João 7
Argumento
Neste capítulo temos: I. A decisão de Cristo de não aparecer publicamente na Judeia por algum tempo (v. 1). II. Seu desígnio de subir a Jerusalém para a festa dos tabernáculos e sua conversa com seus parentes na Galileia sobre essa ida (vv. 2-13).
III. Sua pregação pública no templo durante a festa:
No meio da festa (v. 14, 15), temos seu discurso com os judeus: (1.) Sobre sua doutrina (vv. 16-18). (2.) Sobre o crime de violação do sábado que lhe foi imputado (vv. 19-24). (3.) Sobre si mesmo, tanto de onde veio quanto para onde ia (vv. 25-36).
No último dia da festa: (1.) Seu gracioso convite às almas necessitadas para irem a ele (vv. 37-39). (2.) A recepção desse convite: [1.] Muitos do povo discutiram a respeito dele (vv. 40-44).
[2.] Os principais sacerdotes quiseram causar-lhe problemas por isso, mas primeiro foram frustrados por seus guardas (vv. 45-49), e depois um membro do próprio tribunal os calou (vv. 50-53).
Versículos 1 a 12
O Discurso de Cristo com Seus Irmãos; Os Rumores a Respeito de Cristo.
Temos aqui, I. O motivo apresentado pelo qual Cristo passava mais tempo na Galileia do que na Judeia (v. 1): os judeus, o povo da Judeia e de Jerusalém, procuravam matá-lo por ele ter curado o paralítico no sábado, João 5:16.
Pensavam em matá-lo ou por meio de um tumulto popular ou de um processo legal. Por isso, ele se manteve distante, em outra parte do país, bem afastada das vias de comunicação com Jerusalém.
Não se diz que ele não ousava andar pela Judeia, mas que não queria fazê-lo. Não evitava aquela região por medo ou covardia, mas por prudência, pois sua hora ainda não havia chegado. Repare:
A luz do evangelho é justamente retirada daqueles que procuram apagá-la. Cristo se afastará dos que o expulsam, esconderá o rosto dos que cospem nele e, com justiça, fechará suas entranhas de compaixão aos que as desprezam.
Em tempos de perigo iminente, não só é permitido, mas também recomendável, retirar-nos e ocultar-nos por nossa própria segurança e preservação, escolhendo servir nos lugares menos perigosos, Mateus 10:23.
Somos chamados a expor e entregar a vida quando, e somente quando, não podemos salvá-la sem pecar.
- Se a providência de Deus põe pessoas de mérito em lugares obscuros e pouco conhecidos, não devemos estranhar; essa foi a sorte de nosso próprio Mestre. Aquele que era digno de sentar-se na mais alta cadeira de Moisés andava de boa vontade pela Galileia entre pessoas comuns.
Observe: ele não ficou parado na Galileia nem se enterrou vivo ali, mas andou de um lado para outro, fazendo o bem. Quando não podemos fazer o que queremos, nem onde queremos, devemos fazer o que podemos, onde podemos.
II. A aproximação da festa dos tabernáculos (v. 2), uma das três solenidades que exigiam a presença pessoal de todos os homens em Jerusalém. Veja sua instituição em Levítico 23:34, etc., e sua retomada após longo período de desuso em Neemias 8:14.
Ela se destinava tanto a recordar a vida de Israel em tendas no deserto quanto a representar a vida em tendas do Israel espiritual de Deus neste mundo. Essa festa, instituída muitas centenas de anos antes, ainda era observada religiosamente.
Repare: as instituições divinas nunca se tornam antiquadas ou ultrapassadas com o passar do tempo; tampouco devem ser esquecidas as misericórdias recebidas no deserto. Mas ela é chamada de festa dos judeus porque em breve seria abolida como algo exclusivamente judaico e deixada aos que serviam ao tabernáculo.
III. A conversa de Cristo com seus irmãos, alguns de seus parentes. Não se sabe se eram do lado de sua mãe ou de seu suposto pai; mas alegavam ter uma posição junto dele e, por isso, interferiam para aconselhá-lo sobre sua conduta. Observe:
- A ambição e a vanglória deles ao insistirem para que ele aparecesse mais em público: “Sai daqui”, disseram, “e vai para a Judeia” (v. 3), “onde te destacarás mais do que aqui”.
(1.) Apresentam dois motivos para esse conselho: [1.] Isso animaria os que, em Jerusalém e arredores, tinham consideração por ele. Como esperavam que seu reino fosse terreno e concluíam que a sede real deveria ficar em Jerusalém, queriam que os discípulos de lá recebessem atenção especial.
Achavam que o tempo passado entre os discípulos galileus era desperdiçado e jogado fora e que seus milagres de nada serviriam se os de Jerusalém não os vissem.
Ou queriam que “todos os teus discípulos, reunidos em Jerusalém para celebrar a festa, vejam tuas obras, em vez de uns poucos numa ocasião e outros poucos em outra, como acontece aqui”.
[2.] Isso promoveria seu nome e sua honra: “Ninguém faz coisa alguma em segredo se ele próprio procura ser conhecido publicamente.” Davam por certo que Cristo desejava tornar-se conhecido e, por isso, achavam absurdo que escondesse seus milagres.
“Se fazes estas coisas, se teus milagres são capazes de conquistar o aplauso do povo e a aprovação dos governantes, arrisca-te a sair a público e mostra-te ao mundo. Com essas credenciais, não deixarás de ser aceito; portanto, já é tempo de estabelecer tua influência e pensar em alcançar grandeza.”
(2.) À primeira vista, não parece haver prejuízo nesse conselho. Contudo, o evangelista observa que ele revela a incredulidade dos irmãos: “Pois nem mesmo seus irmãos criam nele” (v. 5). Se cressem, não teriam falado assim. Observe:
[1.] Ser parente de Cristo era uma honra, mas não uma honra que salva. Aqueles que ouvem sua palavra e a guardam são os parentes a quem ele dá valor. Certamente a graça não corre nas veias de família alguma, já que não corria nem nas da família de Cristo.
[2.] Isso mostrava que Cristo não buscava interesses terrenos; se os buscasse, seus parentes teriam se aliado a ele, e ele os teria favorecido primeiro.
[3.] Havia parentes de Cristo segundo a carne que criam nele — três dos doze eram seus irmãos —, enquanto outros, ligados a ele por laços igualmente próximos, não criam. Muitos que têm os mesmos privilégios e vantagens externos não fazem o mesmo uso deles. Mas:
(3.) O que havia de errado no conselho que lhe deram? Respondo: [1.] Foi presunção querer ditar a Cristo o que deveria fazer e ensinar-lhe que medidas tomar. Mostravam não crer que ele fosse capaz de guiá-los, pois nem o consideravam capaz de guiar a si mesmo.
[2.] Demonstraram grande descuido com a segurança dele ao quererem que fosse à Judeia, onde sabiam que os judeus procuravam matá-lo. Os que criam nele e o amavam tentaram dissuadi-lo de ir para lá, João 11:8.
[3.] Alguns pensam que esperavam que, se os milagres fossem realizados em Jerusalém, os fariseus e governantes os examinariam e descobririam neles algum embuste, o que justificaria sua incredulidade. Assim entende o Dr. Whitby.
[4.] Talvez estivessem cansados de sua companhia na Galileia — “Não são galileus todos estes que falam?” —, e o conselho fosse, na prática, um desejo de que ele deixasse sua região.
[5.] Insinuaram, sem motivo, que ele negligenciava os discípulos e lhes negava a oportunidade de ver suas obras, da qual precisavam para sustentar a fé.
[6.] Lançam tacitamente descrédito sobre ele como homem de espírito fraco, que não ousava enfrentar os grandes nem expor-se no palco da vida pública. Se tivesse coragem e grandeza de alma, diziam, faria isso em vez de esgueirar-se e esconder-se num canto.
Assim, a humildade de Cristo, sua humilhação e a pouca importância que sua religião geralmente teve aos olhos do mundo muitas vezes foram usadas para desacreditar tanto a ele quanto a ela.
[7.] Pareciam questionar a autenticidade dos milagres que ele realizava ao dizer: “Se fazes estas coisas, se elas resistem ao exame público nos tribunais superiores, apresenta-as ali.”
[8.] Julgavam Cristo inteiramente semelhante a eles: tão sujeito à política mundana e tão desejoso de ostentar boa aparência na carne quanto eles. Ele, porém, não buscava honra dos homens.
[9.] O interesse próprio estava na raiz de tudo. Esperavam que, se Cristo se tornasse tão grande quanto pudesse, eles, como seus parentes, participariam de sua honra e receberiam consideração por causa dele. Repare:
Primeiro, muitas pessoas carnais participam das ordenanças públicas e vão adorar na festa apenas para se mostrar. Todo o seu zelo é causar boa impressão e apresentar-se bem diante do mundo.
Segundo, muitos que parecem buscar a honra de Cristo na verdade buscam a própria honra e fazem da honra dele um meio de obter alguma vantagem para si.
- A prudência e a humildade de nosso Senhor Jesus, manifestas em sua resposta ao conselho que seus irmãos lhe deram (vv. 6-8). Embora houvesse tantas insinuações vis nesse conselho, ele lhes respondeu com brandura.
Repare: mesmo o que se diz sem razão deve ser respondido sem paixão. Aprendamos com o Mestre a responder com mansidão até ao que é extremamente inconveniente e autoritário e, quando é fácil encontrar muito de errado, a não dar mostras de percebê-lo e a deixar passar a afronta.
Esperavam que Cristo os acompanhasse à festa, talvez na esperança de que arcasse com suas despesas. Aqui, porém:
(1.) Ele mostra a diferença entre si e eles em dois aspectos: [1.] Seu tempo estava determinado; o deles, não: “Meu tempo ainda não chegou, mas o tempo de vocês está sempre disponível”. Entenda-se isso do momento de sua subida à festa.
Para eles, era indiferente quando fossem, pois não tinham nada importante a fazer nem onde estavam, que os retivesse ali, nem para onde iam, que os apressasse a chegar. Para Cristo, porém, cada minuto era precioso e tinha sua tarefa específica designada.
Ainda tinha uma obra a realizar na Galileia antes de deixar a região: na harmonia dos evangelhos, entre o conselho de seus parentes e sua subida a essa festa, situa-se o relato do envio dos setenta discípulos (Lucas 10:1, etc.), assunto de grande importância. Seu tempo ainda não havia chegado, pois precisava fazer isso primeiro.
Os que levam uma vida inútil têm sempre o tempo disponível; podem ir e vir quando quiserem. Os que têm o tempo ocupado pelo dever muitas vezes se veem apertados e ainda não dispõem de tempo para aquilo que outros podem fazer a qualquer momento.
Os que foram feitos servos de Deus, como todos os homens foram, e se fizeram servos de todos, como fizeram todos os que são úteis, não devem esperar nem desejar ser senhores do próprio tempo. As limitações impostas pelo trabalho são mil vezes melhores do que a liberdade da ociosidade.
Ou isso pode referir-se ao momento de sua aparição pública em Jerusalém. Cristo, que conhece todos os homens e todas as coisas, sabia que a melhor e mais adequada ocasião seria por volta do meio da festa.
Nós, ignorantes e de visão curta, tendemos a ditar a ele quando agir e a pensar que deve libertar seu povo e manifestar-se agora. O momento presente é o nosso tempo, mas ele é o mais apto a julgar, e talvez o tempo dele ainda não tenha chegado.
Seu povo talvez ainda não esteja pronto para o livramento, nem seus inimigos, maduros para a ruína. Esperemos, portanto, com paciência pelo tempo dele, pois tudo o que faz será extremamente glorioso em sua estação própria.
[2.] Sua vida estava sob ameaça; a deles, não (v. 7). Ao se mostrarem ao mundo, eles não se expunham: “O mundo não pode odiar vocês, pois vocês são do mundo, filhos e servos dele, e compartilham seus interesses. Sem dúvida, o mundo amará os seus”; veja João 15:19.
As almas ímpias, que o Deus santo não pode amar, não podem ser odiadas pelo mundo que jaz na maldade. Cristo, porém, ao se mostrar ao mundo, expunha-se ao maior perigo: “A mim, ele odeia”.
Cristo não era apenas desprezado como alguém sem importância no mundo, pois o mundo não o conheceu; era odiado como se houvesse prejudicado o mundo. Assim retribuíram mal o amor que ele tinha pelo mundo: o pecado dominante nutre uma antipatia e inimizade arraigadas contra Cristo. Mas por que o mundo odiava Cristo?
