Matthew Henry

Jonas 3

Argumento

Neste capítulo temos:

I. A missão de Jonas renovada e a ordem dada a ele pela segunda vez para ir pregar em Nínive (v. 1, 2).

II. A mensagem de Jonas a Nínive fielmente proferida, pela qual se ameaçava sua rápida derrubada (v. 3, 4).

III. O arrependimento, a humilhação e a reforma dos ninivitas em consequência disso (vv. 5-9).

IV. A revogação graciosa, por Deus, da sentença proferida contra eles e a prevenção da ruína ameaçada (v. 10).

Versículos 1 a 4

A Missão de Jonas Renovada; A Missão do Profeta a Nínive. (a.C. 840.)

Temos aqui mais uma evidência da reconciliação entre Deus e Jonas, e de que foi uma reconciliação completa, embora a controvérsia entre eles tivesse sido intensa.

I. A comissão de Jonas é renovada e prontamente obedecida:

  1. Por isto parece que Deus estava perfeitamente reconciliado com Jonas: ele o empregou de novo em seu serviço. A comissão novamente dada a Jonas era uma evidência da remissão de sua desobediência anterior.

Entre os homens, tem-se sustentado com justiça que dar uma comissão a um criminoso declarado culpado equivale a um perdão; assim foi para Jonas. “A palavra do Senhor veio a Jonas pela segunda vez” (v. 1):

  1. Jonas precisa ser provado, para saber se de fato se arrepende de sua desobediência anterior ou não, e se recebeu o benefício que se tinha em vista para ele tanto por seu castigo extraordinário quanto por seu livramento extraordinário.

Ele havia abandonado seu trabalho e dever, e por isso estivera preso, tendo recebido dentro de si uma sentença de morte. Mas, ao se submeter, Deus o soltara, lhe dera sua vida, lhe dera sua liberdade.

Mas é sob condição de bom comportamento que ele é solto, e precisa ser novamente posto à prova para saber se seguirá a vontade de Deus ou sua própria vontade. Depois de ter sido lançado ao mar e de ter sido lançado para fora dele de novo, Deus vem e lhe pergunta: “Jonas, irás a Nínive agora?”

Pois, quando Deus julga, ele vencerá, conseguirá seu intento; por fim, fará o filho desobediente e obstinado chegar aos seus pés. Repare: quando Deus nos aflige e nos livra da aflição, devemos ouvir sua voz, dizendo-nos que voltemos agora aos deveres que antes negligenciávamos e aos quais essas providências nos chamam.

Deus agora dizia, na prática, a Jonas, como Cristo disse ao homem incapacitado, depois de curá-lo, que fosse e não pecasse mais, para que não lhe acontecesse coisa pior (João 5:14), coisa pior do que ficar três dias e três noites no ventre da baleia.

Deus olha para os homens, depois de afligi-los e de livrá-los de sua aflição, para ver se corrigirão, em particular, a falta pela qual foram corrigidos.

Por isso, nesse ponto, precisamos cuidar de não receber a graça de Deus em vão, nem na correção nem no livramento, pois ambos têm o desígnio de ser meios de graça.

(2.) Jonas receberá confiança, como sinal do favor de Deus para com ele. Deus poderia ter dito com justiça a respeito de Jonas o que nós diríamos a respeito de alguém que nos tivesse aplicado um embuste e tratado traiçoeiramente.

Embora não procedêssemos contra ele com todo o rigor da lei, nem o arruinássemos, ainda assim nunca mais depositaríamos confiança nele. Com justiça, o Espírito de profecia, ao qual Jonas resistira e contra o qual se rebelara, poderia afastar-se dele, com a resolução de nunca mais voltar.

Seria de esperar que, embora sua vida fosse poupada, ainda assim ele ficasse impedido e incapacitado de jamais servir novamente ao governo na condição de profeta.

Mas vejam! A palavra do Senhor vem a ele de novo, para mostrar que, quando Deus perdoa, ele esquece, e àqueles a quem perdoa dá um novo coração e um novo espírito. Ele recebe de novo em sua família e restaura à condição anterior aqueles que haviam sido filhos pródigos e servos desobedientes.

