Matthew Henry

João 20

Argumento

Embora este evangelista não tenha começado seu evangelho como os outros, ainda assim termina-o como eles, com o relato da ressurreição de Cristo. Não relata o momento em si, pois nenhum deles descreve como ele ressuscitou, mas as provas e evidências que demonstraram que havia ressuscitado.

As provas da ressurreição de Cristo neste capítulo são: I. As que se apresentaram imediatamente junto ao sepulcro. 1. O sepulcro encontrado vazio, e as vestes funerárias em ordem, vv. 1-10. 2. A aparição de dois anjos a Maria Madalena junto ao sepulcro, vv. 11-13. 3. A aparição do próprio Cristo a ela, vv. 14-18.

II. As que se apresentaram depois, nas reuniões dos apóstolos. 1. Numa reunião na noite do próprio dia em que Cristo ressuscitou, quando Tomé estava ausente, vv. 19-25. 2. Em outra, uma semana depois, quando Tomé estava com eles, vv. 26-31. A maior parte do que se relata aqui foi omitida pelos outros evangelistas.

Versículos 1 a 10

A Ressurreição.

Não havia nada para o qual os apóstolos se empenhassem mais em apresentar provas sólidas do que a ressurreição de seu Mestre. 1. Porque ele próprio a apontara como a prova final e mais convincente de que era o Messias. Os que não cressem nos outros sinais eram remetidos ao sinal do profeta Jonas.

Por isso, seus inimigos se empenharam ao máximo em abafar a notícia: tudo dependia dessa questão e, se ele havia ressuscitado, não eram apenas assassinos, mas assassinos do Messias. 2. Porque o cumprimento da obra que assumira para nossa redenção e salvação dependia da ressurreição.

Se desse a vida em resgate e não a retomasse, não ficaria claro que essa entrega fora aceita como satisfação. Se fosse preso por nossa dívida e continuasse na prisão, estaríamos perdidos (1 Coríntios 15:17).

  1. Porque, depois de ressuscitar, ele nunca se mostrou vivo a todo o povo (Atos 10:40, 41). Teríamos dito: “Que sua morte vergonhosa seja privada e sua ressurreição gloriosa, pública”. Mas os pensamentos de Deus não são os nossos.

Deus ordenou que sua morte fosse pública, diante do sol; tanto que o próprio sol corou e escondeu o rosto. As demonstrações de sua ressurreição, porém, foram reservadas como favor a seus amigos mais próximos e divulgadas ao mundo por meio deles, para que fossem bem-aventurados os que não viram e ainda assim creram.

O modo de prová-la satisfaz plenamente os que têm disposição piedosa para receber a doutrina e a lei de Cristo, mas deixa espaço para as objeções daqueles que escolhem permanecer ignorantes e obstinados na incredulidade. É uma prova justa, adequada a pessoas que ainda estão sendo postas à prova.

Nestes versículos temos o primeiro passo para provar a ressurreição de Cristo: o sepulcro foi encontrado vazio. Ele não está aqui; se é assim, precisam nos dizer onde está, ou concluiremos que ressuscitou.

I. Maria Madalena chega ao sepulcro e encontra a pedra removida. Este evangelista não menciona as outras mulheres que foram com ela, mas somente Maria, porque foi a mais ativa e decidida nessa visita e a que demonstrou maior afeto. Esse afeto tinha bom motivo: as grandes coisas que Cristo fizera por ela.

Muito lhe fora perdoado; por isso, muito amava. Demonstrara seu afeto enquanto ele vivia: ouvia seus ensinamentos e o servia com seus bens (Lucas 8:2, 3). Não parece que tivesse outro motivo para estar em Jerusalém naquela ocasião além de acompanhá-lo, pois as mulheres não eram obrigadas a subir para a festa.

Provavelmente ela e as outras o seguiram ainda mais de perto, como Eliseu seguiu Elias, agora que sabiam que seu Mestre logo lhes seria tirado (2 Reis 2:1-6). A consideração que continuou a demonstrar por ele durante e depois da morte prova a sinceridade de seu amor. Repare: o amor sincero por Cristo será constante.

Seu amor por Cristo era forte como a morte, até a morte na cruz, pois permaneceu ao lado dela; cruel como o sepulcro, pois foi visitá-lo sem recuar diante de seus terrores.

  1. Foi ao sepulcro para lavar com lágrimas o corpo morto, pois foi à tumba chorar e ungi-lo com o unguento que havia preparado. O sepulcro é uma casa que as pessoas não gostam de visitar. Os que estão livres entre os mortos foram separados dos vivos; só um afeto extraordinário por alguém pode tornar seu sepulcro querido para nós.

Ele é especialmente assustador para o sexo mais frágil e tímido. Maria, que não tinha forças para remover a pedra, poderia alegar ter a presença de espírito necessária para entrar no sepulcro? A religião dos judeus lhes proibia o contato com sepulcros e cadáveres além do estritamente necessário.

Ao visitar o sepulcro de Cristo, ela se expunha, e talvez expusesse os discípulos, à suspeita do desígnio de levar o corpo. E que serviço real poderia lhe prestar com isso? Seu amor, porém, responde a essas e a mil objeções semelhantes. Repare: (1.) Devemos procurar honrar Cristo até nas coisas em que não podemos lhe ser úteis.

(2.) O amor por Cristo afasta o terror da morte e do sepulcro. Se não pudermos chegar a Cristo senão por aquele vale escuro, mesmo ali, se o amarmos, não temeremos mal algum.

  1. Veio assim que pôde, pois chegou (1.) no primeiro dia da semana, logo que terminou o sábado. Não ansiava por vender cereal e pôr o trigo à venda, como em Amós 8:5, mas por estar no sepulcro. Os que amam Cristo aproveitam a primeira oportunidade de demonstrar-lhe sua consideração.

Era o primeiro sábado cristão, e ela o começou procurando Cristo. Passara o dia anterior comemorando a obra da criação e, por isso, descansara; agora procurava conhecer a obra da redenção e, por isso, visitava Cristo, e este crucificado.

(2.) Chegou cedo, quando ainda estava escuro; tão cedo saíra. Repare: os que desejam buscar Cristo de modo a encontrá-lo precisam buscá-lo cedo. Isso significa [1.] buscá-lo ansiosamente, com zelo capaz até de interromper o sono: levantar cedo por receio de perdê-lo.

[2.] Buscá-lo com diligência: devemos renunciar a nós mesmos e ao próprio descanso na busca de Cristo. [3.] Buscá-lo a tempo: cedo na vida e cedo a cada dia. “Pela manhã ouvirás a minha voz.” O dia assim iniciado tem boas perspectivas de terminar bem.

Os que procuram Cristo diligentemente enquanto ainda está escuro receberão a seu respeito uma luz que brilhará cada vez mais.

  1. Encontrou removida a pedra que vira ser rolada até a entrada do sepulcro. Isso foi (1.) uma surpresa para ela, pois de modo algum o esperava. Cristo crucificado é a fonte da vida. Seu sepulcro é um dos poços da salvação: se chegarmos a ele pela fé, encontraremos a pedra removida (como em Gênesis 29:10) e livre acesso a seus consolos, embora para o coração carnal seja uma fonte fechada.

Consolos inesperados frequentemente animam os que buscam cedo. (2.) Foi o começo de uma descoberta gloriosa: o Senhor havia ressuscitado, embora Maria não o compreendesse de início. Repare: [1.] Aqueles que permanecem mais constantes em sua ligação com Cristo e mais diligentes em procurá-lo costumam receber as primeiras e mais doces notícias da graça divina.

Maria Madalena, que seguiu Cristo até o fim de sua humilhação, esteve entre os primeiros a encontrá-lo em sua exaltação. [2.] Deus geralmente se revela, com seus consolos, aos poucos, para despertar nossa expectativa e incentivar nossa busca.

II. Ao encontrar a pedra removida, Maria corre de volta a Pedro e João, que provavelmente estavam hospedados juntos naquela parte da cidade, não muito longe, e lhes conta: “Levaram o Senhor do sepulcro, por não suportarem que tivesse a honra de um sepultamento tão decoroso; não sabemos onde o puseram nem onde encontrá-lo para prestar-lhe as últimas homenagens que ainda nos cabem”.

Observe aqui: 1. Como Maria interpretou o que via. Encontrou a pedra removida, olhou para dentro do sepulcro e viu que estava vazio. Seria de esperar que seu primeiro pensamento fosse: “Certamente o Senhor ressuscitou”. Afinal, sempre que lhes dissera que seria crucificado, fato que Maria acabara de ver, acrescentara no mesmo fôlego que ressuscitaria ao terceiro dia.

Ela poderia ter sentido o grande terremoto que ocorreu enquanto se dirigia ao sepulcro, ou se preparava para ir, e agora ver a tumba vazia sem que a ressurreição lhe passasse pela mente? Nem uma hipótese, nem uma suspeita? É o que parece, pela interpretação estranha e forçada que deu à remoção da pedra.

Repare: quando refletimos sobre nossa conduta num dia sombrio, ficamos admirados com nossa falta de percepção e nossa memória falha. Como pudemos deixar de pensar em coisas que depois parecem óbvias? Como puderam estar tão longe de nós justamente quando precisávamos delas?

Maria sugeriu: “Levaram o Senhor”. Ou os principais sacerdotes o teriam transferido para um lugar pior, ou José e Nicodemos, reconsiderando o caso, o teriam retirado para evitar a hostilidade dos judeus. Seja qual fosse sua suspeita, o desaparecimento do corpo lhe causou grande aflição e perturbação, quando, se o tivesse entendido corretamente, nada poderia ser mais feliz.

Repare: os que creem, quando fracos, muitas vezes se queixam daquilo que, na verdade, é motivo de esperança e alegria. Lamentamos que este ou aquele conforto terreno nos foi tirado e não sabemos como recuperá-lo. De fato, a perda desses consolos temporários, que lamentamos, abre caminho para a ressurreição dos consolos espirituais, na qual também deveríamos nos alegrar.

  1. O relato que Maria fez a Pedro e João. Não ficou ali remoendo a dor, mas contou aos amigos. Repare: compartilhar as dores é uma boa maneira de aproveitar a comunhão dos santos.

Observe: embora tivesse negado seu Mestre, Pedro não abandonara os amigos dele. Sua convivência com o discípulo a quem Jesus amava mostra a sinceridade de seu arrependimento. Os discípulos, ao manterem a intimidade de antes com Pedro apesar da queda, nos ensinam a restaurar com espírito de mansidão os que falharam. Se Deus os recebeu ao se arrependerem, por que nós não os receberíamos?

III. Pedro e João vão depressa ao sepulcro, para conferir o relato de Maria e ver se descobrem algo mais (v. 3, 4). Alguns pensam que os outros discípulos estavam com eles quando receberam a notícia, pois essas coisas foram contadas aos onze (Lucas 24:9).

Outros pensam que Maria Madalena contou sua história somente a Pedro e João, e que as demais mulheres contaram as suas aos outros discípulos. Ainda assim, só Pedro e João foram ao sepulcro. Eram dois dos três principais discípulos de Cristo, frequentemente distinguidos dos demais por favores especiais.

Repare: é bom quando os que receberam maiores privilégios como discípulos são mais ativos que os demais nos deveres do discipulado, mais dispostos a esforçar-se e correr riscos numa boa obra.

  1. Veja como devemos aproveitar a experiência e as observações de outras pessoas. Quando Maria lhes contou o que vira, não aceitaram simplesmente sua palavra, mas foram ver com os próprios olhos. Outros nos falam do consolo e do benefício das ordenanças? Isso deve nos levar a experimentá-los. Venha ver como é bom aproximar-se de Deus.

  2. Veja como devemos estar prontos para compartilhar as preocupações e temores de nossos amigos. Pedro e João correram ao sepulcro para poder dar a Maria uma resposta satisfatória às suas inquietações. Não devemos poupar esforços para socorrer e consolar os seguidores fracos e receosos de Cristo.

