Matthew Henry

Jonas 4

Argumento

Lemos, com muito prazer, no fim do capítulo anterior, acerca do arrependimento de Nínive; mas neste capítulo lemos, com muita inquietação, acerca do pecado de Jonas. E, assim como há alegria no céu e na terra pela conversão de pecadores, assim há dor pelas insensatezes e fraquezas dos santos.

Em todo o livro de Deus, dificilmente encontramos um “servo do Senhor” (e temos certeza de que Jonas era um deles, pois a Escritura assim o chama) tão descontrolado como ele está aqui, tão irritadiço e provocador para com o próprio Deus.

No primeiro capítulo, nós o vimos fugindo da presença de Deus; mas aqui o vemos, na prática, afrontando Deus. E o que nos causa mais dor é que lá tivemos um relato de seu arrependimento e retorno a Deus; mas aqui, embora sem dúvida ele tenha se arrependido, contudo, como no caso de Salomão, não nos foi deixado relato de sua recuperação.

Mas, enquanto lemos admirados acerca de sua perversidade, lemos com igual admiração acerca da ternura de Deus para com ele, pela qual pareceu que não o havia rejeitado. Aqui está:

I. A murmuração de Jonas contra a misericórdia de Deus para com Nínive e a irritação em que se encontrava por causa disso, vv. 1-3.

II. A censura suave que Deus lhe fez por isso, v. 4.

III. O descontentamento de Jonas com o murchar da aboboreira e sua justificação de si mesmo nesse descontentamento, vv. 5-9.

IV. O aproveitamento disso por Deus para convencê-lo de que não deveria estar irado por Nínive ser poupada, vv. 10-11.

A maldade do homem e a bondade de Deus servem aqui de contraste uma à outra, para que a primeira pareça tanto mais excessivamente pecaminosa e a última tanto mais excessivamente cheia de graça.

Versículos 1 a 4

O Descontentamento do Profeta. (a.C. 840.)

Veja aqui:

I. Como Jonas entrou injustamente em desavença com Deus por sua misericórdia para com Nínive, mediante o arrependimento deles.

Isso nos dá motivo para suspeitar que Jonas apenas havia exposto a mensagem de cólera contra os ninivitas e de modo algum os havia ajudado ou animado em seu arrependimento, como pensaríamos que deveria ter feito. Pois, quando eles se arrependeram e encontraram misericórdia:

  1. Jonas ressentiu-se da misericórdia que eles encontraram (v. 1): “Isso desagradou muitíssimo a Jonas”; e (você acreditaria?) “ele ficou muito irado”, ficou profundamente exaltado por isso. Era muito errado:

(1.) Que ele tivesse tão pouco domínio sobre si mesmo a ponto de ficar descontente e muito irado; não tinha domínio sobre seu próprio espírito e, portanto, como uma cidade derrubada, ficava exposto a tentações e laços.

(2.) Que ele tivesse tão pouca reverência por Deus a ponto de ficar descontente e irado com o que Deus fazia, como Davi ficou quando o Senhor abriu uma brecha contra Uzá. Tudo o que agrada a Deus deveria nos agradar e, embora não possamos explicá-lo, contudo devemos aceitá-lo.

(3.) Que ele tivesse tão pouco afeto pelos homens a ponto de ficar descontente e muito irado com a conversão dos ninivitas e sua recepção no favor divino.

Esse era o pecado dos escribas e fariseus, que murmuravam contra nosso Salvador porque acolhia publicanos e pecadores; mas nosso olho é mau porque o dele é bom?

Mas por que Jonas ficou tão inquieto porque os ninivitas se arrependeram e foram poupados? Não se pode esperar que apresentemos algum bom motivo para algo tão absurdo e desarrazoado; não, nem mesmo algo que tenha a aparência ou o aspecto de um motivo. Mas podemos conjecturar qual foi a provocação.

Espíritos exaltados geralmente são espíritos orgulhosos. Só do orgulho vem a disputa, tanto com Deus quanto com o homem. Era uma questão de honra em que Jonas insistia e que o deixava irado.