Que mal ele lhe havia feito? Teria ele, como Alexandre, devastado o mundo sob o pretexto de conquistá-lo? “Não; é porque”, diz ele, “dou testemunho de que suas obras são más”. Repare:
Primeiro, as obras de um mundo mau são obras más. Como é a árvore, assim são seus frutos: este é um mundo de trevas e apostasia, e suas obras são obras de trevas e rebelião.
Segundo, nosso Senhor Jesus, por si mesmo e por seus ministros, revelou e denunciou as obras más deste mundo perverso, e continuará a fazê-lo.
Terceiro, é muito incômodo e provocador para o mundo ser declarado culpado da maldade de suas obras. O fato de os ímpios e viciosos não quererem ouvir falar dela honra a virtude e a piedade, pois sua própria consciência os faz envergonhar-se da torpeza do pecado e temer a punição que o segue.
Quarto, sejam quais forem as alegações, a verdadeira causa da inimizade do mundo contra o evangelho é o testemunho que ele dá contra o pecado e os pecadores.
As testemunhas de Cristo, por sua doutrina e conduta, atormentam os habitantes da terra e, por isso, são tratadas com tanta crueldade (Apocalipse 11:10). Mas é melhor incorrer no ódio do mundo ao testemunhar contra sua maldade do que conquistar sua boa vontade deixando-nos levar pela correnteza com ele.
(2.) Ele os dispensa, com o desígnio de permanecer algum tempo na Galileia (v. 8): “Subam vocês a esta festa; eu ainda não subo”. [1.] Ele consente que vão à festa, embora o façam com espírito carnal e hipócrita.
Repare: mesmo aqueles que não frequentam as ordenanças sagradas com as disposições corretas e intenções sinceras não devem ser impedidos nem desanimados de ir. Quem sabe se ali não serão tocados?
[2.] Ele lhes nega sua companhia na ida à festa por serem carnais e hipócritas. Os que vão às ordenanças por ostentação ou para alcançar algum propósito mundano vão sem Cristo e terão o resultado correspondente.
Como é triste a condição de alguém que, embora se julgue parente de Cristo, ouve dele: “Sobe a esta ordenança, vai orar, vai ouvir a palavra, vai receber o sacramento, mas eu não subirei contigo. Vai apresentar-te diante de Deus, mas eu não me apresentarei em teu favor”; compare Êxodo 33:1-3.
Mas, se a presença de Cristo não for conosco, para que subiremos? “Subam vocês; eu não subo.” Quando vamos a ordenanças solenes ou voltamos delas, convém ter cuidado com as companhias que temos e escolhemos e evitar as vãs e carnais, para que a brasa das boas disposições não seja apagada pelas conversas corruptas.
“Ainda não subo a esta festa.” Ele não diz que jamais subirá, mas que ainda não o fará. Pode haver motivos para adiar um dever específico sem que seja omitido ou deixado de lado por completo; veja Números 9:6-11.
O motivo que ele apresenta é: “Meu tempo ainda não chegou plenamente”. Repare: nosso Senhor Jesus é muito exato e pontual em conhecer e observar seu tempo; assim como esse era o tempo determinado, também era o melhor.
- A permanência de Cristo na Galileia até que seu tempo chegasse por completo (v. 9). Tendo-lhes dito essas coisas, tauta de eipon, ele permaneceu na Galileia. Foi em razão dessa conversa que continuou ali, pois:
(1.) Não se deixaria influenciar por aqueles que o aconselhavam a buscar honra dos homens, nem acompanharia os que o incitavam a fazer alarde; não queria parecer que aprovava a tentação.
(2.) Não abandonaria seu próprio propósito. Tendo afirmado, com clara previsão e após madura reflexão, que ainda não subiria à festa, permaneceu na Galileia. Convém aos seguidores de Cristo ser assim firmes e não agir com leviandade.
- Sua subida à festa quando chegou seu tempo. Observe: (1.) Quando foi: depois que seus irmãos subiram. Não quis ir com eles para que não causassem alvoroço e perturbação sob o pretexto de mostrá-lo ao mundo.
Ao contrário, sua decisão de não contender, não clamar nem fazer ouvir sua voz nas ruas estava de acordo tanto com a profecia quanto com seu espírito (Isaías 42:2). Ele subiu depois deles.
Podemos legitimamente participar do mesmo culto religioso que pessoas com quem, ainda assim, devemos evitar intimidade e comunhão. Afinal, a bênção das ordenanças depende da graça de Deus, não da graça dos demais adoradores.
Seus irmãos carnais subiram primeiro; só depois ele foi. Repare: nas práticas externas da religião, é possível que hipócritas formais tomem a dianteira dos sinceros.
Muitos chegam primeiro ao templo movidos pela vanglória e saem de lá sem justificação, como aquele de Lucas 18:11. A pergunta não será “Quem chegou primeiro?”, mas “Quem chegou mais preparado?”. Se levarmos conosco o coração, pouco importa quem nos precedeu.
(2.) Como foi: os en krypto, como se estivesse se ocultando. Subiu não abertamente, mas como em segredo, mais por receio de causar escândalo do que de sofrer alguma injúria.
Foi à festa porque era uma oportunidade de honrar a Deus e fazer o bem. Mas foi como em segredo porque não queria provocar as autoridades. Repare: desde que a obra de Deus seja feita eficazmente, é melhor que seja feita com o mínimo de alarde.
O reino de Deus não precisa vir com sinais exteriores que atraiam a atenção (Lucas 17:20). Podemos fazer a obra de Deus em particular sem fazê-la de maneira enganosa.
- A grande expectativa em torno dele entre os judeus de Jerusalém, vv. 11-14. Por ter comparecido antes às festas e se destacado pelos milagres que realizara, Cristo se tornara assunto de muitas conversas e observações.
(1.) Não podiam deixar de pensar nele (v. 11): “Os judeus o procuravam na festa e perguntavam: Onde está ele?” [1.] O povo comum ansiava por vê-lo ali, para satisfazer a curiosidade contemplando sua pessoa e seus milagres.
Não achavam que valesse a pena ir até ele na Galileia, embora, se tivessem ido, não teriam feito a viagem em vão. Esperavam, porém, que a festa o trouxesse a Jerusalém, para então vê-lo. Se a oportunidade de conhecer Cristo lhes batesse à porta, aceitá-la-iam de bom grado.
Procuravam-no na festa. Quando comparecemos diante de Deus em suas santas ordenanças, devemos buscar Cristo nelas, procurá-lo nas festas do evangelho. Quem deseja ver Cristo numa festa deve procurá-lo ali.
Ou [2.] talvez fossem seus inimigos que aguardassem a oportunidade de prendê-lo e, se possível, interromper definitivamente sua obra. Perguntavam: “Onde está ele?” Pou esin ekeinos: “Onde está aquele sujeito?” Falavam dele com desprezo e desdém.
Deveriam acolher a festa como ocasião de servir a Deus; em vez disso, alegravam-se com a oportunidade de perseguir Cristo. Assim Saul esperou abater Davi na lua nova, 1 Samuel 20:27.
Os que procuram ocasião de pecar nas assembleias solenes de culto profanam ao extremo as ordenanças de Deus e o desafiam em seu próprio terreno. É como desferir um golpe dentro da jurisdição da corte.
(2.) O povo tinha opiniões muito diferentes a seu respeito (v. 12): havia muitos murmúrios, ou melhor, cochichos, entre as pessoas sobre ele. A hostilidade dos governantes contra Cristo e sua busca por ele fizeram com que o povo comentasse e observasse ainda mais sua pessoa.
A oposição ao evangelho de Cristo lhe trouxe esta vantagem: levou as pessoas a examiná-lo mais. Como se falava contra ele em toda parte, também se passou a falar dele em toda parte. Assim sua mensagem se difundiu ainda mais, e os méritos de sua causa foram investigados com maior atenção.
Esses murmúrios não eram contra Cristo, mas a respeito dele. Alguns murmuravam contra os governantes por não o apoiarem e animarem; outros, por não o calarem e restringirem. Uns murmuravam porque ele tinha tanta influência na Galileia; outros, porque tinha tão pouca em Jerusalém.
Repare: Cristo e sua religião foram e serão assunto de muitas controvérsias e discussões, Lucas 12:51, 52. Se todos concordassem em receber Cristo como deveriam, haveria perfeita paz. Mas, quando alguns recebem a luz e outros resolvem rejeitá-la, haverá murmuração.
Os ossos no vale, enquanto estavam mortos e secos, jaziam quietos. Mas, quando lhes foi ordenado que vivessem, houve ruído e agitação, Ezequiel 37:7. Ainda assim, o ruído e os embates da liberdade e da atividade são certamente preferíveis ao silêncio e à uniformidade de uma prisão.
Que opiniões tinham, então, as pessoas a respeito dele? [1.] Alguns diziam: “É um homem bom.” Isso era verdade, mas estava muito longe de ser toda a verdade. Ele não era apenas um homem bom, mas mais do que homem: era o Filho de Deus.
Muitos não pensam mal de Cristo, mas ainda assim pensam pouco dele. Mal o honram, mesmo ao falar bem, porque não dizem o suficiente. Apesar disso, era uma honra para Cristo e um descrédito para seus perseguidores que até quem não cria ser ele o Messias admitisse que era um homem bom.
[2.] Outros diziam: “Ou melhor: mas ele engana o povo.” Se fosse verdade, seria um homem muito mau. A doutrina que pregava era sã e incontestável; seus milagres eram reais e não podiam ser desmentidos; sua conduta era manifestamente santa e boa.
Mesmo assim, davam por certo que havia algum embuste oculto por trás de tudo, porque convinha aos principais sacerdotes opor-se a ele e desacreditá-lo.
A murmuração que havia entre os judeus acerca de Cristo ainda existe entre nós. Os socinianos dizem: “É um homem bom”, e não vão além disso. Os deístas nem mesmo admitem isso e dizem que ele enganava o povo. Assim, uns diminuem seu valor, outros o insultam; mas grande é a verdade.
[3.] Tinham medo de seus superiores e, por isso, não falavam muito sobre ele (v. 13): “Ninguém falava abertamente a seu respeito, por medo dos judeus.” Ou, primeiro, não ousavam falar bem dele em público: qualquer um podia censurá-lo e desacreditá-lo, mas ninguém ousava defendê-lo.
Ou, segundo, não ousavam falar dele abertamente de modo algum. Como nada se podia dizer justamente contra ele, não permitiam que se dissesse nada a seu respeito. Mencionar seu nome era um crime.
Assim, muitos tentaram reprimir a verdade sob o pretexto de pôr fim às discussões sobre ela. Queriam silenciar toda conversa sobre religião, na esperança de lançar a própria religião no esquecimento.
Versículos 14 a 36
Cristo na Festa dos Tabernáculos.
Aqui está: I. A pregação pública de Cristo no templo (v. 14): “Ele subiu ao templo e ensinou”, conforme seu costume quando estava em Jerusalém. Sua tarefa era pregar o evangelho do reino, e ele o fazia em todo lugar onde havia reunião de pessoas.
Seu sermão não foi registrado porque, provavelmente, tinha o mesmo teor dos sermões que pregara na Galileia e que os outros evangelistas registraram. Pois o evangelho é o mesmo para os simples e para os cultos.
O que merece atenção é que isso ocorreu por volta do meio da festa, no quarto ou quinto dos oito dias. Não se sabe ao certo se só chegou a Jerusalém no meio da festa ou se chegou no início, mas permaneceu reservado até então.
Mas cabe perguntar: por que não foi ao templo pregar antes? Resposta: 1. Porque as pessoas teriam mais tempo para ouvi-lo e, podia-se esperar, estariam mais dispostas a fazê-lo depois de passar alguns dias nas cabanas, como faziam na festa dos tabernáculos.
- Porque preferia aparecer quando tanto seus amigos quanto seus inimigos já tivessem parado de procurá-lo. Desse modo, daria uma amostra da maneira como costuma aparecer: à meia-noite, Mateus 25:6.
Mas por que apareceu agora tão publicamente? Certamente para envergonhar seus perseguidores, os principais sacerdotes e os anciãos. (1.) Ao mostrar que, embora fossem muito hostis a ele, ainda assim não os temia, nem temia seu poder. Veja Isaías 50:7, 8.
(2.) Ao tomar-lhes das mãos a tarefa deles. Cabia-lhes ensinar o povo no templo, particularmente na festa dos tabernáculos, Neemias 8:17, 18. Mas ou não o ensinavam de modo algum ou ensinavam como doutrinas mandamentos de homens. Por isso, Cristo sobe ao templo e ensina o povo.
