Matthew Henry

João 5

Argumento

Nos evangelhos, temos um relato fiel de “tudo quanto Jesus começou tanto a fazer quanto a ensinar” (Atos 1:1). Essas duas coisas estão entrelaçadas, porque o que ele ensinava explicava o que fazia, e o que fazia confirmava o que ensinava. Assim, temos neste capítulo um milagre e um sermão.

I. O milagre foi a cura de um homem inválido que sofria havia trinta e oito anos, acompanhada das circunstâncias dessa cura (vv. 1-16).

II. O sermão foi a defesa de Cristo perante o Sinédrio, quando foi processado como criminoso por curar o homem no sábado. Nele:

  1. Cristo afirma sua autoridade como Messias e Mediador entre Deus e os homens (vv. 17-29).

  2. Ele a comprova pelo testemunho de seu Pai, de João Batista, de seus milagres e das Escrituras do Antigo Testamento, e condena os judeus por sua incredulidade (vv. 30-47).

Versículos 1 a 16

A Cura no Tanque de Betesda.

Nenhum dos outros evangelistas registra essa cura milagrosa. Em geral, eles se limitam aos milagres realizados na Galileia, mas João relata os que aconteceram em Jerusalém. Observe a respeito desta cura:

I. Quando ela ocorreu: foi numa festa dos judeus, isto é, a Páscoa, pois era a festa mais celebrada. Embora residisse na Galileia, ainda assim Cristo subiu a Jerusalém para a festa (v. 1).

  1. Porque essa era uma ordenança de Deus que ele, como súdito, queria observar, já que nasceu sob a lei; como Filho, porém, poderia ter alegado isenção. Assim, quis ensinar-nos a participar das reuniões religiosas (Hebreus 10:25).

  2. Porque era uma oportunidade de fazer o bem:

(1.) Naquela ocasião, muita gente se reunia ali. Era um ponto de encontro geral, pelo menos das pessoas de pensamento sério de todas as partes do país, além dos prosélitos de outras nações. E a Sabedoria deve clamar nos lugares onde o povo se reúne (Provérbios 1:21).

(2.) Era de esperar que estivessem bem-dispostos, pois tinham vindo para adorar a Deus e dedicar-se a exercícios religiosos. A mente inclinada à devoção e dedicada às práticas de piedade está muito aberta a novas manifestações da luz e do amor divinos; para ela, Cristo será bem-vindo.

II. Onde ela ocorreu: no tanque de Betesda, cuja água tinha uma virtude curativa milagrosa. O lugar é descrito aqui em detalhes (vv. 2-4).

  1. Sua localização: em Jerusalém, junto ao mercado das ovelhas, epi te probatike. A expressão poderia igualmente significar o aprisco, onde as ovelhas eram guardadas, ou a porta das ovelhas, pela qual entravam, mencionada em Neemias 3:1, em vez do mercado onde eram vendidas.

Alguns pensam que ficava perto do templo. Se assim era, oferecia um espetáculo triste, mas proveitoso, aos que subiam ao templo para orar.

  1. Seu nome: era um tanque (uma lagoa ou piscina para banhos), chamado em hebraico Betesda, “casa de misericórdia”, pois ali se manifestava muito da misericórdia de Deus para com os enfermos e doentes.

Num mundo de tanta miséria como este, é bom haver algumas Betesdas, casas de misericórdia, com remédios para tantas doenças, para que o cenário não seja inteiramente triste. Segundo o dr. Hammond, o nome significa casa de caridade.

O dr. Lightfoot supõe que este era o tanque superior (Isaías 7:3) e o tanque antigo (Isaías 22:11). Teria sido usado para a lavagem de contaminações cerimoniais; para isso, construíram-se os pórticos, onde as pessoas podiam vestir-se e despir-se. Recentemente, porém, a água adquirira propriedades medicinais.

  1. Suas instalações: tinha cinco pórticos, claustros, galerias ou passagens cobertas, onde os enfermos ficavam deitados. Assim, a caridade dos homens se unia à misericórdia de Deus para aliviar os aflitos. A natureza oferece remédios, mas os homens precisam oferecer hospitais.

  2. Como era frequentado por enfermos e pessoas com deficiência (v. 3): “Nestes jazia grande multidão de inválidos.” Quantas aflições sofrem os aflitos neste mundo! Como todos os lugares estão cheios de queixas, e quantos inválidos há!

Visitar hospitais de vez em quando pode nos fazer bem, para que, diante das desgraças alheias, aproveitemos a ocasião para agradecer a Deus pelo conforto que temos.

O evangelista especifica três tipos de enfermos que jaziam ali: cegos, coxos e atrofiados, ou com os tendões encolhidos, fosse numa parte específica do corpo, como o homem da mão atrofiada, fosse no corpo todo, como os paralíticos.

Esses são mencionados porque, sendo os menos capazes de entrar na água por si mesmos, eram os que esperavam por mais tempo nos pórticos.

Os que sofriam dessas doenças do corpo se davam ao trabalho de vir de longe e tinham paciência para esperar muito tempo pela cura. Qualquer um de nós teria feito o mesmo, e deveríamos fazê-lo. Ah, se as pessoas fossem tão sábias quanto à própria alma e tão ansiosas por obter a cura de suas doenças espirituais!

Por natureza, somos todos inválidos nas coisas espirituais: cegos, coxos e atrofiados. Contudo, foi feita provisão eficaz para nossa cura, se apenas seguirmos as instruções.

  1. A virtude que a água possuía para curar esses inválidos (v. 4): “Um anjo descia e agitava a água; e quem primeiro entrasse ficava curado.”

Não há fundamento algum para dizer que essa estranha virtude do tanque fosse natural, ou melhor, artificial, produzida pela lavagem dos sacrifícios, que teria impregnado a água de não sei que poder curativo, eficaz até para os cegos.

Tampouco há fundamento para dizer que o anjo fosse um mensageiro, uma pessoa comum enviada para agitar a água. Havia no templo uma sala destinada especificamente à lavagem dos sacrifícios. Os comentaristas geralmente concordam que a virtude desse tanque era sobrenatural.

É verdade que os escritores judeus, embora não poupem elogios a Jerusalém, não fazem a menor menção a esse tanque de cura. Talvez o motivo do silêncio seja que ele era visto como um sinal da proximidade da vinda do Messias.

Por isso, os que negavam que ele já tivesse vindo esconderam deliberadamente essa indicação de sua vinda. Assim, este é todo o relato que temos a respeito do tanque. Observe:

(1.) A preparação do remédio por um anjo, que descia ao tanque e agitava a água. Os anjos são servos de Deus e amigos da humanidade. Talvez atuem na remoção das doenças, assim como os anjos maus as causam, mais do que percebemos.

Rafael, nome de um anjo nos livros apócrifos, significa medicina Dei: remédio de Deus, ou melhor, médico de Deus. Veja a que tarefas humildes os santos anjos se dispõem em favor das pessoas. Se queremos fazer a vontade de Deus como os anjos a fazem, devemos considerar indigno de nós somente o pecado.

A agitação da água era o sinal da descida do anjo, assim como para Davi foi o som do movimento nas copas das amoreiras; então, os enfermos precisavam agir depressa. As águas do santuário curam quando são postas em movimento.

Os ministros precisam avivar o dom que há neles. Quando estão frios e sem vigor no exercício do ministério, as águas ficam paradas e não são propícias à cura.

O anjo descia para agitar a água, não todos os dias e talvez nem com frequência, mas em certas ocasiões. Alguns pensam que isso acontecia nas três festas solenes, para honrá-las; ou, de tempos em tempos, conforme parecesse adequado à Sabedoria Infinita. Deus é livre na distribuição de seus favores.

(2.) O funcionamento do remédio: “Quem primeiro entrasse ficava curado.” Temos aqui:

[1.] A extensão milagrosa de sua virtude quanto às doenças curadas: fosse qual fosse a doença, essa água a curava. Os banhos naturais e os preparados artificialmente podem ser tão nocivos em certos casos quanto úteis em outros. Esse, porém, era remédio para todo mal, até para os males causados por fatores opostos.

O poder dos milagres triunfa onde o poder da natureza fracassa.

[2.] Uma limitação milagrosa de sua virtude quanto às pessoas curadas: quem primeiro entrasse recebia o benefício. Isto é, quem entrasse imediatamente, fosse uma ou várias pessoas, era curado, mas não os que demorassem e entrassem depois.

Isso nos ensina a reconhecer e aproveitar as oportunidades e a estar atentos para não deixar escapar uma ocasião que talvez nunca volte. O anjo agitava as águas, mas cabia aos enfermos entrar nelas.

Deus pôs virtude nas Escrituras e nas ordenanças, pois queria curar-nos. Se, porém, não tiramos delas o devido proveito, a culpa é nossa: não quisemos ser curados.

Esse é todo o relato que temos desse milagre contínuo; não se sabe ao certo quando começou nem quando cessou. Alguns supõem que tenha começado quando o sumo sacerdote Eliasibe iniciou a construção do muro ao redor de Jerusalém e o consagrou com oração; e que Deus demonstrou sua aprovação ao conferir essa virtude ao tanque próximo.

Alguns pensam que tenha começado mais recentemente, no nascimento de Cristo; ou melhor, outros, em seu batismo. O dr. Lightfoot encontrou em Josefo, Antiq., 15.121-122, a menção de um grande terremoto no sétimo ano de Herodes, trinta anos antes do nascimento de Cristo.

Como costumava haver terremotos quando os anjos desciam, Lightfoot supôs que foi então que o anjo desceu pela primeira vez para agitar a água. Alguns pensam que o fenômeno cessou com este milagre; outros, com a morte de Cristo. Seja como for, é certo que tinha um significado gracioso.

Primeiro, era um sinal da boa vontade de Deus para com aquele povo e indicava que, embora estivessem há muito tempo sem profetas e milagres, ainda assim Deus não os havia rejeitado.

Embora agora fossem um povo oprimido e desprezado, e muitos estivessem prontos a perguntar: “Onde estão todas as maravilhas de que nossos pais nos falaram?”, Deus lhes mostrava que ainda tinha apreço pela cidade de suas solenidades.

Isso nos dá ocasião de reconhecer com gratidão o poder e a bondade de Deus nas águas minerais, que tanto contribuem para a saúde da humanidade; pois foi Deus quem fez as fontes de água (Apocalipse 14:7).

Segundo, era uma figura do Messias, a fonte aberta, e tinha o propósito de despertar no povo a expectativa daquele que é o Sol da justiça, que se levanta trazendo cura sob suas asas. Antes usadas para purificação, essas águas agora serviam para curar, representando tanto a virtude de limpar quanto a de curar do sangue de Cristo, aquele banho incomparável que cura todas as nossas enfermidades.

As águas de Siloé, que enchiam esse tanque, representavam o reino de Davi e de Cristo, o Filho de Davi (Isaías 8:6); era, portanto, apropriado que agora recebessem essa virtude soberana. A lavagem da regeneração é para nós como o tanque de Betesda: cura nossas enfermidades espirituais, não em certas ocasiões, mas em todo tempo. Quem quiser, venha.

III. O enfermo em quem se realizou essa cura (v. 5): “Um homem que estava debilitado havia trinta e oito anos.” 1. Sua doença era grave: ele sofria de uma enfermidade, uma fraqueza; havia perdido o uso dos membros, ao menos de um lado do corpo, como costuma acontecer nos casos de paralisia.

É triste ter o corpo tão incapacitado que, em vez de servir de instrumento para a alma, se torna um peso para ela até nos afazeres desta vida. Quantos motivos temos para agradecer a Deus pela força física, empregá-la a seu serviço e ter compaixão dos que são prisioneiros dele!

  1. Sua duração era penosa: trinta e oito anos. Estava paralítico havia mais tempo do que dura a vida da maioria das pessoas. Muitos passam tanto tempo incapacitados para as atividades da vida que, como se queixa o salmista, parecem ter sido criados em vão: para sofrer, não para servir; nascidos para estar sempre morrendo.

Vamos nos queixar de uma única noite cansativa ou de um episódio de doença, nós que talvez, durante muitos anos, mal tenhamos conhecido o que é passar um dia doentes, quando tantos outros, melhores do que nós, mal conheceram o que é passar um dia com saúde?

A observação do sr. Baxter sobre essa passagem é muito comovente: “Que grande misericórdia foi viver trinta e oito anos sob a disciplina salutar de Deus! Ó meu Deus”, diz ele, “eu te agradeço por disciplina semelhante durante cinquenta e oito anos. Que vida segura é essa, em comparação com a plena prosperidade e o prazer!”

IV. A cura e suas circunstâncias são relatadas brevemente (vv. 6-9):

  1. Jesus o viu deitado. Observe: quando Cristo subiu a Jerusalém, não visitou os palácios, mas os hospitais. Isso mostra sua humildade, condescendência e terna compaixão, e indica o grande desígnio de sua vinda ao mundo: buscar e salvar os enfermos e feridos.

Havia em Betesda uma grande multidão de pobres inválidos, mas Cristo fixou os olhos naquele homem e o escolheu dentre os demais, porque era o mais antigo da casa e se encontrava em condição mais lamentável do que todos os outros. Cristo se agrada de ajudar os desamparados e tem misericórdia de quem quer ter misericórdia.

