Matthew Henry

João 18

Argumento

Até aqui, este evangelista registrou pouco da história de Cristo, apenas o necessário para introduzir seus discursos; mas, agora que se aproximava o tempo em que Jesus devia morrer, relata com muitos detalhes as circunstâncias de seus sofrimentos e algumas coisas que os outros evangelistas haviam omitido, especialmente suas palavras.

Longe de se envergonharem da cruz de Cristo ou tentarem escondê-la, seus seguidores foram extremamente diligentes em proclamá-la tanto por palavras quanto por escrito e se gloriaram nela.

Este capítulo relata: I. Como Cristo foi preso no jardim e se entregou como prisioneiro (vv. 1-12). II. Como foi maltratado no pátio do sumo sacerdote e como, enquanto isso, Pedro o negou (vv. 13-27). III. Como foi processado diante de Pilatos, interrogado por ele e posto em disputa com Barrabás pelo favor do povo, mas o perdeu (vv. 28-40).

Cristo no Jardim; a Traição de Judas; a Orelha de Malco Cortada; Cristo se Entrega como Prisioneiro.

Versículos 1 a 11

Chegara a hora de o capitão da nossa salvação, que seria aperfeiçoado pelos sofrimentos, enfrentar o inimigo. Aqui vemos como entrou no combate. O dia da retribuição estava em seu coração, e chegara o ano dos seus redimidos; seu próprio braço opera a salvação, pois não tinha quem o ajudasse. Vamos nos desviar agora e contemplar esta grande visão.

I. Nosso Senhor Jesus, como um campeão destemido, toma primeiro o campo de batalha (v. 1, 2). Depois de dizer estas palavras, pregar o sermão, fazer a oração e concluir seu testemunho, não quis perder tempo: saiu imediatamente de casa e da cidade, à luz da lua — a Páscoa era celebrada na lua cheia —, com seus discípulos, os onze, pois Judas estava ocupado de outra maneira.

Atravessou o ribeiro de Cedrom, que corre entre Jerusalém e o monte das Oliveiras, onde havia um jardim. Não era dele, mas de um amigo que lhe permitia usá-lo. Observe:

  1. Que nosso Senhor Jesus começou a sofrer depois de dizer estas palavras, como em Mateus 26:1: “Quando ele acabou todas estas palavras.” Aqui se indica:

(1.) Que nosso Senhor Jesus realizou sua obra na ordem que tinha diante de si. O ofício do sacerdote era ensinar, orar e oferecer sacrifício. Depois de ensinar e orar, Cristo se dedicou a fazer expiação.

Cristo já dissera tudo o que tinha a dizer como profeta; agora se dedicava a cumprir seu ofício de sacerdote e oferecer a alma como sacrifício pelo pecado. Depois de passar por isso, assumiu seu ofício de rei.

(2.) Que, depois de preparar os discípulos para aquela hora de provação com seu sermão e a si mesmo com sua oração, saiu corajosamente ao encontro dela. Vestiu a armadura e entrou na arena, mas somente então.

Os que sofrem segundo a vontade de Deus, por uma boa causa, com boa consciência e tendo um chamado claro para isso podem se consolar: Cristo não envolve os seus em nenhum combate sem antes fazer por eles o que é necessário para prepará-los.

Se recebermos as instruções e os consolos de Cristo e participarmos de sua intercessão, poderemos enfrentar com resolução inabalável as maiores agruras no caminho do dever.

  1. Que ele saiu com seus discípulos. Judas sabia em que casa da cidade ele estava; Cristo poderia ter ficado ali e enfrentado os sofrimentos. Mas:

(1.) Ele faria como de costume, sem mudar seu método ou para encontrar a cruz ou para evitá-la quando chegasse sua hora. Quando estava em Jerusalém, costumava, depois de passar o dia trabalhando em público, retirar-se à noite para o monte das Oliveiras.

