Matthew Henry

Joel 2

Argumento

Neste capítulo temos: I. Uma descrição adicional da terrível desolação que os gafanhotos e as lagartas causariam na terra de Judá, vv. 1-11. II. Um chamado sério ao povo, sob esse doloroso juízo, para voltar e arrepender-se, jejuar e orar, e buscar a misericórdia de Deus, com orientações para fazê-lo corretamente, vv. 12-17.

III. A promessa de que, após o arrependimento deles, Deus afastaria o juízo, repararia os estragos causados por ele e lhes restituiria a abundância de todas as coisas boas, vv. 18-27. IV. Uma predição do estabelecimento do reino do Messias no mundo, mediante o derramamento do Espírito nos últimos dias, vv. 28-32.

Assim, o começo deste capítulo se torna terrível pelos sinais da cólera de Deus, mas o final se torna consolador pelas garantias do seu favor. É pelo caminho do arrependimento que essa bendita mudança acontece.

Portanto, embora só o último parágrafo do capítulo aponte diretamente para os tempos do evangelho, ainda assim o capítulo inteiro pode ser aproveitado como tipo e figura: representa as maldições da lei que invadem os homens por seus pecados e os consolos do evangelho que fluem até eles mediante o arrependimento.

Versículos 1 a 11

Ameaças de Juízo. (a.C. 720.)

Aqui temos Deus contendendo com o seu próprio povo professo por causa dos pecados deles e executando contra eles o juízo escrito na lei (Deuteronômio 28:42): “O gafanhoto consumirá o fruto da tua terra”. Essa era uma das doenças do Egito que Deus traria sobre eles, v. 60.

I. Aqui se proclama a guerra (v. 1): “Tocai a trombeta em Sião”, seja para reunir o exército invasor, caso em que a trombeta soa a ordem de ataque, seja, mais provavelmente, para avisar Judá e Jerusalém da aproximação do juízo, a fim de que se preparassem para encontrar o seu Deus no caminho dos seus juízos e procurassem afastar o golpe com orações e lágrimas, a melhor artilharia da igreja.

Era função dos sacerdotes tocar a trombeta (Números 10:8), tanto como apelo a Deus no dia da aflição deles quanto como convocação ao povo para reunir-se e buscar a sua face. Repare: é tarefa dos ministros advertir, com base na palavra de Deus, sobre as consequências fatais do pecado e revelar a sua cólera do céu contra a impiedade e a injustiça dos homens.

E, embora não seja privilégio de Sião e Jerusalém ficar isentas dos juízos de Deus se o provocarem, é privilégio delas receber aviso desses juízos, para que possam fazer as pazes com ele. Até no santo monte deve soar o alarme, e então ele soa de modo ainda mais terrível, Amós 3:2.

Ora, tocar-se-á uma trombeta na cidade, na cidade santa, sem que o povo tenha medo? Certamente terá. Amós 3:6. “Tremam todos os moradores da terra”; o próprio juízo os fará tremer. Que tremam, portanto, ao ouvir o seu alarme.

II. Aqui se dá uma ideia geral do dia da batalha, que vem, que está perto, e que não há como evitar. É o dia do Senhor, o dia do seu juízo, no qual ele tanto se manifestará quanto se engrandecerá.

É dia de trevas e escuridão (v. 2), literalmente, pois os enxames de gafanhotos e lagartas seriam tão vastos e densos que escureceriam o céu (Êxodo 10:15); ou, antes, figuradamente: seria um tempo sombrio, de penosa aflição.

E virá como a manhã que se espalha pelos montes. As trevas desse dia chegarão tão subitamente quanto a luz da manhã, serão tão irresistíveis, se espalharão tão longe e crescerão sobre eles como a luz da manhã.

III. Aqui o exército está disposto em ordem de batalha (v. 2): “É um povo grande e poderoso”. Quem vê a enorme quantidade de gafanhotos e lagartas que haverá, destruindo a terra, dirá (pois todos tendemos a ser mais afetados pelo que está presente): “Certamente, nunca houve algo semelhante antes, nem jamais haverá de novo”.

Repare: juízos extraordinários são acontecimentos raros e pouco frequentes, o que é uma demonstração da paciência de Deus. Depois que Deus afogou o mundo uma vez, prometeu nunca mais fazê-lo. O exército é descrito aqui como:

  1. Muito ousado e atrevido: eles são como cavalos, como cavalos de guerra que avançam para a batalha e não se assustam (Jó 39:22); e como cavaleiros, impelidos por ardor e fúria marciais, assim correrão, v. 4. Alguns antigos observaram que a cabeça de um gafanhoto se parece muito, na forma, com a cabeça de um cavalo.

  2. Muito barulhento e ruidoso: como o ruído de carros, de muitos carros, quando são conduzidos impetuosamente sobre terreno acidentado, pelo cume dos montes, v. 5. Daí se tomou parte da descrição dos gafanhotos que São João viu subir do poço do abismo.

Apocalipse 9:7, 9: “As formas dos gafanhotos eram semelhantes a cavalos preparados para a batalha”; e “o ruído das suas asas era como o ruído de carros, de muitos cavalos que correm para a batalha”. Historiadores nos dizem que o ruído produzido por enxames de gafanhotos nos países infestados por eles às vezes foi ouvido a seis milhas de distância.

O ruído também é comparado ao de um fogo crepitante: é como o ruído de uma chama que devora o restolho. Esse ruído é ainda mais terrível porque aquilo que ele anuncia devora. Repare: quando os juízos de Deus percorrem a terra, fazem grande ruído; e é necessário que assim aconteça para despertar um mundo despreocupado e insensível.

(3.) Eles são muito disciplinados e mantêm as fileiras em sua marcha. Embora numerosos e ávidos por despojo, são como um povo poderoso disposto em ordem de batalha (v. 5): “Cada um marchará em seu caminho”, sempre em frente, como se tivesse sido treinado pela disciplina militar a manter seu posto e acompanhar o homem à sua direita.

“Não romperão as fileiras, nem um empurrará o outro”, vv. 7-8. Nem a quantidade nem a rapidez deles causarão confusão. Veja como Deus pode fazer criaturas que não têm razão agirem segundo regras, quando pretende servir-se delas para cumprir seus propósitos.

E veja como é necessário que os empregados em algum serviço para Deus observem a ordem e mantenham as fileiras, prosseguindo diligentemente no próprio trabalho e não se pondo no caminho uns dos outros.