  3. Veja como devemos nos apressar em fazer uma boa obra e cumprir uma boa missão. Pedro e João não pensaram no próprio conforto nem em preservar a compostura, mas correram ao sepulcro para demonstrar a força de seu zelo e afeto e não perder tempo. Se estamos no caminho dos mandamentos de Deus, devemos correr por ele.

  4. Veja como é bom ter boa companhia numa boa obra. Talvez nenhum dos dois ousasse ir sozinho ao sepulcro, mas juntos foram sem hesitar. Veja Eclesiastes 4:9.

  5. Veja como é louvável a emulação entre os discípulos para saber quem se destacará e superará os demais no bem. João era mais jovem que Pedro, mas não foi falta de respeito ultrapassá-lo na corrida e chegar primeiro. Devemos fazer o melhor que pudermos, sem invejar quem faz melhor nem desprezar quem faz o que pode, ainda que fique para trás.

(1.) Quem chegou primeiro foi o discípulo a quem Jesus amava de modo especial e que, por isso, também amava Jesus especialmente. Repare: a consciência do amor de Cristo por nós, ao acender em nós o amor por ele, nos fará destacar na virtude. O amor de Cristo, mais do que qualquer outra coisa, nos impulsionará a cumprir abundantemente nosso dever.

(2.) Quem ficou para trás foi Pedro. Ele negara o Mestre e, triste e envergonhado, carregava essa culpa como um peso. A consciência da culpa nos tolhe e impede nossa liberdade no serviço de Deus. Quando ofendemos a consciência, perdemos terreno.

IV. Depois de chegarem ao sepulcro, Pedro e João prosseguem a investigação, mas avançam pouco na descoberta.

  1. João não foi além de Maria Madalena. (1.) Teve curiosidade de olhar para dentro do sepulcro e viu que estava vazio. Abaixou-se e olhou. Quem deseja conhecer Cristo precisa abaixar-se e olhar para dentro: submeter-se humildemente à autoridade da revelação divina e olhar com atenção.

(2.) Ainda assim, não teve coragem de entrar. Os afetos mais ardentes nem sempre vêm acompanhados das decisões mais ousadas; muitos correm depressa na carreira da religião, mas não têm vigor para travar suas batalhas.

  1. Pedro, embora chegasse por último, entrou primeiro e examinou tudo com mais cuidado do que João (v. 6, 7). João o ultrapassara na corrida, mas Pedro não voltou atrás nem parou: continuou atrás dele tão depressa quanto pôde. Enquanto João olhava para dentro com muita cautela, Pedro chegou e entrou corajosamente no sepulcro.

(1.) Observe a ousadia de Pedro e como Deus distribui seus dons de maneiras diversas. João podia correr mais que Pedro; Pedro podia ousar mais que João. Raramente é verdade das mesmas pessoas aquilo que Davi diz poeticamente de Saul e Jônatas: eram mais velozes que águias e mais fortes que leões (2 Samuel 1:23).

Alguns discípulos são rápidos e ajudam a estimular os lentos; outros são ousados e ajudam a encorajar os receosos. Há diversidade de dons, mas um só Espírito. A entrada de Pedro no sepulcro pode nos ensinar: [1.] Que os que procuram Cristo com sinceridade não devem deixar-se assustar por espantalhos e fantasias tolas: “Há um leão no caminho, um fantasma no sepulcro”.

[2.] Que os bons cristãos não precisam temer o sepulcro, pois Cristo esteve nele. Para eles nada há ali de assustador: não é o poço da destruição, nem os vermes que nele estão são vermes que nunca morrem.

Não devemos, portanto, alimentar o medo que sentimos ao ver um cadáver ou ao ficar sozinhos entre túmulos, mas vencê-lo. Como em breve também morreremos e iremos para o sepulcro, familiarizemo-nos com a morte e a sepultura como com parentes próximos (Jó 17:14).

[3.] Devemos estar dispostos a atravessar o sepulcro para chegar a Cristo. Foi por esse caminho que ele chegou à sua glória, e nós também precisamos percorrê-lo. Se não podemos ver o rosto de Deus e continuar vivos, é melhor morrer do que nunca vê-lo. Veja Jó 19:25, etc.

(2.) Observe como Pedro encontrou as coisas no sepulcro. [1.] Cristo deixara ali suas vestes funerárias. Não sabemos que roupas usou quando apareceu aos discípulos, mas nunca apareceu com as vestes do sepulcro, como se supõe que fazem os fantasmas. Ele as deixou para trás.

Primeiro, porque ressuscitou para não morrer mais: a morte já não teria domínio sobre ele (Romanos 6:9). Lázaro saiu com suas vestes funerárias, pois voltaria a precisar delas; Cristo, ressurgindo para uma vida imortal, saiu livre desses estorvos.

Segundo, porque seria revestido de vestes de glória; por isso, deixou aqueles trapos. No paraíso celestial não haverá mais necessidade de roupas do que havia no terreno. O profeta que subiu ao céu deixou cair seu manto.

Terceiro, quando ressuscitamos da morte do pecado para a vida de justiça, precisamos deixar para trás as vestes funerárias: despir-nos de toda a nossa corrupção.

Quarto, Cristo as deixou no sepulcro como que para nosso uso. Se a sepultura é uma cama para os santos, ele a forrou com lençóis e a deixou pronta para eles. O lenço posto à parte também serve aos sobreviventes enlutados para enxugar as lágrimas.

[2.] As vestes funerárias estavam muito bem arrumadas, prova de que seu corpo não fora roubado enquanto as pessoas dormiam. Houve ladrões de túmulos que levaram as roupas e deixaram o corpo; mas ninguém, antes das práticas dos modernos ladrões de cadáveres, levou o corpo e deixou as roupas, sobretudo quando eram de linho fino e novo (Marcos 15:46).

Qualquer um preferiria transportar um cadáver vestido a levá-lo nu. Mesmo supondo que os alegados ladrões tivessem deixado as vestes, não se pode crer que tivessem tempo para dobrar o linho.

(3.) Veja como a ousadia de Pedro animou João: então ele tomou coragem, entrou (v. 8), viu e creu. Não creu apenas no que Maria dissera, que o corpo havia desaparecido — não seria mérito crer no que podia ver —, mas começou a crer que Jesus ressuscitara, embora sua fé ainda fosse fraca e vacilante.

[1.] João seguiu Pedro ao entrar. Ao que parece, não teria ousado entrar no sepulcro se Pedro não tivesse ido primeiro. Repare: é bom que a coragem de outros nos anime a fazer uma boa obra. Ver a decisão e a coragem deles diminui o medo das dificuldades e dos perigos.

Talvez a rapidez de João tivesse levado Pedro a correr mais depressa; agora a ousadia de Pedro levou João a avançar mais. Sem o outro, nenhum dos dois teria ido tão longe. Pedro caíra havia pouco na vergonha de abandonar Cristo, ao passo que João recebera a honra de ser seu confidente, pois Cristo lhe confiara a própria mãe.

Apesar disso, João não apenas continuou a conviver com Pedro, mas também não considerou humilhante segui-lo.

[2.] Parece, porém, que João se adiantou a Pedro na fé. Pedro viu e se admirou (Lucas 24:12), mas João viu e creu. Talvez uma mente inclinada à contemplação acolha as provas da verdade divina antes de uma mente inclinada à ação.

Por que, então, demoraram tanto a crer de coração? O evangelista explica (v. 9): ainda não conheciam a Escritura. Isso significa que não consideravam, aplicavam nem aproveitavam devidamente o que sabiam das Escrituras acerca da necessidade de Cristo ressuscitar dentre os mortos.

O Antigo Testamento falava da ressurreição do Messias; eles criam que Jesus era o Messias. Ele próprio lhes dissera muitas vezes que, conforme as Escrituras do Antigo Testamento, ressuscitaria. Mas não tinham presença de espírito suficiente para explicar, com base nisso, o que agora viam. Observe aqui:

Primeiro, como os próprios discípulos, a princípio, relutaram em crer na ressurreição de Cristo. Isso confirma o testemunho que depois deram dela com tanta segurança: sua relutância mostra que não eram crédulos nem daqueles ingênuos que acreditam em qualquer palavra.

Se tivessem o desígnio de promover seus interesses com essa notícia, teriam agarrado avidamente a primeira centelha de prova. Teriam alimentado uns nos outros a expectativa da ressurreição e preparado a mente dos seguidores para receber a notícia.

Mas vemos o contrário: suas esperanças haviam sido frustradas, a ressurreição lhes parecia algo estranho e estava entre as coisas mais distantes de seus pensamentos. Pedro e João hesitaram tanto em crer que só as provas mais convincentes que o fato podia oferecer os levariam a testemunhá-lo depois com tanta segurança.

Isso mostra que não eram apenas homens honestos, incapazes de enganar os outros, mas também cautelosos, que não se deixariam iludir.

Segundo, por que demoraram a crer: ainda não conheciam a Escritura. Parece ser a confissão do próprio evangelista de sua falha, juntamente com os demais. Ele não diz: “Jesus ainda não lhes aparecera, nem lhes mostrara as mãos e o lado”, mas: “Ainda não lhes abrira o entendimento para compreenderem as Escrituras” (Lucas 24:44, 45). Essa é a palavra profética mais segura.

  1. Pedro e João não prosseguiram na investigação; desistiram, oscilando entre a fé e a incredulidade (v. 10). Os discípulos partiram, sem compreender muito mais do que antes, para os seus, pros heautous — para os amigos e companheiros, os outros discípulos, em seus alojamentos, pois não tinham casa em Jerusalém. Foram embora:

(1.) Por medo de serem presos, sob a suspeita do desígnio de roubar o corpo, ou de serem acusados de tê-lo feito agora que desaparecera. Em vez de fortalecer a fé, preocupavam-se em proteger a si mesmos e encontrar uma maneira de garantir a própria segurança. Em tempos difíceis e perigosos, até homens bons acham árduo prosseguir no trabalho com a firmeza devida.

(2.) Porque estavam perplexos e não sabiam o que fazer em seguida nem como interpretar o que viram. Sem coragem para permanecer junto ao sepulcro, decidiram voltar para casa e esperar que Deus lhes revelasse também aquilo. Isso mostra como ainda eram fracos.

(3.) Provavelmente os outros discípulos estavam reunidos. Pedro e João voltaram a eles para contar o que descobriram e conversar sobre o que deveriam fazer. É provável que então marcassem a reunião daquela noite, quando Cristo lhes apareceu.

É notável que, antes de Pedro e João chegarem, um anjo aparecera junto ao sepulcro, removera a pedra, amedrontara a guarda e consolara as mulheres. Logo depois que eles partiram, Maria Madalena viu ali dois anjos (v. 12). Pedro e João, porém, foram ao sepulcro, entraram e não viram nenhum. Como entender isso?

Onde estavam os anjos quando Pedro e João visitaram o sepulcro, se apareceram antes e depois? [1.] Os anjos aparecem e desaparecem quando querem, segundo as ordens e instruções que recebem. Podem estar, e de fato estão, num lugar sem serem visíveis; ou melhor, ao que parece, podem ser vistos por uma pessoa e não por outra ao mesmo tempo (Números 22:23; 2 Reis 6:17).

Seria presunção nossa investigar como se tornam visíveis, depois invisíveis e então visíveis novamente; mas este relato mostra claramente que o fazem. [2.] Esse favor foi concedido aos que procuraram Cristo cedo e perseveraram nessa busca. Foi recompensa dos que chegaram primeiro e ficaram até o fim, mas foi negado aos que fizeram uma visita passageira.

[3.] Os apóstolos não deveriam receber instruções dos anjos, mas do Espírito da graça. Veja Hebreus 2:5.

Versículos 11 a 17

A Ressurreição.