Seus aposentos ficavam nos arredores da cidade, pois não lhe davam lugar nos palácios do centro. Como esse era seu costume, não mudou de método por prever os sofrimentos; como Daniel, fez o que costumava fazer (Daniel 6:10).

(2.) Ele não queria que houvesse tumulto entre o povo, tanto quanto seus inimigos também não queriam. Não era seu costume contender nem gritar. Se tivesse sido preso na cidade e isso provocasse uma revolta, poderia haver dano e muito sangue derramado; por isso, retirou-se.

Repare: quando nos vemos envolvidos em aflição, devemos temer envolver outros conosco. Não é desonroso que os seguidores de Cristo se submetam pacificamente.

Os que buscam a honra dos homens se orgulham de estar dispostos a vender a vida pelo preço mais alto. Mas os que sabem que seu sangue é precioso para Cristo e que nenhuma gota será derramada sem motivo valioso não precisam insistir nessas condições.

(3.) No início de sua paixão, como no fim, Cristo nos daria exemplo de afastamento do mundo: “Saiamos a ele fora do arraial, levando o seu descrédito” (Hebreus 13:13).

Se quisermos tomar nossa cruz com alegria e manter nossa comunhão com Deus, devemos pôr de lado e deixar para trás as multidões, as preocupações e os confortos das cidades, até mesmo das cidades santas.

  1. Que ele atravessou o ribeiro de Cedrom. Precisava atravessá-lo para chegar ao monte das Oliveiras, mas a menção desse detalhe sugere que havia algo significativo nele. Isso aponta:

(1.) Para a profecia de Davi acerca do Messias (Salmos 110:7): “Beberá do ribeiro no caminho.” O ribeiro representa os sofrimentos no caminho para sua glória e nossa salvação; isso é indicado pelo ribeiro de Cedrom, o ribeiro negro, assim chamado pela escuridão do vale por onde corria ou pela cor da água, suja pela imundície da cidade.

Cristo bebeu de um ribeiro assim quando ele estava no caminho da nossa redenção. Por isso, erguerá a cabeça, a sua e a nossa.

(2.) Para o exemplo de Davi como tipo do Messias. Durante sua fuga de Absalão, registra-se em particular que atravessou o ribeiro de Cedrom e subiu a encosta do monte das Oliveiras, chorando; todos os que estavam com ele também choravam (2 Samuel 15:23, 30).

Expulso pelos judeus rebeldes, que não queriam que reinasse sobre eles, e com Judas, como Aitofel, na trama contra ele, o Filho de Davi atravessou o ribeiro em condição humilde e humilhada, acompanhado por uma companhia de verdadeiros pranteadores.

Os reis piedosos de Judá queimaram e destruíram os ídolos que encontraram junto ao ribeiro de Cedrom: Asa (2 Crônicas 15:16), Ezequias (2 Crônicas 30:14) e Josias (2 Reis 23:4, 6). As coisas abomináveis eram lançadas naquele ribeiro.

Agora Cristo foi feito pecado por nós, para aboli-lo e removê-lo; por isso, começou sua paixão junto ao mesmo ribeiro. O monte das Oliveiras, onde começou a sofrer, ficava a leste de Jerusalém; o monte Calvário, onde concluiu seus sofrimentos, ficava a oeste, pois ele levava em conta os que viriam do leste e do oeste.

  1. Que ele entrou num jardim. Só este evangelista menciona essa circunstância: os sofrimentos de Cristo começaram num jardim. No jardim do Éden o pecado começou; ali a maldição foi pronunciada e o Redentor prometido.

Por isso, foi num jardim que a descendência prometida enfrentou a antiga serpente. Cristo também foi sepultado num jardim.

(1.) Quando caminharmos em nossos jardins, aproveitemos para meditar nos sofrimentos de Cristo num jardim. Devemos a eles todo o prazer que temos em nossos jardins, pois por meio deles foi removida a maldição lançada sobre a terra por causa do homem.

(2.) Quando estivermos em meio às nossas posses e prazeres, devemos esperar aflições, pois nossos jardins de delícias ficam num vale de lágrimas.