  1. São muito velozes: correm como cavaleiros (v. 4), correm como homens poderosos (v. 7); correm de um lado para outro na cidade e sobre os muros, v. 9. Quando Deus envia a sua ordem à terra, “a sua palavra corre muito velozmente”, Salmos 147:15. Os anjos têm asas, e os gafanhotos também, quando Deus se vale deles.

IV. Aqui está a terrível devastação causada por esse exército temível:

  1. No campo, v. 3. Observe o exército pela frente e verá um fogo devorando diante dele; consome tudo como se respirasse fogo. Observe-o pela retaguarda e verá que os que vêm atrás são tão furiosos quanto os da frente: atrás deles arde uma chama. Depois que partirem, ficará evidente a destruição que fizeram.

Olhe para os campos que eles ainda não invadiram: são como o jardim do Éden, agradáveis aos olhos e cheios de bons frutos; são o orgulho e a glória da região. Mas olhe para os campos que devoraram: são como um deserto assolado.

Ninguém pensaria que estes tinham sido como aqueles, embora talvez o fossem apenas no dia anterior, nem que aqueles se tornariam como estes, embora talvez se tornem até amanhã à noite. Sim, nada que possa servir-lhes de alimento lhes escapará. Que ninguém se orgulhe da beleza das suas terras mais do que da beleza do seu corpo, pois Deus pode mudar rapidamente o aspecto de ambos.

  1. Na cidade. Escalarão o muro (v. 7), correrão sobre as casas e entrarão pelas janelas como um ladrão (v. 9). Quando o Egito sofreu a praga dos gafanhotos, eles encheram as casas de Faraó e dos seus servos, Êxodo 10:5-6. Os gafanhotos do poço do abismo, emissários de Satanás e missionários do homem do pecado, fazem como esses gafanhotos.

Os juízos de Deus também, quando chegam incumbidos de uma missão, não podem ser barrados por trancas e ferrolhos; encontrarão ou abrirão à força o seu caminho.

V. As impressões que isso deveria produzir no povo. Eles descobrirão que é inútil resistir. Esses inimigos são invulneráveis e, portanto, irresistíveis: “Quando caírem sobre a espada, não serão feridos”, v. 8. E os que não podem ser feridos não podem ser detidos.

Por isso, diante deles o povo ficará muito angustiado (v. 6), como os mercadores se angustiam por seus navios de comércio quando ouvem que estes acabam de entrar na boca de uma esquadra inimiga. “Um se angustia pelo seu campo; outro, pela sua vinha; e todos os rostos se tornam negros”, o que denota a maior consternação imaginável.

Os homens amedrontados empalidecem, mas os desesperados escurecem; a palidez do susto repentino, quando o susto se fixa, transforma-se em negrura. Deus pode fazer daquilo que é motivo do nosso orgulho e prazer motivo da nossa dor.

O terror que tomaria a região é descrito (v. 10) por expressões figuradas: “A terra tremerá, e os céus se abalarão”. Até os corações que pareciam destemidos, tão firmes que nada os assustaria, tão imóveis quanto o céu ou a terra, serão tomados de espanto. Ou, quando os habitantes da terra são levados a tremer, parece-lhes que tudo ao redor deles também treme.

Devido à força do medo que sentem, ou à falta dos meios de subsistência que costumavam ter, seus olhos se enfraquecerão e a visão lhes faltará; assim, o sol e a lua lhes parecerão escurecidos, e as estrelas lhes parecerão retirar o brilho.

Repare: quando Deus franze o rosto para os homens, as luzes do céu lhes darão pouca alegria; pois o homem, ao rebelar-se contra o seu Criador, perdeu o direito ao benefício de todas as criaturas.

Contudo, embora isso deva ser entendido figuradamente, virá o dia em que se cumprirá ao pé da letra, quando os céus serão enrolados como um pergaminho e a terra, com todas as obras que nela há, será queimada. Os juízos particulares devem despertar-nos para pensar no juízo geral.

VI. Somos aqui orientados a olhar para aquele que é o comandante supremo desse exército temível: o próprio Deus, v. 11. É o seu exército, o seu acampamento. Ele o levantou e lhe deu autorização; faz ouvir a sua voz diante dele, como o general que dá ordens ao exército sobre o que fazer e profere um discurso para animar os soldados.

É o Senhor quem dá a todos esses animais a palavra de ordem, que eles cumprem exatamente. Alguns pensam que Deus enviou trovões terríveis juntamente com essa nuvem de gafanhotos, pois o trovão é chamado de “voz do Senhor” e foi outra das pragas do Egito; isso fez tremer os céus e a terra.

É o dia do Senhor (como foi chamado no v. 1), pois nessa guerra temos certeza de que ele alcança a vitória. É necessariamente seu, porque o seu acampamento é grande e numeroso. Aqueles contra quem ele guerreia, como aqui, ele pode esmagar pelo número.

E quem quer que ele empregue para executar a sua palavra, como ministro da sua justiça, certamente será fortalecido e par negotio, isto é, à altura da tarefa que assume. A quem Deus dá uma missão, reveste de força para cumpri-la.

Isso torna o grande dia do Senhor muito terrível para todos os que nesse dia serão feitos monumentos da sua justiça; pois quem poderá suportá-lo? Ninguém pode escapar de ser capturado pela cólera de Deus, fazer frente à sua força ou suportar o seu peso, 1 Samuel 6:20; Salmos 76:7.

Versículos 12 a 17

Exortação ao Arrependimento. (a.C. 720.)

Temos aqui uma exortação fervorosa ao arrependimento, deduzida do juízo devastador descrito e ameaçado nos versículos anteriores: Portanto, agora, voltem-se para o Senhor. 1. “Assim vocês devem corresponder ao fim e à intenção do juízo, pois ele foi enviado para convencê-los dos seus pecados, humilhá-los por eles, reconduzi-los ao juízo correto e à lealdade.”

