Matthew Henry

João 3

Argumento

Neste capítulo temos: I. O discurso de Cristo com Nicodemos, um fariseu, sobre os grandes mistérios do evangelho, no qual Cristo o instrui aqui em particular (vv. 1-21).

II. O discurso de João Batista com seus discípulos acerca de Cristo, por ocasião da vinda de Cristo à região onde João estava (vv. 22-36), no qual João renuncia de modo franco e fiel a toda a sua honra e influência em favor de Cristo.

Versículos 1 a 21

O Encontro de Cristo com Nicodemos.

Vimos, no fim do capítulo anterior, que poucos foram levados a Cristo em Jerusalém; contudo, aqui estava um, e alguém importante. Vale a pena percorrer um longo caminho pela salvação, ainda que de uma só alma. Observe:

I. Quem era esse Nicodemos:

Não são chamados muitos poderosos e nobres; contudo, alguns o são, e aqui estava um deles. Não são chamados muitos dos governantes nem dos fariseus; contudo: 1. Este era um homem dos fariseus, formado nas letras, um erudito.

Que não se diga que todos os seguidores de Cristo são homens sem instrução e ignorantes. Os princípios dos fariseus e as peculiaridades de sua seita eram diretamente contrários ao espírito do cristianismo; contudo, houve alguns em quem até esses pensamentos altivos foram derrubados e levados à obediência a Cristo.

A graça de Cristo é capaz de subjugar a maior oposição. 2. Ele era um governante dos judeus, membro do grande Sinédrio, senador, conselheiro particular, homem de autoridade em Jerusalém.

Por piores que estivessem as coisas, havia alguns governantes bem-intencionados que, ainda assim, pouco bem podiam fazer, porque a corrente era forte demais contra eles. A maioria se sobrepunha a eles, e estavam atrelados aos corruptos, de modo que não conseguiam fazer o bem que desejavam; contudo, Nicodemos permaneceu em seu posto e fez o que podia, quando não podia fazer o que queria.

II. Sua solene aproximação de nosso Senhor Jesus Cristo, v. 2. Veja aqui:

  1. Quando veio: veio a Jesus de noite. Observe: (1.) Dirigiu-se a Cristo em particular, pessoalmente, e não achou suficiente ouvir seus discursos públicos. Decidiu conversar com ele a sós, onde poderia falar com liberdade.

A conversa pessoal com ministros hábeis e fiéis a respeito dos assuntos de nossa alma nos seria muito útil, Malaquias 2:7. (2.) Procurou-o de noite, o que se pode considerar: [1.] Como ato de prudência e discrição.

Cristo passava o dia ocupado na obra pública; Nicodemos não queria interrompê-lo nesse período nem esperar que ele o atendesse, mas respeitou o horário de Cristo e o procurou quando estava livre. Repare: os benefícios particulares para nós mesmos e nossas próprias famílias devem ceder lugar aos públicos. O bem maior deve ser preferido ao menor.

Cristo tinha muitos inimigos; por isso, Nicodemos foi vê-lo discretamente, para que, se os principais sacerdotes soubessem, não se enfurecessem ainda mais contra Cristo. [2.] Como ato de zelo e prontidão. Nicodemos era um homem ocupado e não podia reservar tempo durante o dia para visitar Cristo.

Preferiu, portanto, tirar tempo das diversões da noite ou do repouso noturno a deixar de conversar com Cristo. Enquanto outros dormiam, adquiria conhecimento, como Davi pela meditação, Salmos 63:6; 119:148. Provavelmente era a noite imediatamente seguinte ao dia em que vira os milagres de Cristo, e ele não quis deixar passar a primeira oportunidade de dar seguimento às suas convicções.

Não sabia quanto tempo Cristo ainda permaneceria na cidade, nem o que poderia acontecer entre aquela ocasião e outra festa; por isso, não queria perder tempo. De noite, sua conversa com Cristo seria mais livre e menos sujeita a interrupções. Eram Noctes Christianæ, noites cristãs, muito mais instrutivas que as Noctes Atticæ, noites áticas.

Ou, [3.] Como ato de temor e covardia. Tinha medo ou vergonha de ser visto com Cristo e, por isso, veio de noite. Quando a religião está fora de moda, há muitos nicodemitas, especialmente entre os governantes, que têm por Cristo e sua religião mais afeição do que gostariam que se soubesse.

Mas observe: primeiro, embora tivesse vindo de noite, Cristo o acolheu, aceitou sua integridade e perdoou sua fraqueza. Levou em conta sua índole, talvez tímida, e a tentação decorrente de sua posição e de seu cargo; assim ensinou seus ministros a se fazerem tudo para todos e a animarem os bons começos, ainda que fracos.

Paulo pregou em particular àqueles que tinham reputação, Gálatas 2:2. Segundo, embora agora tivesse vindo de noite, ainda assim, mais tarde, quando surgiu a ocasião, reconheceu Cristo publicamente, João 7:50; 19:39. A graça que, a princípio, não passa de um grão de mostarda pode crescer e tornar-se uma grande árvore.

  1. O que disse. Não veio falar com Cristo sobre política e assuntos de Estado, embora fosse governante, mas sobre os interesses de sua própria alma e de sua salvação; e, sem rodeios, foi direto ao assunto. Chamou Cristo de Rabi, palavra que significa um homem grande; veja Isaías 19:20.

“Ele lhes enviará um Salvador, e um grande”, um Salvador e um rabi: é esse o sentido da palavra. Há esperança para aqueles que respeitam Cristo e pensam e falam dele com honra. Disse a Cristo até onde havia chegado: “Sabemos que és mestre.” Observe:

(1.) Sua afirmação a respeito de Cristo: “És mestre vindo de Deus”, não formado nem ordenado por homens, como outros mestres, mas sustentado por inspiração divina e autoridade divina. Aquele que seria o Governante soberano veio primeiro como mestre; governaria pela razão, não pelo rigor, pelo poder da verdade, não pela espada.

O mundo jazia na ignorância e no erro; os mestres judeus eram corruptos e levavam as pessoas a errar: é tempo de o Senhor agir. Ele veio como mestre da parte de Deus, de Deus como Pai das misericórdias, por compaixão de um mundo sombrio e enganado; de Deus como Pai das luzes e fonte da verdade, toda a luz e verdade às quais podemos confiar nossa alma.

(2.) Sua certeza disso: “Sabemos”, não apenas eu, mas outros. Assim, tomou isso por certo, pois o fato era tão claro e evidente por si mesmo.

Talvez soubesse que diversos fariseus e governantes com quem convivia tinham as mesmas convicções, mas não tinham a graça de reconhecê-las. Ou podemos supor que falasse no plural (“Sabemos”) porque trouxera consigo um ou mais amigos e alunos para receber instruções de Cristo, sabendo que elas interessavam a todos.

“Mestre”, disse ele, “viemos com o desejo de ser ensinados, de ser teus alunos, pois estamos plenamente convencidos de que és um mestre divino.” (3.) O fundamento dessa certeza: “Ninguém pode fazer os milagres que tu fazes, se Deus não estiver com ele.” Aqui: [1.] Temos a confirmação de que os milagres de Cristo eram verdadeiros, não falsificações.

Nicodemos era um homem criterioso, sensato e indagador, com todos os motivos e oportunidades imagináveis para examiná-los. Ficou tão plenamente convencido de que eram milagres reais que, movido por eles, agiu contra seus próprios interesses e contra a corrente dos homens de sua posição, que tinham preconceito contra Cristo.

[2.] Somos orientados quanto à conclusão que devemos tirar dos milagres de Cristo: por isso, devemos recebê-lo como mestre vindo de Deus. Seus milagres eram suas credenciais. O curso da natureza só poderia ser alterado pelo poder do Deus da natureza, que, sabemos com certeza, é o Deus da verdade e da bondade e jamais colocaria seu selo numa mentira ou num embuste.

III. O diálogo que então se deu entre Cristo e Nicodemos ou, antes, o sermão que Cristo lhe pregou, com seu conteúdo, talvez um resumo da pregação pública de Cristo; veja v. 11, 12. Quatro assuntos são tratados aqui por nosso Salvador:

  1. A necessidade e a natureza da regeneração ou do novo nascimento, vv. 3-8. Devemos agora considerar isso:

(1.) Como resposta pertinente à aproximação de Nicodemos. Jesus respondeu, v. 3. Essa resposta foi ou: [1.] Uma repreensão ao que ele viu de deficiente na aproximação de Nicodemos. Não bastava admirar os milagres de Cristo e reconhecer sua missão; ele precisava nascer de novo.

É evidente que esperava o reino dos céus, o reino do Messias, prestes a aparecer. Percebia cedo o alvorecer daquele dia e, segundo a ideia comum entre os judeus, esperava que o reino aparecesse com pompa e poder exteriores.

Não duvidava de que esse Jesus, que realizava aqueles milagres, fosse ou o Messias ou seu profeta; por isso, procurava ganhar-lhe o favor, dirigia-lhe elogios e esperava, assim, assegurar para si uma parte nas vantagens daquele reino.

Mas Cristo lhe diz que não poderá obter benefício algum dessa mudança de condição se não houver uma mudança no espírito, nos princípios e nas disposições, equivalente a um novo nascimento. Nicodemos veio de noite: “Mas isso não basta”, diz Cristo. Sua religião precisa ser reconhecida diante dos homens; assim entende o dr. Hammond.

Ou, [2.] Uma resposta ao propósito que Cristo percebeu em sua aproximação. Ao reconhecer que Cristo era mestre vindo de Deus, alguém a quem fora confiada uma revelação extraordinária do céu, Nicodemos manifestou claramente o desejo de saber qual era essa revelação e a disposição de recebê-la; e Cristo a declara.

(2.) Como afirmação expressa e enfática de nosso Senhor Jesus: “Em verdade, em verdade te digo.” “Eu, o Amém, o Amém, o digo”; assim também se pode ler: “Eu, a testemunha fiel e verdadeira.” Está estabelecido de modo irrevogável que “se um homem não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. “Eu te digo, embora sejas fariseu, embora sejas mestre em Israel.” Observe:

[1.] O que se exige é nascer de novo. Isto é, primeiro, devemos viver uma vida nova. O nascimento é o começo da vida; nascer de novo é começar novamente, como quem até então viveu ou muito mal ou com pouco propósito. Não devemos pensar em remendar o velho edifício, mas começar pelo alicerce.

Em segundo lugar, devemos ter uma nova natureza, novos princípios, novos afetos e novos objetivos. Devemos nascer anothen, palavra que significa tanto denuo, de novo, quanto desuper, do alto.

  1. Devemos nascer novamente. Assim se entende a palavra em Gálatas 4:9; ela também significa ab initio, desde o começo, em Lucas 1:3. Pelo primeiro nascimento somos corruptos, formados em pecado e iniquidade; por isso, precisamos passar por um segundo nascimento. Nossas almas precisam ser formadas e vivificadas de novo.

  2. Devemos nascer do alto. Assim a palavra é usada pelo evangelista em João 3:31; 19:11, e entendo que este seja especialmente o sentido pretendido aqui, sem excluir o outro, pois nascer do alto pressupõe nascer de novo.

Esse novo nascimento, porém, tem origem no céu (João 1:13) e se dirige para o céu. É nascer para uma vida divina e celestial, uma vida de comunhão com Deus e com o mundo superior. Para isso, é participar da natureza divina e trazer a imagem do celestial.

[2.] A necessidade indispensável disso: “Se alguém” (qualquer pessoa que compartilhe da natureza humana e, por consequência, de suas corrupções) “não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”, o reino do Messias iniciado na graça e aperfeiçoado na glória. Se não nascermos do alto, não poderemos vê-lo.

Isto significa, primeiro, que não podemos compreender sua natureza. As coisas pertinentes ao reino de Deus, nas quais Nicodemos desejava ser instruído, são tais que a alma precisa ser remodelada e moldada, e o homem natural precisa tornar-se espiritual, antes de ser capaz de recebê-las e compreendê-las (1 Coríntios 2:14).