  1. Que ele levou consigo os discípulos. (1.) Porque costumava levá-los quando se retirava para orar. (2.) Eles deveriam testemunhar seus sofrimentos e sua paciência sob eles, para que pudessem pregá-los ao mundo com mais convicção e afeto (Lucas 24:48) e eles próprios estivessem preparados para sofrer.

(3.) Ele os levaria ao perigo a fim de mostrar-lhes sua fraqueza, apesar das promessas de fidelidade que haviam feito. Às vezes Cristo leva seu povo a dificuldades para engrandecer a si mesmo ao libertá-lo.

  1. Que Judas, o traidor, conhecia o lugar. Sabia que era o local habitual de retiro de Cristo e provavelmente, por alguma palavra que Cristo deixara escapar, sabia que pretendia estar ali naquela noite, por falta de um lugar melhor para se retirar.

Um jardim isolado é lugar apropriado para meditação e oração; depois da Páscoa é hora apropriada para retirar-se à devoção particular, orar sobre as impressões recebidas e os votos renovados e cravar bem o prego.

A menção de que Judas conhecia o lugar serve: (1.) Para agravar seu pecado. Apesar de conhecer intimamente o Mestre, Judas o trairia; ou melhor, usaria sua familiaridade com Cristo para ter oportunidade de traí-lo. Uma pessoa generosa teria desprezado uma atitude tão vil.

Assim, a santa religião de Cristo foi ferida na casa de seus amigos, como não poderia ter sido ferida em nenhum outro lugar. Muitos apóstatas não teriam sido tão profanos se não tivessem professado a fé; não poderiam ridicularizar as Escrituras e as ordenanças se não as conhecessem.

(2.) Para engrandecer o amor de Cristo: embora soubesse onde o traidor o procuraria, foi para lá a fim de ser encontrado por ele, pois sabia que sua hora chegara. Assim mostrou que estava disposto a sofrer e morrer por nós.

O que fez não foi por constrangimento, mas por anuência. Embora, como homem, dissesse: “Passe este cálice”, como Mediador dizia: Eis que venho, venho de boa vontade.

Era tarde da noite — podemos supor que fossem oito ou nove horas — quando Cristo saiu para o jardim. Fazer a vontade daquele que o enviara era não apenas seu alimento e sua bebida, mas também seu descanso e seu sono. Enquanto os outros iam para a cama, ele ia orar e sofrer.

II. Depois que o capitão da nossa salvação tomou o campo de batalha, o inimigo chegou imediatamente ao lugar e o atacou (v. 3). Judas veio com seus homens, enviado pelos principais sacerdotes, sobretudo por aqueles entre eles que eram fariseus, os mais amargos inimigos de Cristo.

Este evangelista omite a agonia de Cristo, pois os outros três a relataram por completo; passa imediatamente a Judas e ao grupo que veio prendê-lo. Observe:

  1. Os homens empregados nessa ação: um destacamento e oficiais dos principais sacerdotes, acompanhados de Judas. (1.) Uma multidão se levantou contra Cristo: um destacamento, speira — cohors, um regimento, um destacamento romano que, segundo alguns, tinha quinhentos homens e, segundo outros, mil.

Os amigos de Cristo eram poucos, e seus inimigos, muitos. Portanto, não sigamos a multidão para fazer o mal nem temamos uma multidão com o desígnio de nos fazer mal, se Deus está conosco.

(2.) Era uma multidão mista. Os soldados do destacamento eram gentios, soldados romanos destacados da guarnição postada na torre Antônia para conter a cidade; os oficiais dos principais sacerdotes, hyperetas, eram judeus, fossem servos domésticos ou oficiais de seus tribunais.

Eles eram inimigos uns dos outros, mas se uniram contra Cristo, que veio reconciliar ambos com Deus num só corpo. (3.) Era uma multidão com ordens, não um tumulto popular.