Marcos nos conta que Cristo apareceu primeiro a Maria Madalena (Marcos 16:9). Essa aparição é relatada aqui com bastante detalhe. Podemos observar:

I. A constância e o fervor do afeto de Maria Madalena pelo Senhor Jesus (v. 11):

  1. Ela permaneceu junto ao sepulcro depois que Pedro e João foram embora, pois ali seu Mestre havia sido posto, e ali era mais provável que ouvisse notícias dele. Repare:

(1.) Onde há amor verdadeiro por Cristo, haverá apego constante a ele e firme propósito de coração de permanecer unido a ele. Essa boa mulher, embora o tivesse perdido, preferiu ficar junto ao túmulo por amor a ele a dar a impressão de abandoná-lo. Continuou a amá-lo mesmo sem desfrutar do consolo desse amor.

(2.) Onde há verdadeiro desejo de conhecer Cristo, haverá frequência constante aos meios de conhecimento. Veja Oseias 6:2, 3: “Ao terceiro dia nos levantará”; e então conheceremos o sentido dessa ressurreição, se prosseguirmos em conhecê-lo, como Maria fez aqui.

  1. Ela permaneceu ali chorando, e suas lágrimas proclamavam em alta voz seu afeto pelo Mestre. Os que perderam Cristo têm motivo para chorar. Ela chorou ao lembrar seus amargos sofrimentos e por sua morte, e pela perda que ela, seus amigos e o país sofreram com isso.

Chorou ao pensar em voltar para casa sem ele e porque agora não encontrava seu corpo. Os que buscam Cristo devem buscá-lo com tristeza (Lucas 2:48); devem chorar, não por ele, mas por si mesmos.

  1. Enquanto chorava, olhou para dentro do sepulcro, para que seus olhos tocassem seu coração. Quando procuramos algo que perdemos, voltamos a olhar no lugar onde o deixamos pela última vez e esperávamos encontrá-lo.

Ela olharia ainda sete vezes, sem saber se, por fim, veria algum ânimo. Repare: (1.) O choro não deve impedir a busca. Embora chorasse, ela se inclinou e olhou para dentro.

(2.) É provável que encontrem aqueles que buscam com afeto e buscam entre lágrimas.

II. A visão de dois anjos que ela teve no sepulcro (v. 12). Observe aqui:

  1. A descrição das pessoas que viu. Eram dois anjos vestidos de branco, sentados — provavelmente em bancos ou saliências escavados na rocha —, um à cabeceira e o outro aos pés do túmulo. Aqui vemos:

(1.) A natureza deles. Eram anjos, mensageiros do céu, enviados de propósito nesta grande ocasião:

[1.] Para honrar o Filho e dar solenidade à sua ressurreição. Agora que o Filho de Deus seria novamente introduzido no mundo, os anjos tinham a missão de acompanhá-lo, como fizeram em seu nascimento (Hebreus 1:6).

[2.] Para consolar os santos, dizer palavras de ânimo aos que estavam tristes e, ao avisá-los de que o Senhor ressuscitara, prepará-los para vê-lo.

(2.) O número deles: dois, não uma multidão da hoste celestial para cantar louvores, mas apenas dois para testemunhar; pois, pela boca de duas testemunhas, essa palavra seria confirmada.

(3.) A vestimenta deles: estavam vestidos de branco, o que indicava:

[1.] Sua pureza e santidade. Os melhores homens, de pé diante dos anjos e comparados a eles, vestem roupas imundas (Zacarias 3:3), mas os anjos são sem mancha. E os santos glorificados, quando forem como os anjos, andarão com Cristo vestidos de branco.

[2.] Sua glória e seu gloriar-se naquela ocasião. O branco em que apareceram representava o esplendor do estado ao qual Cristo acabara de ressuscitar.

(4.) A postura e o lugar deles: estavam sentados, como que repousando no túmulo de Cristo, pois, embora não precisassem de restauração, os anjos deviam a Cristo sua confirmação.

Eles entraram no túmulo para nos ensinar a não temê-lo nem pensar que nosso descanso temporário nele prejudicará nossa imortalidade. As coisas foram dispostas de tal modo que o túmulo não está muito fora do caminho para o céu.

Isso também indica que os anjos são encarregados dos santos não só na morte, levando a alma ao seio de Abraão, mas também no grande dia, para ressuscitar seus corpos (Mateus 24:31).

Esses guardas angelicais — e os anjos são chamados de vigilantes (Daniel 4:23) — ocuparam o túmulo depois de afugentar os guardas postos ali pelos inimigos. Isso representa a vitória de Cristo sobre os poderes das trevas, que ele dispersou e derrotou.

Assim, Miguel e seus anjos são mais que vencedores. O fato de estarem sentados um de frente para o outro, um à cabeceira e o outro aos pés do leito, indica o zelo deles pelo corpo inteiro de Cristo, seu corpo místico tanto quanto o natural, da cabeça aos pés.

Isso também pode nos lembrar os dois querubins, colocados nas extremidades do propiciatório e voltados um para o outro (Êxodo 25:18). Cristo crucificado era o grande propiciatório; à sua cabeceira e aos seus pés estavam esses dois querubins.

Eles não traziam espadas flamejantes para nos impedir de chegar, mas eram mensageiros acolhedores, que nos mostravam o caminho da vida.

  1. A pergunta compassiva sobre a causa da dor de Maria Madalena (v. 13): “Mulher, por que choras?” Essa pergunta foi:

(1.) Uma repreensão ao choro dela: “Por que choras, se tens motivo para te alegrar?” Muitas de nossas lágrimas secariam se examinássemos assim sua fonte. “Por que estás abatida?”

(2.) Foi feita para mostrar o quanto os anjos se importam com as dores dos santos, pois têm a missão de consolá-los. Os cristãos também devem se solidarizar uns com os outros.

(3.) Serviu apenas para criar a ocasião de informá-la do que transformaria seu luto em alegria, tiraria seu pano de saco e a cingiria de júbilo.

  1. O relato melancólico que ela lhes dá de sua aflição presente: “Levaram o bendito corpo que vim ungir, e não sei onde o puseram.” Ela já havia contado a mesma coisa (v. 2). Vemos nisso:

(1.) A fraqueza de sua fé. Se tivesse fé como um grão de mostarda, aquela montanha teria sido removida; mas muitas vezes nos afligimos sem necessidade com dificuldades imaginárias, que a fé nos revelaria como vantagens reais.

Muitas pessoas boas se queixam das nuvens e da escuridão em que se encontram, embora sejam os meios necessários da graça para humilhar a alma, mortificar o pecado e tornar Cristo mais precioso para elas.

(2.) A força de seu amor. Os que têm afeto verdadeiro por Cristo não podem deixar de sofrer muito quando perdem os sinais consoladores do amor dele na alma ou as oportunidades consoladoras de ter comunhão com ele e honrá-lo nas ordenanças.

A visão não desvia Maria Madalena de suas perguntas, nem a honra de vê-la a satisfaz. Ela continua a tocar a mesma corda: “Levaram o meu Senhor”.

Ver os anjos e seus sorrisos não basta sem ver Cristo e o sorriso de Deus nele. Ou melhor, a visão dos anjos é apenas uma ocasião para prosseguir em suas perguntas sobre Cristo.

Todas as criaturas, por mais excelentes e queridas que sejam, devem ser usadas como meios — e somente como meios — para nos levar a conhecer Deus em Cristo.

Os anjos lhe perguntaram: “Por que choras?” Ela respondeu: “Tenho bastante motivo para chorar, pois levaram o meu Senhor.” Como Mica, ela poderia dizer: “Que mais me resta?”

“Vocês perguntam por que choro? O meu amado se retirou e foi embora.” Repare: só quem passou por isso conhece a tristeza de uma alma abandonada, que já teve provas consoladoras do amor de Deus em Cristo e esperança do céu, mas agora as perdeu e anda em trevas. Quem pode suportar um espírito ferido assim?

III. Cristo aparece a Maria enquanto ela conversava com os anjos e lhes contava sua situação. Antes que eles lhe respondessem, o próprio Cristo se apresenta para satisfazer suas perguntas, pois agora Deus nos fala por seu Filho. Só ele pode nos conduzir a si mesmo.

Maria queria saber onde estava o Senhor; e eis que ele se encontrava à sua direita. Repare:

  1. Os que não se contentam com nada menos do que ver Cristo não receberão nada menos. Ele nunca disse à alma que o buscava: “Buscai em vão”. “É Cristo que você quer? Você o terá.”

  2. Quando Cristo se revela aos que o buscam, muitas vezes supera suas expectativas. Maria desejava ver o corpo morto de Cristo e lamentava tê-lo perdido; eis que o vê vivo.

Assim ele faz por seu povo em oração mais do que este pode pedir ou imaginar. Nesta aparição de Cristo a Maria, observe:

(1.) Como a princípio ele se ocultou dela:

[1.] Ficou de pé como uma pessoa comum, e ela o tomou por tal (v. 14). Ela esperava uma resposta dos anjos à sua queixa; então, talvez ao ver a sombra ou ouvir os passos de alguém atrás de si, virou-se, afastando-se dos anjos, e viu o próprio Jesus de pé.

Era justamente a pessoa que procurava, mas ela não sabia que era Jesus. Repare: primeiro, o Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado (Salmos 34:18), mais perto do que imaginam.

Quem busca Cristo, mesmo sem vê-lo, pode ter certeza de que ele não está longe. Segundo, os que buscam o Senhor diligentemente se voltarão em todas as direções à procura dele.

Maria se virou, na esperança de descobrir algo. Alguns dos antigos sugerem que os anjos se levantaram e reverenciaram o Senhor Jesus, antes que Maria o visse, e que ela se virou para saber a quem prestavam tamanha reverência.

Mas, se foi assim, provavelmente ela não o teria tomado pelo jardineiro. É mais provável que seu ardente desejo de encontrar Cristo a tenha feito olhar em todas as direções.

Terceiro, Cristo muitas vezes está perto de seu povo sem que este perceba. Ela não sabia que era Jesus; não porque ele tivesse aparecido sob outra forma, mas talvez porque lançou sobre ele um olhar desatento e fugaz e, com os olhos cheios de aflição, não conseguiu distingui-lo bem, ou talvez seus olhos estivessem impedidos de reconhecê-lo, como os dos dois discípulos (Lucas 24:16).

[2.] Ele lhe fez uma pergunta comum, e ela respondeu como se responde a um desconhecido (v. 15).

Primeiro, a pergunta que fez era natural, e qualquer pessoa poderia tê-la feito: “Mulher, por que choras? A quem procuras? O que fazes tão cedo neste jardim? Que barulho e agitação são esses?”

Talvez tenha falado com certa aspereza, como José falou com os irmãos quando se fez de estranho antes de se dar a conhecer. Parece que essa foi a primeira palavra de Cristo depois da ressurreição: “Por que choras? Eu ressuscitei”.

A ressurreição de Cristo basta para aliviar todas as nossas tristezas, conter as correntes e secar as fontes de nossas lágrimas. Observe aqui que Cristo se importa:

  1. Com as dores de seu povo e pergunta: “Por que choram?” Ele guarda as lágrimas deles em frascos e as registra em seu livro.

  2. Com as preocupações e perguntas de seu povo: “A quem procuram? O que desejam?” Embora saiba que o buscam, quer ouvir isso deles; devem dizer a quem procuram.

Em segundo lugar, a resposta dela também foi natural. Não respondeu diretamente, mas como se dissesse: “Por que zombas de mim e me repreendes por causa das minhas lágrimas? Tu sabes por que choro e a quem procuro”.

Imaginando que ele fosse o jardineiro — empregado por José para cuidar do jardim — e que tivesse chegado cedo ao trabalho, ela disse: “Senhor, se o levaste daqui, peço que me digas onde o puseste, e eu o levarei”. Veja aqui:

  1. O erro de seu entendimento. Ela supôs que nosso Senhor Jesus era o jardineiro, talvez porque ele lhe perguntara que autoridade tinha para estar ali. Repare: em dias nublados e escuros, espíritos aflitos tendem a representar Cristo de modo equivocado e a interpretar mal os caminhos da providência e da graça.