Em segundo lugar, não podemos receber o consolo desse reino, nem esperar qualquer benefício de Cristo e de seu evangelho, nem ter parte ou quinhão nesse assunto. Repare: a regeneração é absolutamente necessária à nossa felicidade aqui e no porvir.

Considerando o que somos por natureza, quão corruptos e pecadores; o que é Deus, em quem somente podemos ser felizes; e o que é o céu, para o qual está reservada a perfeição da nossa felicidade, ficará evidente, pela própria natureza das coisas, que precisamos nascer de novo. É impossível sermos felizes se não formos santos; veja 1 Coríntios 6:11, 12.

Tendo sido assim estabelecida solenemente essa grande verdade acerca da necessidade da regeneração:

a. Ela é contestada por Nicodemos (v. 4): “Como pode um homem nascer sendo velho, velho como eu sou: geron on, sendo um homem velho? Pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e nascer?” Aqui aparecem:

(a.) Sua fraqueza de conhecimento. Ele parece ter entendido de modo corporal e carnal o que Cristo disse em sentido espiritual, como se não houvesse outro meio de regenerar e moldar de novo uma alma imortal senão formar de novo o corpo e devolvê-lo à rocha da qual foi talhado.

É como se houvesse uma ligação entre a alma e o corpo tal que o coração não pudesse ser formado de novo sem que os ossos também o fossem.

Nicodemos, como outros judeus, sem dúvida prezava muito seu primeiro nascimento e as dignidades e privilégios dele: o lugar onde nasceu, a Terra Santa, talvez a cidade santa; sua linhagem, semelhante àquela da qual Paulo poderia ter se gloriado (Filipenses 3:5).

Por isso, ouvir falar em nascer de novo o surpreende muito. Poderia ele ser criado e nascido em condição melhor do que a de um israelita criado e nascido como tal? Ou poderia algum outro nascimento dar-lhe melhores condições de obter um lugar no reino do Messias?

De fato, consideravam um gentio convertido ao judaísmo como alguém nascido de novo ou nascido novamente, mas não conseguiam imaginar como um judeu, um fariseu, poderia melhorar sua condição ao nascer de novo.

Por isso, ele pensa que, se tiver de nascer de novo, precisará nascer da mesma mulher que o gerou pela primeira vez. Os que se orgulham do primeiro nascimento dificilmente são levados a um novo nascimento.

(b.) Sua disposição para aprender. Ele não dá as costas a Cristo por causa dessa palavra difícil, mas reconhece francamente sua ignorância, o que implica o desejo de receber melhores esclarecimentos. É assim que entendo suas palavras, em vez de atribuir-lhe noções tão grosseiras sobre o novo nascimento do qual Cristo falou:

“Senhor, faze-me compreender isto, pois é um enigma para mim; sou tão tolo que não conheço outro modo de um homem nascer senão de sua mãe.” Quando encontramos, nas coisas de Deus, algo obscuro e difícil de compreender, devemos, com humildade e dedicação, continuar a aplicar-nos aos meios de conhecimento, até que Deus nos revele até mesmo aquilo.

b. Ela é exposta e explicada mais amplamente por nosso Senhor Jesus (vv. 5-8). A objeção lhe dá ocasião para:

(a.) Repetir e confirmar o que havia dito (v. 5): “Em verdade, em verdade te digo exatamente o mesmo que disse antes.” Repare: a palavra de Deus não é sim e não, mas sim e amém. O que ele disse, ele sustentará, diga quem disser o contrário; tampouco retirará qualquer de suas palavras por causa da ignorância e dos enganos dos homens.

Embora Nicodemos não compreendesse o mistério da regeneração, ainda assim Cristo afirma a necessidade dela tão categoricamente quanto antes. Repare: é insensatez pensar que podemos escapar da obrigação dos preceitos evangélicos apelando para o fato de que são incompreensíveis (Romanos 3:3, 4).

(b.) Expor e esclarecer o que havia dito acerca da regeneração. Para explicá-la, ele mostra ainda:

[a.] O autor dessa bendita mudança e quem a realiza. Nascer de novo é nascer do Espírito (vv. 5-8). A mudança não é produzida por qualquer sabedoria ou poder nosso, mas pelo poder e pela influência do bendito Espírito da graça.

É a “santificação do Espírito” (1 Pedro 1:2) e a “renovação do Espírito Santo” (Tito 3:5). A palavra por meio da qual ele age é sua inspiração, e ele tem acesso ao coração no qual vai agir.

[b.] A natureza dessa mudança e aquilo que se realiza: é espírito (v. 6). Os regenerados se tornam espirituais e são refinados, libertos das escórias e dos sedimentos da sensualidade. Os ditames e os interesses da alma racional e imortal recuperaram o domínio que devem ter sobre a carne.

Os fariseus colocavam sua religião na pureza exterior e nas práticas exteriores. Tornar-se espirituais seria, de fato, uma mudança poderosa para eles, nada menos que um novo nascimento.

[c.] A necessidade dessa mudança. Primeiro, Cristo mostra aqui que ela é necessária pela própria natureza das coisas, pois não estamos aptos a entrar no reino de Deus até nascermos de novo: “O que é nascido da carne é carne” (v. 6). Aqui está nossa enfermidade, com suas causas, que deixam claro não haver outro remédio senão nascermos de novo.

  1. Aqui nos é dito o que somos: somos carne, não apenas corpóreos, mas corruptos (Gênesis 6:3). A alma continua sendo uma substância espiritual, mas está tão casada com a carne, tão cativa da vontade da carne, tão apaixonada pelos prazeres da carne e tão ocupada em prover para a carne, que geralmente é chamada de carne: ela é carnal.

Que comunhão pode haver entre Deus, que é espírito, e uma alma nessa condição?

  1. Como chegamos a ser assim: por nascermos da carne. É uma corrupção que trazemos entranhada nos ossos desde o nascimento; portanto, não podemos ter uma nova natureza sem nascer de novo. A natureza corrupta, que é carne, tem origem em nosso primeiro nascimento; logo, a nova natureza, que é espírito, precisa ter origem num segundo nascimento.

Nicodemos falou em entrar novamente no ventre da mãe e nascer; mas, se pudesse fazer isso, para quê? Mesmo que nascesse de sua mãe cem vezes, isso não resolveria o problema, pois ainda assim “o que é nascido da carne é carne”; de algo impuro não pode provir algo puro. Ele precisa buscar outra origem, nascer do Espírito, ou não poderá tornar-se espiritual.

Em resumo, a situação é esta: embora o homem tenha sido feito de corpo e alma, sua parte espiritual exercia, naquela época, tamanho domínio sobre a parte corpórea que ele recebeu o nome de “alma vivente” (Gênesis 2:7).

Ao ceder, porém, ao apetite da carne e comer o fruto proibido, ele prostituiu o justo domínio da alma à tirania do desejo sensual e deixou de ser uma alma vivente para tornar-se carne: “Tu és pó.” A alma vivente tornou-se morta e inativa; assim, no dia em que pecou, certamente morreu e se tornou terreno.

Nesse estado degenerado, gerou um filho à sua própria semelhança. Transmitiu a natureza humana, que havia sido inteiramente confiada às suas mãos, já corrompida e depravada; e é nessa mesma condição que ela continua a ser transmitida. Corrupção e pecado estão entretecidos em nossa natureza; somos formados em iniquidade, o que torna necessária a mudança da natureza.

Não basta vestir um casaco novo ou apresentar um rosto novo; precisamos revestir-nos do novo homem, precisamos ser novas criaturas.

Em segundo lugar, Cristo torna essa mudança ainda mais necessária por sua própria palavra: “Não te admires de eu te haver dito: deveis nascer de novo” (v. 7).

  1. Cristo o disse e, assim como ele próprio nunca voltou atrás nem jamais voltará, o mundo inteiro também não pode contradizer que precisamos nascer de novo.

Ele, o grande Legislador, cuja vontade é lei; o grande Mediador da nova aliança, com pleno poder para estabelecer as condições de nossa reconciliação com Deus e felicidade nele; o grande Médico das almas, que conhece a condição delas e o que é necessário para curá-las, disse: “Deveis nascer de novo.”

“Eu te disse aquilo que diz respeito a todos: deveis, vós todos, uns tanto quanto os outros, deveis nascer de novo; não somente o povo comum, mas também os governantes, os mestres em Israel.”

  1. Não devemos nos admirar disso. Quando consideramos a santidade do Deus com quem temos de tratar, o grande desígnio de nossa redenção, a depravação de nossa natureza e a constituição da felicidade posta diante de nós, não acharemos estranho que tanta importância seja atribuída a essa única coisa necessária: precisamos nascer de novo.

[d.] Essa mudança é ilustrada por duas comparações. Primeiro, a obra regeneradora do Espírito é comparada à água (v. 5). Nascer de novo é “nascer da água e do Espírito”, isto é, do Espírito agindo como a água, assim como “com o Espírito Santo e com fogo” (Mateus 3:11) significa com o Espírito Santo como com fogo.

  1. A intenção principal aqui é mostrar que o Espírito, ao santificar uma alma:

(1.) Limpa-a e purifica-a como a água, retirando sua imundície, que a tornava inapta para o reino de Deus. É a “lavagem da regeneração” (Tito 3:5). “Fostes lavados” (1 Coríntios 6:11). Veja Ezequiel 36:25.

(2.) Esfria-a e a refresca, como a água faz ao cervo perseguido e ao viajante cansado. O Espírito é comparado à água em João 7:38, 39; Isaías 44:3. Na primeira criação, as aves do céu nasceram da água (Gênesis 1:20). Talvez em alusão a isso se diga que os nascidos do alto nascem da água.

  1. É provável que Cristo tivesse em vista a ordenança do batismo, que João havia usado e que ele próprio começara a usar: “Deveis nascer de novo do Espírito”. Essa regeneração pelo Espírito deveria ser representada pela lavagem com água, sinal visível daquela graça espiritual.

Isso não significa que todos os batizados, e somente eles, sejam salvos. Significa que, sem o novo nascimento realizado pelo Espírito e representado pelo batismo, ninguém será considerado súdito protegido e privilegiado do reino dos céus.

Os judeus não podem participar dos benefícios do reino do Messias, que por tanto tempo esperaram, a menos que abandonem toda expectativa de serem justificados pelas obras da lei e se submetam ao batismo de arrependimento, o grande dever do evangelho, para a remissão dos pecados, o grande privilégio do evangelho.

Em segundo lugar, essa mudança é comparada ao vento: “O vento sopra onde quer; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (v. 8). A mesma palavra, pneuma, significa tanto vento quanto Espírito.

O Espírito veio sobre os apóstolos num vento impetuoso e forte (Atos 2:2); suas fortes influências no coração dos pecadores são comparadas ao sopro do vento (Ezequiel 37:9), e suas suaves influências na alma dos santos, ao vento norte e ao vento sul (Cantares de Salomão 4:16). Essa comparação é usada aqui para mostrar:

  1. Que o Espírito, na regeneração, age segundo sua vontade, como agente livre. “O vento sopra onde quer” no que nos diz respeito, sem esperar nossa ordem nem se sujeitar ao nosso comando. Deus o dirige; ele cumpre sua palavra (Salmos 148:8).

O Espírito distribui suas influências onde e quando quer, a quem quer e na medida e no grau que quer, “repartindo a cada um individualmente como quer” (1 Coríntios 12:11).

  1. Que ele age poderosamente e com efeitos evidentes: “Ouves o seu som.” Embora suas causas estejam ocultas, seus efeitos são manifestos. Quando a alma é levada a lamentar o pecado, a gemer sob o peso da corrupção, a suspirar por Cristo e a clamar “Aba, Pai”, então ouvimos o som do Espírito e percebemos que ele está agindo, como em Atos 9:11: “Eis que ele ora.”