[1.] Ele tinha zelo pela honra de seu país; o arrependimento e a reforma de Nínive envergonhavam a obstinação de Israel, que não se arrependia, mas odiava ser reformado.

E o favor que Deus havia mostrado a esses gentios, mediante o arrependimento deles, era um mau presságio para a nação judaica, como se fossem ser (como afinal foram) rejeitados e expulsos da igreja, e os gentios colocados em seu lugar.

Quando foi indicado ao próprio São Pedro que não deveria fazer diferença entre judeus e gentios, ele se assustou com aquilo e disse: “Não assim, Senhor”. Não admira, então, que Jonas visse com pesar que Nínive se tornasse favorecida.

Nisso Jonas tinha zelo por Deus como o Deus de Israel de maneira particular, mas não segundo o conhecimento. Repare: muitos ficam descontentes com Deus sob a alegação de preocupação com sua glória.

[2.] Ele tinha zelo por sua própria honra, temendo que, se Nínive não fosse destruída dentro de quarenta dias, ele fosse considerado um falso profeta e estigmatizado como tal.

Mas não precisava sentir descontentamento algum por isso, pois na ameaça de ruína estava implícito que, para evitá-la, eles deveriam se arrepender e, se o fizessem, ela seria evitada.

E ninguém se queixará de ter sido enganado por quem é melhor que sua palavra; e ele ganharia honra entre eles, por servir de instrumento para salvá-los, em vez de cair em alguma desonra.

Mas homens melancólicos (e Jonas parece ter sido um deles) tendem a se inquietar imaginando para si males que não existem, nem jamais é provável que existam.

A maior parte de nossas irritações, assim como de nossos temores, se deve ao poder da imaginação; e são dignos de compaixão, como inteiramente escravizados, aqueles que estão sob o poder de tal tirano.

  1. Ele entrou em desavença com Deus por isso. Quando seu coração se exaltou dentro dele, falou irrefletidamente com seus lábios; e aqui nos conta o que disse (v. 2, 3): “Orou ao Senhor”, mas é uma oração muito inadequada, diferente daquela que fez no ventre do peixe.

Pois a aflição nos ensina a orar com submissão, o que Jonas agora se esqueceu de fazer. Estando descontente, recorreu ao dever da oração, como costumava fazer em suas perturbações; mas suas corrupções dominaram suas graças.

E, quando deveria estar orando para ele mesmo receber benefício pela misericórdia de Deus, queixava-se do benefício que outros recebiam por essa misericórdia. Nada poderia ser dito de modo mais indecoroso.

(1.) Ele agora começa a se justificar por ter fugido da presença do Senhor quando recebeu pela primeira vez a ordem de ir a Nínive, coisa pela qual antes, com bom motivo, havia condenado a si mesmo.

“Senhor”, disse ele, “não era esta a minha palavra quando eu estava no meu próprio país? Não previ que, se fosse pregar a Nínive, eles se arrependeriam, e tu os perdoarias, e então tua palavra seria criticada e desacreditada como sim e não?”

Que homem estranho era Jonas, por temer o sucesso de seu ministério! Muitos foram tentados a se retirar de seu trabalho porque perderam a esperança de fazer o bem por meio dele, mas Jonas recusou pregar porque tinha medo de fazer o bem por meio dele.

Ele persiste continuamente na mesma noção corrupta, pois, ao que parece, o próprio ventre da baleia não pôde curá-lo dela. Era sua palavra quando estava em seu próprio país, mas era uma palavra má.

Contudo, aqui ele insiste nela e, muito diferente dos outros profetas, deseja o dia calamitoso que havia predito e se entristece porque ele não vem.

Até os discípulos de Cristo não sabem de que espírito são; aqueles que desejaram fogo do céu sobre a cidade que não os recebeu não o sabiam, muito menos Jonas, que desejou fogo do céu sobre a cidade que o recebeu, Lucas 9:55.

Jonas pensa que tem motivo para se queixar daquilo que, antes, temia, agora que acontece; tão difícil é arrancar da mente uma raiz de amargura, depois que se fixa ali.