Quando os pastores de Israel faziam do rebanho sua presa, era tempo de o Sumo Pastor aparecer, conforme fora prometido em Ezequiel 34:22, 23 e Malaquias 3:1.
II. Sua conversa com os judeus nessa ocasião. O colóquio pode ser dividido em quatro assuntos:
- Sua doutrina. Veja aqui:
(1.) Como os judeus se admiravam dela (v. 15): “Maravilhavam-se, dizendo: Como sabe este homem letras, sem nunca ter aprendido?” Observe aqui: [1.] Nosso Senhor Jesus não foi educado nas escolas dos profetas nem aos pés dos rabinos.
Não apenas deixou de viajar em busca de conhecimento, como faziam os filósofos, mas também não frequentou as escolas e academias de seu próprio país. Moisés foi instruído no saber dos egípcios; Cristo, porém, não recebeu sequer a instrução dos judeus.
Tendo recebido o Espírito sem medida, não precisava receber conhecimento de homem algum nem por intermédio de homem algum. Quando Cristo apareceu, o saber florescia tanto no Império Romano quanto na igreja judaica mais do que em qualquer época anterior ou posterior.
Foi num tempo assim, de investigação, que Cristo escolheu estabelecer sua religião, e não numa época de ignorância, para que não parecesse um desígnio de iludir o mundo. Ainda assim, ele próprio não estudou o saber então em voga.
[2.] Cristo conhecia as letras, embora nunca as tivesse estudado; era poderoso nas Escrituras, embora nunca tivesse tido um doutor da Lei como mestre. Os ministros de Cristo precisam ter conhecimento, como ele tinha.
Como não podem esperar recebê-lo da maneira pela qual ele o recebeu, por inspiração, devem esforçar-se para adquiri-lo pelos meios comuns.
[3.] O fato de Cristo possuir conhecimento sem tê-lo aprendido o tornava, na verdade, grande e admirável. Os judeus falam disso aqui com espanto. Primeiro, alguns provavelmente o observavam para honrá-lo: quem não tinha instrução humana e ainda assim superava tanto todos os instruídos certamente possuía conhecimento divino.
Segundo, outros provavelmente mencionavam isso para diminuí-lo e desprezá-lo: por mais que aparentasse saber, não podia possuir conhecimento verdadeiro, pois nunca frequentara a universidade nem obtivera um título acadêmico.
Terceiro, talvez alguns sugerissem que adquirira seu conhecimento por artes mágicas ou outros meios ilícitos. Como não sabiam explicar de que modo poderia ser instruído, preferiam considerá-lo um feiticeiro.
(2.) O que ele afirmou a respeito de sua doutrina. Foram três coisas:
[1.] Que sua doutrina é divina (v. 16): “Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou.” Eles se ofenderam porque ele se propôs a ensinar sem nunca ter aprendido. Em resposta, Cristo lhes diz que sua doutrina não era algo que se adquirisse por estudo.
Não era produto do pensamento humano nem de capacidades naturais ampliadas e elevadas pela leitura e pela comunhão, mas uma revelação divina. Como Deus, igual ao Pai, ele poderia, na verdade, ter dito: “Minha doutrina é minha e daquele que me enviou.”
Mas agora, em seu estado de humilhação e como Mediador, servo de Deus, era mais adequado dizer: “Minha doutrina não é minha; não é somente minha, nem se origina em mim como homem e Mediador, mas naquele que me enviou. Não se concentra em mim nem conduz, em última análise, a mim, mas àquele que me enviou.”
Deus havia prometido, a respeito do grande profeta, que poria suas palavras na boca dele (Deuteronômio 18:18), ao que Cristo parece referir-se aqui. Repare: a doutrina de Cristo é divina, vem de Deus e não dos homens. Isso consola os que a recebem e condena os que a rejeitam.
[2.] Que os juízes mais competentes da verdade e da autoridade divina da doutrina de Cristo são aqueles que, de coração sincero e reto, desejam e procuram fazer a vontade de Deus (v. 17): Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, tendo a própria vontade fundida à de Deus, “saberá se a doutrina vem de Deus ou se falo por conta própria”. Observe aqui:
Primeiro, qual é a questão a respeito da doutrina de Cristo: se ela vem ou não de Deus; se o evangelho é revelação divina ou impostura. O próprio Cristo aceitava que examinassem sua doutrina para saber se vinha de Deus; quanto mais seus ministros devem aceitá-lo.
Precisamos examinar os fundamentos em que nos apoiamos, pois, se formos enganados, estaremos miseravelmente enganados.
Segundo, quem tem maior probabilidade de chegar à verdade nessa investigação: os que fazem a vontade de Deus ou, pelo menos, desejam fazê-la. Vejamos agora: 1. Quem são os que farão a vontade de Deus.
São os que investigam a vontade de Deus sem parcialidade nem se deixam levar por desejo pecaminoso ou interesse próprio. São os que decidiram, pela graça de Deus, conformar-se à sua vontade quando descobrirem qual ela é.
São pessoas que têm um princípio sincero de consideração por Deus e desejam, na verdade, glorificá-lo e agradar-lhe.
- Por que uma pessoa assim conhecerá a verdade da doutrina de Cristo. (1.) Cristo prometeu dar conhecimento a essas pessoas. Disse: “Ele saberá”, e ele pode conceder entendimento.
Os que aproveitam a luz que possuem e vivem cuidadosamente de acordo com ela serão protegidos pela graça divina de erros que os destruiriam.
(2.) Elas estão dispostas e preparadas para receber esse conhecimento. Quem se inclina a submeter-se às regras da lei divina está disposto a acolher os raios da luz divina.
A quem tem será dado; “os que praticam seus mandamentos têm bom entendimento” (Salmos 111:10). Os que se assemelham a Deus têm maior probabilidade de compreendê-lo.
[3.] Assim se via que Cristo, como mestre, não falava por conta própria, pois não buscava a si mesmo (v. 18). Primeiro, veja a marca de um enganador: ele busca a própria glória, sinal de que fala por conta própria, como faziam os falsos cristos e os falsos profetas.
Eis a descrição do embuste: esses homens falam por conta própria e não têm comissão nem instruções de Deus. Sua única autorização é a própria vontade; sua única inspiração, a própria imaginação, cálculo e artimanha. Embaixadores não falam por conta própria. Os ministros que se orgulham de falar assim renunciam ao caráter de embaixadores.
Veja também como se descobre o embuste: suas alegações são desmentidas porque buscam unicamente a própria glória. Quem busca a si mesmo fala por si mesmo. Quem fala da parte de Deus fala em favor de Deus e de sua glória. Os que visam ao próprio cargo e aos próprios interesses mostram, com isso, que não receberam comissão de Deus.
Segundo, veja a característica oposta que Cristo atribui a si mesmo e a sua doutrina: “Aquele que busca a glória de quem o enviou”, como Cristo faz, mostra que é verdadeiro:
Cristo foi enviado por Deus. Devemos receber e acolher apenas os mestres que Deus envia. Quem traz uma mensagem divina precisa provar que recebeu uma missão divina, seja por revelação especial, seja por instituição regular.
Cristo buscava a glória de Deus. Tanto o propósito de sua doutrina quanto o rumo de toda a sua conduta eram glorificar a Deus. 3. Isso provava que ele era verdadeiro e que não havia injustiça nele. Os falsos mestres são extremamente injustos: para com Deus, cujo nome usam indevidamente, e para com as almas dos homens, a quem iludem.
Não pode haver injustiça maior. Cristo, porém, mostrou ser verdadeiro, ser realmente quem dizia ser: não havia injustiça nele, nem falsidade em sua doutrina, nem engano ou fraude em suas relações conosco.
- Eles discutem a acusação lançada contra Cristo por ter curado o homem enfermo e lhe ordenado que carregasse a cama no sábado. Por isso o haviam perseguido antes, e ainda usavam o episódio como pretexto para sua hostilidade.
(1.) Ele argumenta contra eles por meio de uma contra-acusação, declarando-os culpados de coisas muito piores (v. 19). Como podiam censurá-lo, sem se envergonhar, por transgredir a lei de Moisés, quando eles próprios a transgrediam de modo tão notório? “Não foi Moisés quem lhes deu a lei?”
Possuir a lei era seu privilégio: nenhuma outra nação recebera lei semelhante. Sua perversidade, porém, era que nenhum deles a guardava. Rebelavam-se contra ela e viviam em oposição a ela. Muitos a quem a lei foi dada não a guardam depois de recebê-la.
A negligência deles era universal: “Nenhum de vocês guarda a lei.” Não a guardavam nem os que ocupavam posições de honra e deveriam conhecê-la melhor, nem os que estavam em posição subordinada e deveriam ser os mais obedientes.
Orgulhavam-se da lei, alegavam zelo por ela e se enfureciam com Cristo porque parecia transgredi-la; contudo, nenhum a guardava. Eram como os que afirmam defender a igreja, mas nunca vão a ela.
Sua perversidade ao perseguir Cristo por violar a lei tornava-se ainda mais grave porque eles próprios não a guardavam: “Nenhum de vocês guarda a lei; por que, então, procuram matar-me por não a guardar?” Repare: os que mais censuram os outros costumam ser os mais culpados.
Assim, os hipócritas, prontos a tirar um argueiro do olho do irmão, não percebem a trave no próprio olho. “Por que procuram matar-me?” Alguns entendem que isso prova que não guardavam a lei: “Vocês não guardam a lei; se a guardassem, compreenderiam melhor as coisas e não procurariam matar-me por ter feito uma boa obra.”
Aqueles que sustentam sua posição e seus interesses pela perseguição e pela violência, por mais que aleguem ser custodes utriusque tabulæ, “guardiões de ambas as tábuas”, não são cumpridores da lei de Deus.
Chemnitius entende essas palavras como uma razão para substituir a lei de Moisés pelo evangelho: a lei se mostrara incapaz de refrear o pecado. “Moisés lhes deu a lei, mas vocês não a guardam nem ela os impede de cometer as maiores maldades.”
“Portanto, é preciso trazer uma luz mais clara e uma lei melhor. Por que, então, pretendem matar-me por introduzi-las?”
Nesse ponto, o povo o interrompeu rudemente e contradisse suas palavras (v. 20): “Tu tens demônio; quem procura matar-te?” Isso indica [1.] a boa opinião que tinham dos governantes. Pensavam que jamais tentariam algo tão atroz quanto matá-lo.
Veneravam tanto os anciãos e os principais sacerdotes que jurariam que eles nunca prejudicariam um inocente. É provável que os governantes tivessem pequenos emissários entre o povo, difundindo essa ideia. Muitos negam a perversidade que, ao mesmo tempo, maquinam cometer.
[2.] A má opinião que tinham de nosso Senhor Jesus: “Tu tens demônio, estás possuído por um espírito mentiroso e és um homem mau por dizer isso”; assim entendem alguns.
Ou, mais provavelmente: “Estás melancólico e fraco; tu te assustas com temores sem fundamento, como costumam fazer os hipocondríacos.” Naquela época, não só os acessos evidentes de loucura, mas também a melancolia silenciosa eram comumente atribuídos à ação de Satanás. “Estás perturbado, com a mente enferma.”
Não nos surpreendamos se os melhores homens receberem os piores rótulos. A essa calúnia vil, nosso Salvador não respondeu diretamente; parece que nem lhe deu atenção.
Repare: os que desejam assemelhar-se a Cristo devem suportar afrontas e passar por cima dos insultos e das injúrias. Não devem dar-lhes importância, muito menos guardar ressentimento e, menos ainda, vingar-se. “Eu, como um surdo, não ouvia.” Quando Cristo foi vituperado, não vituperou de volta.
(2.) Ele argumenta por meio de apelo e defesa.
[1.] Apela à opinião deles próprios acerca do milagre: “Fiz uma obra, e todos vocês se maravilham” (v. 21). “Não podem deixar de admirá-la como algo realmente grandioso e inteiramente sobrenatural; precisam reconhecer que é maravilhosa.”
Ou: “Embora eu tenha feito apenas uma obra que lhes dá qualquer pretexto de censura, vocês se espantam e se indignam como se eu fosse culpado de algum crime odioso ou enorme.”
[2.] Apela à prática deles em outros casos: “Fiz uma obra no sábado, com facilidade, apenas falando uma palavra, e todos se espantam. Fazem disso algo extraordinariamente grave, como se fosse inconcebível que um homem religioso ousasse agir assim.”