  2. Que ele age misteriosamente e por caminhos secretos e ocultos: “Não podes dizer de onde vem nem para onde vai.” Como ele reúne suas forças e como as gasta é um enigma para nós; do mesmo modo, a maneira e os métodos da ação do Espírito são um mistério.

“Por que caminho foi o Espírito?” (1 Reis 22:24). Veja Eclesiastes 11:5 e compare com Salmos 139:14.

  1. Aqui há um discurso sobre a certeza e a sublimidade das verdades do evangelho, para o qual Cristo encontra ocasião na fraqueza de Nicodemos. Aqui está:

(1.) A objeção que Nicodemos ainda fez (v. 9): “Como podem ser essas coisas?” A explicação de Cristo sobre a doutrina da necessidade da regeneração, ao que parece, não a tornou nem um pouco mais clara para ele.

A corrupção da natureza, que torna a regeneração necessária, e o modo de agir do Espírito, que a torna possível, são para ele mistérios tão grandes quanto a própria regeneração. Embora tivesse reconhecido em termos gerais que Cristo era um mestre divino, ainda assim não queria receber seus ensinamentos quando não concordavam com as ideias que havia absorvido.

Assim, muitos afirmam aceitar a doutrina de Cristo em geral, mas não creem nas verdades do cristianismo nem se submetem às suas leis além do que lhes agrada. Cristo será seu mestre, desde que possam escolher a lição.

Agora, aqui: [1.] Nicodemos admite que, afinal, não compreende o que Cristo quer dizer: “Como podem ser essas coisas? São coisas que não entendo; minha capacidade não as alcança.” Assim, as coisas do Espírito de Deus são loucura para o homem natural.

Ele não apenas está afastado delas, razão pela qual lhe são obscuras, mas também tem preconceito contra elas, razão pela qual lhe parecem loucura.

[2.] Como essa doutrina lhe era incompreensível, pois assim quis considerá-la, ele questiona sua verdade, como se o fato de ser um paradoxo para ele a tornasse uma quimera em si. Muitos têm de sua própria capacidade uma opinião tão elevada que julgam impossível provar aquilo em que não conseguem crer; por sua sabedoria, não conheceram Cristo.

(2.) A censura que Cristo lhe fez por sua lentidão de entendimento e ignorância: “És tu mestre em Israel, Didaskalos, mestre, preceptor, alguém que se assenta na cadeira de Moisés, e ainda assim não só desconheces a doutrina da regeneração, como és incapaz de compreendê-la?” Essa palavra é uma censura:

[1.] Àqueles que se encarregam de ensinar os outros e, no entanto, são eles mesmos ignorantes e inábeis na palavra da justiça. [2.] Àqueles que gastam seu tempo aprendendo e ensinando noções e cerimônias religiosas, minúcias e análises críticas da Escritura, e negligenciam o que é prático e tende a reformar o coração e a vida.

Duas palavras da censura são muito enfáticas: primeiro, o lugar onde lhe coube viver: em Israel, onde havia tamanha abundância dos meios de conhecimento, onde estava a revelação divina. Ele poderia ter aprendido isso no Antigo Testamento.

Segundo, as coisas que assim ignorava: estas coisas, estas coisas necessárias, estas grandes coisas, estas coisas divinas. Nunca teria lido Salmos 50:5, 10; Ezequiel 18:31; 36:25, 26?

(3.) O discurso de Cristo, a partir daí, sobre a certeza e a sublimidade das verdades do evangelho (vv. 11-13), para mostrar a insensatez dos que estranham essas coisas e recomendar que as investiguemos. Observe aqui:

[1.] Que as verdades ensinadas por Cristo eram muito certas, e nelas podemos confiar (v. 11): “Falamos do que sabemos.” “Nós”: a quem ele se refere além de si mesmo? Alguns entendem que se refere aos que deram testemunho dele e com ele na terra, os profetas e João Batista.

Eles falavam do que sabiam e tinham visto e de que estavam plenamente convencidos: a revelação divina traz consigo sua própria prova. Outros entendem que se refere aos que deram testemunho do céu, o Pai e o Espírito Santo. O Pai estava com ele; o Espírito do Senhor estava sobre ele.

Por isso, fala no plural, como em João 14:23: “Viremos a ele.” Observe: primeiro, as verdades de Cristo são de certeza inquestionável. Temos todos os motivos para estar seguros de que as palavras de Cristo são fiéis e de que podemos confiar a elas nossa alma.

Ele não é apenas uma testemunha digna de crédito, que não procuraria nos enganar, mas uma testemunha capaz, que não poderia, ela própria, ser enganada: “Testificamos o que vimos.” Ele não falava pelo que ouvira dizer, mas com base na prova mais clara e, portanto, com a maior segurança.

O que dizia sobre Deus, o mundo invisível, o céu e o inferno, a vontade divina a nosso respeito e os conselhos de paz era aquilo que sabia e tinha visto, pois estava junto de Deus “como alguém que com ele se criava”, Provérbios 8:30. Tudo o que Cristo dizia vinha de seu próprio conhecimento.

Segundo, a incredulidade dos pecadores é muito agravada pela certeza infalível das verdades de Cristo. As coisas são tão seguras e tão claras; e, contudo, “não recebeis o nosso testemunho”. Multidões se mostram descrentes daquilo em que, ainda assim, não conseguem deixar de crer, tão convincentes são os motivos para considerá-lo digno de crédito!

[2.] As verdades ensinadas por Cristo, embora comunicadas em linguagem e expressões tomadas das coisas comuns e terrenas, ainda assim eram, em sua própria natureza, sublimíssimas e celestiais. Isso está implícito no v. 12:

“Se lhes falei de coisas terrenas, isto é, das grandes coisas de Deus por comparações terrenas, para torná-las mais fáceis de entender, como o novo nascimento e o vento; se assim me ajustei à sua capacidade e balbuciei na sua língua, mas não consigo fazê-los entender minha doutrina, que fariam se me ajustasse à natureza das coisas e falasse a língua dos anjos, que mortais não podem pronunciar?”

“Se expressões tão familiares são obstáculos, o que seriam ideias abstratas e coisas espirituais retratadas em sua forma própria?”

Aprendamos daqui: primeiro, a admirar a altura e a profundidade da doutrina de Cristo; ela é um grande mistério da piedade. As coisas do evangelho são celestiais, fora do caminho das investigações da razão humana e, muito mais, fora do alcance de suas descobertas.

Segundo, a reconhecer com gratidão a condescendência de Cristo: ele teve por bem ajustar o modo de revelar o evangelho à nossa capacidade e falar conosco como com crianças.

Ele considera nossa constituição: somos da terra; e nosso lugar: estamos na terra. Por isso, fala-nos de coisas terrenas e faz das coisas perceptíveis o veículo das espirituais, para torná-las mais fáceis e familiares a nós.

Assim fez tanto nas parábolas quanto nos sacramentos. Terceiro, a lamentar a corrupção de nossa natureza e nossa grande falta de aptidão para receber e acolher as verdades de Cristo. As coisas terrenas são desprezadas por serem comuns, e as celestiais, por serem difíceis de compreender.

Desse modo, qualquer que seja o método adotado, continuamente se encontra nele algum defeito, Mateus 11:17; apesar disso, a Sabedoria é e será justificada por seus filhos.

[3.] Nosso Senhor Jesus, e somente ele, estava apto a nos revelar uma doutrina tão certa e tão sublime: “Ninguém subiu ao céu, a não ser ele”, v. 13.

Primeiro, ninguém além de Cristo era capaz de nos revelar a vontade de Deus para nossa salvação. Nicodemos dirigiu-se a Cristo como a um profeta; mas precisava saber que ele era maior que todos os profetas do Antigo Testamento, pois nenhum deles havia subido ao céu. Eles escreveram por inspiração divina, não por conhecimento próprio; veja João 1:18.

Moisés subiu ao monte, mas não ao céu. Ninguém alcançou o conhecimento certo de Deus e das coisas celestiais como Cristo alcançou; veja Mateus 11:27. Não cabe a nós mandar buscar instruções no céu; devemos esperar receber as instruções que o Céu nos enviar; veja Provérbios 30:4; Deuteronômio 30:12.

Em segundo lugar, Jesus Cristo é capaz, apto e qualificado em todos os aspectos para nos revelar a vontade de Deus, pois é ele quem desceu do céu e está no céu. Ele havia dito (v. 12): “Como crereis, se vos falar das coisas celestiais?” Agora, aqui:

  1. Ele lhes dá um exemplo dessas coisas celestiais que poderia lhes contar, ao lhes falar de alguém que desceu do céu e, contudo, é o Filho do homem; que é o Filho do homem e, contudo, está no céu. Se a regeneração da alma do homem é tamanho mistério, que dizer, então, da encarnação do Filho de Deus? Essas são, de fato, coisas divinas e celestiais.

Temos aqui uma indicação das duas naturezas distintas de Cristo em uma só pessoa: sua natureza divina, na qual desceu do céu; sua natureza humana, na qual é o Filho do homem; e a união dessas duas pelo fato de que, embora ele seja o Filho do homem, contudo, está no céu.

  1. Ele lhes dá uma prova de sua capacidade de falar-lhes de coisas celestiais e de conduzi-los aos segredos do reino dos céus, ao dizer-lhes:

(1.) Que desceu do céu. A comunicação estabelecida entre Deus e o homem começou no alto; o primeiro movimento em sua direção não surgiu desta terra, mas desceu do céu. Nós o amamos e enviamos a ele porque ele primeiro nos amou e enviou a nós. Agora, isso indica:

[1.] A natureza divina de Cristo. Aquele que desceu do céu certamente é mais que um simples homem; ele é “o Senhor vindo do céu” (1 Coríntios 15:47).

[2.] Seu conhecimento íntimo dos conselhos divinos, pois, vindo da corte celestial, tinha familiaridade com eles desde a eternidade.

[3.] A manifestação de Deus. No Antigo Testamento, os favores de Deus ao seu povo são expressos por ele ouvir do céu (2 Crônicas 7:14), olhar do céu (Salmos 80:14), falar do céu (Neemias 9:13) e enviar do céu (Salmos 57:3). O Novo Testamento, porém, nos mostra Deus descendo do céu para nos ensinar e salvar.

Que tenha descido assim é um mistério admirável, pois a divindade não pode mudar de lugar, nem ele trouxe seu corpo do céu. Mas que tenha condescendido dessa maneira para nossa redenção é uma misericórdia mais admirável; nisso, demonstrou seu amor.

(2.) Que é o Filho do homem, aquele Filho do homem de quem Daniel falou (Daniel 7:13), expressão que os judeus sempre entendem como referência ao Messias. Ao chamar a si mesmo de Filho do homem, Cristo mostra que é o segundo Adão, pois o primeiro Adão foi o pai do homem.

E entre todos os títulos do Messias no Antigo Testamento, ele escolheu usar esse, porque era o que melhor expressava sua humildade e o mais condizente com seu estado atual de humilhação.

(3.) Que está no céu. Agora, neste momento, enquanto conversa com Nicodemos na terra, contudo, como Deus, ele está no céu. O Filho do homem, como tal, não esteve no céu até sua ascensão; mas aquele que era o Filho do homem estava agora, por sua natureza divina, presente em toda parte, e particularmente no céu.

Assim, o Senhor da glória, como tal, não podia ser crucificado, nem Deus, como tal, podia derramar seu sangue; contudo, a pessoa que era o Senhor da glória foi crucificada (1 Coríntios 2:8), e Deus comprou a igreja com seu próprio sangue (Atos 20:28).

Tão estreita é a união das duas naturezas em uma só pessoa que há comunicação de propriedades. Ele não diz hos esti. Deus é o ho on to ourano, aquele que é, e o céu é a habitação de sua santidade.