Talvez seus companheiros de aflição o insultassem porque tantas vezes sua esperança de cura fora frustrada; por isso Cristo o escolheu como paciente. É uma honra para ele tomar o partido dos mais fracos e amparar aqueles que vê sendo humilhados.

  1. Jesus sabia e levava em conta havia quanto tempo o homem se encontrava naquela condição. Os que sofrem há muito tempo podem consolar-se com isto: Deus registra a duração de sua aflição e conhece nossa constituição.

  2. Jesus lhe perguntou: “Queres ficar são?” Uma pergunta estranha para alguém que estava enfermo havia tanto tempo. Alguns, de fato, não querem ser curados porque suas feridas lhes servem para mendigar e como desculpa para a ociosidade. Mas esse pobre homem era tão incapaz de mendigar quanto de trabalhar. Ainda assim, Cristo lhe fez a pergunta:

(1.) Para expressar sua própria compaixão e preocupação por ele. Cristo pergunta com ternura pelos desejos dos que sofrem e quer conhecer seu pedido: “Que farei por vocês?”

(2.) Para pô-lo à prova: aceitaria dever sua cura àquele contra quem os poderosos tinham tanto preconceito e procuravam incutir preconceito nos demais?

(3.) Para ensiná-lo a valorizar a misericórdia e despertar nele o desejo de recebê-la. Nas questões espirituais, as pessoas não querem ser curadas de seus pecados; relutam em abandoná-los. Se esse ponto fosse alcançado, se quisessem ficar sãs, metade do trabalho estaria feita, pois Cristo está disposto a curar, contanto que estejamos dispostos a ser curados (Mateus 8:3).

  1. O pobre inválido aproveita a ocasião para repetir sua queixa e expor a miséria de sua condição, o que torna a cura ainda mais notável: “Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque” (v. 7).

Parece entender a pergunta de Cristo como censura à sua falta de cuidado e iniciativa: “Se quisesse ser curado, teria aproveitado melhor suas oportunidades e entrado nas águas que curam muito antes de agora.” “Não, Mestre”, diz o pobre homem, “não é por falta de vontade, mas de um bom amigo, que continuo sem cura. Fiz o que podia para me ajudar, mas em vão, pois ninguém mais quer me ajudar.”

(1.) Não pensa em outro meio de ser curado senão por aquelas águas e não deseja outro favor além da ajuda para entrar nelas. Portanto, quando Cristo o curou, sua imaginação ou expectativa não poderia ter contribuído para a cura, pois nem sequer pensara em tal possibilidade.

(2.) Queixa-se por não ter amigos que o ajudem a entrar: “Não tenho ninguém, amigo algum que me faça essa bondade.” Poderíamos pensar que alguns dos que haviam sido curados estenderiam a mão a ele; mas é comum os pobres não terem amigos. Ninguém se importa com sua alma.

Para os enfermos e inválidos, trabalhar em seu favor é uma forma de caridade tão verdadeira quanto lhes dar ajuda. Assim, os pobres podem e devem mostrar caridade uns aos outros, embora raramente vejamos isso acontecer; digo-o para vergonha deles.

(3.) Lamenta seu infortúnio: muitas vezes, quando estava a caminho da água, outro entrava antes dele. Faltava-lhe apenas um passo para a cura e, contudo, permanecia inválido. Ninguém teve a bondade de dizer: “Seu caso é pior que o meu. Entre agora, e eu esperarei pela próxima vez”; pois ninguém consegue vencer a velha máxima: cada um por si.

Depois de tantas decepções, começa a perder a esperança. É então que chega a hora de Cristo socorrê-lo; ele tem prazer em ajudar nos casos desesperados. Observe como esse homem fala com brandura da falta de bondade dos que o cercam, sem comentários irritados.

Assim como devemos ser gratos pela menor bondade, assim devemos ter paciência diante do maior desprezo. Por mais justa que seja nossa indignação, nossas palavras devem permanecer calmas.

Observe ainda, para seu louvor, que, embora houvesse esperado tanto tempo em vão, ainda assim continuava deitado junto ao tanque, na esperança de que, um dia, chegasse ajuda (Habacuque 2:3).

  1. Nosso Senhor Jesus o cura então por uma palavra, embora o homem não tivesse pedido isso nem pensado nessa possibilidade. Temos aqui:

(1.) A palavra que lhe disse: “Levanta-te, toma tua cama” (v. 8). [1.] Ordena-lhe que se levante e ande. Uma ordem estranha para um inválido que havia tanto tempo não conseguia fazê-lo; mas essa palavra divina seria o veículo do poder divino.

Era uma ordem para a doença partir e para o corpo ganhar forças, mas foi expressa como ordem ao homem para que se pusesse em movimento. Deveria levantar-se e andar, isto é, tentar fazê-lo; ao tentar, receberia força para isso.

A conversão do pecador é a cura de uma doença crônica. Em geral, acontece por meio da palavra, uma palavra de ordem: “Levanta-te e anda; volta-te e vive; façam para vocês um coração novo.” Isso não pressupõe que tenhamos força para obedecer sem a graça de Deus, a graça que nos distingue, assim como a ordem ao inválido não pressupunha que ele a tivesse.

Se, porém, o homem não tivesse tentado se ajudar, não teria sido curado e seria culpado por isso. Ainda assim, não se segue que, ao levantar-se e andar, ele o tenha feito por sua própria força. Não: foi pelo poder de Cristo, a quem se deve toda a glória.

Observe que Cristo não lhe mandou levantar-se e entrar na água, mas levantar-se e andar. Cristo fez por nós o que a lei não podia fazer e a deixou de lado.

[2.] Ordena-lhe que pegue a cama. Primeiro, para deixar claro que a cura era perfeita e inteiramente milagrosa. Ele não recuperou as forças aos poucos: saiu repentinamente do extremo da fraqueza e da invalidez para o grau mais alto de vigor físico.

Podia carregar um peso tão grande quanto o de qualquer carregador acostumado ao ofício havia tanto tempo quanto ele passara sem poder exercê-lo. Num minuto, era incapaz de virar-se na cama; no seguinte, podia carregá-la.

Ao paralítico (Mateus 9:6), foi dito que fosse para casa; mas provavelmente esse homem não tinha casa para onde ir: o hospital era seu lar. Por isso, recebeu a ordem de levantar-se e andar.

Segundo, para anunciar a cura e torná-la pública. Como era sábado, quem carregasse um fardo pelas ruas chamaria muito a atenção, e todos perguntariam o que aquilo significava. Assim, a notícia do milagre se espalharia, para a glória de Deus.

Terceiro, Cristo queria desse modo dar testemunho contra a tradição dos anciãos, que havia estendido a lei do sábado além de sua intenção. Também queria mostrar que era Senhor do sábado, com poder para fazer nele as alterações que quisesse e sobrepor-se à lei.

Josué e o exército de Israel marcharam ao redor de Jericó no sábado, quando Deus lhes deu essa ordem. Assim também esse homem carregou a cama em obediência a uma ordem. Pode haver situações em que carregar uma cama no sábado se torne obra de necessidade ou misericórdia; aqui, porém, era mais do que isso: uma obra de piedade, destinada unicamente à glória de Deus.

Quarto, queria assim provar a fé e a obediência daquele a quem curara. Ao carregar a cama em público, o homem se expunha à censura do tribunal religioso e corria o risco, pelo menos, de ser açoitado na sinagoga. Estaria disposto a correr esse risco em obediência a Cristo? Sim. Quem foi curado pela palavra de Cristo deve ser governado por essa palavra, custe o que custar.

(2.) A eficácia da palavra (v. 9). O poder divino a acompanhou, e o homem foi imediatamente curado, pegou a cama e andou.

[1.] Sentiu o poder curador da palavra de Cristo: “Imediatamente ficou são.” Que surpresa alegre para aquele pobre inválido descobrir-se de repente livre do sofrimento, forte e capaz de ajudar a si mesmo! Em um instante, viu-se num mundo novo. Nada é difícil demais para Cristo.

[2.] Obedeceu ao poder da palavra de Cristo, que lhe dera a ordem. Pegou a cama e andou, sem se importar com quem o censurasse ou ameaçasse por isso. A prova de nossa cura espiritual é levantar-nos e andar.

Cristo curou nossas doenças espirituais? Então vamos aonde ele nos enviar, carreguemos tudo o que decidir pôr sobre nós e andemos diante dele.

V. O que aconteceu ao pobre homem depois de curado. Aqui nos é contado:

  1. O que se passou entre ele e os judeus que o viram carregar a cama no sábado, pois nesse dia ocorreu a cura. Era o sábado da semana da Páscoa e, portanto, um dia importante (João 19:31).

A obra de Cristo era tal que ele não precisava fazer diferença entre sábados e outros dias, pois sempre tratava dos assuntos de seu Pai. No entanto, realizou muitas curas notáveis nesse dia, talvez para animar sua igreja a esperar dele, na observância do sábado cristão, os benefícios espirituais figurados por suas curas milagrosas. Agora, aqui:

(1.) Os judeus tiveram uma desavença com o homem por carregar a cama no sábado, dizendo-lhe que aquilo não era permitido (v. 10). Não está claro se eram magistrados, com poder para puni-lo, ou pessoas comuns, que só podiam denunciá-lo.

Até aí, porém, havia algo digno de louvor: como não sabiam por ordem de quem ele agia, zelavam pela honra do sábado e não podiam ver com indiferença que ele fosse profanado, como Neemias (Neemias 13:17).

(2.) O homem justificou o que fizera com uma autorização que o defenderia (v. 11): “Não faço isso por desprezo à lei nem ao sábado, mas em obediência àquele que, ao me curar, deu-me prova irrefutável de que é maior do que ambos.”

“Quem pôde realizar o milagre de me curar certamente podia me dar a ordem de carregar a cama. Quem pôde prevalecer sobre as forças da natureza certamente podia prevalecer sobre uma lei instituída, sobretudo num caso que não diz respeito à essência dessa lei. Quem foi tão bondoso ao me curar não seria capaz de mandar que eu pecasse.”

Ao curar outro paralítico, Cristo provou que tinha poder para perdoar pecados; aqui, prova que tem poder para dar leis. Se seus perdões são válidos, seus decretos também o são; seus milagres comprovam ambas as coisas.

(3.) Os judeus perguntaram ainda quem lhe dera aquela autorização (v. 12): “Quem é esse homem?” Observe como evitavam cuidadosamente aquilo que poderia servir de fundamento para sua fé em Cristo. Não perguntaram, nem sequer por curiosidade: “Quem foi que te curou?”

Em vez disso, agarraram-se cuidadosamente ao que poderia servir de motivo para acusar Cristo: “Quem foi que te disse: Toma tua cama?” Queriam intimar o paciente a testemunhar contra seu médico e a traí-lo. Na pergunta deles, observe:

[1.] Decidiram considerar Cristo um simples homem: “Quem é esse homem?” Embora ele tivesse apresentado provas muitíssimo convincentes do contrário, estavam decididos a jamais reconhecê-lo como o Filho de Deus.

[2.] Decidiram considerá-lo um homem mau. Tomavam por certo que aquele que mandara o homem carregar a cama, fosse qual fosse a autorização divina que pudesse apresentar, era culpado e, como tal, resolveram processá-lo. “Quem é esse homem que ousou dar tais ordens?”

(4.) O pobre homem não soube dar-lhes informação alguma sobre ele: “Não sabia quem ele era” (v. 13).

[1.] Cristo lhe era desconhecido quando o curou. Provavelmente ouvira falar do nome de Jesus, mas nunca o vira e, por isso, não sabia dizer que era ele. Repare: Cristo faz muitos favores àqueles que não o conhecem (Isaías 45:4, 5).

Ele nos ilumina, fortalece, vivifica e consola, e não sabemos quem ele é, nem percebemos quanto recebemos diariamente por sua mediação. Esse homem, por não conhecer Cristo, não podia propriamente crer nele para ser curado; Cristo, porém, conhecia a disposição de sua alma e adequou a ela seus favores, como fez com o cego em caso semelhante (João 9:36).

Nossa aliança e comunhão com Deus não começam tanto por nosso conhecimento dele quanto pelo conhecimento que ele tem de nós. Conhecemos a Deus ou, antes, somos conhecidos por ele (Gálatas 4:9).

[2.] Por enquanto, ele próprio se manteve desconhecido. Logo depois de realizar a cura, afastou-se sem ser notado; tornou-se desconhecido, como alguns leem o texto, pois havia ali uma multidão.

Isso é mencionado para mostrar ou, primeiro, como Cristo se afastou: misturando-se à multidão, sem ser distinguido de uma pessoa comum. Aquele que era o principal entre dez mil frequentemente se fazia apenas mais um entre muitos. Às vezes, esse é o destino de quem se destacou pelo serviço: ser confundido com a multidão e passar despercebido.

Ou, em segundo lugar, por que se afastou: porque havia ali uma multidão e ele evitava cuidadosamente tanto os aplausos dos que admirariam o milagre e o exaltariam quanto as críticas dos que o acusariam de violar o sábado e tentariam desacreditá-lo.

Os que são ativos para Deus em sua geração devem esperar passar por má e boa fama. É prudente, na medida do possível, manter-se fora do alcance de ambas, para não ser exaltado em excesso por uma nem abatido em excesso pela outra. Cristo deixou que o milagre falasse por si e que o homem em quem fora realizado o defendesse.