Não: haviam recebido ordens dos principais sacerdotes, que sugeriram ao governador que Jesus era perigoso; provavelmente, receberam dele também um mandado para prendê-lo, pois temiam o povo. Veja quais inimigos Cristo e seu evangelho tiveram e provavelmente terão: numerosos, poderosos e, portanto, temíveis; poderes eclesiásticos e civis unidos contra eles (Salmos 2:1, 2).

Cristo disse que seria assim (Mateus 10:18), e constatou que era. (4.) Todos estavam sob a direção de Judas. Ele recebeu o destacamento e provavelmente o pediu, alegando ser necessário enviar uma força numerosa.

Ele era tão ambicioso pela honra de comandar a expedição quanto cobiçoso pelo salário daquela injustiça. Imaginava ter sido promovido de modo extraordinário: em vez de vir na retaguarda dos doze desprezíveis, fora colocado à frente dessas centenas temíveis.

Nunca tivera tanto destaque e talvez prometesse a si mesmo que aquela não seria a última vez: se tivesse êxito na operação, seria recompensado com uma patente de capitão ou coisa melhor.

  1. A preparação que fizeram para o ataque: vieram com lanternas, tochas e armas. (1.) Caso Cristo se escondesse, precisariam de luzes, embora houvesse luar; mas poderiam ter dispensado essas luzes.

O segundo Adão não foi levado, como o primeiro, a esconder-se entre as árvores do jardim por medo ou vergonha. Era tolice acender uma vela para procurar o Sol.

(2.) Caso Cristo resistisse, precisariam de armas. As armas de sua guerra eram espirituais; muitas vezes ele os vencera com elas e os silenciara. Por isso, agora recorriam a outras armas: espadas e porretes.

III. Nosso Senhor Jesus repeliu gloriosamente o primeiro ataque do inimigo (vv. 4-6). Observe:

  1. Como os recebeu: com toda a mansidão possível para com eles e toda a serenidade possível em si mesmo.

(1.) Fez-lhes uma pergunta muito suave e branda (v. 4). Sabia tudo o que lhe aconteceria e, por isso, não foi surpreendido de modo algum por aquele alvoroço.

Com admirável intrepidez e presença de espírito, sem perturbação nem desânimo, foi ao encontro deles e, como se não estivesse preocupado, perguntou com suavidade: “A quem buscais? O que houve? Que significa esta agitação a esta hora da noite?” Veja aqui:

[1.] A previsão de Cristo sobre seus sofrimentos. Sabia todas as coisas que lhe aconteceriam, pois se comprometera a sofrê-las. Se não tivéssemos a força que Cristo tinha para suportar essa revelação, não deveríamos desejar saber o que nos acontecerá: isso apenas anteciparia nossa dor.

Basta ao dia o seu mal. Ainda assim, será bom esperarmos sofrimentos em geral, para que, quando vierem, possamos dizer: “É justamente o que esperávamos; calculamos esse custo.”

[2.] A disposição de Cristo para sofrer. Não fugiu dos sofrimentos; saiu ao encontro deles e estendeu a mão para receber o cálice amargo.

Quando o povo quis coroá-lo à força e fazê-lo rei na Galileia, ele se retirou e se escondeu (João 6:15). Mas, quando vieram para forçá-lo à cruz, ele se ofereceu, pois veio a este mundo para sofrer e foi ao outro para reinar.

Isso não nos autoriza a nos expormos desnecessariamente à aflição, pois não sabemos quando chegará nossa hora. Mas somos chamados a sofrer quando só podemos evitar o sofrimento pecando; e, nesse caso, que nada nos abale, pois essas coisas não podem nos prejudicar.

(2.) Quando lhe disseram quem procuravam, respondeu com muita serenidade e brandura (v. 5). Disseram: “Jesus de Nazaré”; e ele respondeu: “Sou eu.”

[1.] Ao que parece, seus olhos estavam impedidos de reconhecê-lo. É muito provável que muitos soldados romanos, ao menos os oficiais do templo, já o tivessem visto, ainda que fosse por curiosidade.