  1. Cristo discorre aqui sobre o grande desígnio de sua própria vinda ao mundo e a felicidade dos que creem nele (vv. 14-18). Temos aqui a própria medula e quintessência de todo o evangelho, aquela palavra fiel (1 Timóteo 1:15): Jesus Cristo veio buscar e salvar os filhos dos homens da morte e restituí-los à vida. Ora, os pecadores são homens mortos por duas razões:

(1.) Assim como se diz que uma pessoa ferida mortalmente ou enferma de uma doença incurável está morta, porque está morrendo, assim Cristo veio nos salvar ao nos curar, como a serpente de bronze curou os israelitas (v. 14, 15).

(2.) Assim como uma pessoa justamente condenada a morrer por um crime imperdoável está morta, ela está morta perante a lei; e, quanto a esta parte de nosso perigo, Cristo veio salvar como príncipe ou juiz, promulgando um decreto de anistia ou perdão geral, sob certas condições. Aqui, salvar se opõe a condenar (vv. 16-18).

[1.] Jesus Cristo veio nos salvar por nos curar, assim como os filhos de Israel picados pelas serpentes ardentes eram curados e viviam ao erguer os olhos para a serpente de bronze. Temos o relato disso em Números 21:6-9. Foi o último milagre realizado pela mão de Moisés antes de sua morte. Agora, nesse tipo de Cristo podemos observar:

Primeiro, a natureza mortal e destrutiva do pecado, aqui implícita. A culpa do pecado é como a dor da picada de uma serpente ardente; o poder da corrupção é como o veneno assim espalhado. O diabo é a antiga serpente: astuto no princípio (Gênesis 3:1), mas desde então ardente. Suas tentações são dardos ardentes, seus ataques são aterrorizantes, suas vitórias são destrutivas.

Pergunte às consciências despertas, pergunte aos pecadores condenados, e eles lhe dirão que, por mais encantadores que sejam os atrativos do pecado, “no fim ele morde como uma serpente” (Provérbios 23:30-32).

A cólera de Deus contra nós por causa do pecado é como as serpentes ardentes que ele enviou ao meio do povo para puni-los por suas murmurações. As maldições da lei são como serpentes ardentes, assim como todos os sinais da cólera divina.

Em segundo lugar, o poderoso remédio providenciado contra essa enfermidade fatal. A situação dos pobres pecadores é deplorável; mas é sem esperança? Graças a Deus, não é. Há bálsamo em Gileade. O Filho do homem é levantado, como a serpente de bronze foi levantada por Moisés, a qual curou os israelitas picados.

  1. Foi uma serpente de bronze que os curou. O bronze é brilhante; lemos que os pés de Cristo brilham como bronze (Apocalipse 1:15). É duradouro; Cristo é o mesmo.

Foi feita na forma de uma serpente ardente e, contudo, não tinha veneno nem aguilhão, representando apropriadamente Cristo, que foi feito pecado em nosso favor e, contudo, não conheceu pecado. Foi feito à semelhança da carne pecaminosa e, contudo, não era pecaminoso, tão inofensivo quanto uma serpente de bronze.

A serpente era uma criatura amaldiçoada; Cristo foi feito maldição. Aquilo que os curava os fazia lembrar de sua praga; assim, em Cristo, o pecado é posto diante de nós extremamente ardente e temível.

  1. Ela foi levantada numa haste, e assim o Filho do homem deve ser levantado; era necessário que isso lhe acontecesse (Lucas 24:26, 46). Não há remédio agora. Cristo é levantado:

(1.) Em sua crucificação. Foi levantado na cruz. Sua morte é chamada de seu levantamento em João 12:32, 33. Foi levantado como espetáculo, como alvo, levantado entre o céu e a terra, como se tivesse sido indigno de qualquer um deles e abandonado por ambos.

(2.) Em sua exaltação. Foi levantado à direita do Pai para conceder arrependimento e remissão; foi levantado na cruz para ser levantado mais adiante até a coroa.

(3.) Na publicação e pregação de seu evangelho eterno (Apocalipse 14:6). A serpente foi levantada para que todos os milhares de Israel pudessem vê-la. No evangelho, Cristo nos é apresentado, claramente posto diante de nós; é levantado como estandarte (Isaías 11:10).

  1. Ela foi levantada por Moisés. Cristo foi feito sob a lei de Moisés, e Moisés deu testemunho dele.

  2. Assim levantada, ela foi designada para curar aqueles que haviam sido picados pelas serpentes ardentes. Aquele que enviou a praga providenciou o remédio. Ninguém podia nos redimir e salvar senão aquele cuja justiça nos havia condenado. Foi o próprio Deus quem encontrou o resgate, e a eficácia do resgate depende da designação de Deus.

As serpentes ardentes foram enviadas para puni-los por terem posto Cristo à prova, como diz o apóstolo (1 Coríntios 10:9); contudo, eles foram curados por um poder procedente dele. Aquele a quem ofendemos é a nossa paz.

Em terceiro lugar, o modo de aplicar esse remédio é crer, o que alude claramente aos israelitas que erguiam os olhos para a serpente de bronze para serem curados por ela. Se algum israelita picado ou percebesse tão pouco sua dor e seu perigo, ou tivesse tão pouca confiança na palavra de Moisés que não erguesse os olhos para a serpente de bronze, morria com justiça de sua ferida.

Mas cada um que erguia os olhos para ela ficava bem (Números 21:9). Se alguém despreza a tal ponto ou sua doença causada pelo pecado ou o método de cura por Cristo que não acolhe Cristo nos próprios termos dele, seu sangue recai sobre sua própria cabeça.

Ele tem dito: “Olhai e sede salvos” (Isaías 45:22); “olhai e vivei”. Devemos ter satisfação nos métodos que a Sabedoria Infinita adotou ao salvar um mundo culpado, mediante a mediação de Jesus Cristo como o grande sacrifício e intercessor, e anuir a esses métodos.

Em quarto lugar, o grande ânimo que a fé nos dá para olhar para ele. 1. Foi para esse fim que ele foi levantado: para que seus seguidores fossem salvos; e ele prosseguirá nesse propósito. 2. A oferta de salvação feita por meio dele é geral, para que todo aquele que crê nele, sem exceção, possa ser beneficiado por ele.

  1. A salvação oferecida é completa. (1.) Eles não perecerão, não morrerão de suas feridas; embora possam sentir dor e muito medo, a iniquidade não será sua ruína. Mas isso não é tudo. (2.) Terão a vida eterna. Não só não morrerão das feridas no deserto, como chegarão a Canaã, onde então estavam prestes a entrar; desfrutarão o descanso prometido.

[2.] Jesus Cristo veio nos salvar perdoando-nos, para que não morrêssemos pela sentença da lei, v. 16, 17. Aqui está, de fato, o evangelho, as boas-novas, as melhores que já vieram do céu à terra. Aqui há muito, há tudo em poucas palavras: a palavra da reconciliação em miniatura.

Primeiro, aqui está o amor de Deus ao dar seu Filho pelo mundo (v. 16), no qual temos três coisas: 1. O grande mistério do evangelho revelado: “Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho unigênito.” O amor de Deus Pai é a origem de nossa regeneração pelo Espírito e de nossa reconciliação pelo levantamento do Filho. Repare:

(1.) Jesus Cristo é o Filho unigênito de Deus. Isso engrandece seu amor ao dá-lo por nós e a nós; agora sabemos que ele nos ama, pois deu seu Filho unigênito por nós. Isso expressa não apenas a dignidade do Filho em si mesmo, mas também quanto era querido por seu Pai; ele sempre foi seu deleite.

(2.) Para a redenção e a salvação do ser humano, Deus teve por bem dar seu Filho unigênito. Não apenas o enviou ao mundo com poder pleno e amplo para negociar a paz entre o céu e a terra, mas o deu, isto é, entregou-o para sofrer e morrer por nós, como a grande propiciação ou sacrifício expiatório.

Isso aparece aqui como motivo pelo qual ele precisava ser levantado, pois assim fora determinado e planejado pelo Pai, que o deu para esse fim e lhe preparou um corpo para isso. Seus inimigos não poderiam tê-lo prendido se seu Pai não o tivesse entregue. Embora ainda não tivesse sido crucificado, já fora entregue no conselho determinado de Deus, Atos 2:23.

Ou melhor, mais que isso: Deus o deu, isto é, ofereceu-o a todos e o deu a todos os verdadeiros crentes para todos os fins e propósitos da nova aliança. Deu-o para ser nosso profeta, testemunha para o povo, sumo sacerdote de nossa profissão de fé e nossa paz; para ser cabeça da igreja e cabeça sobre todas as coisas para a igreja; para ser para nós tudo de que precisamos.

(3.) Nisso Deus manifestou seu amor pelo mundo: “Deus amou tanto o mundo”, tão verdadeiramente, tão abundantemente. Agora suas criaturas verão que ele as ama e lhes deseja o bem. Amou o mundo da humanidade caída de um modo como não amou o dos anjos caídos; veja Romanos 5:8; 1 João 4:10.

Contemple e admire-se: o grande Deus amar um mundo tão indigno! O Deus santo amar um mundo tão perverso com amor de benevolência, quando não podia olhar para ele com agrado. Esse foi, de fato, um tempo de amor, Ezequiel 16:6, 8.

Os judeus imaginavam em vão que o Messias seria enviado apenas por amor à nação deles e para elevá-los sobre as ruínas de seus vizinhos. Mas Cristo lhes diz que veio por amor ao mundo inteiro, gentios e judeus, 1 João 2:2.

Embora muitos da humanidade pereçam, ainda assim Deus ter dado seu Filho unigênito foi uma demonstração de seu amor pelo mundo inteiro, porque, por meio dele, uma oferta geral de vida e salvação é feita a todos.

É amor à província revoltada e rebelde publicar uma proclamação de perdão e anistia a todos os que se apresentarem, apelarem a ela de joelhos e retornarem à lealdade. Deus amou o mundo apóstata e decaído a ponto de enviar seu Filho com esta generosa proposta: todo aquele que nele crer, seja quem for, não perecerá.

A salvação vinha dos judeus, mas agora Cristo é conhecido como salvação até os confins da terra, uma salvação comum a todos. 2. Aqui está o grande dever do evangelho: crer em Jesus Cristo, a quem Deus assim deu, deu por nós e a nós, aceitar o presente e corresponder à intenção de quem o deu.

Devemos dar assentimento e anuência sinceros ao testemunho que Deus deu em sua palavra acerca de seu Filho. Tendo Deus nos dado seu Filho para ser nosso profeta, sacerdote e rei, devemos nos entregar para sermos governados e salvos por ele e para que ele nos ensine.

  1. Aqui está o grande benefício do evangelho: todo aquele que crer em Cristo não perecerá. Ele já dissera isso e aqui o repete. É a felicidade indizível de todos os verdadeiros crentes, pela qual têm uma dívida eterna com Cristo:

(1.) São salvos das misérias do inferno, livrados de descer à cova; não perecerão. Deus retirou o pecado deles, e não morrerão; foi adquirido um perdão, e a condenação foi anulada.

(2.) Têm direito às alegrias do céu: terão a vida eterna. O traidor condenado não é apenas perdoado, mas promovido, feito favorito e tratado como alguém a quem o Rei dos reis se agrada de honrar. “Sai da prisão para reinar”, Eclesiastes 4:14. Se são crentes, então são filhos; e, se filhos, então herdeiros.

Segundo, aqui está o desígnio de Deus ao enviar seu Filho ao mundo: que o mundo fosse salvo por meio dele. Ele veio ao mundo com a salvação em vista e nas mãos. Portanto, a oferta de vida e salvação mencionada acima é sincera e será cumprida para todos os que a aceitarem pela fé (v. 17): Deus enviou seu Filho ao mundo, este mundo culpado, rebelde e apóstata.

Enviou-o como seu representante ou embaixador, não como às vezes enviara anjos ao mundo como visitantes, mas como residente. Desde que o ser humano pecou, teme a aproximação e a aparição de qualquer mensageiro especial do céu, consciente de sua culpa e à espera do juízo: “Certamente morreremos, pois vimos Deus.”