  1. O que se passou entre ele e nosso Senhor Jesus no encontro seguinte (v. 14). Observe aqui:

(1.) Onde Cristo o encontrou: no templo, lugar de culto público. Ao participar do culto público, podemos esperar encontrar Cristo e aprofundar nosso conhecimento dele. Observe:

[1.] Cristo foi ao templo. Embora tivesse muitos inimigos, ainda assim apareceu em público, pois ali testemunhava em favor das instituições divinas e tinha oportunidade de fazer o bem.

[2.] O homem curado foi ao templo. Parece que Cristo o encontrou ali no mesmo dia da cura. Foi diretamente para lá, primeiro, porque a enfermidade o havia impedido de ir durante muito tempo. Talvez não fosse ao templo havia trinta e oito anos.

Assim, logo que esse impedimento foi removido, decidiu que sua primeira visita seria ao templo, como Ezequias indica que faria (Isaías 38:22): “Qual será o sinal de que subirei à casa do Senhor?”

Segundo, porque a recuperação lhe dera uma boa razão para ir: subiu ao templo a fim de agradecer a Deus pela cura. Sempre que Deus nos restitui a saúde, devemos apresentar-lhe louvores solenes (Salmos 116:18, 19); quanto antes, melhor, enquanto a memória da misericórdia recebida ainda está viva.

Terceiro, porque carregar a cama poderia parecer desprezo ao sábado, e ele queria mostrar que honrava esse dia e zelava por santificá-lo naquilo em que recai sua maior importância: o culto público a Deus. Obras de necessidade e misericórdia são consentidas; mas, depois delas, devemos ir ao templo.

(2.) O que Cristo lhe disse. Ao nos curar, Cristo não encerra seu trabalho conosco; agora passa a tratar da cura da alma daquele homem, também por meio da palavra.

[1.] Recorda-lhe a cura: “Eis que estás curado.” O homem sabia que estava curado, mas Cristo chama sua atenção para isso. “Eis”: considere com seriedade quão repentina, extraordinária, gratuita e fácil foi a cura; admire-a. Veja e maravilhe-se. Lembre-se dela; que sua impressão permaneça e nunca se perca (Isaías 38:9).

[2.] À luz da cura, adverte-o contra o pecado: estando curado, “não peques mais”. Isso indica que a doença era punição pelo pecado. Não sabemos se por algum pecado especialmente grave ou apenas pelo pecado em geral, mas sabemos que o pecado causa a doença (Salmos 107:17, 18).

Alguns observam que Cristo não mencionou o pecado a nenhum de seus enfermos, exceto a esse inválido e a outro acometido de doença semelhante (Marcos 2:5). Enquanto duravam, aquelas doenças crônicas impediam a prática exterior de muitos pecados. Por isso, uma vez removida a incapacidade, era ainda mais necessário vigiar.

Cristo indica que os curados, libertos da punição presente e palpável do pecado, correm o risco de voltar a pecar quando acabam o temor e a restrição, a menos que a graça divina seque a fonte do pecado.

Quando passa a aflição que apenas represava a corrente, as águas voltam ao curso antigo. Por isso, é tão necessário vigiar, para que, depois de receber a misericórdia da cura, não voltemos à insensatez.

A miséria da qual fomos curados nos avisa a não pecar mais, pois sentimos a dor do pecado. A misericórdia pela qual fomos curados nos obriga a não ofender aquele que nos curou. Esta é a voz de toda providência: “Vai e não peques mais.”

Esse homem começou sua vida nova de maneira muito promissora, no templo, mas Cristo viu que era necessário adverti-lo. É comum as pessoas prometerem muito quando estão enfermas, cumprirem alguma coisa logo após se recuperar e, passado algum tempo, esquecerem tudo.

[3.] Cristo o avisa do perigo que corre se voltar à antiga vida de pecado: “Para que não te suceda coisa pior.” Cristo, que conhece o coração de todos, sabia que aquele homem era dos que precisavam ser afastados do pecado pelo temor.

Trinta e oito anos de incapacidade de andar já parecem bastante ruins. Contudo, algo pior lhe acontecerá se voltar a pecar depois de Deus lhe conceder tamanho livramento (Esdras 9:13, 14). O hospital onde jazia era um lugar triste, mas o inferno é muito mais. A condenação dos apóstatas é pior do que trinta e oito anos de incapacidade de andar.

VI. Depois desse encontro entre Cristo e o homem que curou, observe nos dois versículos seguintes:

  1. A notícia que o pobre homem simples deu aos judeus a respeito de Cristo (v. 15): contou-lhes que fora Jesus quem o curara. Temos motivos para pensar que sua intenção era honrar Cristo e beneficiar os judeus. Mal imaginava que alguém de tanto poder e bondade pudesse ter inimigos.

Entretanto, os que desejam o bem do reino de Cristo precisam ter a prudência da serpente, para que seu zelo não cause mais dano que benefício, e não devem lançar pérolas aos porcos.

  1. A fúria e a inimizade dos judeus contra Cristo: Por isso os governantes dos judeus perseguiam Jesus. Veja:

(1.) Como era absurda e irrazoável sua inimizade para com Cristo. “Por isso”: porque ele curara um pobre enfermo, aliviando assim o encargo do poder público, que provavelmente o mantinha; por isso o perseguiram, porque fez o bem em Israel.

(2.) Como era sangrenta e cruel: “Procuravam matá-lo.” Nada menos do que seu sangue, sua vida, os satisfaria.

(3.) Como a revestiam com um verniz de zelo pela honra do sábado. O crime alegado era este: “Porque ele fizera essas coisas no sábado”, como se tal circunstância bastasse para invalidar as melhores e mais divinas ações e tornar condenável aquele cujos feitos, em tudo o mais, mereciam o maior louvor.

Assim, os hipócritas muitas vezes encobrem sua verdadeira inimizade contra o poder da piedade com um zelo alegado pela forma dela.

O Discurso de Cristo com os Judeus; Todo o Julgamento Confiado a Cristo; A Carta de Direitos dos Cristãos.

Versículos 17 a 30

Temos aqui o discurso de Cristo por ocasião da acusação de que violara o sábado. Parece ser sua defesa perante o Sinédrio, quando foi formalmente acusado perante eles. Não sabemos se isso ocorreu no mesmo dia ou dois ou três dias depois; provavelmente, no mesmo dia. Observe:

I. A doutrina que ele apresentou para justificar o que fizera no sábado (v. 17): “Ele lhes respondeu.” Isso pressupõe que alguma acusação lhe fora feita. Ou então ele sabia o que diziam uns aos outros quando procuravam matá-lo (v. 16) e lhes deu esta resposta: “Meu Pai trabalha até agora, e eu também trabalho.”

Em outras ocasiões, ao responder a acusação semelhante, citara o exemplo de Davi ao comer os pães da proposição, dos sacerdotes ao matar os animais para o sacrifício e do povo ao dar água ao gado no sábado. Aqui, porém, vai mais longe e invoca o exemplo de seu Pai e sua própria autoridade divina.

Deixando de lado todas as outras alegações, insiste naquele que era instar omnium, equivalente a todos os demais, e se mantém firme nele. Já o havia mencionado em Mateus 12:8: “O Filho do Homem é Senhor até do sábado”; agora o desenvolve.

  1. Ele alega ser o Filho de Deus, como deixa claro ao chamar Deus de seu Pai. Nesse caso, sua santidade é inquestionável e sua soberania, incontestável; ele podia fazer na lei divina as alterações que lhe aprouvessem. Certamente respeitarão o Filho, herdeiro de todas as coisas.

  2. Ele afirma trabalhar juntamente com Deus. (1.) “Meu Pai trabalha até agora.” No quarto mandamento, o descanso de Deus de toda a sua obra no sétimo dia é apresentado como fundamento para o observarmos como sábado, dia de descanso.

Deus, porém, descansou apenas da obra que fizera nos seis dias anteriores. Em outros aspectos, trabalha até agora: age todos os dias, nos sábados e nos dias da semana, sustentando e governando todas as criaturas e cooperando, por sua providência comum, em todos os movimentos e processos da natureza, para sua própria glória.

Portanto, embora nos seja ordenado descansar no sábado, não somos proibidos de fazer aquilo que tende diretamente para a glória de Deus, como acontecia quando o homem carregava sua cama.

(2.) “Eu trabalho.” Isso significa não apenas que ele pode, à semelhança do Pai, fazer o bem no sábado como nos demais dias, mas também que trabalha com o Pai. Assim como Deus criou todas as coisas por meio de Cristo, também por meio dele sustenta e governa tudo (Hebreus 1:3).

Isso põe o que Cristo faz acima de qualquer contestação. Aquele que realiza obra tão grandiosa deve necessariamente governar sem que ninguém possa detê-lo. Aquele que faz tudo é Senhor de tudo e, portanto, Senhor do sábado.

Cristo queria agora afirmar esse aspecto particular de sua autoridade porque, em breve, o demonstraria ainda mais ao mudar o dia de descanso do sétimo para o primeiro dia da semana.

II. A ofensa que sua doutrina lhes causou (v. 18): “Os judeus procuravam ainda mais matá-lo.” Sua defesa foi tomada como motivo de acusação, como se, ao justificar-se, tivesse agravado sua situação.

Repare: os que não se deixam iluminar pela palavra de Cristo se enfurecem e se exasperam por causa dela. Nada irrita mais os inimigos de Cristo do que ele afirmar sua autoridade; veja Salmos 2:3-5. Procuravam matá-lo:

  1. Porque, segundo eles, havia violado o sábado. Não importava o que dissesse em sua defesa: estavam decididos a considerá-lo culpado dessa violação, com ou sem razão. Quando a malícia e a inveja ocupam o assento do juiz, a razão e a justiça podem calar-se no tribunal, pois tudo o que disserem será rejeitado.

  2. Além disso, ele também dissera que Deus era seu Pai. Agora alegavam zelo pela honra de Deus, como antes pelo sábado, e acusavam Cristo de um crime grave: fazer-se igual a Deus. E teria sido um crime grave se ele não o fosse realmente. Esse foi o pecado de Lúcifer: “Serei semelhante ao Altíssimo.”

(1.) Essa conclusão foi corretamente tirada do que ele dissera: que era o Filho de Deus e que Deus era seu Pai, patera idion, seu próprio Pai, de uma maneira em que não era Pai de mais ninguém. Cristo dissera que trabalhava com seu Pai, com a mesma autoridade e o mesmo poder, e assim se fazia igual a Deus.

Ecce intelligunt Judæi, quod non intelligunt Ariani: “Eis que os judeus entendem o que os arianos não entendem.”

(2.) Contudo, foi injusto imputar-lhe como ofensa o fato de se igualar a Deus, pois ele era e é Deus, igual ao Pai (Filipenses 2:6). Por isso, ao responder à acusação, Cristo não contesta a inferência como exagerada ou forçada; antes, sustenta sua reivindicação e prova que é igual a Deus em poder e glória.

III. O discurso de Cristo nessa ocasião, que prossegue sem interrupção até o fim do capítulo. Nesses versículos, ele explica e, depois, confirma sua missão como Mediador e plenipotenciário no tratado entre Deus e os homens.

As honras a que essa missão lhe dá direito não convêm a nenhuma criatura. Da mesma forma, nenhuma criatura seria capaz de realizar a obra que lhe foi confiada. Portanto, ele é Deus, igual ao Pai.

  1. De modo geral, ele é um com o Pai em tudo o que faz como Mediador, e havia entre ambos perfeito entendimento em toda essa questão. O assunto é introduzido por um prefácio solene (v. 19): “Em verdade, em verdade vos digo.” Eu, o Amém, o Amém, o digo.

Isso mostra que as coisas declaradas são (1.) muito solenes e grandiosas, exigindo a mais séria atenção; (2.) absolutamente certas, exigindo assentimento sincero; (3.) assuntos de revelação puramente divina, que Cristo nos contou e dos quais não poderíamos ter tomado conhecimento por outro meio.

Ele afirma duas coisas, em termos gerais, acerca da união do Filho com o Pai na obra que realizam:

[1.] Que o Filho se conforma ao Pai (v. 19): “O Filho nada pode fazer de si mesmo, senão o que vê o Pai fazer”; pois o Filho faz essas coisas. O Senhor Jesus, como Mediador, é:

Primeiro, obediente à vontade do Pai. Sua obediência é tão completa que nada pode fazer por conta própria, no mesmo sentido em que se diz que Deus não pode mentir nem negar a si mesmo. Isso exprime a perfeição de sua verdade, não alguma deficiência de seu poder.

Da mesma forma, Cristo era tão inteiramente dedicado à vontade do Pai que lhe era impossível agir separadamente dele em qualquer coisa.

Em segundo lugar, ele atenta para o conselho do Pai: não pode nem fará nada além do que vê o Pai fazer. Ninguém pode sondar a obra de Deus, mas o Filho unigênito, que repousava no seio do Pai, vê o que ele faz, conhece intimamente seus propósitos e tem sempre diante de si o plano deles.