Repare: o fato de Deus nos usar é a melhor evidência de que está em paz conosco. Por isto ficará evidente que nossos pecados são perdoados e que temos a boa vontade de Deus para conosco: sua boa palavra vem a nós, e experimentamos sua boa obra em nós?

Se assim for, temos motivo para admirar as riquezas da graça gratuita e reconhecer nossas obrigações para com o Senhor Jesus, que recebeu dons para os homens, sim, e ainda para os rebeldes, para que o Senhor Deus habitasse até entre eles e os empregasse em sua palavra (Salmos 68:18).

  1. Por isto parece que Jonas estava bem reconciliado com Deus: agora não era, como antes, desobediente à visão celestial, nem fugia da presença do Senhor, como fizera. Nem procurou evitar ouvir a ordem, nem se recusou a obedecer a ela.

Não levantou objeções, como fizera: a viagem era longa, a incumbência odiosa, sua execução perigosa e, se o juízo ameaçado não viesse, ele seria desacreditado como falso profeta e a impenitência de sua própria nação seria repreendida. Essas eram suas objeções em Jonas 4:2.

Mas agora, sem murmurações e discussões, “Jonas se levantou e foi a Nínive, segundo a palavra do Senhor” (v. 3). Veja aqui:

(1.) A natureza do arrependimento: é a mudança de nossa mente e de nosso caminho, e o retorno ao nosso trabalho e dever, dos quais nos havíamos desviado; é fazer o bem que havíamos deixado de fazer.

(2.) O benefício da aflição: ela reconduz ao seu lugar aqueles que o haviam abandonado. Jonas poderia dizer com verdade, junto com Davi: “Antes de ser afligido, eu me desviava, mas agora tenho guardado a tua palavra”.

Por isso, embora a aflição fosse terrível, embora fosse dolorosa para ele e, no momento, não fosse motivo de alegria, mas de dor, ainda assim lhe fora bom, muito bom, ter sido afligido.

(3.) Veja o poder da graça divina atuando com a aflição, pois, de outro modo, a aflição, por si só, antes afastaria os homens de Deus do que os levaria a ele.

Mas Deus, por sua graça, pode converter os desobedientes à sabedoria dos justos e tornar dispostos, no dia do seu poder, livremente dispostos a se submeter ao seu jugo, aqueles cujo pescoço havia sido como um tendão de ferro.

(4.) Veja o dever de todos aqueles a quem vem a palavra do Senhor: devem conformar-se a ela em todos os pontos e prestar obediência alegre e fiel às ordens que Deus lhes dá. Jonas se levantou e não ficou sentado na preguiça ou no mau humor.

Ele foi diretamente a Nínive, embora ficasse muito longe e fosse um lugar onde, provavelmente, nunca estivera; ainda assim, fez sua viagem para lá, segundo a palavra do Senhor.

Os servos de Deus devem ir aonde ele os envia, vir quando ele os chama e fazer o que ele lhes ordena; tudo o que parece ser a palavra do Senhor devemos conscienciosamente cumprir de acordo com ela.

II. Vejamos agora qual foi a ordem ou comissão dada a ele e o que fez para executá-la:

  1. Ele foi enviado como um arauto de armas, em nome do Deus do céu, para proclamar guerra contra Nínive (v. 2): “Levanta-te, vai a Nínive, aquela grande cidade”, aquela metrópole, “e prega a ela”; prega contra ela, segundo o caldeu.

O que é contra nós nos é pregado para que o ouçamos e recebamos o aviso; e o que nos é pregado, se não lhe dermos ouvidos nem o misturarmos com fé, acabará sendo contra nós.

Jonas é enviado a Nínive, que nessa época era a principal cidade do mundo gentio, como indicação das intenções graciosas de Deus de, no decorrer do tempo, fazer a luz da revelação divina brilhar naquelas regiões escuras.

Deus sabia que, se Sodoma e Gomorra, Tiro e Sidom tivessem tido os meios de graça, teriam se arrependido, e, contudo, negou-lhes esses meios (Mateus 11:21, 23). Sabia que, se Nínive agora tivesse os meios de graça, seus habitantes se arrependeriam, e lhes deu esses meios, enviando Jonas.

