João 4
Argumento
Mais do que qualquer outra coisa, a glória da terra de Israel era ser a terra de Emanuel (Isaías 8:8), não apenas o lugar de seu nascimento, mas o cenário de sua pregação e de seus milagres. No tempo de nosso Salvador, essa terra se dividia em três partes: Judeia ao sul, Galileia ao norte e Samaria entre as duas.
Agora, neste capítulo, temos Cristo em cada uma dessas três partes daquela terra: I. Sua saída da Judeia (vv. 1-3). II. Sua passagem por Samaria, visita que, embora feita in transitu, ainda assim ocupa a maior parte do capítulo.
- Sua chegada a Samaria (vv. 4-6). 2. Sua conversa com a mulher samaritana junto a um poço (vv. 7-26). 3. A notícia que a mulher deu a respeito dele à cidade (vv. 27-30). 4. A conversa de Cristo com seus discípulos nesse intervalo (vv. 31-38). 5. O bom efeito disso entre os samaritanos (vv. 39-42).
III. Sua permanência por algum tempo na Galileia (vv. 43-46) e a cura, ali, do filho de um nobre, que estava à beira da morte (vv. 46-54).
Versículos 1 a 3
A Viagem de Cristo à Galileia.
Lemos da chegada de Cristo à Judeia (João 3:22) depois de ter celebrado a festa em Jerusalém. E agora deixou a Judeia quatro meses antes da colheita, como se diz aqui (v. 35).
Por isso, calcula-se que tenha permanecido na Judeia cerca de seis meses, para edificar sobre o alicerce que João havia lançado ali. Não temos relato específico de seus sermões e milagres naquele lugar, apenas em termos gerais (v. 1).
I. Que ele fez discípulos; conseguiu que muitos abraçassem sua doutrina e o seguissem como um mestre vindo de Deus. Seu ministério teve êxito apesar da oposição que encontrou (Salmos 110:2, 3). Mathetas poiei significa o mesmo que matheteuo: fazer discípulos. Compare Gênesis 12:5.
“As almas que haviam adquirido”, que haviam feito, como diz a palavra, que haviam feito prosélitos.
Repare: fazer discípulos é prerrogativa de Cristo; primeiro ele os traz aos seus pés, depois os forma e molda conforme sua vontade. Fit, non nascitur, Christianus: o cristão é feito, não nasce cristão. Tertuliano.
II. Que ele batizou aqueles a quem fez discípulos, admitindo-os ao lavá-los com água; não pessoalmente, mas pelo ministério de seus discípulos (v. 2).
Porque queria estabelecer uma diferença entre seu batismo e o de João, que batizava a todos pessoalmente: João batizava como servo; Cristo, como senhor.
Queria aplicar-se mais à obra de pregar, que era a mais excelente (1 Coríntios 1:17).
Queria honrar seus discípulos ao lhes dar poder e empregá-los nessa tarefa e, assim, prepará-los para serviços ulteriores.
Se tivesse batizado pessoalmente alguns, eles teriam sido propensos a valorizar-se por isso e desprezar os outros. Ele queria impedir isso, como Paulo (1 Coríntios 1:13, 14).
Queria reservar para si a honra de batizar com o Espírito Santo (Atos 1:5).
Queria nos ensinar que a eficácia dos sacramentos não depende de qualquer virtude na mão que os administra; e também que ele reconhece como feito por si mesmo aquilo que é feito por seus ministros segundo sua orientação.
III. Que ele fez e batizou mais discípulos do que João, não apenas mais do que João fazia naquele momento, mas mais do que havia feito em qualquer época. A conduta de Cristo era mais cativante que a de João. Seus milagres eram convincentes, e as curas que realizava gratuitamente eram muito atraentes.
IV. Que os fariseus foram informados disso. Ouviram sobre as multidões que ele batizava, pois desde sua primeira aparição mantinham sobre ele um olhar ciumento, e não lhes faltavam espiões para lhes trazer notícias a respeito dele. Observe:
Quando os fariseus pensaram ter-se livrado de João, pois nessa altura estava preso, e se alegravam com isso, aparece Jesus, que lhes era um incômodo maior do que João jamais fora. As testemunhas tornarão a levantar-se.
O que lhes causava dor era Cristo fazer tantos discípulos. O êxito do evangelho exaspera seus inimigos; é um bom sinal de que ele está ganhando terreno quando os poderes das trevas se enfurecem contra ele.
V. Que nosso Senhor Jesus sabia muito bem que denúncias haviam sido levadas contra ele aos fariseus. É provável que os informantes quisessem manter seus nomes em segredo e que os fariseus não quisessem que seus desígnios fossem conhecidos. Mas ninguém pode cavar tão fundo que consiga esconder seus conselhos do Senhor (Isaías 29:15), e Cristo é chamado aqui de Senhor.
Ele sabia o que haviam contado aos fariseus e quanto o relato provavelmente excedia a verdade. Pois não é provável que Jesus até então tivesse batizado mais que João; mas foi assim que a situação foi apresentada, para fazê-lo parecer mais temível. Veja 2 Reis 6:12.
VI. Que, por isso, nosso Senhor Jesus deixou a Judeia e partiu novamente para ir à Galileia.
- Deixou a Judeia porque ali era provável que fosse perseguido até mesmo à morte. Era tamanho o furor dos fariseus contra ele e tão ímpia sua estratégia de devorar o menino em sua infância. Para escapar aos desígnios deles, Cristo saiu da região e foi para onde suas ações causariam menos provocação do que bem sob os olhos dos fariseus. Pois:
(1.) “Sua hora ainda não havia chegado” (João 7:30): o tempo fixado nos conselhos de Deus e nas profecias do Antigo Testamento para o Messias ser eliminado. Ele não havia terminado seu testemunho e, portanto, não quis entregar-se nem se expor.
(2.) Os discípulos que reunira na Judeia não eram capazes de suportar agruras; por isso, não quis expô-los.
(3.) Com isso, deu exemplo de sua própria regra: quando perseguirem vocês em uma cidade, fujam para outra. Não somos chamados a sofrer enquanto podemos evitar o sofrimento sem pecar. Portanto, embora não possamos mudar de religião para nossa própria preservação, ainda assim podemos mudar de lugar.
Cristo se protegeu, não por um milagre, mas por um meio comum aos homens, para orientação e ânimo de seu povo que sofria.
- Partiu para a Galileia porque tinha trabalho a fazer ali, muitos amigos e menos inimigos. Foi agora para a Galileia:
(1.) Porque o ministério de João havia agora preparado ali o caminho para ele; pois a Galileia, sob a jurisdição de Herodes, foi o último cenário do batismo de João.
(2.) Porque a prisão de João abrira agora espaço para ele ali. Como aquela luz fora agora posta debaixo de um alqueire, as mentes das pessoas não ficariam divididas entre João e Cristo.
Assim, tanto as liberdades quanto as restrições dos bons ministros contribuem para o progresso do evangelho (Filipenses 1:12). Mas com que propósito ele vai à Galileia em busca de segurança? Herodes, o perseguidor de João, jamais será o protetor de Jesus.
Chemnitius repara aqui: Pii in hac vita quos fugiant habent; ad quos vero fugiant ut in tuto sint non habent, nisi ad te, Deus, qui solus refugium nostrum es: “Os piedosos têm, nesta vida, aqueles de quem fugir; mas não têm a quem recorrer que lhes possa dar refúgio, senão a ti, ó Deus.”
Versículos 4 a 26
Cristo junto ao Poço de Samaria.
Temos aqui o relato do bem que Cristo fez em Samaria, quando atravessou essa região a caminho da Galileia. Os samaritanos eram, tanto pelo sangue quanto pela religião, judeus mestiços, descendentes das colônias que o rei da Assíria instalou ali após o cativeiro das dez tribos. A elas se uniram os pobres da terra que haviam ficado e, mais tarde, muitos outros judeus.
Adoravam somente o Deus de Israel, para quem ergueram um templo no monte Gerizim, em rivalidade com o de Jerusalém. Havia grande inimizade entre eles e os judeus. Os samaritanos não receberam Cristo quando viram que ia a Jerusalém (Lucas 9:53); os judeus julgavam que não podiam insultá-lo mais do que chamando-o de samaritano.
Quando os judeus estavam em prosperidade, os samaritanos alegavam parentesco com eles (Esdras 4:2); quando estavam em angústia, porém, os samaritanos eram medos e persas. Veja Josefo, Antiq. 11.340-341; 12.257. Agora observe:
I. A chegada de Cristo a Samaria. Ele havia ordenado aos discípulos que não entrassem em nenhuma cidade dos samaritanos (Mateus 10:5), isto é, que não pregassem o evangelho nem operassem milagres. Tampouco pregou aqui publicamente ou realizou algum milagre, pois tinha em vista as ovelhas perdidas da casa de Israel.
A bondade que lhes mostrou nessa ocasião foi incidental: apenas uma migalha do pão dos filhos que, por acaso, caiu da mesa do senhor.
- Seu caminho da Judeia para a Galileia passava pela região de Samaria (v. 4): “Era-lhe necessário passar por Samaria.” Não havia outra rota, a menos que desse uma grande volta pelo outro lado do Jordão. Atualmente, os ímpios e profanos estão tão misturados ao Israel de Deus que, a não ser que saiamos do mundo, não podemos evitar a companhia deles, 1 Coríntios 5:10.
Temos, portanto, necessidade da armadura da justiça à direita e à esquerda, para não os provocarmos nem sermos contaminados por eles. Não devemos entrar em lugares de tentação, a menos que seja necessário; nesse caso, não devemos permanecer ali, mas atravessá-los depressa.
Alguns entendem que Cristo precisava passar por Samaria por causa da boa obra que tinha a realizar ali: uma pobre mulher a ser convertida, uma ovelha perdida a ser procurada e salva. Seu coração estava voltado para essa obra; e por isso, precisava seguir por esse caminho.
Foi uma felicidade para Samaria estar no caminho de Cristo, pois assim ele teve a oportunidade de visitá-los. “Quando passei por ti, disse-te: Vive”, Ezequiel 16:6.
- Sua parada para descanso ocorreu junto a uma cidade de Samaria. Agora observe:
(1.) O lugar descrito. Chamava-se Sicar; provavelmente era a mesma cidade chamada Sicém ou Siquém, da qual lemos muito no Antigo Testamento. É comum que os nomes dos lugares se alterem com o passar do tempo.
Siquém apresentou o primeiro prosélito que já entrou para a igreja de Israel (Gênesis 34:24); agora é o primeiro lugar onde o evangelho é pregado fora da comunidade de Israel. Assim observa o dr. Lightfoot, que também nota que o vale de Acor, dado como porta de esperança, esperança para os pobres gentios, passava junto à cidade, Oseias 2:15.
Abimeleque foi feito rei ali; era a sede real de Jeroboão. Mas, ao relatar as antiguidades do lugar, o evangelista destaca os bens que Jacó possuía ali, maior motivo de honra para a cidade que suas cabeças coroadas.
[1.] Ali ficava o terreno de Jacó, a porção de terra que ele deu a seu filho José, onde foram sepultados os ossos deste, Gênesis 48:22; Josué 24:32. É provável que isso seja mencionado para indicar que Cristo, ao descansar ali perto, aproveitou a ocasião oferecida pelo terreno dado por Jacó a José para meditar no bom testemunho que os antigos obtiveram pela fé.
Jerônimo escolheu viver na terra de Canaã para que a visão dos lugares o impressionasse mais com as histórias da Escritura. [2.] Ali estava o poço de Jacó, que ele cavou ou, pelo menos, usou para si e para sua família. Não encontramos menção desse poço no Antigo Testamento, mas a tradição dizia que era o poço de Jacó.
(2.) A posição de nosso Senhor Jesus nesse lugar: cansado da viagem, sentou-se assim sobre a borda do poço. Temos aqui nosso Senhor Jesus:
[1.] Suportando a fadiga comum aos viajantes. Estava cansado da viagem. Embora ainda fosse apenas a sexta hora e tivesse percorrido só metade do trajeto daquele dia, ainda assim estava cansado. Ou, justamente por ser a sexta hora, o momento de maior calor do dia, estava cansado. Aqui vemos, primeiro, que era verdadeiramente homem e sujeito às debilidades comuns da natureza humana.
O trabalho penoso veio com o pecado (Gênesis 3:19); por isso Cristo, tendo-se feito maldição por nós, sujeitou-se a ele. Segundo, que era pobre; caso contrário, poderia ter viajado a cavalo ou em carruagem. Por nossa causa, humilhou-se nessa condição de pobreza e renúncia: fazia todas as suas viagens a pé.
Quando servos andavam a cavalo, príncipes caminhavam a pé como servos sobre a terra, Eclesiastes 10:7. Quando somos transportados com conforto, lembremo-nos do cansaço de nosso Mestre.
Terceiro, ao que parece, tinha constituição delicada, não robusta. Ao que parece, seus discípulos não estavam cansados, pois entraram na cidade sem dificuldade, enquanto o Mestre se sentou e não conseguia dar mais um passo. Corpos de constituição mais fina sentem mais a fadiga e são os que menos a suportam.
[2.] Vemo-lo recorrendo ao alívio comum dos viajantes: cansado, sentou-se assim sobre a borda do poço. Primeiro, sentou-se na borda do poço, lugar desconfortável, frio e duro. Não tinha um divã nem uma cadeira confortável onde descansar; usou o que havia por perto para nos ensinar a não sermos exigentes nem requintados quanto às comodidades desta vida, mas a nos contentarmos com coisas simples.
Segundo, sentou-se assim, numa posição desconfortável; sentou-se sem cuidado, incuriose et neglectim, ou da maneira como costumam sentar-se os viajantes cansados.
II. Sua conversa com uma mulher samaritana, aqui registrada em detalhe, ao passo que sua discussão com os doutores e sua conversa com Moisés e Elias no monte foram deixadas em silêncio. Essa conversa pode ser resumida em quatro partes:
- Eles conversam sobre a água, vv. 7-15.
(1.) São registradas as circunstâncias que deram ocasião a essa conversa:
[1.] Chega uma mulher de Samaria para tirar água. Isso sugere sua pobreza, pois não tinha servo que lhe tirasse água, e sua diligência, pois faria isso pessoalmente. Veja aqui, primeiro, como Deus reconhece e aprova a diligência honesta e humilde em nossos respectivos postos. Cristo se deu a conhecer aos pastores enquanto cuidavam do rebanho.
