João 8
Argumento
Neste capítulo temos: I. O escape de Cristo da armadilha que os judeus lhe prepararam ao lhe trazerem uma mulher apanhada em adultério, vv. 1-11.
II. Diversos discursos ou colóquios de Cristo com os judeus que o criticavam, procuravam ocasião para acusá-lo e transformavam tudo o que ele dizia em motivo de controvérsia.
Sobre ele ser a luz do mundo, vv. 12-20. 2. Sobre a ruína dos judeus incrédulos, vv. 21-30.
Sobre liberdade e escravidão, vv. 31-37. 4. Sobre o Pai dele e o pai deles, vv. 38-47.
Aqui está o discurso de Cristo em resposta às palavras blasfemas de descrédito deles, vv. 48-50. 6. Sobre a imortalidade dos que creem, vv. 51-59.
E em tudo isso, ele suportou a oposição dos pecadores contra si mesmo.
Versículos 1 a 11
A Mulher Apanhada em Adultério.
Embora Cristo tivesse sido tratado de modo vil no capítulo anterior, tanto pelos governantes quanto pelo povo, contudo, aqui ainda o encontramos em Jerusalém, ainda no templo. Quantas vezes ele quis reuni-los! Observe:
I. O retiro de Cristo para fora da cidade ao anoitecer (v. 1): “Ele foi ao monte das Oliveiras.” Não se sabe se foi à casa de algum amigo ou a uma cabana armada ali, pois era a Festa dos Tabernáculos.
Também não sabemos se descansou ali ou se, como alguns pensam, passou a noite toda em oração a Deus. Mas ele saiu de Jerusalém, talvez por não ter ali nenhum amigo com bondade ou coragem suficientes para lhe dar hospedagem por uma noite.
Seus perseguidores tinham casas para onde ir (João 7:53); ele não podia sequer tomar emprestado um lugar para reclinar a cabeça sem ter de ir uma ou duas milhas para fora da cidade.
Ele se retirou, como alguns pensam, porque não queria se expor ao perigo de um tumulto popular durante a noite. É prudente sair do caminho do perigo sempre que podemos fazê-lo sem sair do caminho do dever.
Durante o dia, quando tinha trabalho a fazer no templo, ele se expunha de boa vontade e estava sob proteção especial (Isaías 49:2). Mas, à noite, quando não tinha trabalho a fazer, retirava-se para o campo e ali se abrigava.
II. O retorno de Cristo pela manhã ao templo e ao trabalho que fazia ali, v. 2. Observe:
- Como Cristo era um pregador diligente: de manhã cedo voltou e ensinou. Embora tivesse ensinado no dia anterior, ensinou de novo naquele dia. Cristo pregava constantemente, a tempo e fora de tempo.
Três aspectos da pregação de Cristo são destacados aqui. (1.) O horário: de manhã cedo. Embora tivesse se hospedado fora da cidade e talvez passado boa parte da noite em oração secreta, ainda assim veio cedo.
Quando há um dia de trabalho a fazer para Deus e pelas almas, é bom começar cedo e aproveitar bem o dia. (2.) O lugar: o templo. Não tanto por ser um lugar consagrado (pois, nesse caso, ele o teria escolhido em outras ocasiões), mas porque agora era um lugar de reunião.
Assim, ele apoiava as assembleias solenes para o culto religioso e animava o povo a ir ao templo, pois ainda não o havia deixado desolado. (3.) A postura: sentou-se e ensinou, como quem tinha autoridade e pretendia permanecer ali por algum tempo.
- Com que diligência as pessoas acompanhavam a pregação de Cristo: todo o povo veio até ele. Talvez muitos fossem pessoas do interior, que naquele dia voltariam para casa depois da festa e desejavam ouvir mais um sermão de Cristo antes de partir.
Vieram até ele, embora ele tivesse vindo cedo. Quem o busca cedo o encontra. Os governantes se desagradavam dos que iam ouvi-lo; ainda assim, eles iam. E Cristo os ensinava, embora os governantes também estivessem irados com ele.
Embora poucos ou nenhum deles fossem pessoas de destaque, ainda assim Cristo os recebeu de bom grado e os ensinou.
III. O modo como Cristo tratou os que lhe trouxeram a mulher apanhada em adultério para tentá-lo. Os escribas e fariseus não só se recusavam a ouvir Cristo com paciência; também o interrompiam quando o povo estava atento a ele. Observe aqui:
- O caso apresentado a Cristo pelos escribas e fariseus. Eles maquinaram provocar uma desavença com ele e apanhá-lo numa armadilha, vv. 3-6:
(1.) Puseram a prisioneira diante do tribunal (v. 3): trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério. Talvez ela tivesse sido apanhada havia pouco, durante a Festa dos Tabernáculos.
Talvez a moradia em cabanas, as refeições festivas e a alegria da ocasião pudessem ser transformadas em oportunidades para pecar por mentes perversas, que corrompem até as melhores coisas.
Segundo a lei judaica, os que fossem apanhados em adultério deviam ser mortos. As autoridades romanas lhes consentiam executar essa pena; por isso, ela foi levada ao tribunal religioso.
Observe: ela foi apanhada em adultério. O adultério é uma obra das trevas, e os culpados costumam fazer tudo o que podem para escondê-lo; ainda assim, às vezes ele vem à luz de modo surpreendente.
Quem promete a si mesmo que o pecado ficará secreto está enganando a si mesmo. Os escribas e fariseus a levaram a Cristo e a colocaram no meio da assembleia, como se a entregassem inteiramente ao julgamento dele, que estava sentado como juiz no tribunal.
(2.) Apresentaram uma acusação contra ela: “Mestre, esta mulher foi apanhada em adultério”, v. 4. Chamaram de Mestre aquele que, no dia anterior, haviam chamado de enganador; esperavam prendê-lo com elogios, como fizeram aqueles homens (Lucas 20:20).
Mas os homens podem ser iludidos por elogios; aquele que sonda o coração, não.
[1.] O crime pelo qual a prisioneira era acusada não era outro senão o adultério. Até na era dos patriarcas, antes da lei de Moisés, isso era considerado uma iniquidade que os juízes deviam punir (Jó 31:9-11; Gênesis 38:24).
Ao perseguirem vigorosamente essa transgressora, os fariseus pareciam ter grande zelo contra o pecado. Mais tarde, porém, ficou evidente que eles mesmos não estavam livres dele; ou melhor, por dentro estavam cheios de toda impureza (Mateus 23:27, 28).
Repare: é comum que os que toleram o próprio pecado sejam severos com os pecados dos outros.
[2.] A prova do crime era a evidência notória do fato, uma prova incontestável: ela fora apanhada no ato, sem espaço para alegar que não era culpada.
Se não tivesse sido apanhada naquele ato, poderia ter passado a outro, até que seu coração ficasse completamente endurecido. Mas, às vezes, é uma misericórdia para os pecadores que seu pecado venha à luz, para que não prossigam em sua presunção.
É melhor que o nosso pecado nos envergonhe do que nos condene; é melhor que seja posto diante de nós para nosso convencimento do que para nossa condenação.
(3.) Apresentaram a lei estabelecida para aquele caso e com base na qual ela fora acusada, v. 5: “Moisés, na lei, ordenou que tais mulheres fossem apedrejadas”.
Moisés ordenou que fossem mortas (Levítico 20:10; Deuteronômio 22:22), mas não que fossem apedrejadas, exceto se a adúltera estivesse prometida em casamento, mas ainda não fosse casada, ou se fosse filha de sacerdote (Deuteronômio 22:21).
Repare: o adultério é um pecado extremamente grave, pois é a rebelião de uma paixão vil não só contra o mandamento, mas também contra a aliança do nosso Deus.
É a violação de uma instituição divina estabelecida na inocência, pela satisfação de uma das paixões mais vis do homem em seu estado degenerado.
(4.) Pedem sua opinião sobre o caso: “Mas o que dizes tu, que alegas ser um mestre vindo de Deus para revogar leis antigas e promulgar outras novas? O que tens a dizer sobre este caso?” Se tivessem perguntado com sinceridade e humilde desejo de conhecer seu pensamento, teriam feito algo muito louvável.
Os encarregados de administrar a justiça devem buscar a direção de Cristo. Mas eles falavam para pô-lo à prova e ter do que acusá-lo (v. 6).
[1.] Se ele confirmasse a sentença da lei e deixasse que ela seguisse seu curso, o censurariam por se contradizer, já que havia acolhido publicanos e prostitutas. Também diriam que contrariava o caráter do Messias, que seria manso, traria salvação e proclamaria um ano de libertação.
Talvez ainda o denunciassem ao governador romano por apoiar os judeus no exercício do poder judicial.
[2.] Mas, se a absolvesse e opinasse que a sentença não deveria ser executada, como esperavam que fizesse, o apresentariam, primeiro, como inimigo da lei de Moisés, alguém que usurpava autoridade para corrigi-la e controlá-la.
Assim reforçariam o preconceito que seus inimigos tanto se esforçavam para espalhar: o de que ele viera destruir a lei e os profetas.
Segundo, o apresentariam como amigo dos pecadores e, por consequência, favorecedor do pecado. Se parecesse tolerar tamanha perversidade e deixá-la impune, o descreveriam como alguém que apoiava as ofensas ao proteger os ofensores.
Nenhuma censura poderia ser mais odiosa contra alguém que professava o rigor, a pureza e a missão de um profeta.
- O método que empregou para resolver o caso e, assim, escapar da armadilha:
(1.) Pareceu dar-lhe pouca importância e fez ouvidos moucos: inclinou-se e escreveu no chão. É impossível dizer o que escreveu; portanto, não há necessidade de perguntar. Esta é, porém, a única menção nos evangelhos à escrita de Cristo.
Eusébio, de fato, fala de uma carta que ele teria escrito a Abgaro, rei de Edessa. Alguns se julgam livres para conjecturar o que escreveu aqui. Grócio diz que foi alguma sentença grave e importante, pois era costume dos sábios fazer isso quando refletiam profundamente sobre algo.
Jerônimo e Ambrósio supõem que escreveu: “Que os nomes destes homens perversos sejam escritos no pó.” Outros sugerem: “A terra acusa a terra, mas o julgamento é meu.”
Com isso, Cristo nos ensina a ser lentos para falar quando nos apresentam casos difíceis, sem disparar imediatamente nossa flecha. Quando somos provocados ou ridicularizados, devemos parar e refletir antes de responder: pensar duas vezes antes de falar uma. “O coração do sábio estuda o que responder.”
Nossa tradução, seguindo algumas cópias gregas que acrescentam me prospoioumenos, embora a maioria não o traga, explica por que ele escrevia no chão: “como se não os ouvisse”. Era como se olhasse para outro lado, mostrando que não queria dar atenção ao pedido deles. Na prática, dizia: “Quem me constituiu juiz ou repartidor?”
Em muitos casos, é seguro fazer ouvidos moucos àquilo a que não é seguro responder (Salmos 38:13). Cristo não quer que seus ministros se enredem em assuntos seculares.
Que se ocupem antes com qualquer estudo lícito e preencham o tempo escrevendo no chão, sem que ninguém lhes dê atenção, do que se ocupem com o que não lhes pertence. Mas, embora Cristo parecesse não ouvi-los, mostrou que não só escutava suas palavras como também conhecia seus pensamentos.
(2.) Quando insistiram por uma resposta de modo importuno, ou melhor, inconveniente, ele fez a condenação da prisioneira recair sobre os acusadores (v. 7).
[1.] Continuaram a interrogá-lo, e o fato de ele parecer ignorá-los os tornou mais insistentes. Agora tinham certeza de que o haviam encalhado: se absolvesse a mulher, pareceria contradizer a lei de Moisés; se a condenasse, sua própria doutrina de misericórdia e perdão.
Por isso, insistiram vigorosamente em pedir-lhe uma decisão. Deveriam, porém, ter entendido sua falta de atenção como uma censura ao desígnio deles e um sinal para desistirem, se prezassem a própria reputação.
[2.] Por fim, ele os fez calar e se envergonhar com uma palavra. Ergueu-se, como quem desperta do sono (Salmos 78:65), e lhes disse: “Aquele de vocês que estiver sem pecado seja o primeiro a atirar uma pedra nela.”
Primeiro, Cristo evitou a armadilha que haviam preparado e preservou eficazmente a própria reputação. Não criticou a lei nem desculpou a culpa da prisioneira; tampouco animou a acusação ou apoiou a ira deles. Veja o bom efeito da reflexão.
Quando não podemos atingir nosso objetivo seguindo um curso direto, convém tomar um caminho indireto.
Segundo, o pé deles ficou preso na rede que haviam estendido. Vieram com o desígnio de acusá-lo, mas foram obrigados a acusar a si mesmos. Cristo reconhece que era apropriado acusar formalmente a prisioneira, mas apela à consciência deles para saber se eram aptos a ser os acusadores.
a. Ele se refere à regra que a lei de Moisés estabelecia para a execução de criminosos: a mão das testemunhas devia ser a primeira a cair sobre eles (Deuteronômio 17:7), como no apedrejamento de Estêvão (Atos 7:58).
Os escribas e fariseus eram as testemunhas contra aquela mulher. Cristo lhes pergunta se, segundo a própria lei, ousariam ser os executores. Ousariam tirar com as mãos a vida que já tiravam com a língua? Não se voltaria contra eles a própria consciência se o fizessem?
b. Ele se baseia num princípio moral incontestável: é absurdo que pessoas sejam zelosas em punir as faltas alheias quando são igualmente culpadas. Quem julga os outros e faz as mesmas coisas não passa de alguém que condena a si mesmo.
“Se algum de vocês está sem pecado, sem pecado dessa natureza, e nunca foi culpado de fornicação ou adultério, atire nela a primeira pedra.” Isso não significa que magistrados conscientes da própria culpa devam tolerar a culpa dos outros. Significa, porém:
(a.) Sempre que apontamos as faltas alheias, devemos examinar a nós mesmos e ser mais severos com o pecado em nós do que nos outros.
(b.) Devemos tratar com bondade as pessoas que pecam, embora não seus pecados, e restaurá-las com espírito de mansidão, lembrando-nos de nós mesmos e de nossa natureza corrompida.
Aut sumus, aut fuimus, vel possumus esse quod hic est: somos, fomos ou podemos vir a ser o que ele é. Que isso nos impeça de atirar pedras em nossos irmãos e proclamar suas faltas.
Que só quem está sem pecado comece esse tipo de conversa. Os que estão verdadeiramente humilhados por seus próprios pecados corarão diante dela e se alegrarão em deixá-la morrer.
(c.) Os que têm o dever de censurar as faltas alheias precisam vigiar a si mesmos e manter-se puros (Mateus 7:5). Qui alterum incusat probri, ipsum se intueri oportet. As tesouras para aparar os pavios do tabernáculo eram de ouro puro.
c. Talvez ele se refira à prova das águas do ciúme, à qual o marido enciumado submetia a esposa suspeita. O homem devia levá-la ao sacerdote (Números 5:15), como os escribas e fariseus levaram aquela mulher a Cristo.
Era opinião corrente entre os judeus, confirmada pela experiência, que, se o marido que levasse a esposa àquela prova já tivesse cometido adultério alguma vez, Aquæ non explorant ejus uxorem — a água amarga não teria efeito sobre a esposa.
“Então”, diz Cristo, “vou julgá-los segundo a própria tradição de vocês: se estão sem pecado, mantenham a acusação e executem a adúltera; caso contrário, embora ela seja culpada, como vocês, que a acusam, também o são, segundo a regra de vocês ela ficará livre.”
d. Nisto, Cristo se dedicou à grande obra para a qual veio ao mundo: conduzir pecadores ao arrependimento, não destruí-los, mas salvá-los.
Ele pretendia levar ao arrependimento não só a prisioneira, mostrando-lhe sua misericórdia, mas também os acusadores, mostrando-lhes os pecados deles. Eles tentaram apanhá-lo numa armadilha; ele procurou convencê-los e convertê-los.
Assim, os sanguinários odeiam o íntegro, mas os justos procuram salvar a vida dele.
[3.] Depois de lhes dirigir essa palavra surpreendente, Cristo os deixou refletir sobre ela. Tornou a se inclinar e escreveu no chão, v. 8.
Assim como, quando eles o abordaram, ele pareceu desprezar a pergunta, agora que lhes dera uma resposta desprezou o ressentimento deles. Não se importava com o que dissessem; ou melhor, eles nem precisavam responder. O assunto estava em seus próprios corações; que o resolvessem ali da melhor forma possível.
Ou talvez ele não quisesse parecer esperar uma resposta, para que não se justificassem de repente e depois julgassem estar obrigados, por honra, a persistir na acusação. Em vez disso, deu-lhes tempo para parar e conversar consigo mesmos.
Deus diz: “Escutei e ouvi” (Jeremias 8:6). Algumas cópias gregas dizem aqui: “Ele escreveu no chão os pecados de cada um deles” (enos hekastou auton tas hamartias).
Cristo podia fazer isso, pois põe as nossas iniquidades diante de si; e fará isso, pois também as porá em ordem diante de nós. Ele sela as nossas transgressões (Jó 14:17).
Mas Cristo não escreve os pecados dos homens na areia. Não: eles são escritos como que com pena de ferro e ponta de diamante (Jeremias 17:1), e jamais serão esquecidos até que sejam perdoados.
[4.] As palavras de Cristo deixaram os escribas e fariseus tão atordoados como por um trovão que abandonaram a perseguição contra Cristo, a quem não ousaram mais tentar, e a acusação contra a mulher, a quem não ousaram mais acusar (v. 9): “Foram saindo um por um.”
Primeiro, talvez a escrita de Cristo no chão os tivesse assustado, como a escrita na parede assustou Belsazar. Concluíram que ele escrevia coisas amargas contra eles, que registrava a condenação deles. Felizes os que não têm motivo para temer o que Cristo escreve!
Segundo, o que Cristo disse os assustou porque os levou à própria consciência. Ele os havia mostrado a si mesmos, e eles temiam que, se ficassem até que ele se levantasse de novo, a palavra seguinte os exporia ao mundo e os envergonharia diante das pessoas.
Por isso, acharam melhor retirar-se. Foram saindo um por um, para fazê-lo discretamente e não perturbar Cristo com uma fuga barulhenta. Foram embora às escondidas, como os que, envergonhados, escapam furtivamente ao fugir da batalha (2 Samuel 19:3).
A ordem da saída é mencionada: começaram pelos mais velhos, talvez por serem os mais culpados ou por perceberem primeiro o perigo de passar vergonha. Se os mais velhos abandonaram o campo e recuaram sem glória, não admira que os mais jovens os tenham seguido.
Agora veja: 1. O poder da palavra de Cristo para convencer pecadores: os que a ouviram foram convencidos pela própria consciência. A consciência é representante de Deus na alma, e uma só palavra dele a põe em ação (Hebreus 4:12).
Os que há muito viviam em adultério e estavam arraigados numa opinião orgulhosa de si mesmos, até os mais velhos, foram abalados pela palavra de Cristo. Até escribas e fariseus, tão convencidos da própria justiça, foram levados pelo poder da palavra de Cristo a retirar-se envergonhados.
- A insensatez dos pecadores diante dessa convicção aparece nos escribas e fariseus. (1.) É insensato que os convencidos do pecado tenham como principal preocupação evitar a vergonha, como Judá: “Para que não sejamos envergonhados” (Gênesis 38:23).
Nossa preocupação deve ser mais salvar a alma do que preservar o prestígio. Saul mostrou sua hipocrisia quando disse: “Pequei; agora, porém, peço que me honre.”
Não há como obter a honra e o consolo dos arrependidos senão aceitando a vergonha própria de quem se arrepende.
(2.) É insensato que os convencidos do pecado maquinem como escapar desse convencimento e livrar-se dela. Os escribas e fariseus tiveram a ferida aberta; deveriam ter desejado que fosse examinada, para então poder ser curada. Mas era justamente isso que temiam e evitavam.
(3.) É insensato que os convencidos do pecado se afastem de Jesus Cristo, como fizeram aqueles homens, pois só ele pode curar as feridas da consciência e nos falar de paz.
Os que são convencidos da culpa pela própria consciência serão condenados pelo Juiz se não forem justificados pelo Redentor. E então irão embora de Cristo? Para quem irão?
[5.] Quando os acusadores presunçosos abandonaram o campo e fugiram envergonhados, a prisioneira, que se condenava a si mesma, permaneceu firme, decidida a aceitar o julgamento de nosso Senhor Jesus.
Jesus ficou sozinho, livre da companhia e das importunações dos escribas e fariseus. A mulher permaneceu no meio da assembleia que acompanhava a pregação de Cristo, exatamente onde eles a haviam colocado (v. 3).