“Contudo, vocês mesmos muitas vezes realizam no sábado um trabalho muito mais servil ao circuncidar. Se lhes é lícito, ou melhor, obrigatório, circuncidar uma criança no sábado quando esse é o oitavo dia, como sem dúvida é, quanto mais lícito e bom foi para mim curar um homem enfermo nesse dia.” Observe:
Primeiro, a origem e o começo da circuncisão: Moisés lhes deu a circuncisão, isto é, a lei referente a ela. Aqui, 1. Diz-se que a circuncisão foi dada e que eles a receberam (v. 23). Ela não lhes foi imposta como jugo, mas concedida como favor.
Repare: as ordenanças de Deus, especialmente as que são selos da aliança, são dádivas feitas aos homens e devem ser recebidas como tais.
- Diz-se que Moisés a deu porque fazia parte da lei dada por intermédio dele. No entanto, como Cristo disse a respeito do maná (João 6:32), não foi Moisés quem o deu a eles, mas Deus. A circuncisão tampouco teve origem em Moisés: veio dos patriarcas (v. 22).
Embora tenha sido incorporada à instituição mosaica, foi ordenada muito antes, pois era selo da justiça da fé e, portanto, teve início com a promessa, quatrocentos e trinta anos antes (Gálatas 3:17).
A condição de membros da igreja, tanto dos crentes quanto de seus descendentes, não teve origem em Moisés nem em sua lei; por isso, não caiu com ela. Veio dos patriarcas, pertencia à igreja patriarcal e fazia parte da bênção de Abraão destinada a alcançar os gentios (Gálatas 3:14).
Segundo, a preferência dada à lei da circuncisão em relação à do sábado na prática constante da igreja judaica. Os casuístas judeus observam isso frequentemente: Circumcisio et ejus sanatio pellit sabbatum: a circuncisão e o tratamento da ferida afastam o sábado. Assim, se uma criança nascesse num sábado, seria circuncidada sem falta no sábado seguinte.
Se, quando o descanso sabático era exigido com maior rigor, eram consentidas as obras in ordine ad spiritualia, isto é, para a preservação da religião, com mais razão elas são consentidas agora, sob o evangelho, quando a ênfase recai mais sobre a obra a realizar no sábado.
Terceiro, a conclusão que Cristo tira daí em defesa de si mesmo e do que fizera (v. 23): um menino recebe a circuncisão no sábado para que a lei da circuncisão não seja violada; ou, como diz a nota à margem, sem violar a lei, a saber, a do sábado. Os mandamentos divinos devem ser interpretados de modo que concordem entre si.
“Ora, se vocês mesmos permitem isso, como é descabida a ira de vocês contra mim porque curei inteiramente um homem no sábado!” emoi cholate. Essa palavra ocorre apenas aqui e vem de choge, fel, bílis. Eles estavam irados contra ele com a maior indignação: era uma ira rancorosa, cheia de fel.
Repare: é absurdo e irracional condenar os outros por aquilo que justificamos em nós mesmos. Observe a comparação que Cristo faz entre circuncidar uma criança e curar um homem no sábado:
A circuncisão era apenas uma instituição cerimonial. Vinha, de fato, dos patriarcas, mas não existia desde o princípio. O que Cristo fez, porém, foi uma boa obra segundo a lei natural, uma lei mais excelente do que a que tornava a circuncisão uma boa obra.
A circuncisão era uma ordenança sangrenta e causava ferida. O que Cristo fez, porém, foi curar e tornar são. A lei produz dor; se tal obra pode ser feita no sábado, com mais razão pode sê-lo uma obra do evangelho, que produz paz.
Sobretudo porque, ao circuncidar uma criança, eles só se preocupavam em curar a parte circuncidada, embora a criança ainda pudesse ter outras enfermidades. Cristo, porém, havia curado o homem por inteiro: holon anthropon hygie, “tornei o homem todo saudável e são”.
Todo o seu corpo foi curado, pois a doença o afetava por inteiro. A cura foi perfeita, sem deixar qualquer vestígio da enfermidade. Ou melhor: Cristo curou não só o corpo, mas também a alma, ao adverti-lo: “Vai e não peques mais”. Assim, fez são o homem todo, pois a alma é o homem.
A circuncisão, de fato, visava ao bem da alma e a tornar o homem todo como devia ser. Eles, porém, a haviam pervertido, transformando-a numa ordenança meramente carnal. Cristo, ao contrário, acompanhava suas curas exteriores de graça interior, tornando-as sacramentais e curando o homem todo.
Ele conclui essa razão com a regra (v. 24): “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai juízo justo”. Isso pode ser aplicado, primeiro, especificamente à obra que criticavam como violação da lei: não sejam parciais ao julgar; não julguem kat opsin, com acepção de pessoas, ou “conhecendo rostos”, segundo a expressão hebraica (Deuteronômio 1:17).
É contrário à lei da justiça, bem como à da caridade, censurar como transgressores os que divergem de nossa opinião por tomarem uma liberdade que permitimos aos do nosso próprio partido, caminho e opinião.
É igualmente errado elogiar em alguns como rigor e severidade necessários o que em outros condenamos como imposição e perseguição.
Ou, segundo, isso pode aplicar-se de modo geral à pessoa de Cristo e à sua pregação, contra as quais tinham preconceito e se escandalizavam. As coisas falsas, planejadas para iludir os homens, costumam parecer melhores quando julgadas pela aparência exterior: mostram-se mais plausíveis prima facie, à primeira vista.
Foi isso que deu aos fariseus tamanha influência e reputação: pareciam justos aos olhos dos homens (Mateus 23:27, 28). As pessoas os julgavam por essa aparência e, por isso, enganavam-se profundamente a respeito deles. “Mas”, diz Cristo, “não tenham tanta certeza de que todos os que parecem santos o sejam de fato.”
No caso de Cristo, sua aparência exterior estava muito aquém de sua verdadeira dignidade e excelência. Ele “tomou a forma de servo” (Filipenses 2:7), veio “em semelhança de carne pecaminosa” (Romanos 8:3) e “não tinha forma nem formosura” (Isaías 53:2).
Portanto, os que pretendiam decidir pela aparência exterior se ele era ou não o Filho de Deus dificilmente fariam um julgamento justo. Os judeus esperavam que a aparência exterior do Messias fosse pomposa e magnífica, cercada por todas as cerimônias da grandeza mundana.
Ao julgarem Cristo por esse critério, erraram continuamente do começo ao fim, pois seu reino não seria deste mundo nem viria com sinais exteriores que atraíssem a atenção.
Se o poder divino o acompanhava, Deus dava testemunho dele e as Escrituras nele se cumpriam, deveriam recebê-lo, por mais humilde que fosse sua aparência, e julgar pela fé, não pela visão dos olhos. Veja Isaías 11:3 e 1 Samuel 16:7.
Cristo, sua doutrina e seus atos nada pedem além de um julgamento justo. Se a verdade e a justiça ao menos puderem proferir a sentença, Cristo e sua causa vencerão. Não devemos julgar ninguém pela aparência exterior, pelos títulos, pela posição que ocupa no mundo nem por sua exibição vistosa, mas por seu valor intrínseco e pelos dons e graças do Espírito de Deus que há nele.
- Aqui Cristo conversa com eles a respeito de si mesmo: de onde veio e para onde ia, vv. 25-36.
(1.) De onde veio, vv. 25-31. Observe nesse relato:
[1.] A objeção levantada por alguns habitantes de Jerusalém, que pareciam ter contra ele mais preconceitos do que todos os demais (v. 25). Seria de esperar que os que viviam na fonte do conhecimento e da religião fossem os mais prontos a receber o Messias; aconteceu exatamente o contrário.
Os que dispõem de muitos meios para conhecer e receber a graça, se não se tornam melhores por meio deles, costumam tornar-se piores. Nosso Senhor Jesus muitas vezes foi menos bem recebido justamente por aqueles de quem se esperaria a melhor acolhida. Havia motivo para o provérbio: quanto mais perto da igreja, mais longe de Deus. Os habitantes de Jerusalém mostraram sua má vontade para com Cristo:
Primeiro, criticando os governantes por deixá-lo em paz: “Não é este aquele a quem procuram matar?” A multidão que viera do interior para a festa não suspeitava de nenhum plano contra ele e, por isso, perguntara: “Quem procura matar-te?” (v. 20).
Mas os moradores de Jerusalém conheciam a trama e incitavam os governantes a executá-la: “Não é este aquele a quem procuram matar? Por que, então, não o fazem? Quem os impede? Dizem que querem tirá-lo do caminho; contudo, ele fala abertamente, e nada lhe dizem. Será que os governantes sabem que ele é realmente o Cristo?” (v. 26).
Com astúcia e malícia, insinuavam duas coisas para inflamar os governantes contra Cristo, quando, de fato, não precisavam de incentivo. 1. Que, tolerando sua pregação, desprestigiavam a própria autoridade.
“Permitirão que um homem condenado pelo Sinédrio como enganador fale abertamente sem contestação? Isso reduz sua sentença a um brutum fulmen, uma ameaça vazia. Se nossos governantes deixam que os pisem assim, não poderão reclamar quando ninguém temer nem a eles nem às suas leis.”
Repare: muitas das piores perseguições foram conduzidas sob o pretexto da necessária defesa da autoridade e do governo.
- Que, desse modo, punham em dúvida o próprio julgamento. “Será que sabem que este é o Cristo?” A pergunta é irônica: “Por que mudaram de opinião? Que nova descoberta fizeram? Dão ao povo motivo para pensar que creem ser ele o Cristo; convém que ajam energicamente contra ele para livrar-se dessa suspeita.”
Assim, os governantes que haviam feito do povo inimigo de Cristo tornaram-no filho do inferno sete vezes mais do que eles mesmos, Mateus 23:15.
Quando a religião e a profissão do nome de Cristo deixam de estar na moda e, por isso, perdem prestígio, muitos são fortemente tentados a persegui-las e combatê-las só para não parecer que as favorecem ou se inclinam para elas.
Por essa razão, os apóstatas e os filhos degenerados de bons pais às vezes se tornaram piores do que outros, como se quisessem apagar a mancha de sua antiga profissão de fé. Era estranho que os governantes, assim incitados, não prendessem Cristo. Mas sua hora ainda não havia chegado, e Deus pode conter admiravelmente as mãos dos homens sem mudar-lhes o coração.
Segundo, contestando que ele fosse o Cristo, numa objeção com mais malícia do que fundamento (v. 27): “Se os governantes pensam que ele é o Cristo, nós não podemos nem queremos crer nisso. Temos esta razão contra tal ideia: conhecemos este homem e sabemos de onde vem; quando o Cristo vier, ninguém saberá de onde vem.”
Há uma falácia nessa razão: as proposições não se referem ao mesmo aspecto do assunto, não são ambas ad idem. 1. Se falam de sua natureza divina, é verdade que, quando o Cristo vem, ninguém sabe de onde ele vem. Ele é sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, sem genealogia, e suas origens vêm desde os tempos antigos, desde a eternidade, Miquéias 5:2.
Mas, nesse caso, não é verdade que soubessem de onde vinha aquele homem: não conheciam sua natureza divina nem como a Palavra se fez carne.
- Se falam de sua natureza humana, é verdade que sabiam de onde ele vinha, quem era sua mãe e onde fora criado. Mas, nesse caso, é falso que se tivesse dito a respeito do Messias que ninguém saberia de onde ele viria; já se conhecia de antemão o lugar onde deveria nascer, Mateus 2:4, 5. Observe:
(1.) Como o desprezavam por saberem de onde vinha. A familiaridade gera desprezo, e temos a tendência de desdenhar a ajuda daqueles cuja origem conhecemos. Os seus não o receberam justamente por ser um deles, quando por essa mesma razão deveriam amá-lo mais e agradecer a honra que sua presença conferia à nação e à geração deles.
(2.) Como tentaram, injustamente, atribuir seu preconceito às Escrituras, como se elas lhes dessem apoio, quando não davam. As pessoas se enganam a respeito de Cristo porque não conhecem as Escrituras.
[2.] A resposta de Cristo a essa objeção, v. 28, 29.
Primeiro, ele falou livremente e com ousadia. Clamou no templo enquanto ensinava; falou mais alto do que no restante de seu discurso. 1. Fez isso para expressar seu ardor, sentindo dor pela dureza do coração deles. É possível defender a verdade com vigor sem perder a moderação nem ceder à paixão; podemos instruir os opositores com calor e, ao mesmo tempo, com mansidão.