Deus nos põe em dificuldades para levar-nos ao arrependimento e, assim, levar-nos a si mesmo. 2. “Assim vocês podem deter o avanço do juízo. A sua situação está ruim, mas desse modo podem impedir que piore; ou melhor, se seguirem esse caminho, logo melhorará.” Aqui está um convite gracioso:

I. A um arrependimento pessoal, exercitado na alma, cada família à parte e suas mulheres à parte, Zacarias 12:12.

Quando os juízos de Deus percorrem a terra, cada pessoa deve contribuir com sua parte para as súplicas comuns, pois contribuiu para a culpa comum. Cada um deve corrigir a si mesmo e lamentar os próprios pecados; assim todos seríamos corrigidos e todos encontrados entre os que lamentam diante de Deus. Observe:

  1. Aquilo a que somos chamados aqui, o que nos ensinará o que é arrepender-se, pois é o mesmo que o Senhor nosso Deus ainda exige de nós, já que todos demos motivo para arrependimento:

(1.) Devemos ser verdadeiramente humilhados por nossos pecados; devemos lamentar que, pelo pecado, ofendemos a Deus, e envergonhar-nos de que, pelo pecado, prejudicamos a nós mesmos, tanto o nosso discernimento quanto os nossos interesses.

Deve haver expressões exteriores de tristeza e vergonha: jejum, pranto e lamento; lágrimas pelo pecado que trouxe o juízo. Mas de que valerão as expressões exteriores de tristeza se as impressões interiores não corresponderem a elas, não apenas as acompanhando, mas sendo sua raiz e sua fonte, dando-lhes origem?

Por isso vem em seguida: “Rasguem o coração, e não as vestes”. Não que, segundo o costume daquela época, fosse impróprio rasgarem as vestes em sinal de grande pesar pelos seus pecados e de santa indignação contra si mesmos pela própria insensatez.

Mas: “Não se contentem em fazer isso, como se bastasse; cuidem mais de preparar o espírito do que de preparar a roupa para um dia de jejum e humilhação. Ou melhor, não rasguem de modo algum as vestes sem rasgar também o coração, pois o sinal sem aquilo que significa é apenas uma brincadeira, uma zombaria e uma afronta a Deus.”

Rasgar o coração é o que Deus espera e exige; esse é o coração quebrantado e contrito que ele não desprezará, Salmos 51:17.

Quando sentimos profunda tristeza na alma pelo pecado, a ponto de nos cortar o coração pensar em como, por ele, desonramos a Deus e nos diminuímos; quando concebemos aversão ao pecado e desejamos ardentemente, esforçando-nos por libertar-nos dos seus princípios e nunca retornar à sua prática, então rasgamos o coração por causa dele.

Deus então rasgará os céus e descerá a nós com misericórdia.

(2.) Devemos converter-nos inteiramente ao nosso Deus e voltar para casa, para junto dele, quando rompemos com o pecado. “Voltem-se para mim”, disse o Senhor (v. 12), e de novo (v. 13): “Voltem-se para o Senhor, seu Deus”. Nosso jejum e pranto nada valem se não voltarmos com eles a Deus como nosso Deus.

Quando nos convencemos plenamente de que é nosso dever e interesse permanecer em comunhão com ele e lamentamos sinceramente ter-lhe dado as costas; quando, por isso, mediante resolução firme e estável, fazemos da sua glória o nosso fim, da sua vontade a nossa regra e do seu favor a nossa felicidade, então voltamos ao Senhor, nosso Deus. Todos somos ordenados e convidados a fazê-lo, e sem demora.

  1. Os argumentos usados aqui para persuadir esse povo a voltar assim ao Senhor, e a voltar a ele de todo o coração. Quando o coração é rasgado por causa do pecado e separado dele, fica preparado para voltar inteiramente a Deus e dedicar-se inteiramente a ele; Deus o quer por inteiro ou não o quer.

Ora, para chegar a isso, consideremos:

(1.) Estamos certos de que ele é, em geral, um Deus bom. Devemos voltar ao Senhor, nosso Deus, não só porque ele foi justo e reto ao punir-nos por nossos pecados, temor que deve impelir-nos a ele, mas também porque é gracioso e misericordioso ao receber-nos quando nos arrependemos, esperança que deve atrair-nos a ele.

Ele é gracioso e misericordioso: não tem prazer na morte dos pecadores, mas deseja que se voltem e vivam. É tardio em irar-se contra os que o ofendem, mas de grande bondade para com os que desejam agradar-lhe.

Essas mesmas expressões são usadas na proclamação do nome de Deus, quando ele fez passar diante de Moisés a sua bondade e, com ela, toda a sua glória, Êxodo 34:6-7. Ele se arrepende do mal, não porque mude de ideia, mas porque, quando a mente do pecador muda, muda o modo como Deus age para com ele; a sentença é revertida e a maldição da lei é retirada.

Repare: o arrependimento verdadeiro, franco e evangélico nasce da firme crença na misericórdia do Deus contra quem pecamos, e por isso não caímos no desespero. “Arrependam-se, porque o reino dos céus está próximo.” A bondade de Deus, se corretamente entendida, em vez de encorajar-nos a continuar no pecado, será o mais forte incentivo ao arrependimento, Salmos 130:4.

O ato de perdão traz a Deus aqueles que o ato de condenação havia afugentado dele.

(2.) Temos motivo para esperar que, após o nosso arrependimento, ele nos dê o bem que perdemos e do qual nos privamos pelo pecado (v. 14): que ele volte e se arrependa, que não continue a agir contra nós como tem agido, mas aja em nosso favor.

Por isso, arrependamo-nos dos nossos pecados contra ele e voltemos a ele pelo caminho do dever, pois então podemos esperar que ele se arrependa dos seus juízos contra nós e volte a nós pelo caminho da misericórdia. Observe agora:

[1.] A maneira de esperar é muito humilde e modesta: “Quem sabe se ele voltará?” Alguns pensam que isso é dito com dúvida para refrear a presunção e a despreocupação do povo e estimulá-lo a santo zelo e vivacidade no arrependimento, como em Josué 24:19.

Ou, antes, a dúvida se deve ao fato de que eles esperam aqui a remoção de um juízo temporal. Não podemos ter tanta certeza disso quanto podemos ter de que, em geral, Deus é gracioso e misericordioso. Não há dúvida alguma de que, se nos arrependermos verdadeiramente dos nossos pecados, Deus os perdoará e se reconciliará conosco.

Mas é razoável perguntar se ele removerá esta ou aquela aflição sob a qual estamos; ainda assim, a probabilidade de que o faça deve encorajar-nos a arrepender-nos. As promessas de bens temporais muitas vezes vêm com um talvez: “Pode ser que vocês sejam escondidos”, Sofonias 2:3.

O pecado de Davi foi perdoado e, ainda assim, o filho morreria. Quando Davi orou pela vida dele, disse, como aqui: “Quem sabe se Deus também terá misericórdia de mim neste assunto?”, 2 Samuel 12:22. Os ninivitas se arrependeram e se reformaram com base numa consideração como esta, Jonas 3:9.