Segundo, como a Providência divina realiza propósitos gloriosos por meio de acontecimentos que nos parecem fortuitos e acidentais. O encontro dessa mulher com Cristo junto ao poço pode nos lembrar as histórias de Rebeca, Raquel e da filha de Jetro: todas encontraram maridos, e bons maridos, não inferiores a Isaque, Jacó e Moisés, quando vieram aos poços buscar água.
Terceiro, como a graça preveniente de Deus às vezes conduz inesperadamente as pessoas aos meios de conversão e salvação. Ele é encontrado por aqueles que não o procuravam.
[2.] Seus discípulos tinham ido à cidade comprar alimento. Aprendamos daqui uma lição: primeiro, de justiça e honestidade. Cristo comprou e pagou pelo alimento que comeu, como Paulo (2 Tessalonicenses 3:8). Segundo, de dependência diária da Providência: “Não vos preocupeis com o amanhã.”
Cristo não entrou na cidade para comer, mas enviou os discípulos a buscar-lhe alimento ali. Não foi por escrúpulo de comer numa cidade samaritana, mas: 1. Porque tinha uma boa obra a realizar junto àquele poço, que poderia ser feita enquanto eles providenciavam alimento. É sábio preencher os minutos livres com o bem, para que não se percam os fragmentos do tempo.
Pedro, enquanto se preparava seu almoço, entrou em êxtase, Atos 10:10. 2. Porque receber a refeição ali, em vez de ir à cidade para isso, era mais privado e reservado, mais barato e mais simples. Talvez tivesse pouco dinheiro e quisesse nos ensinar a administrar bem os recursos, gastando de acordo com o que temos, sem ir além deles.
Pelo menos, queria nos ensinar a não buscar grandezas. Cristo podia almoçar tão bem à beira de um poço quanto na melhor hospedaria da cidade. Adaptemo-nos às nossas circunstâncias.
Agora, isso deu a Cristo a oportunidade de conversar com a mulher sobre assuntos espirituais, e ele a aproveitou. Muitas vezes pregava às multidões que se aglomeravam atrás dele em busca de instrução; aqui, porém, teve a humildade de ensinar uma única pessoa: uma mulher, uma mulher pobre, uma estrangeira, uma samaritana.
Foi para ensinar seus ministros a fazerem o mesmo, como quem sabe que realização gloriosa é ajudar a salvar da morte ainda que uma única alma.
(2.) Observemos os pormenores dessa conversa.
[1.] Jesus começa com um pedido modesto de um pouco de água: “Dá-me de beber.” Aquele que por nossa causa se fez pobre torna-se aqui um pedinte, para que os necessitados que não podem cavar não se envergonhem de pedir.
Cristo pediu água não só porque precisava dela e da ajuda da mulher para obtê-la, mas também porque queria iniciar uma conversa mais longa e nos ensinar a aceitar ajuda até das pessoas mais humildes quando necessário. Cristo continua a pedir na pessoa de seus membros pobres, e um copo de água fria dado a eles em seu nome, como esse, não perderá sua recompensa.
[2.] A mulher, embora não negue o pedido, ainda assim tem uma desavença com ele por não partilhar da atitude de seu povo (v. 9): “Como é possível?” Observe, primeiro, que inimizade mortal havia entre judeus e samaritanos: “Os judeus não se relacionam com os samaritanos.” Os samaritanos eram adversários de Judá (Esdras 4:1) e lhes causavam dano sempre que podiam.
Os judeus nutriam extrema hostilidade contra os samaritanos: “Consideravam que eles não tinham parte na ressurreição; excomungavam-nos e os amaldiçoavam pelo nome sagrado de Deus, pela gloriosa escrita das tábuas e pela maldição dos tribunais superior e inferior, com esta lei: que nenhum israelita coma coisa alguma pertencente a um samaritano, pois seria como comer carne de porco.”
Assim diz o dr. Lightfoot, citando o rabino Tanchum. Repare: as desavenças religiosas costumam ser as mais implacáveis de todas as desavenças.
As pessoas foram feitas para conviver; mas, se por adorarem em templos diferentes negam os deveres de humanidade, caridade e cortesia comum, tornando-se ásperas e desumanas, desdenhosas e prontas a censurar, sob pretexto de zelo religioso, mostram que, por mais verdadeira que seja sua religião, não são religiosas de verdade; mas, alegando defendê-la, subvertem seu desígnio.
Segundo, como a mulher estava pronta a repreender Cristo pela arrogância e a aspereza da nação judaica: “Como tu, sendo judeu, pedes de beber a mim?” Pela roupa, pela maneira de falar ou por ambas, ela sabia que ele era judeu e estranhou que não imitasse os excessos de hostilidade dos demais judeus contra os samaritanos.
Repare: os moderados de todos os lados são, como Josué e seus companheiros, “homens que causam espanto” (Zacarias 3:8). A mulher se admira de duas coisas: 1. De que ele pedisse esse favor, pois os judeus eram tão orgulhosos que suportariam quaisquer agruras antes de ficar em dívida com um samaritano.
Fazia parte da humilhação de Cristo nascer entre os judeus, nação então não só em má situação, sujeita aos romanos, mas também malvista pelos outros povos. Com que desprezo Pilatos perguntou: “Sou eu judeu?” Assim, Cristo se fez não apenas alguém sem reputação, mas alguém de má reputação; nisso, porém, deu-nos o exemplo de nadar contra a corrente das corrupções comuns.
Como nosso mestre, devemos revestir-nos de bondade e benevolência, por mais que a tendência de nosso país ou a disposição de nosso grupo sejam para a aspereza e a falta de bondade. Aquela mulher esperava que Cristo fosse como os demais judeus; mas é injusto atribuir a cada indivíduo até as faltas comuns de sua comunidade: toda regra tem exceções.
- Admira-se de que ele esperasse receber o favor dela, uma samaritana: “Vocês, judeus, o negariam a alguém de nosso povo; por que nós o concederíamos a alguém do povo de vocês?” Assim as desavenças se propagam sem fim pela vingança e pela represália.
[3.] Cristo aproveita a ocasião para instruí-la nas coisas divinas: “Se conhecesses o dom de Deus, tu terias pedido”, v. 10. Observe:
Primeiro, ele deixa de lado a objeção dela quanto à inimizade entre judeus e samaritanos e não lhe dá atenção. Algumas diferenças são melhor sanadas quando não se dá importância a elas e se evitam todas as ocasiões de discuti-las.
Cristo converterá essa mulher, não mostrando que o culto samaritano era cismático, embora de fato o fosse, mas mostrando-lhe sua própria ignorância e suas imoralidades e sua necessidade de um Salvador.
Segundo, ele a faz perceber que tinha naquele momento uma oportunidade, melhor do que imaginava, de obter algo de valor inestimável. Ela não possuía os meios que os judeus tinham para discernir os sinais dos tempos; por isso, Cristo lhe diz expressamente que aquele era seu tempo de graça, o dia de sua visitação.
a. Ele sugere o que ela deveria saber, mas ignorava: “Se conhecesses o dom de Deus”, isto é, como explicam as palavras seguintes, quem lhe dizia: “Dá-me de beber.” “Se soubesses quem eu sou.” Ela o via como judeu, viajante pobre e cansado; ele, porém, queria que soubesse algo mais a seu respeito, ainda não visível. Repare:
(a.) Jesus Cristo é o dom de Deus, o sinal mais rico do amor de Deus por nós e o tesouro mais rico de todo bem para nós: um dom, não uma dívida que poderíamos exigir de Deus, nem um empréstimo que ele mais tarde exigirá de volta, mas um dom, um dom gratuito, João 3:16.
(b.) É privilégio indizível que esse dom de Deus nos seja apresentado e oferecido e que tenhamos a oportunidade de recebê-lo: “Aquele que é o dom de Deus está agora diante de ti e se dirige a ti; é ele quem diz: ‘Dá-me de beber’; esse dom vem suplicar a ti.”
(c.) Embora Cristo seja posto diante de nós e nos suplique no evangelho e por meio dele, ainda assim há multidões que não o conhecem. Não sabem quem lhes fala no evangelho e diz: “Dá-me de beber”; não percebem que é o Senhor quem as chama.
b. Ele espera dela o que teria feito se o conhecesse: certamente não lhe teria dado resposta tão dura e desumana; ou melhor, estaria tão longe de afrontá-lo que teria dirigido seus pedidos a ele: “Tu terias pedido.” Repare:
(a.) Os que desejam receber algum benefício de Cristo precisam pedi-lo e buscá-lo com fervor em oração a Deus. (b.) Os que conhecem Cristo corretamente o buscarão; se não o buscamos, isso é sinal de que não o conhecemos, Salmos 9:10.
(c.) Cristo sabe o que teriam feito aqueles a quem faltam os meios de conhecimento, caso os tivessem recebido, Mateus 11:21.
c. Ele lhe assegura o que teria feito por ela se ela lhe tivesse pedido: “Ele te teria dado, sem te repreender como fazes comigo, água viva.” Essa água viva significa o Espírito, que não é como a água parada no fundo do poço, da qual ele pediu um pouco, mas como água viva ou corrente, muito mais valiosa. Repare:
(a.) O Espírito da graça é como água viva; veja João 7:38. Por essa imagem, as bênçãos do Messias haviam sido prometidas no Antigo Testamento, Isaías 12:3; 35:7; 44:3; 55:1; Zacarias 14:8. As graças do Espírito e seus consolos saciam a alma sedenta, que conhece sua própria natureza e necessidade.
(b.) Jesus Cristo pode dar e dará o Espírito Santo àqueles que lhe pedem, pois recebeu para poder dar.
[4.] A mulher objeta e procura falhas na comunicação graciosa que Cristo lhe fez (v. 11, 12): “Não tens com que tirar água”; além disso: “És tu maior que nosso pai Jacó?” Ela tomou literalmente o que ele dissera em linguagem figurada; Nicodemos fez o mesmo. Veja como são confusas as ideias sobre as coisas espirituais daqueles que se ocupam inteiramente das coisas palpáveis.
Ela demonstra algum respeito pela pessoa de Cristo ao chamá-lo de senhor, ou Senhor, mas pouco respeito pelo que ele disse, pois trata suas palavras com zombaria.
Primeiro, não o julga capaz de lhe fornecer água alguma, nem sequer a do poço ali ao lado: “Não tens com que tirar água, e o poço é fundo.”
Diz isso sem conhecer o poder de Cristo, pois aquele que faz subir os vapores das extremidades da terra não precisa de nada para tirar água. Mas há quem só confie em Cristo até onde consegue vê-lo e não creia em sua promessa, a menos que os meios de cumpri-la estejam visíveis; como se ele estivesse preso aos nossos métodos e não pudesse tirar água sem nossos baldes.
Ela pergunta com desdém: “De onde tens essa água viva? Não vejo de onde poderias tirá-la.” Repare:
As fontes da água viva que Cristo tem para os que vão a ele são secretas e desconhecidas. A fonte da vida está oculta com Cristo. Cristo tem o suficiente para nós, embora não vejamos de onde ele o tem.
Segundo, ela não julga possível que Cristo lhe forneça água melhor do que aquela à qual ela tinha acesso e ele não: “És tu maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço?”
a. Suponhamos verdadeira a tradição de que o próprio Jacó, seus filhos e seu gado beberam desse poço. Podemos observar nela:
(a.) O poder e a providência de Deus na permanência das fontes de água de geração em geração, pela circulação constante dos rios, como o sangue no corpo (Eclesiastes 1:7). Talvez contribuam para essa circulação o fluxo e o refluxo do mar, como as pulsações do coração.
(b.) A simplicidade do patriarca Jacó: sua bebida era água, e ele e seus filhos bebiam do mesmo poço que seu gado.
b. Mesmo admitindo que a tradição fosse verdadeira, ela se enganava em vários pontos:
(a.) Ao chamar Jacó de pai. Com que autoridade os samaritanos se consideravam descendentes de Jacó? Descendiam daquela multidão misturada que o rei da Assíria havia estabelecido nas cidades de Samaria. Que tinham eles, então, a ver com Jacó?
Por terem invadido os direitos de Israel e ocupado injustamente suas terras, seriam também herdeiros de seu sangue e de sua honra? Que alegações absurdas!
(b.) Ela se enganava ao afirmar que esse poço era uma dádiva de Jacó, quando ele não o deu mais do que Moisés deu o maná (João 6:32). Mas tendemos a chamar de doadores aqueles que apenas trazem as dádivas de Deus e a olhar tanto para as mãos por que elas passam que esquecemos a mão de onde vêm.
Jacó deu o poço a seus filhos, não aos samaritanos. Ainda assim, os inimigos da igreja não apenas usurpam seus privilégios, mas também os monopolizam.
(c.) Ela se enganava ao falar de Cristo como alguém que não era digno ser comparado a nosso pai Jacó. Uma veneração excessivamente afetuosa pela antiguidade leva a desprezar as graças de Deus nas pessoas piedosas dos nossos dias.
[5.] Cristo responde a essa objeção e demonstra que a água viva que podia dar era muito superior à do poço de Jacó (v. 13, 14). Embora ela falasse de maneira perversa, Cristo não a rejeitou, mas instruiu-a e animou-a. Ele lhe mostra:
Primeiro, que a água do poço de Jacó só oferecia satisfação e suprimento passageiros: “Quem beber desta água tornará a ter sede. Ela não é melhor que as outras águas; saciará a sede de agora, mas a sede voltará e, em poucas horas, a pessoa terá tanta necessidade e tanto desejo de água quanto antes.”
Isso indica: 1. As debilidades do nosso corpo nesta condição presente: sempre necessitado, sempre ansiando por mais. A vida é um fogo, uma lâmpada que logo se apagará sem um suprimento contínuo de combustível e azeite. O calor natural consome a si mesmo.
- As imperfeições de todos os nossos consolos neste mundo: nem eles duram, nem permanece a satisfação que nos dão. Seja qual for a água de consolo que bebamos, tornaremos a ter sede. A comida e a bebida de ontem não bastam para o trabalho de hoje.