- Os sacerdotes e os que tinham preconceito contra ele não se aproximavam o suficiente para ouvir sua pregação. Por isso, precisava falar mais alto do que o normal aquilo que queria que ouvissem. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Segundo, sua resposta à objeção foi: 1. Uma concessão: admitiu que conheciam, ou poderiam conhecer, sua origem segundo a carne. “Vós me conheceis e sabeis de onde venho. Sabeis que sou de vossa nação e um de vós.”
Não diminui a doutrina de Cristo haver nela verdades claras, ao alcance dos mais simples, reveladas até pela luz natural, das quais podemos dizer: “Sabemos de onde vêm.” “Vós me conheceis, pensais que me conheceis, mas estais enganados. Julgais que sou filho do carpinteiro e nasci em Nazaré; não é assim.”
- Uma negação: o que viam e conheciam nele não era tudo o que se podia conhecer. Se não olhassem além disso, julgariam apenas pela aparência. Talvez soubessem de onde ele viera e onde nascera; Cristo, porém, lhes diria o que ignoravam: de quem procedia.
(1.) Não viera por conta própria: não partira sem ser enviado nem chegara como pessoa particular, mas com um mandato público. (2.) Fora enviado pelo Pai. Isso é mencionado duas vezes: “Ele me enviou”; e, novamente, “Ele me enviou para dizer o que digo e fazer o que faço.”
O próprio Cristo tinha plena certeza disso e, por isso, sabia que o Pai sustentaria sua causa. É bom que nós também tenhamos essa certeza, para podermos ir a Deus por meio dele com santa confiança.
(3.) Ele procedia do Pai: par autou eimi, “sou procedente dele”. Não apenas fora enviado como servo por seu senhor, mas procede dele por geração eterna, como filho de seu pai; por emanação essencial, como os raios do sol.
(4.) O Pai que o enviou é verdadeiro. Prometera dar o Messias e, embora os judeus tivessem perdido o direito à promessa, aquele que a fez é verdadeiro e a cumpriu. Prometera que o Messias veria sua descendência e teria êxito em sua obra; embora a maioria dos judeus rejeitasse Cristo e seu evangelho, Deus é verdadeiro e cumpriria a promessa ao chamar os gentios.
(5.) Aqueles judeus incrédulos não conheciam o Pai: “Aquele que me enviou, a quem vós não conheceis.” Há muita ignorância de Deus até entre os que têm aparência de conhecimento dele.
O verdadeiro motivo pelo qual as pessoas rejeitam Cristo é não conhecerem a Deus. Há tanta harmonia entre os atributos divinos na obra da redenção e tanta concordância admirável entre a religião natural e a revelada que o conhecimento correto da primeira não apenas admitiria, mas conduziria à segunda.
(6.) Nosso Senhor Jesus conhecia intimamente o Pai que o enviou: “Eu o conheço.” Conhecia-o tão bem que não tinha a menor dúvida de sua missão nem ignorava o trabalho que devia realizar; estava perfeitamente seguro de uma coisa e plenamente informado da outra, Mateus 11:27.
[3.] A provocação que essas palavras causaram aos inimigos de Cristo, que o odiavam porque lhes dizia a verdade (v. 30). Procuraram prendê-lo e lançar mão dele com violência, não apenas para prejudicá-lo, mas para, de um modo ou de outro, matá-lo.
O poder invisível os conteve: ninguém lhe pôs a mão, porque sua hora ainda não havia chegado. Esse não era o motivo deles para não prendê-lo, mas o motivo de Deus para impedi-los. Repare:
Primeiro, os pregadores fiéis das verdades de Deus, por mais prudentes e mansos que sejam, devem esperar ódio e perseguição daqueles que se sentem atormentados por seu testemunho, Apocalipse 11:10.
Segundo, Deus mantém os homens perversos presos a uma corrente. Por mais mal que desejem fazer, só conseguem ir até onde Deus permite. A malícia dos perseguidores é impotente até quando é mais impetuosa; mesmo quando Satanás lhes enche o coração, Deus lhes prende as mãos.
Terceiro, os servos de Deus às vezes são maravilhosamente protegidos por meios imperceptíveis e inexplicáveis. Seus inimigos deixam de executar o mal planejado, mas nem eles próprios nem ninguém sabe explicar por quê.
Quarto, Cristo tinha uma hora determinada para encerrar seus dias e sua obra na terra. Assim também todo o seu povo e seus ministros. Até essa hora chegar, as tentativas dos inimigos contra eles são ineficazes.
Seus dias se estenderão enquanto o Mestre ainda tiver trabalho para eles. Nem todas as forças do inferno e da terra poderão vencê-los antes que tenham terminado seu testemunho.
[4.] O bom efeito que, apesar disso, o discurso de Cristo teve sobre alguns ouvintes (v. 31): “Muitos dentre o povo creram nele.” Assim como foi posto para a queda de alguns, também o foi para o levantamento de outros. Mesmo onde o evangelho encontra oposição, ainda pode produzir muito bem, 1 Tessalonicenses 2:2. Observe aqui:
Primeiro, quem creu. Não foram poucos, mas muitos, mais do que se esperaria quando a corrente seguia com tanta força na direção contrária. Esses muitos, porém, eram do povo, ek tou ochlou: da multidão, da massa, da gente de condição inferior, do populacho, da ralé, como alguns os chamariam.
Não devemos medir a prosperidade do evangelho pelo êxito entre os poderosos. Os ministros também não devem dizer que trabalham em vão quando apenas os pobres e os sem posição social recebem o evangelho, 1 Coríntios 1:26.
Segundo, o que os levou a crer: os milagres que ele fazia. Não eram apenas o cumprimento das profecias do Antigo Testamento (Isaías 35:5, 6), mas uma demonstração de poder divino.
Quem tinha capacidade de fazer o que só Deus pode fazer, controlando as forças da natureza e se sobrepondo a elas, sem dúvida tinha autoridade para estabelecer o que só Deus pode estabelecer: uma lei que obrigue a consciência e uma aliança que dê vida.
Terceiro, como era fraca a fé deles. Não afirmavam positivamente, como os samaritanos: “Este é de fato o Cristo.” Apenas argumentavam: “Quando o Cristo vier, fará mais milagres do que estes?” Partiam do princípio de que o Cristo viria e de que, ao chegar, faria muitos milagres.
“Não seria este? Embora não vejamos nele toda a pompa mundana que imaginávamos, vemos todo o poder divino com que acreditávamos que o Messias apareceria. Por que, então, não poderia ser ele?” Criam nisso, mas não tinham coragem de confessá-lo.
Repare: mesmo uma fé fraca pode ser verdadeira e, como tal, reconhecida e aceita pelo Senhor Jesus, que não despreza o dia das pequenas coisas.
(2.) Para onde ele ia, vv. 32-36. Observe:
[1.] O desígnio dos fariseus e principais sacerdotes contra ele (v. 32). Primeiro, foram provocados pelas informações levadas por seus espiões. Estes se infiltravam nas conversas do povo e recolhiam relatos para levar aos chefes desconfiados: murmuravam-se tais coisas sobre Cristo que muitos o respeitavam e estimavam, apesar de todos os esforços para torná-lo odioso.
Embora as pessoas apenas cochichassem essas opiniões e não tivessem coragem de falar abertamente, os fariseus ficaram enfurecidos. É justo desconfiar da justiça de um governo tão inseguro de si que presta atenção aos murmúrios secretos, variados e incertos do povo comum, ou se deixa influenciar por eles.
Os fariseus valorizavam muito o respeito do povo e percebiam que, se Cristo crescesse em influência, eles diminuiriam. Segundo, o plano que fizeram por isso foi prender Jesus e pô-lo sob custódia: enviaram oficiais para capturá-lo.
Não mandaram prender os que murmuravam a respeito dele para intimidá-los. Não: o modo mais eficaz de dispersar o rebanho é ferir o pastor. Os fariseus parecem ter liderado essa perseguição; como tais, porém, não tinham poder e, por isso, conseguiram que os principais sacerdotes, juízes do tribunal religioso, se unissem a eles, o que estes estavam prontos a fazer.
Os fariseus eram os que faziam grandes alegações de saber, e os principais sacerdotes, de santidade. Assim como o mundo, com sua sabedoria, não conheceu a Deus, e os maiores filósofos cometeram os maiores erros na religião natural, a igreja judaica, com sua sabedoria, não conheceu a Cristo.
Seus maiores rabinos foram os mais insensatos a respeito dele; ou melhor, seus inimigos mais obstinados. Aqueles governantes perversos tinham seus oficiais, servidores de seu tribunal, empregados da instituição religiosa, e os enviaram para prender Cristo. Eles estavam prontos a cumprir a ordem, embora fosse uma missão má.
Se os soldados de Saul não quiserem atacar os sacerdotes do Senhor, ele encontrará um pastor de rebanhos que o fará, 1 Samuel 22:17, 18.
[2.] O que nosso Senhor Jesus disse nessa ocasião (v. 33, 34): “Ainda por um pouco de tempo estou convosco; depois vou para aquele que me enviou. Vós me buscareis e não me achareis; e, onde eu estou, para lá não podeis ir.” Essas palavras, como a coluna de nuvem e fogo, têm um lado luminoso e outro sombrio.
Primeiro, têm um lado luminoso para o próprio Senhor Jesus e falam de abundante consolo para ele e para todos os seus seguidores fiéis expostos a dificuldades e perigos por sua causa. Cristo se consolou com três coisas:
- Restava-lhe pouco tempo neste mundo atribulado. Sabia que dificilmente teria um dia de paz entre aquelas pessoas; mas a boa notícia era que sua batalha logo terminaria e ele já não estaria neste mundo, João 17:11.
Sejam amigos ou inimigos aqueles com quem convivemos neste mundo, permaneceremos com eles apenas por pouco tempo. É consolo para os que estão no mundo sem pertencer a ele e, por isso, são odiados por ele e se cansam dele, saber que não permanecerão aqui para sempre nem por muito tempo.
Temos de conviver por algum tempo com espinheiros que nos ferem e espinhos que nos entristecem. Graças a Deus, é por pouco tempo, e logo estaremos fora de seu alcance. Já que nossos dias são maus, é bom que sejam poucos.
- Quando deixasse este mundo atribulado, iria para aquele que o enviara: “Eu vou.” Não disse: “Sou expulso à força”, mas: “Vou voluntariamente. Concluída minha missão de embaixador, volto àquele que me enviou.”
“Quando terminar meu trabalho entre vós, e não antes, irei para aquele que me enviou. Ele me receberá e me elevará, como são elevados os embaixadores quando retornam.” A fúria deles não impediria Cristo de alcançar a glória e a alegria postas diante dele; antes, apressaria sua chegada a elas.
Os que sofrem por Cristo podem consolar-se com isto: têm um Deus para quem ir e estão a caminho dele, avançando depressa para estar com ele para sempre.
- Embora o perseguissem aqui aonde quer que fosse, nenhuma perseguição poderia segui-lo até o céu: “Vós me buscareis e não me achareis.” Pela hostilidade que demonstraram aos seguidores de Cristo depois que ele partiu, fica claro que, se pudessem alcançá-lo, também o teriam perseguido: “Mas não podeis entrar naquele templo como entrais neste.”
“Onde eu estou” significa “onde estarei então”. Ele falou assim porque, mesmo enquanto estava na terra, em sua natureza e em seus afetos divinos, estava no céu, João 3:13. Ou isso indica que estaria lá tão cedo que era como se já estivesse. Repare: a felicidade dos santos glorificados aumenta pelo fato de estarem fora do alcance do diabo e de todos os seus instrumentos perversos.
Em segundo lugar, essas palavras têm um lado negro e sombrio para os judeus perversos que odiavam e perseguiam Cristo. Ansiavam por se livrar dele: “Fora com ele da terra!” Mas saibam:
Sua condenação corresponderá à sua escolha. Esforçavam-se para afastá-lo, e seu pecado se tornaria seu castigo. Ele não os importunaria por muito tempo; em pouco tempo partiria. É justo que Deus abandone aqueles que consideram sua presença um fardo. Para tornar infelizes os que estão cansados de Cristo, basta conceder-lhes o que desejam.
Certamente se arrependeriam da escolha quando fosse tarde demais. (1.) Buscariam em vão a presença do Messias: “Vocês me procurarão e não me encontrarão. Esperarão que o Cristo venha, mas seus olhos se cansarão de tanto buscá-lo, e nunca o acharão.”