  2. A verdade de seu afeto. Veja como seu coração estava decidido a encontrar Cristo. Ela faz a pergunta a todos que encontra, como a esposa aflita: “Vistes aquele a quem a minha alma ama?”

Fala respeitosamente com um jardineiro e o chama de “Senhor”, na esperança de obter notícias de seu amado. Quando fala de Cristo, não o nomeia; diz: “Se o levaste daqui”, supondo que o jardineiro também pensava naquele Jesus e, portanto, saberia de quem ela falava.

Outra prova da força de seu afeto era que, onde quer que o tivessem posto, ela se encarregaria de removê-lo. Um corpo como aquele, com tanto peso de especiarias, era muito mais do que ela poderia alegar ser capaz de carregar.

Mas o amor verdadeiro pensa que pode fazer mais do que pode e não se deixa deter por dificuldades. Ela supôs que o jardineiro não queria que o corpo de alguém crucificado de modo vergonhoso tivesse a honra de ser posto no novo túmulo de seu senhor.

Imaginou que ele o tivesse levado a algum lugar desprezível, mais apropriado, em sua opinião. Ainda assim, Maria não ameaçou denunciá-lo ao senhor e fazê-lo perder o emprego.

Em vez disso, encarregou-se de encontrar outro sepulcro, onde o corpo pudesse ser recebido. Cristo não precisa ficar onde é considerado um fardo.

(2.) Como Cristo por fim se deu a conhecer a ela e, com uma agradável surpresa, lhe deu garantias infalíveis de sua ressurreição. José por fim disse aos irmãos: “Eu sou José”. Assim também Cristo falou a Maria Madalena, agora que entrava em seu estado exaltado. Observe:

[1.] Como Cristo se revelou àquela boa mulher que o buscava em lágrimas (v. 16): Jesus lhe disse: “Maria”. Falou com ênfase e com a bondade e a familiaridade com que costumava falar com ela.

Então mudou a voz e falou como ele mesmo, não como o jardineiro. Cristo se dá a conhecer a seu povo por sua palavra, aplicada à alma e dirigida a cada um em particular.

Quando aqueles que Deus conheceu pelo nome nos conselhos de seu amor (Êxodo 33:12) são chamados pelo nome na eficácia de sua graça, ele revela seu Filho neles, como em Paulo (Gálatas 1:16), quando Cristo o chamou pelo nome: “Saulo, Saulo”.

As ovelhas de Cristo conhecem sua voz (João 10:4). Essa única palavra, “Maria”, foi como a que disse aos discípulos na tempestade: “Sou eu”.

A palavra de Cristo nos faz bem quando incluímos nosso próprio nome nos preceitos e nas promessas. “Cristo me chama e fala comigo nesta palavra.”

[2.] Como ela recebeu prontamente essa revelação. Quando Cristo disse: “Maria, não me reconheces? Ficamos tão estranhos um ao outro?”, ela percebeu imediatamente quem era, como a esposa: “É a voz do meu amado” (Cantares de Salomão 2:8).

Ela se virou e disse: “Rabboni, meu Mestre”. A pergunta talvez devesse ser lida com entonação interrogativa: “Rabboni? É o meu Mestre? Será mesmo?” Observe:

Primeiro, o título de respeito que ela lhe dá: “Meu Mestre”; didaskale — mestre que ensina. Os judeus chamavam seus mestres de rabinos, homens importantes.

Seus estudiosos nos dizem que Rabbon era um título mais honroso do que Rabbi. Por isso, Maria o escolhe e acrescenta a ideia de pertencimento: “Meu grande Mestre”.

Repare: por mais livre que seja a comunhão que Cristo nos concede consigo, devemos lembrar que ele é nosso Mestre e nos aproximar com santo temor.

Segundo, com que vivacidade de afeto ela dá esse título a Cristo. Desviou o olhar dos anjos que estavam diante dela para fixá-lo em Jesus.

Devemos tirar os olhos de todas as criaturas, mesmo das melhores e mais brilhantes, e fixá-los em Cristo, sem permitir que nada nos desvie dele nem interfira em nossa comunhão com ele.

Quando pensava que ele era o jardineiro, olhava para outra direção enquanto falava com ele; mas agora que reconheceu a voz de Cristo, virou-se. A alma que ouve a voz de Cristo e se volta para ele o chama, com alegria e triunfo: “Meu Mestre”.

Veja com que prazer os que amam Cristo falam de sua autoridade sobre eles: “Meu Mestre, meu grande Mestre”.

[3.] As instruções ulteriores que Cristo lhe deu (v. 17): “Não me toques, mas vai levar a notícia aos discípulos”.

Primeiro, ele a desvia da expectativa de convívio e conversa familiar com ele naquele momento: “Não me toques, pois ainda não subi”. Maria ficou tão tomada pela visão de seu querido Mestre que se esqueceu de si e do estado de glória em que ele agora entrava.

Estava prestes a expressar sua alegria abraçando-o afetuosamente, mas Cristo a impede naquele momento. 1. “Não me toques desse modo, pois vou subir ao céu.”

Ele mandou os discípulos tocá-lo, para confirmar a fé deles; consentiu que as mulheres lhe segurassem os pés e o adorassem (Mateus 28:9). Mas Maria supunha que ele ressuscitara como Lázaro, para viver sempre com eles e conversar livremente, como antes.

Com essa suposição, estava prestes a agarrar sua mão com a familiaridade de sempre. Cristo corrige esse engano: ela deve crer nele e adorá-lo como exaltado, mas não esperar a antiga familiaridade.

Veja 2 Coríntios 5:16. Ele a proíbe de se apegar à presença corporal dele, de pôr o coração nisso ou de esperar que ela continue; conduz Maria à comunhão espiritual que teria com ele depois de sua ascensão ao Pai.

A maior alegria da ressurreição era que ela representava um passo em direção à ascensão. Maria pensava que agora que o Mestre ressuscitara, imediatamente estabeleceria um reino temporal, como haviam prometido a si mesmos havia muito tempo.

“Não”, diz Cristo, “não me toques com esse pensamento. Não tentes me reter aqui; embora eu ainda não tenha subido, vai aos meus irmãos e dize-lhes que vou subir”.

Antes da morte e também depois da ressurreição, ele insiste que partiria e não estaria mais no mundo. Por isso, devem olhar mais alto do que sua presença corporal e mais longe do que o estado presente das coisas.

  1. “Não me toques; não fiques aqui agora para me tocar, fazer outras perguntas ou expressar mais alegria. Ainda não subi e não partirei imediatamente; isso pode ser feito em outra ocasião.”

“O melhor serviço que podes prestar agora é levar a notícia aos discípulos. Por isso, não percas tempo; vai depressa.” Repare: o serviço público deve ser preferido à satisfação particular. É mais bem-aventurado dar do que receber.

Jacó teve de deixar o anjo ir quando o dia amanheceu e chegou a hora de cuidar da família. Maria não deve ficar conversando com o Mestre; deve levar sua mensagem.

Era um dia de boas notícias, cujo consolo ela não devia guardar para si, mas compartilhar com os outros. Veja essa história em 2 Reis 7:9.

Em segundo lugar, ele lhe diz que mensagem levar aos discípulos: “Vai aos meus irmãos e dize-lhes”, não apenas que ressuscitei — ela poderia contar isso por si mesma, pois o vira —, mas que subo. Observe:

a. A quem a mensagem é enviada: “Vai levar isso aos meus irmãos”, pois ele não se envergonha de chamá-los assim.

(1.) Agora ele entrava em sua glória e era declarado Filho de Deus com poder maior do que nunca; ainda assim, reconhece seus discípulos como irmãos e demonstra por eles afeto mais terno do que antes.

Ele os chamara de amigos, mas nunca de irmãos até então. Embora Cristo seja exaltado, ainda assim não é orgulhoso. Apesar de sua elevação, não despreza seus pobres parentes.

(b.) Pouco antes, os discípulos haviam agido sem franqueza para com ele. Desde que todos o abandonaram e fugiram quando foi preso, ele não os vira reunidos.

Com razão, poderia ter-lhes enviado uma mensagem irada: “Vão àqueles desertores traidores e digam que nunca mais confiarei neles nem terei algo a ver com eles”. Não: ele perdoa, esquece e não os repreende.

b. Por quem a mensagem é enviada: por Maria Madalena, de quem haviam sido expulsos sete demônios, mas que agora recebe tal favor.

Essa foi sua recompensa por permanecer fiel a Cristo e procurá-lo. Foi também uma repreensão indireta aos apóstolos, que não acompanharam tão de perto o Jesus moribundo nem foram tão cedo encontrar o Jesus ressuscitado. Ela se torna apóstola dos apóstolos.

c. Qual é a própria mensagem: “Subo para meu Pai”. Há aqui dois seios repletos de consolo:

(a.) Nossa relação conjunta com Deus, decorrente de nossa união com Cristo, é um consolo indizível. Falando dessa fonte inesgotável de luz, vida e bem-aventurança, ele diz: “Ele é meu Pai e nosso Pai; meu Deus e vosso Deus”.

Isso expressa a estreita relação entre Cristo e os crentes: aquele que santifica e os que são santificados são um só, pois estão unidos em uma só coisa (Hebreus 2:11).

Aqui vemos os cristãos exaltados e Cristo condescendendo de tal modo que se aproximam muito um do outro; tudo foi admiravelmente maquinado para sua união.

[a.] A grande dignidade dos crentes é que o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo é, nele, o Pai deles. Há, de fato, uma enorme diferença entre os fundamentos respectivos dessa relação.

Ele é Pai de Cristo por geração eterna e nosso Pai por adoção graciosa; ainda assim, isso nos autoriza a chamá-lo, como Cristo, de “Aba, Pai”.

Isso explica por que Cristo os chamou de irmãos: o Pai dele também era o Pai deles. Cristo agora subia para comparecer como advogado junto ao Pai — seu Pai, e por isso podemos esperar que prevaleça em qualquer causa; nosso Pai, e por isso podemos esperar que prevaleça em nosso favor.

[b.] A grande condescendência de Cristo é aceitar como seu o Deus do crente: “Meu Deus e vosso Deus”. Ele é meu Deus para que possa ser o vosso.

O Deus do Redentor o sustentou (Salmos 89:26), para ser o Deus dos redimidos e salvá-los. O resumo da nova aliança é que Deus será nosso Deus.

Cristo é o fiador e a cabeça da aliança, aquele com quem se trata primeiro; os crentes só são tratados por meio dele, como sua descendência espiritual. Por isso, essa relação de aliança se estabelece primeiro com Cristo: Deus se torna seu Deus e, assim, o nosso.

Nós participamos da natureza divina, e o Pai de Cristo é nosso Pai; Cristo participa da natureza humana, e nosso Deus é o Deus dele.

(b.) A ascensão de Cristo ao céu, como prosseguimento de sua missão em nosso favor, também é um consolo indizível: “Dize-lhes que logo subirei; esse é o próximo passo que darei”.

Isso tinha a intenção de ser:

[a.] Uma advertência a esses discípulos para não esperarem que sua presença corporal continuasse na terra nem que ele estabelecesse um reino temporal entre os homens, como sonhavam.

“Não”, ele lhes diz, “dize-lhes que ressuscitei, não para ficar com eles, mas para seguir ao céu em missão por eles”.

Os que são ressuscitados para uma vida espiritual, em conformidade com a ressurreição de Cristo, devem contar que ressuscitam para subir. Foram vivificados com Cristo para se assentarem com ele nas regiões celestiais (Efésios 2:5, 6).

Não pensem que esta terra será seu lar e descanso. Nascidos do céu, estão a caminho do céu; seus olhos e propósitos devem voltar-se para outro mundo. Devem ter sempre isto no coração: “Eu subo; portanto, devo buscar as coisas do alto”.