Em segundo lugar, que as águas vivas que ele daria proporcionariam satisfação e felicidade duradouras (v. 14). As dádivas de Cristo mostram melhor seu valor quando comparadas às coisas deste mundo, pois se verá que não há comparação possível. Todo aquele que participa do Espírito da graça e dos consolos do evangelho eterno:
a. Nunca terá sede, nunca lhe faltará aquilo que satisfaz abundantemente os desejos de sua alma. Esses desejos são intensos, mas não a fazem definhar. Tem uma sede de desejo, nada além de Deus, continuamente mais e mais de Deus, mas não sofre uma sede desesperada.
b. Portanto, nunca terá sede, porque a água que Cristo dá será nele um poço de água. Quem tem dentro de si uma fonte de suprimento e satisfação jamais pode ser reduzido a uma situação extrema:
(a.) Essa fonte está sempre pronta, pois está nele. O princípio da graça plantado nele é a nascente de seu consolo; veja João 7:38. O homem bom encontra satisfação dentro de si, pois Cristo habita em seu coração.
A unção permanece nele. Não precisa recorrer furtivamente ao mundo em busca de consolo; a obra e o testemunho do Espírito em seu coração lhe dão um fundamento firme de esperança e uma fonte transbordante de alegria.
(b.) Essa fonte nunca falha, pois será nele um poço de água. Quem só tem à mão um balde de água não precisa sentir sede enquanto ele dura, mas ele logo se esgotará. Os crentes, porém, têm dentro de si um poço de água que transborda e flui sem cessar.
Os princípios e os afetos que a santa religião de Cristo forma na alma daqueles que se submetem ao poder dela são esse poço de água:
[a.] Essa água jorra, sempre em movimento, o que indica uma atuação forte e vigorosa da graça. Se as boas verdades ficam estagnadas em nossa alma, como água parada, não cumprem o propósito para o qual as recebemos. Se há um bom tesouro no coração, devemos tirar dele coisas boas.
[b.] Essa água jorra para a vida eterna. Isso indica, primeiro, os objetivos das ações da graça. Uma alma santificada mantém os olhos no céu; é isso que busca, é isso que planeja, por isso faz tudo e não se contentará com nada aquém disso. A vida espiritual jorra rumo à sua própria perfeição na vida eterna.
Em segundo lugar, a constância dessas ações: a água continuará jorrando até alcançar a perfeição. Em terceiro lugar, sua coroa: por fim, a vida eterna. A água viva vem do céu e, por isso, sobe em direção ao céu; veja Eclesiastes 1:7. Não é essa água melhor que a do poço de Jacó?
[6.] A mulher, quer por brincadeira, quer a sério, é difícil dizer, pede-lhe um pouco dessa água (v. 15): “Dá-me dessa água, para que eu não tenha sede.” Primeiro, alguns pensam que ela fala com sarcasmo e ridiculariza as palavras de Cristo como puro disparate. Por zombaria, não lhe pede, mas o desafia a dar-lhe dessa água:
“Que invenção admirável! Poupará muito do meu esforço se eu nunca mais precisar vir aqui tirar água.” Mas, em segundo lugar, outros pensam que era um desejo bem-intencionado, embora fraco e ignorante. Ela percebeu que ele falava de algo muito bom e útil e, por isso, disse amém, mesmo sem saber ao certo a quê.
“Seja o que for, que eu o receba; quem me mostrará algum bem?” O descanso ou a economia de trabalho é um bem valioso para os pobres que trabalham. Repare: 1. Até os fracos e ignorantes podem ter desejos tênues e oscilantes de Cristo e de suas dádivas e alguns bons votos pela graça e pela glória.
Os corações carnais, mesmo em seus melhores desejos, não visam nada além de fins carnais. “Dá-me dessa água”, diz ela, “não para que eu tenha a vida eterna”, como Cristo propôs, “mas para que eu não precise voltar aqui para tirá-la.”
O assunto seguinte da conversa com essa mulher diz respeito a seu marido (vv. 16-18). Cristo não levantou esse assunto para abandonar a conversa sobre a água da vida, como fazem muitos que introduzem qualquer irrelevância numa conversa para fugir de um tema sério. Mas ele o mencionou com um desígnio gracioso.
Cristo percebeu que suas palavras sobre a graça e a vida eterna haviam causado pouca impressão nela, porque ela ainda não estava convencida de seu pecado. Por isso, deixando de lado a conversa sobre a água viva, passou a despertar-lhe a consciência e a abrir a ferida da culpa; então ela compreenderia mais facilmente o remédio da graça.
Esse é o método para lidar com as almas: primeiro, elas precisam sentir-se cansadas e sobrecarregadas pelo peso do pecado; depois, ser levadas a Cristo para encontrar descanso. Primeiro são compungidas no coração; depois, curadas. Esse é o curso do tratamento espiritual; se não seguimos essa ordem, começamos pelo fim.
Observe: (1.) Com quanta discrição e decoro Cristo introduz esse assunto (v. 16): “Vai, chama teu marido e volta aqui.” Agora:
[1.] A ordem que Cristo lhe deu tinha uma aparência muito boa: “Chama teu marido, para que ele te ensine e te ajude a compreender essas coisas que desconheces tanto.” As esposas que desejam aprender devem perguntar a seus maridos (1 Coríntios 14:35), que devem morar com elas como homens de conhecimento (1 Pedro 3:7).
“Chama teu marido, para que ele aprenda contigo; para que então sejais herdeiros juntos da graça da vida. Chama teu marido, para que seja testemunha do que se passa entre nós.” Cristo quis assim ensinar-nos a cuidar do que é honesto diante de todos e a buscar aquilo que tem boa reputação.
[2.] Assim como tinha boa aparência, assim a ordem tinha um bom desígnio: por meio dela, Cristo pretendia trazer o pecado da mulher à sua memória. São necessárias habilidade e prudência ao censurar alguém; é preciso dar uma volta, como fez a mulher de Tecoa (2 Samuel 14:20).
(2.) Com quanto empenho a mulher tenta escapar do convencimento do pecado, e, contudo, sem perceber, declara-se culpada e, antes de se dar conta, admite sua falta: “Não tenho marido”, disse ela. Com isso, não queria dizer mais do que não desejava que se falasse de seu marido nem que o assunto voltasse à conversa.
Não queria que ele viesse ao poço, temendo que, no prosseguimento da conversa, a verdade aparecesse para sua vergonha. Por isso, era como se dissesse: “Por favor, continuemos a falar de outra coisa. Não tenho marido.” Queria passar por solteira ou viúva, embora, sem ter marido, não fosse nenhuma das duas coisas.
A mente carnal é muito engenhosa em afastar os convencimentos e impedir que se firmem, preocupada em encobrir o pecado.
(3.) Como nosso Senhor Jesus faz o convencimento do pecado penetrar profundamente na consciência da mulher. É provável que tenha dito mais do que está registrado aqui, pois ela pensou que ele lhe havia contado tudo quanto fizera (v. 29); o que ficou registrado, porém, diz respeito a seus maridos. Temos aqui:
[1.] Um relato surpreendente de sua conduta passada: “Tiveste cinco maridos.” Sem dúvida, Cristo queria repreendê-la por seu pecado, não por uma aflição como a de ter enterrado tantos maridos.
Ou ela cometera fuga conjugal, como diz a lei, fugira de seus maridos e se casara com outros, ou os levara a divorciar-se dela por sua conduta desobediente, impura e desleal, ou se divorciara deles por meios escusos e contrários à lei.
Os que fazem pouco caso de práticas tão escandalosas, como se não passassem de espanto por nove dias e como se a culpa passasse tão logo cessassem os comentários, devem lembrar que Cristo mantém registro de tudo.
[2.] Uma censura severa de sua condição de vida presente: “Aquele que agora tens não é teu marido.” Ou ela nunca se casara com ele, ou ele tinha outra esposa, ou, mais provavelmente, um ou mais de seus antigos maridos ainda viviam. Em suma, ela vivia em adultério.
Observe, porém, com quanta brandura Cristo lhe fala disso: não a chama de prostituta, mas diz que o homem com quem vive não é seu marido e deixa que sua consciência diga o restante. Repare: em geral, as censuras são mais proveitosas quando provocam menos.
[3.] Apesar disso, ele dá às palavras com que ela tentou esquivar-se uma interpretação mais favorável do que elas mereciam: “Disseste bem: não tenho marido”; e novamente: “Nisso disseste a verdade.” Ela pretendia negar que vivesse com alguém como se fosse seu marido, mas ele interpretou favoravelmente suas palavras ou, pelo menos, voltou-as contra ela como confissão da falta.
Repare: quem deseja ganhar almas deve interpretá-las da melhor maneira, na esperança de agir sobre a boa índole delas. Se as interpreta da pior maneira, com certeza exasperará sua má índole.
- O assunto seguinte da conversa com essa mulher é o lugar de culto (vv. 19-24). Observe:
(1.) Uma questão de consciência que a mulher apresenta a Cristo acerca do lugar de culto (v. 19, 20).
[1.] O motivo que a levou a apresentar a questão: “Senhor, percebo que és profeta.” Ela não nega a verdade daquilo de que ele a acusara; pelo silêncio, admite a justiça da censura. Tampouco reage com ira, como muitos quando lhes tocam numa ferida, nem atribui a censura à aversão geral dos judeus aos samaritanos. Antes, algo raro, aceita ouvir falar de sua falta.
Isso não é tudo; ela vai além. Primeiro, fala-lhe respeitosamente e o chama de Senhor. Assim devemos honrar aqueles que nos tratam com fidelidade. Foi esse o efeito da mansidão de Cristo ao censurá-la: ele não lhe dirigiu palavras duras, e ela também não as dirigiu a ele.
Em segundo lugar, reconhece que ele é profeta, alguém que mantém comunicação com o Céu. Repare: o poder da palavra de Cristo de sondar o coração e convencer a consciência dos pecados secretos é uma grande prova de sua autoridade divina (1 Coríntios 14:24, 25).
Em terceiro lugar, ela deseja receber instrução ulterior dele. Muitos não se iram com quem os censura nem partem para o confronto, mas ainda assim têm medo e evitam essas pessoas. Essa mulher, porém, desejava continuar a conversar com quem lhe apontara suas faltas.
[2.] A própria questão que ela apresenta acerca do lugar do culto religioso público. Alguns pensam que a levantou para desviar a conversa de seu pecado.
As controvérsias religiosas muitas vezes prejudicam bastante a piedade sincera. Ao que parece, porém, ela tinha um bom desígnio: sabia que precisava adorar a Deus e desejava fazê-lo corretamente; por isso, ao encontrar um profeta, pediu-lhe orientação.
Repare: é sábio aproveitarmos todas as oportunidades de adquirir conhecimento das coisas de Deus. Quando estamos na companhia de pessoas aptas a ensinar, devemos mostrar disposição para aprender e ter uma boa pergunta a fazer àqueles que podem dar uma boa resposta.
Judeus e samaritanos concordavam que Deus devia ser adorado: até os que eram insensatos a ponto de adorar falsos deuses não eram tão brutos a ponto de não adorar nenhum. Concordavam também que o culto religioso é assunto de grande importância. Não contenderiam a seu respeito se não se importassem com ele. A divergência era onde deveriam adorar a Deus. Observe como ela expõe a questão:
Primeiro, quanto aos samaritanos: “Nossos pais adoraram neste monte”, perto desta cidade e deste poço. Ali, Sambalate construiu o templo samaritano. Em favor desse lugar, ela insinua:
Que, fosse qual fosse o templo, o lugar era santo: o monte Gerizim, onde foram proferidas as bênçãos. Alguns pensam que é o mesmo lugar onde Abraão construiu seu altar (Gênesis 12:6, 7) e Jacó construiu o seu (Gênesis 33:18-20).
Que o lugar podia invocar o uso antigo: “Nossos pais adoraram aqui.” Ela pensa que a antiguidade, a tradição e a sucessão estão do lado deles. Uma conduta vã muitas vezes se sustenta no argumento de que foi recebida dos antepassados por tradição.
Ela, porém, tinha pouco motivo para se orgulhar dos antepassados. Quando Antíoco perseguiu os judeus, os samaritanos, por medo de participar de seus sofrimentos, não apenas negaram qualquer vínculo com eles, mas entregaram seu templo a Antíoco, pedindo que fosse dedicado a Júpiter Olímpico e chamado por seu nome (Josefo, Antiguidades 12.257-264).
Em segundo lugar, quanto aos judeus: “Vós dizeis que em Jerusalém está o lugar onde se deve adorar.” Os samaritanos seguiam os cinco livros de Moisés e, segundo alguns, só os reconheciam como canônicos.
Embora neles encontrassem referências frequentes ao lugar que Deus escolheria, ainda assim não o encontravam nomeado. Viam também que o templo de Jerusalém havia perdido muito de seu antigo esplendor; por isso, julgavam-se livres para estabelecer outro lugar, altar contra altar.
(2.) A resposta de Cristo a essa questão de consciência (v. 21, etc.). Os que procuram Cristo em busca de instrução o encontrarão manso, pronto a ensinar aos mansos seu caminho. Aqui:
[1.] Ele atribui pouca importância à questão tal como ela a apresentou, acerca do lugar de culto (v. 21): “Mulher, crê em mim como profeta e presta atenção ao que digo.”
“Esperas que chegue a hora em que, por alguma revelação divina ou alguma providência notável, essa questão seja decidida em favor de Jerusalém ou do monte Gerizim. Mas eu te digo que está próxima a hora em que isso já não será questão alguma. Aquilo a que foste ensinada a dar tanto peso será posto de lado como coisa indiferente.”
Repare: pensar que as coisas que agora nos absorvem, e sobre as quais fazemos tanto alarde, logo desaparecerão e deixarão de existir deve esfriar nossas disputas. As próprias coisas por que contendemos estão passando.
“Vem a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai.” Primeiro, pressupõe-se que o objeto da adoração continua o mesmo: Deus, como Pai. Sob essa concepção, até os pagãos adoravam a Deus; os judeus faziam o mesmo e, provavelmente, também os samaritanos.
Em segundo lugar, porém, haverá um fim para todas as minúcias e divergências acerca do lugar de culto. A dissolução próxima da ordem judaica e o estabelecimento da ordem evangélica deixarão essa questão em aberto e tornarão todos os lugares igualmente acessíveis.
Assim, será totalmente indiferente se os homens adoram a Deus em um desses dois lugares ou em qualquer outro, pois não estarão presos a lugar nenhum: nem aqui nem ali, mas em ambos e em qualquer lugar, em toda parte.