Os que rejeitaram o verdadeiro Messias quando ele veio foram justamente abandonados à expectativa infeliz e interminável de outro que jamais virá.
Ou isso pode referir-se à exclusão final dos pecadores dos favores e da graça de Cristo no grande dia. Quem o busca agora o encontrará; mas virá o dia em que aqueles que hoje o recusam o procurarão sem encontrá-lo. Veja Provérbios 1:28. Em vão clamarão: “Senhor, Senhor, abre-nos.”
Talvez essas palavras se cumprissem no desespero de alguns judeus que, possivelmente convencidos, mas não convertidos, desejariam em vão ver Cristo e ouvi-lo pregar novamente. O tempo da graça, porém, teria passado (Lucas 17:22). E isso ainda não é tudo.
(2.) Em vão esperariam um lugar no céu: “Onde estou, e onde todos os crentes estarão comigo, para lá vocês não podem ir.” Isso não ocorre apenas porque são excluídos pela sentença justa e irrevogável do Juiz e pela espada do anjo em cada porta da nova Jerusalém, guardando o caminho da árvore da vida contra aqueles que não têm direito de entrar.
Ocorre também porque a própria iniquidade e incredulidade os tornam incapazes: “Vocês não podem ir porque não querem.” Os que detestam estar onde Cristo está, em sua palavra e em suas ordenanças na terra, são totalmente inadequados para estar onde ele está em sua glória no céu.
De fato, o céu não seria céu para eles, tamanha é a aversão de uma alma não santificada às alegrias desse estado.
Versículos 37 a 44
O Convite do Evangelho.
Nestes versículos temos:
I. O discurso de Cristo e sua explicação (vv. 37-39). É provável que tenhamos aqui apenas breves indicações daquilo que ele expôs mais amplamente, mas elas contêm a substância de todo o evangelho: um convite do evangelho para ir a Cristo e uma promessa do evangelho de consolo e felicidade nele. Observe:
- Quando fez o convite: no último dia da festa dos tabernáculos, o grande dia. O oitavo dia, que encerrava a solenidade, devia ser uma santa convocação (Levítico 23:36). Foi nesse dia que Cristo proclamou o chamado do evangelho, porque:
(1.) Havia muita gente reunida e, se o convite fosse feito a muitos, podia-se esperar que alguns o aceitassem (Provérbios 1:20). Assembleias numerosas oferecem a oportunidade de fazer mais bem.
(2.) O povo estava voltando para casa, e Cristo queria dar-lhes essas palavras para levarem consigo como sua despedida. Quando uma grande congregação está prestes a ser dispensada e a se dispersar, como aqui, é comovente pensar que, provavelmente, jamais se reunirá inteira novamente neste mundo.
Por isso, se podemos dizer ou fazer algo que a ajude a chegar ao céu, esse é o momento. É bom ter vivacidade ao encerrar uma ordenança. Cristo fez essa oferta no último dia da festa:
[1.] Aos que haviam feito ouvidos moucos à sua pregação nos dias anteriores daquela semana sagrada. Ele tentaria alcançá-los mais uma vez; se ainda ouvissem sua voz, viveriam.
[2.] Aos que talvez nunca mais recebessem outra oferta semelhante e, por isso, precisavam aceitá-la. Faltaria meio ano para a próxima festa e, até lá, muitos deles estariam no túmulo. “Eis que agora é o tempo aceitável.”
- Como fez o convite: “Jesus se pôs de pé e clamou.” Isso mostra: (1.) Seu grande empenho e insistência. Ele se dedicava de coração a atrair para si as almas necessitadas. O fato de se levantar e erguer a voz revelava a intensidade de sua mente. O amor pelas almas dá vivacidade aos pregadores.
(2.) Seu desejo de que todos prestassem atenção ao convite e o aceitassem. Pôs-se de pé e clamou para ser melhor ouvido, pois todos os que têm ouvidos precisam ouvir isso.
A verdade do evangelho não procura esconderijos, pois não teme ser posta à prova. Os oráculos pagãos eram transmitidos em segredo por pessoas que sussurravam e murmuravam; os oráculos do evangelho, porém, foram proclamados por alguém que se pôs de pé e clamou.
Como é triste a condição do homem, que precisa ser instado a buscar a felicidade! E como é maravilhosa a graça de Cristo, que se dispõe a instá-lo! “Ó, todos!” (Isaías 55:1).
- O convite é muito amplo: “Se alguém tem sede”, seja quem for, está convidado a ir a Cristo, tanto o grande como o pequeno, o rico como o pobre, o jovem como o idoso, o escravo como o livre, o judeu como o gentio.
É também muito gracioso: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Se alguém deseja ser feliz na verdade e eternamente, recorra a mim e deixe-se guiar por mim; eu me comprometo a fazê-lo feliz.”
(1.) Os convidados são os que têm sede. Isso pode referir-se: [1.] À carência em que se encontram, seja nas circunstâncias exteriores, seja na condição interior.
Se alguém carece dos confortos desta vida ou está exausto pelas cruzes que ela lhe impõe, que sua pobreza e aflições o levem a Cristo em busca da paz que o mundo não pode dar nem tirar. Quanto à condição interior: “Se alguém carece de bênçãos espirituais, pode recebê-las de mim.”
Ou [2.] À inclinação de sua alma e ao desejo de felicidade espiritual. Se alguém tem fome e sede de justiça, isto é, se deseja, na verdade, a boa vontade de Deus para consigo e a boa obra de Deus em si.
(2.) O convite em si: “Venha a mim.” Que não vá à lei cerimonial, incapaz de apaziguar ou purificar a consciência e, portanto, de aperfeiçoar os que a ela recorrem (Hebreus 10:1).
Que também não vá à filosofia pagã, que apenas ilude as pessoas, conduzindo-as a uma mata e deixando-as lá. Que vá a Cristo, acolha sua doutrina, submeta-se à sua disciplina e creia nele; que vá a ele como à fonte de águas vivas e ao doador de todo consolo.
(3.) A satisfação prometida: “Venha e beba; terá aquilo que veio buscar e abundantemente mais. Receberá o que não só refresca, mas também preenche uma alma que deseja ser feliz.”
- Uma promessa graciosa ligada a esse convite gracioso (v. 38): “Aquele que crê em mim, do seu ventre fluirão...” (1.) Veja o que significa ir a Cristo: crer nele, como diz a Escritura; recebê-lo e acolhê-lo conforme nos é apresentado no evangelho.
Não devemos formar um Cristo à medida de nossa imaginação, mas crer no Cristo apresentado pela Escritura. (2.) Veja como as almas sedentas que vão a Cristo receberão de beber.
Israel, que creu em Moisés, bebeu da rocha que o seguia, e as correntes vinham atrás; os crentes, porém, bebem de uma rocha que está dentro deles: Cristo neles. Ele é neles uma fonte de água viva (João 4:14).
Há provisão não só para a satisfação presente, mas também para o consolo contínuo e duradouro. Temos aqui: [1.] Água viva, água corrente, assim chamada na língua hebraica porque está sempre em movimento.
As graças e os consolos do Espírito são comparados à água viva, isto é, corrente, porque são princípios ativos e vivificantes da vida espiritual, bem como o penhor e o começo da vida eterna. Veja Jeremias 2:13.
[2.] Rios de água viva, expressão que indica tanto abundância quanto constância. O consolo flui abundante e continuamente como um rio, forte como uma corrente capaz de vencer a oposição das dúvidas e dos temores. Em Cristo há plenitude de graça sobre graça.
[3.] Esses rios fluem do ventre da pessoa, isto é, de seu coração ou de sua alma, onde o Espírito opera e exerce seu governo. Ali são plantados os princípios da graça; e do coração, onde o Espírito habita, fluem as correntes da vida (Provérbios 4:23).
Ali ficam guardados os consolos divinos e a alegria da qual o estranho não participa. Quem crê tem o testemunho em si mesmo (1 João 5:10). Sat lucis intus: há abundância de luz no interior.
Observe também: onde há fontes de graça e de consolo na alma, delas sairão correntes: “Do seu ventre fluirão rios”. Primeiro, a graça e o consolo produzirão boas ações, e um coração santo se mostrará numa vida santa. A árvore é conhecida pelos frutos; a fonte, pelas correntes.
Segundo, elas se comunicarão em benefício de outros; uma pessoa boa é um bem comum. Sua boca é uma fonte de vida (Provérbios 10:11).
Não basta beber as águas de nossa própria cisterna, desfrutando nós mesmos o consolo da graça recebida. Devemos também deixar que nossas fontes se espalhem para fora (Provérbios 5:15, 16).
As palavras “como diz a Escritura” parecem referir-se a alguma promessa do Antigo Testamento com esse sentido, e há muitas: Deus derramaria seu Espírito, metáfora tomada da água (Provérbios 1:23; Joel 2:28; Isaías 44:3; Zacarias 12:10); a terra seca se tornaria mananciais (Isaías 41:18); haveria rios no deserto (Isaías 43:19).
As almas agraciadas seriam como uma fonte de água (Isaías 58:11), e a igreja, um poço de águas vivas (Cantares de Salomão 4:15). Também pode haver aqui uma alusão às águas que saíam do templo de Ezequiel (Ezequiel 47:1). Compare Apocalipse 22:1 e veja Zacarias 14:8.
O Dr. Lightfoot e outros nos dizem que os judeus tinham, por tradição, um costume no último dia da festa dos tabernáculos: uma solenidade chamada Libatio aquæ, “o derramamento de água”.
Iam ao tanque de Siloé buscar água num vaso de ouro, levavam-na ao templo ao som de trombeta e com outras cerimônias e, ao subirem ao altar, derramavam-na perante o Senhor com todas as demonstrações possíveis de alegria.
Alguns de seus escritores entendiam que a água representava a lei e se referiam a Isaías 12:3; 55:1. Outros entendiam que representava o Espírito Santo. Pensa-se que nosso Salvador talvez estivesse aludindo a esse costume.
Os crentes terão o consolo, não de um vaso de água trazido de um tanque, mas de um rio que flui de dentro deles. A alegria da lei e o derramamento da água que a simbolizava não se comparam à alegria do evangelho nas fontes da salvação.
- Temos aqui a explicação que o evangelista dá dessa promessa (v. 39): “Isto ele disse a respeito do Espírito.” Não se referia a vantagens exteriores recebidas pelos crentes, como talvez alguns o tenham entendido, mas aos dons, às graças e aos consolos do Espírito. Veja como a Escritura é sua melhor intérprete. Observe:
(1.) A todos os que creem em Cristo foi prometido que receberiam o Espírito Santo. Alguns receberam seus dons milagrosos (Marcos 16:17, 18); todos recebem suas graças santificadoras.
O dom do Espírito Santo é uma das grandes bênçãos prometidas na nova aliança (Atos 2:39). Se foi prometido, sem dúvida é concedido a todos os que participam dessa aliança.
(2.) O Espírito que habita e opera nos crentes é como uma fonte de água viva e corrente, da qual fluem caudais abundantes. Como a água, ele refresca e limpa, amolece e umedece; torna os crentes frutíferos e alegra outras pessoas. Veja João 3:5.
Quando os apóstolos falaram das coisas de Deus com tanta fluência, conforme o Espírito lhes concedia que falassem (Atos 2:4), e depois pregaram e escreveram o evangelho de Cristo com tal torrente de eloquência divina, cumpriu-se isto: “Do seu ventre fluirão rios”.
(3.) Esse derramamento abundante do Espírito ainda era objeto de uma promessa, pois “o Espírito Santo ainda não fora dado, porque Jesus ainda não fora glorificado”. Veja aqui:
[1.] Jesus ainda não fora glorificado. Era certo que o seria, e ele sempre foi digno de toda honra; mas naquele momento ainda estava em condição de humilhação e desprezo.
Nunca perdera a glória que tinha antes de todos os mundos; ou melhor, merecera uma glória ulterior e, além das honras que lhe cabiam por herança, podia reivindicar a coroa conquistada como Mediador. Contudo, tudo isso ainda lhe estava reservado para o futuro.
Jesus agora é sustentado (Isaías 42:1), está satisfeito (Isaías 53:11) e é justificado (1 Timóteo 3:16), mas ainda não foi glorificado. Se Cristo precisou esperar por sua glória, não consideremos excessivo esperar pela nossa.
[2.] O Espírito Santo ainda não fora dado. oupo gar hen pneuma: “pois o Espírito Santo ainda não era”. O Espírito de Deus existe desde a eternidade, pois, no princípio, movia-se sobre a face das águas.
