol parasse; mas até nos santos do Antigo Testamento o Espírito intercedia de acordo com a vontade de Deus.
Deus inclina o coração de seu povo que ora a pedir o que dará e quer ser consultado sobre aquilo que fará (Ezequiel 36:37).
Primeiro, foi grandioso Josué dizer: “Sol, pare!”. Seu antepassado José sonhara que o sol e a lua se inclinavam diante dele; quem imaginaria que, depois de se cumprir em figura, isso voltaria a cumprir-se literalmente num descendente seu?
A oração foi expressa com autoridade porque não era uma oração comum, guiada e sustentada apenas pela Providência ou pela promessa de Deus; era a oração de um profeta que, naquele momento, fora divinamente inspirado para esse propósito.
Ainda assim, mostra a eficácia da oração em geral quando regulada pela Palavra de Deus e nos faz lembrar a honra que Deus lhe concedeu: “Quanto à obra das minhas mãos, ordenem-me” (Isaías 45:11).
Josué manda o sol parar sobre Gibeão, o lugar da ação e centro da batalha, mostrando que seu pedido visava dar vantagem a Israel contra os inimigos. É provável que o sol estivesse declinando; ele só pediu o prolongamento do dia quando o viu aproximar-se do ocaso.
Em nome do Rei dos reis, também detém a lua, talvez porque a harmonia e a boa ordem das esferas exigissem que os demais astros também parassem. Enquanto o sol brilhasse, Josué não precisava da lua; mas menciona o vale de Aijalom, perto de Gibeão, porque estava ali naquele momento.
Segundo, foi realmente ousado dizer isso diante de Israel, e demonstra uma confiança muito forte na fé. Se o pedido não fosse atendido, nada o teria exposto mais ao ridículo; os israelitas concluiriam que enlouquecera para falar tão extravagantemente.
Mas ele sabia que Deus reconheceria e atenderia uma súplica que o próprio Deus o instruíra a formular e apresentar. Por isso não teve medo de dizer diante de todo Israel, chamando-os para observar aquele feito maravilhoso: “Sol, pare!”. Confiava naquele em quem depositara sua confiança.
Cria no poder todo-poderoso de Deus; do contrário, não poderia esperar que o sol, avançando com toda a força, percorrendo sua carreira e alegrando-se como um atleta forte numa corrida, parasse num instante.
Cria também na soberania de Deus sobre o reino da natureza; do contrário, não poderia esperar que a lei e o curso estabelecidos da natureza fossem mudados e interrompidos, nem que se rompesse a observância constante das ordenanças dos céus.
Cria ainda no favor especial de Deus por Israel acima de todos os povos sob o sol; do contrário, não poderia esperar que Deus, para favorecê-lo numa emergência com um dia dobrado, causasse necessariamente uma noite dobrada e assombrasse e aterrorizasse ao mesmo tempo grande parte do globo terrestre.
É verdade que Deus faz o sol brilhar sobre justos e injustos; mas, dessa vez, os injustos esperariam por ele além da hora habitual, enquanto, por favor ao justo Israel, o sol ficaria parado.
(2.) A resposta maravilhosa a essa oração. Mal Josué falou, o pedido foi atendido (v. 13): “O sol parou, e a lua se deteve”. Apesar da imensa distância entre a terra e o sol, à palavra de Josué o sol parou imediatamente. O mesmo Deus que governa nos céus governa também a terra; quando quer, até os céus ouvem a terra, como aconteceu aqui.
[1.] Diz-se que o milagre durou um dia inteiro: o sol permaneceu acima do horizonte pelo dobro do tempo habitual. Em geral se supõe que aconteceu perto do meio do verão, quando naquela região há cerca de catorze horas entre o nascer e o pôr do sol; assim, o dia teria durado cerca de vinte e oito horas.
Porém, se supusermos que ocorreu na época mais curta do ano, será mais provável que Josué pedisse o prolongamento do dia.
[2.] Isso deu ao povo tempo suficiente para vingar-se dos inimigos e derrotá-los por completo. Muitas vezes, a noite encerra uma batalha e suas sombras favorecem a fuga dos vencidos; para impedir isso, o dia dobrou-se e a mão de Israel encontrou todos os inimigos. Contudo, o olho e a mão de Deus os encontram sem a luz do sol, pois para ele a noite brilha como o dia (Salmos 139:12). Repare:
Às vezes, Deus completa uma grande salvação em pouco tempo e faz dela o trabalho de um só dia. Talvez esse milagre seja mencionado em Zacarias 14:6, 7, onde o dia em que Deus luta contra as nações é chamado de um só dia, e se diz que ao entardecer haverá luz, como aqui.