Tudo o que Cristo fez como Mediador, ao longo de toda a sua obra, foi uma transcrição ou reprodução exata do que o Pai fez, isto é, daquilo que ele projetou quando formou o plano da nossa redenção em seus conselhos eternos e estabeleceu para todas as coisas medidas que jamais poderiam ser violadas nem precisariam ser alteradas.

A obra de Cristo era a cópia daquele grande original. Sua fidelidade, como a de Moisés, consistiu em fazer tudo segundo o modelo que lhe fora mostrado no monte.

Isso é expresso no presente, “o que vê o Pai fazer”, pela mesma razão por que, quando estava aqui na terra, foi dito: “Está no céu” (João 3:13) e “está no seio do Pai” (João 1:18). Assim como, por sua natureza divina, ele já estava presente no céu, também as coisas feitas no céu estavam presentes ao seu conhecimento.

O que o Pai fazia em seus conselhos, o Filho tinha sempre diante dos olhos e continuava a contemplar. Assim Davi, falando dele pelo Espírito, disse: “Tenho posto o Senhor sempre diante de mim” (Salmos 16:8).

Em terceiro lugar, contudo, ele é igual ao Pai em sua atuação, pois “tudo quanto o Pai faz, o Filho também o faz igualmente”. Faz as mesmas coisas, não apenas coisas semelhantes: tauta, as mesmas coisas. Também as faz da mesma maneira: homoios, igualmente, com a mesma autoridade, liberdade e sabedoria, a mesma energia e eficácia.

O Pai promulga, revoga e altera leis positivas? Sobrepõe-se ao curso da natureza e conhece o coração dos homens? O Filho também. O poder do Mediador é um poder divino.

[2.] Que o Pai comunica ao Filho (v. 20). Observe:

Primeiro, o motivo dessa comunicação: “O Pai ama o Filho.” Ele declarou: “Este é meu Filho amado.” Não apenas aprovava a obra empreendida, mas tinha infinita satisfação naquele que a empreendeu. Cristo era então odiado pelos homens, “a quem a nação abomina” (Isaías 49:7), mas se consolava com o amor de seu Pai.

Em segundo lugar, os exemplos dessa comunicação. Ele a demonstra:

  1. Naquilo que comunica ao Filho: “Mostra-lhe todas as coisas que ele mesmo faz.” As diretrizes do Pai ao criar e governar o mundo são mostradas ao Filho, para que este siga as mesmas diretrizes ao formar e governar a igreja. Essa obra seria uma réplica da criação e da providência e, por isso, é chamada de mundo vindouro.

Ele lhe mostra todas as coisas, ha autos poiei, “que ele mesmo faz”, isto é, que o Filho faz, conforme também se pode interpretar. Tudo o que o Filho faz segue a orientação do Pai, que lhe mostra essas coisas.

  1. Naquilo que ainda comunicará: ele lhe mostrará, isto é, o designará e orientará para fazer obras maiores que essas.

(1.) Obras de poder maior que a cura do inválido, pois o Filho ressuscitaria os mortos e ele próprio ressuscitaria dentre os mortos. Pelo poder da natureza, com o emprego de meios, talvez uma doença possa ser curada com o tempo. A natureza, porém, nunca pode ressuscitar os mortos, por meio algum e em tempo algum.

(2.) Obras de autoridade maior que autorizar o homem a carregar a cama no sábado. Eles consideravam isso uma tentativa ousada. Mas que era isso diante da abolição de toda a lei cerimonial e da instituição de novas ordenanças, que ele logo realizaria, “para que vos maravilheis”?

Agora contemplavam suas obras com desprezo e indignação; em breve, porém, ele faria algo que contemplariam com espanto (Lucas 7:16). Muitos se maravilham com as obras de Cristo, dando-lhe assim a honra por elas, mas não chegam a crer, e por isso não recebem o benefício delas.

  1. Em particular. Ele prova sua igualdade com o Pai ao mencionar algumas das obras que realiza e que são próprias de Deus. Isso é exposto mais amplamente nos vv. 21-30.

Ele faz e fará o que é próprio do domínio e da jurisdição soberanos de Deus: julgar e executar o juízo (vv. 22-24, 27). O poder de ressuscitar os mortos e o de julgar aparecem entrelaçados, pois estão intimamente ligados. O que se diz uma vez é repetido e enfatizado. Reunidos, esses poderes provam que Cristo não falou sem razão quando se declarou igual a Deus.

(1.) Observe o que se diz aqui sobre o poder do Mediador para ressuscitar os mortos e dar vida. Vejamos:

[1.] Sua autoridade para fazê-lo (v. 21): “Assim como o Pai ressuscita os mortos, o Filho também dá vida a quem quer.”

Primeiro, ressuscitar os mortos e dar vida é prerrogativa de Deus, daquele que primeiro soprou no homem o fôlego de vida e, assim, fez dele uma alma vivente; veja Deuteronômio 32:39; 1 Samuel 2:6; Salmos 68:20; Romanos 4:17.

Deus havia feito isso por meio dos profetas Elias e Eliseu, confirmando assim a missão deles. A ressurreição dos mortos nunca fez parte do curso comum da natureza nem passou pela mente daqueles que estudavam apenas os limites do poder natural.

Um de seus axiomas aceitos se opunha frontalmente a ela: A privatione ad habitum non datur regressus: a existência, uma vez extinta, não pode ser reacendida.

Por isso, em Atenas a ressurreição foi ridicularizada como coisa absurda (Atos 17:32). Ela é obra exclusivamente do poder divino e só pode ser conhecida por revelação divina. Os judeus admitiriam isso.

Em segundo lugar, o Mediador foi investido dessa prerrogativa: “Dá vida a quem quer.” Ressuscita quem lhe agrada e quando lhe agrada. Ele não dá vida por necessidade natural, como o sol, cujos raios reanimam naturalmente.

Ele age livremente, dispõe do uso de seu poder em suas próprias mãos e nunca é forçado nem impedido de exercê-lo. Assim como possui o poder, possui também a sabedoria e a soberania de Deus.

Tem a chave da sepultura e da morte (Apocalipse 1:18), não como servo que abre e fecha conforme lhe ordenam. Ele a possui como a chave de Davi, da qual é senhor (Apocalipse 3:7). Um príncipe absoluto é descrito assim: “A quem queria matava e a quem queria mantinha vivo” (Daniel 5:19). Isso é verdade a respeito de Cristo, sem exagero.

[2.] Sua capacidade para fazê-lo. Ele tem poder para vivificar a quem quer, assim como o Pai, porque tem vida em si mesmo, como o Pai tem (v. 26). Primeiro, é certo que o Pai tem vida em si mesmo. Ele não é apenas um Ser que existe por si, sem receber sua existência de outro nem depender de ninguém (Êxodo 3:14), mas também o soberano doador da vida.

Ele dispõe da vida em si mesmo e de todo bem, pois a palavra vida às vezes tem esse sentido. Tudo deriva dele e depende dele. Para suas criaturas, é a fonte da vida e de todo bem, autor de sua existência e de seu bem-estar, o Deus vivo e o Deus de todos os viventes.

Segundo, é igualmente certo que ele concedeu ao Filho ter vida em si mesmo. Assim como o Pai, o grande Criador, é a origem de toda vida natural e de todo bem, o Filho, como Redentor, é a origem de toda vida espiritual e de todo bem. O Filho é para a igreja o que o Pai é para o mundo; veja 1 Coríntios 8:6; Colossenses 1:19.

O reino da graça e toda a vida que há nele estão nas mãos do Redentor tão plena e absolutamente quanto o reino da providência está nas mãos do Criador. Assim como Deus, que dá existência a todas as coisas, existe por si mesmo, Cristo, que dá vida, ressuscitou a si próprio por seu poder (João 10:18).

[3.] Seu exercício dessa autoridade e dessa capacidade. Tendo vida em si mesmo e autorização para vivificar a quem quer, ele, por isso, realiza duas ressurreições por sua palavra poderosa, ambas mencionadas aqui:

Primeiro, uma ressurreição que acontece agora (v. 25): a passagem da morte do pecado para a vida da justiça pelo poder da graça de Cristo. “Vem a hora, e já chegou.” É uma ressurreição já iniciada, que avançará ainda mais quando os mortos ouvirem a voz do Filho de Deus.

Ela se distingue claramente da ressurreição do v. 28, que ocorrerá no fim dos tempos. Ao contrário daquela, esta nada diz dos mortos que estão nas sepulturas, nem de todos eles, nem de sua saída delas. Agora, 1. alguns pensam que isso se cumpriu naqueles que Cristo ressuscitou milagrosamente: a filha de Jairo, o filho da viúva e Lázaro.

É digno de nota que Cristo falou a todos os que ressuscitou: “Menina, levanta-te”; “Jovem, levanta-te”; “Lázaro, vem para fora.” Já aqueles que ressuscitaram no Antigo Testamento não foram trazidos de volta por uma palavra, mas por outros meios (1 Reis 17:21; 2 Reis 4:34; 13:21).

Alguns entendem que a passagem se refere aos santos que ressuscitaram com Cristo; contudo, não lemos que a voz do Filho de Deus os tenha chamado. 2. Prefiro entendê-la como referência ao poder do ensino de Cristo para restaurar e vivificar aqueles que estavam mortos em delitos e pecados (Efésios 2:1).

Vinha a hora em que almas mortas receberiam vida pela pregação do evangelho, acompanhada de um espírito de vida vindo de Deus; ou melhor, essa hora já havia chegado enquanto Cristo estava na terra. A passagem talvez se refira especialmente ao chamado dos gentios, descrito como vida dentre os mortos.

Alguns pensam que esse chamado foi prefigurado pela visão de Ezequiel (Ezequiel 37:1) e anunciado em Isaías 26:19: “Teus mortos viverão.” Mas a passagem deve ser aplicada a todo o maravilhoso êxito do evangelho tanto entre judeus quanto entre gentios: uma hora que ainda é presente e ainda vem, até que todos os eleitos sejam eficazmente chamados. Repare:

(1.) Os pecadores estão espiritualmente mortos, sem vida, sensibilidade, força nem movimento espiritual. Estão mortos para Deus e são miseráveis, mas não percebem sua miséria nem conseguem livrar-se dela por si mesmos.

(2.) A conversão de uma alma a Deus é sua ressurreição da morte para a vida. Ela começa a viver quando começa a viver para Deus, a ansiar por ele e a mover-se em sua direção.

(3.) É pela voz do Filho de Deus que as almas são levantadas para a vida espiritual. Isso se realiza por seu poder, transmitido e comunicado por sua palavra: “Os mortos ouvirão”; serão levados a ouvir, entender, receber e crer na voz do Filho de Deus, a reconhecê-la como a voz dele. Então o Espírito lhes dá vida por meio dela; de outro modo, a letra mata.

(4.) Precisamos ouvir a voz de Cristo para viver por ela. Os que ouvem e dão atenção ao que ouviram viverão. “Ouvi, e vossa alma viverá” (Isaías 55:3).

Segundo, uma ressurreição ainda futura. Ela é mencionada no v. 28, 29 e introduzida assim: “Não vos maravilheis disso que vos disse sobre a primeira ressurreição; não o rejeiteis como algo incrível ou absurdo, pois, no fim dos tempos, todos vereis uma prova mais palpável e assombrosa do poder e da autoridade do Filho do Homem.”

Assim como sua própria ressurreição foi reservada para ser a prova final e conclusiva de sua missão pessoal, a ressurreição de todos os homens está reservada para ser uma prova semelhante de sua missão, que será executada por seu Espírito. Observe agora:

a. Quando ocorrerá essa ressurreição: “Vem a hora.” Ela está fixada para uma hora precisa; tão pontual é esse grande compromisso. O juízo não foi adiado sine die, para algum momento ainda não escolhido. Não: Deus determinou um dia. “Vem a hora.”

(a.) Ela ainda não chegou. Não é a hora de que fala o v. 25, que vem e já chegou. Incorreram em grave erro os que afirmaram que a ressurreição já havia acontecido (2 Timóteo 2:18). Mas (b.) ela certamente virá; aproxima-se, mais perto a cada dia. Está às portas. Não sabemos quão distante está, mas sabemos que foi infalivelmente planejada e imutavelmente determinada.

b. Quem ressuscitará: todos os que estão nos sepulcros, todos os que morreram desde o princípio dos tempos e todos os que morrerão até o fim. Em Daniel 12:2 foi dito: “Muitos ressuscitarão”; Cristo nos diz aqui que esses muitos serão todos.

Todos devem comparecer diante do Juiz e, portanto, todos devem ressuscitar: cada pessoa, e cada pessoa por inteiro; cada alma voltará ao próprio corpo, e cada osso se unirá ao que lhe corresponde.

O sepulcro é a prisão dos corpos mortos, onde ficam retidos, e o forno onde são consumidos (Jó 24:19). Mas, à luz de sua ressurreição, podemos chamá-lo de leito onde dormem até ser despertados e de depósito onde são guardados para serem usados de novo.

Mesmo os que não são postos em sepulcros ressuscitarão. Cristo, porém, usa a expressão “todos os que estão nos sepulcros” porque a maioria é sepultada. Os judeus usavam a palavra sheol para sepulcro, e ela designa o estado dos mortos. Todos os que se acham nesse estado ouvirão.

c. Como ressuscitarão. Duas coisas nos são ditas aqui: (a.) A causa eficiente dessa ressurreição: “Ouvirão sua voz”; isto é, ele os fará ouvi-la, assim como fez Lázaro ouvir a ordem “Vem para fora.” O poder divino acompanhará a voz, dando-lhes vida e tornando-os capazes de obedecer.