Se, portanto, o próprio Filho de Deus vem, devemos perguntar a que veio: é para a paz? Ou, como perguntaram a Samuel, tremendo: “Vens em paz?” E esta passagem responde: “Em paz.” 1. Ele não veio condenar o mundo. Tínhamos motivos de sobra para esperar que o fizesse, pois este é um mundo culpado; sua culpa está provada.

Que motivo se poderia apresentar para que não se proferisse sentença nem se ordenasse sua execução segundo a lei? Todas as nações dos homens foram feitas “de um só sangue” (Atos 17:26), e esse sangue não está apenas contaminado por uma doença hereditária, como a lepra de Geazi, mas também por uma culpa hereditária, como a dos amalequitas, com quem Deus guerreou de geração em geração.

Um mundo assim poderia ser condenado com justiça; e, se Deus quisesse enviar alguém para condená-lo, teria anjos a seu dispor para derramar as taças de sua cólera e um querubim de espada flamejante pronto para executar a sentença. Se o Senhor quisesse nos matar, não teria enviado seu Filho entre nós.

Ele veio, de fato, com plenos poderes para executar o julgamento (João 5:22, 27), mas não começou por uma sentença de condenação, não procedeu com base na proscrição, nem se valeu contra nós da violação da aliança da inocência. Em vez disso, submeteu-nos a um novo julgamento diante de um trono de graça.

  1. Ele veio para que o mundo fosse salvo por meio dele, para que se abrisse ao mundo uma porta de salvação pela qual entrasse quem quisesse. Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo e, assim, salvando-o.

Um ato de anistia foi promulgado e publicado; por meio de Cristo, foi estabelecida uma lei reparadora. A humanidade é tratada não segundo o rigor da primeira aliança, mas segundo as riquezas da segunda. O mundo seria salvo por meio dele, pois jamais poderia ser salvo a não ser por meio dele; não há salvação em nenhum outro.

Essas são boas notícias para a consciência convencida de culpa, cura para ossos quebrados e feridas sangrentas: Cristo, nosso juiz, não veio condenar, mas salvar.

[3.] De tudo isso se infere a felicidade dos verdadeiros crentes: “Quem nele crê não é condenado” (v. 18). Embora tenha sido pecador, um grande pecador, e se apresente condenado (habes confilentem reum, por sua própria confissão), ainda assim, quando crê, o processo é suspenso, o julgamento é detido e ele não é condenado.

Isso significa mais que uma suspensão da pena: ele não é condenado, isto é, é absolvido. Ele pode reivindicar sua absolvição, como se diz, e, se não é condenado, fica livre; ou krinetai: ele não é julgado nem tratado segundo a justiça estrita, conforme o que seus pecados merecem.

Ele é acusado e não pode declarar-se inocente diante da acusação, mas pode apresentar uma defesa que a impeça de prosseguir, pode invocar um noli prosequi contra a acusação, como faz o bendito Paulo: “Quem é que condena? Cristo é quem morreu.”

Ele é afligido, disciplinado por Deus e perseguido pelo mundo; contudo, não é condenado. A cruz talvez pese sobre ele, mas foi salvo da maldição. Pode ser condenado pelo mundo, mas não é condenado com o mundo (Romanos 8:1; 1 Coríntios 11:32).

  1. Para concluir, Cristo discorre sobre a condição deplorável daqueles que persistem na incredulidade e na ignorância deliberada (vv. 18-21).

(1.) Leia aqui a condenação daqueles que não querem crer em Cristo: já estão condenados. Observe: [1.] Quão grande é o pecado dos incrédulos. Sua gravidade aumenta pela dignidade da pessoa a quem desprezam: eles não creem “no nome do Filho unigênito de Deus”, que é infinitamente verdadeiro e merece ser crido, infinitamente bom e merece ser acolhido.

Deus enviou para nos salvar aquele que lhe era o mais querido; não deveria ele ser também o mais querido para nós? Não creremos no nome daquele que tem um nome acima de todo nome?

[2.] Quão grande é a desgraça dos incrédulos: já estão condenados. Isso indica, primeiro, uma condenação certa. É tão certo que serão condenados no julgamento do grande dia como se já tivessem sido condenados.

Em segundo lugar, uma condenação presente. A maldição já se apoderou deles; a cólera de Deus agora os alcança. Já estão condenados, pois o próprio coração os condena.

Em terceiro lugar, uma condenação fundada em sua culpa anterior: ele já está condenado, pois está sujeito à lei por todos os seus pecados. A obrigação imposta pela lei permanece em pleno vigor, força e efeito contra ele, porque, pela fé, não participa da anulação proporcionada pelo evangelho. Ele já está condenado porque não creu.

A incredulidade pode, na verdade, ser chamada de grande pecado que condena, porque nos deixa sob a culpa de todos os nossos outros pecados. É um pecado contra o remédio, contra o nosso recurso.

(2.) Leia também a condenação daqueles que nem mesmo quiseram conhecê-lo (v. 19). Muitas pessoas curiosas tinham conhecimento de Cristo, de sua doutrina e de seus milagres, mas nutriam preconceito contra ele e não quiseram crer nele. A maioria, porém, era tolamente descuidada e obtusa, e não quis conhecê-lo.

Esta é a condenação, o pecado que os arruinou: a luz veio ao mundo, e eles preferiram as trevas. Agora observe: [1.] O evangelho é luz e, quando o evangelho veio, a luz veio ao mundo. A luz dá testemunho de si mesma; o evangelho também, pois prova sua própria origem divina.

A luz revela, e de fato ela é doce e alegra o coração. É uma luz que brilha em lugar escuro, e o mundo seria um lugar verdadeiramente escuro sem ela. Veio a todo o mundo (Colossenses 1:6), sem ficar restrita a um canto dele, como acontecia com a luz do Antigo Testamento.

[2.] É uma insensatez indescritível da maioria das pessoas que elas tenham preferido as trevas à luz, a esta luz. Os judeus preferiram as sombras escuras de sua lei e as instruções de seus guias cegos à doutrina de Cristo.

Os gentios preferiram seus cultos supersticiosos a um Deus desconhecido, a quem adoravam sem conhecê-lo, ao culto racional que o evangelho ordena. Os pecadores apegados aos próprios desejos preferiram a ignorância e os enganos que os sustentavam em seus pecados às verdades de Cristo, que os teriam separado de seus pecados.

A apostasia do homem começou com o desejo de um conhecimento proibido, mas se mantém pelo desejo de uma ignorância proibida. O homem miserável ama sua doença e sua escravidão, e não quer ser libertado nem curado.

[3.] O verdadeiro motivo pelo qual as pessoas preferem as trevas à luz é que suas obras são más. Amam as trevas porque pensam que elas servem de desculpa para suas más obras, e odeiam a luz porque ela lhes tira a boa opinião que tinham de si mesmas, ao mostrar-lhes seu pecado e sua miséria.

Sua condição é triste e, como decidiram não corrigi-la, decidiram também não enxergá-la.

[4.] A ignorância deliberada está tão longe de desculpar o pecado que, no grande dia, agravará a condenação. Esta é a condenação, isto é o que arruína as almas: fecham os olhos à luz e não aceitam sequer dialogar com Cristo e seu evangelho. Desafiam tanto a Deus que não desejam conhecer seus caminhos (Jó 21:14).

No julgamento, teremos de prestar contas não apenas do conhecimento que tivemos e não usamos, mas também daquele que poderíamos ter tido e não quisemos ter; não apenas do conhecimento contra o qual pecamos, mas também daquele de que nos privamos pelo pecado.

Para ilustrar melhor isso, ele mostra (v. 20, 21) que, conforme o coração e a vida das pessoas sejam bons ou maus, assim é sua atitude diante da luz que Cristo trouxe ao mundo.

Primeiro, não é estranho que aqueles que praticam o mal e decidem persistir nele odeiem a luz do evangelho de Cristo, pois é uma observação comum que “todo aquele que pratica o mal odeia a luz” (v. 20). Os malfeitores procuram esconder-se por vergonha e medo da punição; veja Jó 24:13, etc.

As obras pecaminosas são obras das trevas; desde o princípio, o pecado buscou ocultar-se (Jó 31:33). A luz sacode os ímpios (Jó 38:12, 13). Assim, o evangelho aterroriza o mundo perverso: eles não vêm a essa luz, mas se mantêm tão longe dela quanto possível, para que suas obras não sejam censuradas. Repare:

  1. A luz do evangelho é enviada ao mundo para censurar as más obras dos pecadores, para torná-las manifestas (Efésios 5:13), para mostrar às pessoas suas transgressões, mostrar que é pecado aquilo que elas não julgavam ser e mostrar-lhes o mal de suas transgressões, para que, pelo novo mandamento, o pecado se mostre extremamente pecaminoso.

O evangelho produz convencimento do pecado para preparar o caminho para suas consolações.

  1. É por esse motivo que os malfeitores odeiam a luz do evangelho. Havia pessoas que praticaram o mal, arrependeram-se disso e acolheram essa luz, como os publicanos e as prostitutas. Aquele, porém, que pratica o mal e está decidido a continuar praticando-o odeia a luz; não suporta ouvir falar de suas faltas.

Toda a oposição que o evangelho de Cristo encontrou no mundo vem do coração perverso, influenciado pelo maligno. Cristo é odiado porque o pecado é amado.

  1. Os que não vêm à luz revelam assim um ódio secreto por ela. Se não tivessem aversão ao conhecimento que salva, não se acomodariam tão satisfeitos na ignorância que condena.

Em segundo lugar, por outro lado, os de coração íntegro, que se provam íntegros diante de Deus, acolhem essa luz (v. 21): “Quem pratica a verdade vem à luz.” Parece, então, que, embora o evangelho tivesse muitos inimigos, também tinha alguns amigos. É uma observação comum que a verdade não procura esconderijos.

Aqueles cujas intenções e ações são honestas não temem um exame; antes, o desejam. Isso se aplica à luz do evangelho: assim como ela convence e aterroriza os malfeitores, também confirma e consola aqueles que andam em sua integridade. Observe aqui:

  1. O caráter de um homem bom:

(1.) Ele pratica a verdade, isto é, age verdadeira e sinceramente em tudo o que faz. Embora às vezes não consiga fazer o bem, o bem que desejaria fazer, ainda assim pratica a verdade e tem um objetivo honesto. Ele tem suas fraquezas, mas se apega à sua integridade, como Gaio, que agia fielmente (3 João 1:5), como Paulo (2 Coríntios 1:12), como Natanael (João 1:47) e como Asa (1 Reis 15:14).

(2.) Ele vem à luz. Está pronto a receber e acolher a revelação divina na medida em que a reconhece como tal, por mais desconforto que isso lhe cause. Quem pratica a verdade está disposto a conhecer a verdade a respeito de si mesmo e a ter suas obras manifestas.

O homem bom se ocupa muito em examinar a si mesmo e deseja que Deus o examine (Salmos 26:2). Ele se preocupa em conhecer a vontade de Deus e está decidido a cumpri-la, por mais contrária que seja à sua própria vontade e aos seus interesses.

  1. Aqui está o caráter de uma boa obra: ela é realizada em Deus, em união com ele pela fé que firma uma aliança e em comunhão com ele por afetos devotos. Nossas obras são boas e resistirão ao exame quando a vontade de Deus é a regra delas e a glória de Deus, o fim delas; quando são feitas na força dele e por causa dele, para ele e não para os homens.

Se, pela luz do evangelho, fica evidente para nós que nossas obras são realizadas desse modo, então teremos motivo de alegria (Gálatas 6:4; 2 Coríntios 1:12).

Versículos 22 a 36

O Testemunho de João a Respeito de Cristo.