E por que Jonas esperava que Deus poupasse Nínive? “Porque eu sabia que tu eras um Deus cheio de graça”, indulgente e facilmente satisfeito, que tu eras “lento para a ira e de grande bondade, e te arrependes do mal”.

Tudo isso é muito verdadeiro; e Jonas não podia deixar de sabê-lo pela proclamação que Deus fez de seu nome e pelas experiências de todas as épocas.

Mas é estranho e muito inexplicável que aquilo que todos os santos haviam feito motivo de sua alegria e louvor fosse feito por Jonas motivo de crítica a Deus, como se fosse uma imperfeição da natureza divina aquilo que de fato é sua maior glória: que Deus é cheio de graça e misericordioso.

O servo que disse: “Eu sabia que eras um homem duro”, disse o que era falso; e contudo, se fosse verdade, não seria motivo apropriado para uma queixa. Mas Jonas, embora diga o que é verdadeiro, contudo, ao falar em tom de descrédito, fala de modo muito absurdo.

Têm de fato um espírito de disputa e contradição aqueles que conseguem encontrar em seu coração disposição para entrar em desavença com a bondade de Deus e sua misericórdia que poupa e perdoa, à qual todos devemos o fato de estarmos fora do inferno.

Isso é transformar para nós em aroma de morte para morte aquilo que deveria ser aroma de vida para vida.

(2.) Num acesso de paixão, deseja a morte (v. 3), estranha expressão de sua paixão sem causa! “Agora, ó Senhor! Tira, peço-te, minha vida de mim. Se Nínive tem de viver, deixa-me morrer, em vez de ver tua palavra e a minha desmentidas, em vez de ver a glória de Israel transferida aos gentios.”

Como se não houvesse graça suficiente em Deus tanto para judeus quanto para gentios, ou como se seus compatriotas estivessem mais longe da misericórdia por os ninivitas serem recebidos no favor divino.

Quando o profeta Elias havia trabalhado em vão, desejou morrer, e isso era sua fraqueza, 1 Reis 19:4. Mas Jonas trabalha com bom resultado, salva uma grande cidade da ruína e contudo deseja morrer, como se, tendo feito muito bem, tivesse medo de viver para fazer mais; vê o fruto do trabalho de sua alma e fica insatisfeito.

Que espírito perverso está mesclado com cada palavra que ele diz! Quando Jonas foi tirado vivo do ventre da baleia, considerou a vida uma misericórdia muito valiosa e foi grato àquele Deus que fez subir sua vida da corrupção (Jonas 2:6), e sua vida havia sido uma grande bênção para Nínive.

Contudo, agora, por esse próprio motivo, ela se tornou um fardo para ele mesmo, e ele pede para ser aliviado dele, apelando: “É melhor para mim morrer do que viver”.

Uma palavra como essa pode ser a linguagem da graça, como foi em Paulo, que desejava partir e estar com Cristo, o que é muito melhor; mas aqui era a linguagem da insensatez, da paixão e da forte corrupção. Era tanto pior:

[1.] Por Jonas estar agora no meio de sua utilidade e, portanto, apto a viver. Era alguém cujo ministério Deus reconhecia e fazia prosperar de maneira maravilhosa.

A conversão de Nínive poderia lhe dar esperanças de servir de instrumento para converter todo o reino da Assíria; portanto, era muito absurdo que desejasse morrer quando tinha a perspectiva de viver com resultado tão bom e quando se podia tão pouco prescindir dele.

[2.] Por Jonas estar agora tão descontrolado e, portanto, inapto a morrer. Como ousava pensar em morrer e comparecer diante do tribunal de Deus, quando estava de fato entrando em desavença com ele? Era essa uma disposição de espírito apropriada para um homem sair do mundo?

Mas aqueles que desejam apaixonadamente a morte geralmente têm menos motivo para fazê-lo, por estarem muito despreparados para ela. Nossa tarefa é nos preparar para morrer fazendo o trabalho da vida, e então nos confiar a Deus para tirar nossa vida quando e como lhe agradar.

II. Veja com que justiça Deus censurou Jonas por essa exaltação em que se encontrava (v. 4): “O Senhor disse: Fazes bem em estar irado?” “Fazer o bem te desagrada?”, assim alguns leem. “O quê! Arrependes-te de tuas boas ações?”