Quando Cristo ressuscitou, não se ouviu voz alguma nem se pronunciou palavra, porque ele ressuscitou por seu próprio poder. Na ressurreição dos filhos dos homens, porém, são mencionadas três vozes (1 Tessalonicenses 4:16).

“O Senhor descerá com brado”, o brado de um rei; “com a voz do arcanjo”, que pode ser o próprio Cristo, príncipe dos anjos, ou o comandante das hostes celestiais sob suas ordens; e “com a trombeta de Deus”: a trombeta do soldado dando o alarme de guerra e a do juiz anunciando a convocação ao tribunal.

(b.) O resultado: sairão dos sepulcros como presos que deixam a prisão; erguer-se-ão do pó e o sacudirão de si; veja Isaías 52:1, 2, 11. Mas não é só isso: comparecerão diante do tribunal de Cristo como pessoas que serão julgadas; apresentar-se-ão publicamente para receber sua sentença.

d. Para que ressuscitarão: para condições distintas de felicidade ou miséria, conforme seu caráter, para receber retribuição segundo o que fizeram em seu tempo de prova.

(a.) “Os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida.” Viverão outra vez, para viver eternamente. Repare:

[a.] Seja qual for o nome que as pessoas recebam ou a profissão de fé plausível que façam, no grande dia só irá bem àqueles que fizeram o bem, isto é, o que agrada a Deus e beneficia os outros.

[b.] A ressurreição do corpo será uma ressurreição da vida para todos, e somente para aqueles, que foram sinceros e constantes na prática do bem. Não serão apenas absolvidos publicamente, como se diz de um criminoso perdoado que conserva a vida. Serão admitidos à presença de Deus, e isso é vida, melhor do que a vida; terão consolo perfeito.

Viver será ser feliz, e estarão acima do medo da morte. É vida verdadeira aquela em que a mortalidade foi tragada para sempre.

(b.) “Os que fizeram o mal sairão para a ressurreição da condenação.” Viverão outra vez, para morrer eternamente. Os fariseus pensavam que a ressurreição pertencia apenas aos justos, mas Cristo corrige aqui esse engano. Repare:

[a.] Quem pratica o mal, sejam quais forem suas alegações, será tratado no dia do juízo como pessoa má.

[b.] Para os malfeitores que não desfizeram pelo arrependimento o mal praticado, a ressurreição será de condenação. Sairão para ser publicamente declarados culpados de rebelião contra Deus e publicamente condenados ao castigo eterno. Receberão a sentença e serão enviados imediatamente para cumpri-la, sem suspensão da pena. Assim será essa ressurreição.

(2.) Observe o que se diz aqui sobre a autoridade do Mediador para executar o juízo (vv. 22-24, 27). Assim como possui poder onipotente, também possui jurisdição soberana. Quem seria mais apropriado para presidir os grandes assuntos da outra vida do que aquele que é o Pai e a fonte da vida? Temos aqui:

[1.] A nomeação de Cristo para o ofício de juiz, mencionada duas vezes: “Confiou todo o juízo ao Filho” (v. 22) e, novamente, “deu-lhe autoridade” (v. 27).

Primeiro, “o Pai não julga ninguém”. Não que o Pai tenha renunciado ao governo, mas escolheu governar por meio de Jesus Cristo. Assim, o homem não vive sob o temor de tratar diretamente com Deus; tem, ao contrário, o consolo de aproximar-se dele por um Mediador.

Tendo-nos feito, Deus poderia fazer conosco o que quisesse, como o oleiro com o barro. Contudo, não se vale dessa vantagem, mas nos atrai com cordas humanas.

  1. Ele não determina nossa condição eterna pela aliança da inocência nem se aproveita do direito que tem contra nós pela violação dessa aliança. Como o Mediador se comprometeu a oferecer uma satisfação vicária, a questão lhe é confiada, e Deus se dispõe a entrar num novo tratado: não sob a lei do Criador, mas sob a graça do Redentor.

Em segundo lugar, o Pai confiou todo o juízo ao Filho e o constituiu Senhor de todos (Atos 10:36; Romanos 14:9), como José no Egito (Gênesis 41:40). Isso foi profetizado em Salmos 72:1; Isaías 11:3, 4; Jeremias 23:5; Miquéias 5:1-4; Salmos 67:4; 96:13; 98:9.

Todo o juízo foi confiado ao nosso Senhor Jesus, porque:

  1. Foi-lhe confiada a administração do reino da providência. Ele é cabeça sobre todas as coisas (Efésios 1:22) e cabeça de todo homem (1 Coríntios 11:3). Todas as coisas subsistem por ele (Colossenses 1:17).

  2. Ele recebeu o poder de promulgar leis que obrigam a consciência sem mediação. “Eu vos digo” é agora a fórmula dos estatutos do reino dos céus: sejam promulgados pelo Senhor Jesus e por sua autoridade. Todos os decretos atualmente em vigor foram tocados por seu cetro.

  3. Ele tem autoridade para designar e fixar os termos da nova aliança e redigir os artigos de paz entre Deus e o homem. É Deus em Cristo quem reconcilia o mundo, e foi a Cristo que ele deu o poder de conceder a vida eterna. O livro da vida é o livro do Cordeiro. Por sua sentença ficamos de pé ou caímos.

  4. Ele recebeu a missão de conduzir até o fim a guerra contra os poderes das trevas, expulsar o príncipe deste mundo e pronunciar juízo contra ele (João 12:31). Foi encarregado não apenas de julgar, mas também de guerrear (Apocalipse 19:11). Todos os que quiserem lutar por Deus contra Satanás devem alistar-se sob sua bandeira.

  5. Foi constituído o único responsável pelo julgamento do grande dia. Os antigos geralmente entendiam essas palavras como referentes ao ato culminante de seu poder judicial. O julgamento final e universal foi confiado ao Filho do Homem.

O tribunal é dele: é o tribunal de Cristo. Seu séquito são seus anjos poderosos. Ele examinará as causas e pronunciará a sentença (Atos 17:31).

Em terceiro lugar, o Pai também lhe deu autoridade para executar o juízo (v. 27). Observe:

  1. A autoridade de que nosso Redentor foi investido: autoridade para executar o juízo. Ele não possui apenas poder legislativo e judicial, mas também poder executivo.

A expressão é usada aqui especialmente para o juízo de condenação (Judas 1:15): poiesai krisin, executar juízo sobre todos. É o mesmo que exercer vingança (2 Tessalonicenses 1:8).

A ruína dos pecadores impenitentes vem da mão de Cristo. Aquele que executa o juízo contra eles é o mesmo que desejava realizar sua salvação, o que torna a sentença incontestável.

Não há recurso contra a sentença do Redentor. A própria salvação não pode salvar aqueles a quem o Salvador condena, e por isso sua ruína não tem remédio.

  1. De onde recebeu essa autoridade: o Pai a deu a ele. A autoridade de Cristo como Mediador é delegada e derivada. Ele age como vice-regente do Pai, o Ungido do Senhor, o Cristo do Senhor.

Tudo isso contribui muito para a honra de Cristo, absolvendo-o da acusação de blasfêmia por ter-se feito igual a Deus, e também para o consolo de todos os crentes, que podem confiar-lhe tudo com a máxima segurança.

[2.] Eis as razões de governo pelas quais recebeu essa incumbência. Todo o juízo lhe foi confiado por duas razões:

Primeiro, porque ele é o Filho do Homem, o que indica três coisas:

  1. Sua humilhação e graciosa condescendência. O homem é um verme; o filho do homem, um verme. Contudo, foi essa a natureza e essa a condição que o Redentor assumiu, em cumprimento dos conselhos de amor. Desceu a esse estado humilde e se submeteu a todas as mortificações que o acompanhavam, porque essa era a vontade do Pai.

Em recompensa por essa obediência maravilhosa, Deus o exaltou dessa maneira. Porque aceitou ser o Filho do Homem, o Pai o fez Senhor de todos (Filipenses 2:8, 9).

  1. Sua afinidade e ligação conosco. O Pai lhe confiou o governo dos filhos dos homens porque, como Filho do Homem, ele compartilha a natureza daqueles sobre os quais foi posto. Por isso, é ainda menos sujeito a objeções e mais aceitável como Juiz.

“Seu governante sairá do meio deles” (Jeremias 30:21). Essa lei era uma figura disso: “Um de teus irmãos porás como rei sobre ti” (Deuteronômio 17:15).

  1. Ele é o Messias prometido. Na famosa visão de seu reino e de sua glória (Daniel 7:13, 14), é chamado Filho do Homem; e em Salmos 8:4-6: “Fizeste o Filho do Homem dominar sobre as obras de tuas mãos.” Ele é o Messias e, por isso, foi investido de todo esse poder.

Os judeus costumavam chamar o Cristo de Filho de Davi, mas Cristo geralmente se chamava Filho do Homem. Esse título era mais humilde e o apresentava como príncipe e Salvador não apenas da nação judaica, mas de toda a raça humana.

Em segundo lugar, para que todos honrem o Filho (v. 23). Honrar Jesus Cristo é apresentado aqui como o grande desígnio de Deus. O Filho se propôs a glorificar o Pai e, por isso, o Pai se propôs a glorificar o Filho (João 12:32). É também o grande dever das pessoas, em conformidade com esse desígnio.

Se Deus quer que o Filho seja honrado, todos a quem ele é dado a conhecer têm o dever de honrá-lo. Observe aqui:

  1. O respeito devido a nosso Senhor Jesus. Devemos honrar o Filho, considerá-lo digno de honra, tanto por suas excelências e perfeições incomparáveis quanto pelas relações que mantém conosco, e procurar honrá-lo de acordo com isso. Devemos confessá-lo Senhor e adorá-lo; devemos honrar aquele que foi desonrado por nós.

  2. O grau dessa honra: “Assim como honram o Pai.” Isso pressupõe que temos o dever de honrar o Pai, pois a religião revelada se funda na religião natural. E nos manda honrar o Filho com honra divina. Devemos honrar o Redentor com a mesma honra que prestamos ao Criador.

Fazer-se igual a Deus estava tão longe de ser blasfêmia da parte de Cristo que a maior injúria possível da nossa parte seria considerá-lo diferente. As verdades e leis da religião cristã, na medida em que foram reveladas, são tão sagradas e dignas de honra quanto as da religião natural e devem ser igualmente estimadas.

Temos para com Cristo, autor de nossa existência, as mesmas obrigações e dependemos da graça do Redentor tão necessariamente quanto da providência do Criador. Isso é fundamento suficiente para a lei de honrar o Filho como honramos o Pai.

Para reforçar essa lei, acrescenta-se: “Quem não honra o Filho não honra o Pai que o enviou.” Alguns alegam reverenciar o Criador e falam dele com honra, mas fazem pouco caso do Redentor e falam dele com desdém.

Saibam eles, porém, que a honra e os interesses do Pai e do Filho estão tão inseparavelmente ligados e entrelaçados que o Pai jamais se considera honrado por alguém que desonra o Filho. Repare:

(1.) As afrontas feitas ao Senhor Jesus atingem o próprio Deus e serão assim entendidas e julgadas no tribunal do céu. O Filho assumiu a defesa da honra do Pai a ponto de tomar para si o descrédito lançado contra ele (Romanos 15:3). Da mesma forma, o Pai assume a defesa da honra do Filho e considera que, ao atacarem o Filho, o atingem.

(2.) O motivo é que o Filho foi enviado e incumbido pelo Pai: foi o Pai que o enviou. Um príncipe tem razão para indignar-se com as afrontas feitas ao embaixador que enviou. Pela mesma regra, os que realmente honram o Filho também honram o Pai; veja Filipenses 2:11.

[3.] Apresenta-se aqui a regra que o Filho segue no cumprimento dessa missão; é assim que parecem entrar essas palavras (v. 24): “Quem ouve e crê tem vida eterna.” Temos aqui a essência de todo o evangelho.

O prefácio exige atenção para algo de suma importância e assentimento a algo absolutamente certo: “Em verdade, em verdade vos digo: eu, a quem vocês ouvem dizer que foi confiado todo o julgamento, eu, em cujos lábios há uma sentença divina, lhes apresento o caráter e a carta de direitos do cristão.”

Primeiro, o caráter de um cristão: “Quem ouve minha palavra e crê naquele que me enviou.” Ser cristão de verdade é:

  1. Ouvir a palavra de Cristo. Não basta estar num lugar onde ela pode ser ouvida. Precisamos comparecer para ouvi-la, como alunos que recebem as instruções dos mestres, e prestar-lhe atenção, como servos que recebem as ordens de seus senhores. Precisamos ouvi-la e obedecer-lhe, adotando o evangelho de Cristo como regra permanente de nossa fé e conduta.

  2. Crer naquele que o enviou. O desígnio de Cristo é nos conduzir a Deus. Assim como Deus é a origem primeira de toda graça, também é o objeto final de toda fé. Cristo é nosso caminho; Deus é nosso descanso.