Ela não tentou escapar, embora tivesse oportunidade. Seus acusadores haviam recorrido a Jesus, e a ele ela iria; esperaria dele a sentença. Repare: os que levam sua causa ao nosso Senhor Jesus nunca precisarão transferi-la para outro tribunal, pois ele é o refúgio dos arrependidos.
A lei que nos acusa e exige julgamento contra nós é levada a retirar-se pelo evangelho de Cristo. Suas exigências são satisfeitas e seus clamores silenciados pelo sangue de Jesus.
Nossa causa está entregue ao tribunal do evangelho. Ficamos somente com Jesus, pois agora é com ele que temos de tratar; todo o julgamento lhe foi confiado. Portanto, asseguremos nossa parte nele, e estaremos salvos para sempre. Que o evangelho dele nos governe, e certamente nos salvará.
[6.] Aqui está a conclusão do julgamento e o resultado a que ela chegou: Jesus se levantou e não viu ninguém além da mulher, v. 10, 11.
Embora Cristo pareça não dar atenção ao que se diz e faz, deixando que os filhos dos homens contendores resolvam as coisas entre si, contudo, quando chegar a hora do julgamento dele, não ficará mais em silêncio.
Quando Davi apelou a Deus, orou: “Levanta-te” (Salmos 7:6; 94:2). É provável que a mulher estivesse tremendo diante do tribunal, sem saber qual seria o resultado.
Cristo não tinha pecado e podia atirar a primeira pedra. Mas, embora ninguém seja mais severo contra o pecado do que ele, pois é infinitamente justo e santo, ninguém é mais compassivo com os pecadores, pois é infinitamente gracioso e misericordioso. Essa pobre culpada o encontra assim, agora que aguarda ser libertada.
Aqui se observa o procedimento dos tribunais.
Primeiro, chamam-se os acusadores: “Onde estão os teus acusadores? Ninguém te condenou?” Cristo sabia onde eles estavam, mas perguntou para envergonhar os que rejeitaram o julgamento dele e animar a mulher, que resolvera aceitá-lo.
A pergunta se parece com o desafio de Paulo: “Quem apresentará acusação contra os eleitos de Deus?”. Onde estão os acusadores deles? O acusador dos irmãos será justamente expulso, e todas as acusações serão anuladas de modo legal e regular.
Segundo, eles não aparecem quando a pergunta é feita: “Ninguém te condenou?” Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Fala com respeito a Cristo e o chama de Senhor, mas fica em silêncio sobre os acusadores.
Ela não responde à pergunta a respeito deles: “Onde estão os teus acusadores?” Não comemora a retirada deles nem os insulta por terem sido testemunhas contra si mesmos, e não contra ela.
Se esperamos ser perdoados pelo nosso Juiz, devemos perdoar os nossos acusadores. Se as acusações deles, por mais maliciosas que fossem, serviram felizmente para despertar a nossa consciência, podemos perdoar com facilidade essa ofensa.
Ela respondeu à pergunta que dizia respeito a si mesma: “Ninguém te condenou?” Os verdadeiros arrependidos consideram suficiente prestar contas de si mesmos a Deus e não se encarregam de prestar contas pelos outros.
Terceiro, a prisioneira é então liberada: “Nem eu a condeno; vá e não peque mais”. Considere isso:
(a.) Como sua liberação da pena temporal: “Se eles não a condenam à morte por apedrejamento, eu também não”.
Isso não significa que Cristo tenha vindo tirar do magistrado a espada da justiça, nem que seja da vontade dele que não se apliquem penas capitais aos malfeitores. Longe disso: o evangelho estabelece a administração da justiça pública e a torna serva do reino de Cristo: “Por mim reinam os reis”.
Mas Cristo não condenaria aquela mulher, (a.) porque isso não era da sua competência. Ele não era juiz nem árbitro e, portanto, não se intrometeria nos assuntos civis. O reino dele não era deste mundo.
Tractent fabrilia fabri — cada um cuide do que pertence à sua própria área.
(b.) porque ela era acusada por pessoas mais culpadas do que ela, que não podiam insistir, sem vergonha, que a justiça fosse feita contra ela.
A lei determinava que as mãos das testemunhas fossem as primeiras contra o criminoso e, depois, as mãos de todo o povo. Assim, se as testemunhas recuassem e não a condenassem, a acusação seria abandonada.
Ao aplicar juízos temporais, a justiça de Deus às vezes considera a retidão comparativa e poupa os que, embora sujeitos à punição, seriam punidos para satisfação de pessoas piores do que eles (Deuteronômio 32:26, 27).
Mas, ao liberar a mulher, Cristo acrescentou esta advertência: “Vá e não peque mais”. A impunidade encoraja os malfeitores. Por isso, os culpados que encontram meios de escapar da força da lei precisam redobrar a vigilância, para que Satanás não tire vantagem.
Quanto mais favorável tiver sido o livramento, mais forte terá sido o aviso para não pecar outra vez. Os que ajudam a salvar a vida de um criminoso devem, como Cristo fez aqui, ajudar a salvar também a alma dele, dando-lhe essa advertência.
(b.) Como sua liberação da pena eterna. Quando Cristo diz “Não a condeno”, na prática diz “Eu a perdoo”. O Filho do Homem tinha poder na terra para perdoar pecados e podia dar essa absolvição por boas razões.
Ele conhecia a dureza e a falta de arrependimento dos acusadores; por isso, disse o que os confundiria. Também conhecia a ternura e o arrependimento sincero da prisioneira; por isso, disse o que a consolaria, como dissera àquela mulher pecadora, tão pecadora quanto esta, que também fora desprezada por um fariseu (Lucas 7:48, 50): “Os teus pecados estão perdoados; vai em paz”.
Assim também aqui: “Nem eu a condeno”. Repare: (a.) São verdadeiramente felizes os que Cristo não condena, pois a sentença favorável dele basta para responder a qualquer outra acusação; todas as demais são coram non judice — apresentadas diante de um juiz sem autoridade.
(b.) Cristo não condenará os que, embora tenham pecado, vão e não pecam mais (Salmos 85:8; Isaías 55:7). Ele não usará contra nós os pecados das nossas rebeliões passadas, se depusermos as armas e voltarmos à nossa lealdade.
(c.) O favor que Cristo nos concede ao perdoar os pecados passados deve ser uma forte razão para não pecarmos mais (Romanos 6:1, 2). Cristo não vai condenar você? Então vá e não peque mais.
Versículos 12 a 20
O Discurso de Cristo com os Fariseus.
O restante do capítulo é ocupado por debates entre Cristo e pecadores que o contradiziam e levantavam objeções capciosas às palavras tão graciosas que saíam de sua boca.
Não se sabe ao certo se essas discussões aconteceram no mesmo dia em que a mulher adúltera foi liberada. É provável que sim, pois o evangelista não menciona outro dia e observa quão cedo Cristo começou o trabalho daquele dia (v. 2).
Embora os fariseus que acusaram a mulher tivessem fugido, ainda assim havia outros fariseus (v. 13) dispostos a confrontar Cristo. Tinham a testa dura como bronze para manter a compostura, embora alguns do grupo tivessem recuado de modo tão vergonhoso.
Ou melhor, talvez isso os tenha levado a procurar ainda mais motivos para criar desavenças com Cristo e, se possível, recuperar a reputação do grupo derrotado. Nestes versículos temos:
I. Uma grande doutrina apresentada e aplicada:
- A doutrina é que Cristo é a luz do mundo (v. 12): “Jesus tornou a falar com eles.” Embora já lhes tivesse falado muito, com pouco resultado, e embora se opusessem ao que ele dizia, ainda assim falou outra vez, pois fala uma vez, sim, e ainda duas.
Eles tinham fechado os ouvidos ao que ele dizia; ainda assim, Cristo tornou a falar com eles: “Eu sou a luz do mundo”. Repare: Jesus Cristo é a luz do mundo.
Um dos rabinos diz que Luz é o nome do Messias, conforme está escrito: “A luz habita com ele” (Daniel 2:22). Deus é luz, e Cristo é a imagem do Deus invisível: Deus dos deuses, Luz das luzes.
Esperava-se que ele fosse luz para iluminar os gentios (Lucas 2:32) e, assim, a luz do mundo, não apenas da igreja judaica.
A luz visível do mundo é o sol, e Cristo é o Sol da justiça. Um só sol ilumina o mundo inteiro; assim também um só Cristo, e nenhum outro é necessário.
Ao chamar a si mesmo de luz, Cristo expressa (1.) o que ele é em si mesmo: excelente e glorioso acima de tudo; (2.) o que é para o mundo: a fonte da luz, que ilumina cada pessoa.
Que masmorra seria o mundo sem o sol! O mesmo aconteceria sem Cristo, por meio de quem a luz veio ao mundo (João 3:19).
- A conclusão que decorre dessa doutrina é: “Quem me segue”, como o viajante segue a luz numa noite escura, “não andará em trevas, mas terá a luz da vida”.
Se Cristo é a luz, então (1.) é nosso dever segui-lo, submeter-nos à sua direção e receber dele orientação em tudo, no caminho que conduz à felicidade.
Muitos seguem luzes falsas, ignes fatui, que os levam à destruição; mas Cristo é a luz verdadeira. Não basta olhar para essa luz e contemplá-la. Devemos segui-la, crer nela e andar nela, pois ela ilumina os nossos pés, não apenas os nossos olhos.
(2.) É uma felicidade para os que seguem a Cristo não andarem em trevas. Eles não ficarão sem as instruções no caminho da verdade que os impedem de cair em erros destrutivos, nem sem a direção no caminho do dever que os guarda dos pecados que levam à condenação.
Terão a luz da vida: o conhecimento e o desfrute de Deus, que serão para eles a luz da vida espiritual neste mundo e da vida eterna no outro, onde não haverá morte nem trevas.
Sigamos a Cristo, e certamente seremos felizes nos dois mundos. Sigamos a Cristo, e o seguiremos até o céu.
II. A objeção dos fariseus contra essa doutrina foi muito fraca e sem fundamento: “Tu dás testemunho de ti mesmo; teu testemunho não é verdadeiro”, v. 13.
Nessa objeção, partiram da suspeita que costumamos ter do testemunho que alguém dá em favor de si mesmo. Julgamos que esse testemunho nasce naturalmente do amor-próprio; estamos sempre prontos a censurá-lo nos outros, mas poucos admitem isso em si mesmos.
Neste caso, porém, a objeção foi muito injusta. 1. Eles trataram como crime e como motivo para diminuir a credibilidade da doutrina algo necessário e inevitável para quem traz uma revelação divina.
Moisés e todos os profetas não deram testemunho de si mesmos ao afirmarem que eram mensageiros de Deus? Os fariseus não perguntaram a João Batista: “Que dizes tu de ti mesmo?”
- Ignoraram o testemunho de todas as outras testemunhas, que confirmava o testemunho que Cristo dava de si mesmo.
Se ele tivesse dado testemunho apenas de si mesmo, de fato haveria motivo para suspeitar, e talvez fosse preciso suspender a aceitação desse testemunho. Mas sua doutrina era atestada por mais de duas ou três testemunhas dignas de confiança, o bastante para confirmar cada palavra dela.
III. A resposta de Cristo a essa objeção, v. 14. Ele não devolve a acusação, embora pudesse (“Vocês se apresentam como homens devotos e bons, mas o testemunho de vocês não é verdadeiro”); em vez disso, defende-se claramente.
Embora tivesse dispensado o próprio testemunho antes (João 5:31), ainda assim agora se apoia nele. Esse testemunho não diminuía a credibilidade das outras provas; era necessário para mostrar a força delas.
Cristo é a luz do mundo, e a luz tem a propriedade de se evidenciar. As verdades fundamentais provam a si mesmas. Ele apresenta três razões para provar que seu testemunho, embora fosse sobre si mesmo, era verdadeiro e convincente.
- Cristo tinha plena consciência da própria autoridade e estava inteiramente convencido dela. Não falava como quem estivesse em dúvida, nem propunha uma ideia discutível, sobre a qual ele mesmo hesitasse; declarava um decreto e dava um relato de si mesmo que sustentaria: “Sei de onde vim e para onde vou”.
Ele tinha pleno conhecimento da missão que assumira, do início ao fim; sabia quem o havia enviado e qual seria o resultado. Sabia o que era antes de se manifestar ao mundo e o que seria depois; sabia que viera do Pai e voltaria para ele (João 16:28), que viera da glória e voltaria à glória (João 17:5).
Essa é a segurança de todos os bons cristãos: embora o mundo não os conheça, assim como não conheceu Cristo, ainda assim eles sabem de onde vem a vida espiritual deles e para onde ela os conduz. Agem, portanto, com base em fundamentos seguros.
- Eles eram juízes muito incompetentes de Cristo e de sua doutrina, e não se devia dar atenção a eles. (1.) Porque eram ignorantes por escolha e determinação: “Vocês não sabem de onde vim nem para onde vou”.
Para que conversar com quem nada sabe do assunto nem deseja saber? Cristo lhes falara de sua vinda do céu e de seu retorno ao céu, mas aquilo lhes parecia loucura e não o receberam. Era o que o homem grosseiro não entende (Salmos 92:6).
Tomaram para si a tarefa de julgar o que não entendiam, algo inteiramente fora do alcance de sua experiência. Os que desprezam os domínios e as dignidades de Cristo falam mal do que não conhecem (Judas 1:8, 10).
(2.) Porque eram parciais (v. 15): “Vocês julgam segundo a carne”. Quando a sabedoria carnal estabelece o critério do julgamento, só se apresentam aparências externas como prova e o caso é decidido com base nelas, os homens julgam segundo a carne.
Também julgamos segundo a carne quando interesses seculares pesam na balança ao avaliarmos assuntos espirituais, ou quando favorecemos o que agrada à mente carnal e nos recomenda ao mundo carnal. O julgamento não pode ser correto quando o critério é errado.
Os judeus julgaram Cristo e o evangelho dele pelas aparências. Como ele parecia tão humilde, acharam impossível que fosse a luz do mundo, como se o sol deixasse de ser sol quando coberto por uma nuvem.
(3.) Porque eram injustos e desleais com Cristo, como ele dá a entender: “Eu não julgo ninguém”. Ele não fazia nem se intrometia nos assuntos políticos deles, e sua doutrina e prática não invadiam nem interferiam nos direitos civis ou nos poderes seculares deles.
Assim, Cristo não julgava ninguém. Se não combatia segundo a carne, era muito insensato que eles o julgassem segundo a carne e o tratassem como infrator do governo civil.
Ou: “Eu não julgo ninguém”, isto é, “não agora, na minha primeira vinda; o julgamento fica para quando eu voltar” (João 3:17). Prima dispensatio Christi medicinalis est, non judicialis — a primeira vinda de Cristo teve o propósito de ministrar remédio, não de fazer justiça.
- O testemunho que Cristo dava de si mesmo era suficientemente sustentado e confirmado pelo testemunho do Pai, que estava com ele e a seu favor (v. 16): “E, contudo, se julgo, o meu julgamento é verdadeiro”. Cristo julgava em sua doutrina (João 9:39), embora não exercesse julgamento político. Considere, então:
(1.) Cristo como juiz: o julgamento dele era válido. “Se eu julgo — eu, que tenho autoridade para executar julgamentos; eu, a quem todas as coisas foram entregues; eu, que sou o Filho de Deus e tenho o Espírito de Deus —, o meu julgamento é verdadeiro, de retidão incontestável e autoridade irrefutável” (Romanos 2:2).
“Se eu julgasse, meu julgamento teria de ser verdadeiro, e vocês seriam condenados. Mas o dia do julgamento ainda não chegou; vocês ainda não devem ser condenados, mas poupados. Por isso, agora não julgo ninguém.” Assim comenta Crisóstomo.
O que torna incontestável o julgamento de Cristo é [1.] a concordância do Pai com ele: “Não estou só; estamos eu e o Pai”. Cristo conta com os conselhos concordantes do Pai para orientá-lo.
Assim como esteve com o Pai antes da criação do mundo, ao formularem seus conselhos, o Pai esteve com ele no mundo, enquanto realizava e executava esses conselhos. O Pai nunca o deixou sem conselho, inops consilii (Isaías 11:2).
Todos os conselhos de paz — e também os de guerra — estavam entre ambos (Zacarias 6:13). Cristo também contava com o poder do Pai, que autorizava e confirmava o que ele fazia (Salmos 89:21, etc.; Isaías 42:1).
Cristo não agia separadamente, mas em seu nome e no nome do Pai, pela autoridade mencionada (João 5:17; 14:9, 10).
[2.] O Pai o comissionou: “O Pai, que me enviou”. Repare: Deus acompanhará aqueles que envia. Veja Êxodo 3:10, 12: “Venha, que eu o enviarei”, e: “Certamente estarei com você”.
Se Cristo recebeu uma missão do Pai e conta com a presença do Pai em tudo o que faz, sem dúvida seu julgamento é verdadeiro e válido. Não há motivo para contestá-lo nem possibilidade de apelar dele.
(2.) Considere Cristo como testemunha. Até então, ele aparecia somente nessa condição, pois ainda não havia assumido o trono do julgamento. Como testemunha, seu testemunho era verdadeiro e incontestável.
Ele mostra isso no v. 17, 18, onde [1.] cita uma máxima da lei judaica (v. 17): “O testemunho de dois homens é verdadeiro”.
Isso não significa que o testemunho de duas pessoas seja sempre verdadeiro em si mesmo, pois muitas vezes se uniram para dar falso testemunho (1 Reis 21:10). Mas ele é aceito como prova suficiente para fundamentar um veredito (verum dictum), e, se nada surgir em contrário, presume-se que seja verdadeiro.
A referência aqui é à lei: “Pela boca de duas testemunhas será morto aquele que merece a morte” (Deuteronômio 17:6). Veja também Deuteronômio 19:15 e Números 35:30. Exigiam-se duas testemunhas nos casos de pena capital para proteger a vida, como também se faz entre nós nos casos de traição. Veja Hebreus 6:18.
[2.] Cristo aplica essa máxima ao caso em questão (v. 18): “Eu sou um que dá testemunho de mim mesmo, e o Pai, que me enviou, dá testemunho de mim”. Eis duas testemunhas!
Nos tribunais humanos, quando se exigem duas testemunhas, o acusado ou candidato não pode testemunhar em favor de si mesmo. Mas, num assunto inteiramente divino, que só pode ser provado por testemunho divino, o próprio Deus tem de ser a testemunha.
Se insistirmos na formalidade de duas ou três testemunhas, não pode haver outras além do Pai eterno, do Filho eterno do Pai e do Espírito eterno.
Se o testemunho de duas pessoas distintas, seres humanos que podem enganar ou ser enganados, é conclusivo, muito mais devemos aceitar o testemunho do Filho de Deus sobre si mesmo, confirmado pelo testemunho do Pai sobre ele (1 João 5:7, 9-11).
Isso prova não só que o Pai e o Filho são duas pessoas distintas, pois se fala dos testemunhos de duas pessoas, mas também que são um: não apenas um no testemunho, mas iguais em poder e glória e, portanto, da mesma essência.
Santo Agostinho aproveita a ocasião para alertar seus ouvintes contra o sabelianismo, que confundia as pessoas da Divindade, e contra o arianismo, que negava a divindade do Filho e do Espírito.
Alius est filius, et alius pater, non tamen aliud, sed hoc ipsum est et pater, et filius, scilicet unus Deus est — o Filho é uma pessoa, e o Pai é outra; contudo, não constituem dois seres: o Pai é o mesmo ser que o Filho, isto é, o único Deus verdadeiro. Tract. 36, in Joann.
Aqui Cristo fala de si mesmo e do Pai como testemunhas para o mundo, apresentando provas à razão e à consciência dos seres humanos, com quem trata como seres humanos.
No grande dia, essas testemunhas que agora falam ao mundo também testemunharão contra os que persistem na incredulidade, e a palavra delas julgará as pessoas.
Esse foi o resumo do primeiro colóquio entre Cristo e aqueles judeus carnais. Ao final, ficamos sabendo como soltaram a língua deles e ataram suas mãos.
Primeiro, como soltaram a língua (tal era a malícia do inferno) para criticar o discurso de Cristo (v. 19). Embora suas palavras não revelassem política ou artifício humano, mas segurança divina, ainda assim eles se puseram a interrogá-lo com perguntas capciosas.
Ninguém é tão incuravelmente cego quanto quem decide que não quer ver. Observe:
a. Como escaparam do convencimento por meio de uma objeção capciosa: “Então lhe perguntaram: Onde está o teu Pai?”
Pelo teor desse e dos outros discursos de Cristo, poderiam facilmente ter entendido que, ao falar do Pai, ele se referia ao próprio Deus. Ainda assim, alegaram entendê-lo como se falasse de uma pessoa comum.