Repare: sob o evangelho, a adoração a Deus já não está vinculada a lugar algum como estava sob a lei; é vontade de Deus que os homens orem em toda parte (1 Timóteo 2:8; Malaquias 1:11).
Nossa razão nos ensina a buscar decoro e conveniência nos lugares de nosso culto; nossa religião, porém, não dá preferência a um lugar acima de outro quanto à santidade ou à aceitação por Deus.
Os que preferem um culto apenas por causa da casa ou edifício em que se realiza, ainda que seja tão magnífico e solenemente consagrado quanto foi o templo de Salomão, esquecem que chegou a hora em que Deus não fará distinção alguma, nem mesmo entre Jerusalém, tão famosa por sua santidade, e o monte de Samaria, tão infame por sua impiedade.
[2.] Ele dá importância a outras coisas no culto religioso. Ao dar tão pouca importância ao lugar de culto, não pretendia reduzir nossa preocupação com o culto em si; por isso, aproveita a ocasião para falar dele mais amplamente.
Primeiro, quanto ao estado da controvérsia naquele momento, ele decide contra o culto samaritano e a favor dos judeus (v. 22). Aqui declara:
- Que os samaritanos certamente estavam errados. Não apenas porque adoravam naquele monte, embora isso fosse pecado enquanto vigorasse a escolha de Jerusalém, mas porque erravam quanto ao objeto de seu culto.
Se o culto em si tivesse sido como deveria ter sido, a separação de Jerusalém poderia ter sido tolerada, como os lugares altos nos melhores reinados. Mas: “Vós adorais o que não conheceis”, ou aquilo que vocês não conhecem.
Adoravam o Deus de Israel, o Deus verdadeiro (Esdras 4:2; 2 Reis 17:32), mas estavam mergulhados em profunda ignorância. Adoravam-no como o Deus daquela terra (2 Reis 17:27, 33), como uma divindade local, à semelhança dos deuses das nações; Deus, porém, deve ser servido como Deus, a causa universal e o Senhor de tudo.
Repare: a ignorância está tão longe de ser mãe da devoção que é sua assassina. Os que adoram a Deus sem conhecê-lo oferecem o cego em sacrifício, e esse é o sacrifício dos insensatos.
- Que os judeus certamente estavam certos. Pois: (1.) “Nós sabemos o que adoramos. Temos fundamentos seguros para nosso culto, porque nosso povo é catequizado e formado no conhecimento de Deus, conforme ele se revelou nas Escrituras.”
Repare: aqueles que, pelas Escrituras, alcançaram algum conhecimento de Deus, conhecimento certo embora não perfeito, podem adorá-lo com consolo para si e de modo aceitável a ele, pois sabem o que adoram.
Em outro lugar, Cristo condena as corrupções do culto dos judeus (Mateus 15:9), contudo, aqui defende o próprio culto. O culto pode ser verdadeiro sem ser puro e completo. Observe: nosso Senhor Jesus teve por bem incluir-se entre os adoradores de Deus: “Nós adoramos.”
Embora fosse um Filho, e então os filhos são livres, contudo, aprendeu essa obediência nos dias de sua humilhação. Que os maiores dos homens não considerem o culto a Deus indigno de si, já que o próprio Filho de Deus não o considerou.
(2.) “A salvação vem dos judeus”; por isso, sabem o que adoram e em que fundamentos se apoiam para seu culto. Isso não quer dizer que todos os judeus fossem salvos, nem que muitos gentios e samaritanos não pudessem ser salvos, pois, em toda nação, quem teme a Deus e pratica a justiça é aceito por ele. Mas:
[1.] O autor da salvação eterna vem dos judeus, aparece entre eles (Romanos 9:5) e é enviado primeiro para abençoá-los. [2.] Os meios da salvação eterna lhes são oferecidos. “A palavra da salvação” (Atos 13:26) vinha dos judeus. Foi entregue a eles, e as outras nações a receberam por intermédio deles.
Essa era para eles uma orientação segura em suas devoções; seguiram-na e, por isso, sabiam o que adoravam. “A eles foram confiados os oráculos de Deus” (Romanos 3:2) e “o serviço de Deus” (Romanos 9:4). Sendo os judeus assim privilegiados e elevados, era presunção dos samaritanos querer rivalizar com eles.
Em segundo lugar, ele descreve o culto evangélico, o único que Deus aceitaria e que muito lhe agradaria. Depois de mostrar que o lugar é indiferente, passa a mostrar o que é necessário e essencial: adorar a Deus em espírito e em verdade (v. 23, 24).
A ênfase não deve recair sobre o lugar onde adoramos a Deus, mas sobre a disposição da mente com que o adoramos. Repare: a maneira mais eficaz de resolver divergências sobre os assuntos menores da religião é ter mais zelo pelos maiores.
Seria de se pensar que aqueles cujo zelo diário é adorar em espírito não deveriam fazer de adorá-lo aqui ou ali motivo de contenda. Cristo acabara de preferir, com justiça, o culto judaico ao samaritano, mas aqui sugere a imperfeição daquele.
O culto era cerimonial (Hebreus 9:1, 10). Os adoradores, em geral, eram carnais e alheios ao aspecto interior da adoração divina. Repare: é possível sermos melhores que os nossos vizinhos e, ainda assim, não tão bons quanto deveríamos.
Precisamos estar certos não só quanto ao objeto de nosso culto, mas também quanto à maneira de prestá-lo; é sobre isso que Cristo nos instrui aqui. Observe:
a. A grande e gloriosa revolução que introduziria essa mudança: “A hora vem, e agora é chegada”, o tempo fixo e determinado, acerca do qual há muito se decidiu quando viria e quanto duraria.
O tempo de seu surgimento é fixado até a hora, tão pontuais e exatos são os conselhos divinos. O tempo de sua duração é limitado a uma hora, tão curta e urgente é a oportunidade da graça divina (2 Coríntios 6:2).
Essa hora vem, aproximando-se em toda a sua força, esplendor e perfeição; agora existe em germe e na infância. O dia perfeito está chegando e agora começa a amanhecer.
b. A própria mudança bendita. Nos tempos do evangelho, os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. Como criaturas, adoramos o Pai de todos; como cristãos, adoramos o Pai de nosso Senhor Jesus. Agora, a mudança se dará:
(a.) Na natureza do culto. Os cristãos adorarão a Deus não por meio das observâncias cerimoniais da instituição mosaica, mas por meio de ordenanças espirituais, que consistem menos em exercício corporal e são mais animadas e revigoradas com poder e energia divinos.
A maneira de adorar instituída por Cristo é racional e intelectual, livre daqueles ritos e cerimônias exteriores com os quais o culto do Antigo Testamento era tanto obscurecido quanto sobrecarregado. Isso é chamado de culto verdadeiro em oposição ao que era tipológico. Os serviços da lei eram figuras dos verdadeiros (Hebreus 9:3, 24).
Dos que abandonaram o cristianismo para o judaísmo se diz que começam no espírito e terminam na carne (Gálatas 3:3). Essa era a diferença entre as instituições do Antigo e as do Novo Testamento.
(b.) No temperamento e na disposição dos adoradores. Assim, os verdadeiros adoradores são os bons cristãos, distintos dos hipócritas. Todos devem adorar a Deus em espírito e em verdade, e eles o farão. Isso é dito, no v. 23, como seu caráter e, no v. 24, como seu dever.
Repare: exige-se de todos os que adoram a Deus que o adorem em espírito e em verdade. Devemos adorá-lo: [a.] “Em espírito” (Filipenses 3:3). Precisamos depender do Espírito de Deus para receber força e auxílio, sujeitando nossas almas às suas influências e operações.
Devemos dedicar nossos próprios espíritos ao serviço de Deus e empregá-los nele (Romanos 1:9); adorá-lo com firmeza de pensamento e uma chama de afeto, com tudo o que há dentro de nós.
Às vezes, “espírito” indica a nova natureza, em oposição à carne, que é a natureza corrompida; assim, adorar a Deus com nossos espíritos é adorá-lo com nossas graças (Hebreus 12:28).
[b.] Em verdade, isto é, com sinceridade. Deus exige em nosso culto não só a parte interior, mas também a verdade na parte interior (Salmos 51:6). Devemos dar mais atenção ao poder do que à forma, buscar a glória de Deus, não ser vistos pelos homens, e nos aproximar com um coração verdadeiro (Hebreus 10:22).
Em terceiro lugar, ele indica os motivos pelos quais Deus deve ser adorado desse modo.
a. Porque, nos tempos do evangelho, só os que assim adoram são considerados verdadeiros adoradores. O evangelho estabelece uma forma espiritual de culto; portanto, os que professam o evangelho não são verdadeiros em sua profissão nem vivem conforme a luz e as leis do evangelho se não adoram a Deus em espírito e em verdade.
b. Porque o Pai procura pessoas que o adorem assim. Isso indica: (a.) Que esses adoradores são muito raros e dificilmente encontrados (Jeremias 30:21). A porta da adoração espiritual é estreita.
(b.) Que esse culto é necessário e é o que o Deus do céu exige. Quando Deus vier procurar adoradores, a pergunta não será: “Quem adorou em Jerusalém?”, mas: “Quem adorou em espírito?” Essa será a pedra de toque.
(c.) Que Deus se agrada muito desse culto e desses adoradores e os aceita graciosamente. “Eu o desejei” (Salmos 132:13, 14; Cantares de Salomão 2:14).
(d.) Que houve e haverá até o fim um remanescente de adoradores assim. O fato de Deus procurar tais adoradores implica que ele os torna assim. Em todas as épocas, Deus reúne para si uma geração de adoradores espirituais.
c. Porque Deus é um espírito. Cristo veio para nos declarar quem é Deus (João 1:18), e isto ele declarou a respeito dele. Declarou-o a essa pobre mulher samaritana, pois até os mais humildes precisam conhecer a Deus; e com este desígnio: corrigir os erros dela acerca do culto religioso, ao que nada contribuiria mais do que o conhecimento correto de Deus. Repare:
(a.) Deus é um espírito, pois é uma mente infinita e eterna, um ser inteligente, sem corpo, imaterial, invisível e incorruptível. É mais fácil dizer o que Deus não é do que o que ele é. Um espírito não tem carne nem ossos; mas quem conhece o caminho de um espírito? Se Deus não fosse um espírito, não poderia ser perfeito, nem infinito, nem eterno, nem independente, nem o Pai dos espíritos.
(b.) A espiritualidade da natureza divina é um motivo muito bom para a espiritualidade do culto divino. Se não adorarmos em espírito a Deus, que é um espírito, nem lhe daremos a glória devida ao seu nome e, assim, não praticaremos o ato de adoração, nem poderemos esperar seu favor e sua aceitação e, assim, não alcançaremos o fim da adoração (Mateus 15:8, 9).
- O último assunto do discurso com essa mulher diz respeito ao Messias (v. 25, 26). Observe aqui:
(1.) A fé da mulher, pela qual ela esperava o Messias: “Sei que vem o Messias”, e “ele nos dirá todas as coisas”. Ela nada tinha a objetar ao que Cristo dissera. Até onde sabia, o discurso dele podia ser digno do Messias então esperado; mas era do Messias que ela o receberia e, por enquanto, julga melhor suspender sua crença.
Assim, muitos não têm coração para o preço que têm em sua mão (Provérbios 17:16), porque pensam ter um melhor em vista. Enganam a si mesmos com a promessa de que aprenderão mais tarde aquilo que agora negligenciam. Observe aqui:
[1.] A quem ela espera: “Sei que vem o Messias.” Os judeus e os samaritanos, embora estivessem tão em desacordo, concordavam na expectativa do Messias e de seu reino. Os samaritanos recebiam os escritos de Moisés e não desconheciam os profetas nem as esperanças da nação judaica.
Os que menos sabiam tinham este conhecimento: o Messias viria. Tão geral e incontestada era a expectativa dele, e naquele tempo mais intensa do que nunca, pois o cetro se afastara de Judá e as semanas de Daniel estavam perto do fim. Assim, ela conclui não apenas que ele virá, mas erchetai: “Ele vem, está bem próximo.”
Messias, que é chamado Cristo. O evangelista, embora conserve em honra da língua sagrada e da igreja judaica a palavra hebraica Messias, que a mulher usou e que essa igreja usava habitualmente, contudo, escrevendo para uso dos gentios, cuida de traduzi-la por uma palavra grega do mesmo significado: aquele que é chamado Cristo, Ungido.
Com isso dá um exemplo da regra do apóstolo: tudo o que for dito em língua desconhecida ou menos comum deve ser interpretado (1 Coríntios 14:27, 28).
[2.] O que ela espera dele: “Ele nos dirá tudo o que precisamos saber acerca do serviço de Deus. Dirá o que suprirá nossas falhas, corrigirá nossos erros e porá fim a todas as nossas disputas. Ele nos dirá a mente de Deus de maneira plena e clara, e não reterá coisa alguma.” Agora, isso implica reconhecer:
Primeiro, a deficiência e a imperfeição da revelação da vontade divina que agora tinham e da regra que possuíam para o culto divino. Ela não podia aperfeiçoar os que dela se aproximavam; por isso, esperavam um grande avanço e aperfeiçoamento nas questões religiosas, um tempo de reforma.
Segundo, a suficiência do Messias para realizar essa mudança: “Ele nos dirá tudo o que nos falta saber e sobre o que brigamos no escuro. Trará a paz ao nos conduzir a toda a verdade e dissipar as névoas do erro.”
Parece que o consolo das pessoas boas naqueles tempos escuros era saber que a luz surgiria. Se se viam perplexas e encalhadas, era uma satisfação para elas dizer: “Quando o Messias vier, ele nos dirá todas as coisas”; assim como pode ser para nós agora com referência à sua segunda vinda: agora vemos por meio de um espelho, mas então veremos face a face.
Versículos 27 a 41
Cristo junto ao Poço de Samaria.
Temos aqui o restante do relato do que aconteceu enquanto Cristo estava em Samaria, depois do longo colóquio que teve com a mulher.
I. A interrupção dessa conversa pela chegada dos discípulos. É provável que muito mais tenha sido dito do que se registrou; mas, justamente quando a conversa chegou ao ponto decisivo, quando Cristo se revelou a ela como o verdadeiro Messias, chegaram os discípulos.
As filhas de Jerusalém não despertarão nem acordarão meu amor até que ele queira.