Devemos crer em Deus como aquele que enviou Jesus Cristo e se apresentou à nossa fé e ao nosso amor ao manifestar sua glória no rosto de Jesus Cristo (2 Coríntios 4:6), como Pai dele e nosso Pai.

Em segundo lugar, a carta de direitos do cristão, da qual participam todos os que são cristãos de verdade. Veja o que recebemos por meio de Cristo:

  1. Uma carta de perdão: “Não entrará em condenação.” A graça do evangelho nos livra por completo da maldição da lei. O crente, além de não ficar eternamente sob condenação, também não incorre nela agora nem corre o risco de sofrê-la (Romanos 8:1). Não entrará em juízo; nem sequer será formalmente acusado.

  2. Uma carta de privilégios: “Passou da morte para a vida.” Já participa da felicidade presente da vida espiritual e tem direito à felicidade futura da vida eterna. O teor da primeira aliança era: “Faze isto e viverás”; “o homem que os cumprir viverá por eles”.

Isso prova que Cristo é igual ao Pai, pois tem poder para oferecer aos que ouvem sua palavra o mesmo benefício oferecido aos que guardavam a antiga lei: a vida. “Ouçam e vivam; creiam e vivam”: podemos confiar a alma a essa promessa quando somos incapazes de cumprir a lei para viver; veja João 17:2.

[4.] Aqui está a justiça de seus procedimentos ao cumprir essa missão (v. 30). Como todo julgamento lhe foi confiado, é natural perguntarmos como o exerce. Ele responde: “Meu julgamento é justo.”

Todos os atos de governo de Cristo, tanto legislativos quanto judiciais, estão exatamente de acordo com as regras da equidade; veja Provérbios 8:8. Não se pode levantar objeção contra nenhuma das decisões do Redentor. Assim como nenhuma de suas leis será revogada, de nenhuma de suas sentenças haverá recurso.

Seus julgamentos são certamente justos porque são dirigidos:

Primeiro, pela sabedoria do Pai: “Eu não posso fazer nada por conta própria”, nada sem o Pai; “mas julgo conforme ouço”. Ele já havia dito (v. 19): “O Filho não pode fazer nada senão o que vê o Pai fazer.” Agora diz que não faz nada senão o que ouve o Pai dizer. “Conforme ouço”:

  1. Dos conselhos secretos e eternos do Pai, assim julgo. Queremos saber em que podemos confiar ao tratar com Deus? Ouçamos a palavra de Cristo. Não precisamos sondar os conselhos divinos, aquelas coisas secretas que não nos pertencem. Prestemos atenção às determinações reveladas do governo e do julgamento de Cristo; elas nos darão orientação infalível.

O que Cristo julgou é cópia ou correspondente exato do que o Pai decretou.

  1. Dos registros publicados do Antigo Testamento. Em toda a execução de sua obra, Cristo tinha os olhos nas Escrituras e cuidou de se conformar a elas e cumpri-las: “Como está escrito no rolo do livro.” Assim nos ensinou a não fazer nada por conta própria, mas a julgar as coisas conforme ouvimos a palavra de Deus e a agir de acordo.

Em segundo lugar, pela vontade do Pai: “Meu julgamento é justo” e não poderia deixar de sê-lo, “porque não procuro minha própria vontade, mas a vontade daquele que me enviou”. Isso não significa que a vontade de Cristo fosse contrária à do Pai, como nossa carne é contrária ao espírito. Mas:

  1. Como homem, Cristo tinha os afetos naturais e inocentes da natureza humana: sentia dor e prazer, tinha inclinação à vida e aversão à morte. Ainda assim, não buscou agradar a si mesmo nem conferenciou com esses afetos, nem os consultou, quando precisou avançar em sua missão. Aceitou por completo a vontade de seu Pai.

  2. O que fez como Mediador não resultou de algum propósito e desígnio peculiar ou particular seu. Não procurou agir para satisfazer uma vontade própria; guiou-se pela vontade do Pai e pelo propósito que o Pai havia estabelecido para si. Nosso Salvador sempre se submeteu a essa vontade e por ela se conduziu.

Versículos 31 a 47

Cristo Comprova Sua Missão Divina; a Incredulidade dos Judeus É Censurada.

Nesses versículos, nosso Senhor Jesus prova e confirma a missão que havia apresentado e demonstra que foi enviado por Deus para ser o Messias.

I. Ele deixa de lado o próprio testemunho a respeito de si mesmo (v. 31): “Se dou testemunho de mim mesmo, embora ele seja infalivelmente verdadeiro (João 8:14), ainda assim não o admitireis como prova legal nem consentireis que seja apresentado como evidência, segundo a regra comum de julgamento entre as pessoas.”

Agora, 1. Isso lança descrédito sobre os seres humanos e sua veracidade e integridade. Certamente podemos dizer com ponderação o que Davi disse apressadamente: “Todos os homens são mentirosos.” De outro modo, jamais seria tão aceita a máxima de que o testemunho de uma pessoa sobre si mesma é suspeito e indigno de confiança.

Isso mostra que o amor-próprio é mais forte que o amor à verdade.

  1. Contudo, também honra o Filho de Deus e mostra sua admirável condescendência. Embora seja a testemunha fiel, a própria verdade, com direito a exigir crédito por sua honra e por seu testemunho isolado, ainda assim tem por bem abrir mão desse privilégio e, para confirmar nossa fé, remeter-nos a outras testemunhas que o abonam, para que tenhamos plena certeza.

II. Ele apresenta outras testemunhas que confirmam ter sido enviado por Deus.

  1. O próprio Pai deu testemunho dele (v. 32): “Há outro que dá testemunho.” Entendo que se refere a Deus Pai, pois Cristo menciona o testemunho do Pai junto com o seu (João 8:18): “Eu dou testemunho de mim mesmo, e o Pai dá testemunho de mim.” Observe:

(1.) O selo que o Pai apôs à sua missão: “Ele dá testemunho de mim.” Não o fez apenas por uma voz vinda do céu, mas ainda o faz pelos sinais de sua presença comigo. Veja a quem Deus dá testemunho:

[1.] Aos que envia e emprega. Onde ele confere uma missão, também dá as credenciais. [2.] Aos que dão testemunho dele, como Cristo fez. Deus reconhecerá e honrará aqueles que o reconhecem e honram.

[3.] Aos que se recusam a dar testemunho de si mesmos, como Cristo fez. Deus cuidará para que os que se humilham e se rebaixam, sem buscar a própria glória, não saiam perdendo por isso.

(2.) A satisfação que Cristo tinha nesse testemunho: “Sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro. Tenho plena certeza de que minha missão vem de Deus e não duvido nem um pouco disso.” Desse modo, tinha o testemunho em si mesmo. O diabo o tentou a duvidar de que fosse o Filho de Deus, mas ele nunca cedeu.

  1. João Batista deu testemunho de Cristo (v. 33, etc.). João veio dar testemunho da luz (João 1:7); sua tarefa era preparar-lhe o caminho e encaminhar as pessoas a ele: “Eis o Cordeiro de Deus.”

(1.) O testemunho de João foi: [1.] Solene e público. “Vocês enviaram a João uma delegação de sacerdotes e levitas, dando-lhe oportunidade de divulgar o que tinha a dizer. Não foi um testemunho popular, mas judicial.”

[2.] Verdadeiro: ele “deu testemunho da verdade”, como deve fazer uma testemunha, dizendo toda a verdade e nada além dela. Cristo não diz “Ele deu testemunho de mim”, embora todos soubessem que o fizera, mas “Ele deu testemunho da verdade”, como um homem honesto.

João era reconhecido como homem santo e bom, tão desprendido do mundo e tão familiarizado com as coisas divinas, que não se podia imaginar que fosse culpado de falsificação e impostura tão graves quanto seria dizer o que disse sobre Cristo, se aquilo não fosse verdade e se ele não tivesse certeza disso.

(2.) Acrescentam-se duas coisas sobre o testemunho de João:

[1.] Era um testemunho ex abundanti, além do que Cristo precisava apresentar em seu favor (v. 34): “Não recebo testemunho de homem.” Embora julgasse conveniente citar o testemunho de João, declarou que isso não devia ser entendido de modo a prejudicar a prerrogativa de sua autossuficiência.

Cristo não precisa de cartas nem recomendações, testemunhos nem certificados, além daqueles que seu próprio valor e sua excelência lhe dão. Por que, então, invocou o testemunho de João? “Digo estas coisas para que sejais salvos.”

Foi esse seu objetivo durante toda a conversa: salvar, não a própria vida, mas a alma de outros. Apresentou o testemunho de João porque, sendo ele um dos judeus, havia esperança de que o escutassem. Repare:

Primeiro, Cristo deseja e tem o desígnio de realizar a salvação até de seus inimigos e perseguidores. Segundo, sua palavra é o meio comum da salvação. Terceiro, em sua palavra, ele considera nossas fraquezas e se adapta à nossa capacidade. Leva em conta menos o que caberia a um príncipe tão grande dizer do que aquilo que somos capazes de suportar e que tem maior probabilidade de nos fazer bem.

[2.] Era um testemunho ad hominem, dirigido às pessoas com quem falava, pois João Batista era alguém por quem elas tinham respeito (v. 35): era uma luz entre elas.

Primeiro, o caráter de João Batista: “Era uma luz que ardia e brilhava.” Cristo muitas vezes falou dele com honra. Estava agora preso, sob uma nuvem, mas Cristo lhe deu o louvor devido, como devemos estar prontos a fazer com todos os que servem fielmente a Deus.

  1. Era uma luz, não phos, lux, luz em si, como Cristo, que era a luz, mas lyknos, lucerna, uma luminária, luz derivada e subordinada. Sua função era iluminar um mundo escuro com notícias da aproximação do Messias, para quem era como a estrela da manhã.

  2. Era uma luz que ardia, o que indica sinceridade. Pode-se fazer uma chama pintada brilhar, mas só o fogo verdadeiro arde. Indica também sua atividade, seu zelo e fervor: ardia de amor a Deus e à alma das pessoas. O fogo sempre atua sobre si mesmo ou sobre outra coisa; assim também faz um bom ministro.

  3. Era uma luz que brilhava, o que indica ou sua conduta exemplar, na qual nossa luz deve brilhar (Mateus 5:16), ou uma influência notável que se espalhava. Ele se destacava aos olhos dos outros.

Embora procurasse permanecer afastado e retirado, nos desertos, ainda assim sua doutrina, seu batismo e sua vida o tornaram muito conhecido e atraíram o olhar da nação.

Em segundo lugar, os sentimentos do povo para com João: “Por algum tempo quisestes alegrar-vos com sua luz.”

  1. A chegada de João os encheu de entusiasmo: “Quisestes”, ethelesate, isto é, “tivestes prazer em alegrar-vos com sua luz. Estáveis muito orgulhosos de ter entre vós alguém que honrava vosso país. Quisestes”, agalliasthenai, “dançar e fazer alarde em torno dessa luz, como meninos em torno de uma fogueira”.

  2. Mas aquilo foi passageiro e logo acabou: “Estáveis encantados com ele”, pros horan, “por uma hora, por algum tempo, como crianças pequenas se encantam com uma novidade. João vos agradou por algum tempo, mas logo vos cansastes dele e de seu ministério, dissestes que tinha um demônio e agora o tendes na prisão”.

Repare: muitos que a princípio parecem comovidos pelo evangelho e satisfeitos com ele acabam por desprezá-lo e rejeitá-lo. É comum os que professam a fé com entusiasmo e alarde esfriarem e se afastarem. Esses se alegraram com a luz de João, mas nunca andaram nela; por isso, não permaneceram fiéis a ela. Eram como o solo pedregoso.

Enquanto Herodes era amigo de João Batista, o povo o tratava com afeto. Quando João caiu no desagrado de Herodes, perdeu também o favor do povo: “Quisestes apoiar João”, pros horan, isto é, “por interesses temporais”, conforme alguns entendem.

“Alegrastes-vos com ele na esperança de fazer dele um instrumento: por sua influência e sob a proteção de seu nome, poderíeis sacudir o jugo romano e recuperar a liberdade civil e a honra de vosso país.” Aqui:

(1.) Cristo menciona o respeito que tinham por João para condená-los pela oposição que agora faziam a ele próprio, de quem João dera testemunho. Se tivessem preservado a veneração por João, como deveriam, teriam acolhido Cristo.

(2.) Menciona que esse respeito passou para mostrar que Deus foi justo ao privá-los, como já fizera, do ministério de João e ao pôr essa luz debaixo de um alqueire.

  1. As próprias obras de Cristo davam testemunho dele (v. 36): “Tenho um testemunho maior que o de João.” Se aceitamos o testemunho dos homens enviados por Deus, como João, o testemunho de Deus sem mediação, e não pelo ministério dos homens, é maior (1 João 5:9).

Observe: embora o testemunho de João tivesse menor força e peso, ainda assim nosso Senhor teve por bem usá-lo. Devemos acolher todos os apoios que se apresentem para confirmar nossa fé, mesmo que não constituam uma demonstração conclusiva. Também não devemos descartar nenhum sob a alegação de que outros são mais convincentes: precisamos de todos eles.