[3.] E nunca houve dia igual, antes ou depois, em que Deus honrasse tanto a fé, a oração e a causa de Israel. Nunca atendeu de modo tão maravilhoso à súplica de um homem nem lutou tão maravilhosamente por seu povo.
[4.] Diz-se que isso foi escrito no Livro de Jasar, uma coletânea de poemas oficiais que preservou o poema composto nessa ocasião. Provavelmente é o mesmo que o Livro das Guerras do Senhor (Números 21:14), mais tarde continuado e levado adiante por certo Jasar.
Supõe-se que as palavras “Sol, pare sobre Gibeão, e tu, lua, no vale de Aijalom”, por soarem métricas, tenham sido tiradas do relato desse acontecimento no Livro de Jasar.
O testemunho divino do livro de Josué não precisava da confirmação do Livro de Jasar, uma obra humana; mas, para os que tinham esse livro em mãos, seria útil comparar os relatos. Isso justifica os apelos dos estudiosos à história secular para corroborar as provas da verdade da história sagrada.
[5.] Mas certamente o estupendo milagre de o sol parar tinha outro propósito além de apenas dar a Israel mais tempo para encontrar e matar os inimigos, o que poderia ter feito no dia seguinte. Primeiro, Deus queria engrandecer Josué (Josué 3:7), seu favorito especial, a quem se agradava de honrar, tipo daquele que tem todo o poder no céu e na terra e a quem os ventos e os mares obedecem.
Segundo, queria mostrar ao mundo todo o que fazia pelo seu povo Israel em Canaã. O sol, olho do mundo, teria de permanecer fixo por algumas horas sobre Gibeão e o vale de Aijalom, como se contemplasse as grandes obras de Deus ali por Israel e levasse a humanidade a olhar naquela direção e a perguntar que milagre acontecera naquela terra (2 Crônicas 32:31).
Assim, proclamou-o a todas as nações vizinhas: “Venham, contemplem as obras do Senhor” (Salmos 46:8), e digam: Que nação é tão grande quanto Israel, que tem Deus tão perto de si? Poderíamos supor que isso levaria verdadeiros embaixadores, como os gibeonitas fingiram ser, vindos de terras distantes, a buscar a amizade de Israel por causa do nome do Senhor, seu Deus.
Terceiro, Deus queria convencer e confundir os idólatras que adoravam o sol e a lua e lhes prestavam honras divinas, mostrando que estavam sujeitos às ordens do Deus de Israel e que, por mais elevados que fossem, ele estava acima deles.
Assim, fortaleceria seu povo contra a tentação dessa idolatria, à qual sabia que se inclinariam (Deuteronômio 4:19) e na qual mais tarde se corromperam, apesar disso.
Quarto, segundo a interpretação do erudito bispo Pierson, esse milagre indicava que, nos últimos dias, quando a luz do mundo tendesse a se tornar uma luz de trevas, o Sol da Justiça, nosso Josué, se levantaria (Malaquias 4:2), deteria a noite que se aproximava e seria a verdadeira luz.
Acrescento que, quando Cristo venceu nossos inimigos espirituais na cruz, ocorreu no sol o oposto desse milagre: ele escureceu, como se tivesse se posto ao meio-dia. Cristo não precisava da luz do sol para realizar suas vitórias; então fez das trevas o seu pavilhão.
Por fim, a parada do sol e da lua nesse dia de batalha prefigurou a transformação do sol em trevas e da lua em sangue no último grande e terrível dia do Senhor.
Versículos 15 a 27
Os Cinco Reis Mortos. (a.C. 1450.)
Sem dúvida, os cinco reis fizeram uma apresentação imponente ao marchar contra Gibeão, e traziam consigo um exército valente. Mas todos foram derrotados: primeiro desorganizados, depois destruídos pelas pedras de granizo. Josué pensou que, terminada a tarefa, poderia levar o exército a alojamentos para se revigorar.
Talvez num conselho de guerra, decidiram voltar imediatamente ao acampamento de Gilgal (v. 15), até receberem de Deus ordens para tomar posse da região que haviam conquistado. Mas Josué logo descobriu que ainda tinha muito trabalho. Era preciso completar a vitória para repartir os despojos. Por isso, voltou à tarefa com novo vigor.