Deus poderia tê-lo rejeitado com justiça por essa exaltação ímpia em que se encontrava; poderia com justiça tê-lo tomado pela palavra e fulminado quando desejou morrer.

Mas condescende em raciocinar com ele para convencê-lo e levá-lo a uma disposição melhor, como o pai do filho pródigo raciocinou com seu filho mais velho quando, como Jonas aqui, ele murmurou contra o perdão e a recepção de seu irmão.

“Fazes bem em estar irado?” Veja com que suavidade o grande Deus fala a esse homem insensato, para nos ensinar a restaurar aqueles que caíram com espírito de mansidão e, com respostas brandas, desviar a cólera.

Deus recorre ao próprio Jonas e à própria consciência de Jonas: “Fazes bem? Sabes que não fazes”. Deveríamos fazer frequentemente essa pergunta a nós mesmos: é bom dizer assim, fazer assim? Posso justificar isso? Não devo desdizê-lo e desfazê-lo pelo arrependimento, ou ficar arruinado para sempre? Pergunte:

  1. Faço bem em estar irado? Quando a paixão se levantar, que encontre este freio: “Faço bem em ficar irado tão depressa, tão frequentemente, por tanto tempo, em me exaltar tanto e dirigir aos outros linguagem tão má em minha ira? É bom que eu permita que essas paixões obstinadas me dominem?”

  2. “Faço bem em estar irado com a misericórdia de Deus para com pecadores arrependidos?” Esse era o crime de Jonas.

Fazemos bem em estar irados com aquilo que tanto promove a glória de Deus e o avanço de seu reino entre os homens, em estar irados com aquilo de que os anjos se alegram e pelo qual serão dadas abundantes ações de graças a Deus?

Fazemos mal em estar irados com aquela graça de que nós mesmos precisamos e sem a qual estamos arruinados; se não fosse deixado espaço para o arrependimento e fosse dada esperança de perdão mediante o arrependimento, o que seria de nós?

Que a conversão de pecadores, que é a alegria do céu, seja nossa alegria, e nunca nossa dor.

O Descontentamento do Profeta; O Murchar da Aboboreira do Profeta; A Contestação de Deus a Jonas. (a.C. 840.)

Versículos 5 a 11

Jonas persiste aqui em seu descontentamento; pois o começo da contenda, tanto com Deus quanto com o homem, é como soltar águas: a brecha se alarga cada vez mais e, quando a paixão domina, o que é mau fica pior. Portanto, ela deveria ser silenciada e reprimida desde o começo. Temos aqui:

I. A expectativa taciturna de Jonas quanto ao destino de Nínive.

Podemos supor que os ninivitas, dando crédito à mensagem que ele trouxe, estavam prontos a hospedar o mensageiro que a trouxe e a mostrar-lhe respeito, que o teriam recebido nas melhores de suas casas e mesas.

Mas Jonas estava mal-humorado, não quis aceitar sua bondade nem se comportar para com eles com a civilidade comum, o que se poderia temer que os indispusesse contra ele e sua palavra.

Mas, quando não só o tesouro é colocado em vasos de barro, mas a incumbência é confiada a homens sujeitos às mesmas paixões que nós, e contudo o objetivo é alcançado, deve-se reconhecer que a excelência do poder aparece tanto mais como sendo de Deus e não do homem.

Jonas se retira, sai da cidade, senta-se sozinho e guarda silêncio, porque vê os ninivitas se arrependerem e se reformarem, v. 5.

Talvez tenha dito aos que estavam ao seu redor que saía da cidade por medo de perecer em suas ruínas; mas saiu para ver o que aconteceria à cidade, como Abraão subiu para ver o que aconteceria a Sodoma, Gênesis 19:27.

Os quarenta dias estavam agora terminando, ou haviam terminado, e Jonas esperava que, embora Nínive não fosse derrubada, contudo algum juízo ou outro viesse sobre ela, suficiente para salvar sua credibilidade. De qualquer maneira, era com grande inquietação que aguardava o desfecho.