Nestes versículos temos:

I. A mudança de Cristo para a região da Judeia (v. 22), onde permaneceu com seus discípulos. Observe:

  1. Nosso Senhor Jesus, depois que começou sua obra pública, viajou muito e deslocou-se muitas vezes, como os patriarcas em suas peregrinações.

Assim como foi parte considerável de sua humilhação não ter morada certa, mas andar, como Paulo, frequentemente em viagens, assim também foi sinal de sua dedicação incansável à obra para a qual veio ao mundo percorrer tantos lugares para realizá-la.

Deu muitos passos cansativos para fazer bem às almas. O Sol da justiça percorreu um grande circuito para espalhar sua luz e seu calor (Salmos 19:6).

  1. Não costumava permanecer muito tempo em Jerusalém. Embora fosse para lá com frequência, ainda assim logo voltava ao interior, como aqui. Depois dessas coisas, depois de conversar com Nicodemos, foi para a região da Judeia, não tanto para ter mais privacidade, embora lugares humildes e obscuros combinassem melhor com o humilde Jesus em seu estado humilde, mas para ser mais útil.

Sua pregação e seus milagres talvez fizessem mais alarde em Jerusalém, fonte das notícias, mas ali produziam menos fruto, onde os homens mais importantes da igreja judaica exerciam tanta influência.

  1. Quando foi para a região da Judeia, seus discípulos o acompanharam, pois eram aqueles que permaneceram com ele em suas tentações. Muitos que se ajuntaram a ele em Jerusalém não puderam acompanhar suas viagens pelo interior; nada tinham a fazer ali. Seus discípulos, porém, o seguiram.

Se a arca se move, é melhor mover-se e segui-la, como fizeram aqueles em Josué 3:3, do que ficar parado sem ela, mesmo em Jerusalém.

  1. Ali permaneceu com eles: dietribe, conviveu e conversou com eles. Não se retirou para o interior por conforto ou prazer, mas para ter mais liberdade de convívio com seus discípulos e seguidores. Veja Cantares de Salomão 7:11, 12.

Repare: aqueles que estão prontos a ir com Cristo o encontrarão igualmente pronto a ficar com eles. Supõe-se que, dessa vez, ele tenha passado cinco ou seis meses naquela região.

  1. Ali batizou: admitiu como discípulos os que nele criam e tinham mais honestidade e coragem que aqueles de Jerusalém (João 2:24). João começou a batizar na região da Judeia (Mateus 3:1); por isso Cristo começou ali, pois João dissera: “Vem um depois de mim”.

O próprio Cristo não batizava com suas mãos; seus discípulos o faziam sob suas ordens e direção, como se vê em João 4:2. Mas o batismo realizado por seus discípulos era o batismo dele. As ordenanças sagradas pertencem a Cristo, mesmo quando administradas por homens fracos.

II. A continuação de João em sua obra enquanto teve oportunidade (v. 23, 24). Aqui somos informados:

  1. De que João continuava batizando. Em essência, o batismo de Cristo era o mesmo de João, pois João dava testemunho de Cristo; portanto, os dois não conflitavam nem interferiam um no outro. Mas:

(1.) Cristo começou a pregar e a batizar antes que João deixasse essa obra, para estar pronto a receber os discípulos dele quando fosse retirado, de modo que as rodas continuassem a girar. É consolo para homens úteis, quando estão saindo de cena, ver surgir outros que provavelmente ocuparão seu lugar.

(2.) João continuou a pregar e a batizar, embora Cristo já tivesse assumido essa obra, pois continuaria a promover, conforme a medida que lhe fora concedida, os interesses do reino de Deus.

Ainda havia trabalho para João: Cristo não era conhecido de modo geral, e o arrependimento ainda não havia preparado inteiramente a mente do povo para recebê-lo. João recebera do céu sua ordem e prosseguiria até receber de lá a contraordem; queria ser dispensado pela mesma mão que lhe dera a missão.

Ele não se junta a Cristo, para que o ocorrido antes não parecesse um conluio entre ambos, mas continua sua obra até que a Providência o afaste dela. Os dons maiores de alguns não tornam desnecessário nem inútil o trabalho dos outros, que têm dons menores; há trabalho suficiente para todos.

São ressentidos os que se sentam sem fazer nada quando se veem ofuscados. Embora tenhamos apenas um talento, teremos de prestar contas dele; e, ao perceber que estamos saindo de cena, devemos, contudo, prosseguir até o fim.

  1. João batizava em Enom, perto de Salim, lugares que não encontramos mencionados em outra parte; por isso os estudiosos não sabem ao certo onde ficam. Onde quer que fosse, parece que João se deslocava de um lugar para outro.

Ele não julgava que o Jordão tivesse alguma virtude especial por Jesus ter sido batizado ali, que o obrigasse a permanecer naquele lugar; quando via motivo, mudava-se para outras águas. Os ministros devem seguir as oportunidades.

Escolheu um lugar onde havia muita água, hydata polla, muitas águas, isto é, muitos cursos d'água. Assim, onde quer que encontrasse alguém disposto a receber seu batismo, havia água à mão para batizá-lo; talvez rasa, como costuma acontecer onde há muitos riachos, mas suficiente para seu propósito. Naquela região, a abundância de água era valiosa.

  1. As pessoas iam até ele e eram batizadas. Embora não viessem em multidões tão grandes como quando ele apareceu pela primeira vez, ainda encontrava ânimo; havia quem o procurasse e o reconhecesse.

Alguns entendem que isso se refere tanto a João quanto a Jesus: vinham e eram batizados; isto é, alguns vinham a João e eram batizados por ele, outros vinham a Jesus e eram batizados por ele. Assim como o batismo deles era um só, também seus corações eram um só.

  1. Registra-se (v. 24) que João ainda não havia sido lançado na prisão, para esclarecer a sequência da história e mostrar que esses acontecimentos vêm antes de Mateus 4:12. João nunca desistiu da obra enquanto teve liberdade; ou melhor, parece que trabalhou com mais empenho por prever que seu tempo seria curto. Ainda não estava preso, mas esperava que isso acontecesse em breve (João 9:4).

III. Uma discussão entre os discípulos de João e os judeus acerca da purificação (v. 25). Veja como o evangelho de Cristo veio trazer à terra não paz, mas divisão. Observe:

  1. Quem discutia: alguns discípulos de João e os judeus que não haviam se submetido a seu batismo de arrependimento. Arrependidos e impenitentes dividem este mundo pecador.

Parece que, nessa discussão, os discípulos de João tomaram a iniciativa e lançaram o desafio; é sinal de que ainda eram iniciantes, com mais zelo do que prudência. As verdades de Deus muitas vezes sofreram pela precipitação daqueles que se puseram a defendê-las antes de estarem preparados.

  1. Qual era o assunto da discussão: a purificação, isto é, a lavagem religiosa.

(1.) Podemos supor que os discípulos de João exaltavam seu batismo, sua purificação, como instar omnium, superior a todos os outros, e o preferiam como aquilo que aperfeiçoava e substituía todas as purificações dos judeus. Estavam certos nisso.

Mas os recém-convertidos são muito inclinados a vangloriar-se do que alcançaram, ao passo que quem encontra o tesouro deve escondê-lo até ter certeza de que o possui, sem falar demais sobre ele no início.

(2.) Sem dúvida, os judeus louvavam com igual confiança as purificações em uso entre eles, tanto as instituídas pela lei de Moisés quanto as impostas pela tradição dos anciãos; para as primeiras tinham autorização divina e, para as últimas, o costume da igreja.

É bem provável que os judeus, nessa discussão, quando não podiam negar a excelência da natureza e do desígnio do batismo de João, levantassem contra ele uma objeção baseada no batismo de Cristo. Isso deu ocasião à queixa registrada em seguida (v. 26):

“Aqui está João batizando num lugar”, dizem eles, “e Jesus, ao mesmo tempo, batizando em outro. Portanto, o batismo de João, que seus discípulos tanto exaltam, é uma destas duas coisas:”

[1.] “Perigoso e prejudicial à paz da igreja e do Estado, pois vocês veem que abre caminho para partidos sem fim. Agora que João começou, logo todo pequeno mestre se apresentará como batizador. Ou:”

[2.] “No melhor dos casos, deficiente e imperfeito. Se o batismo de João, que vocês tanto exaltam, tem algum valor, o batismo de Jesus ali adiante o supera. Quanto a vocês, já estão à sombra de uma luz maior, e seu batismo logo cairá em desuso.”

Assim se levantam objeções contra o evangelho a partir do progresso e do aperfeiçoamento de sua luz, como se infância e maturidade fossem contrárias entre si e a parte erguida sobre o alicerce se opusesse a ele. Não havia motivo para usar o batismo de Cristo contra o de João, pois os dois se harmonizavam muito bem.

IV. Uma queixa que os discípulos de João apresentaram ao mestre a respeito de Cristo e de seu batismo (v. 26). Desconcertados pela objeção mencionada e provavelmente irritados e exaltados por ela, foram ao mestre e lhe disseram:

“Rabi, aquele que estava contigo e foi batizado por ti agora começou a agir por conta própria; ele batiza, e todos vão até ele. Vais permitir isso?” A ânsia que tinham de discutir provocou essa situação.

É comum que as pessoas, quando percebem que ficaram sem resposta no calor da discussão, ataquem aqueles que não lhes causam prejuízo. Se os discípulos de João não tivessem começado a discutir sobre purificação antes de entender a doutrina do batismo, poderiam ter respondido à objeção sem perder a calma.

Na queixa, falam respeitosamente com seu mestre, chamando-o de Rabi; mas se referem com pouco apreço a nosso Salvador, embora não o nomeiem.

  1. Dão a entender que Cristo, ao instituir um batismo próprio, agiu com presunção, de modo inexplicável; como se João, por ter sido o primeiro a estabelecer esse rito, devesse possuir o monopólio dele, quase uma patente da invenção:

“Aquele que estava contigo além do Jordão, como teu discípulo, olha e admira-te: esse mesmo batiza e toma de tuas mãos a tua obra.” Assim, as condescendências voluntárias do Senhor Jesus, como o fato de ter sido batizado por João, muitas vezes são injustamente e com grande falta de bondade usadas para seu descrédito.

  1. Insinuam que Cristo mostrou ingratidão para com João: “Aquele de quem deste testemunho batiza”, como se Jesus devesse toda a sua reputação ao retrato honroso que João fizera dele e, ainda assim, o tivesse aproveitado indignamente em prejuízo de João.

Mas Cristo não precisava do testemunho de João (João 5:36). Ele deu a João mais honra do que recebeu dele; contudo, estamos sujeitos a pensar que os outros nos devem mais do que realmente devem.

Além disso, o batismo de Cristo não prejudicava em nada o de João; de fato, era seu maior aperfeiçoamento, pois o batismo de João servia apenas para preparar o caminho para Cristo. João foi justo com Cristo ao dar testemunho dele; e Cristo, ao corresponder a esse testemunho, antes enriqueceu que empobreceu o ministério de João.

  1. Concluem que isso eclipsaria completamente o batismo de João: “Todos vão até ele. Aqueles que costumavam nos seguir agora se aglomeram em torno dele; portanto, é hora de nos precavermos”.

Não era, de fato, estranho que todos fossem até Cristo. À medida que ele se manifesta, será engrandecido; mas por que os discípulos de João se entristeceriam com isso? Repare: a busca do monopólio da honra e do respeito sempre foi a ruína da igreja e a vergonha de seus membros e ministros.

O mesmo se aplica à disputa de interesses e ao ciúme diante de rivalidades e disputas. Estamos enganados se pensamos que os dons e as graças superiores, os trabalhos e a utilidade de alguém diminuem ou desprestigiam outro que recebeu misericórdia para ser fiel; pois o Espírito é agente livre e distribui a cada um, separadamente, como quer.

Paulo se alegrou com a utilidade até daqueles que se opunham a ele (Filipenses 1:18). Devemos deixar que Deus escolha, empregue e honre seus próprios instrumentos como lhe agrada, sem desejar ocupar sozinhos esse lugar.