I. Era preciso perseguir e abater as forças que haviam se dispersado. Quando informaram a Josué onde estavam os reis, ele mandou colocar uma guarda ao redor deles por enquanto (v. 18), reservando-os para outro dia de destruição, quando seriam apresentados num dia de ira (Jó 21:30).
Ordenou que seus homens perseguissem os soldados comuns, tanto quanto possível, para impedi-los de fugir às cidades fortificadas, que eles reforçariam e cuja conquista se tornaria mais difícil (v. 19).
Como general prudente, fez primeiro o mais necessário e adiou o triunfo até concluir a conquista. Não tinha tanta pressa de insultar os reis cativos a ponto de deixar de impedir que as tropas dispersas se reunissem novamente. O resultado dessa perseguição vigorosa foi:
Que houve uma grande matança dos inimigos de Deus e de Israel. 2. E que o campo ficou livre deles; só restaram os que se refugiaram em cidades fortificadas, onde não ficariam seguros por muito tempo nem poderiam servir de ajuda às cidades que os abrigavam, a menos que conseguissem deixar para trás o próprio medo.
“Ninguém moveu a língua contra nenhum dos filhos de Israel” (v. 21). Essa expressão indica: (1.) perfeita segurança e tranquilidade. Alguns pensam que se deve ler, conforme Êxodo 11:7: “Contra nenhum dos filhos de Israel nem mesmo um cão moveu a língua”; isto é, nem contra um só homem.
Depois da vitória, não havia ameaça alguma de perigo, nem sequer o latido de um cão. Nenhum israelita em particular — pois o original é muito específico — passou por aflição na batalha nem na perseguição.
(2.) Honra e reputação: ninguém tinha descrédito a lançar sobre Israel nem palavra ofensiva a lhe dirigir. Deus não só conteve as mãos dos inimigos enfurecidos, como também lhes calou a boca e silenciou os lábios mentirosos.
(3.) A paráfrase caldaica entende que a frase expressa a alegria pura pela vitória, e a lê assim: “Nenhum dano nem perda houve entre os filhos de Israel para que alguém se afligisse”. Quando se passou o exército em revista depois da batalha, ninguém havia sido morto, ferido ou desaparecido.
Nenhum israelita precisou lamentar a perda de um amigo ou de um membro do corpo; a vitória custou tão pouco e foi tão fácil e gloriosa.
II. Os reis que se esconderam tiveram de prestar contas como rebeldes contra o Israel de Deus, a quem, pela promessa e concessão divina, a terra pertencia por direito e deveria ter sido entregue quando exigida. Veja:
- Como foram detidos. A caverna para onde fugiram e em que confiaram como refúgio tornou-se sua prisão, onde ficaram até Josué julgá-los (v. 18). Parece que escaparam tanto das pedras de granizo quanto da espada, não porque Deus quisesse favorecê-los, mas porque os reservava para uma execução mais solene e terrível.
Assim o faraó sobreviveu às pragas do Egito e permaneceu vivo para que Deus mostrasse nele o seu poder (Êxodo 9:16).
Todos fugiram e se encontraram no mesmo lugar, por direção da Providência. Os que pouco antes deliberavam contra Israel agora precisavam decidir como se salvar e concordaram em buscar abrigo na mesma caverna. A notícia que chegou a Josué prova que havia moradores da região, conhecedores das cavernas e dos refúgios naturais, que apoiavam seus interesses.
Josué cuidou para mantê-los ali depois que entraram. Isso demonstra sua estratégia e presença de espírito mesmo no calor da ação; e o resultado do plano mostra que os que pensam esconder-se de Deus não só se enganam, como se destroem. Seu refúgio de mentiras apenas os deixa à disposição do juízo de Deus.
- Como triunfaram sobre eles. Josué ordenou que os tirassem da caverna e os colocassem diante dele, como perante um tribunal, e mandou chamar seus nomes (v. 22, 23). Talvez estivessem amarrados e prostrados, sem poder reagir, ou talvez se lançassem ao chão para suplicar pela vida.
Josué chamou os generais e os homens importantes e ordenou que pisassem sobre aqueles reis e pusessem os pés em seu pescoço.