Como ele apelava para o testemunho do Pai, mandaram que chamasse a testemunha e o desafiaram a apresentá-la, se pudesse: “Onde está o teu Pai?”
Assim, como Cristo dissera deles (v. 15), julgavam segundo a carne. Talvez quisessem também desprezar a humildade e a obscuridade da família dele: “Onde está o teu Pai, para que possa servir de testemunha num caso como este?”
Assim, quando não puderam resistir à sabedoria e ao espírito com que Cristo falava, descartaram suas palavras com uma provocação.
b. Como Cristo respondeu à provocação com um convencimento ulterior: não lhes disse onde estava o Pai; acusou-os de ignorância deliberada.
“Vocês não conhecem a mim nem ao meu Pai. Não adianta falar de coisas divinas com vocês, que falam delas como cegos falam das cores. Pobres criaturas! Não sabem nada do assunto.”
(a.) Cristo os acusa de não conhecerem a Deus: “Vocês não conhecem o meu Pai”. Em Judá, Deus era conhecido (Salmos 76:1). Eles tinham algum conhecimento dele como Deus que criou o mundo, mas seus olhos estavam obscurecidos e não podiam ver a luz da glória de Deus resplandecendo na face de Jesus Cristo.
As crianças da igreja cristã conhecem o Pai, conhecem-no como Pai (1 João 2:13). Mas os governantes dos judeus não o conheciam assim, porque não queriam conhecê-lo dessa maneira.
(b.) Cristo lhes mostra a verdadeira causa de não conhecerem a Deus: “Se vocês me conhecessem, conheceriam também o meu Pai”. O motivo da ignorância dos homens a respeito de Deus é o desconhecimento de Jesus Cristo.
Se conhecêssemos Cristo, [a.] ao conhecê-lo, conheceríamos o Pai, de cuja pessoa ele é a imagem exata (João 14:9). Crisóstomo prova, com base nisso, a divindade de Cristo e sua igualdade com o Pai.
Não podemos dizer: “Quem conhece um homem conhece um anjo”, nem: “Quem conhece uma criatura conhece o Criador”. Mas quem conhece Cristo conhece o Pai.
[b.] Por meio de Cristo, seríamos instruídos no conhecimento de Deus e introduzidos à comunhão com ele. Se conhecêssemos melhor a Cristo, conheceríamos melhor o Pai.
Mas, onde a religião cristã é desprezada e combatida, a religião natural logo se perde e é abandonada. O deísmo abre caminho para o ateísmo.
Os que não querem aprender de Cristo tornam-se fúteis em seus pensamentos a respeito de Deus.
Segundo, veja como suas mãos ficaram atadas, embora a língua estivesse solta. O poder do Céu conteve a malícia do inferno.
Jesus pronunciou essas palavras — palavras ousadas, de convencimento e censura — no tesouro, uma parte do templo. Certamente os principais sacerdotes, cuja devoção era o próprio lucro, costumavam ficar ali, cuidando dos negócios das ofertas.
Cristo ensinava no templo, às vezes numa parte, às vezes em outra, conforme a ocasião. Os sacerdotes, que tinham grande interesse no templo e o consideravam propriedade deles, poderiam facilmente, com a ajuda dos guardas às suas ordens, tê-lo prendido e exposto à fúria da multidão e ao castigo que chamavam de espancamento dos rebeldes.
Ou poderiam, pelo menos, tê-lo silenciado e calado ali, como Amós, embora tolerado na terra de Judá, foi proibido de profetizar na capela do rei (Amós 7:12, 13).
Ainda assim, mesmo no templo, onde Cristo estava ao alcance deles, ninguém pôs as mãos nele, pois ainda não havia chegado a hora dele. Veja aqui: 1. O poder invisível que conteve os perseguidores de Cristo; nenhum deles ousou tocá-lo.
Deus pode pôr limites à cólera dos homens, assim como faz com as ondas do mar. Por isso, não temamos o perigo no caminho do dever; Deus mantém Satanás e todos os seus instrumentos acorrentados.
- O motivo desse impedimento: a hora de Cristo ainda não havia chegado. A menção frequente disso mostra quanto o momento de nossa partida deste mundo depende do conselho e decreto fixos de Deus.
Esse momento virá, está chegando; ainda não chegou, mas está próximo. Nossos inimigos não podem apressá-lo, nem nossos amigos adiá-lo além do tempo determinado pelo Pai.
Isso traz grande consolo a todo homem bom, que pode olhar para cima e dizer com alegria: “Os meus tempos estão nas tuas mãos”, onde estão melhor do que nas nossas.
A hora de Cristo ainda não havia chegado, porque sua obra não estava concluída, nem seu testemunho, terminado. Há um tempo para todos os propósitos de Deus.
Versículos 21 a 30
O Discurso de Cristo com os Fariseus.
Aqui Cristo faz um aviso claro aos judeus descuidados e incrédulos: que considerem a consequência de sua incredulidade, para evitá-la antes que seja tarde. Cristo proferiu palavras de terror, bem como palavras de graça. Observe aqui:
I. A cólera anunciada (v. 21): “Jesus tornou a lhes dizer” algo que poderia lhes fazer bem. Continuou a ensinar com bondade os poucos que recebiam sua doutrina, embora muitos se opusessem a ela.
Isso é exemplo para os ministros, que devem prosseguir no trabalho apesar da oposição, pois um remanescente será salvo. Aqui Cristo muda o tom: ofereceu-lhes a graça como quem toca uma flauta, e eles não dançaram; agora lhes entoa um lamento ao anunciar sua cólera, para ver se eles se lamentariam.
Ele disse: “Eu vou embora, vocês me procurarão e morrerão nos seus pecados. Para onde vou, vocês não podem ir”. Cada palavra é terrível e anuncia juízos espirituais, os mais dolorosos de todos, piores que a guerra, a peste e o cativeiro denunciados pelos profetas do Antigo Testamento.
Quatro coisas são anunciadas aqui contra os judeus.
- A partida de Cristo de junto deles: “Eu vou embora”, isto é: “Em breve partirei. Vocês não precisam se esforçar tanto para me expulsar; eu mesmo partirei”.
Eles lhe haviam dito: “Afaste-se de nós; não desejamos conhecer os seus caminhos”. E Cristo os atende. Mas ai daqueles de quem Cristo se afasta!
Quando Cristo parte, é “Icabode”: a glória se foi, e nossa defesa se retirou. Antes de deixá-los, Cristo os avisou muitas vezes de sua partida.
Despediu-se repetidamente, como quem relutava em partir e desejava que o convidassem a ficar, pois queria que eles se animassem a apegar-se a ele.
- A hostilidade deles contra o verdadeiro Messias e as buscas infrutíferas e insensatas por outro Messias depois que Cristo partisse. Isso seria ao mesmo tempo pecado e castigo deles: “Vocês me procurarão”.
Isso pode indicar (1.) a hostilidade deles contra o verdadeiro Cristo: “Vocês tentarão arruinar minha causa, perseguindo minha doutrina e meus seguidores, no desígnio infrutífero de exterminá-los”.
Isso era constante vexame e tormento para eles, tornava-os incuravelmente perversos e levava a cólera ao extremo contra eles, tanto a cólera de Deus quanto a deles próprios.
Ou (2.) a busca deles por falsos cristos: “Vocês continuarão esperando o Messias e se atormentando à procura de um Cristo que ainda virá, embora ele já tenha vindo”.
Seriam como os sodomitas que, cegados, se cansavam procurando a porta. Veja Romanos 9:31, 32.
- A impenitência final deles: “Vocês morrerão nos seus pecados”. Todas as Bíblias inglesas erram aqui, inclusive a antiga tradução dos bispos e a de Genebra; somente a tradução de Reims é exceção.
Todos os manuscritos gregos trazem o singular, en te hamartia hymon — “no seu pecado”, como também todas as versões latinas. Calvino observa a diferença em relação ao v. 24, onde está no plural, tais hamartiais.
Aqui a expressão se refere especialmente ao pecado da incredulidade: in hoc peccato vestro — “neste pecado de vocês”. Repare: quem vive na incredulidade estará perdido para sempre se morrer nela.
Ou a expressão pode ser entendida em sentido geral: “Vocês morrerão na sua iniquidade”, como em Ezequiel 3:19; 33:9.
Muitos que viveram muito tempo no pecado são salvos pela graça, por meio do arrependimento oportuno, e não morrem no pecado. Mas, para os que saem deste mundo de provação e entram no mundo da retribuição ainda culpados de pecado não perdoado e sob o poder de um pecado não vencido, não há alívio.
Nem a própria salvação poderá salvá-los (Jó 20:11; Ezequiel 32:27).
- A separação eterna deles de Cristo e de toda felicidade nele: “Para onde vou, vocês não podem ir”. Quando Cristo deixou o mundo, foi para um estado de felicidade perfeita; foi para o paraíso.
Levou consigo o ladrão arrependido, que não morreu nos seus pecados. Mas os que não se arrependem não só não irão até ele; não poderão ir. É moralmente impossível, pois o céu não seria céu para quem morre sem santificação e sem estar preparado para ele.
Vocês não podem ir, pois não têm direito de entrar naquela Jerusalém (Apocalipse 22:14). Ou: “Para onde vou, vocês não podem ir para me tirar de lá”, como explica o Dr. Whitby.
Esse é também o consolo de todos os bons cristãos: quando chegarem ao céu, estarão fora do alcance da malícia dos inimigos.
II. A zombaria deles diante dessa ameaça. Em vez de tremerem ao ouvir essas palavras, fizeram pouco caso delas e as ridicularizaram (v. 22): “Será que ele vai se matar?”
Veja aqui: 1. Como desprezavam as ameaças de Cristo. Podiam rir delas entre si, como os que zombaram dos mensageiros do Senhor, transformaram o oráculo da palavra do Senhor em bordão de escárnio e fizeram de mandamento sobre mandamento, linha sobre linha, uma canção divertida (Isaías 28:13).
“Não sejam zombadores, para que suas algemas não fiquem mais fortes.” 2. Como interpretavam mal a intenção de Cristo, como se ele pretendesse tirar a própria vida de modo desumano para escapar das afrontas que lhe faziam, como Saul.
“Isto é, de fato, ir para onde não podemos segui-lo”, dizem eles, “pois nunca nos mataremos”. Assim, fazem de Cristo não só alguém como eles, mas pior.
No entanto, durante as calamidades que os romanos trouxeram sobre os judeus, muitos deles, tomados de insatisfação e desespero, se mataram.
Eles haviam dado uma interpretação muito mais favorável a estas palavras de Cristo: “Será que ele irá aos dispersos entre os gentios?” (João 7:34, 35). Veja como a malícia alimentada se torna cada vez mais perversa.
III. A confirmação do que Cristo havia dito:
- Cristo havia dito: “Para onde vou, vocês não podem ir”, e agora explica o motivo disso (v. 23): “Vocês são de baixo; eu sou de cima. Vocês são deste mundo; eu não sou deste mundo”.
Vocês são ek ton kato — das coisas que são de baixo. Ele não destaca tanto a origem deles quanto o apego às coisas inferiores: “Vocês estão ligados a essas coisas, como quem lhes pertence. Como poderão ir para onde vou, se o espírito e a disposição de vocês são tão contrários aos meus?”
Veja aqui: (1.) qual era o espírito do Senhor Jesus: ele não era deste mundo, mas vinha de cima. Estava completamente desapegado das riquezas do mundo, do conforto do corpo e do louvor dos homens. Ocupava-se inteiramente com as coisas divinas e celestiais.
Só estarão com Cristo os que nasceram do alto e têm sua conduta no céu. (2.) Como o espírito deles era contrário ao de Cristo: “Vocês são de baixo e deste mundo”. Os fariseus tinham um espírito carnal e mundano. Que comunhão Cristo poderia ter com eles?
- Cristo havia dito: “Vocês morrerão nos seus pecados”, e agora sustenta essa afirmação: “Por isso eu disse que vocês morrerão nos seus pecados: porque são de baixo”.
Ele apresenta também este motivo: “Se vocês não crerem que eu sou ele, morrerão nos seus pecados”, v. 24. Veja aqui: (1.) em que somos chamados a crer: “que eu sou ele”, hoti ego eimi, “que eu sou”, um dos nomes de Deus (Êxodo 3:14).
Foi o Filho de Deus quem disse ali: Ehejeh asher Ehejeh — “Serei o que serei”. A libertação de Israel era apenas figura das coisas boas que viriam; agora, porém, Cristo diz: “Eu sou ele: aquele que havia de vir, aquele que vocês esperam que o Messias seja e querem que eu seja para vocês”.
“Sou mais do que o simples nome de Messias: não apenas me chamo assim, eu sou esse.” A fé verdadeira não deixa a alma entretida com palavras vazias; ela a faz sentir a doutrina da mediação de Cristo como realidade que produz efeitos reais.
(2.) Como é necessário crermos nisso. Se não tivermos essa fé, morreremos nos nossos pecados. A questão está determinada de tal modo que, sem essa fé, [1.] não poderemos ser salvos do poder do pecado durante a vida e, portanto, certamente continuaremos nele até o fim.
Só a doutrina da graça de Cristo será uma razão suficientemente poderosa, e só o Espírito da graça de Cristo será um agente suficientemente poderoso, para nos converter do pecado a Deus. Esse Espírito e essa doutrina são dados para produzir efeito somente nos que creem em Cristo.
Se a fé não expulsar Satanás, ele terá um contrato de arrendamento da alma por toda a vida. Se Cristo não nos curar, nosso caso será desesperador, e morreremos nos nossos pecados.
[2.] Sem fé, não podemos ser salvos da punição do pecado quando morrermos, pois a cólera de Deus permanece sobre os que não creem (Marcos 16:16). A incredulidade é o pecado que condena; é um pecado contra o remédio.
Isso implica a grande promessa do evangelho: se crermos que Cristo é ele e o recebermos como tal, não morreremos nos nossos pecados.
A lei diz a todos, sem exceção, como Cristo disse (v. 21): “Vocês morrerão nos seus pecados”, pois todos somos culpados diante de Deus. Mas o evangelho anula essa obrigação sob a condição da fé.
A maldição da lei é cancelada e anulada para todos os que se submetem à graça do evangelho. Os que creem morrem em Cristo, em seu amor, em seus braços, e assim são salvos de morrer nos seus pecados.
IV. Segue-se outro discurso de Cristo sobre si mesmo, motivado por ele exigir que cressem nele como condição da salvação, vv. 25-29. Observe:
- A pergunta que os judeus lhe fizeram (v. 25): “Quem é você?” Perguntaram com sarcasmo, sem desejo de receber instrução.
Cristo havia dito: “Vocês devem crer que eu sou ele”. Ao não dizer explicitamente quem era, deixou claro que sua pessoa era de tal natureza que ninguém poderia descrevê-la e que sua missão correspondia àquele que todos os que esperavam a redenção de Israel aguardavam.
Mas eles transformaram esse modo solene de falar, tão cheio de significado, em motivo para desacreditá-lo, como se Cristo não soubesse o que dizer de si mesmo: “Quem é você, para que tenhamos de crer implicitamente que é algum grande ALGUÉM, sem sabermos quem ou o que é, nem sermos dignos de saber?”
- A resposta de Cristo à pergunta, com três indicações para que o conhecessem:
(1.) Cristo os remete ao que sempre dissera: “Vocês perguntam quem eu sou? Sou o mesmo que lhes disse desde o princípio”. O original é um tanto complexo: ten archen ho ti kai lalo hymin. Alguns traduzem: “Sou o princípio, que também lhes falo”. É assim que Agostinho entende.
Cristo é chamado Arche, “o princípio” (Colossenses 1:18; Apocalipse 1:8; 21:6; 3:14), e assim a expressão concorda com o v. 24: “Eu sou ele”. Compare Isaías 41:4: “Eu sou o primeiro, eu sou ele”.
Os que objetam que a expressão está no acusativo e, por isso, não responde propriamente à pergunta tis ei, devem explicar, pelas regras da gramática, a expressão paralela em Apocalipse 1:8: ho en.
Mas a maioria dos intérpretes concorda com a nossa versão: “Vocês perguntam quem eu sou? [1.] Sou o mesmo que lhes disse desde o começo do tempo nas Escrituras do Antigo Testamento; aquele que, desde o princípio, foi anunciado como a semente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente”.
Sou aquele que, ao longo de todas as eras da igreja, foi o mediador da aliança e o objeto da fé dos patriarcas.
[2.] Sou aquele que tenho dito ser desde o início do meu ministério público. Cristo decidiu manter o relato que já dera de si mesmo.
Ele havia declarado ser o Filho de Deus (João 5:17), o Cristo (João 4:26), o pão da vida, e havia se apresentado como objeto da fé necessária para a salvação. É a isso que remete os judeus para responder à pergunta deles.
Cristo permanece sempre o mesmo. O que disse desde o princípio, continua dizendo. O evangelho dele é eterno.
(2.) Cristo os remete ao julgamento do Pai e às instruções que recebera dele (v. 26): “Tenho muitas coisas a dizer e, com elas, a julgar a respeito de vocês, mais do que imaginam. Mas por que eu me ocuparia ainda mais de vocês?”
“Sei muito bem que aquele que me enviou é verdadeiro, estará ao meu lado e confirmará o que digo, pois falo ao mundo, para o qual fui enviado como embaixador, aquelas coisas — todas elas, e somente elas — que ouvi dele.” Aqui:
[1.] Cristo não apresenta agora sua acusação contra eles. Tinha muitas coisas para lhes imputar e muitas provas contra eles, mas por enquanto já dissera o suficiente.
Repare: por mais que o pecado nos seja revelado, aquele que sonda o coração ainda tem mais para julgar a nosso respeito (1 João 3:20). Por mais que Deus acerte contas com os pecadores neste mundo, ainda resta um acerto de contas (Deuteronômio 32:34).
Aprendamos a não nos apressar a dizer tudo o que poderíamos dizer, nem mesmo contra os piores homens. Podemos ter muitas críticas a fazer que é melhor deixar sem dizer, pois o que isso nos importa?
[2.] Cristo apresenta ao Pai seu recurso contra eles: “Aquele que me enviou”. Duas coisas o consolam. Primeiro, ele fora fiel ao Pai e à missão que lhe fora confiada: “Falo ao mundo as coisas que ouvi dele”.
O evangelho de Cristo deveria ser pregado a toda criatura. Como testemunha dada ao povo (Isaías 55:4), ele era o Amém, a testemunha fiel (Apocalipse 3:14).
Cristo não ocultou sua doutrina; falou dela ao mundo, pois, sendo de interesse comum, devia ser conhecida por todos. Tampouco a mudou ou alterou, nem se desviou das instruções daquele que o enviou.
Segundo, o Pai seria fiel a Cristo: fiel à promessa de fazer sua boca como espada afiada; fiel ao propósito que decretara a respeito dele (Salmos 2:7); fiel às ameaças de sua cólera contra os que o rejeitassem.
Embora Cristo não os acusasse diante do Pai, ainda assim o Pai que o enviara certamente acertaria contas com eles e cumpriria o que dissera: exigiria satisfação de quem não desse ouvidos ao profeta que levantaria (Deuteronômio 18:19).
Cristo não os acusaria: “Pois aquele que me enviou é verdadeiro e os julgará, mesmo que eu não peça que sejam julgados”.
Assim, ao deixar de lado a acusação presente, Cristo os reserva para o dia do juízo, quando será tarde demais para questionar o que agora não querem ser persuadidos a crer.
“Eu, como surdo, não ouvia; pois tu ouvirás” (Salmos 38:13, 15). A respeito desta parte do discurso do Salvador, o evangelista faz uma observação triste (v. 27): “Eles não entenderam que Cristo lhes falava do Pai”.
Veja aqui: 1. O poder de Satanás para cegar a mente dos que não creem. Embora Cristo falasse tão claramente de Deus como seu Pai no céu, ainda assim eles não entenderam de quem ele falava e acharam que fosse algum pai que ele tinha na Galileia.
Assim, as coisas mais claras tornam-se enigmas e parábolas para os que decidem apegar-se aos próprios preconceitos. Para os cegos, dia e noite são iguais.
- O motivo de as ameaças da palavra causarem tão pouca impressão na mente dos pecadores: eles não entendem de quem é a cólera revelada nessas ameaças.
Cristo lhes falou da fidelidade daquele que o enviou, para adverti-los a se prepararem para o julgamento dele, que é segundo a verdade. Eles desprezaram o aviso porque não entenderam de quem seria o julgamento ao qual se expunham.