- Eles se admiraram de que Cristo conversasse com aquela mulher. Espantaram-se por vê-lo falar com tanto empenho, como talvez tenham observado de longe, com uma mulher desconhecida, a sós com ela, pois ele costumava ser mais reservado. E era, sobretudo, uma samaritana, que não pertencia às ovelhas perdidas da casa de Israel.
Pensavam que seu Mestre deveria manter-se tão afastado dos samaritanos quanto os outros judeus, ou, pelo menos, que não deveria pregar-lhes o evangelho. Admiraram-se de que se dignasse falar com uma mulher tão pobre e desprezada, esquecendo-se de quão desprezíveis eram eles próprios quando Cristo os chamou, pela primeira vez, à comunhão consigo.
- Ainda assim, aceitaram o que ele fazia. Sabiam que havia um bom motivo e uma boa finalidade para aquilo, dos quais ele não era obrigado a lhes prestar contas. Por isso, nenhum deles perguntou: “Que procuras?” ou “Por que falas com ela?”.
Assim, quando surgem dificuldades particulares na palavra e na providência de Deus, convém contentar-nos com esta certeza geral: é bom tudo o que Jesus Cristo diz e faz. Talvez houvesse algo de errado no espanto deles por Cristo conversar com a mulher; era um pouco semelhante à ofensa dos fariseus por ele comer com publicanos e pecadores.
Mas, fosse o que fosse que pensassem, nada disseram. Se em algum momento você pensou no mal, ponha a mão sobre a boca para impedir que o mau pensamento se torne uma palavra má (Provérbios 30:32; Salmos 39:1-3).
A notícia que a mulher deu aos seus vizinhos a respeito da pessoa extraordinária que tivera a felicidade de encontrar (v. 28, 29). Observe aqui:
- Como se esqueceu do motivo pelo qual fora ao poço (v. 28). Por isso, porque os discípulos tinham chegado e interrompido a conversa, e talvez ela percebesse que eles não gostaram daquilo, foi embora. Afastou-se por cortesia a Cristo, para que ele tivesse tempo de almoçar.
Tinha prazer em conversar com ele, mas não queria ser inconveniente; tudo é belo a seu tempo. Supôs que Jesus, depois de comer, seguiria viagem e, por isso, apressou-se a avisar seus vizinhos, para que viessem depressa. Ainda por um pouco de tempo a luz está entre vocês.
Veja como aproveitou o tempo: terminada uma boa obra, dedicou-se a outra. Quando cessam ou são interrompidas as oportunidades de receber o bem, devemos procurar ocasiões de fazer o bem. Depois de ouvir a palavra, é tempo de falar dela.
O relato chama a atenção para o fato de que ela deixou seu cântaro, ou balde. (1.) Deixou-o por bondade para com Cristo, para que ele tivesse água para beber. Ele transformou água em vinho para os outros, mas não para si mesmo. Compare isso com a cortesia de Rebeca para com o servo de Abraão (Gênesis 24:18) e veja a promessa de Mateus 10:42.
(2.) Deixou-o para correr mais depressa à cidade e levar aquelas boas notícias. Aqueles cuja tarefa é anunciar o nome de Cristo não devem se sobrecarregar nem se envolver com coisa alguma que os atrase ou impeça de fazê-lo. Quando os discípulos forem feitos pescadores de homens, precisarão deixar tudo.
(3.) Deixou seu cântaro como quem já não se importava com ele, inteiramente ocupada com coisas melhores. Repare: aqueles que chegam ao conhecimento de Cristo o demonstram por um santo desprezo deste mundo e de suas coisas.
E é preciso desculpar aqueles que acabam de conhecer as coisas de Deus se, a princípio, ficam tão absorvidos pelo novo mundo ao qual foram trazidos que as coisas deste mundo parecem, por algum tempo, inteiramente esquecidas.
O sr. Hildersham, em um de seus sermões sobre esse versículo, usa extensamente esse exemplo para justificar aqueles que deixam seus afazeres seculares durante a semana para ir ouvir sermões.
- Como se dedicou à tarefa que tinha na cidade, pois seu coração estava nela. Foi à cidade e falou aos homens, provavelmente aos magistrados, aos homens de autoridade, que talvez tivesse encontrado reunidos para tratar de algum assunto público; ou aos homens, isto é, a cada homem que encontrou nas ruas.
Anunciou a notícia nos principais lugares de reunião: “Vinde ver um homem que me disse tudo quanto já fiz. Não é este o Cristo?” Observe:
(1.) Como estava ansiosa para que seus amigos e vizinhos conhecessem Cristo. Ao encontrar aquele tesouro, reuniu seus amigos e vizinhos, como em Lucas 15:9, não só para se alegrarem com ela, mas para partilharem dele, pois sabia que havia o suficiente para enriquecê-la e a todos os que quisessem participar.
Repare: aqueles que estiveram com Jesus e encontraram nele consolo devem fazer tudo o que puderem para levar outros a ele. Ele nos concedeu a honra de se dar a conhecer a nós? Concedamos-lhe a honra de fazê-lo conhecido de outros; e não poderíamos conceder maior honra a nós mesmos.
Essa mulher torna-se uma apóstola. Quæ scortum fuerat egressa, regreditur magistra evangelica: aquela que saiu como exemplo de impureza volta como mestra da verdade evangélica, diz Arécio. Cristo lhe havia dito que chamasse o marido; ela considerou isso autorização suficiente para chamar todos.
Foi à cidade onde morava, entre seus parentes e conhecidos. Embora seja meu próximo toda pessoa a quem tenho oportunidade de fazer o bem, ainda assim tenho mais oportunidades e, por isso, maior obrigação de fazê-lo àqueles que moram perto de mim. Onde a árvore cair, ali seja aproveitada.
(2.) Como foi justa e franca ao dar-lhes notícia daquele desconhecido que encontrara. [1.] Disse claramente o que a levou a admirá-lo: “Ele me disse tudo quanto já fiz.” Não se registrou mais do que ele lhe disse a respeito de seus maridos, mas não é improvável que lhe tenha falado de outras faltas.
Ou, ao contar-lhe algo que ela sabia que ele não poderia ter conhecido por nenhum meio comum, ele a convenceu de que poderia contar-lhe tudo o que já fizera. Se ele tem conhecimento divino, esse conhecimento deve ser onisciente. Disse-lhe o que ninguém sabia além de Deus e da consciência dela. Duas coisas a impressionaram:
Primeiro, a extensão do conhecimento dele. Nós mesmos não podemos contar tudo quanto já fizemos, pois muitas coisas passam despercebidas, e ainda mais coisas passam e são esquecidas. Jesus Cristo, porém, conhece todos os pensamentos, palavras e atos de todos os seres humanos; veja Hebreus 4:13. Ele disse: “Conheço tuas obras.”
Segundo, o poder de sua palavra. Impressionou-a profundamente que ele lhe revelasse os pecados secretos com poder e energia tão extraordinários que, tendo sido informada de um, ficou convencida de todos e julgada em relação a todos.
Ela não diz: “Venham ver um homem que me contou coisas extraordinárias sobre o culto religioso e suas leis, que resolveu a controvérsia entre este monte e Jerusalém, um homem que se diz o Messias”; mas: “Venham ver um homem que me falou dos meus pecados.”
Agarra-se à parte da conversa de Cristo que, ao que se poderia pensar, mais hesitaria em repetir. Mas as provas vividas do poder da palavra e do Espírito de Cristo são as mais fortes e convincentes de todas; e o conhecimento de Cristo ao qual somos conduzidos pelo convencimento do pecado e pela humilhação tem mais probabilidade de ser sólido e salvador.
[2.] Convida-os a vir e ver aquele de quem formara tão alta opinião. Não apenas: “Venham olhar para ele”, pois não os convida a vê-lo como espetáculo, mas: “Venham conversar com ele; venham ouvir sua sabedoria, como eu fiz, e pensarão como eu.”
Ela não se propôs a expor as razões que a haviam convencido de maneira a convencer também os outros. Nem todos os que enxergam por si mesmos as provas da verdade conseguem fazer que outros as enxerguem. Mas: “Venham falar com ele e encontrarão em sua palavra um poder que supera de longe todas as outras provas.”
Repare: aqueles que pouco mais podem fazer para convencer e converter outras pessoas podem e devem levá-las aos meios da graça que consideraram eficazes para si. Jesus estava então nos arredores da cidade. “Venham vê-lo agora.”
Quando as oportunidades de conhecer a Deus chegam à nossa porta, não temos desculpa se as negligenciamos. Não cruzaremos a soleira para ver aquele cujo dia profetas e reis desejaram ver?
[3.] Decide deixá-los julgar por si mesmos, segundo o que pensarem depois de examiná-lo. “Não é este o Cristo?” Ela não afirma categoricamente: “Ele é o Messias”, por mais convicta que estivesse em seu íntimo. Ainda assim, menciona com muita prudência o Messias, em quem, de outro modo, eles não teriam pensado, e deixa a conclusão a cargo deles.
Não lhes impõe sua fé; apenas a apresenta. Apelos tão francos e, ao mesmo tempo, tão fortes quanto esse às vezes alcançam o entendimento e a consciência das pessoas antes mesmo que percebam.
(3.) O resultado de seu convite: “Saíram da cidade e foram ter com ele” (v. 30). Embora parecesse muito improvável que uma mulher de tão pouca importância e reputação tão ruim tivesse a honra de revelar primeiro o Messias aos samaritanos, ainda assim Deus teve por bem inclinar-lhes o coração para dar atenção ao relato dela e não desprezá-lo como uma história vã.
Houve um tempo em que leprosos foram os primeiros a levar a Samaria a notícia de uma grande libertação (2 Reis 7:3, etc.). Eles foram até Cristo. Não o mandaram chamar à cidade, mas saíram para encontrá-lo, como sinal de respeito por ele e do ardente desejo de vê-lo. Quem deseja conhecer Cristo deve encontrá-lo onde ele registra seu nome.
III. A conversa de Cristo com os discípulos enquanto a mulher estava ausente (vv. 31-38). Veja como nosso Senhor Jesus se empenhava em aproveitar o tempo, administrar cada minuto e preencher todos os intervalos.
Quando os discípulos tinham ido à cidade, sua conversa com a mulher era edificante e adequada à situação dela. Quando foi ela à cidade, sua conversa com eles foi igualmente edificante e adequada à situação deles. Seria bom se pudéssemos assim recolher os fragmentos do tempo, para que nada se perdesse. Duas coisas merecem atenção nessa conversa:
- Como Cristo expressa o prazer que ele próprio tinha em sua obra. Sua obra era buscar e salvar o perdido, andar por toda parte fazendo o bem. Aqui o vemos inteiramente ocupado com essa obra. Pois:
(1.) Por causa de sua obra, deixou de lado a comida e a bebida. Quando se sentou junto ao poço, estava cansado e precisava de alimento; mas aquela oportunidade de salvar almas o fez esquecer o cansaço e a fome. Pensou tão pouco em comer que:
[1.] Os discípulos precisaram convidá-lo a isso. Rogaram-lhe, insistiram: “Mestre, come.” Era prova do amor deles que o convidassem, para que ele não desfalecesse nem adoecesse por falta de sustento; mas era prova maior do amor dele pelas almas que precisasse ser convidado.
Aprendamos daí a ter santo desprendimento até das coisas necessárias à manutenção da vida, quando comparadas às espirituais.
[2.] Pensou tão pouco em comer que os discípulos suspeitaram que alguém lhe tivesse trazido alimento na ausência deles (v. 33): “Alguém lhe trouxe algo para comer?” Tinha tão pouco apetite para o almoço que eles estavam prontos a crer que já tivesse comido.
Aqueles que fazem da religião sua ocupação, quando algum assunto dela precisa de atenção, darão preferência a ele sobre a própria comida. Assim fez o servo de Abraão, que não comeu antes de explicar sua missão (Gênesis 24:33), e Samuel, que não se sentou antes de Davi ser ungido (1 Samuel 16:11).
(2.) Fez de sua obra sua comida e bebida. A obra que tinha a realizar entre os samaritanos, a perspectiva de fazer o bem a muitos, era para ele comida e bebida: o maior prazer e satisfação imagináveis.
Jamais um homem faminto, ou um apreciador de iguarias, aguardou um banquete farto com tanto desejo ou saboreou suas iguarias com tanto prazer quanto nosso Senhor Jesus esperou e aproveitou uma oportunidade de fazer o bem às almas. A esse respeito, ele diz:
[1.] Que era uma comida da qual os discípulos nada sabiam. Eles não imaginavam que ele tivesse qualquer desígnio ou perspectiva de plantar seu evangelho entre os samaritanos. Era uma forma de fazer o bem na qual jamais haviam pensado.
Repare: Cristo, por meio de seu evangelho e de seu Espírito, faz às almas das pessoas mais bem do que seus próprios discípulos sabem ou esperam. Pode-se dizer também dos bons cristãos que vivem pela fé que têm comida para comer da qual os outros nada sabem, uma alegria da qual o estranho não participa.
Agora, essa declaração os levou a perguntar: “Alguém lhe trouxe algo para comer?” Até os próprios discípulos tendiam a compreendê-lo de maneira corporal e carnal quando ele usava comparações.
[2.] Que o motivo pelo qual sua obra era sua comida e bebida era o fato de ser a obra e a vontade de seu Pai: “Minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou” (v. 34). Repare:
Primeiro, a salvação dos pecadores é a vontade de Deus, e instruí-los para esse fim é sua obra; veja 1 Timóteo 2:4. Há um remanescente escolhido cuja salvação é, de modo particular, sua vontade.
Segundo, Cristo foi enviado ao mundo com essa missão: levar as pessoas a Deus, para que o conheçam e sejam felizes nele.
Terceiro, fez dessa obra sua ocupação e seu prazer. Quando seu corpo precisava de alimento, sua mente estava tão ocupada com ela que se esqueceu tanto da fome quanto da sede, tanto da comida quanto da bebida. Nada lhe era mais agradável do que fazer o bem; quando era convidado para comer, ia para fazer o bem, pois esta era sempre sua comida.
Quarto, não apenas estava sempre pronto a dedicar-se à obra, mas também se empenhava e tinha zelo por levá-la adiante e concluí-la em todas as suas partes. Decidira jamais abandoná-la ou deixá-la de lado até poder dizer: “Está terminado.”