Não deveriam fazê-lo por diversão, para alegrar a si mesmos e aos companheiros, mas com a gravidade e a dignidade próprias dos ministros da justiça divina. Não deviam satisfazer o próprio orgulho ou paixão, mas dar glória ao Deus de Israel, mais alto que os mais altos, que pisa os príncipes como argamassa (Isaías 41:25) e é “terrível para os reis da terra” (Salmos 76:12).
O gesto parece bárbaro: insultar homens em desgraça que, de repente, caíram do mais alto posto de honra para tamanha humilhação. Era duro para cabeças coroadas serem pisadas, não por Josué pessoalmente — o que talvez suportassem melhor —, ou pelo menos não só por ele, mas por todos os capitães do exército.
Certamente, isso não deve servir de precedente: o caso era extraordinário, e temos motivo para crer que Josué agiu por direção e impulso divinos.
(1.) Deus queria punir a maldade abominável desses reis, cuja medida de iniquidade estava completa. Ao executar publicamente a justiça sobre esses líderes dos pecados dos cananeus, queria encher seu povo de maior temor e repulsa pelos pecados das nações que expulsava de diante deles, pecados que seriam tentados a imitar.
(2.) Queria cumprir a promessa feita por Moisés (Deuteronômio 33:29): “Tu pisarás os seus lugares altos”, isto é, seus grandes homens. Era apropriado que se cumprisse logo ao pé da letra, pois são as últimas palavras de Moisés que temos registradas.
(3.) Queria animar a fé e a esperança de Israel quanto às guerras que ainda enfrentaria. Por isso Josué disse (v. 25): “Não temam nem desanimem”. [1.] “Não temam esses reis nem os seus, como se pudessem vingar mais tarde a afronta que agora lhes fazem.”
“Muitos deixam de ser insolentes com aqueles que têm à sua mercê porque não sabem quando a sorte incerta da guerra poderá virar o jogo contra eles; mas não é preciso temer que alguém venha a vingar esta afronta.” [2.] “Não temam outros reis que venham a se aliar contra vocês, pois veem derrotados estes que lhes pareciam temíveis.”
“Assim o Senhor fará a todos os seus inimigos. Agora que começam a cair, e a cair tão baixo que vocês podem pôr os pés sobre o pescoço deles, tenham certeza de que não prevalecerão e cairão diante de vocês” (Ester 6:13).
(4.) Deus queria dar nisso um tipo e figura das vitórias de Cristo sobre os poderes das trevas e das vitórias dos fiéis por meio dele. Todos os inimigos do Redentor serão postos por escabelo de seus pés (Salmos 110:1; veja também Salmos 18:40).
Os reis da terra se levantaram contra ele (Salmos 2:2), mas, mais cedo ou mais tarde, veremos todas as coisas sujeitas a ele (Hebreus 2:8), e os principados e poderes exibidos publicamente (Colossenses 2:15).
Nessas vitórias, somos mais que vencedores; podemos pisar o leão e a serpente (Salmos 91:13), cavalgar pelos lugares altos da terra (Isaías 58:14) e ter certeza de que o Deus da paz pisará Satanás debaixo dos nossos pés, em breve e eficazmente (Romanos 16:20). Veja também Salmos 149:8, 9.
- Como foram mortos. Talvez, depois de sofrerem a terrível humilhação de serem pisados pelos capitães de Israel, estivessem prontos a dizer, como Agague: “Certamente passou a amargura da morte”; talvez achassem que a punição aplicada por tantos já bastasse. Mas sua honra não podia salvar-lhes a vida, já perdida e destinada à destruição.
Josué os feriu com a espada e depois pendurou seus corpos até o anoitecer. Então os retiraram e os lançaram na caverna em que haviam se escondido (v. 26, 27).
O que julgavam ser seu abrigo tornou-se primeiro prisão e depois sepultura. Assim ficaremos frustrados com aquilo a que fugimos para nos esconder de Deus. Ainda assim, para os bons, a sepultura continua sendo esconderijo (Jó 14:13). Se esses cinco reis tivessem se humilhado a tempo e pedido paz em vez de guerrearem, poderiam ter salvado a vida.
Agora o decreto já fora proclamado, e não havia espaço para arrependimento nem para reverter a sentença. Era tarde demais para esperar isso, ainda que talvez o buscassem diligentemente com lágrimas.
Versículos 28 a 43
Sete Reis Derrotados e Mortos. (a.C. 1450.)
Somos informados de como Josué aproveitou a gloriosa vitória que acabara de obter e as vantagens conquistadas; fazê-lo bem é motivo de louvor para um general.