(3.) Cristo os remete à convicção que teriam mais tarde (v. 28, 29). Percebe que não querem entendê-lo e, por isso, adia o julgamento até que surjam novas provas. Os que não querem ver verão (Isaías 26:11). Observe aqui:
[1.] Do que logo seriam convencidos: “Vocês saberão que eu sou aquele, que Jesus é o verdadeiro Messias. Quer reconheçam isso diante dos homens, quer não, serão levados a sabê-lo na própria consciência. Vocês podem sufocar suas convicções, mas não frustrá-las.”
“Eu sou aquele, não aquele que vocês dizem que sou, mas aquele que anuncio ser: aquele que havia de vir!” Para isso, seriam convencidos de duas coisas. Primeiro, Cristo não fazia nada por conta própria: não por si mesmo como homem, nem sozinho, nem separado do Pai, com quem era um.
Com isso, Cristo não diminui seu próprio poder inerente; apenas nega a acusação de que fosse um falso profeta. Sobre os falsos profetas, diz-se que profetizavam segundo o próprio coração e seguiam o próprio espírito.
Segundo, assim como o Pai o ensinava, Cristo falava essas coisas. Não era autodidaktos, ensinado por si mesmo, mas Theodidaktos, ensinado por Deus.
A doutrina que pregava correspondia aos conselhos de Deus, que Cristo conhecia intimamente: kathos edidaxe, tauta lalo — “Falo não apenas aquilo que ele me ensinou, mas também do modo como me ensinou, com o mesmo poder e autoridade divinos”.
[2.] Quando seriam convencidos disso: “Quando tiverdes levantado o Filho do homem”, levantado na cruz, como a serpente de bronze na haste (João 3:14), como os sacrifícios sob a lei.
(Pois Cristo é o grande sacrifício.) Dizia-se que os sacrifícios, ao serem oferecidos, eram elevados ou levantados. Por isso, os holocaustos, os mais antigos e honrados de todos, eram chamados elevações (Gnoloth, de Gnolah, ascendit — ele subiu).
E, em muitas outras ofertas, usavam a cerimônia significativa de erguer o sacrifício e movê-lo diante do Senhor; assim Cristo foi levantado. Ou a expressão indica que sua morte foi sua exaltação.
Os que o mataram pensavam que assim o teriam afundado para sempre, junto com sua causa; mas isso resultou no avanço de ambos (João 12:24). Quando o Filho do homem foi crucificado, o Filho do homem foi glorificado.
Cristo havia chamado seu morrer de ida embora; aqui o chama de ser levantado. Assim, a morte dos santos, assim como é sua partida deste mundo, também é seu avanço para um mundo melhor.
Observe: ele fala daqueles com quem está conversando agora como os instrumentos de sua morte: “Quando tiverdes levantado o Filho do homem”. Não que eles fossem ser os sacerdotes que o ofereceriam (não: esse foi seu próprio ato, ele ofereceu a si mesmo), mas seriam seus traidores e assassinos; veja Atos 2:23.
Eles o levantaram até a cruz, mas então ele levantou a si mesmo até seu Pai. Observe com que ternura e mansidão Cristo aqui fala aos que certamente sabia que o matariam, para nos ensinar a não odiar nem procurar ferir ninguém, embora possamos ter motivos para pensar que nos odeiam e procuram nos ferir.
Agora, Cristo fala de sua morte como aquilo que seria um poderoso convencimento da incredulidade dos judeus. Quando vocês tiverem levantado o Filho do homem, então saberão isso. E por que então?
Primeiro, porque às pessoas descuidadas e irrefletidas muitas vezes é ensinado o valor das misericórdias pela falta delas (Lucas 17:22).
Segundo, a culpa de seu pecado ao matarem Cristo despertaria tanto suas consciências que eles seriam levados a fazer sérias indagações em busca de um Salvador; e então saberiam que Jesus era aquele que, sozinho, podia salvá-los.
E assim aconteceu: quando lhes disseram que, com mãos perversas, haviam crucificado e abatido o Filho de Deus, clamaram: “Que faremos?” E foram levados a saber com certeza que esse Jesus era Senhor e Cristo (Atos 2:36).
Terceiro, haveria tais sinais e maravilhas acompanhando sua morte e o ser levantado da morte em sua ressurreição que dariam uma prova mais forte de ele ser o Messias do que qualquer outra que tivesse sido dada até então.
E, por isso, multidões que antes o haviam contradito e se oposto a ele foram levadas a crer que Jesus é o Cristo.
Quarto, pela morte de Cristo foi comprado o derramamento do Espírito, que convenceria o mundo de que Jesus é ele (João 16:7, 8).
Quinto, os juízos que os judeus trouxeram sobre si ao matarem Cristo, o que completou a medida de sua iniquidade, foram um convencimento palpável para os mais endurecidos entre eles de que Jesus era ele.
Cristo muitas vezes havia predito aquela desolação como o justo castigo da incredulidade invencível deles, e, quando ela aconteceu (veja: aconteceu), eles não puderam deixar de saber que o grande profeta estivera entre eles (Ezequiel 33:33).
[3.] O que sustentava nosso Senhor Jesus nesse intervalo (v. 29): “Aquele que me enviou está comigo”, em todo o meu empreendimento.
Pois o Pai (a fonte e a primeira origem desta questão, de quem ela procede como sua grande causa e seu autor) “não me deixou só”, para administrá-la eu mesmo, não abandonou a atividade nem a mim na condução dela, “pois sempre faço as coisas que lhe agradam”. Aqui está:
Primeiro, a certeza que Cristo tinha da presença de seu Pai com ele, que inclui tanto um poder divino que o acompanha para capacitá-lo para sua obra quanto um favor divino manifestado a ele para animá-lo nela.
“Aquele que me enviou está comigo” (Isaías 42:1; Salmos 89:21). Isso dá grande ousadia à nossa fé em Cristo e à nossa confiança em sua palavra: ele tinha, e sabia que tinha, seu Pai consigo, para confirmar a palavra de seu servo (Isaías 44:26).
O Rei dos reis acompanhava seu próprio embaixador para atestar sua missão e auxiliar sua administração, e nunca o deixou só, nem solitário nem fraco.
Isso também agravava a maldade dos que se opunham a ele e lhes dava uma indicação do premunire em que se colocavam ao resistir a ele, pois, assim, eram encontrados como combatentes contra Deus.
Por mais fácil que pudessem pensar ser esmagá-lo e derrotá-lo, saibam que ele tinha alguém para apoiá-lo, com quem contender é a maior loucura que pode haver.
Segundo, o fundamento dessa certeza: “Pois sempre faço as coisas que lhe agradam”. Isto é:
- Aquela grande questão em que nosso Senhor Jesus estava continuamente empenhado era uma questão que muito agradava ao Pai que o enviara.
Todo o seu empreendimento é chamado de “prazer do Senhor” (Isaías 53:10), por causa dos conselhos da mente eterna a respeito dele e da satisfação da mente eterna nele.
- Sua administração daquela questão em nada desagradava a seu Pai; ao executar sua comissão, observou pontualmente todas as instruções de seu Pai e em nada se desviou delas.
Nenhum mero homem desde a queda poderia dizer algo como isso (pois todos ofendemos em muitas coisas), mas nosso Senhor Jesus nunca ofendeu seu Pai em coisa alguma; mas, como lhe convinha, cumpriu toda a justiça.
Isso era necessário para a validade e o valor do sacrifício que ele iria oferecer. Pois, se ele tivesse desagradado ao próprio Pai em alguma coisa e, assim, tivesse tido algum pecado próprio pelo qual responder, o Pai não poderia ter se agradado dele como propiciação pelos nossos pecados.
Mas nos convinha tal sacerdote e tal sacrifício que fossem perfeitamente puros e sem mancha. Também podemos aprender daqui que os servos de Deus podem então esperar a presença de Deus com eles quando escolhem e fazem as coisas que lhe agradam (Isaías 66:4, 5).
V. O bom efeito que o discurso de Cristo produziu em alguns ouvintes (v. 30): “Enquanto ele dizia essas palavras, muitos creram nele.” Repare:
- Embora multidões pereçam na incredulidade, ainda assim há um remanescente segundo a eleição da graça que crê para a salvação da alma.
Ainda que Israel, o povo como um todo, não seja reunido, há pessoas entre eles nas quais Cristo será glorioso (Isaías 49:5). O apóstolo insiste nisso para conciliar a rejeição dos judeus com as promessas feitas a seus antepassados. Há um remanescente (Romanos 11:5).
- Pela graça de Deus, as palavras de Cristo, sobretudo suas advertências de juízo, são eficazes para levar pobres almas a crer nele.
Quando Cristo lhes disse que, se não cressem, morreriam em seus pecados e nunca chegariam ao céu, perceberam que era hora de se precaverem (Romanos 1:16, 18).
- Às vezes se abre uma porta ampla e eficaz, mesmo onde há muitos adversários. Cristo levará sua obra adiante, ainda que as nações se enfureçam.
Às vezes o evangelho alcança grandes vitórias onde encontra forte oposição. Isso deve animar os ministros de Deus a pregarem o evangelho, ainda que o façam em meio a muita disputa, pois não trabalharão em vão.
Muitos podem ser reconduzidos secretamente a Deus por meio de esforços que homens de mente corrupta contradizem abertamente e contra os quais levantam objeções capciosas.
Agostinho faz uma súplica afetuosa em sua exposição destas palavras: Utinam et, me loquenti, multi credant; non in me, sed mecum in eo — “Quem dera muitos cressem também quando eu falo: não em mim, mas comigo nele”.
Versículos 31 a 35
O Discurso de Cristo com os Fariseus.
Nestes versículos temos:
I. Uma doutrina consoladora sobre a liberdade espiritual dos discípulos de Cristo, destinada a animar os judeus que creram. Cristo sabia que sua doutrina começava a agir em alguns ouvintes e percebia que dele saíra poder.
Por isso, desviou o discurso dos fariseus orgulhosos e se dirigiu aos que criam com fraqueza. Depois de anunciar a cólera contra os endurecidos na incredulidade, falou com consolo àqueles poucos judeus frágeis que criam nele. Veja:
Com que graça o Senhor Jesus olha para os que tremem diante de sua palavra e estão prontos para recebê-la. Ele tem algo a dizer aos que têm ouvidos para ouvir e não deixará sem uma palavra os que se colocam em seu caminho.
Com que cuidado Cristo alimenta os primeiros sinais da graça e acolhe os que se aproximam dele. Os judeus que creram ainda eram fracos; mesmo assim, Cristo não os rejeitou, pois reúne os cordeiros nos braços.
Quando a fé ainda é bebê, Cristo tem joelhos para recebê-la e seios para amamentá-la, a fim de que não morra ao sair do ventre. No que lhes disse, encontramos duas coisas que Cristo diz a todos os que vierem a crer:
(1.) O caráter de um verdadeiro discípulo de Cristo: “Se permanecerdes na minha palavra, sois de fato meus discípulos”. Ao crerem nele como o grande Profeta, entregaram-se para ser seus discípulos.
Ao entrarem na escola de Cristo, receberam esta regra permanente: ele não reconheceria como discípulo quem não permanecesse em sua palavra.
[1.] Isso implica que muitos se apresentam como discípulos de Cristo, mas não são discípulos de fato; são discípulos apenas de aparência e de nome.
[2.] É muito importante que os que não são fortes na fé cuidem de ser sadios na fé, de modo que, embora não sejam discípulos do nível mais avançado, sejam, ainda assim, discípulos de fato.
[3.] Aos que parecem dispostos a ser discípulos de Cristo, deve-se dizer que seria melhor nem se aproximarem dele se não vierem decididos, pela graça dele, a permanecer com ele.
Que os que pensam em fazer aliança com Cristo não pensem em reservar para si o direito de revogá-la. As crianças são mandadas à escola, e os aprendizes são contratados, apenas por alguns anos.
Mas só pertencem a Cristo os que querem ficar vinculados a ele por toda a vida.
[4.] Só os que permanecem na palavra de Cristo serão aceitos como seus verdadeiros discípulos. Devem apegar-se à palavra em cada situação, sem parcialidade, e permanecer nela até o fim, sem apostasia.
Permanecer é menein: habitar na palavra de Cristo como alguém mora em casa, seu centro, descanso e refúgio. Nossa comunhão com a palavra e nossa conformidade a ela devem ser constantes.
Se permanecermos como discípulos até o fim, e somente assim, mostraremos que somos de fato discípulos.
(2.) O privilégio de um verdadeiro discípulo de Cristo. Há duas promessas preciosas para os que assim provam que são verdadeiros discípulos (v. 32).
[1.] “Conhecereis a verdade”: conhecerão tudo o que é necessário e proveitoso saber e terão a fé nela ainda mais confirmada; conhecerão sua certeza.
Repare: primeiro, até os que creem de verdade e são verdadeiros discípulos podem estar, e muitas vezes estão, muito às escuras quanto a muitas coisas que deveriam conhecer.
Os filhos de Deus ainda são crianças e entendem e falam como crianças. Se não precisássemos ser ensinados, não precisaríamos ser discípulos.
Segundo, conhecer a verdade é um grande privilégio: conhecer as verdades específicas em que devemos crer, como dependem e se relacionam umas com as outras, e quais são os fundamentos e as razões da nossa fé; saber o que é verdade e o que prova que ela é verdadeira.
Terceiro, Cristo promete com graça a todos os que permanecem na sua palavra que conhecerão a verdade na medida em que isso lhes for necessário e proveitoso. Os alunos de Cristo certamente serão bem ensinados.
[2.] “A verdade vos libertará”, isto é, primeiro, a verdade que Cristo ensina tende a libertar as pessoas (Isaías 61:1).
A justificação nos liberta da culpa do pecado, pela qual estávamos sujeitos ao julgamento de Deus e presos a temores terríveis. A santificação nos liberta da escravidão da corrupção, que nos impedia de prestar aquele serviço que é perfeita liberdade e nos obrigava àquilo que é perfeita escravidão.
A verdade do evangelho nos liberta do jugo da lei cerimonial e dos fardos ainda mais pesados das tradições dos anciãos. Liberta-nos dos inimigos espirituais, torna-nos livres no serviço de Deus, dá-nos livre acesso aos privilégios de filhos e faz de nós cidadãos livres da Jerusalém do alto, que é livre.
Segundo, conhecer, acolher e crer nessa verdade realmente nos liberta: dos preconceitos, enganos e falsas ideias, que mais escravizam e prendem a alma; do domínio dos desejos e das paixões.
Essa verdade restaura à alma o governo de si mesma, ao submetê-la à obediência ao Criador. Quando a mente acolhe a verdade de Cristo com a luz e o poder que ela traz, amplia-se imensamente, ganha espaço e alcance e se eleva muito acima das coisas dos sentidos.
A mente nunca age com liberdade tão verdadeira quanto quando age sob uma ordem divina (2 Coríntios 3:17). Os inimigos do cristianismo alegam defender o pensamento livre; na verdade, os raciocínios mais livres são os guiados pela fé, e têm pensamento livre aqueles cujos pensamentos são cativados e levados à obediência a Cristo.
II. A ofensa que os judeus carnais sentiram diante dessa doutrina e a objeção que fizeram contra ela. Embora trouxesse boas-novas de liberdade aos cativos, eles a criticaram (v. 33).
Os fariseus, meros espectadores sem parte nem quinhão nessa promessa, ressentiram-se de que Cristo dirigisse essa palavra consoladora aos que criam. Pensaram que a carta graciosa de liberdade concedida aos que criam era um insulto e uma afronta contra eles.
Por isso, com muito orgulho e inveja, responderam: “Nós, judeus, somos descendentes de Abraão e, portanto, nascemos livres; não perdemos nossa liberdade de nascimento. Nunca fomos escravos de homem algum. Então, como você diz a nós, judeus: ‘Vocês serão libertados’?” Veja:
- O que os afligia: aquelas palavras insinuavam que a igreja e a nação judaicas estavam de algum modo em servidão, o que era uma afronta aos judeus em geral, e que todos os que não cressem em Cristo continuavam nessa servidão, o que atingia os fariseus em particular.
Repare: os privilégios dos fiéis despertam inveja e irritação nos incrédulos (Salmos 112:10).
- O que alegavam contra a doutrina: Cristo insinuou que precisavam ser libertados, mas eles argumentaram:
(1.) “Somos descendentes de Abraão, que foi príncipe e grande homem. Embora vivamos em Canaã, não descendemos de Canaã nem estamos sob a sentença contra ele: ‘será servo dos servos’. Temos posse em frank-almoign — esmola livre —, não em villenage, sob condição servil.”
É comum uma família em decadência se gabar da glória e da dignidade dos antepassados e tomar emprestada a honra de um nome ao qual retribui com desonra. Foi o que os judeus fizeram aqui.
Mas não era só isso. Abraão estava em aliança com Deus, e eles eram filhos dele por direito (Romanos 11:28). Sem dúvida, aquela aliança era uma carta de liberdade que lhes concedia privilégios incompatíveis com a escravidão (Romanos 9:4).
Por isso, julgavam que não precisavam pagar uma soma tão alta quanto imaginavam ser a fé em Cristo para obter essa liberdade, uma vez que já haviam nascido livres.
Repare: é falha e insensatez comum dos que tiveram pais piedosos e boa educação confiarem nesse privilégio e se gabarem dele, como se pudesse compensar a falta de verdadeira santidade.
Eram descendentes de Abraão, mas de que isso lhes serviria, se sabemos que havia no inferno alguém que podia chamar Abraão de pai?
As bênçãos salvadoras não são transmitidas por herança a nós e aos nossos descendentes, como os privilégios comuns. Não se obtém direito ao céu por descendência, nem se pode reivindicá-lo como herdeiro legítimo provando a linhagem.
Nosso título é obtido por aquisição: não por nós mesmos, mas por meio do nosso Redentor em nosso favor, sujeito a certas condições e limitações. Se não as observarmos, não nos servirá de nada sermos descendentes de Abraão.
Assim, quando confrontados com a necessidade de nascer de novo, muitos se esquivam dizendo: “Somos filhos da igreja”. Mas nem todos os que descendem de Israel são Israel.
(2.) “Nunca fomos escravos de homem algum.” Observe agora: [1.] Essa alegação era falsa. Não sei como tiveram coragem de dizer diante de uma assembleia algo tão notoriamente falso.
Os descendentes de Abraão não foram escravos dos egípcios? Não ficaram muitas vezes sujeitos às nações vizinhas no tempo dos juízes? Não foram cativos na Babilônia por setenta anos?
E não eram então tributários dos romanos e, embora não fossem escravos individualmente, não estavam em servidão como nação e gemendo por liberdade?
Ainda assim, para confrontar Cristo, tiveram a insolência de dizer: “Nunca fomos escravos”. Assim, queriam expor Cristo à hostilidade dos judeus, zelosos pela honra de sua liberdade, e dos romanos, que não admitiam escravizar as nações conquistadas.
[2.] A aplicação que fizeram era insensata. Cristo falara da liberdade com que a verdade os libertaria. Ele só podia estar falando de liberdade espiritual, pois a verdade enriquece e liberta a mente, livrando-a do cativeiro do erro e do preconceito e ampliando-a.
Ainda assim, argumentaram contra a oferta de liberdade espiritual que nunca haviam sido escravos no corpo, como se, por nunca terem sido escravos de homem algum, também nunca tivessem sido escravos de paixão alguma.
Repare: os corações carnais só percebem as aflições que atormentam o corpo e prejudicam os assuntos terrenos.
Fale com eles de invasões à liberdade civil e à propriedade; conte-lhes de devastação em suas terras ou estragos às suas casas, e entenderão muito bem. Poderão dar uma resposta sensata, pois isso os toca e afeta.
Mas fale do cativeiro do pecado, da servidão a Satanás e da liberdade por meio de Cristo; fale do dano causado à alma preciosa e do risco à sua felicidade eterna, e você lhes contará coisas que lhes soarão estranhas.
Dizem a esse respeito, como aqueles homens: “Não está ele falando por parábolas?” (Ezequiel 20:49). Foi muito parecido com o equívoco de Nicodemos sobre nascer de novo.
III. A defesa de nosso Salvador contra essas objeções e sua explicação mais detalhada da doutrina, vv. 34-37. Nessa ocasião, Cristo faz quatro coisas:
- Mostra que, apesar da liberdade civil e de serem membros visíveis da igreja, eles ainda podiam estar em servidão (v. 34): Quem comete pecado, mesmo sendo descendente de Abraão e nunca tendo sido escravo de homem algum, é escravo do pecado.
Observe: Cristo não os censura pela falsidade da alegação nem pela servidão em que estavam naquele momento; explica melhor o que dissera, para instruí-los.