Esse testemunho maior era o das obras que o Pai dera a Cristo para realizar. Isto é:

(1.) Em geral, todo o curso de sua vida e de seu ministério: revelar-nos Deus e sua vontade, estabelecer seu reino entre os homens, reformar o mundo, destruir o reino de Satanás, restaurar o homem caído à pureza e à felicidade originais e derramar no coração das pessoas o amor a Deus e umas às outras.

Toda essa obra, da qual ele disse ao morrer “Está consumado”, foi, do começo ao fim, opus Deo dignum, uma obra digna de Deus. Tudo o que disse e fez era santo e celestial, e nisso resplandeciam a pureza, o poder e a graça divinos, provando abundantemente que fora enviado por Deus.

(2.) Em particular, os milagres que realizou para comprovar sua missão divina davam testemunho dele. Aqui se diz:

[1.] Que essas obras lhe foram dadas pelo Pai. Isto é, ele foi designado e capacitado para realizá-las, pois, como Mediador, recebeu do Pai tanto a missão quanto a força.

[2.] Que lhe foram dadas para que as concluísse. Ele tinha de realizar todas aquelas obras maravilhosas que o conselho e a presciência de Deus haviam determinado de antemão. O fato de tê-las concluído comprova um poder divino, pois, quanto a Deus, sua obra é perfeita.

[3.] Que essas obras davam testemunho dele, provando que fora enviado por Deus e que o que dizia acerca de si mesmo era verdade; veja Hebreus 2:4 e Atos 2:22.

O Pai o enviara como Pai: não como um senhor que manda seu servo cumprir uma tarefa, mas como um pai que envia seu filho para tomar posse para si mesmo. Se Deus não o tivesse enviado, não o teria apoiado nem lhe teria aposto seu selo, como fez pelas obras que lhe deu para realizar. O Criador do mundo jamais enganará o mundo.

  1. Ele apresenta, de modo mais completo do que antes, o testemunho de seu Pai a seu respeito (v. 37): “O Pai que me enviou deu testemunho de mim.” Não é costume do príncipe acompanhar pessoalmente seu embaixador para confirmar-lhe a missão viva voce, por sua própria voz.

Deus, porém, quis dar testemunho pessoal de seu Filho por uma voz vinda do céu, no batismo de Jesus (Mateus 3:17): “Este é meu embaixador; este é meu Filho amado.” Os judeus consideravam a Bath-kol, a filha de uma voz, uma voz vinda do céu, como um dos meios pelos quais Deus revelava sua vontade.

Por esse meio, Deus reconhecera Cristo pública e solenemente e repetira seu testemunho (Mateus 17:5). Repare:

(1.) Deus dará testemunho daqueles que envia. Quando confere uma missão, não deixa de selá-la. Aquele que “nunca deixou de dar testemunho de si mesmo” (Atos 14:17) também não deixará sem testemunho nenhum de seus servos que cumprem sua missão.

(2.) Quando Deus exige fé, não deixa de fornecer provas suficientes, como fez a respeito de Cristo. O principal testemunho necessário acerca de Cristo era que o Deus a quem havíamos ofendido estava disposto a aceitá-lo como Mediador.

Nesse ponto, o próprio Deus nos deu plena certeza, e ninguém era mais apropriado para fazê-lo, ao declarar que estava satisfeito com Cristo. Se nós também estivermos satisfeitos com ele, a obra estará feita.

Alguém poderia perguntar: se o próprio Deus deu testemunho de Cristo, por que a nação judaica e seus líderes não o receberam de modo geral? Cristo responde que isso não é estranho e que a incredulidade deles não diminui a credibilidade de seu testemunho, por duas razões:

[1.] Eles não conheciam essas revelações extraordinárias de Deus e de sua vontade: “Jamais ouvistes sua voz nem vistes sua forma ou aparência.” Embora declarassem ter relação com Deus, mostravam conhecê-lo tão pouco quanto conhecemos alguém que nunca vimos nem ouvimos.

“Mas por que vos falo do testemunho que Deus dá de mim? Não conheceis aquele que o dá, nem tendes familiaridade ou comunhão com ele.” Repare: a ignorância acerca de Deus é o verdadeiro motivo pelo qual as pessoas rejeitam o testemunho que ele deu de seu Filho.

Uma compreensão correta da religião natural nos mostraria harmonias tão admiráveis com a religião cristã que nos tornaria muito mais dispostos a recebê-la. Alguns dão a essas palavras o seguinte sentido:

“O Pai deu testemunho de mim por meio de uma voz e da descida de uma pomba, acontecimentos tão extraordinários que nunca vistes nem ouvistes nada semelhante. Ainda assim, por minha causa, houve tal voz e tal aparição.”

“Sim, e ainda: poderíeis ter ouvido aquela voz e visto aquela aparição, como outros ouviram e viram, se tivésseis acompanhado de perto o ministério de João. Mas, por desprezá-lo, perdestes esse testemunho.”

[2.] Eles não eram tocados nem sequer pelos meios comuns pelos quais Deus se revelara a eles: “Não tendes a sua palavra permanecendo em vós” (v. 38). Tinham as Escrituras do Antigo Testamento; não poderiam elas prepará-los para receber Cristo? Sim, se tivessem exercido sobre eles a devida influência.

Mas, primeiro, a palavra de Deus não estava neles. Estava entre eles, em sua terra e em suas mãos, mas não dentro deles, em seu coração. Não governava suas almas; apenas brilhava diante de seus olhos e ressoava em seus ouvidos.

De que lhes servia ter recebido os oráculos de Deus (Romanos 3:2), se esses oráculos não tinham autoridade dentro deles? Se tivessem, teriam acolhido Cristo prontamente.

Segundo, a palavra não permanecia. Em muitos, ela entra e deixa alguma impressão por certo tempo, mas não permanece. Não habita continuamente dentro deles, como alguém em sua própria casa; aparece apenas de vez em quando, como um viajante.

Se a palavra permanecer em nós, se convivermos com ela por meio da meditação frequente, a consultarmos em todas as ocasiões e a seguirmos em nosso modo de viver, receberemos prontamente o testemunho do Pai acerca de Cristo; veja João 7:17.

Mas como se via que a palavra de Deus não permanecia neles? Por isto: “Não credes naquele que ele enviou.” O Antigo Testamento dizia tanto sobre Cristo, orientando as pessoas sobre quando e onde procurá-lo e facilitando assim seu reconhecimento, que, se tivessem considerado devidamente essas coisas, não poderiam deixar de reconhecer que ele fora enviado por Deus.

Portanto, sua incredulidade em Cristo era sinal certo de que a palavra de Deus não permanecia neles. Repare: a presença interior da palavra, do Espírito e da graça de Deus em nós se prova melhor por seus efeitos, sobretudo por recebermos aquilo que ele envia: suas ordens, seus mensageiros, suas providências e, principalmente, Cristo, a quem enviou.

  1. A última testemunha que ele chama é o Antigo Testamento, que dá testemunho dele; a ele apela (v. 39, etc.): “Examinai as Escrituras”, ereunate.

(1.) Essas palavras podem ser entendidas de duas maneiras. [1.] “Vós examinais as Escrituras, e fazeis bem em fazê-lo. Ledes essas Escrituras diariamente nas sinagogas e tendes rabinos, doutores e escribas que se dedicam a estudá-las e analisá-las minuciosamente.”

Os judeus se orgulhavam do florescimento do estudo das Escrituras nos dias de Hilel, que morreu cerca de doze anos após o nascimento de Cristo, e consideravam alguns dos membros do Sinédrio daquela época as joias de sua sabedoria e as glórias de sua lei.

Cristo reconhece que eles de fato examinavam as Escrituras, mas o faziam em busca da própria glória: “Vós examinais as Escrituras e, portanto, se não fôsseis voluntariamente cegos, creríeis em mim.” Repare: é possível estudar com afinco a letra das Escrituras e, ainda assim, não conhecer seu poder e sua influência.

Ou [2.] como lemos: “Examinai as Escrituras.” Nesse caso, primeiro, Cristo lhes fala na forma de um recurso: “Dizeis que recebeis as Escrituras e credes nelas. Aqui submeto nossa questão a elas; sejam elas o juiz, desde que não fiqueis presos à letra”, hærere in cortice, “mas as examineis.” Repare: quando se apela às Escrituras, é preciso examiná-las.

Examinem todo o livro das Escrituras de ponta a ponta, comparem uma passagem com outra e expliquem uma pela outra. Devemos também examinar a fundo cada passagem para discernir não o que parece dizer prima facie, à primeira vista, mas o que de fato diz.

Segundo, Cristo nos fala na forma de conselho ou mandamento dirigido a todos os cristãos: examinar as Escrituras. Repare: todos os que desejam encontrar Cristo precisam examiná-las, não apenas lê-las e ouvi-las. Examiná-las envolve: 1. Diligência na busca, esforço, estudo e aplicação atenta da mente.

  1. O desejo e o desígnio de encontrar. Devemos buscar algum benefício e proveito espiritual ao ler e estudar as Escrituras e perguntar muitas vezes: “O que estou procurando agora?” Devemos procurá-las como tesouros escondidos (Provérbios 2:4), como quem cava em busca de ouro ou prata ou mergulha à procura de pérolas (Jó 28:1-11). Foi isso que enobreceu os bereanos (Atos 17:11).

(2.) Ao examinar as Escrituras, somos orientados a ter em vista duas coisas: o céu como nosso fim e Cristo como nosso caminho. [1.] Devemos examinar as Escrituras tendo o céu como nosso grande objetivo: “Pois nelas pensais ter a vida eterna.”

As Escrituras nos asseguram que há uma condição eterna diante de nós e nos oferecem vida eterna nessa condição. Contêm o mapa que a descreve, a carta que nos confere direito a ela, a orientação para o caminho que leva até lá e o fundamento sobre o qual se edifica a esperança de alcançá-la. Vale a pena procurar isso onde temos certeza de encontrá-lo.

Cristo, porém, apenas diz aos judeus: “Pensais ter a vida eterna nas Escrituras.” Embora conservassem a crença e a esperança da vida eterna e fundamentassem essa expectativa nas Escrituras, ainda assim erravam ao procurá-la na mera leitura e no estudo delas.

Havia entre eles um ditado comum, mas enganoso: “Quem possui as palavras da lei possui a vida eterna.” Pensavam ter o céu garantido se conseguissem recitar de memória, ou melhor, mecanicamente, certas passagens das Escrituras indicadas pela tradição dos anciãos.

Assim como consideravam todo o povo comum amaldiçoado por não conhecer a lei dessa maneira (João 7:49), concluíam que todos os instruídos certamente eram bem-aventurados.

[2.] Devemos examinar as Escrituras em busca de Cristo, o caminho novo e vivo que leva a esse fim. “São elas”, as grandes e principais testemunhas, “que dão testemunho de mim.” Repare:

Primeiro, as Escrituras, mesmo as do Antigo Testamento, testemunham de Cristo; por elas, Deus dá testemunho dele. O Espírito de Cristo nos profetas deu testemunho antecipado a seu respeito (1 Pedro 1:11): dos propósitos e das promessas de Deus referentes a ele, e dos anúncios prévios de sua vinda.

Os judeus sabiam muito bem que o Antigo Testamento testemunhava do Messias e examinavam com minúcia as passagens que apontavam para ele. Contudo, foram descuidados e miseravelmente desatentos ao aplicá-las.

Segundo, devemos, portanto, examinar as Escrituras e podemos esperar encontrar vida eterna nessa busca, porque elas testemunham de Cristo; conhecê-lo é a vida eterna; veja 1 João 5:11. Cristo é o tesouro escondido no campo das Escrituras, a água desses poços, o leite desses seios.

(3.) A esse testemunho, Cristo acrescenta uma censura à incredulidade e à maldade deles em quatro aspectos. Em particular:

[1.] Seu descaso por ele e sua doutrina: “Vocês não querem vir a mim para ter vida” (v. 40). “Examinam as Escrituras, creem nos profetas, que, como não podem deixar de perceber, dão testemunho de mim. Contudo, não querem vir a mim, para quem eles os encaminham.”

Seu afastamento de Cristo não era tanto falha de entendimento quanto de vontade. A frase é uma queixa: Cristo oferecia a vida, mas ela não era aceita. Repare:

Primeiro, há vida disponível em Jesus Cristo para as pobres almas: podemos receber vida, a vida do perdão, da graça, do consolo e da glória. A vida é a perfeição de nossa existência e inclui toda felicidade; Cristo é nossa vida.

Segundo, quem deseja essa vida precisa vir a Jesus Cristo para recebê-la; podemos tê-la ao vir. Isso pressupõe que o entendimento concorde com a doutrina de Cristo e com o testemunho dado a seu respeito. Consiste na anuência da vontade ao seu governo e à sua graça e produz uma resposta correspondente nos afetos e nos atos.

Terceiro, o único motivo pelo qual os pecadores morrem é que não querem vir a Cristo em busca de vida e felicidade. Não é que não possam, mas que não querem. Não aceitam a vida oferecida, por ser espiritual e divina; não concordam com as condições da oferta nem fazem uso dos meios designados. Não querem ser curados, pois não querem seguir o tratamento.