Embora não o enviasse para lhes pregar expressamente o arrependimento, pois não encontramos isso em sua comissão, ainda assim o enviou para, pela pregação, levá-los ao arrependimento, pois esse foi o feliz efeito do que tinha em sua comissão.

Se Deus, ao distribuir seus favores, dando os meios de graça a alguns lugares e não a outros, e o espírito de graça a algumas pessoas e não a outras, age por prerrogativa e de modo soberano, quem pode lhe dizer: “Que fazes?” Não pode ele fazer o que quer com o que é seu? Ele não é devedor a nenhum homem.

“Vai e prega”, diz Deus, “a pregação que eu te ordeno”. Isto é:

(1.) “A pregação que te ordenei quando primeiro te mandei ir para lá (Jonas 1:2); vai e clama contra ela; denuncia os juízos divinos contra ela; diz aos homens de Nínive que sua maldade subiu até Deus e que a vingança de Deus está descendo sobre eles”.

Essa era a mensagem que Jonas então relutava muito em proferir, e por isso escapou e foi a Társis. Mas, quando ele é reconduzido a isso pela segunda vez, Deus em nada altera a mensagem para satisfazê-lo ou torná-la mais aceitável para ele.

Não: agora ele precisa pregar exatamente o mesmo que então recebera ordem de pregar e não quis. Repare: a palavra de Deus é algo inalterável e não se dobrará aos caprichos nem de seus pregadores nem de seus ouvintes.

Ela nunca se acomodará aos caprichos e fantasias deles, mas eles precisam se acomodar às verdades e leis dela. Veja Jeremias 15:19: “Voltem eles a ti, mas não voltes tu a eles”. Ou:

(2.) “A pregação que te ordenarei quando chegares lá”. Isso era um ânimo para ele em seu empreendimento: Deus iria com ele, o Espírito de profecia permaneceria sobre ele e estaria pronto, quando estivesse em Nínive, para lhe dar todas as instruções ulteriores de que precisasse.

Isso indicava que ele ouviria de Deus novamente, o que seria seu grande apoio nessa expedição arriscada. Assim, quando Deus enviou Abraão para oferecer Isaque, deu-lhe indicação semelhante, dizendo-lhe que precisava fazê-lo em um dos montes que depois lhe indicaria.

Os passos de um homem bom são ordenados pelo Senhor; ele conduz seu povo passo a passo, e por isso espera que o sigam. Jonas precisa ir com uma fé implícita.

Embora saiba para onde vai, só saberá ao chegar lá que mensagem precisa proferir; mas, qualquer que seja ela, precisa proferi-la, quer seja agradável, quer desagradável.

Assim Deus nos manterá em dependência contínua dele mesmo e das orientações de sua palavra e providência. O que ele faz e o que quer que façamos, não sabemos agora, mas saberemos depois.

Às vezes, quando almirantes são enviados ao exterior, só devem abrir sua comissão depois de percorrer tantas léguas no mar. Assim Jonas precisa ir a Nínive e, quando chegar lá, lhe será dito o que dizer.

III. Ele proferiu sua incumbência com fidelidade e ousadia. Quando chegou a Nínive, encontrou uma diocese extensa; era “uma cidade extremamente grande, de três dias de jornada” (v. 3).

Uma cidade grande para Deus, assim é a expressão hebraica, que significa apenas o que traduzimos: extremamente grande. Essa língua presta ao grande Deus a honra de derivar dele a denominação das coisas grandes.

A grandeza de Nínive consistia principalmente em sua extensão; era muito maior que Babilônia, uma cidade, diz Diodoro Sículo, como nenhum homem jamais construiu depois. Tinha 150 estádios de comprimento e 90 de largura, e 480 de circunferência.

As muralhas tinham 100 pés de altura e eram tão espessas que três carros podiam andar lado a lado sobre elas; nelas havia 1.500 torres, cada uma com 200 pés de altura.