Assim, os ministros devem instruir com mansidão os que se opõem, para que se corrijam, e não provocá-los com ira a se enredarem ainda mais. Agora, vejamos:
(1.) A introdução é muito solene: “Em verdade, em verdade vos digo”. É uma declaração que impõe respeito, usada com frequência pelo nosso Salvador para exigir atenção reverente e assentimento pronto.
Os profetas falavam: “Assim diz o Senhor”, pois eram fiéis como servos. Mas Cristo, por ser Filho, fala em seu próprio nome: “Eu lhes digo, eu, o Amém, a testemunha fiel”. Ele empenha sua veracidade nessa afirmação.
“Digo isso a vocês, que se gabam de serem descendentes de Abraão, como se isso pudesse salvá-los.”
(2.) A verdade diz respeito a todos, embora tenha sido apresentada aqui numa ocasião particular: “Quem comete pecado é escravo do pecado” e precisa muito ser libertado. Viver no pecado é viver em escravidão.
[1.] Veja sobre quem recai essa marca: sobre quem comete pecado, pas ho poion hamartian, todo aquele que pratica o pecado.
Não há justo sobre a terra que viva sem pecar. Ainda assim, nem todo aquele que peca é escravo do pecado, pois, nesse caso, Deus não teria nenhum servo.
É escravo quem pratica o pecado: escolhe pecar e prefere o caminho da maldade ao caminho da santidade (Jeremias 44:16, 17); faz aliança com o pecado, entra em pacto com ele e se casa com ele.
Também é escravo quem maquina o pecado, provê para a carne e trama a iniquidade, e quem transforma o pecado em hábito, anda segundo a carne e faz do pecado seu ofício.
[2.] Veja qual é a marca que Cristo põe nos que praticam o pecado desse modo. Ele os estigmatiza e lhes dá o sinal de escravos.
São escravos do pecado, presos pela culpa do pecado, sob custódia e detidos por ela, encerrados sob o pecado e sujeitos ao seu poder.
O escravo do pecado faz de si mesmo um escravo e é considerado como tal. Vendeu-se para praticar a maldade; os desejos pecaminosos ditam as regras, ele está à disposição deles e não é senhor de si mesmo.
Faz o trabalho do pecado, sustenta os interesses dele e aceita o salário que ele paga (Romanos 6:16).
- Cristo lhes mostra que, estando em condição de escravos, ter lugar na casa de Deus não lhes daria direito à herança dos filhos. Pois o servo, embora fique algum tempo na casa, por ser servo não permanece nela para sempre (v. 35).
O serviço, como se costuma dizer, não dá direito à herança: dura apenas algum tempo, não é perpétuo. Mas o filho da família permanece para sempre.
(1.) Isso aponta principalmente para a rejeição da igreja e da nação judaicas. Israel fora filho de Deus, seu primogênito. Mas havia se degenerado de modo deplorável, tomando uma disposição servil e se escravizando ao mundo e à carne.
Por isso, embora julgassem que seu direito de nascimento lhes garantia um lugar na igreja, Cristo lhes diz que, tendo se tornado escravos, não permaneceriam para sempre na casa.
Jerusalém se opôs ao evangelho de Cristo, que proclamava liberdade, e se apegou à aliança do Sinai, que gerava escravidão. Depois que a vigência dessa aliança terminou, ela ficou escravizada com seus filhos (Gálatas 4:24, 25).
Por isso, foi excluída da igreja e privada de seus direitos; sua carta de privilégio foi confiscada e retirada e ela foi expulsa como o filho da escrava (Gênesis 21:14).
Crisóstomo entende assim esta passagem: “Não pensem que serão libertados do pecado pelos ritos e cerimônias da lei de Moisés. Moisés era apenas servo e não tinha na igreja a autoridade perpétua que o Filho tinha. Mas, se o Filho os libertar, tudo estará bem”, v. 36.
(2.) A passagem também se refere à rejeição de todos os que são escravos do pecado e não recebem a adoção de filhos de Deus.
Esses servos inúteis podem ficar algum tempo na casa de Deus como agregados à família, mas virá o dia em que serão distinguidos os filhos da escrava e os da mulher livre.
Somente os verdadeiros crentes, filhos da promessa e da aliança, são considerados livres e permanecerão para sempre na casa, como Isaque.
Terão uma estaca no lugar santo da terra (Esdras 9:8) e moradas no lugar santo do céu (João 14:2).
- Cristo lhes mostra o caminho para saírem da escravidão e alcançarem a gloriosa liberdade dos filhos de Deus (Romanos 8:21).
A situação dos escravos do pecado é triste, mas, graças a Deus, há socorro e esperança.
Assim como é privilégio de todos os filhos da família e dignidade que os distingue dos servos permanecerem para sempre na casa, também o Filho, o primogênito entre muitos irmãos e herdeiro de todas as coisas, tem poder para alforriar e adotar (v. 36): “Se o Filho vos libertar, sereis de fato livres”. Repare:
(1.) No evangelho, Jesus Cristo nos oferece nossa liberdade; ele tem autoridade e poder para libertar. [1.] Para soltar prisioneiros: ele faz isso na justificação, prestando satisfação por nossa culpa e nossas dívidas, pelas quais fomos presos pela lei e estávamos sob execução.
Sobre essa satisfação se baseia a oferta do evangelho, que é, para todos, um ato condicional de isenção da pena e, para todos os verdadeiros crentes, ao crerem, uma carta absoluta de perdão.
Cristo, como nosso fiador, ou melhor, quem presta nossa fiança (pois ele não estava originalmente obrigado conosco, mas, diante de nossa insolvência, ficou obrigado em nosso favor), chega a um acordo com o credor, responde às exigências da justiça lesada com mais que um equivalente.
Toma o título da dívida e a sentença judicial em suas próprias mãos e os entrega cancelados a todos os que, pela fé e pelo arrependimento, lhe dão (se me é permitido dizer assim) uma contragarantia para preservar sua honra de prejuízo.
E assim eles são libertados; e, da dívida e de cada parte dela, ficam para sempre absolvidos, exonerados e desobrigados, e é selada uma quitação geral de todas as ações e reivindicações.
Ao passo que, contra os que se recusam a cumprir essas condições, as garantias permanecem nas mãos do Redentor, plenamente em vigor.
[2.] Ele tem poder para resgatar escravos, e faz isso na santificação; pelas razões poderosas de seu evangelho e pelas operações poderosas de seu Espírito, ele quebra o poder da corrupção na alma.
Reúne as forças dispersas da razão e da virtude e fortalece o interesse de Deus contra o pecado e Satanás, e assim a alma é libertada.
[3.] Ele tem poder para naturalizar forasteiros e estrangeiros, e faz isso na adoção. Este é um ato ulterior de graça: não somos apenas perdoados e curados, mas elevados em posição.
Há uma carta de privilégios assim como de perdão; e assim o Filho nos torna cidadãos livres do reino de sacerdotes, da nação santa, da nova Jerusalém.
(2.) Aqueles a quem Cristo liberta são de fato livres. Não é alethos, a palavra usada (v. 31) para discípulos de fato, mas ontos — realmente. Isso indica:
[1.] A verdade e a certeza da promessa. A liberdade de que os judeus se gabavam era uma liberdade imaginária; gabavam-se de um falso dom. Mas a liberdade que Cristo dá é algo certo, é real e tem efeitos reais.
Os servos do pecado prometem a si mesmos liberdade e se imaginam livres quando rompem os laços da religião. Mas usam de embuste contra si mesmos. Ninguém é de fato livre, exceto aqueles a quem Cristo liberta.
[2.] Isso indica a excelência singular da liberdade prometida; é uma liberdade que merece o nome, em comparação com a qual todas as outras liberdades não são melhores que escravidões, tanto ela resulta em honra e vantagem para os que por ela são libertados.
É uma liberdade gloriosa. É aquilo que é (assim significa ontos); é “substância” (Provérbios 8:21), ao passo que as coisas do mundo são sombras, coisas que não são.
- Ele aplica isso a esses judeus incrédulos que levantavam objeções capciosas, em resposta à jactância deles de seu parentesco com Abraão (v. 37): Sei muito bem que vocês são descendentes de Abraão, mas agora procuram me matar e, por isso, perderam a honra de seu parentesco com Abraão, porque minha palavra não tem lugar em vocês. Observe aqui:
(1.) A dignidade de sua linhagem admitida: Sei que vocês são descendentes de Abraão, todos sabem disso, e isso é sua honra.
Ele lhes concede o que era verdade. Quanto ao que diziam de falso, que nunca estiveram em escravidão a ninguém, não os contradiz, pois se empenhava em lhes ser proveitoso e não em provocá-los, e por isso disse o que lhes agradaria: “Sei que sois descendentes de Abraão”.
Eles se gabavam de sua linhagem de Abraão, como algo que engrandecia seus nomes e os tornava extremamente honrados; ao passo que, realmente, isso só agravava seus crimes e os tornava extremamente pecadores.
Pela boca deles próprios, ele julgará os hipócritas vangloriosos que se gabam de sua filiação e educação: “Vocês são descendentes de Abraão? Por que então não seguiram os passos da fé e da obediência dele?”
(2.) A incompatibilidade de sua prática com essa dignidade: “Mas procurais matar-me”. Eles haviam tentado isso diversas vezes e agora tinham o desígnio de fazê-lo, o que logo apareceu (v. 59), quando pegaram pedras para atirar nele.
Cristo conhece toda a maldade, não só a que os homens fazem, mas a que procuram fazer, têm o desígnio de fazer e se empenham em fazer.
Procurar matar qualquer homem inocente é um crime bastante negro, mas maquinar e imaginar a morte daquele que era Rei dos reis era um crime cuja atrocidade nos faltam palavras para expressar.
(3.) A razão dessa incoerência. Por que aqueles que eram descendentes de Abraão se opunham tão obstinadamente ao descendente prometido de Abraão, por meio de quem eles e todas as famílias da terra seriam abençoados?
Nosso Salvador lhes diz: É porque a minha palavra não tem lugar em vocês, ou chorei en hymin, Non capit in vobis, como traz a Vulgata.
“Minha palavra não agrada a vocês; vocês não têm inclinação nem apreço por ela. Outras coisas os atraem e agradam mais.” Ou: “Ela não toma conta de vocês; não tem poder sobre vocês nem causa impressão.”
Alguns críticos traduzem: “Minha palavra não penetra em vós”. Ela desceu como chuva, mas caiu sobre eles como chuva sobre a rocha: escorreu sem penetrar o coração, ao contrário da chuva que cai sobre a terra arada.
A versão siríaca diz: “Porque vocês não aceitam a minha palavra; não estão convencidos de que ela seja verdadeira nem apreciam a sua bondade”.
A nossa tradução é muito expressiva: “Ela não tem lugar em vós”. Eles procuravam matar Cristo e, assim, silenciá-lo de uma vez, não porque ele lhes tivesse causado algum prejuízo, mas porque não podiam suportar o poder convincente e imperioso de sua palavra.
Repare: [1.] As palavras de Cristo devem ocupar em nós o lugar mais íntimo e mais elevado. Devem ter morada em nós, como alguém que está em casa, e não como estranho ou hóspede temporário.
A palavra de Cristo deve ter em nós um lugar de ação. Precisa de espaço para operar, expulsar o pecado de nós e fazer a graça crescer em nós. Deve ocupar o lugar de governo, o trono, e habitar ricamente em nós.
[2.] Muitos professam a religião, mas a palavra de Cristo não tem lugar neles. Não lhe dão lugar porque não gostam dela. Satanás faz tudo o que pode para expulsá-la, e outras coisas ocupam o lugar que ela deveria ter em nós.
[3.] Onde a palavra de Deus não tem lugar, não se pode esperar bem algum, pois sobra espaço para toda espécie de maldade.
Se o espírito imundo encontra o coração vazio da palavra de Cristo, entra e passa a morar ali.
Versículos 38 a 47
O Discurso de Cristo com os Fariseus.
Cristo e os judeus continuam em conflito. Cristo procura convencê-los e convertê-los, enquanto eles continuam a contradizê-lo e a se opor a ele.
I. Cristo atribui a diferença entre suas ideias e as deles a uma origem distinta (v. 38): “Falo do que vi com meu Pai, e vós fazeis o que vistes com vosso pai”.
Fala-se aqui de dois pais, segundo as duas famílias em que os filhos dos homens se dividem: Deus e o diabo. Sem dúvida, são completamente opostos.
- A doutrina de Cristo vinha do céu; era cópia dos conselhos da sabedoria infinita e das intenções bondosas do amor eterno. (1.) “Falo do que vi”.
As revelações que Cristo nos fez sobre Deus e o outro mundo não se baseiam em conjecturas nem em relatos de terceiros, mas no que viu com os próprios olhos. Portanto, ele conhecia plenamente a natureza de tudo o que dizia e tinha certeza de sua verdade.
Aquele que foi dado como testemunha ao povo é testemunha ocular e, por isso, incontestável. (2.) “É o que vi com meu Pai”.
A doutrina de Cristo não é uma hipótese plausível, sustentada por razões prováveis; é uma reprodução exata das verdades incontestáveis guardadas na mente eterna.
Não era apenas o que Cristo ouvira do Pai; era o que vira com ele, quando o conselho de paz estava entre ambos.
Moisés falou do que ouvira de Deus, mas não lhe era permitido ver a face de Deus. Paulo esteve no terceiro céu, mas não podia, não devia dizer o que vira ali.
Era privilégio exclusivo de Cristo ver aquilo de que falava e falar daquilo que vira.
- As ações deles vinham do inferno: “Vocês fazem o que viram com o pai de vocês. Pelas próprias obras, vocês se mostram filhos dele, pois é evidente com quem se parecem e, portanto, é fácil descobrir sua origem”.
A criança que cresce junto do pai aprende suas palavras e seus costumes e se torna parecida com ele, tanto por imitação deliberada quanto por semelhança natural.
Assim também esses judeus, ao se oporem maldosamente a Cristo e ao evangelho, se tornaram tão parecidos com o diabo como se o tivessem escolhido intencionalmente como modelo.
II. Cristo refuta o orgulho deles por serem descendentes de Abraão e terem Deus como pai, e mostra como eram vazias e falsas essas alegações.
- Eles alegaram ser descendentes de Abraão, e Cristo respondeu a essa alegação. Disseram: “Abraão é nosso pai” (v. 39). Com isso pretendiam (1.) honrar a si mesmos e parecer importantes.
Tinham esquecido a humilhação contida na declaração que lhes era prescrita (Deuteronômio 26:5): “Meu pai era um arameu prestes a perecer”.
Também tinham esquecido a acusação contra seus antepassados degenerados, cujos passos seguiam em vez dos passos do fundador da família: “Teu pai era amorreu, e tua mãe, heteia” (Ezequiel 16:3).
Assim como é comum famílias decadentes se gabarem mais da linhagem, também é comum igrejas corruptas e depravadas se orgulharem da antiguidade e da grandeza de seus primeiros fundadores.
Fuimus Troes, fuit Ilium — “Fomos troianos; houve uma Troia”. (2.) Eles queriam difamar Cristo, como se ele tivesse insultado o patriarca Abraão ao falar do pai deles como alguém de quem aprenderam o mal.
Veja como procuravam uma ocasião de desavença com Cristo. Ele derruba essa alegação e expõe sua vaidade com uma razão clara e convincente: “Os filhos de Abraão fazem as obras de Abraão. Vocês não fazem as obras de Abraão; portanto, não são filhos de Abraão”.
[1.] A primeira premissa é clara: “Se vocês fossem filhos de Abraão, daqueles que poderiam reivindicar participação na aliança feita com ele e sua descendência, o que de fato lhes daria honra, fariam as obras de Abraão”.
Deus cumpriria o que prometera somente aos da casa de Abraão que guardassem o caminho do Senhor, como Abraão fez (Gênesis 18:19). Só são considerados descendentes de Abraão, herdeiros da promessa, os que seguem os passos da fé e da obediência dele (Romanos 4:12).
Embora os judeus tivessem suas genealogias e as mantivessem exatas, não podiam provar por elas sua relação com Abraão de modo a receber os benefícios da antiga herança, per formam doni — segundo a forma da dádiva, se não andassem com o mesmo espírito.
A relação das mulheres piedosas com Sara só se prova assim: vocês são filhas dela enquanto fazem o bem, e não além disso (1 Pedro 3:6).
Repare: os que querem provar que são descendentes de Abraão devem não só ter a fé de Abraão, mas também fazer as obras de Abraão (Tiago 2:21, 22).
Devem atender ao chamado de Deus, como Abraão; entregar a Deus seus confortos mais queridos; ser estrangeiros e peregrinos neste mundo; manter o culto a Deus em suas famílias; e andar sempre diante de Deus com integridade. Essas foram as obras de Abraão.
[2.] A premissa menor também é evidente: Mas vocês não fazem as obras de Abraão, pois procuram me matar, a mim, um homem que lhes disse a verdade que ouvi de Deus; Abraão não fez isso (v. 40).
Primeiro, Cristo mostra qual era a obra deles naquele momento: procuravam matá-lo. Três coisas agravam essa intenção.
- Eram tão desumanos que procuravam tirar a vida de um homem igual a eles, osso dos seus ossos e carne da sua carne, que não lhes causara prejuízo algum nem lhes dera motivo para isso.
“Tramais o mal contra um homem” (Salmos 62:3). 2. Eram tão ingratos que procuravam tirar a vida de alguém que lhes dissera a verdade.
Cristo não só não lhes fizera injúria; fizera-lhes o maior bem possível. Não só não os iludira com uma mentira, mas lhes ensinara as verdades mais necessárias e importantes. Por isso ele se tornara inimigo deles?
- Eram tão ímpios que procuravam tirar a vida de quem lhes dissera a verdade ouvida de Deus, um mensageiro que Deus lhes enviara. Assim, sua tentativa contra Cristo era quasi deicidium — um ato de malícia contra Deus.
Essa era a obra deles, e nela persistiam.
Em segundo lugar, Cristo lhes mostra que tal conduta não convinha aos filhos de Abraão, pois Abraão não agiu assim.
- “Ele nada fez semelhante a isso.” Era conhecido por sua humanidade, como mostra o resgate dos cativos, e por sua piedade, como mostra sua obediência à visão celestial em muitas ocasiões, algumas particularmente delicadas.
Abraão creu em Deus; eles persistiam obstinadamente na incredulidade. Abraão seguiu a Deus; eles lutavam contra Deus. Por serem tão diferentes de Abraão, este não os conheceria nem os reconheceria (Isaías 63:16). Veja Jeremias 22:15-17.
- “Ele não teria agido assim se vivesse agora, nem se eu tivesse vivido naquela época.” Hoc Abraham non fecisset — “Abraão não teria feito isso”; é assim que alguns leem.
Devemos, assim, raciocinar para nos afastar de qualquer caminho de maldade: Abraão, Isaque e Jacó teriam agido assim? Não podemos esperar estar algum dia com eles se nunca formos semelhantes a eles.
[3.] A conclusão vem naturalmente (v. 41): “Sejam quais forem suas vanglórias e alegações, vocês não são filhos de Abraão, mas se filiam a outra família (v. 41); há um pai cujas obras vocês praticam, cujo espírito é o de vocês e a quem se assemelham”.
Cristo ainda não diz claramente que se refere ao diabo, até que as contínuas objeções capciosas deles o obrigam a explicar-se. Isso nos ensina a tratar até os homens maus com civilidade e respeito e a não nos apressarmos em dizer sobre eles, ou a eles, algo que, embora verdadeiro, soe duro.
Ele quis ver se permitiriam que a própria consciência deduzisse de suas palavras que eram filhos do diabo. É melhor ouvir isso da nossa consciência agora, quando somos chamados a nos arrepender, isto é, a mudar de pai e de família mediante a mudança do nosso espírito e modo de viver, do que ouvir isso de Cristo no grande dia.
- Longe de reconhecerem que eram indignos de ser filhos de Abraão, alegaram que tinham o próprio Deus como Pai: “Não nascemos da prostituição; não somos bastardos, mas filhos legítimos. Temos um só Pai, o próprio Deus”.
(1.) Alguns entendem essa declaração literalmente. Eles não eram filhos da escrava, como os ismaelitas; nem nascidos de incesto, como os moabitas e amonitas (Deuteronômio 23:3); nem uma descendência ilegítima na família de Abraão, mas hebreus de hebreus.
Por terem nascido de um casamento legítimo, podiam chamar Deus de Pai, pois ele instituiu esse estado honroso quando a humanidade ainda vivia em inocência. Uma descendência legítima, não manchada por divórcios nem pela pluralidade de esposas, é chamada descendência de Deus (Malaquias 2:15).
(2.) Outros entendem a declaração em sentido figurado. Agora começam a perceber que Cristo falava de um pai espiritual, não carnal, do pai de sua religião. E assim:
[1.] Negam ser uma geração de idólatras: “Não nascemos da prostituição; não somos filhos de pais idólatras nem fomos criados em cultos idólatras”.