V. Aqui está a resposta de João à queixa de seus discípulos (v. 27, etc.). Eles esperavam que o mestre se ressentisse da situação como eles; mas a manifestação de Cristo a Israel não surpreendeu João. Era o que ele esperava e desejava, não algo que o perturbasse.

Por isso, repreendeu a queixa, como Moisés: “Tens tu ciúmes por mim?” Aproveitou a ocasião para confirmar os testemunhos que antes dera da superioridade de Cristo, entregando e transferindo a ele, com alegria, toda a influência que tinha em Israel.

Nesse discurso, o primeiro ministro do evangelho, pois João o foi, é excelente exemplo para todos os ministros de como se humilhar e exaltar o Senhor Jesus.

  1. João se rebaixa em comparação com Cristo (vv. 27-30). Quanto mais os outros nos engrandecem, mais devemos nos humilhar e nos fortalecer contra a tentação da lisonja, do aplauso e do ciúme que nossos amigos têm de nossa honra, lembrando nosso lugar e quem somos (1 Coríntios 3:5).

(1.) João aceita o dispor divino e com ela se satisfaz (v. 27): “O homem não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu”, de onde vem toda boa dádiva (Tiago 1:17). É uma verdade geral muito aplicável a este caso.

Os diferentes trabalhos seguem a direção da Providência divina; os diferentes dons seguem a distribuição da graça divina. Ninguém pode tomar para si verdadeira honra (Hebreus 5:4).

Em todos os movimentos e atos da vida espiritual, dependemos da graça de Deus de modo tão necessário e constante quanto dependemos de sua providência em todos os movimentos e atos da vida natural. Isso aparece aqui como motivo:

[1.] Pelo qual não devemos invejar os que receberam parcela maior de dons que nós ou atuam numa esfera mais ampla de utilidade. João lembra aos discípulos que Jesus não o teria superado assim se não tivesse recebido isso do céu; como homem e Mediador, recebeu dons.

Se Deus lhe deu o Espírito sem medida (v. 34), eles terão inveja disso? O mesmo motivo vale para os outros. Se Deus se agrada de conceder a outros mais capacidade e êxito do que a nós, ficaremos descontentes e o julgaremos injusto, insensato e parcial? Veja Mateus 20:15.

[2.] Pelo qual não devemos ficar descontentes se formos inferiores a outros em dons e utilidade e se suas excelências nos ofuscarem.

João estava pronto a reconhecer que foi um dom do céu, um dom gratuito, que o tornou pregador, profeta e batizador. Foi Deus quem lhe deu a influência que possuía no amor e na estima do povo; e, se agora essa influência diminui, seja feita a vontade de Deus! Quem dá também pode tirar.

O que recebemos do céu deve ser acolhido tal como nos foi dado. João nunca recebeu missão para um ofício permanente e perpétuo, mas apenas para um temporário, que logo terminaria; por isso, depois de cumprir seu ministério, podia ver tranquilamente esse ofício chegar ao fim.

Alguns dão a essas palavras sentido bem diferente: João se empenhara em ensinar aos discípulos que seu batismo apontava para Cristo, o qual viria depois dele, mas teria primazia sobre ele e faria por eles o que João não podia fazer.

Ainda assim, eles se apegam excessivamente a João e ressentem-se dessa primazia de Cristo. “Pois bem”, diz João, “vejo que o homem não pode receber”, isto é, perceber, “coisa alguma, se não lhe for dada do céu”.

O trabalho dos ministros é todo em vão se a graça de Deus não o tornar eficaz. Os homens não entendem nem o que lhes é explicado com a maior clareza, nem creem no que lhes é demonstrado com a maior evidência, a menos que lhes seja dado do céu entender e crer.

(2.) João apela ao testemunho que antes dera a respeito de Cristo (v. 28): “Vós mesmos podeis testemunhar que eu disse, repetidas vezes: não sou o Cristo, mas fui enviado adiante dele”.

Veja como João permaneceu firme e constante em seu testemunho de Cristo, sem ser como um caniço agitado pelo vento. Nem a desaprovação dos principais sacerdotes nem as lisonjas de seus próprios discípulos o fizeram mudar de tom. Agora isso serve:

[1.] Para mostrar aos discípulos que sua queixa não tinha fundamento. Eles haviam mencionado o testemunho que seu mestre dera a Jesus (v. 26). “Pois”, diz João, “não vos lembrais de qual foi o testemunho que dei? Lembrai-vos dele e vereis que responde à vossa objeção.”

“Não disse eu que não sou o Cristo? Por que, então, me colocais como rival daquele que é o Cristo? Não disse que fui enviado adiante dele? Por que vos parece estranho que eu recue e lhe dê lugar?”

[2.] Para consolar o próprio João por nunca ter dado aos discípulos motivo para colocá-lo em disputa com Cristo. Ao contrário, advertira-os expressamente contra esse erro, embora pudesse ter-se aproveitado dele em benefício próprio.

É motivo de satisfação para ministros fiéis terem feito, em seu posto, o que podiam para evitar os excessos nos quais seu povo acabou caindo. João não só deixou de animá-los a esperar que fosse o Messias, como lhes disse claramente o contrário; lembrar-se disso agora o consolava.

Quem recebe honras indevidas costuma desculpar-se com Si populus vult decipi, decipiatur, “Se o povo quer ser enganado, que seja”. Mas é máxima ruim para aqueles cuja tarefa é desenganar as pessoas. O lábio da verdade permanecerá firme.

(3.) João declara a grande satisfação que sentia com o avanço de Cristo e de sua causa. Estava tão longe de se lamentar, como faziam seus discípulos, que se alegrava. Expressa isso (v. 29) por uma comparação elegante.

[1.] Compara nosso Salvador ao noivo: “Aquele que tem a noiva é o noivo. Todos vão até ele? Muito bem, a quem mais deveriam ir? Conquistou o trono nos afetos das pessoas? Quem mais deveria ocupá-lo? É seu direito: a quem se deve levar a noiva senão ao noivo?”

Cristo foi anunciado como noivo no Antigo Testamento (Salmos 45). A Palavra se fez carne para que a diferença de natureza não impedisse essa união. Foi providenciada a purificação da igreja para que a mácula do pecado não a impedisse.

Cristo desposa sua igreja consigo mesmo: tem a noiva porque tem seu amor e sua promessa; a igreja é sujeita a Cristo. Na medida em que cada alma se entrega a ele pela fé e pelo amor, o noivo tem a noiva.

[2.] Compara a si mesmo ao amigo do noivo, que o acompanha para honrá-lo e servi-lo, ajuda-o a concretizar o casamento, fala bem dele, usa sua influência em favor dele e se alegra quando a união avança, sobretudo quando o objetivo se cumpre e o noivo recebe a noiva.

Tudo o que João fizera ao pregar e batizar foi apresentá-lo; agora que ele havia chegado, João tinha o que desejava: “O amigo do noivo está de pé e o ouve”; está de pé à sua espera, aguardando-o; alegra-se muito ao ouvir a voz do noivo, porque ele chegou ao casamento depois de ser esperado por tanto tempo.

Repare: primeiro, os ministros fiéis são amigos do noivo, encarregados de recomendá-lo ao afeto e à escolha dos filhos dos homens e de levar cartas e mensagens dele, pois ele corteja por representante. Nisso, devem ser fiéis a ele.

Segundo, os amigos do noivo devem ficar de pé e ouvir sua voz: devem receber instruções dele e cumprir suas ordens. Devem desejar ter provas de que Cristo fala neles e com eles (2 Coríntios 13:3); essa é a voz do noivo.

Terceiro, a união das almas a Jesus Cristo pela fé e pelo amor completa a alegria de todo bom ministro. Se o dia do casamento de Cristo é o dia da alegria de seu coração (Cantares de Salomão 3:11), não pode deixar de ser também motivo de alegria para os que o amam e desejam o bem de sua honra e de seu reino. Certamente não têm alegria maior.

(4.) João reconhece ser muito justo e necessário que a reputação e a influência de Cristo cresçam, e as suas diminuam (v. 30): “Ele deve crescer, mas eu devo diminuir”.

Se os discípulos se entristecem com a grandeza crescente do Senhor Jesus, terão cada vez mais motivos para tristeza, como todos os que se entregam à inveja e à rivalidade.

João fala do crescimento de Cristo e de sua própria diminuição não apenas como algo necessário e inevitável, que não se pode impedir e, portanto, se deve suportar, mas como algo inteiramente justo e apropriado, que lhe traz plena satisfação.

[1.] Agradava-lhe ver o reino de Cristo ganhar terreno: “Ele deve crescer. Vocês pensam que ele já conquistou muito, mas isso não é nada diante do que ainda conquistará”. Repare: o reino de Cristo é e continuará a ser um reino em crescimento, como a luz da manhã e o grão de mostarda.

[2.] Não se incomodava nem um pouco que isso diminuísse sua própria influência: “Eu devo diminuir”. As excelências criadas estão sujeitas a essa lei: devem diminuir. “Tenho visto o fim de toda perfeição”.

Repare: primeiro, o brilho da glória de Cristo ofusca o esplendor de toda outra glória. A glória que disputa lugar com Cristo, a do mundo e a da carne, diminui e perde terreno na alma à medida que o conhecimento e o amor de Cristo crescem e ganham terreno. Aqui, porém, João fala da glória que serve a Cristo.

À medida que cresce a luz da manhã, diminui a luz da estrela da manhã. Segundo, se nossa diminuição ou humilhação puder contribuir minimamente para o avanço do nome de Cristo, devemos aceitá-la com alegria e contentar-nos em ser qualquer coisa, em ser nada, contanto que Cristo seja tudo.

  1. João Batista exalta Cristo e instrui seus discípulos a respeito dele, para que, em vez de lamentar que tantos fossem até Cristo, eles próprios fossem.

(1.) Ensina-lhes a dignidade da pessoa de Cristo (v. 31): “Aquele que vem do alto, que vem do céu, está acima de todos”. Aqui:

[1.] João pressupõe a origem divina de Cristo: ele veio do alto, do céu, o que indica não só sua linhagem divina, mas sua natureza divina. Ele existia antes da concepção, e sua existência era celestial.

Somente aquele que veio do céu era apto a mostrar-nos a vontade do céu ou o caminho para o céu. Quando Deus quis salvar o ser humano, enviou alguém do alto.

[2.] Daí João conclui sua autoridade soberana: ele está acima de todos, acima de todas as coisas e pessoas, Deus sobre todos, bendito eternamente. É ousada presunção disputar com ele a primazia.

Quando falamos das honras do Senhor Jesus, vemos que ultrapassam toda compreensão e expressão; só podemos dizer: ele está acima de todos. Disse-se de João Batista que, entre os nascidos de mulher, não havia maior.

Mas a vinda de Cristo do céu lhe conferiu dignidade que não perdeu ao se fazer carne; continuou acima de todos. João esclarece isso ainda mais pela pequenez daqueles que estavam em disputa com ele:

“Aquele que é da terra é terreno”, ho on ek tes ges, ek tes ges esti, “aquele que é da terra é da terra”. Quem tem origem na terra dela tira o alimento, convive com as coisas terrenas e se ocupa delas.

Repare: primeiro, o ser humano tem origem na terra. Não só Adão no princípio, mas nós também continuamos a ser formados do barro (Jó 33:6). Olhem para a rocha de onde fomos talhados.

Segundo, por isso a constituição humana é terrena: não apenas o corpo é frágil e mortal, mas a alma é corrupta e carnal, fortemente inclinada às coisas da terra.

Os profetas e os apóstolos foram moldados da mesma matéria que os outros homens; eram apenas vasos de barro, embora carregassem um rico tesouro. Deveriam ser colocados como rivais de Cristo? Que os cacos de barro contendam com os cacos da terra, mas não enfrentem aquele que veio do céu.