Muitos têm zelo suficiente para começar, mas não para continuar até o fim; nosso Senhor Jesus, porém, estava decidido a terminar sua obra. Nisso nosso Mestre nos deixou um exemplo, para aprendermos a fazer a vontade de Deus como ele fez:
Com diligência e dedicação constante, como quem faz dela uma ocupação. 2. Com prazer e alegria, como quem está em seu elemento. 3. Com constância e perseverança, não apenas procurando fazer nossa obra, mas procurando concluí-la.
Veja aqui como Cristo, depois de expressar o prazer que tem em sua obra, estimula seus discípulos a serem diligentes na deles. Eles trabalhavam com ele e, por isso, deveriam trabalhar como ele, fazendo da obra seu alimento, como ele fazia. Cabia-lhes pregar o evangelho e estabelecer o reino do Messias.
Agora, ele compara essa obra à colheita, o recolhimento dos frutos da terra, e desenvolve essa comparação por todo o discurso (vv. 35-38). Repare: o tempo do evangelho é tempo de colheita, e a obra do evangelho é trabalho de colheita.
A colheita é designada e esperada de antemão; o mesmo aconteceu com o evangelho. O tempo da colheita é tempo de muito serviço: todas as mãos devem estar ocupadas. Cada pessoa precisa trabalhar por si, para que possa colher das graças e dos consolos do evangelho; os ministros precisam trabalhar para Deus, recolhendo almas para ele.
O tempo da colheita é uma oportunidade curta e limitada, que não durará para sempre; e o trabalho da colheita precisa ser feito então ou nunca mais. Assim, o tempo em que se desfruta o evangelho é uma época específica, que deve ser aproveitada para os fins a que se destina. Uma vez passada, não pode ser recuperada.
Os discípulos deviam recolher para Cristo uma colheita de almas. Agora, ele lhes sugere aqui três coisas para lhes avivar a diligência:
(1.) Que era uma obra necessária, e a ocasião para realizá-la era muito urgente e premente (v. 35): Vocês dizem: faltam quatro meses para a colheita. Mas eu digo: os campos já estão brancos. Temos aqui:
[1.] Uma afirmação dos discípulos de Cristo sobre a colheita dos cereais: ainda faltam quatro meses e, então, vem a colheita. Isso pode ser entendido ou de modo geral: “Vocês dizem, para animar o semeador na época da semeadura, que faltarão apenas quatro meses para a colheita.”
Entre nós, há só cerca de quatro meses entre a semeadura e a colheita da cevada; provavelmente acontecia o mesmo entre eles com outros grãos. Ou se pode entender em particular: “Agora vocês calculam que faltam quatro meses para a próxima colheita, segundo o curso habitual da providência.”
A colheita dos judeus começava na Páscoa, por volta da Páscoa cristã, muito mais cedo no ano do que a nossa. Por isso, parece que essa viagem de Cristo da Judeia à Galileia ocorreu no inverno, por volta do fim de novembro, pois ele viajava sob quaisquer condições do tempo para fazer o bem.
Deus não apenas nos prometeu uma colheita a cada ano, mas também designou as semanas da colheita, de modo que sabemos quando esperá-la e tomamos nossas medidas de acordo.
[2.] Uma afirmação de Cristo sobre a colheita do evangelho. Seu coração estava tão voltado aos frutos de seu evangelho quanto os corações de outros estavam voltados aos frutos da terra; e ele queria dirigir para isso os pensamentos de seus discípulos: Olhem, os campos já estão brancos para a colheita.
Primeiro, aqui neste lugar, onde estavam agora, havia trabalho de colheita para ele realizar. Os discípulos queriam que ele comesse (v. 31). “Comer!”, diz ele, “tenho outra obra a fazer, mais necessária. Vejam que multidões de samaritanos vêm da cidade pelos campos, prontas para receber o evangelho.” Provavelmente muitos estavam agora à vista.
A prontidão das pessoas para ouvir a palavra é grande estímulo para a diligência e a vivacidade dos ministros ao pregá-la.
Segundo, em outros lugares, por toda a região, havia trabalho de colheita suficiente para todos. “Considerai as regiões, pensai no estado do país, e verificareis que há multidões tão prontas para receber o evangelho quanto um campo de cereais plenamente maduro está pronto para ser ceifado.” Os campos foram agora tornados brancos para a colheita:
- Pelo decreto de Deus, revelado nas profecias do Antigo Testamento. Chegara o tempo em que os povos se reuniriam a Cristo (Gênesis 49:10), em que muitos seriam acrescentados à igreja e seus limites seriam ampliados; por isso, era hora de trabalhar.
É um grande motivo de ânimo para nos envolvermos em qualquer obra para Deus, se entendermos, pelos sinais dos tempos, que esta é a ocasião própria para ela, pois então prosperará.
- Pela disposição dos homens. João Batista preparara um povo pronto para o Senhor (Lucas 1:17). Desde que ele começara a pregar o reino de Deus, todos se esforçavam para entrar nele (Lucas 16:16).
Era, portanto, tempo de os pregadores do evangelho se aplicarem à sua obra com o máximo vigor, de lançarem sua foice, quando a colheita estava madura (Apocalipse 14:15). Era necessário trabalhar agora; seria uma pena deixar passar tal ocasião.
Se o cereal maduro não for ceifado, soltará os grãos e se perderá, e as aves os recolherão. Se as almas que estão sob convencimentos e têm algumas boas inclinações, não forem ajudadas agora, seu começo promissor não dará em nada, e elas serão presa de quem alega.
Também era fácil trabalhar agora: quando os corações das pessoas estão preparados, a obra será feita repentinamente (2 Crônicas 29:36). Isso não pode deixar de avivar os ministros a se empenharem na pregação da palavra quando percebem que as pessoas têm prazer em ouvi-la.
(2.) Que era uma obra proveitosa e vantajosa, da qual eles próprios receberiam ganho (v. 36): “Quem colhe recebe salário, e vocês também receberão.” Cristo assumiu o compromisso de pagar bem aos que emprega em sua obra.
Pois jamais fará como Jeoaquim, que se serviu do trabalho de seu próximo sem pagar salário (Jeremias 22:13), ou como os que retiveram fraudulentamente o pagamento dos trabalhadores, em particular dos que ceifaram seus campos de cereais (Tiago 5:4).
Os ceifeiros de Cristo, embora clamem a ele dia e noite, nunca terão motivo para clamar contra ele nem para dizer que serviram a um Mestre severo. Quem ceifa não só receberá salário, mas o recebe. Há uma recompensa presente no serviço de Cristo, e sua obra é sua própria paga.
[1.] Os ceifeiros de Cristo têm fruto: “Recolhe fruto para a vida eterna”, isto é, salvará tanto a si mesmo quanto aos que o ouvem (1 Timóteo 4:16). Se o ceifeiro fiel salvar a própria alma, esse é fruto que abunda à sua conta, fruto recolhido para a vida eterna.
E, se além disso ele for instrumento para salvar também as almas de outros, há fruto recolhido. As almas reunidas a Cristo são fruto, bom fruto, o fruto que Cristo procura (Romanos 1:13). É fruto recolhido para Cristo (Cantares de Salomão 8:11, 12), recolhido para a vida eterna.
Este é o consolo dos ministros fiéis: sua obra tende à salvação eterna de almas preciosas.
[2.] Eles têm alegria: Para que aquele que semeia e os que ceifam se alegrem juntos. O ministro que é o instrumento feliz do começo de uma boa obra é o semeador, como João Batista; aquele que é empregado para continuá-la e aperfeiçoá-la é o ceifeiro. Ambos se alegrarão juntos. Repare:
Primeiro, embora Deus deva receber toda a glória pelo êxito do evangelho, contudo, os próprios ministros fiéis podem encontrar consolo nele. Os ceifeiros participam da alegria da colheita, embora os lucros pertençam ao senhor (1 Tessalonicenses 2:19).
Segundo, os ministros que têm dons e tarefas diferentes deveriam estar tão longe de invejar uns aos outros que, em vez disso, deveriam alegrar-se mutuamente com o êxito e a utilidade de cada um.
Embora nem todos os ministros de Cristo prestem o mesmo serviço nem tenham o mesmo êxito, contudo, se obtiveram do Senhor misericórdia para serem fiéis, todos entrarão juntos, no fim, na alegria de seu Senhor.
(3.) Que era uma obra fácil, já meio feita para eles pelos que os haviam precedido: “Um semeia, e outro colhe” (v. 37, 38). Às vezes, isso indica um juízo doloroso contra o semeador (Miquéias 6:15; Deuteronômio 28:30): Você semeará, e outro colherá, como em Deuteronômio 6:11: “Casas cheias de todo bem, que tu não encheste.” É o que ocorre aqui.
Moisés, os profetas e João Batista prepararam o caminho para o evangelho; semearam a boa semente da qual os ministros do Novo Testamento, na prática, apenas recolheram o fruto. Envio vocês para colher aquilo em que, comparativamente, não trabalharam. Isaías 40:3-5. [1.] Isso indica duas coisas a respeito do ministério do Antigo Testamento:
Primeiro, ficou muito aquém do ministério do Novo Testamento. Moisés e os profetas semearam, mas não se podia dizer que colheram, pois viram tão pouco do fruto de seu trabalho. Seus escritos fizeram muito mais bem depois que partiram do que sua pregação jamais fizera.
Segundo, foi muito útil ao ministério do Novo Testamento e lhe abriu o caminho. Os escritos dos profetas, lidos nas sinagogas todos os sábados, despertaram a expectativa das pessoas pelo Messias e as prepararam para recebê-lo de bom grado.
Se não fosse a semente lançada pelos profetas, essa mulher samaritana não poderia ter dito: Sabemos que vem o Messias. Sob alguns aspectos, os escritos do Antigo Testamento são mais úteis a nós do que poderiam ter sido aos primeiros destinatários, pois seu cumprimento nos permite entendê-los melhor; veja 1 Pedro 1:12; Hebreus 4:2; Romanos 16:25, 26.
[2.] Isso também indica duas coisas a respeito do ministério dos apóstolos de Cristo. Primeiro, foi um ministério frutífero. Eram ceifeiros que recolheram para Jesus Cristo uma grande colheita de almas e, em sete anos, fizeram mais pelo estabelecimento do reino de Deus entre as pessoas do que os profetas do Antigo Testamento haviam feito no dobro desse número de eras.
Segundo, seu ministério foi muito facilitado, sobretudo entre os judeus, aos quais primeiro foram enviados, pelos escritos dos profetas. Os profetas semearam em lágrimas, clamando: “Trabalhamos em vão”; os apóstolos colheram com alegria, dizendo: “Graças a Deus, que sempre nos faz triunfar.”
Repare: do trabalho dos ministros que morreram pode ser recolhido muito bom fruto, tanto pelas pessoas que lhes sobrevivem quanto pelos ministros que lhes sucedem. João Batista e aqueles que o ajudaram trabalharam; os discípulos de Cristo entraram em seu trabalho, edificaram sobre seu fundamento e colheram o fruto do que haviam semeado.
Veja quantos motivos temos para bendizer a Deus por aqueles que vieram antes de nós, por sua pregação e seus escritos, pelo que fizeram e sofreram em seus dias. Entramos em seu trabalho; seus estudos e serviços facilitaram o nosso.
E, quando os trabalhadores antigos e os recentes, os que entraram na vinha à terceira hora e os que chegaram à décima primeira, se encontrarem no dia de prestar contas, estarão tão longe de invejar a honra do serviço uns dos outros que os que semearam e os que colheram se alegrarão juntos. E o grande Senhor da colheita receberá toda a glória.
IV. O bom efeito que teve entre os samaritanos essa visita de Cristo, feita en passant, de passagem, e o fruto que agora foi imediatamente recolhido entre eles (vv. 39-42). Veja as impressões que lhes foram causadas:
- Pelo testemunho da mulher a respeito de Cristo. Embora fosse um testemunho isolado, dado por alguém de má reputação e que não passava disto: ele me disse tudo quanto já fiz, ainda assim teve boa influência sobre muitos.
Poderíamos pensar que o fato de ele ter revelado os pecados secretos da mulher os deixaria com medo de procurá-lo, receando que lhes revelasse também as faltas. Mas preferiram correr esse risco a deixar de conhecer alguém que tinham motivos para considerar profeta. Chegaram, assim, a duas atitudes:
(1.) Deram crédito à palavra de Cristo (v. 39): “Muitos samaritanos daquela cidade creram nele por causa da palavra da mulher.” Creram nele a ponto de tê-lo por profeta e desejarem conhecer por seu intermédio a mente de Deus; isso é interpretado favoravelmente como crer nele. Agora observe:
[1.] Quem eram os que creram: muitos dos samaritanos, que não pertenciam à casa de Israel. Sua fé não só agravava a incredulidade dos judeus, dos quais se poderia esperar mais, como também era um penhor da fé dos gentios, que acolheriam aquilo que os judeus rejeitavam.
[2.] O que os levou a crer: a palavra da mulher. Veja aqui, primeiro, como às vezes Deus tem por bem usar instrumentos muito fracos e improváveis para iniciar e levar adiante uma boa obra. Uma menina encaminhou um grande príncipe a Eliseu (2 Reis 5:2).
Segundo, como um pequeno fogo incendeia tanta coisa. Nosso Salvador, ao instruir uma pobre mulher, espalhou o ensino por toda uma cidade. Que os ministros não preguem com descuido nem se desanimem porque seus ouvintes são poucos e humildes. Ao fazer-lhes o bem, poderão levá-lo também a outros, inclusive a pessoas de maior importância.
Se cada um ensinar seu próximo e seu irmão, muitos poderão aprender indiretamente. Filipe pregou o evangelho a um único homem importante em sua carruagem, à beira do caminho; ele não só o recebeu como também o levou ao seu país e ali o propagou.
Terceiro, veja como é bom falar de Cristo e das coisas de Deus com base na própria experiência. A mulher podia dizer pouco sobre Cristo, mas dizia com convicção o que sabia: “Ele me disse tudo quanto já fiz.” Os que têm mais probabilidade de fazer o bem são os que podem contar o que Deus fez por sua alma (Salmos 66:16).
(2.) Foram levados a pedir que ele permanecesse entre eles (v. 40): Quando chegaram até ele, rogaram-lhe que ficasse com eles. Pelo relato da mulher, creram que era profeta e foram até ele. Ao vê-lo, sua aparência humilde e a pobreza evidente de sua condição exterior não diminuíram a estima que lhe tinham nem suas expectativas a seu respeito; continuaram a respeitá-lo como profeta.