Não quis se hospedar numa casa, esperando que ela caísse sobre sua cabeça, mas fez para si uma cabana com ramos de árvores e sentou-se nela, embora ali ficasse exposto ao vento e às intempéries.

Repare: é comum aqueles que têm espíritos irritadiços e inquietos criarem diligentemente inconvenientes para si mesmos, para que, decididos a se queixar, tenham continuamente alguma coisa de que se queixar.

II. A provisão cheia de graça de Deus para seu abrigo e refrigério, quando ele assim insensatamente se afligia e continuamente acrescentava mais e mais à sua própria aflição, v. 6.

Jonas estava sentado em sua cabana, irritado com o frio da noite e o calor do dia, que eram ambos penosos para ele. Deus poderia ter dito: “É sua própria escolha, seu próprio feito, uma casa de sua própria construção; que tire dela o melhor proveito”.

Mas olhou para ele com compaixão, como a mãe terna olha para o filho obstinado, e o aliviou dos incômodos que ele, por sua própria teimosia, criava para si mesmo.

Preparou uma aboboreira, uma planta com folhas largas e cheia delas, que cresceu subitamente e cobriu sua choça ou cabana, de modo a afastar muito da injúria do frio e do calor.

Ela era “uma sombra sobre a sua cabeça, para livrá-lo de sua dor”, para que, estando refrigerado no corpo, pudesse melhor se guardar da inquietação de sua mente, da qual contrariedades e perturbações exteriores são frequentemente a ocasião e o aumento.

Veja como Deus trata com ternura seu povo em suas aflições, sim, e ainda: embora sejam insensatos e obstinados, ele não é rigoroso em assinalar o que fazem de errado.

Deus antes havia preparado um grande peixe para proteger Jonas das injúrias da água, e aqui uma grande aboboreira para protegê-lo das injúrias do ar; pois é o protetor de seu povo contra males de toda espécie, tem domínio sobre plantas assim como sobre animais e pode prepará-los depressa para fazê-los servir aos seus propósitos.

Pode tornar seu crescimento repentino, que, no curso da natureza, é lento e gradual. Uma aboboreira, pensaríamos, era, na melhor das hipóteses, apenas uma frágil fortificação; contudo, Jonas ficou muitíssimo alegre com a aboboreira. Pois:

  1. Ela era realmente, naquele momento, um grande consolo para ele. Uma coisa em si mesma pequena e insignificante, contudo, chegando no momento oportuno, pode ser para nós uma bênção muito valiosa. Uma aboboreira no lugar certo pode nos prestar mais serviço que um cedro.

As menores criaturas podem ser grandes pragas (como moscas e piolhos foram para Faraó) ou grandes consolos (como a aboboreira para Jonas), conforme Deus tem por bem fazê-las.

  1. Estando agora muito sob o poder da imaginação, ele encontrou nela uma satisfação maior do que havia motivo. Ficou muitíssimo alegre com ela, orgulhou-se dela e exultou nela.

Repare: pessoas de paixões fortes, assim como tendem a ficar abatidas por uma insignificância que as contraria, também tendem a ficar exaltadas por uma insignificância que lhes agrada. Um pequeno brinquedo às vezes serve para apaziguar uma criança irritada, como a aboboreira fez com Jonas.

Mas a sabedoria e a graça nos ensinariam tanto a chorar por nossas perturbações como se não chorássemos quanto a nos alegrar em nossos consolos como se não nos alegrássemos.

Devemos desfrutar dos consolos das criaturas e ser gratos por eles, mas não precisamos ficar muitíssimo alegres com eles; somente Deus deve ser nossa “alegria excessiva”, Salmos 43:4.

III. A perda repentina dessa provisão que Deus havia feito para seu refrigério e o retorno de sua perturbação, v. 7, 8.

Deus, que havia providenciado consolo para ele, providenciou também uma aflição para ele naquela própria coisa que era seu consolo; a aflição não veio por acaso, mas por direção e designação divinas.

  1. Deus preparou um verme para destruir a aboboreira. Aquele que deu tirou, e Jonas deveria ter bendito seu nome em ambas as coisas; mas, porque, quando recebeu o consolo da aboboreira, não deu a Deus o louvor por ele, Deus o privou de seu benefício, e com justiça.