[2.] O objeto da expectativa é muito piedoso. Eles esperam que Deus volte, se arrependa e deixe uma bênção atrás de si. Não é que esteja prestes a afastar-se deles e que se contentariam com qualquer bênção em lugar da sua presença.

“Atrás de si” quer dizer: “Depois de encerrar a sua contenda conosco, ele nos concederá uma bênção.” E qual é ela? Uma oferta de manjares e uma oferta de libação ao Senhor, nosso Deus.

Os frutos da terra são chamados de bênção (Isaías 45:8), pois dependem da bênção de Deus e são bênçãos necessárias para nós. Eles haviam sido privados desses frutos, e o que mais os entristecia nessa privação era que o altar de Deus estava privado das suas ofertas, e os sacerdotes de Deus, do seu sustento.

Por isso, aquilo que os confortava na perspectiva do retorno da abundância era que então haveria ofertas de manjares e de libação em grande quantidade trazidas ao altar de Deus. Desejavam isso mais do que ver a abundância habitual de alimento e bebida chegar às próprias mesas.

Assim, quando Ezequias esperava recuperar-se da doença, perguntou: “Qual é o sinal de que subirei?” Não ao trono de julgamento nem à mesa do conselho, mas “à casa do Senhor?”, Isaías 38:22.

Repare: o desfrute abundante das ordenanças de Deus, em seu poder e pureza, é a mais valiosa expressão da prosperidade de uma nação e a maior bênção que se pode desejar. Se Deus der a bênção da oferta de manjares e da oferta de libação, ela trará consigo outras bênçãos, que serão santificadas, tornadas mais agradáveis e asseguradas por ela.

II. Eles são aqui chamados a um arrependimento público e nacional, a ser exercitado na assembleia solene como ato nacional, para a glória de Deus e o estímulo mútuo. Assim, as nações vizinhas poderiam saber e observar o que os habilitou a receber a graciosa resposta de Deus em misericórdia, da qual seriam testemunhas admiradas. Vejamos aqui:

  1. Como a congregação deve ser reunida, vv. 15-16. A trombeta foi tocada (v. 1) para soar um alarme de guerra; agora, porém, deve soar para um tratado de paz. Deus está disposto a mostrar misericórdia ao seu povo, se o encontrar em disposição adequada para recebê-la. Por isso: “Reúnam-nos; santifiquem um jejum”.

Pela lei, muitas festas anuais foram estabelecidas, mas apenas um dia por ano devia ser observado como jejum: o dia da expiação, dia de afligir a alma. Se tivessem permanecido fiéis a Deus e ao seu dever, não haveria ocasião para observar outros jejuns. Agora, porém, que trouxeram sobre si os juízos de Deus pelo pecado, são frequentemente chamados a jejuar.

Repete-se aqui o que foi dito em Joel 1:14: “Convocai uma assembleia solene; reuni o povo”, insistindo para que se reúna com esse propósito. “Santificai a congregação; marquem antecipadamente um tempo de preparação solene e lembrem-lhes de preparar-se. Não dispensem os mais importantes: reúnam os anciãos, os juízes e os magistrados.”

“Não deixem de fora os mais humildes: reúnam as crianças e os que mamam ao peito.” É bom levar as crianças pequenas às assembleias religiosas assim que forem capazes de compreender alguma coisa, para que sejam instruídas desde cedo no caminho em que devem andar.

Mas estas eram levadas até mesmo enquanto ainda mamavam e eram mantidas em jejum, para que seus clamores pelo peito movessem o coração dos pais a arrepender-se do pecado. Deus poderia, com justiça, castigá-los em seus filhos, fazendo com que “a língua da criança de peito se cole ao céu da boca” (Lamentações 4:4); e poderia ter compaixão das crianças, como teve dos pequeninos de Nínive, Jonas 4:11.

Os recém-casados não devem ser dispensados: “Saia o noivo do seu quarto, e a noiva, do seu aposento”. Não devem ostentar o aparato costumeiro, nem vestir seus adornos, nem entregar-se à alegria, mas dedicar-se aos deveres do jejum público com tanta gravidade e tristeza quanto qualquer de seus vizinhos.

Repare: as alegrias particulares devem sempre ceder às tristezas públicas, tanto as causadas pela aflição quanto as causadas pelo pecado.

  1. Como se deve conduzir a obra do dia, v. 17:

(1.) Os sacerdotes, ministros do Senhor, devem presidir a congregação e ser a boca de Deus para o povo e a boca do povo para Deus. Quem deveria pôr-se na brecha para afastar a cólera de Deus senão aqueles cujo ofício era interceder nas ocasiões comuns?

(2.) Devem ministrar entre o pórtico e o altar. Ali costumavam cuidar dos sacrifícios; agora que não têm sacrifícios para oferecer, ou quase nenhum, ali devem oferecer sacrifícios espirituais. Ali o povo deve vê-los chorando e lutando, como seu pai Jacó, e ser ajudado a alcançar a mesma disposição devota.

Os ministros devem sentir eles próprios o peso das coisas com as quais desejam tocar os outros. Foi entre o pórtico e o altar que Zacarias, filho de Joiada, foi morto por sua fidelidade. Deus lhes pediria contas por esse sangue precioso; por isso, para afastar o juízo ameaçado por causa dele, ali devem chorar.

(3.) Devem orar. São postas palavras em sua boca, que podem desenvolver em suas orações. A petição deve ser: “Poupa o teu povo, ó Senhor!” O povo de Deus, quando está aflito, não pode esperar alívio diante da justiça divina senão aquele que vem da sua misericórdia.

Não podem dizer: “Senhor, faz-nos justiça”, mas: “Senhor, poupa-nos”. “Merecemos a correção e precisamos dela; mas, Senhor, ameniza-a.” A súplica do pecador é: “Poupa-nos, bom Senhor”.

Seu apelo deve apoiar-se na relação que têm com Deus (“São o teu povo e a tua herança; portanto, tem compaixão deles”), mas especialmente no interesse da glória de Deus em meio à aflição deles:

“Senhor, não entregues a tua herança à vergonha, à vergonha da fome. Não permitas que a terra de Canaã, há tanto celebrada como a glória de todas as terras, se torne agora o escárnio de todas elas. Não deixes que os pagãos dominem sobre eles, como poderão facilmente fazer quando a tua herança estiver tão empobrecida e incapaz de subsistir.”