Quarto, a teimosia e a obstinação dos pecadores em rejeitar as ofertas da graça causam grande dor a nosso Senhor Jesus e o leva a queixar-se. As palavras “Não recebo honra dos homens” (v. 41) vêm entre parênteses, para prevenir uma objeção contra ele: a de que buscaria a própria glória e tentaria tornar-se chefe de um partido ao exigir que todos fossem a ele e o aplaudissem. Repare:

  1. Ele não cobiçava nem buscava os aplausos das pessoas e não desejava nem um pouco a pompa e o esplendor mundanos com que os judeus carnais esperavam que o Messias aparecesse. Ordenou aos que curou que não o tornassem conhecido e se afastou dos que queriam fazê-lo rei.

  2. Não recebia aplausos das pessoas. Em lugar de honra, recebia muita desonra e vergonha, pois se fez de nenhuma reputação.

  3. Não precisava dos aplausos das pessoas. Eles nada acrescentavam à glória daquele a quem todos os anjos de Deus adoram. Ele só se agradava de recebê-los quando isso estava de acordo com a vontade do Pai e contribuía para a felicidade dos que, ao honrá-lo, recebiam dele honra muito maior.

[2.] Sua falta de amor a Deus (v. 42): “Conheço vocês muito bem: não têm em si o amor de Deus. Por que me surpreenderia que não venham a mim, se lhes falta até o primeiro princípio da religião natural, que é o amor a Deus?”

Repare: as pessoas desprezam Cristo porque não amam a Deus. Se realmente amássemos a Deus, amaríamos aquele que é sua imagem exata e correríamos para aquele por meio de quem somente podemos ser restaurados ao favor de Deus.

Cristo os acusara (v. 37) de não conhecerem a Deus e aqui os acusa de não o amarem. Portanto, as pessoas não têm amor a Deus porque não desejam conhecê-lo. Observe:

Primeiro, a falta de que são acusados: “Vocês não têm em si o amor de Deus.” Alegavam amar muito a Deus e pensavam demonstrá-lo por seu zelo pela lei, pelo templo e pelo sábado; na verdade, porém, não amavam a Deus.

Repare: muitos fazem grande profissão de fé, mas revelam falta de amor a Deus ao negligenciar Cristo e desprezar seus mandamentos. Odeiam sua santidade e dão pouco valor à sua bondade.

Observe que Deus aceita o amor a ele que está em nós, assentado no coração como princípio vivo e ativo, derramado ali, como diz Romanos 5:5.

Segundo, a prova dessa acusação é o conhecimento pessoal que Cristo tem deles. Ele sonda o coração (Apocalipse 2:23), sabe o que há no ser humano e pode dizer: “Conheço vocês.” Cristo vê através de todos os nossos disfarces e pode dizer a cada um: “Conheço você.”

  1. Cristo conhece as pessoas melhor do que seus vizinhos as conhecem. O povo pensava que os escribas e fariseus eram muito devotos e bons; Cristo, porém, sabia que não tinham em si o amor de Deus.

  2. Cristo conhece as pessoas melhor do que elas mesmas se conhecem. Aqueles judeus tinham ótima opinião de si, mas Cristo sabia quão corrompidos eram por dentro, apesar de sua aparência respeitável. Podemos enganar a nós mesmos, mas não a ele.

  3. Cristo conhece pessoas que não o conhecem nem querem conhecê-lo. Olha para os que deliberadamente desviam dele o olhar e chama cada um pelo nome que lhe cabe, seu verdadeiro nome.

[3.] Outro crime de que são acusados é a disposição para acolher falsos cristos e falsos profetas, enquanto resistiam obstinadamente àquele que era o verdadeiro Messias (v. 43): “Eu vim em nome de meu Pai, e não me recebeis. Se outro vier em seu próprio nome, a esse recebereis.”

“Espantai-vos disto, ó céus” (Jeremias 2:12, 13), pois “meu povo cometeu dois males”, e grandes males.

Primeiro, “abandonaram a fonte das águas vivas”, pois não quiseram receber Cristo, que veio em nome do Pai, recebeu dele sua missão e fez tudo para sua glória.

Em segundo lugar, “cavaram para si cisternas rachadas”: dão ouvidos a qualquer um que apareça em seu próprio nome. Abandonam suas próprias misericórdias, o que já é bastante ruim, e o fazem por vaidades mentirosas, o que é ainda pior. Observe aqui:

  1. São falsos profetas os que vêm em seu próprio nome, se lançam sem terem sido enviados e só procuram promover a si mesmos.

  2. É justo que Deus permita que sejam enganados por falsos profetas aqueles que não recebem a verdade com amor (2 Tessalonicenses 2:10, 11). Os erros do anticristo são o justo castigo daqueles que não obedecem à doutrina de Cristo.

Os que fecham os olhos à luz verdadeira são entregues, pelo juízo de Deus, a vagar sem fim atrás de luzes falsas e a ser desviados por cada ignis fatuus, cada fogo-fátuo.

  1. É rematada insensatez de muitos enjoarem das verdades antigas enquanto se encantam com erros recém-surgidos. Desprezam o maná e, ao mesmo tempo, alimentam-se de cinzas.

Depois que os judeus rejeitaram Cristo e seu evangelho, passaram a ser continuamente assombrados por espectros, falsos cristos e falsos profetas (Mateus 24:24). Sua tendência a segui-los provocou tumultos e sedições que apressaram sua ruína.

[4.] São acusados aqui de orgulho e vanglória, bem como da incredulidade que deles resulta (v. 44). Depois de censurar severamente a incredulidade deles, Cristo, como médico sábio, investiga sua causa e põe o machado à raiz. Desprezavam e desvalorizavam Cristo porque admiravam e supervalorizavam a si mesmos. Temos aqui:

Primeiro, sua ambição por honras mundanas. Cristo as desprezava (v. 41), mas eles lhes entregavam o coração: “Recebeis honra uns dos outros.” Isto é: “Esperais um Messias cercado de pompa exterior e vos prometeis, por meio dele, honras mundanas.” “Recebeis honra”:

  1. “Desejais recebê-la e fazeis dela o objetivo de tudo quanto praticais.”

  2. “Concedeis honra aos outros e os aplaudis apenas para que retribuam e vos aplaudam.” Petimus dabimusque vicissim: “Pedimos e concedemos reciprocamente.” É artifício do orgulhoso lançar honra sobre os outros apenas para que ela retorne a ele.

  3. “Cuidais de reservar todas as honras para vós mesmos e limitá-las a vosso partido, como se tivésseis o monopólio daquilo que é honroso.”

  4. “A honra que vos prestam, recebeis para vós mesmos, sem encaminhá-la a Deus, à semelhança de Herodes.” Idolatrar os homens e suas opiniões, e querer ser idolatrado por eles e por seus aplausos, são formas de idolatria tão diretamente contrárias ao cristianismo quanto quaisquer outras.

Em segundo lugar, negligenciavam a honra espiritual, chamada aqui de “honra que vem somente de Deus”. Não a buscavam nem se importavam com ela. Repare:

  1. A verdadeira honra é a que vem somente de Deus, honra real e duradoura. São verdadeiramente honrados aqueles que ele admite à aliança e à comunhão consigo.

  2. Todos os santos possuem essa honra. Todos os que creem em Cristo recebem por meio dele a honra que vem de Deus. Ele não faz acepção de pessoas, mas dará glória a todos a quem conceder graça.

  3. Devemos buscar essa honra que vem de Deus, tê-la como objetivo, agir por ela e não nos contentar com nada inferior (Romanos 2:29). Devemos considerá-la nossa recompensa, assim como os fariseus consideravam recompensa o louvor dos homens.

  4. Os que não querem vir a Cristo e os que ambicionam honras mundanas mostram que não buscam a honra que vem de Deus. Nisso estão sua insensatez e ruína.

Em terceiro lugar, a influência dessa atitude sobre a incredulidade deles. “Como podeis crer” com tal disposição? Observe aqui:

  1. A dificuldade para crer nasce de nós mesmos e de nossa corrupção. Tornamos árduo para nós mesmos o que precisamos fazer e depois reclamamos que é impraticável.

  2. A ambição e a busca de honras mundanas são grandes obstáculos à fé em Cristo. Como podem crer os que fazem do louvor e dos aplausos dos homens seu ídolo?

Quando professar e praticar uma piedade séria não está na moda e é alvo de críticas por toda parte, quando Cristo e seus seguidores são homens que causam estranheza, e ser cristão é ser como uma ave malhada, o que geralmente acontece, como podem crer aqueles cuja maior ambição é fazer boa aparência na carne?

  1. A última testemunha chamada aqui é Moisés (v. 45, etc.). Os judeus tinham grande veneração por ele e se orgulhavam de ser seus discípulos. Alegavam seguir Moisés ao se opor a Cristo, mas Cristo lhes mostra:

(1.) Que Moisés era testemunha contra os judeus incrédulos e os acusava perante o Pai: “Há um que vos acusa: Moisés.” Isso pode ser entendido de duas maneiras:

[1.] Como demonstração da diferença entre a lei e o evangelho. Moisés, isto é, a lei, acusa vocês, pois pela lei vem o conhecimento do pecado. Ela condena vocês e, para aqueles que nela confiam, é um ministério de morte e condenação.

O evangelho de Cristo, porém, não tem o desígnio de nos acusar: “Não penseis que eu vos acusarei.” Cristo não veio ao mundo como um Momo, para procurar defeitos e criar desavenças com todos, nem como espião das ações humanas ou denunciante à cata de crimes. Não: veio como advogado, não acusador; para reconciliar Deus e o homem, não para aumentar sua discórdia.

Quão insensatos eram, então, os que se apegavam a Moisés contra Cristo e desejavam ficar sob a lei! (Gálatas 4:21).

Ou [2.] como demonstração da evidente falta de fundamento da incredulidade deles: “Não penseis que apelarei de vosso tribunal ao de Deus e vos desafiarei a responder ali pelo que fazeis contra mim, como costuma fazer um inocente injustiçado.”

“Não: não preciso disso; já sois acusados e condenados no tribunal do céu. O próprio Moisés diz o bastante para declarar-vos culpados de incredulidade e condenar-vos por ela.”

Que não se enganem acerca de Cristo. Embora fosse profeta, ele não usou sua influência no céu contra os que o perseguiam. Não intercedeu contra Israel como Elias (Romanos 11:2), nem desejou, como Jeremias, ver a vingança de Deus cair sobre eles.

Também não se enganem acerca de Moisés, como se ele os apoiasse na rejeição de Cristo. Não: “Há um que vos acusa: Moisés, em quem confiais.” Repare:

Primeiro, os privilégios e vantagens exteriores costumam ser a confiança vã daqueles que rejeitam Cristo e sua graça. Os judeus confiavam em Moisés e pensavam que possuir suas leis e ordenanças os salvaria.

Em segundo lugar, os que confiam em seus privilégios sem tirar proveito deles descobrirão não apenas que sua confiança falhou, mas que esses mesmos privilégios testemunharão contra eles.

(2.) Moisés foi testemunha de Cristo e de sua doutrina (v. 46, 47): “Ele escreveu a meu respeito.” Moisés profetizou de modo particular sobre Cristo como a Descendência da mulher, a Descendência de Abraão, Siló e o grande Profeta. As cerimônias da lei de Moisés eram figuras daquele que viria.

Os judeus faziam de Moisés o defensor de sua oposição a Cristo; aqui, porém, Cristo lhes mostra seu erro. Moisés estava tão longe de escrever contra Cristo que escreveu a favor dele e a respeito dele. Mas:

[1.] Cristo acusa os judeus de não crerem em Moisés. Dissera (v. 45) que confiavam em Moisés; contudo, agora se dispõe a demonstrar que não criam nele. Confiavam em seu nome, mas não recebiam sua doutrina no verdadeiro sentido e significado. Não entendiam corretamente nem davam crédito ao que os escritos de Moisés diziam acerca do Messias.

[2.] Prova essa acusação pela incredulidade deles para com o próprio Cristo: “Se tivésseis crido em Moisés, teríeis crido em mim.” Repare, primeiro, que o teste mais seguro da fé são os efeitos que ela produz. Muitos dizem crer, mas seus atos desmentem suas palavras; se tivessem crido nas Escrituras, teriam agido de outro modo.

Segundo, aqueles que creem corretamente numa parte das Escrituras receberão todas as outras. As profecias do Antigo Testamento cumpriram-se tão plenamente em Cristo que quem o rejeitou, na prática, negou essas profecias e as deixou de lado.

[3.] Da incredulidade deles em relação a Moisés, Cristo conclui que não era de admirar que o rejeitassem: “Se não credes nos escritos dele, como crereis em minhas palavras?” Como se poderia esperar que cressem?

Primeiro: “Se não credes nos escritos sagrados, nos oráculos registrados em preto no branco, o meio mais seguro de transmissão, como crereis em minhas palavras, geralmente menos levadas em conta?”

Segundo: “Se não credes em Moisés, por quem tendes reverência tão profunda, como é provável que creiais em mim, a quem desprezais tanto?” Veja Êxodo 6:12.

Terceiro: “Se não credes no que Moisés falou e escreveu a meu respeito, testemunho forte e convincente a meu favor, como crereis em mim e em minha missão?” Se não aceitamos as premissas, como aceitaremos a conclusão?

A verdade da religião cristã, por ser matéria de revelação puramente divina, depende da autoridade divina das Escrituras. Portanto, se não cremos na inspiração divina desses escritos, como receberemos a doutrina de Cristo?


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