Aqui se diz que era de três dias de jornada, pois a circunferência das muralhas, segundo alguns relatam, era de 480 estádios. Contando oito estádios por milha, isso dá sessenta milhas, o que bem se pode considerar uma jornada de três dias para alguém a pé, vinte milhas por dia.

Ou, andando lenta e solenemente, como Jonas precisava fazer quando percorria a cidade pregando, ele levaria pelo menos três dias para passar por todas as ruas e vielas principais da cidade e proclamar sua mensagem, de modo que todos pudessem ser informados dela.

Quando chegou lá, não perdeu tempo; não viera olhar ao redor, mas se aplicou intensamente a seu trabalho. Ao começar a entrar na cidade, não se retirou para uma hospedaria, para refazer-se da viagem, mas abriu imediatamente sua comissão, conforme suas instruções.

Ele clamou e disse: “Ainda quarenta dias, e Nínive será derrubada”. Sem dúvida, tinha autorização e orientação específicas para dizer isso.

Não é certo se desenvolveu esse texto, como é mais provável, mostrando-lhes a controvérsia que Deus tinha com eles, quão provocadora era sua maldade e que motivo tinham para esperar a destruição e dar crédito a esse aviso, ou se apenas repetiu essas palavras muitas vezes. Mas esse era o teor de sua mensagem:

  1. Ele precisa lhes dizer que essa grande cidade será derrubada. Ele queria dizer, e eles o entenderam, que ela seria derrubada por algum golpe direto do céu, em vez de pela guerra: ou por um terremoto ou por fogo e enxofre, como Sodoma.

A maldade das cidades as amadurece para a destruição, e sua riqueza e grandeza não podem protegê-las da destruição quando a medida de sua iniquidade está cheia e a medida de sua vingança chegou. Grandes cidades são facilmente derrubadas quando o grande Deus vem acertar contas com elas.

  1. Ele precisa lhes dizer que ela será derrubada em breve, ao fim de quarenta dias. É-lhe concedido um adiamento. Por tanto tempo Deus esperará para ver se, diante desse alarme, eles se humilharão e emendarão suas ações, e assim prevenirão a ruína ameaçada.

Veja como Deus é lento para a cólera; embora a maldade de Nínive clamasse por vingança, ainda assim ela será poupada por quarenta dias, para que tenha prazo para se arrepender e encontrar Deus no caminho de seus juízos.

Mas ele não esperará mais; se nesse tempo não se converterem, saberão que ele afiou sua espada e a preparou. Quarenta dias é muito tempo para um Deus justo adiar seus juízos, mas é só pouco tempo para um povo injusto se arrepender e reformar, e assim afastar os juízos que vêm.

Fixar assim o dia, com toda a certeza possível, ajudaria a convencê-los de que era uma mensagem de Deus, pois nenhum homem ousaria ser tão categórico ao fixar um prazo, por mais que pudesse predizer a própria coisa; isso também os assustaria, levando-os a se preparar para ela.

Isso pode, com justiça, despertar pecadores seguros de si a prevenir sua própria ruína por uma conversão sincera, quando veem que têm só pouco tempo para se converter.

E não deveria nos despertar a nos prepararmos para a morte considerar que a própria coisa é certa, e o prazo está fixado no conselho de Deus, mas somos mantidos na ignorância e incerteza a respeito dele para estarmos sempre prontos?

Não podemos ter tanta certeza de que viveremos quarenta dias quanto Nínive agora tinha de que permaneceria por quarenta dias. Ou melhor: penso que é mais provável morrermos dentro de trinta ou quarenta dias do que vivermos trinta ou quarenta anos; e tantos anos costumamos prometer a nós mesmos no dia de nossa segurança.

Fleres, si scires unum tua tempora mensem;

Rides, cum non sit forsitan una dies.

Ficaríamos alarmados se tivéssemos certeza de não viver um mês, e, contudo, somos descuidados, embora não tenhamos certeza de viver um dia.

Versículos 5 a 10

O Arrependimento de Nínive. (a.C. 840.)

Aqui está: I. Uma maravilha da graça divina no arrependimento e na reforma de Nínive, diante do aviso que lhes foi dado de sua destruição iminente.