“Não permitas que os pagãos façam deles um provérbio ou uma expressão de escárnio” (assim leem alguns); “que nunca se diga: ‘Tão pobre e miserável quanto um israelita'”. Repare: a preservação do bom nome de uma nação entre seus vizinhos é bênção que todos os que lhe desejam o bem devem desejar e pedir em oração.

Mas é especialmente temível, e deve ser evitada em oração, a vergonha da igreja que lança descrédito sobre Deus: “Que não digam entre os povos: ‘Onde está o Deus deles, aquele Deus que prometeu ajudá-los, de quem tanto se vangloriaram e em quem depositaram tanta confiança?'”

Se a herança de Deus for destruída, os vizinhos dirão: “Deus era fraco e não podia socorrê-los, ou faltou-lhe bondade e não quis fazê-lo”. Deuteronômio 32:37 pergunta onde estão agora os seus deuses, em quem confiavam. E assim Senaqueribe triunfa sobre eles: “Onde estão os deuses de Hamate e Arpade?”

Mas de modo algum se deve permitir que digam de Israel: “Onde está o Deus deles?” Pois temos certeza de que o nosso Deus está nos céus (Salmos 115:2-3) e está no seu templo, Salmos 11:4.

Versículos 18 a 27

Promessa de Misericórdia. (a.C. 720.)

Veja como Deus está pronto para socorrer e aliviar o seu povo, como espera para ser gracioso. Assim que se humilham sob a sua mão, oram e buscam a sua face, ele prontamente os encontra com os seus favores.

Eles oraram para que Deus os poupasse; veja aqui com que palavras boas e consoladoras ele lhes respondeu. As promessas de Deus são respostas reais às orações de fé, pois, para ele, dizer e fazer não são duas coisas. Observe agora:

I. De onde surgirá a misericórdia prometida (v. 18): Deus terá zelo pela sua terra e compaixão do seu povo. Ele atentará:

  1. Para a própria honra e a reputação da sua aliança com Israel, pela qual lhes entregara aquela boa terra e a avaliara em altíssimo valor. Agora, não permitirá que ela seja desprezada ou diminuída; terá zelo pelo bom nome da sua terra e dos seus habitantes, que tinham sido louvados como povo feliz e, portanto, não deviam ficar expostos ao descrédito como povo miserável.

  2. Para a aflição deles: terá compaixão do seu povo e, por compaixão, lhe restituirá os consolos a que perdera o direito. A compaixão de Deus é grande estímulo para os que se aproximam dele humildemente como penitentes e suplicantes.

II. Qual será a sua misericórdia, em diversas manifestações:

  1. O exército destruidor será disperso e derrotado (v. 20): “Afastarei para longe de vocês o exército do norte, aquele exército de gafanhotos e lagartas que os invadiu pelo norte, trazido nas asas de um vento norte. Vocês não puderam deter o seu avanço; mas, quando fizerem as pazes com Deus, ele os livrará desses soldados aquartelados em sua terra.”

“Ele os expulsará para uma terra estéril e assolada, para aquele vasto deserto uivante onde Israel peregrinou. Ali, depois de se empanturrarem da abundância de Canaã, perecerão por falta de sustento. Os que estiverem voltados para o mar oriental (o mar Morto, a leste da Judeia) perecerão nele; a retaguarda do exército se perderá no Grande Mar”, chamado aqui de mar extremo.

Eles tornaram a terra estéril e assolada; agora Deus os lançará numa terra estéril e assolada. Assim, aqueles que Deus emprega para corrigir o seu povo são depois chamados, eles próprios, a prestar contas; e a vara é lançada ao fogo. Desses enxames de insetos restará apenas o mau cheiro.

Quando o Egito foi aliviado da praga dos gafanhotos, estes foram levados para o mar Vermelho, Êxodo 10:19. Repare: quando uma aflição tiver cumprido sua tarefa, será removida com misericórdia, como os gafanhotos de Canaã foram removidos de um povo arrependido.

Os gafanhotos do Egito, ao contrário, foram removidos, em ira, de diante de um príncipe impenitente, apenas para dar lugar a outra praga. Muitos intérpretes entendem que esse exército do norte é o de Senaqueribe, disperso quando Deus, por meio dele, cumpriu toda a sua obra no monte Sião e em Jerusalém, Isaías 10:12.

Esse inimigo será expulso porque fez grandes coisas: causou muitos danos e se engrandeceu para causá-los, agindo com orgulho no coração. Por isso vem em seguida (v. 21): O Senhor fará grandes coisas em favor do seu povo, assim como o inimigo fez grandes coisas contra eles, para convencê-los de que Deus está e estará acima deles naquilo em que agem com orgulho.

Por maiores que fossem as coisas que fizeram, não fizeram mais do que Deus lhes ordenou fazer. Assim como, quando ele lhes disse “Vão”, foram, também, quando lhes disse “Venham”, vieram, mostrando que eram soldados sob seu comando.

  1. A terra devastada será regada e tornada fértil. Quando o exército estiver disperso, que faremos se a desolação que causou continuar? Por isso se promete (v. 22) que os pastos do deserto, os pastos que os gafanhotos deixaram tão despidos quanto o deserto, brotarão novamente, e as árvores tornarão a dar frutos, especialmente a figueira e a videira.

Mas, quando vemos como a região foi arruinada, somos tentados a perguntar: “Poderão viver estes ossos secos?” Se o Senhor abrisse janelas no céu, isso não seria possível; contudo, será. Pois (v. 23) o Senhor lhes deu e lhes dará a chuva temporã e a serôdia; e, se as der com misericórdia, as dará com moderação, de modo que a chuva não se torne um juízo.

Ele as dará na estação devida: a chuva serôdia no primeiro mês, quando era necessária e esperada. Seria consolador para eles vê-la vir da mão de Deus e ser ordenada pela sua sabedoria, pois então temos certeza de que está bem ordenada.

“Ele lhes deu um mestre de justiça” (assim diz a leitura marginal, pois a mesma palavra que significa chuva significa também mestre, e o que traduzimos por “com moderação” significa “segundo a justiça”). Um dos rabinos diz que esse mestre de justiça é o Rei Messias; muitos outros também entendem assim, pois ele é um mestre vindo de Deus e nos mostra o caminho da justiça.