[b.] Uma palavra de consolo para eles e para todos os que crerem nele por meio da palavra deles. Naquele momento, ele estava subindo; agora já subiu para seu Pai e nosso Pai.

Isso foi sua exaltação: subiu para receber as honras e os poderes que recompensariam sua humilhação. Diz isso com triunfo, para que os que o amam se alegrem.

Isso é vantagem para nós, pois ele subiu como vencedor, levando cativo o cativeiro por nós (Salmos 68:18). Subiu como nosso precursor, para preparar lugar para nós e estar pronto a nos receber.

Essa mensagem se parecia com a que os irmãos de José levaram a Jacó a respeito dele (Gênesis 45:26): “José ainda vive”; e mais: vivit imo, et in senatum venit — “vive e também entra no Senado”; ele governa toda a terra do Egito. Todo o poder é dele.

Alguns entendem que as palavras “Subo para meu Deus e vosso Deus” incluem uma promessa de nossa ressurreição, pela eficácia da ressurreição de Cristo.

Cristo havia provado a ressurreição dos mortos com as palavras “Eu sou o Deus de Abraão” (Mateus 22:32). Assim, ele sugere: “Assim como é meu Deus e, por isso, me ressuscitou, também é vosso Deus e, portanto, vos ressuscitará e será vosso Deus” (Apocalipse 21:3).

“Porque eu vivo, vós também vivereis.” “Agora subo para honrar meu Deus, e vós subireis a ele como vosso Deus.”

IV. O relato fiel de Maria Madalena aos discípulos do que tinha visto e ouvido (v. 18). Ela veio e contou aos discípulos reunidos que vira o Senhor.

Pedro e João a haviam deixado procurando-o cuidadosamente, entre lágrimas, e não ficaram para buscá-lo com ela. Agora ela volta para dizer que o encontrou e corrigir o engano em que ela os induzira ao perguntar pelo corpo morto, pois descobriu que era um corpo vivo e glorificado.

Ela encontrou o que procurava e, infinitamente melhor, alegrou-se ao ver pessoalmente o Mestre. Quis compartilhar sua alegria, pois sabia que seriam boas notícias para eles.

Quando Deus nos consola, seu desígnio é que consolemos os outros. Ela lhes contou o que vira e também o que ouvira: tinha visto o Senhor vivo.

Um sinal seguro disso — e um bom sinal — era que ele lhe falara essas coisas como uma mensagem a ser entregue a eles; e ela a entregou fielmente.

Os que conhecem a palavra de Cristo devem compartilhar seu conhecimento para o bem dos outros, e não se ressentir de que eles saibam tanto quanto nós.

Versículos 19 a 25

Cristo com Seus Discípulos.

A prova infalível da ressurreição de Cristo foi mostrar-se vivo, Atos 1:3. Nestes versículos temos o relato de sua primeira aparição ao colégio dos discípulos, no dia em que ressuscitou. Enviara-lhes as notícias de sua ressurreição por mensageiros fiéis e dignos de crédito.

Mas, para mostrar seu amor por eles e confirmar sua fé nele, veio pessoalmente e lhes deu todas as garantias que poderiam desejar da verdade disso, para que não o soubessem apenas por ouvir falar e de segunda mão.

Mas poderiam eles próprios ser testemunhas oculares de que estava vivo, pois deviam atestá-lo ao mundo e edificar a igreja sobre esse testemunho. Observe aqui:

I. Quando e onde ocorreu essa aparição, v. 19. Foi no mesmo dia em que ressuscitou, o primeiro dia da semana, o dia depois do sábado judaico, numa reunião privada dos discípulos: dez deles, e mais alguns de seus amigos com eles, Lucas 24:33.

Há três ordenanças secundárias, como posso chamá-las, instituídas por nosso Senhor Jesus para permanecer em sua igreja, para sustentá-la e para a devida administração das ordenanças principais, a palavra, os sacramentos e a oração; são o dia do Senhor, as assembleias solenes e o ministério permanente.

A mente de Cristo acerca de cada uma nos é claramente indicada nesses versículos; das duas primeiras, aqui nas circunstâncias dessa aparição, da outra, v. 21. O reino de Cristo devia ser estabelecido entre os homens imediatamente depois de sua ressurreição.

Por isso, encontramos o próprio dia em que ressuscitou, embora apenas um dia de pequenas coisas, contudo adornado por aquelas solenidades que ajudariam a manter uma aparência de religião por todas as eras da igreja.

  1. Aqui está um sábado cristão observado pelos discípulos e reconhecido por nosso Senhor Jesus. A visita de Cristo a seus discípulos foi no primeiro dia da semana.

O primeiro dia da semana é, penso eu, o único dia da semana, do mês ou do ano mencionado por número em todo o Novo Testamento; diversas vezes se fala dele como um dia observado religiosamente.

Embora aqui se dissesse expressamente (v. 1) que Cristo ressuscitou no primeiro dia da semana, e pudesse ter bastado dizer aqui (v. 19) que apareceu no mesmo dia ao anoitecer, contudo, para honrar o dia, repete-se que era o primeiro dia da semana.

Não que os apóstolos tivessem o desígnio de honrar o dia, pois ainda duvidavam da ocasião dele, mas Deus tinha o desígnio de honrá-lo, ordenando que estivessem todos juntos para receber a primeira visita de Cristo nesse dia. Assim, na prática, abençoou e santificou esse dia, porque nele o Redentor descansou.

  1. Aqui está uma assembleia cristã celebrada solenemente pelos discípulos e também reconhecida pelo Senhor Jesus. Provavelmente se reuniram aqui para algum exercício religioso, para orar juntos.

Ou talvez se reuniram para comparar informações e considerar se tinham provas suficientes da ressurreição de seu Mestre, e deliberar sobre o que agora devia ser feito, se permaneceriam juntos ou se dispersariam.

Reuniram-se para conhecer a mente uns dos outros, fortalecer as mãos uns dos outros e combinar medidas apropriadas a tomar na presente conjuntura crítica.

Essa reunião era privada, porque não ousavam aparecer publicamente, especialmente como grupo. Reuniram-se numa casa, mas mantinham a porta fechada, para não serem vistos juntos e para que ninguém viesse para junto deles senão quem conheciam; pois temiam os judeus, que processariam os discípulos como criminosos.

Assim, os judeus pareceriam crer na mentira com que enganariam o mundo, de que seus discípulos vieram de noite e o roubaram. Repare:

(1.) Os discípulos de Cristo, mesmo em tempos difíceis, não devem deixar de se reunir, Hebreus 10:25. Aquelas ovelhas do rebanho foram dispersadas na tempestade; mas as ovelhas são sociáveis e se reunirão outra vez.

Não é novidade que as assembleias dos discípulos de Cristo sejam empurradas para cantos e forçadas ao deserto, Apocalipse 12:14; Provérbios 28:12.

(2.) O povo de Deus muitas vezes foi obrigado a entrar em seus quartos e fechar suas portas, como aqui, por medo dos judeus. A perseguição lhes é atribuída, e retirar-se da perseguição lhes é consentido.

Onde então os procuraremos senão em antros e cavernas da terra? Esconder-se assim é uma dor real, mas nenhum descrédito real, para os discípulos de Cristo.

II. O que foi dito e feito nessa visita de Cristo a seus discípulos e em seu encontro com eles. Quando estavam reunidos, Jesus veio para junto deles, em sua própria aparência, mas lançando um véu sobre o brilho de seu corpo, agora começando a ser glorificado; senão, teria ofuscado seus olhos, como em sua transfiguração.

Cristo veio para junto deles para lhes dar uma amostra do cumprimento de sua promessa de que, onde dois ou três estão reunidos em seu nome, estará no meio deles. Veio embora as portas estivessem fechadas. Isso de modo algum enfraquece a prova de que tinha um corpo humano real depois de sua ressurreição.

Embora as portas estivessem fechadas, sabia abri-las sem barulho e entrar de modo que não o ouvissem, como antes caminhara sobre a água e, contudo, tinha um corpo verdadeiro.

É consolo para os discípulos de Cristo, quando suas assembleias solenes são reduzidas à privacidade, que nenhuma porta pode excluir deles a presença de Cristo. Temos cinco coisas nessa aparição de Cristo:

(1.) Sua saudação bondosa e familiar aos seus discípulos: disse: “Paz seja convosco”. Não era uma palavra de mera rotina, embora comumente usada assim no encontro de amigos, mas uma bênção solene e incomum, conferindo-lhes todos os frutos e efeitos benditos de sua morte e ressurreição. A expressão era comum, mas o sentido agora era peculiar.

“Paz seja convosco” equivale a: todo o bem seja para vocês, toda a paz sempre, por todos os meios. Cristo lhes deixara sua paz como legado, João 14:27.

Pela morte do testador, o testamento entrara em vigor; agora ele ressuscitara dos mortos para comprovar a validade do testamento e ser ele próprio seu testamenteiro.

Assim, aqui faz o pagamento imediato do legado: “Paz seja convosco”. Seu falar de paz produz paz, cria o fruto dos lábios, paz; paz com Deus, paz em suas próprias consciências, paz uns com os outros; toda essa paz esteja com vocês; não paz com o mundo, mas paz em Cristo.

Aparecer subitamente no meio deles, cheios de dúvidas quanto a ele e de temores quanto a si mesmos, não poderia deixar de lhes causar alguma perturbação e consternação; o barulho dessas ondas ele acalma com esta palavra: “Paz seja convosco”.

(2.) A manifestação clara e inegável de si mesmo a eles (v. 20). Observe aqui:

[1.] O método usado para convencê-los da verdade de sua ressurreição. Agora viam vivo quem multidões tinham visto morto dois ou três dias antes. A única dúvida era se o que viam vivo era o mesmo corpo individual que fora visto morto; ninguém poderia desejar prova ulterior disso senão as cicatrizes ou marcas das feridas no corpo.

Primeiro, as marcas das feridas, marcas muito profundas, embora sem dor nem sensibilidade dolorosa, permaneceram no corpo do Senhor Jesus mesmo depois de sua ressurreição, para serem demonstrações da verdade dela. Os conquistadores se gloriam nas marcas de suas feridas.

As feridas de Cristo falariam na terra que era ele próprio; por isso, ressuscitou com elas. Falariam no céu, na intercessão que deve viver sempre para fazer; por isso, ascendeu com elas e apareceu no meio do trono, um Cordeiro como se tivesse sido morto e sangrando novamente, Apocalipse 5:6. Ou melhor: parece que virá de novo com suas cicatrizes, para que olhem para aquele a quem traspassaram.

Segundo, mostrou essas marcas aos seus discípulos, para seu convencimento. Não tinham apenas a satisfação de vê-lo com o mesmo rosto e ouvi-lo com a mesma voz à qual estavam acostumados havia tanto tempo.

Sic oculos, sic ille manus, sic ora, ferebat: assim eram seus gestos, seus olhos e suas mãos! Mas tinham a prova ulterior dessas marcas peculiares.

Abriu-lhes suas mãos, para que vissem nelas as marcas das feridas; abriu seu peito, como a ama o seu à criança, para mostrar-lhes ali a ferida. Repare: o Redentor exaltado sempre se mostrará de mãos abertas e de coração aberto a todos os seus amigos e seguidores fiéis.

Quando Cristo manifesta aos que creem seu amor pelos consolos do Espírito e lhes assegura que, porque vive, eles também viverão, mostra-lhes suas mãos e seu lado.

[2.] O efeito que isso produziu neles e o bem que lhes fez. Primeiro, convenceram-se de que viam o Senhor, e sua fé foi fortalecida. No início pensaram que viam apenas uma aparição, um fantasma; agora sabiam que era o próprio Senhor.