Ele estava nos profetas e santos do Antigo Testamento, e Zacarias e Isabel foram ambos cheios do Espírito Santo. Portanto, essas palavras se referem ao derramamento extraordinário, abundante e geral do Espírito prometido em Joel 2:28 e realizado em Atos 2:1, etc.
O Espírito Santo ainda não fora dado daquela maneira visível que estava prevista. Se compararmos o conhecimento claro e a graça forte dos próprios discípulos de Cristo após o dia de Pentecostes com sua escuridão e fraqueza anteriores, entenderemos em que sentido ele ainda não fora dado.
O penhor e as primícias do Espírito já haviam sido dados, mas a colheita completa ainda não havia chegado. A era que se chama, no sentido mais próprio, de dispensação do Espírito ainda não começara.
O Espírito Santo ainda não fora dado como rios de água viva que brotariam para regar toda a terra, inclusive o mundo gentio; tampouco nos dons de línguas, aos quais talvez essa promessa se refira principalmente.
[3.] O motivo de o Espírito Santo ainda não ter sido dado era que Jesus ainda não fora glorificado. Primeiro, a morte de Cristo às vezes é chamada de sua glorificação (João 13:31), pois na cruz ele venceu e triunfou.
Ora, o dom do Espírito Santo foi comprado pelo sangue de Cristo. Esse foi o preço valioso que fundamentou a concessão; por isso, até que fosse pago, o Espírito Santo não foi dado, embora muitos outros dons tivessem sido concedidos mediante a garantia de que esse preço seria pago.
Segundo, enquanto Cristo estava aqui na terra, a necessidade do Espírito não era tão grande quanto seria depois de sua partida, quando ele supriria sua ausência.
Terceiro, a concessão do Espírito Santo seria tanto uma resposta à intercessão de Cristo (João 14:16) quanto um ato de seu domínio. Por isso, até que fosse glorificado e assumisse ambas essas funções, o Espírito Santo não seria dado.
Quarto, a conversão dos gentios era a glorificação de Jesus. Quando alguns gregos começaram a perguntar por Cristo, ele disse que agora o Filho do Homem era glorificado, João 12:23.
Ainda não chegara o tempo de propagar o evangelho entre as nações e, portanto, ainda não havia ocasião para o dom de línguas, aquele rio de água viva. Mas observe: embora o Espírito Santo ainda não tivesse sido dado, já fora prometido. Naquele momento, era a grande promessa do Pai, Atos 1:4.
Embora os dons da graça de Cristo demorem muito a chegar, estão bem assegurados. Enquanto esperamos o cumprimento da boa promessa, temos a promessa da qual viver, e ela falará e não mentirá.
II. As consequências desse discurso e a recepção que teve. De modo geral, provocou diferenças: “Houve uma divisão entre o povo por causa dele” (v. 43). A palavra indica um cisma. Havia opiniões diversas, defendidas com calor e disputa, sentimentos variados que colocavam as pessoas umas contra as outras.
Pensamos que Cristo veio trazer paz, de modo que todos receberiam seu evangelho unanimemente? Não. Um dos efeitos da pregação seria a divisão: enquanto alguns se reuniriam em torno do evangelho, outros se uniriam contra ele.
Isso causaria agitação, como ocorreu aqui. Mas a culpa não é do evangelho, assim como não é culpa de um remédio saudável agitar os humores nocivos do corpo para que sejam expelidos. Observe qual era a controvérsia:
- Alguns foram atraídos por ele e estavam bem-dispostos em relação a ele. Muitos do povo, ao ouvir aquelas palavras, ouviram-no convidar os pobres pecadores com tamanha compaixão e bondade, e comprometer-se com tamanha autoridade a fazê-los felizes, que não puderam deixar de pensar muito bem dele.
(1.) Alguns diziam: “Este é, na verdade, o profeta”, aquele de quem Moisés falara aos antepassados e que seria semelhante a ele. Ou: “Este é o profeta que, segundo a crença comum na igreja judaica, viria como arauto e precursor do Messias.” Ou ainda: “Este é, na verdade, um profeta, inspirado por Deus e enviado por ele.”
(2.) Outros foram além e disseram: “Este é o Cristo” (v. 41), não um profeta que anuncia o Messias, mas o próprio Messias. Naquela época, os judeus aguardavam o Messias com intensidade maior do que a habitual e, por isso, prontamente diziam a cada ocasião: “O Cristo está aqui” ou “Está ali.”
Parece que a opinião dessas pessoas era apenas fruto de ideias vagas e confusas, agarradas à primeira aparência. Não lemos que elas se tenham tornado discípulas e seguidoras de Jesus. Ter uma boa opinião de Cristo está muito aquém de ter fé viva nele; muitos lhe dirigem boas palavras, mas nada mais lhe oferecem.
Os que diziam “Este é o profeta” e “Este é o Cristo” não conseguiam convencer-se a deixar tudo para segui-lo. Assim, seu testemunho a favor de Cristo acabou sendo um testemunho contra si mesmos.
- Outros tinham preconceito contra ele. Mal se afirmou a grande verdade de que Jesus é o Cristo, ela foi negada e combatida com razões. Julgavam suficiente para refutar todas as razões a favor dele o fato de que, segundo davam por certo, Jesus vinha da Galileia: “Porventura o Cristo virá da Galileia? Não diz a Escritura que ele vem da descendência de Davi?”
Veja aqui: (1.) Um conhecimento louvável das Escrituras. Tinham razão em saber que o Messias seria um rebento do tronco de Jessé (Isaías 11:1) e que de Belém sairia o Governante (Miquéias 5:2). Até o povo comum conhecia isso pelas explicações tradicionais dadas pelos escribas.
Talvez essas pessoas, tão prontas a citar as Escrituras contra Cristo, não conhecessem tão bem outras partes do texto sagrado, mas seus líderes lhes tivessem posto esses textos na boca para fortalecer seus preconceitos contra ele.
Muitos que adotam ideias corrompidas e gastam seu zelo para defendê-las parecem conhecer muito bem as Escrituras, quando de fato pouco sabem além dos textos que foram ensinados a distorcer.
(2.) Uma ignorância culpável a respeito de nosso Senhor Jesus. Falavam como se fosse certo e indiscutível que Jesus vinha da Galileia. No entanto, bastava perguntar a ele, a sua mãe ou a seus discípulos, ou consultar as genealogias da família de Davi e os registros de Belém, para saber que era Filho de Davi e nascido em Belém. Preferiam, porém, ignorar isso.
Assim, falsidades grosseiras sobre fatos, pessoas e acontecimentos são frequentemente aceitas por homens preconceituosos e parciais, que baseiam nelas decisões importantes. Isso ocorre até no mesmo lugar e na mesma época em que as pessoas vivem e os fatos se dão, embora a verdade pudesse ser facilmente descoberta.
- Outros se enfureceram contra ele e queriam prendê-lo (v. 44). Apesar de suas palavras serem extremamente doces e graciosas, elas os irritaram. Assim nosso Mestre sofreu o mal por falar e fazer o bem.
Queriam prendê-lo; esperavam que alguém o detivesse e, se julgassem que ninguém o faria, teriam agido por conta própria. Queriam prendê-lo, mas ninguém lhe pôs a mão. Um poder invisível os conteve, pois sua hora não havia chegado. Assim como a malícia dos inimigos de Cristo é sempre irracional, às vezes sua contenção é inexplicável.
Versículos 45 a 53
O Testemunho dos Guardas a Respeito de Cristo.
Os principais sacerdotes e os fariseus estão aqui reunidos em conspiração secreta, maquinando como calar Cristo. Embora fosse o grande dia da festa, não participavam dos serviços religiosos, mas os deixavam ao povo comum. Esses grandes líderes religiosos costumavam confiar e transferir ao povo os deveres da devoção, enquanto se julgavam mais bem ocupados com a política eclesiástica.
Sentaram-se na sala do conselho à espera de que Cristo lhes fosse trazido como prisioneiro, pois haviam expedido ordens para prendê-lo (v. 32). Agora se nos conta:
I. O que aconteceu entre eles e seus próprios guardas, que voltaram sem Cristo, re infecta, sem nada terem feito. Observe:
- A censura que fizeram aos guardas por não cumprirem a ordem recebida: “Por que não o trouxestes?” Cristo aparecera em público; muitos do povo estavam descontentes com ele e teriam ajudado a prendê-lo. Era o último dia da festa, e eles não teriam outra oportunidade igual. “Por que, então, negligenciaram seu dever?”
Irritava-os que seus subordinados, que dependiam deles e dos quais eles também dependiam, e em cuja mente haviam incutido preconceitos contra Cristo, os decepcionassem desse modo. Repare: os que desejam fazer o mal se irritam quando não conseguem praticá-lo (Salmos 112:10; Neemias 6:16).
- O motivo apresentado pelos guardas para não executarem a ordem: “Nunca homem algum falou como este homem” (v. 46). Ora:
(1.) Era uma grande verdade: jamais alguém falara com a sabedoria, o poder e a graça, a clareza convincente e a doçura encantadora com que Cristo falava. Nenhum dos profetas o fez, nem mesmo Moisés.
(2.) Os próprios guardas enviados para prendê-lo foram conquistados por ele e reconheceram isso. É provável que não fossem homens de discernimento muito rápido para perceber a força do raciocínio ou da eloquência, e certamente não tinham disposição de pensar bem de Jesus.
Ainda assim, havia tanta evidência por si mesma nas palavras de Cristo que não puderam deixar de preferi-lo a todos os que se assentavam na cadeira de Moisés. Assim, Cristo foi preservado pelo poder que Deus exerce até sobre a consciência de homens maus.
(3.) Eles disseram isso a seus senhores e superiores, que não suportavam ouvir nada que honrasse a Cristo, mas não puderam evitar ouvir esse testemunho. A providência determinou que lhes fosse dito, para perturbá-los no pecado e tornar seu pecado ainda mais grave.
Seus próprios guardas, que ninguém poderia suspeitar de favorecer Cristo, testemunhavam contra eles. Esse depoimento deveria tê-los levado a refletir: “Sabemos o que estamos fazendo ao odiar e perseguir alguém que fala de modo tão admirável?”
- Os fariseus procuram manter os guardas ligados a seus interesses e incutir-lhes preconceitos contra Cristo, a quem viam que eles começavam a estimar. Sugerem duas coisas:
(1.) Se aceitarem o evangelho de Cristo, enganarão a si mesmos (v. 47): “Vós também fostes enganados?” Desde sua origem, o cristianismo tem sido apresentado ao mundo como um grande embuste, e aqueles que o abraçavam eram chamados de enganados justamente quando começavam a deixar de sê-lo.
Os que esperavam um Messias com pompa exterior julgavam enganados os que criam num Messias apresentado em pobreza e desonra. O desenrolar dos fatos, porém, mostra que ninguém foi mais vergonhosamente enganado nem aplicou a si mesmo embuste maior do que os que esperavam riqueza mundana e domínio secular com o Messias.
Observe o elogio que os fariseus fizeram aos guardas: “Vocês também foram enganados? Como assim? Homens com o discernimento, a capacidade de reflexão e a posição de vocês? Homens que sabem o bastante para não serem iludidos por qualquer mestre que faz alegações e acaba de aparecer?” Procuravam predispor os guardas contra Cristo levando-os a pensar bem de si mesmos.
(2.) Se o seguirem, prejudicarão a própria reputação. A maioria das pessoas, até em religião, aceita guiar-se pelo exemplo dos que ocupam as posições mais altas. Assim, pedem àqueles guardas, cujos cargos, modestos como fossem, lhes davam certo senso de honra, que considerem:
[1.] Tornar-se discípulos de Cristo seria contrariar pessoas de posição e boa reputação: “Acaso algum dos governantes ou dos fariseus creu nele? Vocês sabem que não; devem submeter-se ao julgamento deles e crer e agir em religião conforme a vontade de seus superiores. Pretendem ser mais sábios do que eles?”
Alguns governantes aceitaram Cristo (Mateus 9:18; João 4:53), e outros creram nele, mas não tiveram coragem de confessá-lo (João 12:42). Quando a causa de Cristo tem pouco apoio no mundo, porém, seus adversários costumam apresentá-la como ainda menos apoiada do que realmente é.
Era, contudo, verdade que poucos, muito poucos, daqueles líderes creram. Repare: Primeiro, a causa de Cristo raramente teve governantes e fariseus a seu lado. Ela não precisa de apoio secular nem promete vantagens mundanas; por isso, não corteja os grandes deste mundo nem é cortejada por eles. A renúncia a si mesmo e a cruz são lições difíceis para governantes e fariseus.