(2.) João ensina-lhes a excelência e a certeza da doutrina de Cristo. Seus discípulos estavam descontentes porque a pregação de Cristo era mais admirada e procurada que a dele; mas João lhes mostra que havia razão de sobra para isso. Pois:

[1.] Quanto a ele, falava da terra, como todos os que são da terra. Os profetas eram homens e falavam como homens; por conta própria, não podiam falar senão de coisas terrenas (2 Coríntios 3:5).

A pregação dos profetas e de João era menos elevada e sem relevo em comparação com a de Cristo. Assim como o céu está muito acima da terra, os pensamentos dele estavam acima dos pensamentos deles. Por meio dos profetas, Deus falou na terra; mas, em Cristo, fala do céu.

[2.] Mas aquele que vem do céu está acima de todos os profetas que viveram na terra, não só por sua pessoa, mas também por sua doutrina; ninguém ensina como ele. A doutrina de Cristo nos é aqui recomendada:

Primeiro, como infalivelmente segura e certa, devendo ser recebida como tal (v. 32): “O que ele viu e ouviu, isso testifica.” Veja aqui: 1. O conhecimento divino de Cristo. Ele nada testificou além do que tinha visto e ouvido, daquilo de que estava perfeitamente informado e que conhecia por inteiro.

O que revelou da natureza divina e do mundo invisível era o que tinha visto; o que revelou da mente de Deus era o que tinha ouvido sem mediação dele, não por intermédio de outros. Os profetas testificaram o que lhes fora revelado em sonhos e visões por meio dos anjos, mas não o que eles próprios tinham visto e ouvido.

João era a voz do arauto que dizia: “Abram caminho para a testemunha e guardem silêncio enquanto o juiz dá sua orientação”; mas depois deixava à própria testemunha apresentar seu depoimento e ao próprio juiz dar sua orientação.

O evangelho de Cristo não é uma opinião duvidosa, como uma hipótese ou ideia nova da filosofia, na qual cada um é livre para crer ou não; mas é a revelação da mente de Deus, verdadeira em si por toda a eternidade e de importância infinita para nós.

  1. Sua graça e bondade divinas: ele teve por bem nos dar a conhecer o que tinha visto e ouvido, porque sabia que isso nos dizia respeito de perto.

O que Paulo viu e ouviu no terceiro céu ele não pôde testemunhar (2 Coríntios 12:4), mas Cristo sabia como expressar o que tinha visto e ouvido. A pregação de Cristo é aqui chamada de testemunho, para indicar: (1.) Sua prova convincente. Não se tratava de notícia transmitida por ouvir dizer, mas de depoimento prestado em juízo, com grande cuidado e segurança.

(2.) O fervor afetuoso com que foi apresentado: era testemunhado com zelo e insistência, como em Atos 18:5.

Da certeza da doutrina de Cristo, João aproveita a ocasião: [1.] Para lamentar a incredulidade da maioria das pessoas. Embora Cristo testifique o que é infalivelmente verdadeiro, “ninguém recebe seu testemunho”, isto é, pouquíssimos, quase ninguém, ninguém em comparação com os que o recusam.

Não o recebem, não querem ouvi-lo, não lhe dão atenção nem crédito. João diz isso não só como motivo de espanto por tal testemunho não ser recebido — “Quem creu em nosso relato?” Como é insensata e tola a maior parte da humanidade, inimiga de si mesma! —, mas também como motivo de dor.

Os discípulos de João se entristeciam porque todos iam a Cristo (v. 26); julgavam numerosos demais os seguidores dele. João, porém, lamenta que ninguém vá a Cristo; julgava-os poucos demais. Repare: a incredulidade dos pecadores é a dor dos santos. Foi por isso que São Paulo sentiu “grande tristeza”, Romanos 9:2.

[2.] João aproveita a ocasião para elogiar a fé do remanescente escolhido (v. 33): “Quem recebeu seu testemunho”, e havia alguns, embora pouquíssimos, “pôs seu selo de que Deus é verdadeiro”. Deus é verdadeiro ainda que não ponhamos nosso selo nisso; que Deus seja verdadeiro e todo homem mentiroso.

A verdade de Deus não precisa de nossa fé para sustentá-la, mas, pela fé, fazemos a nós mesmos a honra e a justiça de subscrever sua verdade; e Deus considera que, assim, o honramos. Todas as promessas de Deus são sim e amém; pela fé, acrescentamos nosso amém a elas, como em Apocalipse 22:20.

Observe: quem recebe o testemunho de Cristo subscreve não apenas a verdade de Cristo, mas também a de Deus, pois seu nome é a Palavra de Deus. Os mandamentos de Deus e o testemunho de Cristo aparecem juntos em Apocalipse 12:17. Ao crer em Cristo, pomos nosso selo:

Primeiro, em que Deus é fiel a todas as promessas que fez acerca de Cristo, àquilo que disse pela boca de todos os seus santos profetas. Tudo o que jurou a nossos pais foi cumprido, sem que uma só letra ou traço caísse por terra, Lucas 1:70, etc.; Atos 13:32, 33.

Segundo, em que ele é fiel a todas as promessas que fez em Cristo. Confiamos nossa alma à veracidade de Deus, certos de que ele é verdadeiro; estamos dispostos a tratar com ele com base na confiança e a deixar tudo neste mundo por uma felicidade que só receberemos depois e que ainda não podemos ver.

Com isso honramos muito a fidelidade de Deus. A quem damos crédito, damos honra.

Em segundo lugar, ela nos é recomendada como doutrina divina, não do próprio Cristo, mas daquele que o enviou (v. 34): “Aquele que Deus enviou fala a palavra de Deus”, a qual foi enviado e capacitado a falar, “pois Deus não lhe dá o Espírito por medida”.

Os profetas eram como mensageiros que traziam cartas do céu; Cristo, porém, veio na condição de embaixador e como tal trata conosco. Pois: 1. Ele falava as palavras de Deus, e nada do que dizia tinha traços da fraqueza humana; tanto o conteúdo quanto a linguagem eram divinos.

Ele provou que fora enviado por Deus (João 3:2); portanto, suas palavras devem ser recebidas como palavras de Deus. Por essa regra podemos provar os espíritos: os que falam como os oráculos de Deus e profetizam segundo a proporção da fé devem ser recebidos como enviados de Deus.

  1. Ele falava como nenhum outro profeta, pois Deus não lhe dá o Espírito por medida. Ninguém pode falar as palavras de Deus sem o Espírito de Deus, 1 Coríntios 2:10, 11.

Os profetas do Antigo Testamento tinham o Espírito, em graus diversos, 2 Reis 2:9, 10. Mas, enquanto Deus lhes dava o Espírito por medida (1 Coríntios 12:4), a Cristo o deu sem medida; toda a plenitude habitava nele, a plenitude da Divindade, uma plenitude imensurável.

O Espírito não estava em Cristo como em um recipiente, mas como em uma fonte, em um oceano sem fundo.

“Os profetas, que tinham o Espírito de modo limitado, somente para alguma revelação particular, às vezes falavam por si mesmos; mas aquele em quem o Espírito sempre habitava, sem limite, sempre falava as palavras de Deus.” Assim diz o dr. Whitby.

(3.) Quanto ao poder e à autoridade de que ele é investido, que lhe dão preeminência sobre todos os outros e um nome mais excelente que o deles.

[1.] Ele é o Filho amado do Pai (v. 35): “O Pai ama o Filho.” Os profetas eram fiéis como servos, Cristo como Filho; eles eram empregados como servos, mas Cristo era amado como filho, sempre o deleite do Pai, Provérbios 8:30.

O Pai se agradava muito dele. Não apenas o amou no passado: continua a amá-lo. Manteve seu amor por ele até em seu estado de humilhação e não o amou menos por sua pobreza e seus sofrimentos.

[2.] Ele é Senhor de tudo. O Pai, como prova de seu amor por ele, “deu todas as coisas em suas mãos”. O amor é generoso. O Pai tinha tanto agrado nele e tanta confiança nele que o constituiu grande titular fiduciário em favor da humanidade.

Depois de lhe dar o Espírito sem medida, deu-lhe todas as coisas, pois assim estava qualificado para ser senhor e administrador de tudo. Repare: é honra de Cristo e consolo indizível de todos os cristãos que o Pai tenha dado todas as coisas nas mãos do Mediador.

Primeiro, “todo o poder”; assim se explica em Mateus 28:18. Postas todas as obras da criação debaixo de seus pés, todos os assuntos da redenção são postos em suas mãos: ele é Senhor de tudo. Os anjos são seus servos; os demônios, seus cativos. Tem poder sobre toda carne, e os gentios lhe foram dados por herança.

O reino da providência foi confiado à sua administração. Tem poder para fixar as condições da aliança de paz como grande plenipotenciário, governar sua igreja como grande legislador, distribuir favores divinos como grande dispensador de dádivas e chamar todos a prestar contas como grande Juiz.

Tanto o cetro de ouro quanto a vara de ferro foram entregues em suas mãos. Segundo, toda a graça foi posta em suas mãos como canal de transmissão; todas as coisas, todos os bens que Deus pretendia dar aos filhos dos homens: a vida eterna e tudo o que a precede.

Não somos dignos de receber essas coisas das mãos do Pai, pois nos fizemos filhos de sua cólera. Por isso, ele designou o Filho de seu amor como depositário fiduciário em nosso favor e lhe entrega as coisas que destinou a nós; o Filho é digno e mereceu tanto as honras para si quanto os favores para nós.

Foram dadas às mãos dele para que, por seu intermédio, fossem dadas às nossas. É grande ânimo para a fé saber que as riquezas da nova aliança estão depositadas em mãos tão seguras, tão bondosas e tão boas: nas mãos daquele que as comprou para nós e nos comprou para si, daquele que é capaz de guardar tudo o que Deus e os crentes concordaram em lhe confiar.

[3.] Ele é o objeto daquela fé que constitui a grande condição da felicidade eterna e, nisso, tem a primazia sobre todos os demais: “Quem crê no Filho tem vida” (v. 36). Temos aqui a aplicação do que João havia dito acerca de Cristo e de sua doutrina; esta é a conclusão de todo o assunto.

Se Deus conferiu essa honra ao Filho, devemos honrá-lo pela fé. Assim como Deus nos oferece e comunica bens pelo testemunho de Jesus Cristo, cuja palavra é o veículo dos favores divinos, também recebemos e participamos desses favores ao crer no testemunho e acolher essa palavra como verdadeira e boa. Esse modo de receber corresponde bem àquele modo de dar.

Temos aqui o resumo do evangelho que deve ser pregado a toda criatura (Marcos 16:16). Aqui está:

Primeiro, o estado bem-aventurado de todos os verdadeiros cristãos: “Quem crê no Filho tem a vida eterna.” Repare:

  1. É característica de todo verdadeiro cristão crer no Filho de Deus. Não apenas crer no que ele diz, reconhecendo que é verdadeiro, mas crer nele, anuir a ele e nele confiar. O benefício do verdadeiro cristianismo é nada menos que a vida eterna; foi isso que Cristo veio comprar para nós e nos conceder. Não pode ser nada menos que a felicidade de uma alma imortal em um Deus imortal.

  2. Os verdadeiros crentes têm a vida eterna agora mesmo. Não apenas a terão no futuro: já a têm no presente. Pois:

(1.) Têm uma garantia muito segura dela. A escritura pela qual lhes é transmitida está selada e lhes foi entregue; nesse sentido, já a têm. Ela foi colocada nas mãos de seu guardião em favor deles; também nesse sentido a têm, embora o usufruto ainda não lhes tenha sido entregue em posse.

Eles têm o Filho de Deus e, nele, têm a vida; têm também o Espírito de Deus, o penhor dessa vida.

(2.) Têm os reconfortantes antegostos dela na comunhão presente com Deus e nos sinais de seu amor. A graça é o começo da glória.


Ajustes de leitura

Tamanho do texto
Tipo de letra