Em verdade digo a vocês: não encontramos exemplo tão grande disso, não, nem mesmo em Israel; e ele se levantará no julgamento contra os homens da geração do evangelho e os condenará. Pois “os ninivitas se arrependeram com a pregação de Jonas, mas eis que aqui está alguém maior que Jonas” (Mateus 12:41).

Ou melhor: isso condenou a impenitência e a obstinação de Israel naquele tempo. Deus enviou muitos profetas a Israel, e estes eram bem conhecidos entre eles como poderosos em palavra e ação; mas a Nínive enviou apenas um, e esse um estrangeiro.

Podemos supor que sua aparência era humilde e sua presença corporal fraca, especialmente depois do cansaço de uma viagem tão longa; e, contudo, eles se arrependeram, mas Israel não se arrependeu.

Jonas pregou só um sermão, e não encontramos que lhes tenha dado qualquer sinal ou prodígio cujo cumprimento pudesse confirmar sua palavra. E, contudo, foram tocados, ao passo que Israel continuou obstinado, embora seus profetas escolhessem palavras para argumentar com eles e as confirmassem por sinais que se seguiam.

Jonas só ameaçou cólera e ruína; não encontramos que lhes tenha feito qualquer chamado ao arrependimento ou dado orientações de como se arrepender, muito menos qualquer ânimo para esperar que encontrariam misericórdia caso se arrependessem; e, contudo, eles se arrependeram.

Mas Israel persistiu na impenitência, embora os profetas enviados a eles os atraíssem com cordas de homem e com laços de amor, e lhes assegurassem grandes coisas que Deus faria em favor deles caso se arrependessem e reformassem.

Vejamos agora qual foi o método do arrependimento de Nínive, quais foram seus passos e exemplos particulares.

  1. Eles creram em Deus; deram crédito à palavra que Jonas lhes falou em nome de Deus. Creram que, embora tivessem muitos a quem chamavam deuses, ainda assim havia apenas um Deus vivo e verdadeiro, o soberano Senhor de todos.

Creram que eram responsáveis diante dele; que haviam pecado contra ele e ficado expostos à sua justiça; que esse aviso de ruína iminente lhes fora enviado por ele e, consequentemente, que a própria ruína viria dele em um prazo fixado, se não fosse prevenida por um arrependimento oportuno.

Creram que ele é um Deus misericordioso, e que poderia haver alguma esperança de afastar a cólera ameaçada, caso se afastassem dos pecados pelos quais ela era ameaçada.

Repare: aqueles que vêm a Deus, que voltam a ele depois de se rebelarem contra ele, precisam crer; precisam crer que ele existe, que é possível reconciliar-se com ele, que será deles se seguirem o caminho certo.

E observe quão grande fé Deus pode produzir por meios muito pequenos, fracos e improváveis; ele pode levar até ninivitas, por umas poucas palavras de ameaça, à obediência da fé.

Alguns pensam que os ninivitas ouviram, dos marinheiros ou de outros, ou do próprio Jonas, que ele fora lançado ao mar e livrado dali por um milagre. Isso teria servido de confirmação de sua missão e os levado mais prontamente a crer em Deus falando por meio dele. Mas disso não temos certeza.

Contudo, a ressurreição de Cristo, prefigurada pela de Jonas, serviu para confirmar seu evangelho e contribuiu abundantemente para o grande êxito daqueles que, em seu nome, pregaram arrependimento e remissão de pecados a todas as nações, começando em Jerusalém.

  1. Eles levaram a notícia ao rei de Nínive, que, segundo alguns pensam, era nessa época Sardanápalo; segundo outros, Pul, rei da Assíria. Jonas não recebeu orientação de ir primeiro a ele em consideração à sua dignidade real.

Cabeças coroadas, quando culpadas, estão diante de Deus no mesmo nível que cabeças comuns; por isso Jonas é enviado às ruas de Nínive, em vez de à corte, para fazer sua proclamação.

Contudo, o relato de sua incumbência é levado ao rei de Nínive. Não como denúncia contra Jonas, como um perturbador da paz pública, para que fosse silenciado e punido, o que talvez teria acontecido se tivesse clamado assim nas ruas de Jerusalém, que matava os profetas de Deus e apedrejava aqueles que lhe eram enviados.