Veja o que são todos os nossos consolos das criaturas e o que podemos esperar que sejam; são aboboreiras, têm sua raiz na terra, são apenas uma defesa fina e frágil comparada à rocha dos séculos; são coisas que murcham, perecem com o uso, e logo somos privados do consolo delas.

A aboboreira murchou no dia seguinte àquele em que brotou; nossos consolos saem como flores e logo são cortados. Quando mais nos deleitamos neles e mais esperamos deles, somos decepcionados.

Uma pequena coisa os faz murchar; um pequeno verme na raiz destrói uma grande aboboreira. Algo não visto e não percebido faz isso. Nossas aboboreiras murcham, e não sabemos a que atribuí-lo.

E talvez murchem primeiro aquelas com que ficamos mais excessivamente alegres; aquilo que é mais querido se mostra menos seguro. Deus não enviou um anjo para arrancar a aboboreira de Jonas, mas enviou um verme para feri-la; ela crescia continuamente ali, mas não lhe servia de nada.

Talvez nossos consolos das criaturas nos sejam conservados, mas sejam amargurados; a criatura é conservada, mas o consolo se foi; e seus restos, ou antes suas ruínas, apenas nos repreendem por nossa insensatez em ter ficado muitíssimo alegres com ela.

  1. Ele preparou um vento para fazer Jonas sentir a falta da aboboreira, v. 8. Era um “veemente vento oriental”, que lançava violentamente o calor do sol nascente sobre a cabeça de Jonas. Esse vento não era como um leque para diminuir o calor, mas como um fole para torná-lo mais intenso. Assim, o pobre Jonas ficou exposto ao sol e ao vento.

IV. A irritação ulterior em que isso colocou Jonas (v. 8): “Ele desfaleceu e desejou em si mesmo morrer”. “Se a aboboreira for morta, se a aboboreira estiver morta, mata-me também; deixa-me morrer com a aboboreira.” Homem insensato, que pensa que sua vida está ligada à vida de uma erva!

Repare: é justo que aqueles que gostam de se queixar nunca fiquem sem alguma coisa de que se queixar, para que sua insensatez seja manifestada e corrigida e, se possível, curada.

E veja aqui como as paixões que vão a um extremo numa direção geralmente vão a um extremo na outra direção. Jonas, que estava em transportes de alegria quando a aboboreira florescia, está em pontadas de dor quando a aboboreira murchou.

O afeto desordenado lança o fundamento da aflição desordenada; aquilo de que gostamos demais quando o temos tendemos a lamentar demais quando o perdemos, e podemos ver nossa insensatez em ambas as coisas.

V. A repreensão que Deus lhe fez por isso; ele raciocinou novamente com ele: “Fazes bem em estar irado por causa da aboboreira?”, v. 9.

Repare: o murchar de uma aboboreira é algo com que não nos convém estar irados. Quando providências aflitivas nos privam de nossos parentes, posses e prazeres, devemos suportar isso com paciência, não devemos estar irados com Deus, não devemos estar irados por causa da aboboreira.

É, comparativamente, apenas uma pequena perda, a perda de uma sombra; esse é o máximo a que podemos avaliá-la. Era uma aboboreira, algo que murcha; não podíamos esperar outra coisa senão que murchasse.

Nossa ira pelo murchar dela não a recuperará; nós mesmos em breve murcharemos como ela. Se uma aboboreira murchou, outra pode brotar em seu lugar; mas aquilo que deveria especialmente silenciar nosso descontentamento é que, embora nossa aboboreira tenha ido embora, nosso Deus não foi embora, e há nele o suficiente para compensar todas as nossas perdas.

Reconheçamos, portanto, que fazemos mal, que fazemos muito mal, em estar irados por causa da aboboreira; e, diante de tais acontecimentos, aquietemo-nos como uma criança desmamada de sua mãe.

VI. Sua justificação de sua paixão e descontentamento; e ela é muito estranha, v. 9. Ele disse: “Faço bem em estar irado, até à morte”.