I. Temos um relato específico de várias cidades de que ele logo tomou posse. 1. Tomou as cidades de três reis que havia derrotado em campo: Laquis (v. 31, 32), Eglom (v. 34, 35) e Hebrom (v. 36, 37). As outras duas, Jerusalém e Jarmute, não foram tomadas naquele momento.
Talvez suas tropas estivessem tão cansadas com o que haviam feito, ou tão satisfeitas com o que já haviam conquistado, que não quiseram atacar aquelas cidades. Assim perderam a melhor oportunidade que poderiam esperar de conquistá-las com facilidade. Mais tarde, isso só foi feito com dificuldade (Juízes 1:8; 2 Samuel 5:6).
Josué conquistou outras três cidades, também reais: Maquedá, perto de onde os cinco reis haviam se refugiado. A perseguição deles levou Josué e suas tropas para lá e acelerou a ruína da cidade (v. 28); Libna (v. 29, 30); e Debir (v. 38, 39).
Um rei que levou tropas para socorrer Laquis, que perdera o seu, intrometeu-se para o próprio prejuízo. Era Horão, rei de Gezer; por amizade aos vizinhos ou para sua própria segurança, tentou deter o avanço das tropas de Josué, mas foi morto com todo o seu exército (v. 33).
Assim, os ímpios muitas vezes ficam enredados nos próprios planos e, ao se oporem a Deus no curso de seus juízos, atraem-nos mais depressa sobre a própria cabeça.
II. Temos um relato geral da região conquistada e entregue às mãos de Israel (vv. 40-42): a parte da terra de Canaã que conquistaram primeiro, ao sul de Jerusalém, e que mais tarde coube em sua maior parte à tribo de Judá. Observe neste relato:
- A rapidez com que Josué tomou essas cidades, indicada, segundo alguns, pelo modo breve e direto como o relato é feito. Foi de um lugar a outro como um relâmpago. Embora todas resistissem até o fim e nenhuma abrisse os portões, em pouco tempo Josué as conquistou. Intimou-as à rendição e tomou-as no mesmo dia (v. 28) ou em dois dias (v. 32).
Como os inimigos estavam apavorados com a derrota de seus exércitos e a morte de seus reis, Josué aproveitou com prudência a vantagem. Veja quanto trabalho pode ser feito em pouco tempo se formos diligentes e aproveitarmos as oportunidades.
- A grande severidade de Josué com os que conquistou. Não deu quartel a homem, mulher nem criança; matou à espada todas as almas (v. 28, 30, 32, 35 etc.), destruiu por completo tudo o que respirava (v. 40) e não deixou sobreviventes. Nada poderia justificar essa execução militar a não ser que fizeram assim por ordem do Senhor, Deus de Israel (v. 40).
Isso bastava não só para isentá-los da acusação de crueldade, mas também para santificar o que fizeram e torná-lo serviço aceitável à justiça divina. Deus quis, com isso:
(1.) Manifestar seu ódio às idolatrias e às outras abominações dos cananeus, deixando-nos avaliar a gravidade da afronta pela grande destruição que lhes sobreveio quando a medida de sua iniquidade se completou.
(2.) Engrandecer seu amor ao povo de Israel, dando tantos homens em lugar deles e povos pela vida deles (Isaías 43:4).
Quando os povos pagãos são expulsos para abrir espaço a essa videira (Salmos 80:8), a justiça divina parece mais pródiga do que nunca com sangue humano, para que os israelitas se reconheçam para sempre obrigados a dedicar a vida à glória do Deus que sacrificou tantas vidas de suas criaturas em favor deles.
(3.) Prefigurar a destruição final e eterna de todos os inimigos impenitentes e implacáveis do Senhor Jesus. Como desprezaram as riquezas de sua graça, sentirão para sempre o peso de sua ira e serão julgados sem misericórdia. As nações que se esquecem de Deus serão lançadas no inferno; isso não lança descrédito algum sobre a bondade infinita de Deus.
- O grande sucesso da expedição. Os despojos dessas cidades foram repartidos entre os homens de guerra que as saquearam; em breve, as cidades e as terras ao redor seriam divididas entre as tribos, pois o Senhor lutou por Israel (v. 42). Eles não teriam conseguido a vitória se Deus não tivesse assumido a batalha. Vencemos quando Deus luta por nós; se ele é por nós, quem pode estar contra nós?