Não: o relato lhe foi levado como uma mensagem do céu, em vez de como um crime, por alguns que zelavam pelo bem-estar público e cujo coração tremia por ele.

Repare: felizes os reis que têm ao seu redor pessoas que lhes dão notícia das coisas pertencentes à paz do reino, dos avisos tanto da palavra quanto da providência de Deus e dos sinais do desagrado de Deus sob os quais se encontram. E felizes os povos que têm sobre si reis que reparam nessas coisas.

  1. O rei lhes deu um bom exemplo de humilhação (v. 6). Quando ouviu da palavra de Deus enviada a ele, levantou-se de seu trono, como Eglom, rei de Moabe, que se levantou de seu assento quando Eúde lhe disse que tinha uma mensagem de Deus para ele.

O rei de Nínive levantou-se de seu trono, não só por reverência a uma palavra de Deus em geral, mas por temor de uma palavra de cólera em particular, e por tristeza e vergonha pelo pecado, pelo qual ele e seu povo haviam ficado expostos à cólera de Deus.

Ele se levantou de seu trono real e deixou de lado seu manto real, a insígnia de sua dignidade imperial. Era um reconhecimento de que, por não ter usado seu poder como devia para conter a violência e a injustiça e manter o direito, perdera, perante a justiça de Deus, seu direito ao trono e ao manto.

Tornara-se indigno da honra que lhe fora conferida e da confiança nele depositada como rei, e era justo que Deus lhe tirasse seu reino.

Até o próprio rei não desdenhou vestir a roupa de um penitente, pois “cobriu-se de pano de saco e sentou-se em cinzas”, como sinal de sua humilhação pelo pecado e de seu pavor da vingança divina. Convém bem aos maiores entre os homens se rebaixarem diante do grande Deus.

  1. O povo se conformou ao exemplo do rei; ou melhor: ao que parece, tomou a dianteira, pois primeiro começou a vestir pano de saco, “desde o maior deles até o menor deles” (v. 5).

Os menores, que menos tinham a perder na destruição da cidade, não se julgaram alheios ao alarme; e os maiores, acostumados a repousar à vontade e viver com pompa, não julgaram indigno deles vestir as marcas de humilhação.

Vestir pano de saco, especialmente para quem estava acostumado ao linho fino, era muito incômodo. Eles não o teriam feito se não tivessem uma percepção profunda de seu pecado e de seu perigo em razão do pecado, percepção que tinham o desígnio de expressar dessa maneira.

Repare: aqueles que não querem ser arruinados precisam ser humilhados; aqueles que não querem destruir suas almas precisam afligir suas almas. Quando os juízos de Deus nos ameaçam, precisamos nos humilhar sob sua mão poderosa.

Embora o exercício corporal sozinho nada aproveite, e um homem estender sob si pano de saco e cinzas, se isso for tudo, seja só uma brincadeira, pois Deus olha para o coração (Isaías 58:5), ainda assim, em dias solenes de humilhação, quando Deus, em sua providência, chama ao luto e a vestir pano de saco, devemos glorificá-lo com nossos corpos.

Fazemos isso pelas expressões exteriores da tristeza interior, ao menos deixando de lado seus ornamentos.

  1. Um jejum geral foi proclamado e observado em toda aquela grande cidade (vv. 7-9). Foi ordenado pelo decreto do rei e de seus nobres; todo o poder legislativo se juntou para designá-lo, e todo o corpo do povo se juntou para observá-lo.

Por ambas essas vias, tornou-se um ato nacional, e era necessário que assim fosse, quando se destinava a prevenir uma ruína nacional. Temos aqui o conteúdo dessa proclamação, e ela é muito digna de observação. Veja aqui:

(1.) O que ela exige:

[1.] Que o jejum, propriamente assim chamado, seja observado com muito rigor. No dia designado para essa solenidade, “nem homem nem animal provem coisa alguma”; não tomem o menor alimento, não, nem mesmo bebam água.