Segundo, o fato de governantes e fariseus não serem amigos de Cristo e de seu evangelho confirmou muitos em seus preconceitos contra ambos. Poderiam os homens seculares alegar que se importam mais com as coisas espirituais do que os próprios homens espirituais, ou que compreendem melhor a religião do que aqueles que se dedicam profissionalmente a estudá-la?
Se governantes e fariseus não creem em Cristo, os que creem serão tidos como as pessoas mais excêntricas, fora de moda e sem distinção social do mundo, sem qualquer perspectiva de alcançar um cargo.
Assim, as pessoas se deixam influenciar tolamente por motivos externos em assuntos de importância eterna: aceitam ser condenadas por seguir a moda e ir para o inferno por mera deferência a governantes e fariseus.
[2.] Eles se juntariam ao povo comum, que os fariseus desprezavam (v. 49): “Mas esta gente, que não conhece a lei, é maldita”; referiam-se especialmente aos que acolhiam a doutrina de Cristo. Observe:
Primeiro, com quanto desprezo falam deles: “Esta gente”. Não usam laos, “este povo leigo”, em distinção ao clero, mas ochlos outos, “esta turba”, esse povo miserável, escandaloso e desprezível. Recusavam-se a contá-los até entre os cães de seu rebanho, embora Deus os contasse entre os cordeiros do seu.
Se falavam do povo comum da nação judaica, eram descendentes de Abraão, estavam em aliança com Deus e não mereciam tamanho desprezo. Os interesses comuns da igreja são traídos quando uma parte procura tornar outra insignificante e desprezível.
Se falavam dos seguidores de Cristo, embora em geral fossem pessoas de pouca posição e recursos, ao reconhecê-lo mostravam tanta sagacidade, integridade e participação nos favores do Céu que eram, na verdade, grandes e importantes.
Repare: assim como a sabedoria de Deus muitas vezes escolheu as coisas humildes e desprezadas, a insensatez dos homens costuma rebaixar e desprezar aqueles que Deus escolheu.
Segundo, como é injusto desacreditá-los por desconhecerem a palavra de Deus: “Não conhecem a lei”. Falavam como se só conhecesse a lei quem a aprendesse com eles, como se nenhum conhecimento das Escrituras fosse válido sem sair de sua própria casa da moeda e como se só conhecessem a lei os que observavam seus cânones e tradições.
Talvez muitos dos que desprezavam dessa maneira conhecessem a lei e também os profetas melhor do que eles. Muitos discípulos de Cristo, simples, honestos e sem instrução formal, alcançam pela meditação, pela experiência, pela oração e, sobretudo, pela obediência, um conhecimento da palavra de Deus mais claro, sólido e útil do que o de estudiosos com toda a sua inteligência e erudição.
Assim, Davi chegou a compreender mais do que os antigos e todos os seus mestres (Salmos 119:99, 100). Se o povo comum não conhecia a lei, os principais sacerdotes e fariseus eram os últimos que deveriam repreendê-lo por isso: de quem era a culpa, senão deles, que deveriam tê-lo ensinado melhor, mas, em vez disso, tiraram a chave do conhecimento? Veja Lucas 11:52.
Terceiro, com quanta autoridade arrogante pronunciam a sentença: “São malditos”, odiosos a Deus e a todos os sábios; epikatartoi, um povo execrável. Ainda bem que chamá-los de malditos não os tornava assim, pois a maldição sem causa não se cumpre.
É usurpar uma prerrogativa de Deus, além de revelar enorme falta de caridade, declarar que pessoas específicas, quanto mais todo um grupo, são réprobas. Não somos capazes de examiná-las e, portanto, não estamos aptos a condená-las. Nossa regra é: “Abençoai e não amaldiçoeis”.
Alguns pensam que eles queriam dizer apenas que o povo era facilmente enganado e feito de tolo. Contudo, usaram a palavra odiosa “malditos” para expressar a própria indignação e afastar seus guardas daquele povo.
Assim, em nossa época profana, a linguagem do inferno chama de maldito, condenado e arruinado tudo o que desagrada. Pelo que se pode ver, essas sugestões abafaram e frustraram o convencimento dos guardas, que nunca mais procuraram saber a respeito de Cristo.
Para muitos, uma palavra de um governante ou fariseu pesa mais do que a verdadeira razão das coisas e os grandes interesses da própria alma.
II. O que se passou entre eles e Nicodemos, membro do próprio conselho (v. 50, etc.). Observe:
- A objeção justa e racional que Nicodemos levantou contra o modo como procediam. Mesmo naquele sinédrio corrupto e perverso, Deus não ficou inteiramente sem testemunha contra a inimizade deles; tampouco o voto contra Cristo foi aprovado nemine contradicente, isto é, sem nenhuma voz contrária. Observe:
(1.) Quem se manifestou contra eles: Nicodemos, aquele que foi procurar Jesus à noite e que era um deles (v. 50). A respeito dele, observe: [1.] Embora tivesse estado com Jesus e o reconhecesse como mestre, manteve seu lugar e seu voto no conselho.
Alguns atribuem isso à fraqueza e à covardia e consideram que ele errou por não abandonar o cargo. Cristo, porém, nunca lhe disse: “Segue-me”; se o tivesse feito, Nicodemos teria agido como os outros que deixaram tudo para segui-lo.
Parece, portanto, que foi antes sábio da parte dele não renunciar imediatamente ao cargo. Ali poderia ter oportunidade de servir a Cristo e à sua causa e conter a onda da ira dos judeus, talvez mais do que sabemos.
Poderia ser ali como Husai entre os conselheiros de Absalão, ajudando a transformar os planos deles em insensatez. Embora em nenhuma hipótese devamos negar nosso Mestre, ainda assim podemos esperar a oportunidade de confessá-lo da maneira mais proveitosa.
Deus tem seu remanescente entre todos os tipos de pessoas e, muitas vezes, encontra, coloca ou produz algum bem nos piores lugares e convívios. Daniel estava na corte de Nabucodonosor; Neemias, na de Artaxerxes.
[2.] Embora a princípio fosse a Jesus à noite por medo de ser reconhecido e continuasse em seu cargo, quando surgiu a ocasião defendeu Cristo corajosamente e se opôs a todo o conselho reunido contra ele.
Assim, muitos crentes que no começo eram tímidos e prontos a fugir ao tremor de uma folha, pela graça divina acabam tornando-se corajosos e capazes de rir diante do tremor de uma lança.
Ninguém use o exemplo de Nicodemos para justificar o disfarce de sua fé, a menos que, como ele, esteja pronto a defender publicamente a causa de Cristo na primeira oportunidade, mesmo que fique sozinho. Foi o que Nicodemos fez aqui e em João 19:39.
(2.) O que ele alegou contra a conduta deles (v. 51): “Acaso nossa lei julga alguém antes de ouvi-lo”, akouse par autou, ouvir a própria pessoa, “e saber o que faz?” De modo nenhum, nem a lei de qualquer nação civilizada consente nisso. Observe:
[1.] Ele argumenta prudentemente com base nos princípios da própria lei deles e numa regra incontestável de justiça: ninguém deve ser condenado sem ser ouvido.
Se tivesse apresentado a excelência da doutrina de Cristo, as provas de seus milagres ou lhes repetido a conversa divina que tivera com ele (João 3), seria como lançar pérolas aos porcos, que as pisoteariam e depois se voltariam para despedaçá-lo. Por isso, deixou esses argumentos de lado.
[2.] Eles haviam lançado descrédito sobre o povo, especialmente os seguidores de Cristo, como ignorante da lei. Nicodemos devolveu-lhes discretamente a acusação e mostrou como desconheciam alguns dos primeiros princípios da lei: eram, portanto, incapazes de ditar a lei aos outros.
[3.] Diz-se aqui que a lei julga, ouve e sabe quando os magistrados que governam por ela e a ela se submetem julgam, ouvem e sabem. Eles são a boca da lei; tudo o que ligam ou desligam segundo ela se diz, com justiça, ligado ou desligado pela própria lei.
[4.] É inteiramente justo que ninguém seja condenado pela lei antes de passar pelo seu exame em um julgamento imparcial. Ao receberem as queixas do acusador, os juízes devem sempre reservar espaço na mente para a defesa do acusado. Têm dois ouvidos para se lembrarem de ouvir ambos os lados; assim era o costume dos romanos (Atos 25:16).
O método de nossa lei é Oyer and Terminer: primeiro ouvir, depois decidir.
[5.] As pessoas devem ser julgadas não pelo que se diz delas, mas pelo que fazem. Nossa lei não pergunta qual é a opinião dos outros a seu respeito nem que clamores se levantam contra elas. Pergunta: “O que fizeram? De quais atos manifestos podem ser declaradas culpadas?”
A sentença deve ser proferida secundum allegata et probata, segundo o que foi alegado e provado. No julgamento, devem ser conhecidos os fatos, não os rostos; a balança da justiça deve ser usada antes da espada da justiça.
Podemos supor que a proposta feita então por Nicodemos no conselho foi convidar Jesus para que lhes falasse de si mesmo e de sua doutrina, dando-lhe uma audiência justa e sem preconceitos. Embora nenhum deles pudesse contestar o princípio que ele apresentou, nenhum apoiou sua proposta.
- O que se disse em resposta à objeção. Não há resposta direta. Como não podiam resistir à força de sua razão, atacaram Nicodemos; tentaram compensar com insultos e descrédito o que lhes faltava em razão.
Repare: é sinal de uma causa ruim quando as pessoas não suportam ouvir a razão e consideram uma afronta ser lembradas de seus princípios. Quem se opõe à razão dá motivo para suspeitar que a razão está contra si. Veja como zombam dele: “Também tu és da Galileia?” (v. 52).
Alguns pensam que ele recebeu o que merecia por continuar entre os que sabia serem inimigos de Cristo e por não dizer em defesa dele mais do que poderia ter dito em favor do pior criminoso: que ninguém deve ser condenado sem ser ouvido.
Ele deveria ter dito: “Quanto a este Jesus, eu próprio o ouvi e sei que é um mestre vindo de Deus; ao se oporem a ele, vocês lutam contra Deus.” Mesmo se o tivesse dito, não poderia ter sido mais maltratado do que foi por essa fraca demonstração de afeição por Cristo. A respeito do que disseram a Nicodemos, observemos:
(1.) Como eram falsos os fundamentos de seu argumento. [1.] Supunham que Cristo vinha da Galileia, o que era falso. Se tivessem se dado ao trabalho de investigar com imparcialidade, teriam descoberto o erro.
[2.] Supunham que, por serem galileus a maioria dos discípulos de Cristo, todos o eram; mas ele tinha muitos discípulos na Judeia. [3.] Supunham que nenhum profeta havia surgido na Galileia e convidavam Nicodemos a pesquisar; isso também era falso. Jonas era de Gate-Hefer, e Naum, de Elcós; ambos eram da Galileia. Assim fizeram da mentira seu refúgio.
(2.) Como eram absurdos os argumentos construídos sobre esses fundamentos, vergonhosos para governantes e fariseus. [1.] A pobreza e a obscuridade da terra de origem diminuem, porventura, o valor e a virtude de alguém? Os galileus eram descendentes de Abraão; bárbaros e citas são descendentes de Adão; não temos todos o mesmo Pai?
[2.] Ainda que nenhum profeta tivesse surgido na Galileia, isso não tornaria impossível que algum viesse de lá. Se Elias foi o primeiro profeta de Gileade, como talvez tenha sido, e se os gileaditas eram chamados de fugitivos, seria isso motivo para duvidar de que ele era profeta?
- O encerramento apressado do conselho. Dissolveram a reunião em confusão e às pressas, e cada um voltou para sua própria casa. Haviam se reunido para conspirar contra o Senhor e seu Ungido, mas imaginaram uma coisa vã.
Não só aquele que se assenta nos céus riu deles: nós, que nos assentamos na terra, também podemos rir ao ver todo o cálculo daquele grupo secreto desfeito por uma única palavra simples e honesta.
Não quiseram ouvir Nicodemos porque não podiam responder-lhe. Ao perceber que havia entre eles alguém como ele, viram que não adiantava prosseguir com seu desígnio. Por isso, adiaram o debate para uma ocasião mais conveniente, quando ele estivesse ausente. Assim permanece firme o conselho do Senhor, apesar dos planos que os homens guardam no coração.