A idolatria é muitas vezes descrita como prostituição espiritual, e os idólatras, como filhos da prostituição (Oseias 2:4; Isaías 57:3).
Ora, se queriam dizer que não descendiam de idólatras, essa alegação era falsa, pois antes do cativeiro nenhuma nação era mais dada à idolatria que os judeus.
Se queriam dizer apenas que eles próprios não eram idólatras, e daí? Alguém pode estar livre da idolatria e ainda assim perecer em outra iniquidade e ser excluído da aliança de Abraão.
Se você não pratica idolatria (aplique isso a essa prostituição espiritual), mas mata alguém, torna-se transgressor da aliança. Um filho pródigo e rebelde será deserdado, ainda que não tenha nascido da prostituição.
[2.] Gabam-se de ser verdadeiros adoradores do Deus verdadeiro. “Não temos muitos pais, como os pagãos, que tinham muitos deuses e muitos senhores e, ainda assim, estavam sem Deus; como o filius populi — um filho do povo —, que tem muitos pais, mas nenhum pai certo. Não: o Senhor nosso Deus é um só Senhor e um só Pai; por isso estamos bem.”
Repare: os que imaginam que professar a verdadeira religião e adorar o Deus verdadeiro os salvará, embora não o adorem em espírito e em verdade nem sejam fiéis à sua profissão de fé, lisonjeiam a si mesmos e impõem à própria alma um embuste que a condena.
Agora nosso Salvador dá uma resposta completa a essa alegação falaciosa (v. 42, 43) e prova, com duas razões, que eles não tinham direito de chamar Deus de Pai.
Primeiro, eles não amavam Cristo: “Se Deus fosse vosso Pai, vós me amaríeis”. Cristo já havia refutado que fossem filhos de Abraão, mostrando que procuravam matá-lo (v. 40); agora refuta que fossem filhos de Deus, pois não o amavam nem o reconheciam.
Alguém pode ser considerado filho de Abraão se não se mostrar inimigo de Cristo por pecados graves. Mas ninguém pode provar que é filho de Deus sem ser amigo fiel e seguidor de Cristo.
Repare: todos os que têm Deus por Pai amam de verdade Jesus Cristo e estimam sua pessoa. São gratos pelo amor dele, têm afeição sincera por sua causa e seu reino, sentem prazer na salvação que ele realizou e no método e nas condições dessa salvação.
Também cuidam de guardar os mandamentos de Cristo, a prova mais segura do nosso amor por ele.
Estamos aqui num estado de provação, sob avaliação para ver como nos conduziremos para com nosso Criador. O estado de retribuição que virá será conforme o que fizermos agora.
Deus usou vários métodos para nos provar, e este foi um deles: enviou seu Filho ao mundo com provas suficientes de sua filiação e missão. Esperava que todos os que o chamavam de Pai beijassem seu Filho e lhe dessem as boas-vindas, pois ele era o primogênito entre muitos irmãos (1 João 5:1).
Assim se provará ou se refutará nossa adoção: “Amamos ou não a Cristo?” Se alguém não o ama, está longe de ser filho de Deus; é anathema, amaldiçoado (1 Coríntios 16:22).
Nosso Salvador prova que, se aqueles judeus fossem filhos de Deus, o amariam: “Procedi de Deus e vim dele”. Eles o amariam porque:
- Cristo era o Filho de Deus: “Procedi de Deus”. Exelthon significa sua exeleusis divina, ou origem do Pai, pela comunicação da essência divina e também pela união do logos divino à natureza humana dele. Assim explica o Dr. Whitby.
Isso certamente o tornaria amado por todos os que nasceram de Deus. Cristo é chamado o Amado porque, sendo amado pelo Pai, também é amado por todos os santos (Efésios 1:6).
- Cristo foi enviado por Deus e veio dele como embaixador ao mundo dos homens. Não veio por conta própria, como os falsos profetas, que não receberam de Deus nem a missão nem a mensagem (Jeremias 23:21).
Observe a ênfase que Cristo dá a isto: “Vim de Deus; nem vim de mim mesmo, mas ele me enviou”. Cristo recebeu de Deus tanto as credenciais quanto as instruções.
Veio para reunir num só os filhos de Deus (João 11:51) e conduzir muitos filhos à glória (Hebreus 2:10). Será que os filhos de Deus não acolheriam de braços abertos um mensageiro enviado pelo Pai com essa missão?
Mas aqueles judeus mostravam que não tinham parentesco algum com Deus, pois não tinham afeição por Jesus Cristo.
Segundo, eles não o entendiam. Era sinal de que não pertenciam à família de Deus não compreenderem a linguagem e o modo de falar dessa família: “Não entendeis a minha fala” (v. 43), ten lalian ten emen.
O modo de falar de Cristo era divino e celestial, mas suficientemente claro para os que conheciam a voz de Cristo no Antigo Testamento.
Aqueles que estavam familiarizados com a palavra do Criador não precisavam de outra chave para entender a linguagem do Redentor. Mesmo assim, os judeus estranhavam a doutrina de Cristo, encontravam nela dificuldades e sabe-se lá que pedras de tropeço.
Seria possível reconhecer um galileu pela fala, ou um efraimita pelo seu sibboleth? Alguém teria a ousadia de chamar Deus de Pai se o Filho de Deus lhe fosse um bárbaro, quando falava a vontade de Deus com as palavras do Espírito de Deus?
Repare: os que não estão familiarizados com a linguagem divina têm motivo para temer que sejam estranhos à natureza divina.
Cristo falava as palavras de Deus (João 3:34), usando a linguagem do reino de Deus. Ainda assim, os que alegavam pertencer ao reino não entendiam suas expressões e particularidades; como estrangeiros, e até grosseiros, ridicularizavam aquela linguagem.
A razão de não entenderem a fala de Cristo tornava o caso ainda pior: “Não podeis ouvir a minha palavra”, isto é: “Não conseguem se convencer a ouvi-la com atenção, sem parcialidade e sem preconceito, como deveriam”.
Esse “não podeis” significa que obstinadamente não querem. Foi assim que os judeus não conseguiram ouvir Estêvão (Atos 7:57) nem Paulo (Atos 22:22).
Repare: a antipatia arraigada nos corações corruptos contra a doutrina de Cristo é a verdadeira razão da ignorância que têm dela e de seus erros e equívocos.
Não gostam da doutrina nem a amam; por isso não querem entendê-la. Foi como Pedro, que fingiu não saber o que a criada dizia (Mateus 26:70), quando na verdade não sabia o que responder.
Vocês não conseguem ouvir as minhas palavras porque taparam os ouvidos (Salmos 58:4, 5). E Deus, em justo juízo, tornou insensíveis os ouvidos deles (Isaías 6:10).
III. Depois de refutar que fossem filhos de Abraão ou de Deus, Cristo lhes diz claramente de quem eram filhos: “Vós sois de vosso pai, o diabo” (v. 44).
Se não eram filhos de Deus, eram filhos do diabo, pois Deus e Satanás dividem entre si a humanidade. Por isso se diz que o diabo atua nos filhos da desobediência (Efésios 2:2).
Todos os ímpios são filhos do diabo, filhos de Belial (2 Coríntios 6:15), descendência da serpente (Gênesis 3:15) e filhos do maligno (Mateus 13:38).
Participam da natureza do diabo, trazem sua imagem, obedecem a seus mandamentos e seguem seu exemplo. Os idólatras diziam a um pedaço de madeira: “Tu és nosso pai” (Jeremias 2:27).
É uma acusação grave, que soa muito dura e horrível, dizer que algum ser humano, especialmente alguém criado na igreja, seja chamado filho do diabo. Por isso, nosso Salvador a prova cabalmente.
- Por uma razão geral: “Quereis fazer os desejos de vosso pai”, thelete poiein. (1.) “Vocês fazem os desejos do diabo, os desejos que ele quer que realizem. Vocês o satisfazem e agradam, cedem à tentação dele e são levados cativos por ele, conforme a vontade dele.”
“Mais ainda: vocês fazem os desejos que o próprio diabo realiza.” O diabo incita as pessoas a satisfazer desejos carnais e mundanos, mas, por ser espírito, não pode satisfazê-los ele mesmo.
Os desejos próprios do diabo são maldades espirituais: desejos das faculdades intelectuais e seus raciocínios corruptos; orgulho, inveja, cólera e malícia; hostilidade contra o bem e o empenho em levar outros ao mal.
Esses são os desejos que o diabo realiza. Os que estão sob o domínio deles se parecem com o diabo, assim como o filho se parece com o pai.
Quanto mais contemplação, maquinação e satisfação secreta houver no pecado, mais ele se parecerá com os desejos do diabo.
(2.) “Vocês querem fazer os desejos do diabo.” Quanto mais a vontade participa desses desejos, mais há neles do diabo.
Quando alguém peca por escolha, e não por surpresa; com prazer, e não contra a vontade; e persiste com presunção ousada e decisão desesperada, como os que disseram: “Amamos os estranhos e após eles iremos”, então faz os desejos do diabo.
“Vocês se deleitam em fazer os desejos do pai de vocês”, diz o Dr. Hammond. Fazem esses desejos rolar debaixo da língua como um bocado doce.
- Por dois exemplos específicos nos quais manifestamente se pareciam com o diabo: o assassinato e a mentira. O diabo é inimigo da vida porque Deus é o Deus da vida e a vida é a felicidade do homem.
Também é inimigo da verdade porque Deus é o Deus da verdade e a verdade é o vínculo do convívio humano.
(1.) O diabo foi homicida desde o princípio, não desde o próprio princípio, pois foi criado como anjo de luz e teve uma primeira condição pura e boa, mas desde o começo de sua apostasia, pouco depois da criação do homem.
Ele era anthropoktonos, homicida, assassino de homens. [1.] O diabo odiava o homem e, em seus sentimentos e inclinações, era seu assassino.
Seu nome, Satanás, vem de sitnah, ódio. O diabo difamava a imagem de Deus no homem, invejava a felicidade dele e desejava ardentemente sua ruína. Era inimigo declarado de toda a raça humana.
[2.] O diabo tentou o homem a cometer o pecado que trouxe a morte ao mundo. Assim, foi efetivamente o assassino de toda a humanidade, que em Adão tinha um só pescoço.
O diabo era assassino de almas: enganou as pessoas para que pecassem e, por meio do pecado, as matou (Romanos 7:11). Envenenou o homem com o fruto proibido e, para piorar, fez dele seu próprio assassino.
Assim, o diabo foi assassino não apenas no princípio, mas desde o princípio, o que indica que tem sido assim desde então. Como começou, assim continua: é o assassino dos homens por meio de suas tentações. O grande tentador é o grande destruidor.
Os judeus chamavam o diabo de anjo da morte. [3.] O diabo foi a primeira engrenagem do primeiro assassinato já cometido, o de Caim, que era do maligno e matou seu irmão (1 João 3:12).
Se o diabo não tivesse grande poder sobre Caim, ele não poderia ter feito algo tão contrário à natureza como matar o próprio irmão.
Como Caim matou o irmão por instigação do diabo, o diabo é chamado assassino. Isso não diminui a culpa pessoal de Caim; aumenta a do diabo, cujos tormentos, temos razão para pensar, serão ainda maiores quando chegar a hora, por toda a maldade para a qual arrastou os homens.
Veja por que devemos ficar de guarda contra as armadilhas do diabo e nunca dar ouvidos a ele. Ele é assassino e certamente pretende nos fazer mal, mesmo quando fala com brandura.
É de admirar que aquele que mata os filhos dos homens ainda seja, com o consentimento deles, tão senhor deles.
Nisto, aqueles judeus seguiam o diabo e eram assassinos como ele: assassinos de almas, que levavam vendadas à vala e transformavam em filhas do inferno.
Eram inimigos jurados de Cristo e agora estavam prontos para traí-lo e matá-lo, pela mesma razão que Caim matou Abel.
Aqueles judeus eram a descendência da serpente, que feriria o calcanhar da descendência da mulher: Agora vocês procuram me matar.
(2.) O diabo era mentiroso. A mentira se opõe à verdade (1 João 2:21); por isso, o diabo é descrito aqui como:
[1.] Inimigo da verdade e, portanto, de Cristo. Primeiro, ele desertou da verdade: não permaneceu nela nem continuou na pureza e retidão da natureza em que foi criado, mas abandonou sua primeira condição.
Quando se afastou do bem, apartou-se da verdade, pois sua apostasia foi fundada numa mentira. Os anjos eram os exércitos do Senhor; os que caíram não foram fiéis ao seu comandante e soberano, não eram dignos de confiança, pois foram acusados de loucura e deserção (Jó 4:18).
Aqui, “a verdade” pode significar a vontade revelada de Deus a respeito da salvação do homem por meio de Jesus Cristo, a verdade que Cristo pregava e à qual os judeus se opunham.
Nisso, os judeus agiam como o pai deles, o diabo. Ele viu a honra concedida à natureza humana no primeiro Adão e previu a honra muito maior pretendida no segundo Adão.
Não quis se reconciliar com esse conselho de Deus nem permanecer na verdade a respeito dele. Movido pelo orgulho e pela inveja, opôs-se a esse conselho e tentou frustrar seus desígnios. Assim também agiam aqueles judeus, como filhos e agentes do diabo.
Segundo, o diabo é destituído da verdade: “Não há verdade nele”.
Sua influência no mundo se sustenta em mentiras e falsidades. Não há nele verdade alguma, nada em que se possa confiar, nem no que diz nem no que faz.
As ideias que espalha sobre o bem e o mal são falsas e erradas; suas provas são prodígios mentirosos e todas as suas tentações são embustes. O diabo conhece muito bem a verdade, mas, como não tem afeição por ela, mas, ao contrário, é seu inimigo jurado, diz-se que não há verdade nele.
[2.] O diabo é amigo e patrono da mentira: “Quando fala uma mentira, fala do que lhe é próprio”. Três coisas são ditas aqui sobre o diabo em relação ao pecado da mentira:
Primeiro, que ele é mentiroso; seus oráculos eram oráculos mentirosos, seus profetas eram profetas mentirosos, e as imagens nas quais era adorado eram mestres de mentiras.
O diabo tentou nossos primeiros pais com uma mentira descarada. Todas as suas tentações são conduzidas por mentiras, chamando o mal de bem e o bem de mal e prometendo impunidade no pecado.
O diabo sabe que são mentiras e as sugere com a intenção de enganar e, assim, destruir. Quando agora contradisse o evangelho nos escribas e fariseus, fez isso por mentiras.
E, quando depois o corrompeu no homem do pecado, fez isso por fortes ilusões e uma grande mentira complexa.
Segundo, que, quando fala uma mentira, fala do que lhe é próprio, ek ton idion. É a expressão própria de sua linguagem; do que lhe é próprio, não de Deus; seu Criador nunca o pôs nele.
Quando os homens falam uma mentira, a tomam emprestada do diabo. Satanás enche o coração deles para que mintam (Atos 5:3).
Mas, quando o diabo fala uma mentira, o modelo é de sua própria elaboração, os motivos vêm dele mesmo. Isso revela a profundidade desesperadora da maldade em que esses espíritos apóstatas afundaram.
Assim como em sua primeira deserção eles não tiveram tentador, assim sua pecaminosidade continua sendo deles próprios.
Terceiro, que ele é pai dela, autou. 1. É pai de toda mentira, não só das mentiras que ele mesmo sugere, mas também das que os outros dizem. É o autor e fundador de todas as mentiras.
Quando os homens falam mentiras, falam da parte dele e como sua boca; elas procedem originalmente dele e trazem sua imagem.
- O diabo é pai de todo mentiroso; assim se pode entender. Deus criou os homens com disposição para a verdade.
É compatível com a razão e a luz natural, com a ordem das nossas faculdades e com as leis do convívio que falemos a verdade.
Mas o diabo, autor do pecado e espírito que atua nos filhos da desobediência, corrompeu tanto a natureza do homem que se diz que os ímpios são “afastados desde o ventre, falando mentiras” (Salmos 58:3).
Ele lhes ensinou, com suas línguas, a usar de engano (Romanos 3:13). É o pai dos mentirosos, que os gerou, que os educou no caminho da mentira.
Eles se parecem com ele e lhe obedecem, e com ele todos os mentirosos terão sua porção para sempre.
IV. Cristo, tendo assim provado que todos os assassinos e todos os mentirosos são filhos do diabo, deixa às consciências de seus ouvintes dizer: “Tu és o homem”.
Mas vem, nos versículos seguintes, ajudá-los na aplicação disso a si mesmos; não os chama de mentirosos, mas lhes mostra que não eram amigos da verdade e que, nisso, se assemelhavam àquele que não permaneceu na verdade, porque não há verdade nele.
Duas coisas ele lhes imputa:
- Que eles não queriam crer na palavra da verdade (v. 45): hoti ten aletheian lego, ou pisteuete moi.
(1.) De duas maneiras se pode entender isso: [1.] “Embora eu lhes diga a verdade, ainda assim vocês não acreditarão em mim (hoti), não crerão que de fato a digo.”
Embora ele tivesse dado prova abundante de sua comissão da parte de Deus e de sua afeição pelos filhos dos homens, ainda assim eles não quiseram crer que ele lhes dissesse a verdade.
Agora a “verdade tinha caído na rua” (Isaías 59:14, 15). As maiores verdades não obtinham, junto a alguns, nem o menor crédito, pois eles “se rebelaram contra a luz” (Jó 24:13).
Ou, [2.] “Porque vos digo a verdade” (assim lemos), por isso não credes em mim. Eles não quiseram recebê-lo nem acolhê-lo como profeta, porque ele lhes dizia algumas verdades desagradáveis que não queriam ouvir.
Ele lhes disse a verdade a respeito deles e de sua própria situação, mostrou-lhes seus rostos num espelho que não os adularia; por isso, não quiseram crer em uma palavra que ele disse.
É miserável a situação daqueles para quem a luz da verdade divina se torna um tormento.
(2.) Agora, para lhes mostrar a falta de razão de sua incredulidade, ele condescende em pôr a questão nestes termos justos (v. 46). Como ele e eles eram contrários, ou ele estava em erro, ou eles estavam. Agora tomem a questão de uma ou de outra maneira:
[1.] Se ele estivesse em erro, por que não demonstraram seu erro? A falsidade dos que alegavam ser profetas era descoberta ou pela má tendência de suas doutrinas (Deuteronômio 13:2) ou pelo mau teor de sua conduta: “Vós os conhecereis por seus frutos”.
Mas (diz Cristo) “qual de vós”, vocês do sinédrio, que se encarregam de julgar os profetas, “qual de vós me convence de pecado?”
Acusaram Cristo de alguns dos piores crimes: gula, embriaguez, blasfêmia, violação do sábado, conluio com Satanás e outros tantos.
Mas as acusações eram calúnias maliciosas e infundadas, que todos os que o conheciam sabiam ser completamente falsas.
Quando tinham feito tudo o que podiam, por truque e artifício, aliciamento de testemunhas e perjúrio, para provar algum crime contra ele, o próprio juiz que o condenou reconheceu que não encontrara nele culpa alguma.
O pecado do qual ele aqui os desafia a declará-lo culpado é, primeiro, uma doutrina incoerente. Eles haviam ouvido seu testemunho; poderiam mostrar alguma coisa nele absurda ou indigna de crença, alguma contradição ou consigo mesmo ou com as Escrituras, ou alguma corrupção da verdade ou dos costumes insinuada por sua doutrina? (João 18:20).
Ou, segundo, uma conduta incongruente: “Qual de vocês pode me imputar com justiça alguma coisa, em palavra ou ação, indigna de um profeta?” Veja a maravilhosa condescendência de nosso Senhor Jesus: ele só exigia que cressem nele até onde os fundamentos reconhecidos de credibilidade sustentavam essa exigência. Veja Jeremias 2:5, 31; Miquéias 6:3.
Os ministros podem aprender daqui: 1. A andar tão prudentemente que não esteja no poder de seus observadores mais rigorosos convencê-los de pecado, para que o ministério não seja censurado. A única maneira de não ser declarado culpado de pecado é não pecar.
- A estarem dispostos a admitir um escrutínio; embora estejamos confiantes, em muitas coisas, de que estamos certos, ainda assim devemos estar dispostos a que se ponha à prova se não estamos errados. Veja Jó 6:24.
[2.] Se eles estivessem errados, por que Cristo não os convencera disso? “Se digo a verdade, por que vocês não acreditam em mim? Se não conseguem provar que estou errado, devem admitir que digo a verdade. Então por que não confiam em mim? Por que não aceitam minha palavra?”