É mau falar errado, contudo, se isso ocorrer por precipitação, se o que foi dito de errado for depressa retirado e desdito, é mais desculpável; mas falar errado e insistir nisso é mau de fato.

Assim fez Jonas aqui, embora o próprio Deus o repreendesse e, ao recorrer à sua consciência, esperasse que ele repreendesse a si mesmo.

Veja que coisas grosseiras são as paixões sem governo e quanto é de nosso interesse, e deveria ser nosso empenho, acorrentar esses leões rugidores e ursos que vagueiam. O pecado e a morte são duas coisas muito terríveis, contudo Jonas, em sua exaltação, faz pouco caso de ambos.

  1. Ele tem tão pouca consideração por Deus a ponto de afrontar sua autoridade e dizer que fazia bem naquilo que Deus disse que era malfeito. A paixão frequentemente se sobrepõe à consciência e a força, quando se recorre a ela, a dar um julgamento falso, como Jonas fez aqui.

  2. Ele tem tão pouca consideração por si mesmo a ponto de abandonar sua própria vida e não considerar prejuízo algum dar livre curso à sua paixão até a morte, matar a si mesmo de irritação.

Lemos sobre a “cólera” que “mata o homem insensato” e a “inveja” que “abate o tolo” (Jó 5:2). Insensatos e tolos de fato são aqueles que cortam sua própria garganta com suas próprias paixões, que de tanto se irritarem acabam definhando e contraindo outras fraquezas, e provocam febres em si mesmos por suas próprias exaltações intemperantes.

VII. O aproveitamento disso contra ele para convencê-lo de que fazia mal em murmurar por Nínive ser poupada.

Por sua própria boca Deus o julgará; e temos motivo para pensar que isso o venceu, pois não deu resposta, mas esperamos que tenha retornado ao seu bom senso e recuperado seu equilíbrio, embora não conseguisse mantê-lo, e que tudo tenha ficado bem. Agora:

  1. Vejamos como Deus argumentou com ele (v. 10, 11): “Tiveste compaixão da aboboreira, poupaste-a” (assim é a palavra), “fizeste o que pudeste, e terias feito mais, para mantê-la viva, e disseste: Que pena que esta aboboreira alguma vez murche!”

“E não deveria eu então poupar Nínive? Não deveria ter tanta compaixão dela quanto tiveste da aboboreira, e proibir o terremoto que a arruinaria, como terias proibido o verme que feriu a aboboreira? Considera:”

(1.) “A aboboreira de que tiveste compaixão era apenas uma; mas os habitantes de Nínive, de quem tenho compaixão, são numerosos.”

É uma cidade grande e muito populosa, como se vê pelo número das crianças pequenas, suponhamos de dois anos para baixo; há 120.000 delas em Nínive, que não chegaram a tanto uso do entendimento a ponto de distinguir sua mão direita da esquerda, pois são apenas criancinhas.

Repara-se nelas porque a idade dos bebês geralmente é considerada a idade da inocência.

Havia tantas em Nínive que não tinham sido culpadas de nenhuma transgressão praticada e, consequentemente, não haviam elas mesmas contribuído para a culpa comum; contudo, se Nínive tivesse sido derrubada, todas teriam sido envolvidas na calamidade comum. “E não pouparei então Nínive, tendo-as em vista?”

Deus tem terna consideração pelas crianças pequenas e está pronto a ter compaixão delas e socorrê-las; ou melhor: aqui uma cidade inteira é poupada por causa delas, o que pode animar os pais a apresentar seus filhos a Deus pela fé e oração.

Embora não sejam capazes de lhe prestar nenhum serviço (pois não podem distinguir sua mão direita da esquerda, o bem do mal, o pecado do dever), contudo são capazes de participar de seus favores e de obter salvação.

O grande Salvador manifestou uma bondade particular pelas crianças que lhe foram trazidas, quando as tomou em seus braços, pôs suas mãos sobre elas e as abençoou.

Ou melhor: Deus reparou também na abundância de gado que havia em Nínive, do qual tinha mais motivo para ter compaixão e poupar do que Jonas tinha para ter compaixão da aboboreira e poupá-la, visto que a vida animal é mais excelente que a vegetal.