Repare: há esperança para os que superaram os preconceitos comuns contra o verdadeiro mérito em condição humilde. Benditos os que não se ofendem com Cristo à primeira vista. Tão longe estavam de se ofender com ele que lhe rogaram que permanecesse entre eles:
[1.] Para testemunhar-lhe respeito e tratá-lo com a honra e bondade devidas à sua posição. Os profetas e ministros de Deus são hóspedes bem-vindos para todos os que acolhem sinceramente o evangelho, como foram para Lídia (Atos 16:15).
[2.] Para receber instrução dele. Os que são ensinados por Deus, na verdade, desejam aprender mais e conhecer melhor a Cristo. Muitos teriam corrido atrás de alguém que lhes lesse o futuro; estes, porém, correram atrás de quem lhes apontaria as faltas, lhes falaria do pecado e do dever.
O historiador parece dar ênfase ao fato de que eram samaritanos, como em Lucas 10:33 e Lucas 17:16. Os samaritanos não tinham a mesma reputação religiosa dos judeus. Contudo, os judeus, que viram os milagres de Cristo, o expulsaram; os samaritanos, que não viram seus milagres nem participaram dos favores que ele concedera, convidaram-no para ficar.
A prova do êxito do evangelho nem sempre corresponde ao que parece provável, nem a experiência ao que se espera, em qualquer direção. O costume de sua terra ensinava os samaritanos a evitar a comunhão com os judeus.
Houve samaritanos que não permitiram que Cristo atravessasse sua cidade (Lucas 9:53), mas estes lhe rogaram que ficasse com eles. Repare: nosso amor a Cristo e à sua palavra é tanto mais digno de louvor quando vence os preconceitos da educação e dos costumes e dá pouca importância à censura das pessoas. Agora nos é dito que Cristo atendeu ao pedido deles.
Primeiro, permaneceu ali. Embora fosse uma cidade samaritana, perto do templo deles, ainda assim ficou quando foi convidado. Embora estivesse viajando e ainda tivesse caminho pela frente, ainda assim permaneceu por ter ali uma oportunidade de fazer o bem. Não é impedimento real aquilo que favorecerá nossa prestação de contas.
Contudo, ficou ali apenas dois dias, pois tinha outros lugares a visitar e outra obra a fazer. Esses dois dias foram a parcela que coube àquela cidade entre os poucos dias da permanência de nosso Salvador na terra.
Em segundo lugar, é-nos dito que impressão a própria palavra de Cristo e a comunhão pessoal com ele causaram neles (v. 41, 42). Não se relata o que ele disse e fez ali, nem se curou ou não os enfermos. Mas o resultado indica que disse e fez coisas que os convenceram de que ele era o Cristo; e o bom fruto do trabalho de um ministro é o melhor relato desse trabalho.
O que ouviram a seu respeito produziu bom efeito neles, mas agora seus olhos o viam. O resultado foi:
- Que seu número aumentou (v. 41): “Muitos outros creram.” Muitos que não se haviam deixado convencer a sair da cidade para encontrá-lo foram, quando ele veio para o meio deles, persuadidos a crer nele.
Repare: é consolador ver o número dos crentes. Às vezes, o zelo e a prontidão de alguns levam muitos outros a agir e os despertam para uma santa emulação (Romanos 11:14).
- Que sua fé cresceu. Aqueles que haviam sido tocados pelo relato da mulher agora tinham motivos para dizer: “Agora cremos, não por causa do que você nos disse” (v. 42). Sua fé cresceu em três aspectos:
(1.) Em seu conteúdo, ou naquilo em que criam. Pelo testemunho da mulher, criam que ele era profeta ou algum mensageiro extraordinário vindo do céu. Mas agora, depois de conversar com ele, creem que é o Cristo, o Ungido, precisamente aquele que fora prometido aos antepassados e esperado por eles.
Creem também que, sendo o Cristo, ele é o Salvador do mundo, pois a obra para a qual foi ungido era salvar seu povo de seus pecados. Creem que é o Salvador não só dos judeus, mas do mundo, o que esperavam que os incluísse, embora fossem samaritanos; pois fora prometido que ele seria a salvação até os confins da terra (Isaías 49:6).
(2.) Na certeza. Sua fé agora chegou à plena convicção: “Sabemos que este é de fato o Cristo.” Alethos, na verdade: não um suposto Cristo, mas um real; não um salvador figurativo, como muitos no Antigo Testamento, mas um Salvador na verdade.
Devemos buscar essa certeza acerca das verdades divinas. Não basta dizer: “Achamos provável e estamos dispostos a supor que Jesus seja o Cristo”, mas: “Sabemos que ele é de fato o Cristo.”
(3.) Em seu fundamento, uma espécie de percepção e experiência espiritual: “Agora cremos, não por causa do que você nos disse, pois nós mesmos o ouvimos.” Antes criam por causa das palavras dela, e isso era bom, um passo positivo. Agora, porém, encontram para sua fé uma base ulterior e muito mais firme:
“Agora cremos porque nós mesmos o ouvimos. Ouvimos verdades tão excelentes e divinas, acompanhadas de poder e evidência tão irresistíveis, que estamos plenamente satisfeitos e certos de que este é o Cristo.”
Isso se assemelha ao que a rainha de Sabá disse a respeito de Salomão (1 Reis 10:6, 7): “A metade não me foi contada.” Os samaritanos que creram pelas palavras da mulher receberam luz ulterior; pois a quem tem será dado, e a quem é fiel no pouco se confiará mais. Nesse exemplo vemos como a fé vem pelo ouvir:
[1.] A fé nasce ao ouvir o relato das pessoas. Por causa das palavras da mulher, aqueles samaritanos creram o suficiente para ir e ver, para experimentar por si mesmos.
Assim, a instrução dos pais e pregadores, o testemunho da igreja e dos nossos vizinhos experientes nos apresentam a doutrina de Cristo, levando-nos a conhecê-la e a considerá-la muito provável.
Mas [2.] a fé cresce, ganha força e amadurece ao ouvir o testemunho do próprio Cristo. Esse testemunho vai mais longe: recomenda sua doutrina à nossa aceitação e nos obriga a crer nela como indubitavelmente certa.
As palavras daqueles que nos contaram ter encontrado a vida eterna nas Escrituras nos levaram a examiná-las. Mas, quando nós também a encontramos nelas e experimentamos o poder da palavra para iluminar, convencer do pecado, regenerar, santificar e consolar, então cremos não por causa do que nos disseram, mas porque nós mesmos as examinamos.
E nossa fé não se apoia na sabedoria humana, mas no poder de Deus (1 Coríntios 2:5; 1 João 5:9, 10).
Versículos 43 a 54
O Filho do Nobre Restabelecido.
Nestes versículos temos:
I. A chegada de Cristo à Galileia (v. 43). Embora fosse tão bem-vindo entre os samaritanos quanto poderia ser em qualquer lugar, e tivesse maior êxito, ainda assim depois de dois dias ele os deixou.
Ele partiu não tanto por serem samaritanos ou para evitar reforçar o preconceito daqueles que diziam “Ele é samaritano” (João 8:48), mas porque precisava pregar também a outras cidades (Lucas 4:43). Foi à Galileia, onde passou boa parte de seu tempo. Vejamos aqui:
- Para onde Cristo foi: à Galileia, à região da Galileia, mas não a Nazaré, que era propriamente sua terra. Foi às aldeias, mas evitou Nazaré, a cidade principal, por um motivo dado aqui.
O próprio Jesus deu testemunho desse motivo. Conhecia o temperamento de seus conterrâneos, o coração de todos os homens e as experiências de todos os profetas: “Um profeta não tem honra em sua própria terra.” Repare:
(1.) Os profetas devem ser honrados, porque Deus os honrou e porque recebemos, ou podemos receber, benefício por meio deles.
(2.) A honra devida aos profetas do Senhor lhes tem sido negada muitas vezes, e eles têm sido tratados com desprezo.
(3.) Essa honra lhes é negada com mais frequência na própria terra; veja Lucas 4:24 e Mateus 13:57. Não que isso seja verdade sem exceção, pois nenhuma regra deixa de tê-las, mas acontece na maioria dos casos.
José, quando começou a ser profeta, foi odiado sobretudo por seus irmãos; Davi foi desprezado por seu irmão (1 Samuel 17:28); Jeremias foi difamado pelos homens de Anatote (Jeremias 11:21); Paulo, por seus conterrâneos judeus; e os parentes próximos de Cristo falaram dele com o maior desdém (João 7:5).
O orgulho e a inveja levam os homens a desprezar a instrução daqueles que antes foram seus colegas de escola e companheiros de brincadeira. O desejo de novidades, de coisas vindas de longe e compradas a alto preço, que parecem cair do céu para eles, leva-os a desprezar pessoas e coisas com que estão acostumados há muito tempo e cuja origem conhecem.
(4.) É grande desânimo para um ministro ir a um povo que não dá valor a ele nem a seu trabalho. Cristo não quis ir a Nazaré porque sabia quão pouco respeito receberia ali.
(5.) É justo que Deus negue seu evangelho àqueles que desprezam seus ministros. Quem zomba dos mensageiros perde o benefício da mensagem (Mateus 21:35, 41).
- A acolhida que recebeu entre os galileus da região (v. 45): “Eles o receberam”, deram-lhe boas-vindas e aplicaram-se com alegria à sua doutrina. Cristo e seu evangelho não são enviados em vão: se alguns não os honram, outros os honrarão.
Agora, o motivo apresentado para que esses galileus recebessem Cristo tão prontamente é que haviam visto os milagres que ele fizera em Jerusalém (v. 45). Observe:
(1.) Eles subiram a Jerusalém para a festa, a festa da Páscoa. Os galileus moravam muito longe de Jerusalém, e o caminho passava pela terra dos samaritanos, cuja travessia era penosa para um judeu, pior que o antigo vale de Baca.
Ainda assim, obedeceram à ordem de Deus, subiram para a festa e ali conheceram Cristo. Repare: os que são diligentes e constantes na participação das ordenanças públicas, mais cedo ou mais tarde recebem um benefício espiritual maior do que esperavam.
(2.) Em Jerusalém, viram os milagres de Cristo, que o recomendaram muito, juntamente com sua doutrina, à fé e ao afeto deles. Os milagres foram realizados para benefício dos que estavam em Jerusalém; contudo, os galileus, que se encontravam ali por acaso, tiraram deles mais proveito do que aqueles a quem se destinavam principalmente.
Assim, a palavra pregada a uma multidão mista talvez edifique mais os ouvintes ocasionais do que os que a ouvem regularmente.
- A que cidade ele foi. Ao decidir ir a uma cidade, escolheu Caná da Galileia, onde havia transformado água em vinho (v. 46). Foi para lá a fim de ver se restava algum bom fruto daquele milagre e, caso restasse, confirmar-lhes a fé e regar o que havia plantado.
O evangelista menciona aqui esse milagre para nos ensinar a guardar na memória o que vimos das obras de Cristo.
II. A cura do filho do nobre, que estava enfermo com febre. Nenhum dos outros evangelistas registra essa história; ela se enquadra em Mateus 4:23.
Observe: 1. Quem pediu e quem estava enfermo. Quem pediu foi um nobre; o enfermo era seu filho: “Havia certo nobre.” Regulus, em latim, significa pequeno rei. Recebeu esse nome por causa da extensão de suas propriedades, da amplitude de seu poder ou das prerrogativas régias ligadas a seu senhorio.
Alguns entendem que o termo indica seu cargo: era um cortesão com alguma função junto ao rei. Outros o entendem como indicação de seu partido: era um herodiano, um partidário da realeza e das prerrogativas reais, que defendia os interesses dos Herodes, pai e filho.
Talvez fosse Cuza, administrador de Herodes (Lucas 8:3), ou Manaém, irmão de criação de Herodes (Atos 13:1). Havia santos na casa de César. O pai era nobre, contudo, o filho estava enfermo, pois dignidades e títulos de honra não protegem pessoas nem famílias dos ataques da doença e da morte.
De Cafarnaum, onde morava esse nobre, até Caná, onde Cristo estava, havia quinze milhas. Mesmo assim, essa aflição em sua família o levou de tão longe até Cristo.
- Como o suplicante procurou o médico. Ao saber que Jesus viera da Judeia para a Galileia e perceber que não seguia em direção a Cafarnaum, mas se desviava para o outro lado da região, ele próprio foi ao encontro de Jesus e lhe pediu que viesse curar seu filho (v. 47). Vejamos aqui:
(1.) Seu terno afeto pelo filho: quando este adoeceu, o pai não poupou esforços para obter ajuda.
(2.) Seu grande respeito por nosso Senhor Jesus: foi pessoalmente procurá-lo, embora pudesse ter enviado um servo, e suplicou-lhe ajuda, quando alguns pensariam que, como homem de autoridade, poderia ter ordenado que Jesus o atendesse.
Até os homens mais importantes, quando vêm a Deus, precisam tornar-se suplicantes e pedir sub forma pauperis, como pobres. Quanto ao motivo de sua vinda, podemos observar uma mistura em sua fé:
[1.] Havia sinceridade nela: ele cria que Cristo podia curar seu filho, embora a doença fosse perigosa. É provável que tivesse chamado médicos e que estes tivessem desistido do caso. Ainda assim, cria que Cristo podia curá-lo quando a situação parecia desesperadora.
[2.] Contudo, havia debilidade em sua fé: cria que Cristo podia curar seu filho, mas, ao que parece, julgava que não poderia fazê-lo à distância. Por isso, rogou-lhe que descesse para curá-lo, esperando, como Naamã, que viesse mover a mão sobre o enfermo, como se não pudesse curá-lo sem contato físico.
Assim, tendemos a limitar o Santo de Israel e a restringi-lo às nossas formas. O centurião, gentio e soldado, tinha fé tão forte que disse: “Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado” (Mateus 8:8).
Esse nobre, sendo judeu, insistia em que Cristo descesse, embora isso exigisse um dia inteiro de viagem, e perdia a esperança de cura se ele não viesse, como se precisasse ensinar Cristo a agir. Somos animados a orar, mas não se consente que prescrevamos: “Senhor, cura-me; mas, seja por uma palavra ou por um toque, faça-se a tua vontade.”