Assim, muitos que verdadeiramente creem, que, enquanto eram fracos, temiam que seus consolos fossem apenas imaginários, depois os encontram, pela graça, reais e substanciais. Não perguntam: “É o Senhor?”, mas têm certeza de que é ele.

Segundo, então se alegraram; o que fortalecia sua fé elevava sua alegria; crendo, alegram-se. O evangelista parece escrever com algum arrebatamento e triunfo. Então! Então! Os discípulos se alegraram quando viram o Senhor!

Se ouvir que José ainda estava vivo reviveu o espírito de Jacó, como ouvir que Jesus está vivo de novo reviveria o coração desses discípulos? É vida dentre os mortos para eles.

Agora se cumpriu aquela palavra de Cristo (João 16:22): “Eu vos verei novamente, e vosso coração se alegrará”. Isso enxugou todas as lágrimas de seus olhos.

Repare: ver Cristo alegrará o coração de um discípulo em qualquer ocasião; quanto mais virmos de Cristo, mais nos alegraremos nele; nossa alegria nunca será perfeita até chegarmos aonde o veremos como ele é.

(3.) A honrosa e ampla comissão que lhes deu para serem seus agentes na implantação de sua igreja, v. 21. Aqui está:

[1.] O prefácio de sua comissão, a solene repetição da saudação anterior: “Paz seja convosco”. Seu propósito era ou:

Primeiro, despertar a atenção deles para a comissão que estava prestes a lhes dar. A saudação anterior era para acalmar o tumulto de seu medo, para que atentassem calmamente nas provas de sua ressurreição; esta era para conter o arrebatamento de sua alegria, para que ouvissem serenamente o que tinha de lhes dizer ulteriormente.

Ou, segundo, animá-los a aceitar a comissão que lhes dava. Embora os envolvesse em muita inquietação, contudo tinha nela o desígnio de sua honra e consolo; no desfecho, seria paz para eles.

Gideão recebeu sua comissão com esta palavra: “Paz seja contigo”, Juízes 6:22, 23. Cristo é nossa Paz; se ele está conosco, a paz é para nós.

Cristo agora enviava os discípulos para anunciar paz ao mundo (Isaías 52:7); aqui não apenas a confere a eles para sua própria satisfação, mas a confia a eles como encargo a ser transmitido por eles a todos os filhos da paz, Lucas 10:5, 6.

[2.] A própria comissão, que soa muito grandiosa: “Assim como meu Pai me enviou, assim também eu vos envio”.

Primeiro, é fácil entender como Cristo os enviou; designou-os para prosseguir em sua obra na terra e se empenhar na propagação de seu evangelho e no estabelecimento de seu reino entre os homens.

Enviou-os autorizados com ordem divina, armados de poder divino; enviou-os como embaixadores para tratar da paz e como arautos para proclamá-la; enviou-os como servos para convidar às bodas. Por isso, foram chamados apóstolos, homens enviados.

Segundo, mas como Cristo os enviou assim como o Pai o enviara não se entende tão facilmente; certamente suas comissões e poderes eram infinitamente inferiores aos dele; mas:

  1. Sua obra era da mesma espécie que a dele, e deviam continuar onde ele parou. Não foram enviados para ser sacerdotes e reis como ele, mas apenas profetas.

Assim como foi enviado para dar testemunho da verdade, assim foram eles; não para serem mediadores da reconciliação, mas apenas pregadores e anunciadores dela.

Foi enviado não para ser servido, mas para servir? Não para fazer sua própria vontade, mas a vontade de quem o enviou? Não para destruir a lei e os profetas, mas para completá-los? Assim foram eles.

Assim como o Pai o enviou às ovelhas perdidas da casa de Israel, assim os enviou ao mundo inteiro.

  1. Tinha poder para enviá-los igual ao que o Pai tinha para enviá-lo. Aqui parece estar a força da comparação: pela mesma autoridade com que o Pai me enviou, eu envio vocês.

Isso prova a Divindade de Cristo; as comissões que deu tinham autoridade igual às que o Pai deu, e eram tão válidas e eficazes para todos os fins e propósitos, iguais às que deu aos profetas do Antigo Testamento em visões.

As comissões de Pedro e João, pela palavra simples de Cristo, são tão boas quanto as de Isaías e Ezequiel pelo Senhor sentado em seu trono.

Ou melhor: iguais àquela dada ao próprio Mediador para sua obra. Tinha autoridade incontestável e capacidade irresistível para sua obra? Assim tinham eles para a sua. Ou assim: “Assim como o Pai me enviou” é, por assim dizer, a declaração de seu poder.

Pela autoridade dada a ele como Mediador, deu autoridade a eles, como seus ministros, para agir em favor dele e em seu nome junto aos filhos dos homens; assim, quem os recebesse ou rejeitasse recebia ou rejeitava a ele e àquele que o enviou, João 13:20.

(4.) Sua capacitação para cumprir o encargo confiado a eles por sua comissão (v. 22): “Soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo”. Observe:

[1.] O sinal usado para lhes assegurar o dom que agora estava prestes a conceder e afetá-los com ele: “Soprou sobre eles”; não só para lhes mostrar, por esse sopro de vida, que ele próprio realmente estava vivo, mas para lhes indicar a vida e o poder espirituais que receberiam dele para todos os serviços que estavam diante deles.

Provavelmente soprou sobre todos ao mesmo tempo, não sobre cada um em separado. Embora Tomé não estivesse com eles, ainda assim o Espírito do Senhor sabia onde encontrá-lo, como encontrou Eldade e Medade (Números 11:26).

Cristo aqui parece aludir à criação inicial do homem pelo sopro do fôlego de vida nele (Gênesis 2:7) e indicar que ele próprio era o autor dessa obra, e que a vida e a força espirituais dos ministros e dos cristãos derivam dele e dependem dele tanto quanto a vida natural de Adão e de sua descendência.

Assim como o sopro do Todo-Poderoso deu vida ao homem e iniciou o mundo antigo, assim o sopro do poderoso Salvador deu vida a seus ministros e iniciou um novo mundo, Jó 33:4. Isso nos indica: Primeiro, Que o Espírito é o sopro de Cristo, procedente do Filho.

No Antigo Testamento, o Espírito é comparado ao sopro (Ezequiel 37:9): “Vem, ó sopro”; mas o Novo Testamento nos diz que é o sopro de Cristo. O sopro de Deus é usado para o poder de sua cólera (Isaías 11:4; 30:33); mas o sopro de Cristo significa o poder de sua graça.

O respirar de ameaças é mudado no respirar de amor pela mediação de Cristo. Nossas palavras são pronunciadas por nosso sopro, assim a palavra de Cristo é espírito e vida. A palavra vem do Espírito, e o Espírito vem junto com a palavra.

Segundo, Que o Espírito é dom de Cristo. Os apóstolos comunicavam o Espírito Santo pela imposição das mãos, mãos primeiro erguidas em oração, pois só podiam implorar essa bênção e levá-la como mensageiros.

Mas Cristo concedeu o Espírito Santo pelo sopro, pois é o autor do dom, e dele vem originalmente. Moisés não podia dar seu Espírito; Deus o fez (Números 11:17); mas Cristo o fez por si mesmo.

[2.] A concessão solene que fez, indicada por esse sinal: “Recebei o Espírito Santo”, em parte agora, como penhor do que recebereis ulteriormente não muitos dias depois. Agora receberam mais do Espírito Santo do que tinham recebido até então. Assim, as bênçãos espirituais são dadas gradualmente; a quem tem será dado.

Agora que Jesus começou a ser glorificado, mais do Espírito começou a ser dado: veja João 7:39. Vejamos o que está contido nessa concessão.

Primeiro, Cristo lhes assegura assim o auxílio do Espírito em sua obra futura, na execução da comissão agora dada: “Eu vos envio, e tereis o Espírito para ir convosco”.

Agora o Espírito do Senhor repousou sobre eles para capacitá-los para todos os serviços que tinham pela frente. A quem Cristo emprega, revestirá com seu Espírito e fornecerá todos os poderes necessários.

Segundo, assim lhes dá experiência das influências do Espírito em sua situação presente. Mostrara-lhes as mãos e o lado para convencê-los da verdade de sua ressurreição; mas as provas mais claras não produzirão fé por si mesmas, como testemunha a incredulidade dos soldados, que eram as únicas testemunhas oculares da ressurreição.

Por isso, recebam o Espírito Santo para produzir fé em vocês e abrir seus entendimentos. Agora estavam em perigo por causa dos judeus; por isso, recebam o Espírito Santo para produzir coragem em vocês.

O que Cristo lhes disse, diz a todos os que verdadeiramente creem: “Recebei o Espírito Santo”, Efésios 1:13. O que Cristo dá devemos receber, devemos submeter a nós mesmos e nossas almas inteiras às influências vivificadoras e santificadoras do bendito Espírito. Recebam seus impulsos e correspondam a eles; recebam seus poderes e usem-nos.

Quem assim obedecer a essa palavra como preceito terá seu benefício como promessa: receberá o Espírito Santo como guia de seu caminho e penhor de sua herança.

(5.) Um ramo particular do poder dado a eles por sua comissão especificado (v. 23): os pecados de quem vocês remitem, no devido exercício dos poderes que lhes são confiados, são remidos a eles, e eles podem se consolar com isso.

Os pecados de quem vocês retêm, isto é, declaram não perdoados e com sua culpa presa sobre eles, são retidos, e o pecador pode ter certeza disso, para sua tristeza.

Isso segue o recebimento do Espírito Santo; pois, se não tivessem tido um espírito extraordinário de discernimento, não teriam sido aptos a receber tal autoridade.

No sentido mais estrito, é uma comissão especial aos próprios apóstolos e aos primeiros pregadores do evangelho, que podiam distinguir quem estava no fel da amargura e nas amarras da iniquidade e quem não estava.

Por esse poder, Pedro feriu Ananias e Safira de morte, e Paulo feriu Elimas de cegueira. Contudo, deve ser entendido como carta geral de direitos à igreja e a seus ministros, sem assegurar infalibilidade de julgamento a homem algum ou grupo de homens no mundo.

Mas animando os administradores fiéis dos mistérios de Deus a se manterem no evangelho que foram enviados a pregar, pois o próprio Deus se manterá nele. Os apóstolos, ao pregar remissão, devem começar em Jerusalém, embora recentemente ela tivesse atraído sobre si a culpa do sangue de Cristo. “Contudo, podeis declarar seus pecados remidos sob as condições do evangelho”.

Pedro o fez, Atos 2:38; 3:19. Cristo, ressuscitado para nossa justificação, envia seus arautos do evangelho a proclamar o jubileu iniciado, o ato de anistia agora aprovado; por essa regra os homens serão julgados, João 12:48; Romanos 2:16; Tiago 2:12.

Deus jamais mudará essa regra de julgamento nem se desviará dela. Quem o evangelho absolve será absolvido; quem o evangelho condena será condenado. Isso confere imensa honra ao ministério e deve infundir imensa coragem nos ministros.

De duas maneiras os apóstolos e ministros de Cristo remitem e retêm pecado, ambas como quem tem autoridade:

[1.] Pela sã doutrina. São comissionados a dizer ao mundo que a salvação se obtém sob as condições do evangelho, e nenhuma outra; encontrarão que Deus dirá Amém a isso; assim será sua condenação.

[2.] Pela disciplina rigorosa, aplicando a regra geral do evangelho a pessoas específicas. “A quem admitirdes em comunhão convosco, segundo as regras do evangelho, Deus admitirá em comunhão consigo”.

“A quem expulsardes da comunhão como impenitente e obstinado em pecados escandalosos e contagiosos, será entregue ao justo julgamento de Deus”.

III. A incredulidade de Tomé quando o relato disso lhe foi feito, o que introduziu a segunda aparição de Cristo:

  1. Aqui está a ausência de Tomé dessa reunião, v. 24. Diz-se que era um dos doze, um do colégio dos apóstolos, que, embora agora onze, tinham sido doze e seriam doze outra vez. Eram apenas onze, e um faltava; os discípulos de Cristo nunca estarão todos juntos até a assembleia geral no grande dia.