Repare: se as pessoas investigassem a razão de sua incredulidade e examinassem por que não creem naquilo que não podem refutar, veriam que chegaram a conclusões tão absurdas que só poderiam se envergonhar.
Descobririam que não creem em Jesus Cristo porque não querem abandonar os pecados, negar a si mesmas e servir fielmente a Deus. Não pertencem à religião cristã porque, de fato, não querem pertencer a religião alguma.
A incredulidade no Redentor acaba sendo pura rebelião contra o Criador.
- Outra acusação contra eles é não quererem ouvir as palavras de Deus (v. 47), o que mostra ainda mais como era infundada a alegação de que pertenciam a Deus. Vejamos:
(1.) A doutrina: “Quem é de Deus ouve as palavras de Deus”, isto é, [1.] está disposto e pronto para ouvi-las, deseja sinceramente conhecer a vontade de Deus e acolhe com alegria tudo o que sabe ser a vontade dele.
As palavras de Deus têm tanta autoridade e são tão agradáveis aos que nasceram de Deus que eles as recebem como o menino Samuel: “Fala, Senhor, porque o teu servo ouve”. “Venha a palavra do Senhor”.
[2.] Quem é de Deus compreende e discerne as palavras dele: ouve-as de tal modo que percebe nelas a voz de Deus, o que o homem natural não faz (1 Coríntios 2:14).
Quem é de Deus logo percebe as revelações que Deus faz de si mesmo e a proximidade do seu nome (Salmos 75:1). Como os que pertencem à família reconhecem os passos e a batida do senhor da casa e abrem a porta imediatamente (Lucas 12:36), assim as ovelhas reconhecem a voz do pastor, distinguindo-a da voz de um estranho (João 10:4, 5; Cantares de Salomão 2:8).
(2.) A aplicação dessa doutrina para convencer os judeus incrédulos: “Por isso vós não as ouvis”, isto é: “Não dão atenção, não entendem nem creem nas palavras de Deus e não querem ouvi-las porque não são de Deus”.
“Vocês estarem assim surdos e mortos para as palavras de Deus é prova clara de que não são de Deus.” É pela sua palavra que Deus se revela e está presente entre nós. Portanto, considera-se que nossa disposição para com a palavra dele é boa ou má (2 Coríntios 4:4; 1 João 4:6).
Ou então, eles não serem de Deus era a razão de não ouvirem de modo proveitoso as palavras de Deus que Cristo dizia. Não entendiam nem criam nele, não porque as palavras fossem obscuras ou carecessem de provas, mas porque os ouvintes não eram de Deus, não tinham nascido de novo.
Se a palavra do reino não produzir fruto, a culpa deve ser atribuída ao solo, não à semente, como mostra a parábola do semeador (Mateus 13:3).
Versículos 48 a 50
O Discurso de Cristo com os Fariseus.
Aqui está: I. A malícia do inferno irrompeu na linguagem vil que os judeus incrédulos usaram contra nosso Senhor Jesus.
Até então, criticavam a doutrina de Cristo e faziam comentários maliciosos a respeito dela. Mas, depois de mostrarem irritação quando ele se queixou (v. 43, 47) de que não queriam ouvi-lo, por fim passaram a insultá-lo abertamente (v. 48).
Não eram pessoas comuns, mas, ao que parece, escribas e fariseus, homens importantes. Quando perceberam que Cristo os convencera de sua incredulidade obstinada, tentaram descartar a convicção com desprezo: “Não dizemos bem que és samaritano e tens um demônio?”
Veja, espante-se; veja e trema.
- A descrição blasfema que os judeus perversos costumavam fazer de nosso Senhor Jesus e à qual se referem. (1.) Diziam que ele era samaritano, isto é, inimigo da igreja e da nação deles, alguém que odiavam e não podiam tolerar.
Assim, expunham Cristo à hostilidade do povo. Não havia insulto pior do que chamar alguém de samaritano. Se Cristo fosse samaritano, poderia ser punido por entrar no templo com o castigo que chamavam de espancamento dos rebeldes.
Já o haviam chamado muitas vezes de galileu, um homem desprezível. Mas, como se isso não bastasse, embora a nova acusação contradissesse a primeira, agora o chamavam de samaritano, um homem perverso.
Até hoje, os judeus chamam os cristãos, para seu descrédito, de cuteus-samaritanos. Repare: em todas as épocas se fizeram grandes esforços para tornar odiosas as pessoas boas, atribuindo-lhes reputações infames.
É fácil destruir a reputação de alguém com gritos e clamores da multidão, quando já lhe colaram um nome ruim.
Talvez, por Cristo ter censurado com justiça o orgulho e a tirania dos sacerdotes e dos anciãos, eles insinuassem que ele queria destruir a igreja ao tentar reformá-la e que estava se bandeando para os samaritanos.
(2.) Diziam que ele estava endemoninhado. Ou [1.] que era aliado do diabo. Depois de acusarem sua doutrina de promover o samaritanismo, insinuavam que ele realizava milagres em conluio com Belzebu.
Ou, antes, [2.] diziam que ele estava possuído por um demônio: era um homem melancólico, com a mente obscurecida, ou louco, com a mente exaltada; por isso, não se devia acreditar mais no que dizia do que nos devaneios extravagantes de um demente ou nas palavras de alguém em delírio.
Assim, muitas vezes se acusou de fanatismo religioso a revelação divina de coisas além do alcance da razão, e chamaram o profeta de louco (2 Reis 9:11; Oseias 9:7).
De fato, a inspiração dos oráculos e profetas pagãos era um frenesi, e os que a recebiam ficavam fora de si por algum tempo. Mas a inspiração verdadeiramente divina não era assim. “A sabedoria é justificada por seus filhos”, como sabedoria de fato.
- Como tentaram justificar essa acusação e aplicá-la àquela ocasião: “Não dizemos bem que és assim?”
Seria de esperar que os excelentes discursos de Cristo mudassem a opinião deles e os fizessem voltar atrás. Mas, em vez disso, o coração deles ficou ainda mais endurecido e os preconceitos, mais firmes.
Eles se orgulhavam da inimizade contra Cristo, como se nunca tivessem falado tão bem quanto quando disseram o pior que podiam a respeito dele.
Chegam ao auge da maldade os que assumem publicamente a impiedade, repetem o que deveriam retratar e se justificam naquilo pelo qual deveriam condenar a si mesmos.
Fazer e dizer o mal já é ruim, mas insistir nele é pior: “Faço bem em irar-me”. Quando Cristo denunciava com tanta ousadia os pecados dos poderosos e assim os irritava, aqueles que só se importavam com interesses terrenos e sensuais concluíam que ele estava fora de si.
Pensavam que só um louco perderia sua posição e arriscaria a vida por causa da religião e da consciência.
II. A mansidão e a misericórdia do Céu brilhando na resposta de Cristo a essa calúnia vil (v. 49, 50):
- Cristo nega a acusação: “Não tenho demônio”. Como disse Paulo: “Não estou louco” (Atos 26:25).
A acusação era injusta: “Não sou movido por um demônio nem estou aliado a ele”. Cristo provou isso pelo que fazia contra o reino do diabo.
Não dá atenção ao insulto de que seria samaritano, pois era uma calúnia que se desmentia por si mesma, uma provocação pessoal que não merecia resposta.
Mas dizer que estava endemoninhado atacava sua missão; por isso, Cristo respondeu. Santo Agostinho explica assim o silêncio dele sobre o insulto de ser chamado samaritano: Cristo era, de fato, aquele bom samaritano da parábola (Lucas 10:33).
- Cristo afirma a sinceridade de suas próprias intenções: “Mas eu honro meu Pai”. Os judeus insinuavam que ele tomava para si honras indevidas e diminuía a honra devida somente a Deus. Cristo nega ambas as acusações e afirma que sua tarefa era honrar o Pai, e somente a ele.
Isso também prova que Cristo não estava endemoninhado, pois, se estivesse, não honraria a Deus. Repare: os que podem dizer com sinceridade que se empenham constantemente em honrar a Deus estão suficientemente protegidos das censuras e do descrédito dos homens.
- Cristo se queixa do mal que lhe fizeram com suas calúnias: “Vós me desonrais”. Isso mostra que, como homem, sentia profundamente a desonra e a indignidade que lhe impunham. O descrédito era uma espada em seus ossos; ainda assim, ele a suportou para nossa salvação.
É vontade de Deus que todos honrem o Filho, mas muitos o desonram. Tal é a contradição da mente carnal à vontade de Deus.
Cristo honrou o Pai como nenhum homem jamais o fez e, ainda assim, foi desonrado como nenhum homem jamais foi. Deus prometeu honrar os que o honram, mas nunca prometeu que os homens honrariam essas pessoas.
- Cristo se defende da acusação de vanglória ao falar de si mesmo (v. 50). Veja: (1.) Seu desprezo pela honra mundana: “Não busco a minha própria glória”.
Cristo não tinha esse objetivo ao falar de si mesmo nem ao se opor aos perseguidores. Não buscava o aplauso dos homens nem cobiçava promoção no mundo; ao contrário, evitava deliberadamente ambas as coisas.
Cristo não buscava glória própria, separada da glória do Pai, nem tinha interesse independente. Procurar a própria glória não é de fato glória (Provérbios 25:27); é, antes, uma vergonha errar tanto o alvo.
Isso explica por que Cristo dava tão pouca importância ao descrédito: “Vocês me desonram, mas não podem me perturbar nem me inquietar, pois não procuro a minha própria glória”.
Repare: os que morreram para o louvor dos homens podem suportar com segurança o desprezo deles.
(2.) Seu consolo diante da desonra mundana: “Há quem procure e julgue”. Cristo mostrou de duas maneiras que não buscava a própria glória. Aqui ele nos diz o que o satisfazia em ambos os casos:
[1.] Cristo não cortejava o respeito dos homens, mas era indiferente a ele. A esse respeito, diz: “Há quem procure, quem proteja e promova minha causa na estima e na afeição do povo, enquanto eu não me preocupo com isso”.
Repare: Deus buscará a honra daqueles que não buscam a própria, pois a humildade precede a honra.
[2.] Cristo não se vingava das afrontas dos homens, mas não se perturbava com elas. A esse respeito, diz: “Há quem julgue, quem vindique minha honra e acerte severas contas com os que a pisoteiam”.
Provavelmente, Cristo se refere aqui aos juízos que viriam sobre a nação judaica pelas indignidades que praticaram contra o Senhor Jesus. Veja Salmos 37:13-15. “Não ouvi, pois tu ouvirás”.
Se tentamos julgar por nós mesmos, qualquer estrago que soframos, a recompensa fica em nossas mãos. Mas, se formos, como devemos ser, humildes ao apelar e pacientes ao esperar, descobriremos, para nosso consolo, que há quem julgue.
O Discurso de Cristo com os Fariseus
Versículos 51 a 59
Nestes versículos temos:
I. A doutrina da imortalidade dos que creem, apresentada no v. 51. Ela começa com a introdução solene de sempre: “Em verdade, em verdade vos digo”, que exige atenção e assentimento. Cristo diz: “Se alguém guardar as minhas palavras, nunca verá a morte”. Aqui temos:
- O caráter de quem crê: é alguém que guarda as palavras do Senhor Jesus, ton logon ton emon — minha palavra; aquela minha palavra que lhes entreguei.
Não devemos apenas recebê-la, mas guardá-la; não apenas tê-la, mas conservá-la. Devemos guardá-la na mente e na memória, no amor e na afeição.
Devemos guardá-la sem violá-la nem agir contra ela, sem mancha (1 Timóteo 6:14); como um depósito que nos foi confiado; como o caminho em que andamos e a regra a que obedecemos.
- O privilégio de quem crê: de modo algum verá a morte para sempre, como diz o original. Isso não significa que o corpo dos que creem esteja livre do golpe da morte.
Não: até os filhos do Altíssimo devem morrer como os outros homens. Os seguidores de Cristo estiveram muitas vezes em perigo de morte e foram mortos o dia inteiro, mais do que os outros homens. Como, então, se cumpre a promessa de que não verão a morte?
A resposta é: (1.) A natureza da morte foi tão mudada para eles que não a veem como morte; não veem seu terror, pois este foi completamente removido.
A visão deles não termina na morte, como a dos que vivem segundo os sentidos. Eles olham através da morte e para além dela, com clareza e consolo, e se ocupam tanto com o estado que os aguarda do outro lado que olham além da morte e não a veem.
(2.) O poder da morte foi tão quebrado que, embora não haja como evitá-la e eles precisem vê-la, não a verão para sempre nem ficarão para sempre presos por ela.
Chegará o dia em que a morte será tragada pela vitória.
(3.) Eles estão plenamente livres da morte eterna e não serão feridos pela segunda morte. Essa é especialmente a morte a que Cristo se refere aqui, a morte eterna, oposta à vida eterna.
Eles nunca a verão, pois jamais entrarão em condenação. Seu destino eterno será viver onde não haverá mais morte e onde não poderão morrer outra vez (Lucas 20:36).
Embora agora não possam evitar ver a morte e também prová-la, em breve estarão onde nunca mais a verão (Êxodo 14:13).
II. Os judeus levantam objeções capciosas a essa doutrina. Em vez de se apegarem a essa preciosa promessa de imortalidade, que a natureza humana tanto deseja — quem não ama a vida e teme ver a morte? —, aproveitam a ocasião para insultar aquele que lhes faz uma oferta tão bondosa: “Agora sabemos que tens um demônio. Abraão morreu”. Observe aqui:
- O insulto deles: “Agora sabemos que você está endemoninhado, que é louco; está delirando e não sabe o que diz”. Veja como esses porcos pisoteiam as preciosas pérolas das promessas do evangelho.
Se agora, por fim, tinham provas de que Cristo era louco, por que disseram antes, no v. 48, sem ter essa prova: “Tens um demônio”?
Esse é o método da malícia: primeiro lançar uma acusação odiosa e depois sair à pesca de provas que a sustentem. “Agora sabemos que tens um demônio.”
Se Cristo não tivesse provado abundantemente que era um mestre enviado por Deus, seria justo ridicularizar suas promessas de imortalidade aos seguidores crédulos, e até a interpretação mais benevolente as atribuiria a uma imaginação transtornada.
Mas a doutrina de Cristo era evidentemente divina, seus milagres a confirmavam, e a religião dos judeus os ensinava a esperar por esse profeta e a crer nele.
Portanto, rejeitar Cristo desse modo era abandonar a promessa que suas doze tribos esperavam alcançar (Atos 26:7).
- O raciocínio deles e o pretexto usado para desacreditar Cristo. Em resumo, consideravam-no culpado de uma arrogância intolerável por se fazer maior do que Abraão e os profetas: “Abraão morreu, e os profetas também”. É bem verdade, tanto que esses judeus eram descendentes genuínos daqueles que os mataram.
(1.) É verdade que Abraão e os profetas foram grandes homens, muito favorecidos por Deus e estimados por todos os bons.
(2.) É verdade que guardaram as palavras de Deus e lhes obedeceram. E, no entanto, (3.) é verdade que morreram. Nunca alegaram ter, muito menos poder conceder, a imortalidade; cada um, em sua ordem, foi reunido ao seu povo.
A honra deles foi morrer com fé, mas tiveram de morrer. Por que um homem bom deveria ter medo da morte, se Abraão morreu e os profetas morreram? Eles abriram caminho por aquele vale escuro, o que deveria nos reconciliar com a morte e ajudar a remover seu terror.
Agora, os judeus acham que Cristo fala como louco quando diz: “Se alguém guardar as minhas palavras, nunca provará a morte”. Provar a morte significa o mesmo que vê-la.
A morte pode ser retratada como algo penoso para vários sentidos, pois é a destruição de todos eles. O raciocínio dos judeus se baseia agora em dois erros: [1.] Entenderam que Cristo falava de imortalidade neste mundo, e nisso estavam enganados.
No sentido em que Cristo falava, não era verdade que Abraão e os profetas estivessem mortos, pois Deus ainda é o Deus de Abraão e o Deus dos santos profetas (Apocalipse 22:6).
Deus não é Deus de mortos, mas de vivos. Portanto, Abraão e os profetas continuam vivos e, no sentido pretendido por Cristo, não viram nem provaram a morte.
[2.] Pensavam que ninguém poderia ser maior do que Abraão e os profetas. Mas não podiam ignorar que o Messias seria maior do que Abraão ou qualquer dos profetas.
Eles fizeram o bem, mas Cristo os superou a todos; na verdade, deviam a ele sua grandeza. A honra de Abraão foi ser o pai do Messias, e a honra dos profetas foi dar testemunho antecipado a respeito dele.
Assim, Cristo certamente recebeu um nome muito mais excelente do que o deles. Em vez de concluir que Cristo tinha um demônio porque se fazia maior do que Abraão, deveriam ter concluído, pelas obras que realizava e que nem Abraão nem os profetas fizeram, que ele era o Cristo. Mas estavam cegos.
Perguntaram com desprezo: “Quem te fazes ser?”, como se Cristo fosse culpado de orgulho e vanglória.
Na verdade, estava longe de se fazer maior do que era. Agora ocultava sua própria glória, esvaziava-se e se fazia menor do que era. Foi o maior exemplo de humildade que já existiu.
III. A resposta de Cristo a essa objeção. Ainda assim, ele se digna a argumentar com eles, para que toda boca se cale. Sem dúvida, poderia tê-los deixado mudos ou matado ali mesmo, mas aquele era o dia de sua paciência.
- Na resposta, Cristo não insiste em seu próprio testemunho a respeito de si mesmo, mas o deixa de lado por não ser suficiente nem conclusivo (v. 54): “Se eu honro a mim mesmo, minha honra nada é”, ean ego doxazo — se eu glorifico a mim mesmo.
Repare: a honra que alguém dá a si mesmo não é honra. O desejo de glória faz perder e anula a própria glória. Isso não é glória (Provérbios 25:27); traz tamanho descrédito que não há pecado que as pessoas se esforcem mais por esconder. Até quem mais deseja elogios não quer que pensem que age assim.
A honra criada por nós mesmos é uma mera quimera, não contém nada de real e, por isso, chama-se vanglória. Quem se admira engana a si mesmo.
Nosso Senhor Jesus não se honrava a si mesmo, como os judeus diziam. Foi coroado por aquele que é a fonte da honra e não glorificou a si mesmo para se tornar sumo sacerdote (Hebreus 5:4, 5).
- Cristo apela ao Pai, Deus, e ao pai deles, Abraão.
(1.) Cristo apela a Deus, seu Pai: “É meu Pai quem me honra”. Com isso, quer dizer [1.] que toda a honra que agora reivindicava vinha do Pai.
Cristo lhes ordenara que cressem nele, o seguissem e guardassem sua palavra; tudo isso o honrava. Mas foi o Pai quem depositou nele o socorro, fez nele habitar toda a plenitude, o santificou, o selou e o enviou ao mundo para receber todas as honras devidas ao Messias.
O Pai, portanto, o autorizava a exigir todo esse respeito. [2.] Cristo dependia do Pai para toda a honra que ainda esperava receber.
Não cortejava os aplausos da época; desprezava-os. Seus olhos e seu coração estavam na glória que o Pai lhe prometera e que ele tinha junto do Pai antes que o mundo existisse.
Cristo visava à exaltação que o Pai lhe concederia e ao nome que lhe daria (Filipenses 2:8, 9).
Repare: Cristo e todos os que lhe pertencem dependem de Deus para receber honra. Quem tem certeza de que será honrado onde é conhecido não se importa de ser desprezado onde vive incógnito.
Cristo tantas vezes apelava ao Pai e ao testemunho que o Pai dava dele, mas os judeus não o admitiam nem acreditavam nele.
Primeiro, Cristo aproveita a ocasião para mostrar a razão da incredulidade deles, apesar desse testemunho: não conheciam a Deus.
É como se dissesse: “Por que eu lhes falaria de meu Pai me honrar, se vocês não conhecem aquele de quem falo? Vocês dizem que ele é o Deus de vocês, mas não o conhecem”. Observe:
a. A profissão que faziam de sua relação com Deus: “Vocês dizem que ele é o Deus de vocês, o Deus que escolheram e com quem estão em aliança. Dizem que são Israel; mas nem todos os que pertencem a Israel são de fato Israel” (Romanos 9:6).
Repare: muitos alegam ter uma relação especial com Deus e dizem que ele é seu Deus, mas não têm motivo legítimo para dizê-lo.
Os que se chamavam templo do Senhor, embora profanassem a glória de Jacó, confiavam em palavras mentirosas. De que nos adiantará dizer “Ele é nosso Deus”, se não formos sinceramente o povo dele, a quem ele reconhecerá como seu?