- A repreensão branda que recebeu ao fazer esse pedido (v. 48). Jesus lhe disse: “Vejo como é: a menos que vocês vejam sinais e maravilhas, não crerão. Os samaritanos creram sem ver sinal nem maravilha alguma; por isso, preciso realizar milagres entre vocês.”
Embora fosse nobre, sentisse dor por causa do filho e tivesse demonstrado grande respeito por Cristo ao vir de tão longe, ainda assim Cristo lhe dá uma censura. A dignidade que alguém possui no mundo não o isenta das repreensões da palavra ou da providência.
Cristo não censura pelo que seus ouvidos ouvem, mas com equidade (Isaías 11:3, 4). Observe: Cristo primeiro lhe mostra o pecado e a fraqueza, para prepará-lo para a misericórdia, e então atende seu pedido.
Aqueles que Cristo pretende honrar com seus favores ele primeiro humilha com sua desaprovação. O Consolador primeiro convencerá do pecado. Herodes desejava ver algum milagre (Lucas 23:8); esse cortesão pensava como ele, e a maioria do povo também. O que aqui se censura é:
(1.) Que, embora tivessem ouvido relatos confiáveis e incontestáveis dos milagres que Cristo realizara em outros lugares, não criam sem vê-los com os próprios olhos (Lucas 4:23). Queriam receber honra e ter seus caprichos satisfeitos, caso contrário não se deixariam convencer.
Sua terra precisava ser honrada, e sua curiosidade, satisfeita com sinais e maravilhas. Sem isso, não creriam, embora os milagres feitos em outros lugares já comprovassem suficientemente a doutrina de Cristo. Como Tomé, não se submeterão a nenhum modo de convencimento além do que eles próprios determinarem.
(2.) Que, embora tivessem visto diversos milagres cuja evidência não podiam contestar, os quais demonstravam suficientemente que Cristo era um mestre vindo de Deus, deveriam agora ter-se aplicado a ele em busca de instrução em sua doutrina.
A excelência própria dessa doutrina os teria conduzido suavemente, à medida que crescessem na fé, à perfeição espiritual. Em vez disso, não avançavam na fé além do ponto a que sinais e maravilhas os impeliam.
O poder espiritual da palavra não os comovia nem atraía; só os afetava o poder palpável dos milagres, destinados aos que não creem, ao passo que a profecia se destinava aos que creem (1 Coríntios 14:22). Os que apenas admiram milagres e desprezam a profecia colocam-se entre os incrédulos.
- A insistência com que continuou a pedir (v. 49): “Senhor, desce antes que meu filho morra.” Kyrie significa Senhor; assim se deveria traduzir. Nessa resposta encontramos:
(1.) Algo digno de louvor: recebeu a censura com paciência e falou com respeito a Cristo. Embora fosse um daqueles que vestiam roupas finas, ainda assim era capaz de suportar a censura.
Estar acima das censuras da palavra de Cristo não é um dos privilégios da nobreza. Ao contrário, é sinal de bom temperamento e boa disposição, especialmente nos homens importantes, aceitar que lhes apontem as faltas sem se irar.
Assim como não tomou a censura por afronta, também não a tomou por recusa. Continuou a apresentar seu pedido e a lutar até conseguir o intento. Ou melhor: podia raciocinar assim: “Se Cristo cura minha alma, certamente curará meu filho; se cura minha incredulidade, curará a febre dele.”
Esse é o método de Cristo: primeiro age em nós e depois em nosso favor. Há esperança quando percebemos que ele começa a agir assim.
(2.) Algo censurável, sinal de sua debilidade:
[1.] Parece não dar atenção à censura que Cristo lhe fez. Não diz nada a respeito, nem para confessar a falta nem para desculpar-se, pois está tão ocupado com a preocupação pelo filho que não consegue pensar em outra coisa.
Repare: a tristeza do mundo prejudica muito nosso aproveitamento da palavra de Cristo. O zelo e a dor excessivos são espinhos que sufocam a boa semente; veja Êxodo 6:9.
[2.] Continuou a mostrar a fraqueza de sua fé no poder de Cristo. Primeiro, insistia em que Cristo descesse, pensando que, de outro modo, não poderia fazer bem algum à criança.
É difícil nos convencermos de que as distâncias de tempo e lugar não são obstáculo ao conhecimento nem ao poder de nosso Senhor Jesus. Ainda assim, ele enxerga de longe, e sua palavra, a palavra de seu poder, corre com muita rapidez.
Em segundo lugar, cria que Cristo podia curar uma criança enferma, mas não que pudesse ressuscitar uma criança morta. Por isso, rogou: “Desce antes que meu filho morra”, como se depois fosse tarde demais, embora Cristo tenha tanto poder sobre a morte quanto sobre as doenças do corpo.
Ele se esqueceu de que Elias e Eliseu haviam ressuscitado crianças. Seria o poder de Cristo inferior ao deles? Observe sua pressa: “Desce antes que meu filho morra”, como se houvesse perigo de Cristo perder o momento certo. Quem crê não se apressa, mas se entrega a Cristo: “Senhor, o que, quando e como te agradar.”
- A resposta de paz que Cristo enfim deu a seu pedido (v. 50): “Vai; teu filho vive.” Cristo nos dá aqui um exemplo:
(1.) De seu poder. Ele não apenas podia curar, mas podia fazê-lo com tanta facilidade que nem precisava fazer a visita. Nada se diz, nada se faz, nada se manda fazer e, ainda assim, a cura acontece: “Teu filho vive.”
Os raios curadores do Sol da justiça espalham influências benéficas de uma extremidade do céu à outra, e nada se esconde de seu calor. Embora Cristo esteja agora no céu e sua igreja na terra, ele pode enviar ajuda do alto.
O nobre queria que Cristo descesse para curar seu filho; Cristo curará seu filho e não descerá. Assim, a cura acontece mais cedo, o engano do nobre é corrigido e sua fé, confirmada. Portanto, o resultado foi melhor à maneira de Cristo.
Quando ele nos nega o que pedimos, dá-nos algo muito mais proveitoso: pedimos alívio, e ele nos dá paciência. Observe que seu poder foi exercido por sua palavra. Ao dizer “Teu filho vive”, mostrou que tem vida em si mesmo e poder para dar vida a quem quiser. Quando Cristo diz “Tua alma vive”, ele lhe dá vida.
(2.) De sua compaixão. Cristo viu a dor do nobre por causa do filho, e o afeto natural desse pai se revelou nas palavras “Antes que meu filho, meu filho querido, morra”. Por isso, Cristo deixou a censura de lado e lhe assegurou que o filho se recuperaria, pois sabe como um pai se compadece de seus filhos.
- A fé do nobre na palavra de Cristo: creu e foi embora. Embora Cristo não tivesse atendido ao desejo de descer com ele, o homem se satisfez com o modo como Cristo agiu e considerou atendido seu pedido.
Quão depressa e com quanta facilidade a palavra e o poder de Cristo aperfeiçoam o que falta à nossa fé! Agora o nobre não vê sinal nem maravilha alguma, mas crê que a maravilha aconteceu.
(1.) Cristo disse: “Teu filho vive”, e o homem creu nele. Não creu apenas na onisciência de Cristo, que ele sabia que a criança se recuperara, mas também em sua onipotência: a cura fora realizada por sua palavra.
Ele deixara o filho à beira da morte; contudo, quando Cristo disse “Ele vive”, creu em esperança contra a esperança, como o pai dos fiéis, sem vacilar pela incredulidade.
(2.) Cristo disse: “Vai”, e, como prova da sinceridade de sua fé, ele foi, sem importunar Cristo nem se inquietar mais. Não insistiu em que Cristo descesse nem disse: “Mesmo que se recupere, uma visita será bem-vinda.”
Ao contrário, parece não ter tido mais ansiedade. Como Ana, seguiu seu caminho, e seu rosto já não estava triste. Inteiramente satisfeito, não se apressou a voltar para casa; não correu para lá naquela noite, mas retornou sem pressa, como alguém de espírito perfeitamente tranquilo.
- A confirmação ulterior de sua fé veio quando comparou os relatos com seus servos, em sua volta para casa. (1.) Os servos o encontraram com a boa notícia da recuperação do menino (v. 51). Provavelmente o encontraram não muito longe de casa e, sabendo das preocupações de seu senhor, quiseram tranquilizá-lo assim que puderam.
Os servos de Davi relutaram em lhe contar quando a criança morreu. Cristo disse: “Teu filho vive”; agora os servos dizem o mesmo.
Boas notícias encontrarão os que esperam na palavra de Deus. (2.) Ele perguntou a que hora o menino começara a melhorar (v. 52), não porque duvidasse de que a palavra de Cristo influíra em sua recuperação, mas porque desejava ver sua fé confirmada, a fim de poder esclarecer qualquer pessoa a quem contasse o milagre; pois essa era uma circunstância importante. Repare:
[1.] É bom reunir todas as provas e evidências corroboradoras possíveis para fortalecer nossa fé na palavra de Cristo, a fim de que ela cresça até a plena certeza. “Mostra-me um sinal para bem.” [2.] A comparação cuidadosa das obras de Cristo com sua palavra será muito útil para confirmar nossa fé.
Foi esse o caminho seguido pelo nobre: perguntou aos servos a hora em que o menino começara a melhorar, e eles responderam: “Ontem, à hora sétima” (à uma da tarde ou, segundo a contagem deste evangelista no entender de alguns, às sete da noite), “a febre o deixou”. Ele não apenas começara a melhorar; de repente, estava perfeitamente são.
Assim, o pai soube que aquilo acontecera à mesma hora em que Jesus lhe dissera: “Teu filho vive.” Assim como a palavra de Deus, bem estudada, nos ajudará a compreender suas providências, também a providência de Deus, bem observada, nos ajudará a compreender sua palavra; pois Deus cumpre as Escrituras todos os dias. Duas coisas ajudariam a confirmar a fé daquele homem:
Primeiro, a recuperação do menino foi repentina, não gradual. Os servos indicam a hora exata: “Ontem”, não por volta, mas “à hora sétima, a febre o deixou”. Não dizem que diminuiu ou começou a baixar, mas que o deixou num instante.
A palavra de Cristo não agiu como um remédio, que precisa de tempo para operar e produzir efeito, e talvez cure apenas pela expectativa. Não: com Cristo foi dictum factum, ele falou e aconteceu; não falou para que a cura apenas começasse a acontecer.
Segundo, a cura se deu exatamente quando Cristo falou ao pai: naquela mesma hora. A simultaneidade e as coincidências dos acontecimentos acrescentam muito à beleza e à harmonia da Providência. Observe o momento, e o próprio acontecimento se tornará mais notável, pois tudo é belo a seu tempo.
Isso se dá no momento exato em que é prometido, como na libertação de Israel (Êxodo 12:41), e no momento exato em que se ora por isso, como na libertação de Pedro (Atos 12:12). Nas obras humanas, a distância entre lugares provoca demora e atrasa os negócios; mas não é assim nas obras de Cristo.
O perdão, a paz, o consolo e a cura espiritual que ele pronuncia no céu são, se assim lhe apraz, realizados ao mesmo tempo na alma dos que creem. E, quando essas duas coisas forem comparadas no grande dia, Cristo será glorificado em seus santos e admirado em todos os que creem.
- O efeito e o desfecho felizes disso. A cura trazida à família também lhe trouxe a salvação. (1.) O próprio nobre creu. Antes, ele havia crido na palavra de Cristo com respeito àquela ocasião específica; agora, porém, creu em Cristo como o Messias prometido e se tornou um de seus discípulos.
Assim, a experiência particular do poder e da eficácia de uma palavra de Cristo pode ser um meio feliz de introduzir e firmar na alma toda a autoridade do domínio de Cristo. Cristo tem muitos meios de conquistar o coração e pode, pela concessão de uma misericórdia temporal, abrir caminho para coisas melhores.
(2.) Toda a sua casa também creu. [1.] Porque todos tinham interesse no milagre, que preservou a flor e as esperanças da família. Isso tocou a todos, tornou Cristo querido para eles e os levou a ter dele a mais alta consideração. [2.] Porque o chefe da família exercia influência sobre todos eles.
O chefe de uma família não pode dar fé aos que estão sob sua responsabilidade, nem obrigá-los a crer; mas pode ajudar a remover os preconceitos externos que impedem o efeito das evidências, e então mais da metade do trabalho está feita. Abraão foi conhecido por isso (Gênesis 18:19), assim como Josué (Josué 24:15).
Esse homem era um nobre e provavelmente tinha uma casa numerosa; contudo, ao entrar na escola de Cristo, levou todos consigo. Que bendita mudança ocorreu nessa casa por causa da doença do menino! Isso deve nos reconciliar com as aflições: não sabemos que bem pode vir delas.
Provavelmente, a conversão desse nobre e de sua família em Cafarnaum poderia ter levado Cristo a ir mais tarde para lá e a estabelecer na cidade o centro de suas atividades na Galileia. Quando pessoas de destaque recebem o evangelho, podem contribuir para levá-lo aos lugares onde moram.
- Aqui está a observação do evangelista sobre essa cura (v. 54): “Este foi o segundo milagre”, em referência a João 2:11, onde a transformação da água em vinho é chamada de primeiro milagre. Aquele aconteceu logo após seu primeiro retorno da Judeia; este, logo após o segundo.
Na Judeia, ele fizera muitos milagres (João 3:2; 4:45). Seus habitantes receberam a primeira oportunidade; mas, expulso de lá, Cristo realizou milagres na Galileia. Em algum lugar ele encontrará acolhida. As pessoas podem, se quiserem, impedir que o sol entre em suas casas, mas não podem impedi-lo de iluminar o mundo.
Esse milagre é chamado de segundo, 1. para nos lembrar do primeiro, realizado no mesmo lugar alguns meses antes. Novas misericórdias devem reavivar a lembrança das anteriores, assim como as anteriores devem fortalecer nossa esperança de misericórdias ulteriores. Cristo conta seus favores, quer nós os contemos, quer não.
- Para nos fazer saber que essa cura ocorreu antes das muitas outras que os demais evangelistas mencionam como realizadas na Galileia (Mateus 4:23; Marcos 1:34; Lucas 4:40). Provavelmente, por ser o enfermo de uma família importante, a cura foi mais comentada por isso e trouxe a Cristo multidões de doentes.
Depois que esse nobre recorreu a ele, muitos o seguiram. Quanto bem podem fazer os homens influentes, se forem homens bons!