Outros, porém, entendem que se trata de qualquer profeta que instrui para a justiça; alguns pensam especificamente em Ezequias, outros em Isaías. Repare: é bom sinal de que Deus reserva misericórdia para um povo quando lhe envia mestres de justiça, pastores segundo o seu coração.

  1. Todas as perdas deles serão reparadas (v. 25): “Restituirei a vocês os anos que o gafanhoto devorou; vocês serão consolados na medida do tempo em que foram afligidos e terão anos de abundância para compensar os anos de fome”.

Assim o Senhor se arrepende quanto aos seus servos quando eles se arrependem. Para mostrar quão perfeitamente se reconciliou com eles, repara os estragos que sofreram por seus juízos e, como o carcereiro, lava-lhes as feridas. Embora, em justiça, tenha penhorado seus bens e não lhes tenha feito injustiça, em compaixão lhes dá restituição.

Assim fez o pai do filho pródigo: quando o filho voltou, compensou tudo o que ele perdera por seu pecado e sua insensatez e o recebeu em sua família na condição anterior. Os gafanhotos e as lagartas são aqui chamados de “meu grande exército, que enviei entre vocês”. Deus reparará o que eles devoraram, pois eram o seu exército.

  1. Terão grande abundância de todas as coisas boas. A terra dará o seu fruto e eles o desfrutarão. Olhe para os depósitos onde o guardam: verá as eiras cheias de trigo, e as cubas transbordando de vinho e óleo (v. 24). No dia da aflição deles, porém, o vinho e o óleo definhavam e os celeiros estavam destruídos, Joel 1:10, 17.

Olhe para as mesas deles, onde servem o que armazenaram: verá que comem em abundância e se satisfazem, v. 26. Não comem em excesso nem se empanturram. Esperamos que a aflição recente tenha curado os beberrões do amor desordenado pelo vinho e pela bebida forte.

Embora antes fossem apresentados lamentando a escassez (Joel 1:5), agora são apresentados cantando por causa da abundância. Todos terão o suficiente e saberão quando o tiverem, pois Deus tornará o alimento nutritivo e lhes concederá contentar-se com ele.

Essas são as misericórdias prometidas, e nelas Deus faz grandes coisas (v. 21); ele age maravilhosamente com o seu povo, v. 26. Nelas glorifica o seu poder e mostra que pode aliviar o seu povo, por maior que seja a sua aflição. Também glorifica a sua bondade ao fazê-lo após o arrependimento deles, por maiores que tenham sido as suas provocações.

Repare: quando Deus trata com graça os pobres pecadores que voltam a ele, deve-se reconhecer que age maravilhosamente e faz grandes coisas.

Alguns expositores entendem essas promessas figuradamente, como indicações da graça do evangelho, cumpridas nos abundantes consolos guardados para os crentes na aliança da graça e na satisfação da alma que nela encontram.

Quando Deus nos envia suas promessas como matéria do nosso consolo, suas graças como fundamento dele e seu Espírito como seu autor, podemos muito bem reconhecer que nos enviou (segundo a promessa aqui, v. 19) cereal, vinho e óleo, ou aquilo que é incomparavelmente melhor, e temos motivo para ficar satisfeitos.

III. Que uso se fará dessas manifestações da misericórdia de Deus para com eles e que bom proveito tirarão delas:

  1. Deus receberá a glória, pois eles se alegrarão no Senhor, seu Deus (v. 23), e aquilo que lhes causa alegria será motivo de gratidão. Louvarão o nome do Senhor, seu Deus (v. 26), e não os seus ídolos; tampouco chamarão seu cereal e seu vinho de recompensas que seus amantes lhes deram.

Repare: a abundância dos confortos terrenos é verdadeira misericórdia para nós quando, por meio deles, nosso coração se expande em amor e gratidão a Deus, que nos dá ricamente todas as coisas para delas desfrutarmos, embora o sirvamos tão pobremente.

Quando Deus nos restitui a abundância depois de conhecermos a escassez, ela nos é duplamente agradável e deve tornar-nos ainda mais gratos a ele. Quando Israel sai de um deserto e entra em Canaã, e ali come até fartar-se, certamente bendirá então o Senhor, com prazer bem sentido, pela boa terra que ele lhe deu, Deuteronômio 8:10.

  1. Eles terão o bom nome, o consolo e o benefício espiritual decorrentes disso. Quando Deus lhes devolve a abundância e lhes permite satisfazer-se com ela:

(1.) Sua reputação será recuperada. Eles e seu Deus não serão mais acusados de infidelidade recíproca, depois que voltarem a ele pelo caminho do dever e ele voltar a eles pelo caminho da misericórdia (v. 19): “Não farei mais de vocês um objeto de vergonha entre os pagãos, que triunfaram com as suas calamidades e os insultaram”.

E, nos vv. 26-27: “Meu povo nunca mais será envergonhado”, como foi, por causa da sua boa terra, da qual costumava vangloriar-se; terá de novo, e para sempre, o mesmo motivo de vangloriar-se dela.

Repare: é grande honra para Deus fazer aquilo que preserva a honra do seu povo. Os que são verdadeiramente seu povo, embora possam por algum tempo ser objeto de vergonha entre os pagãos, não o serão para sempre. Se nos envergonharmos como devemos dos nossos pecados contra Deus, nunca nos envergonharemos de gloriar-nos nele.

(2.) Suas alegrias serão reavivadas (v. 23): “Alegra-te e regozija-te, ó terra!”, e todos os seus habitantes. Tempos de abundância costumam ser tempos de alegria; contudo, o favor de Deus põe no coração mais alegria do que a experimentada pelos que têm aumento de cereal, vinho e óleo.

Mas, em especial, alegrem-se vocês, filhos de Sião, e regozijem-se no Senhor, seu Deus, v. 23. Lamentaram em Sião (v. 15); por isso, ali se alegrarão de modo especial. Aqueles que semeiam com lágrimas de arrependimento certamente colherão alegrias de gratidão. Os filhos de Sião, que conduziram os demais no jejum, devem conduzi-los também na alegria.

Observe, porém: eles se alegrarão no Senhor, seu Deus, mais do que nos próprios bens recebidos. Alegrar-se-ão na boa mão que os dá e no retorno do seu favor para com eles, como seu Deus em aliança. Esses bens são sinais e garantias desse favor.

A alegria da colheita e a alegria de uma festa devem ambas terminar em Deus, cujo amor devemos provar em todos os dons da sua generosidade. Assim faremos dele a nossa maior alegria, pois ele é o nosso maior bem e a fonte de todo o bem que recebemos.