Não apelem para o fato de que não podem jejuar por tanto tempo sem prejuízo à saúde ou de que não podem suportá-lo; experimentem uma vez. Que importa se sentirem algum incômodo e continuarem sentindo seus efeitos por algum tempo depois?

É melhor submeter-se a isso do que faltar em qualquer ato ou exemplo daquele arrependimento necessário para salvar uma cidade que está afundando. Que aflijam o corpo, vestindo pano de saco além de jejuar, para mostrar quão aflita está sua mente pela tristeza pelo pecado e pelo temor da cólera divina.

Até os animais precisam fazer penitência, assim como o homem, pois foram sujeitos à vaidade como instrumentos do pecado do homem. Assim, ou por seus gemidos ou por seu definhamento silencioso por falta de alimento, poderiam despertar seus donos e aqueles que os atendiam para expressões de tristeza e humilhação.

O gado mantido dentro de casa não deve receber alimento e água como de costume, pois nenhum alimento deve ser preparado nesse dia. Coisas dessa espécie precisam ser esquecidas, sem que se lhes dê atenção.

Assim como, quando o salmista estava absorto nos louvores de Deus, chamou as criaturas inferiores para se juntarem a ele nisso, assim também, quando os ninivitas estavam cheios de tristeza pelo pecado e de pavor dos juízos de Deus, queriam que as criaturas inferiores se juntassem a eles nas expressões de penitência.

Os animais que costumavam ser cobertos com arreios ricos e esmerados, orgulho de seus senhores e deles também, precisam agora ser cobertos de pano de saco; pois os grandes homens deixarão de lado, como lhes convém, seu aparato.

[2.] Ao seu jejum e luto precisam juntar oração e súplica a Deus; pois o jejum tem o desígnio de preparar o corpo para servir à alma no dever da oração, que é o assunto principal, para o qual o outro é apenas preparatório ou subordinado.

Clamem fortemente a Deus; até as criaturas brutas o façam conforme sua capacidade. Que seus gritos e gemidos por falta de alimento sejam graciosamente interpretados como clamores a Deus, como são os clamores dos filhotes de corvo (Jó 38:41) e dos leõezinhos (Salmos 104:21).

Mas especialmente clamem a Deus os homens, as mulheres e as crianças; clamem fortemente pelo perdão dos pecados que clamam contra eles. Era tempo de clamar a Deus quando havia só um passo entre eles e a ruína, mais que tempo de buscar o Senhor.

Na oração, precisamos clamar fortemente, com firmeza de pensamento, constância de fé e fervor de afetos piedosos e devotos. Ao clamar fortemente, lutamos com Deus; agarramo-nos a ele.

E precisamos fazer isso quando ele não só se afasta de nós como amigo, mas sai contra nós como inimigo. Por isso, na oração, precisamos despertar tudo o que está dentro de nós. Contudo, isso não é tudo:

[3.] Precisam acrescentar ao seu jejum e oração a reforma e a emenda de vida. “Cada um se converta de seu mau caminho”, o mau caminho que escolheu, o mau caminho a que está apegado e em que anda, o mau caminho de seu coração e o mau caminho de sua conduta, e particularmente “da violência que está em suas mãos”.

Restituam o que tomaram injustamente e façam reparação pela injustiça que cometeram; e não oprimam mais aqueles sobre os quais têm poder nem defraudem aqueles com quem negociam.

Os homens de autoridade, na parte da cidade onde fica a corte, se convertam da violência que está em suas mãos e não decretem decretos injustos nem deem julgamentos injustos nos recursos que lhes são apresentados.

Os homens de negócios, na parte comercial da cidade, se convertam da violência em suas mãos e não usem pesos ou medidas injustos nem iludam aqueles com quem comerciam, aproveitando-se de sua ignorância ou necessidade.

Repare: não basta jejuar pelo pecado, mas precisamos jejuar do pecado e, para o êxito de nossas orações, não mais considerar iniquidade em nossos corações (Salmos 66:18). Este é o único jejum que Deus escolheu e aceitará (Isaías 58:6; Zacarias 7:5, 9).