(2.) A aboboreira pela qual Jonas se preocupava não era sua; era aquilo pelo que “não trabalhou” e que “não fez crescer”. Mas as pessoas em Nínive de quem Deus tinha compaixão eram todas obra de suas próprias mãos, de cuja existência era o autor, de cujas vidas era o preservador, a quem plantou e fez crescer.

Ele as fez, e elas eram suas; portanto, tinha muito mais motivo para ter compaixão delas, pois não pode desprezar a obra de suas próprias mãos (Jó 10:3).

E assim Jó ali argumenta com ele (Jó 10:8, 9): “Tuas mãos me fizeram e me formaram”, “fizeste-me como o barro”; e me destruirás, me tornarás ao pó outra vez? Assim ele aqui argumenta consigo mesmo.

(3.) A aboboreira de que Jonas teve compaixão cresceu subitamente e, portanto, tinha menos valor; “nasceu numa noite”, era “filha de uma noite” (assim é a palavra). Mas Nínive é uma cidade antiga, que existe há muitas eras e, portanto, não pode ser tão facilmente abandonada.

“As pessoas que poupo levaram muitos anos para crescer, não se desenvolveram tão depressa como a aboboreira; e não terei então compaixão daqueles que por tantos anos têm sido objeto do zelo de minha providência, por tantos anos meus arrendatários?”

(4.) A aboboreira de que Jonas teve compaixão “pereceu numa noite”; murchou, e foi seu fim. Mas as almas preciosas em Nínive de quem Deus teve compaixão não têm vida tão curta; são imortais e, portanto, devem ser consideradas com zelo e ternura.

Uma alma tem mais valor que o mundo inteiro, e o ganho do mundo não compensará sua perda; certamente, então, uma alma tem mais valor que muitas aboboreiras, mais valor que muitos pardais. Assim Deus considera, e assim deveríamos nós.

Portanto, devemos ter maior preocupação pelos filhos dos homens do que por qualquer das criaturas inferiores, e por nossas próprias almas preciosas e as dos outros do que por qualquer das riquezas e prazeres deste mundo.

  1. De tudo isso podemos aprender:

(1.) Que, embora Deus possa permitir que seu povo caia em pecado, contudo não permitirá que permaneçam nele, mas tomará um caminho para lhes mostrar eficazmente seu erro e levá-los a voltar a si mesmos e ao seu bom senso.

Temos motivo para esperar que Jonas, depois disso, tenha ficado bem reconciliado com Nínive ser poupada, e tão satisfeito com isso quanto jamais estivera descontente.

(2.) Que Deus se justificará nos métodos de sua graça para com pecadores que se arrependem e retornam, assim como no curso que sua justiça toma com aqueles que persistem em sua rebelião.

Embora haja aqueles que murmuram contra a misericórdia de Deus, porque não a compreendem (pois seus pensamentos e caminhos nisso estão tão acima dos nossos quanto o céu acima da terra), contudo ele tornará evidente que nisso age como ele mesmo, e será justificado quando falar.

Veja quanto trabalho ele tem com Jonas para convencê-lo de que é muito apropriado que Nínive seja poupada. Jonas havia dito: “Faço bem em estar irado”, mas não podia prová-lo. Deus diz e prova: “Faço bem em ser misericordioso”.

É um grande ânimo para pobres pecadores esperarem encontrar misericórdia com ele, o fato de ele estar tão pronto a se justificar por mostrar misericórdia e a triunfar naqueles que torna monumentos dela, contra aqueles cujo olho é mau porque o dele é bom.

Esses murmuradores serão levados a compreender esta doutrina: por mais estreitas que sejam suas almas, seus princípios, e por mais dispostos que estejam a monopolizar a graça divina para si mesmos e para os de seu próprio caminho, há um Senhor sobre todos, que é rico em misericórdia para todos os que o invocam.

E em toda nação, em Nínive assim como em Israel, aquele que teme a Deus e pratica a justiça é aceito por ele; aquele que se arrepende e se volta de seu mau caminho encontrará misericórdia com ele.


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