Cristo menciona aqui a profissão de que eram ligados a Deus como agravante da incredulidade deles. Todos honram aqueles a quem seu Deus honra. Mas esses judeus diziam que o Senhor era seu Deus e procuravam desonrar ao máximo aquele a quem Deus honrava.
Repare: se não vivermos de acordo com a aliança que professamos ter com Deus e com nossa participação nela, essa profissão será usada contra nós.
b. Apesar dessa profissão, eles não o conheciam e estavam afastados dele: “Contudo, vocês não o conheceram”. (a.) Não o conheciam de modo algum.
Esses fariseus se ocupavam tanto estudando tradições sobre coisas estranhas e insignificantes que nunca atentavam para o conhecimento mais necessário e útil.
Eram como os falsos profetas de antigamente, que, com seus sonhos, faziam o povo esquecer o nome de Deus (Jeremias 23:27).
Ou (b.) não o conheciam corretamente, mas se enganavam a respeito dele. Isso é tão ruim quanto não o conhecer de modo algum, ou pior.
Alguém pode discutir com sutileza a respeito de Deus e ainda assim considerá-lo igual a si mesmo, sem conhecê-lo. “Vocês dizem que ele é de vocês. É natural querermos conhecer o que nos pertence; ainda assim, vocês não o conhecem.”
Repare: muitos alegam ser parentes de Deus, mas não o conhecem. Aprenderam somente a falar de Deus e a bradar em seu nome.
Quanto à natureza de Deus, seus atributos e perfeições e sua relação com as criaturas, não sabem nada. Dizemos isso para a vergonha deles (1 Coríntios 15:34).
Multidões se satisfazem e enganam a si mesmas com a alegação formal de serem ligadas a um Deus desconhecido.
Cristo os acusa disso [a.] para mostrar como era vã e infundada a alegação de que tinham relação com Deus: “Vocês dizem que ele é de vocês, mas desmentem a si mesmos, pois é evidente que não o conhecem”.
Consideramos que uma fraude foi plenamente desmascarada quando se descobre que o fraudador não conhece as pessoas com quem alega ter vínculos.
[b.] Cristo os acusa disso para mostrar a verdadeira razão de não serem tocados pela doutrina e pelos milagres dele. Não conheciam a Deus e, portanto, não percebiam a imagem nem a voz de Deus em Cristo.
Repare: a razão de as pessoas não receberem o evangelho de Cristo é não conhecerem a Deus. Elas não se submetem à justiça de Cristo por ignorarem a justiça de Deus (Romanos 10:3).
Os que não conhecem a Deus e não obedecem ao evangelho de Cristo são mencionados juntos (2 Tessalonicenses 1:8).
Segundo, Cristo lhes dá a razão de ter certeza de que o Pai o honraria e o reconheceria como seu: “Eu o conheço”, e torna a dizer: “Eu o conheço”.
Isso indica não apenas que Cristo tinha intimidade com o Pai, pois estivera junto ao seu peito, mas também que confiava nele para estar ao seu lado e apoiá-lo em toda a sua missão.
Isso havia sido profetizado a respeito de Cristo (Isaías 50:7, 8): “Sei que não ficarei envergonhado, pois perto está aquele que me justifica”. Assim também Paulo disse: “Sei em quem tenho crido” (2 Timóteo 1:12).
“Sei que ele é fiel e poderoso e que está totalmente empenhado na causa que sei ser sua”. Observe:
- Cristo declara conhecer o Pai com a maior certeza, como quem não tinha medo nem vergonha de reconhecê-lo: “Se eu dissesse que não o conheço, seria mentiroso como vós”.
Cristo não negaria sua relação com Deus para agradar aos judeus, evitar o descrédito que lhe lançavam ou evitar mais problemas. Também não retrataria o que dissera nem se confessaria enganado ou enganador.
Se o fizesse, seria considerado falsa testemunha contra Deus e contra si mesmo. Repare: os que negam sua religião e sua relação com Deus, como Pedro, são mentirosos tanto quanto os hipócritas que fingem conhecê-lo quando não o conhecem.
Veja 1 Timóteo 6:13, 14. O Sr. Clark observa acertadamente que é um grande pecado negar a graça de Deus em nós.
- Cristo prova que conhece o Pai: Eu o conheço e guardo suas palavras, ou sua palavra.
Como homem, Cristo obedecia à lei moral; como Redentor, à lei mediadora. Em ambas, guardava a palavra do Pai e cumpria a palavra empenhada ao Pai.
Cristo exige de nós (v. 51) que guardemos suas palavras e nos deixou um modelo de obediência sem mancha: ele guardava as palavras do Pai.
Quem aprendeu a obedecer, como Cristo, certamente podia ensiná-lo. Veja Hebreus 5:8, 9. Cristo provou assim que conhecia o Pai.
Repare: a melhor prova de que conhecemos a Deus é obedecer-lhe. Só conhece corretamente a Deus quem guarda sua palavra; isso está estabelecido: “Nisto sabemos que o conhecemos”, e não apenas imaginamos conhecê-lo, “se guardamos os seus mandamentos” (1 João 2:3).
(2.) Cristo os remete ao pai de quem tanto se gabavam de ser descendentes: Abraão. E assim conclui o discurso.
[1.] Cristo afirma a visão que Abraão teve dele e o respeito que lhe dedicava: “Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia; ele o viu e se alegrou” (v. 56).
Com isso, Cristo prova que não estava de modo algum errado ao se fazer maior do que Abraão. Ele menciona duas coisas como exemplos do respeito daquele patriarca pelo Messias prometido:
Primeiro, Abraão desejava ver o dia de Cristo: ele se alegrou, egalliasato — saltou de desejo por isso.
Embora a palavra costume significar alegria, aqui deve indicar um arrebatamento de desejo, mais do que de alegria, pois, nesse caso, a segunda parte do versículo seria repetitiva: Abraão viu o dia de Cristo e se alegrou.
Ele se estendeu ou fez esforço para ver o dia de Cristo, como Zaqueu, que correu adiante e subiu numa árvore para ver Jesus.
As notícias que recebera sobre a vinda do Messias despertaram nele a expectativa de algo grandioso, e ele desejava muito saber mais.
Indícios ainda obscuros de algo importante levam as pessoas a investigar e a perguntar com empenho: quem, o quê, onde, quando e como?
Assim, os profetas do Antigo Testamento, embora tivessem apenas uma ideia geral da graça que viria, investigaram diligentemente (1 Pedro 1:10). Abraão foi tão dedicado quanto qualquer um deles.
Deus lhe falou de uma terra que daria à sua descendência e da riqueza e honra que lhes destinava (Gênesis 15:14). Mas Abraão nunca saltou assim para ver aquele dia como saltou para ver o dia do Filho do Homem.
Não conseguia olhar com tanta indiferença para a descendência prometida, como olhava para a terra prometida. Quanto à terra, podia contentar-se em ser estrangeiro; quanto à descendência, não podia.
Repare: quem conhece corretamente alguma coisa a respeito de Cristo não consegue deixar de desejar ardentemente conhecê-lo melhor.
Quem percebe o alvorecer da luz do Sol da justiça não pode deixar de desejar ver o seu nascer. O mistério da redenção é algo que os anjos desejam contemplar; muito mais nós, que estamos mais diretamente envolvidos nele, devemos desejá-lo.
Abraão desejava ver o dia de Cristo, embora estivesse muito distante. Mas seus descendentes degenerados não discerniram esse dia nem o receberam quando chegou.
Os corações tocados pela graça amam e aguardam a manifestação de Cristo; os corações carnais a temem e detestam.
Segundo, Abraão ficou satisfeito com o que chegou a ver do dia de Cristo: “Ele o viu e se alegrou”. Observe:
a. Deus satisfez o desejo piedoso de Abraão: ele queria ver o dia de Cristo e o viu.
Embora não o tenha visto com a clareza, plenitude e nitidez com que nós o vemos agora no evangelho, viu algo dele, e mais tarde viu mais do que no princípio.
Repare: a quem tem, e a quem pede, será dado. A quem usa e aproveita o que tem e deseja e pede mais conhecimento de Cristo, Deus dará mais.
Mas como Abraão viu o dia de Cristo? (a.) Alguns entendem que o viu no outro mundo. Quando o véu da carne se rasgou, a alma separada de Abraão viu no céu os mistérios do reino de Deus.
Calvino menciona essa interpretação e não a desaprova muito. Repare: os anseios das almas alcançadas pela graça por Jesus Cristo só serão plenamente satisfeitos quando chegarem ao céu, e não antes.
(b.) É mais comum entender que Abraão teve alguma visão do dia de Cristo neste mundo. Os que não receberam as promessas, ainda assim, as viram de longe (Hebreus 11:13). Balaão viu Cristo, mas não naquele momento nem de perto.
Podemos supor que Abraão tenha tido alguma visão de Cristo e de seu dia, para sua satisfação particular, que não foi registrada em sua história nem deveria ser. Algo como a visão de Daniel, que devia ser encerrada e selada até o tempo do fim (Daniel 12:4).
Cristo sabia melhor do que Moisés o que Abraão vira. Há, porém, vários acontecimentos registrados em que Abraão viu mais daquilo que tanto desejava ver do que vira quando recebeu a promessa pela primeira vez.
Em Melquisedeque, viu alguém semelhante ao Filho de Deus, que era sacerdote para sempre. Nas planícies de Manre, viu uma aparição de Jeová acompanhada por dois anjos.
Quando sua intercessão por Sodoma prevaleceu, viu uma amostra da intercessão de Cristo. Ao expulsar Ismael e estabelecer a aliança com Isaque, viu uma figura do dia do evangelho, que é o dia de Cristo, pois essas coisas eram uma alegoria.
Ao oferecer Isaque e o carneiro em lugar dele, viu um duplo tipo do grande sacrifício. Ao chamar o lugar de Jehovah-jireh, “Será visto”, deu a entender que vira ali algo a mais do que os outros, algo que o tempo revelaria.
Ao fazer seu servo pôr a mão sob sua coxa para jurar, Abraão também tinha em vista o Messias.
b. Abraão recebeu bem essas revelações do dia de Cristo e as acolheu: “Ele o viu e se alegrou”. Alegrou-se com o que viu do favor de Deus para si e com o que previu da misericórdia que Deus guardava para o mundo.
Talvez isso se refira ao riso de Abraão quando Deus lhe garantiu que Sara teria um filho (Gênesis 17:16, 17). O riso dele não foi de incredulidade, como o de Sara, mas de alegria.
Naquela promessa, Abraão viu o dia de Cristo, e ela o encheu de alegria indizível. Assim, ele acolheu as promessas.
Repare: uma visão de fé de Cristo e do seu dia enche o coração de alegria. Não há alegria como a alegria da fé; só conhecemos o verdadeiro prazer quando conhecemos Cristo.
[2.] Os judeus levantam objeções capciosas e o insultam por isso (v. 57): “Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão?” Aqui, primeiro, supõem que, se Abraão viu Cristo e o dia dele, Cristo também teria visto Abraão. Essa, porém, não era uma conclusão necessária; tal interpretação das palavras de Cristo servia melhor para expô-lo ao ridículo.
Contudo, era verdade que Cristo vira Abraão e falara com ele como um homem fala com seu amigo. Segundo, supõem ser inteiramente absurdo que ele alegue ter visto Abraão, morto tantos séculos antes de seu nascimento.
O estado dos mortos é invisível, mas aqui eles caíram no velho erro de entender em sentido corporal o que Cristo dissera em sentido espiritual. Isso lhes deu ocasião de desprezar a juventude de Cristo e censurá-lo por ela, como se ele fosse de ontem e nada soubesse: “Ainda não tens cinquenta anos”.
Poderiam igualmente ter dito: “Você ainda não tem quarenta anos”, pois Cristo tinha então apenas trinta e dois ou trinta e três anos.
Quanto a isso, Irineu, um dos primeiros pais da Igreja, usa esta passagem para apoiar uma tradição que, segundo ele, recebera de pessoas que haviam convivido com São João: nosso Salvador teria vivido até os cinquenta anos. Ele defende essa ideia em Advers. Hæres., livro 2, cap. 39, 40.
Veja quão pouca confiança se deve depositar na tradição. Nesse caso, os judeus falaram ao acaso: precisavam mencionar alguma idade e escolheram uma da qual julgavam que Cristo ainda estivesse bem longe.
Ele não aparentava quarenta anos, mas tinham certeza de que não podia ter cinquenta, muito menos ter vivido na época de Abraão. Considerava-se que a velhice começava aos cinquenta anos (Números 4:47).
Portanto, queriam apenas dizer: “Você não pode ser considerado idoso; muitos de nós somos bem mais velhos que você e, ainda assim, não alegamos ter visto Abraão”.
Alguns pensam que a dor e as vigílias haviam mudado tanto o rosto de Cristo que, junto com a gravidade de seu semblante, o faziam parecer um homem de cinquenta anos: Seu rosto estava tão desfigurado (Isaías 52:14).
[3.] Nosso Salvador dá uma resposta eficaz a essa objeção capciosa, afirmando solenemente que é anterior ao próprio Abraão (v. 58): “Em verdade, em verdade lhes digo: não digo isso apenas em particular aos meus discípulos, que certamente concordarão comigo, mas a vocês, meus inimigos e perseguidores.”
“Digo isso diante de vocês; façam disso o que quiserem: antes que Abraão existisse, eu sou”. prin Abraam genesthai, ego eimi — “Antes que Abraão fosse criado ou nascesse, eu sou”.
A mudança do verbo chama a atenção: indica que Abraão é criatura, enquanto Cristo é o Criador. Com razão, portanto, Cristo podia declarar-se maior que Abraão.
Ele existia antes de Abraão: primeiro, como Deus. “Eu sou” é o nome de Deus (Êxodo 3:14) e indica sua existência por si mesmo. Cristo não diz “Eu era”, mas “Eu sou”, pois é o primeiro e o último, imutavelmente o mesmo (Apocalipse 1:8).
Portanto, existia não só antes de Abraão, mas antes de todos os mundos (João 1:1; Provérbios 8:23).
Segundo, como Mediador. Ele era o Messias designado muito antes de Abraão; o Cordeiro morto desde a fundação do mundo (Apocalipse 13:8), o canal pelo qual a luz, a vida e o amor chegam de Deus ao homem.
Isso pressupõe sua natureza divina: em si mesmo, ele é o mesmo desde a eternidade (Hebreus 13:8) e, para o homem, é o mesmo desde a queda.
Deus o fez sabedoria, justiça, santificação e redenção para Adão, Abel, Enoque, Noé, Sem e todos os patriarcas que viveram e morreram pela fé nele antes de Abraão nascer.
Abraão era a raiz da nação judaica, a rocha de que os judeus foram talhados. Se Cristo existia antes de Abraão, sua doutrina e sua religião não eram novidade: em sua essência, eram anteriores ao judaísmo e deviam ter precedência sobre ele.
[4.] Essa grande declaração encerrou a discussão de repente e pôs fim a ela. Os judeus já não podiam suportar ouvi-lo, e Cristo não precisava dizer mais, pois dera testemunho dessa boa confissão, suficiente para sustentar todas as suas reivindicações.
Seria de esperar que o discurso de Cristo, no qual resplandeciam tanto a graça quanto a glória, os tivesse cativado a todos. Mas o preconceito inveterado deles contra a doutrina e a lei santas e espirituais de Cristo, tão contrárias ao seu orgulho e apego ao mundo, frustrou todos os meios de convencê-los.
Cumpria-se então a profecia (Malaquias 3:1, 2): quando o mensageiro da aliança viesse ao seu templo, eles não suportariam o dia da sua vinda, porque ele seria como fogo do ourives. Observe aqui:
Primeiro, como se enfureceram contra Cristo pelo que ele disse: “Apanharam pedras para lhe atirar” (v. 59). Talvez o considerassem blasfemo, e blasfemos deviam de fato ser apedrejados (Levítico 24:16). Mas antes precisariam ser julgados e condenados conforme a lei.
Adeus à justiça e à ordem se qualquer pessoa se arrogar o direito de executar uma lei a seu bel-prazer. Além disso, haviam acabado de dizer que Cristo era um homem perturbado, de mente transtornada; se assim era, seria contra toda razão e equidade puni-lo como criminoso pelo que dissera.
Apanharam pedras. O Dr. Lightfoot lhe dirá como havia pedras tão prontamente à mão no templo: naquela época, trabalhadores reparavam o templo ou lhe faziam acréscimos, e os pedaços de pedra que desprendiam ao talhar serviram para esse fim.
Veja aqui o poder desenfreado do pecado e de Satanás nos filhos da desobediência e sobre eles. Quem imaginaria que pudesse haver nos homens tanta maldade, uma rebelião tão aberta e ousada contra aquele que provou de modo incontestável ser o Filho de Deus?
Assim, cada um tem uma pedra para atirar contra sua santa religião (Atos 28:22).
Segundo, como Cristo escapou das mãos deles. 1. Escondeu-se: Jesus se ocultou, ekrybe, foi escondido. Talvez a multidão de pessoas que lhe queriam bem o tenha escondido para protegê-lo.
Aquele que deveria estar num trono, exaltado e elevado, contentou-se em desaparecer no meio da multidão. Ou talvez tenha se escondido atrás de algum muro ou coluna do templo: “No segredo do seu tabernáculo ele me esconderá” (Salmos 27:5).
Ou, pelo poder divino, fez-se invisível para eles, como se uma névoa lhes cobrisse os olhos. “Quando os ímpios se levantam, o homem fica escondido”, o homem sábio e bom (Provérbios 28:12, 28).
Cristo não tinha medo nem vergonha de sustentar o que dissera. Mas sua hora ainda não havia chegado, e ele queria dar respaldo à fuga de seus ministros e de seu povo em tempos de perseguição, quando fossem chamados a fugir.
O Senhor escondeu Jeremias e Baruque (Jeremias 36:26). 2. Cristo se retirou: saiu do templo, passou no meio deles sem ser reconhecido e foi embora.
Não foi uma fuga covarde e inglória, nem uma fuga que indicasse culpa ou medo. Foi predito a respeito dele: “Não desfalecerá nem ficará abatido” (Isaías 42:4). Mas (1.) foi uma demonstração de seu poder sobre os inimigos.
Eles não podiam fazer contra Cristo mais do que ele lhes permitia. Isso mostra que, quando mais tarde foi apanhado nas armadilhas deles, ele se entregou (João 10:18).
Naquele momento, pensavam que o tinham capturado com segurança. Ainda assim, Cristo passou pelo meio deles, com os olhos deles cegos ou as mãos deles impedidas, e os deixou furiosos, como um leão frustrado por não alcançar a presa.
(2.) Foi uma demonstração da providência prudente com que Cristo protegia a própria vida, pois sabia que sua obra não estava concluída nem seu testemunho, terminado.
Assim, deu exemplo de sua própria instrução: “Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra”. Se necessário, fujam também para o deserto, como fizeram Elias (1 Reis 19:3, 4) e a mulher, a igreja (Apocalipse 12:6).
Quando pegaram pedras soltas para atirar em Cristo, ele poderia ter ordenado às pedras fixas, que clamavam contra eles do muro, que vingassem sua causa; ou poderia ter feito a terra se abrir e engoli-los.
Mas escolheu adaptar-se à condição em que estava e dar a seus seguidores um exemplo que pudessem imitar com prudência, sem milagre.
(3.) Foi um abandono justo daqueles que, piores que os gadarenos que lhe pediram para partir, tentaram expulsá-lo a pedradas. Cristo não permanece muito tempo com os que lhe pedem que vá embora.
Depois disso, Cristo voltou a visitar o templo. Relutava em partir e despediu-se muitas vezes. Mas, por fim, o abandonou para sempre e o deixou desolado.
Cristo passou pelo meio dos judeus. Nenhum deles lhe pediu que ficasse nem se levantou para segurá-lo; estavam até dispostos a deixá-lo ir.
Repare: Deus nunca abandona ninguém sem que antes o tenham provocado a se retirar e mostrado que não o querem.
Calvino observa que os principais sacerdotes se orgulhavam de possuir o templo depois de expulsarem Cristo dele. “Mas”, diz ele, “enganam-se muito os que se orgulham de uma igreja ou templo que Cristo abandonou”.
Longe falluntur, cum templum se habere putant Deo vacuum.
Quando Cristo os deixou, passou em silêncio e sem ser notado: paregen houtos, de modo que eles nem notaram que passava.
Repare: as partidas de Cristo de uma igreja ou de uma alma em particular muitas vezes são secretas e só são percebidas algum tempo depois.
Assim como a vinda do reino de Deus não é observada, sua partida também não. Veja Juízes 16:20: “Sansão não sabia que o Senhor se havia retirado dele”.
Assim aconteceu com aqueles judeus abandonados: Deus os deixou, e eles nem sentiram falta dele.