O trabalho de um dia de jejum não termina com o dia. Não: então começa a parte mais árdua e mais necessária do trabalho, que é se converter do pecado, viver uma nova vida e não voltar, como o cão, ao seu vômito.

(2.) Por qual motivo este jejum é proclamado e religiosamente observado (v. 9). “Quem pode dizer se Deus se voltará e se arrependerá?” Observe:

[1.] O que esperam: que Deus, diante de seu arrependimento e conversão, mude seu modo de agir para com eles e revogue sua sentença contra eles. Que ele se afaste de sua ira feroz, que reconhecem merecer e, contudo, humilde e fervorosamente pedem que afaste, e que assim sua ruína seja prevenida e não pereçam.

Não podem objetar contra a equidade do julgamento, não alegam anulá-lo recorrendo a um tribunal superior, mas esperam no próprio Deus, que ele se arrependa e que sua própria misericórdia, à qual recorrem, triunfe sobre o julgamento.

Creem que Deus está justamente irado com eles; que, sendo seu pecado muito hediondo, sua ira é muito feroz; e que, se ele proceder contra eles, não há remédio: morrem, perecem, todos perecem e ficam arruinados. Pois quem conhece o poder de sua ira?

Por isso, não é a derrubada ameaçada cuja prevenção pedem, mas a ira de Deus cujo afastamento pedem. Assim como, ao orarmos pelo favor de Deus, oramos por todo bem, assim também, ao orarmos contra a cólera de Deus, oramos contra todo mal.

[2.] Que grau de esperança tinham disso: quem pode dizer se Deus se voltará para nós? Jonas não lhes dissera; não tinham entre eles quaisquer outros profetas para lhes dizer.

Por isso, não podiam estar tão confiantes de encontrar misericórdia mediante seu arrependimento quanto nós podemos estar, que temos a promessa e o juramento de Deus em que nos apoiar, e especialmente o mérito e a mediação de Cristo em que confiar, para o perdão mediante o arrependimento.

Contudo, tinham uma noção geral da bondade da natureza de Deus, de sua misericórdia para com o homem e de seu agrado no arrependimento e na conversão dos pecadores. Disso extraíram alguma esperança de que ele os pouparia; não ousam presumir, mas não se entregarão ao desespero.

Repare: a esperança de misericórdia é o grande ânimo para o arrependimento e a reforma. E, embora haja só alguns vislumbres de esperança misturados com grandes temores, vindos da percepção de nossa própria pecaminosidade, indignidade e longo abuso da paciência divina, ainda assim podem servir para avivar e promover nosso sério arrependimento e reforma.

Lancemo-nos ousadamente ao estrado da graça gratuita, resolvidos a que, se perecermos, pereceremos ali; contudo, quem sabe se Deus não olhará para nós com compaixão?

II. Aqui está uma maravilha da misericórdia divina em poupar esses ninivitas diante de seu arrependimento (v. 10): “Deus viu suas obras”. Ele não só ouviu suas boas palavras, pelas quais professavam arrependimento, mas viu suas boas obras, pelas quais produziram frutos dignos de arrependimento.

Ele viu que se converteram de seu mau caminho, e era isso o que buscava e exigia. Se não tivesse visto isso, seu jejum e pano de saco nada seriam em sua avaliação.

Ele viu que havia entre eles um convencimento geral de seus pecados e uma resolução geral de não voltar a eles, e que por alguns dias viveram melhor e a cidade tinha um novo aspecto; e isso lhe agradou muito.

Repare: Deus repara em cada exemplo da reforma dos pecadores, até aqueles exemplos que não chegam ao conhecimento e à observação do mundo. Ele vê quem se converte de seu mau caminho e quem não, e recebe com favor aqueles que o encontram em uma conversão sincera.

Quando se arrependem do mal do pecado cometido por eles, ele se arrepende do mal do juízo pronunciado contra eles. Assim poupou Nínive e não fez o mal que disse que faria contra ela.

Não lemos que aqui fossem oferecidos sacrifícios a Deus para fazer expiação pelo pecado. Mas o sacrifício de Deus é um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito, como os ninivitas agora tinham, é o que ele não desprezará; é o que ele favorecerá e honrará.


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