Talvez fosse a infelicidade de Tomé estar ausente: ou não estava bem, ou não fora avisado; ou talvez fosse seu pecado e insensatez: ou se desviara por negócios ou companhia, que preferiu a essa oportunidade, ou não ousava vir por medo dos judeus; chamava de prudência e cautela o que era sua covardia.

Contudo, por sua ausência perdeu a satisfação de ver seu Mestre ressuscitado e de compartilhar a alegria dos discípulos naquela ocasião. Repare: quem se ausenta descuidadamente das assembleias solenes regulares dos cristãos não sabe o que perde.

  1. O relato que os outros discípulos lhe deram da visita que seu Mestre lhes fizera, v. 25. Na próxima vez que o viram, disseram-lhe com muita alegria: “Vimos o Senhor”; sem dúvida, relataram-lhe tudo o que se passara, em particular a satisfação que lhes dera mostrando suas mãos e seu lado.

Parece que, embora Tomé estivesse então afastado deles, não esteve afastado por muito tempo; os ausentes por algum tempo não devem ser condenados como apóstatas para sempre: Tomé não é Judas.

Observe com que exultação e triunfo dizem: “Vimos o Senhor”, a visão mais consoladora que já vimos. Disseram isso a Tomé:

(1.) Para repreendê-lo por sua ausência: vimos o Senhor, mas você não. Ou, antes:

(2.) Para informá-lo: vimos o Senhor e desejaríamos que estivesse aqui para vê-lo também, pois teria visto o bastante para satisfazê-lo.

Repare: os discípulos de Cristo devem procurar edificar uns aos outros em sua santíssima fé, tanto repetindo o que ouviram aos ausentes, para que o ouçam de segunda mão, quanto compartilhando o que experimentaram.

Quem pela fé viu o Senhor e provou que ele é gracioso deve contar aos outros o que Deus fez por sua alma; apenas seja excluída a vanglória.

  1. As objeções de Tomé contra a prova, para se justificar em sua relutância em admiti-la. “Não me digais que vistes o Senhor vivo; sois crédulos demais; alguém vos fez de tolos.”

“De minha parte, a menos que não só veja nas mãos dele a marca dos pregos, mas ponha meu dedo nela e enfie minha mão na ferida do lado dele, estou decidido a não crer.”

Alguns, comparando isso com o que disse (João 11:16; 14:5), conjecturam que tivesse temperamento rude e taciturno, propenso a falar irritadamente; pois nem todas as pessoas boas são igualmente felizes em seu temperamento. Contudo, havia certamente muito de errado em sua conduta nessa ocasião.

(1.) Ou não tinha atentado, ou não tinha considerado devidamente o que Cristo dissera tantas vezes, e também segundo o Antigo Testamento, que ressuscitaria no terceiro dia; por isso, deveria ter dito que ressuscitou, embora não o tivesse visto nem falado com ninguém que o tivesse visto.

(2.) Não deu a justa deferência ao testemunho de seus condiscípulos, homens de sabedoria e integridade, que deviam ser acreditados. Sabia que eram honestos; todos os dez concordavam no testemunho com grande certeza; contudo, não podia persuadir-se a dizer que seu relato era verdadeiro.

Cristo os escolhera para ser suas testemunhas dessa própria coisa a todas as nações; contudo, Tomé, um de sua própria fraternidade, não consentia em que fossem testemunhas competentes nem confiava neles além do que podia vê-los. Não era, porém, sua veracidade que questionava, mas sua prudência; temia que fossem crédulos demais.

(3.) Tentou Cristo e limitou o Santo de Israel ao exigir que fosse convencido à sua maneira, ou de modo algum. Não podia ter certeza de que a marca dos pregos que os apóstolos disseram ter visto admitiria que pusesse nela o dedo, nem de que a ferida no lado admitiria que enfiasse nela a mão. Tampouco seria apropriado tratar tão rudemente um corpo vivo.

Contudo, Tomé prende sua fé a essa prova. Ou terá seu capricho atendido e sua fantasia satisfeita, ou não crerá; veja Mateus 16:1; 27:42.

(4.) Declarar isso abertamente na presença dos discípulos era uma ofensa e um desânimo para eles. Não era apenas pecado, mas escândalo. Assim como um covarde faz muitos, assim faz um crente, um cético, fazendo desfalecer o coração de seus irmãos como seu próprio coração, Deuteronômio 20:8.

Se tivesse apenas pensado esse mal e então posto a mão sobre a boca para suprimi-lo, seu erro teria ficado com ele; mas proclamar sua incredulidade, e de modo tão categórico, poderia ter consequências ruins para os demais, que ainda eram apenas fracos e vacilantes.

Versículos 26 a 31

A Incredulidade de Tomé.

Temos aqui o relato de outra aparição de Cristo aos discípulos após sua ressurreição, desta vez com Tomé entre eles. A respeito dela, podemos observar:

I. Quando Cristo repetiu a visita aos discípulos: depois de oito dias, uma semana após o dia em que ressuscitou; portanto, assim como aquele, era o primeiro dia da semana.

  1. Adiou por algum tempo a aparição seguinte para mostrar aos discípulos que não havia ressuscitado para viver como antes, convivendo continuamente com eles, mas era como alguém pertencente a outro mundo, que visitava este apenas de vez em quando, quando havia motivo, como fazem os anjos.

É tolice perguntar onde Cristo esteve durante esses oito dias e no restante de sua permanência na terra; determinar a resposta é presunção. Onde quer que estivesse, sem dúvida os anjos o serviam.

No começo de seu ministério, passou quarenta dias sem ser visto, tentado pelo espírito maligno, Mateus 4:1, 2. Agora, no começo de sua glória, passou quarenta dias em grande parte sem ser visto, assistido por espíritos bons.

  1. Adiou a visita por sete dias. Por quê? (1.) Para repreender Tomé por sua incredulidade. Ele faltara à reunião anterior dos discípulos; para ensiná-lo a dar mais valor a essas ocasiões de graça no futuro, não teria outra oportunidade semelhante por diversos dias. Quem perde uma maré precisa esperar bastante pela próxima.

Temos motivos para crer que Tomé passou uma semana muito triste, abatido e em suspenso enquanto os outros discípulos estavam cheios de alegria. Isso se devia a ele mesmo e à sua insensatez. (2.) Para provar a fé e a paciência dos demais discípulos. Haviam avançado muito ao se convencer de que tinham visto o Senhor. Então se alegraram.

Mas Cristo queria provar se conseguiriam conservar o terreno conquistado quando passassem alguns dias sem vê-lo de novo. Assim, pouco a pouco os afastaria da dependência de sua presença física, à qual se apegavam demais. (3.) Para honrar o primeiro dia da semana e indicar claramente sua vontade de que a igreja o observasse como o sábado cristão, dia semanal de santo descanso e reuniões santas.

Desde o princípio, desde o estado de inocência, havia a designação de que se observasse religiosamente um dia em cada sete. As reuniões de Cristo com seus discípulos em assembleia religiosa, nesse dia e depois novamente no mesmo dia, eram indicação suficiente de que, no reino do Messias, o primeiro dia da semana seria o dia solene.

É muito provável que, na aparição anterior, ele tenha marcado uma nova reunião para uma semana depois e prometido encontrá-los. Também é provável que tenha aparecido a eles em cada primeiro dia da semana, além de outras ocasiões, durante os quarenta dias. Desde então, a observância religiosa desse dia chegou até nós através de todas as eras da igreja. Este, portanto, é o dia que o Senhor fez.

II. Onde e como Cristo os visitou. Foi em Jerusalém, pois as portas estavam fechadas agora, como antes, por medo dos judeus. Permaneceram ali para observar os sete dias da festa dos pães sem fermento, que terminara na véspera. Não quiseram, porém, partir para a Galileia no primeiro dia da semana, porque era o sábado cristão; esperaram o dia seguinte. Observe:

  1. Que Tomé estava com eles. Embora se tivesse afastado uma vez, ainda assim não o fez de novo. Quando perdemos uma oportunidade, devemos empenhar-nos ainda mais em aproveitar a seguinte, para recuperar a perda. É bom sinal quando uma perda assim aviva nosso desejo, e mau sinal quando o esfria.

Os discípulos o receberam entre eles. Não exigiram que cresse na ressurreição de Cristo como eles criam, pois ela ainda lhes havia sido revelada de modo pouco claro. Não o acolheram para discutir questões duvidosas, mas o convidaram a vir e ver.

Observe, contudo, que Cristo só apareceu a Tomé, para satisfazê-lo, quando o encontrou reunido aos outros discípulos. Queria prestigiar as reuniões de cristãos e ministros, pois estaria no meio deles. Além disso, queria que todos presenciassem a repreensão a Tomé e, ao mesmo tempo, o terno zelo que tinha por ele.

  1. Que Cristo veio para o meio deles, ficou de pé ali, e todos o reconheceram, pois se mostrou como já havia feito antes (v. 19): era o mesmo, sem alteração. Veja a condescendência de nosso Senhor Jesus. As portas do céu estavam prontas para abrir-se a ele, onde poderia receber a adoração de um mundo de anjos.

Ainda assim, para o bem da igreja, permaneceu na terra e visitou as pequenas reuniões reservadas de seus pobres discípulos, colocando-se no meio deles.

  1. Saudou a todos amistosamente, como antes: “Paz seja convosco”. Não foi repetição vazia, mas sinal da paz abundante e segura que Cristo concede e da continuidade de suas bênçãos sobre seu povo. Elas não falham, mas se renovam a cada manhã, a cada reunião.

III. O que se passou entre Cristo e Tomé nessa reunião. Só isso foi registrado, embora possamos supor que ele tenha dito muito mais aos demais. Temos aqui:

  1. A graciosa condescendência de Cristo para com Tomé, v. 27. Ele o destacou dos outros e dirigiu-se especialmente a ele: “Chega aqui o teu dedo e, já que assim queres, vê as minhas mãos. Satisfaz por completo tua curiosidade quanto à marca dos pregos. Chega aqui tua mão e, se nada menos te convencer, mete-a no meu lado”.

Vemos aqui: (1.) Uma repreensão implícita à incredulidade de Tomé, pois Cristo alude claramente ao que ele havia dito e responde palavra por palavra. Ouvira-o, embora não estivesse visível; saber disso deveria envergonhar Tomé. Repare: não há palavra incrédula em nossa língua nem pensamento em nossa mente, em momento algum, que seja desconhecido do Senhor Jesus. Salmos 78:21.

(2.) Uma concessão expressa à sua fraqueza, revelada de duas maneiras: [1.] Que Cristo permite que se prescreva à sua sabedoria como agir. Pessoas de grande posição não aceitam que inferiores lhes ditem o que fazer, sobretudo em seus atos de graça. Cristo, porém, aceita ajustar-se até à exigência desnecessária de Tomé, em vez de romper com ele e deixá-lo na incredulidade.

Não quebrará a cana ferida; como bom pastor, recolhe a que foi afastada, Ezequiel 34:16. Devemos igualmente suportar as debilidades dos fracos, Romanos 15:1, 2. [2.] Permite que remexam suas feridas e consente que Tomé até enfie a mão em seu lado, se por fim assim vier a crer.

Da mesma forma, para confirmar nossa fé, instituiu uma ordenança destinada a manter viva a memória de sua morte. Foi uma morte vergonhosa e humilhante, que alguém poderia preferir esquecer e não mencionar. Mas, porque ela era uma prova de seu amor que animaria nossa fé, Cristo designou que sua lembrança fosse celebrada.

Na ordenança em que anunciamos a morte do Senhor, somos chamados, por assim dizer, a pôr o dedo na marca dos pregos. Estenda sua mão àquele que estende a você a mão que ajuda, convida e dá.