(3.) Sua fé em Deus será confirmada e aumentada. Quando as misericórdias temporais, pela graça de Deus, se tornam uma vantagem espiritual para nós, e a abundância para o corpo, longe de ser inimiga da prosperidade da alma (como se mostra para muitos), torna-se amiga dela, então essas misericórdias são verdadeiramente misericórdias para nós.

Promete-se aqui (v. 27): “Vocês saberão que estou no meio de Israel”, “o Santo no meio de ti” (Oseias 11:9), “e que eu sou o Senhor, seu Deus, e não há outro”.

O fato de ele ferir e curar, formar a luz e as trevas, fazer o bem e o mal demonstra que o Senhor é Deus e não há outro (Isaías 45:7; Deuteronômio 32:39). Do mesmo modo, o fato de, como pai, corrigir o seu povo quando peca e consolá-lo quando se arrepende demonstra que ele é o Deus de Israel, Deus em aliança com seu povo e pai para eles.

O refrão das ameaças na profecia de Ezequiel era: trarei sobre vocês estes e aqueles males, e vocês saberão que eu sou o Senhor. Aqui, o mesmo se torna a coroa das promessas: vocês comerão, ficarão satisfeitos e se alegrarão; assim saberão que eu sou o Senhor.

Repare: devemos esforçar-nos para conhecer melhor a Deus por meio de todas as providências, tanto as misericordiosas quanto as aflitivas. Quando Deus dá ao seu povo abundância, paz e alegria após o seu retorno a ele, faz-lhe entender com isso que se agrada do seu arrependimento, que perdoou seus pecados e que é deles tanto quanto antes.

Eles são recebidos na mesma aliança com ele, pois ele é o Senhor, seu Deus; e na mesma comunhão, pois ele está no meio deles, perto deles em tudo quanto lhe pedem. Como o sol no centro dos mundos, ele está no meio deles para difundir suas influências benéficas por todas as partes da sua terra.

  1. Até as criaturas inferiores participarão disso e encontrarão alívio: “Não temas, ó terra!”, v. 21. “Não temais, animais do campo”, v. 22. Elas sofreram pelo pecado do homem e pela contenda de Deus com ele; agora se sairão melhor pelo arrependimento do homem e pela reconciliação de Deus com ele.

Mais ainda, diz-se que os animais clamaram a Deus (Joel 1:20). Agora esse clamor é atendido, e eles recebem a ordem de não temer, pois terão abundância de tudo o que a sua natureza deseja. Ao poupar Nínive, Deus levou em conta os animais (Jonas 4:11), pois eles haviam jejuado, Jonas 3:8.

Isso pode levar-nos a pensar na restauração de todas as coisas, quando a criatura, agora sujeita à vaidade e gemendo sob ela, será levada, embora não à alegria gloriosa, à liberdade gloriosa dos filhos de Deus, Romanos 8:21.

Versículos 28 a 32

Promessa de Misericórdia. (a.C. 720.)

As promessas de cereal, vinho e óleo nos versículos anteriores seriam muito bem recebidas por uma região devastada; aqui, porém, aprendemos que não devemos contentar-nos com essas coisas. Deus reservou coisas melhores para nós, e estes versículos se referem a elas: tanto ao reino da graça quanto ao reino da glória, com a felicidade dos verdadeiros crentes em ambos. Aqui nos é dito:

I. Como o reino da graça será introduzido por um derramamento abundante do Espírito (vv. 28-29). Não ficamos sem saber o significado dessa promessa, nem duvidamos do que ela se refere e de como se cumpriu. O apóstolo Pedro nos deu uma explicação e aplicação infalíveis dela.

Ele nos assegura que, quando o Espírito foi derramado sobre os apóstolos no dia de Pentecostes (Atos 2:1, etc.), aconteceu precisamente aquilo que o profeta Joel havia dito aqui, Atos 2:16, 17. Esse foi o dom do Espírito que, segundo esta predição, viria; não devemos esperar outro, assim como não esperamos outro cumprimento da promessa do Messias. Agora:

  1. A própria bênção prometida aqui é o derramamento do Espírito de Deus, dos dons, graças e consolos cujo autor é o bendito Espírito. Muitas vezes lemos no Antigo Testamento que o Espírito do Senhor vinha, por assim dizer, em gotas sobre os juízes e profetas que Deus levantava para serviços extraordinários.

Agora, porém, o Espírito será derramado abundantemente, em corrente caudalosa, como fora prometido com vistas aos tempos do evangelho, Isaías 44:3: “Derramarei o meu Espírito sobre a tua descendência”.

  1. O tempo fixado para isso é depois: depois do cumprimento das promessas anteriores, esta se cumprirá. São Pedro interpreta esse tempo como os últimos dias, os dias do Messias, por quem o mundo receberia sua última revelação da vontade e da graça divinas, nos últimos dias da igreja judaica, pouco antes da sua dissolução.

  2. A extensão dessa bênção quanto às pessoas a quem será concedida. O Espírito será derramado sobre toda a carne, não, como até então, somente sobre os judeus, mas também sobre os gentios; pois, em Cristo, não há distinção entre judeu e grego, Romanos 10:11, 12.

Até então, a revelação divina estava restrita à descendência de Abraão; ninguém fora da terra de Israel possuía o Espírito de profecia. Mas, nos últimos dias, toda a carne verá a glória de Deus (Isaías 40:5) e virá adorar diante dele, Isaías 66:23.

Os judeus entendem isso como toda a carne na terra de Israel. O próprio Pedro não compreendeu plenamente que a expressão incluía os gentios até vê-la cumprida na descida do Espírito Santo sobre Cornélio e seus amigos, que eram gentios (Atos 10:44, 45). Isso foi apenas a continuação do mesmo dom concedido no dia de Pentecostes.

O Espírito será derramado sobre toda a carne, isto é, sobre todos aqueles cujo coração foi feito coração de carne, brando e sensível e, assim, preparado para receber as impressões e influências do Espírito Santo.

“Sobre toda a carne” também significa sobre alguns de todos os tipos de pessoas. Os dons do Espírito não serão tão escassos nem tão restritos quanto têm sido, mas serão mais gerais e se espalharão mais amplamente.