É com palavras comoventes que Cristo encerra o que tinha a dizer a Tomé: “Não sejas incrédulo, mas crente”; me ginou apistos, não te tornes incrédulo, como se ele pudesse ficar selado na incredulidade caso não cedesse agora. O aviso vale para todos nós: “Não sejas incrédulo”.

Se permanecermos na incredulidade, ficaremos sem Cristo, sem graça, sem esperança e sem alegria. Digamos, portanto: “Senhor, eu creio; ajuda a minha incredulidade”.

  1. A anuência de Tomé a Jesus Cristo pela fé. Agora envergonhado de sua incredulidade, ele exclama: “Senhor meu e Deus meu”, v. 28. Não se diz se chegou a pôr o dedo na marca dos pregos; parece que não, pois Cristo lhe diz (v. 29): “Viste e creste”. Vê-lo foi suficiente. A fé saiu vencedora após lutar com a incredulidade.

(1.) Tomé agora está plenamente convencido da realidade da ressurreição de Cristo: o mesmo Jesus que foi crucificado está vivo, e aquele diante dele é Jesus. Sua demora e resistência em crer podem fortalecer nossa fé. Mostram que as testemunhas da ressurreição, que a anunciaram ao mundo e por ela arriscaram a vida, não eram homens ingênuos e crédulos.

Eram cautelosos e suspenderam o juízo até ver as provas mais fortes que poderiam desejar. Assim, do que devora saiu alimento.

(2.) Por isso, Tomé creu que Jesus era Senhor e Deus, e nós também devemos crer. [1.] Devemos crer em sua divindade: ele é Deus; não um homem transformado em Deus, mas Deus que se fez homem, como este evangelista havia declarado no começo, João 1:1.

O autor e cabeça de nossa santa religião possui a sabedoria, o poder, a soberania e a imutabilidade de Deus. Isso era necessário, pois ele seria não só seu fundador, mas seu alicerce permanente e a fonte de vida que a abastece. [2.] Devemos crer em sua mediação: ele é Senhor, o único Senhor, 1 Coríntios 8:6; 1 Timóteo 2:5.

Como plenipotenciário, tem autoridade suficiente para resolver as grandes questões entre Deus e os seres humanos, encerrar o conflito que inevitavelmente nos arruinaria e estabelecer a relação necessária à nossa felicidade. Veja Atos 2:36; Romanos 14:9.

(3.) Tomé anuiu a ele como seu Senhor e seu Deus. Na fé, deve haver a anuência da vontade aos termos do evangelho, além do assentimento do entendimento às suas verdades. Devemos acolher Cristo para que ele seja para nós aquilo para que o Pai o designou.

“Meu Senhor” remete a Adonai, meu fundamento e amparo; “meu Deus”, a Elohim, meu príncipe e juiz. Tendo Deus constituído Cristo juiz e árbitro, devemos aprovar essa escolha e entregar-nos inteiramente a ele. Este é o ato vital da fé: “Ele é meu”, Cantares de Salomão 2:16.

(4.) Fez essa confissão abertamente, diante dos que haviam testemunhado suas dúvidas incrédulas. Disse-o a Cristo; para completar o sentido, devemos ler: “Tu és meu Senhor e meu Deus”; ou, dirigindo-se aos irmãos: “Este é meu Senhor e meu Deus”. Aceitamos Cristo como nosso Senhor e Deus?

Devemos ir a ele e dizê-lo, como fez Davi (Salmos 16:2), formalizando nossa entrega a ele como ato e compromisso nossos. Devemos dizê-lo também aos outros, como pessoas que se alegram em pertencer a Cristo: “Este é meu amado”. Tomé fala com ardor, como quem se apega a Cristo com todas as forças: “Senhor meu e Deus meu”.

  1. O julgamento de Cristo sobre tudo isso (v. 29): “Tomé, porque me viste, creste; e é bom que, por fim, tenhas chegado à fé, sejam quais forem as condições. Mas bem-aventurados os que não viram e creram”. Temos aqui:

(1.) Cristo reconhece Tomé como crente. Quem crê de modo verdadeiro e sincero, ainda que lentamente e com fraqueza, será acolhido com graça pelo Senhor Jesus. Aqueles que resistiram por muito tempo, se por fim cederem, o encontrarão pronto a perdoar. Assim que Tomé anuiu a Cristo, Cristo lhe deu o consolo desse fato e o fez saber que cria.

(2.) Repreende-o por sua incredulidade anterior. Tomé tinha motivo para envergonhar-se ao lembrar: [1.] Que demorara tanto a crer e, assim, tardara a receber seu próprio consolo. Os que se uniram sinceramente a Cristo têm muito motivo para lamentar não o terem feito antes.

[2.] Que foi preciso tanto esforço para fazê-lo crer: “Se não me tivesses visto vivo, não terias crido”. Se não admitirmos outra prova senão a dos nossos sentidos e não crermos em nada que não tenhamos presenciado, acabará todo intercâmbio e convívio. Se esse for o único método de prova, como o mundo se converterá à fé em Cristo? Por isso, Tomé é justamente censurado por insistir tanto nele.

(3.) Cristo elogia a fé daqueles que creem em condições mais fáceis. Como crente, Tomé era, na verdade, bem-aventurado; mais bem-aventurados, porém, são os que não viram. Não se trata de não ver os objetos da fé, pois eles são invisíveis (Hebreus 11:1; 2 Coríntios 4:18), mas de não ver seus motivos: os milagres de Cristo, especialmente sua ressurreição.

Bem-aventurados são os que não viram essas coisas e, mesmo assim, creem em Cristo. Isso pode referir-se ao passado, aos santos do Antigo Testamento, que não viram o que os discípulos viram e, contudo, creram na promessa feita aos pais e viveram pela fé. Também pode apontar para o futuro, aos gentios que viriam a crer sem jamais ter visto Cristo em carne, como os judeus o viram.

Essa fé é mais louvável e digna de elogio do que a daqueles que viram e creram, pois: [1.] Revela disposição melhor em quem crê. Crer sem ver demonstra maior empenho em buscar a verdade e maior franqueza de espírito ao acolhê-la. Quem crê por ter visto vence sua resistência por certa espécie de imposição; quem crê sem ver, como os bereanos, é mais nobre.

[2.] É manifestação maior do poder da graça divina. Quanto menos palpável é a prova, mais a obra da fé aparece como obra do Senhor. Pedro é bem-aventurado em sua fé porque carne e sangue não lhe revelaram a verdade, Mateus 16:17. Carne e sangue contribuem mais para a fé dos que veem e creem do que para a dos que não veem e, ainda assim, creem.

O dr. Lightfoot cita a frase de um rabino: “Um prosélito é mais agradável a Deus que todos os milhares de Israel que estiveram diante do monte Sinai. Eles viram e receberam a lei; o prosélito não vê e, ainda assim, a recebe”.

IV. A observação que o evangelista faz sobre sua narrativa, como historiador que se aproxima da conclusão, v. 30, 31. Temos aqui:

  1. Ele nos assegura que muitas outras coisas ocorreram, todas dignas de registro, mas não foram escritas neste livro: muitos sinais. Alguns entendem que isso inclui todos os sinais feitos por Jesus durante toda a sua vida, todas as palavras maravilhosas que disse e obras maravilhosas que realizou.

Parece, porém, referir-se mais especificamente aos sinais que fez depois de ressuscitar, pois ocorreram apenas na presença dos discípulos mencionados aqui, Atos 10:41. Muitas de suas aparições não foram registradas, como mostra 1 Coríntios 15:5-7. Veja Atos 1:3.

(1.) Podemos usar esse testemunho geral de que houve muitos outros sinais para confirmar nossa fé. Somado aos relatos particulares, ele fortalece muito as provas. Os que registraram a ressurreição de Cristo não precisaram sair à pesca de provas escassas e insuficientes nem completar o que faltava com conjecturas. Não: tinham provas de sobra e mais testemunhas do que precisavam apresentar.

Os discípulos, em cuja presença foram feitos esses outros sinais, pregariam depois a ressurreição de Cristo. Por isso, precisavam receber provas ex abundanti, em abundância, para ter forte consolo ao arriscar a vida e tudo mais por ela.

(2.) Não precisamos perguntar por que nem todos os sinais foram escritos, nem por que não foram registrados mais ou outros. Basta saber que assim pareceu bem ao Espírito Santo, sob cuja inspiração este relato foi dado.

Se fosse uma obra apenas humana, a história teria sido inflada com uma multidão de depoimentos e declarações juramentadas para provar a verdade contestada da ressurreição de Cristo, além de uma longa razão apresentada para demonstrá-la. Sendo, porém, uma história divina, seus autores escrevem com nobre segurança.

Relatam o que constitui prova suficiente para convencer quem deseja aprender e condenar quem insiste na incredulidade; se isso não satisfaz, mais provas também não satisfariam. As pessoas expõem tudo o que têm a dizer para conquistar crédito; Deus não precisa fazê-lo, pois pode conceder a fé.

Se o relato tivesse sido escrito para entreter os curiosos, seria mais extenso, ou cada circunstância teria sido usada para abrilhantar e embelezar a história. Foi escrito, porém, para levar as pessoas a crer, e o que se disse basta para esse fim, quer elas ouçam, quer se recusem.

  1. Ele nos ensina o desígnio de registrar o que encontramos aqui (v. 31): “Estes relatos são dados neste capítulo e no seguinte para que vocês creiam com base nessas provas; para que creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, declarado como tal com poder por sua ressurreição”.

(1.) Este é o desígnio dos que escreveram o evangelho. Uns escrevem livros para se divertir e os publicam em busca de lucro ou aplauso; outros, para satisfazer o gosto ateniense por novidades; outros ainda, para instruir o mundo nas artes e ciências para benefício material.

Os evangelistas, porém, escreveram sem buscar vantagem temporal para si nem para outros, mas para levar as pessoas a Cristo e ao céu. Para isso, procuraram persuadi-las a crer pelos meios mais adequados: trouxeram ao mundo uma revelação divina, sustentada pelas provas devidas.

(2.) O dever daqueles que leem e ouvem o evangelho é crer, acolher a doutrina de Cristo e o testemunho dado a seu respeito, 1 João 5:11. [1.] Aqui se declara qual é a grande verdade do evangelho em que devemos crer: Jesus é o Cristo, o Filho de Deus.

Primeiro, Que ele é o Cristo, a pessoa prometida aos santos do Antigo Testamento e esperada por eles sob o título de Messias. Conforme o significado desse nome, foi ungido por Deus para ser príncipe e Salvador.

Segundo, Que ele é o Filho de Deus, e não só na condição de Mediador. Se fosse apenas isso, não seria maior que Moisés, que foi profeta, intercessor e legislador. Ele era Filho de Deus antes de ser Mediador: se não fosse pessoa divina, dotada do poder de Deus e com direito à glória de Deus, não estaria qualificado para a missão, nem para realizar a obra do Redentor nem para usar sua coroa.

[2.] A grande bem-aventurança do evangelho que devemos esperar: “Crendo, teremos vida por meio de seu nome”. Isso serve, primeiro, para orientar nossa fé: ela deve mirar a vida, a coroa da vida, a árvore da vida colocada diante de nós.

A vida por meio do nome de Cristo, proposta na aliança feita conosco nele, é o que devemos buscar como plenitude da alegria e abundante recompensa de todos os nossos serviços e sofrimentos.

Serve, segundo, para animar nossa fé e convidar-nos a crer. As pessoas se arriscam muito diante da perspectiva de grande vantagem; não há vantagem maior do que a oferecida pelas palavras desta vida, como o evangelho é chamado em Atos 5:20.

Essa vida inclui tanto a vida espiritual, em conformidade com Deus e comunhão com ele, como a vida eterna, em sua contemplação e fruição. Ambas vêm por meio do nome de Cristo, por seu mérito e poder, e ambas estão garantidas de maneira irrevogável a todos os verdadeiros crentes.


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