(1.) O Espírito será derramado sobre pessoas de ambos os sexos. Não só “seus filhos”, mas “suas filhas profetizarão”. Lemos sobre quatro irmãs de uma mesma família que eram profetisas, Atos 21:9. Não só os pais, mas também os filhos serão cheios do Espírito, o que indica a continuidade desse dom por algumas gerações sucessivas na igreja.

(2.) Sobre pessoas de todas as idades: “Seus velhos, já sem o vigor de antes e com as forças começando a declinar, e seus jovens, que ainda têm pouco conhecimento e experiência das coisas divinas, sonharão sonhos e terão visões”. Deus se revelará por sonhos e visões tanto aos jovens quanto aos velhos.

(3.) Sobre pessoas da posição e condição mais humildes, até mesmo sobre os servos e as servas. Os doutores judeus dizem: “A profecia não repousa senão sobre os sábios, valentes e ricos, não sobre a alma do pobre nem sobre a do homem aflito”. Mas, em Cristo Jesus, não há escravo nem livre, Gálatas 3:28.

Muitos foram chamados quando eram servos (1 Coríntios 7:21), mas isso não os impediu de receber o Espírito Santo.

(4.) O efeito dessa bênção: “Profetizarão”. Receberão novas revelações das coisas divinas, não apenas para uso próprio, mas para benefício da igreja. Interpretarão as Escrituras e falarão de coisas secretas, distantes e futuras, que não poderiam conhecer nem prever por mais perspicaz que fosse sua razão ou maiores que fossem suas capacidades naturais.

Por meio desses dons extraordinários, a igreja cristã foi inicialmente fundada e estabelecida, as Escrituras foram escritas e o ministério foi instituído. Depois, ela seria mantida e sustentada por esse ministério, juntamente com as operações e influências comuns do Espírito.

II. Como o reino da glória será introduzido pela transformação universal da natureza, vv. 30-31. O derramamento do Espírito será muito consolador para os justos; que os injustos, porém, ouçam isso e tremam.

Virá um grande e terrível dia do Senhor, anunciado por prodígios no céu e na terra, sangue, fogo e colunas de fumaça, pela transformação do sol em trevas e da lua em sangue. Isso terá seu cumprimento pleno (como pensa o erudito dr. Pocock) no dia do juízo, no fim dos tempos, antes do qual esses sinais se realizarão literalmente.

Ainda assim, cumpriu-se em parte na morte de Cristo (chamada de juízo deste mundo, quando a terra tremeu e o sol escureceu: foi um dia grande e terrível) e, mais plenamente, na destruição de Jerusalém, tipo e figura do juízo geral.

Antes dessa destruição houve muitos prodígios espantosos, além das convulsões de estados e reinos profetizadas nas expressões figuradas sobre o sol que se transforma em trevas e a lua em sangue, e das guerras, rumores de guerras e aflição das nações. Nosso Salvador falou dessas coisas como o princípio das dores, Mateus 24:6, 7.

Mas, antes do juízo final, haverá de fato prodígios no céu e na terra: a dissolução de ambos, sem metáfora. Os juízos de Deus sobre um mundo pecador e a frequente destruição de reinos perversos pelo fogo e pela espada são prelúdios e presságios do juízo do mundo no último dia.

Aqueles sobre quem o Espírito é derramado verão antecipadamente e anunciarão esse grande e terrível dia do Senhor e explicarão os prodígios no céu e na terra que o precedem. Pois, quanto à sua primeira vinda, assim como à segunda, todos os profetas deram e dão testemunho, Apocalipse 10:7.

III. A segurança e a felicidade de todos os verdadeiros crentes, tanto na primeira quanto na segunda vinda de Jesus Cristo, v. 32. Isso se refere a pessoas em particular, pois o Novo Testamento dá mais atenção a elas e menos a reinos e nações do que o Antigo. Observe agora:

  1. Uma salvação foi realizada. Embora o dia do Senhor seja grande e terrível, no monte Sião e em Jerusalém haverá livramento do seu terror. É o dia do Senhor, o dia do juízo daquele que sabe distinguir o precioso do vil.

No evangelho eterno, que saiu de Sião, na igreja dos primogênitos representada pelo monte Sião e que é a Jerusalém de cima, há livramento. Foi descoberto e aberto um caminho para escapar da cólera vindoura. O próprio Cristo é não só o Salvador, mas a salvação; ele o é até os confins da terra.

Esse livramento, reservado para nós na aliança da graça, cumpre as promessas feitas aos pais. “Haverá livramento, como disse o Senhor.” Veja Lucas 1:72.

Repare: é motivo de consolo e esperança para os pecadores que, seja qual for o perigo em que estejam, há também livramento, livramento para eles, se não for por culpa deles próprios. Se quisermos participar dele, devemos nós mesmos recorrer ao evangelho, a Sião, à Jerusalém de Deus.

  1. Há um remanescente que participa dessa salvação e em favor do qual o livramento é realizado. É nesse remanescente (isto é, entre seus membros) que está o livramento, ou nas almas e nos espíritos deles; ali se encontram suas garantias e provas. “Cristo em vocês, a esperança da glória.”

São chamados remanescente porque são poucos em comparação com as multidões deixadas para perecer: um pequeno remanescente, mas escolhido, um remanescente segundo a eleição da graça. Aqui se nos diz quem será livrado no grande dia:

(1.) Os que sinceramente invocam a Deus: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor”, judeu ou gentio (pois assim o apóstolo interpreta a passagem, Romanos 10:13, onde a apresenta como a grande regra do evangelho pela qual todos devemos ser julgados), “será livrado”.

Essa invocação de Deus pressupõe conhecimento dele, fé nele, desejo por ele e dependência dele. Como prova da sinceridade de tudo isso, pressupõe também obediência conscienciosa a ele; sem ela, clamar “Senhor, Senhor” não nos valerá de nada.

Repare: o remanescente que ora será o remanescente salvo. A ruína dos que perecerem será ainda mais grave porque poderiam ter sido salvos em condições tão acessíveis.

(2.) Os que são eficazmente chamados a Deus. O livramento é certo para o remanescente que o Senhor chamar, não apenas pela chamada geral do evangelho, com a qual muitos são chamados sem serem escolhidos, mas por uma chamada especial à comunhão de Jesus Cristo. São aqueles a quem o Senhor predestina, ou prepara, conforme a versão caldeia.

São Pedro toma emprestada essa expressão em Atos 2:39. Repare: somente serão livrados no grande dia os que agora são eficazmente chamados do pecado para Deus, de si mesmos para Cristo, das coisas de baixo para as coisas de cima.


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