Judas certamente o conhecia bem, mas nenhum deles podia alegar: “Tu és o homem que procuramos.” Assim Cristo mostrou a tolice de trazer luzes para encontrá-lo: podia fazer com que não o reconhecessem ao vê-lo.

Nisso nos mostrou como pode confundir facilmente os conselhos de seus inimigos e fazê-los perder-se quando procuram causar dano. [2.] Ao procurá-lo, chamaram-no “Jesus de Nazaré”, o único título pelo qual o conheciam e, provavelmente, o que constava no mandado.

Era um nome de descrédito, usado para obscurecer a prova de que ele era o Messias. Isso mostra que não sabiam de onde ele vinha; pois, se o soubessem, certamente não o teriam perseguido.

[3.] Ele lhes respondeu abertamente: “Sou eu.” Não tirou proveito da cegueira deles, como Eliseu fez com os sírios, dizendo-lhes: “Este não é o caminho, nem esta é a cidade.”

Em vez disso, aproveitou a ocasião para mostrar sua disposição de sofrer. Embora o chamassem “Jesus de Nazaré”, respondeu a esse nome, pois desprezava o descrédito.

Poderia ter dito que não era ele, pois era Jesus de Belém; mas de modo algum recorreria a jogos de palavras. Assim nos ensinou a reconhecê-lo, custe o que custar, sem nos envergonharmos dele nem de suas palavras e, mesmo em tempos difíceis, a confessar Cristo crucificado e lutar com coragem sob sua bandeira.

“Sou eu”, Ego eimi, “Sou eu”, é o nome glorioso do Deus bendito (Êxodo 3:14), e Jesus, o Bendito, reivindica com justiça a honra desse nome.

[4.] Menciona-se em particular, entre parênteses, que Judas estava com eles. Aquele que costumava estar com os seguidores de Cristo agora estava com os que lutavam contra ele. Assim se descreve um apóstata: alguém que muda de lado.

Judas se juntou àqueles com quem seu coração sempre estivera e com quem compartilhará seu destino no dia do juízo. Isso é mencionado, primeiro, para mostrar a impudência de Judas.

Alguém poderia se perguntar de onde tirou a confiança para encarar o Mestre sem vergonha nem rubor. Satanás em seu coração lhe dera uma fronte de prostituta.

Segundo, para mostrar que Judas era o alvo específico do poder que acompanhou aquelas palavras: “Sou eu.” Esse poder repeliu os que atacavam Cristo.

Foi uma flecha dirigida à consciência do traidor e que o feriu profundamente; pois a vinda e a voz de Cristo serão mais terríveis para apóstatas e traidores do que para pecadores de qualquer outra classe.

  1. Veja como ele os aterrorizou e os obrigou a recuar (v. 6): “Eles recuaram” e, como homens fulminados por um raio, “caíram por terra”. Parece que não caíram para a frente, humilhando-se diante dele e cedendo, mas para trás, como quem resistia até o limite. Assim, Cristo foi declarado mais que um homem, mesmo quando era pisado como verme, e não homem.

Essa palavra, “Sou eu”, havia reanimado seus discípulos e os levantado (Mateus 14:27); mas a mesma palavra derruba seus inimigos. Com isso, ele mostrou claramente:

(1.) O que poderia ter feito com eles. Quando os derrubou, poderia tê-los matado; quando os fez cair por terra com sua palavra, poderia tê-los enviado ao inferno e mandado para lá pelo caminho mais curto, como a companhia de Corá; mas não quis fazê-lo, [1.] porque havia chegado a hora de seu sofrimento, e ele não a adiaria.

Queria apenas mostrar que sua vida não lhe fora arrancada à força, mas que ele a entregava por si mesmo, como havia dito. [2.] Porque queria dar uma demonstração de sua paciência e longanimidade para com os piores homens, e de seu amor compassivo até por seus próprios inimigos.

Ao derrubá-los, sem fazer mais nada, deu-lhes tanto um chamado ao arrependimento como prazo para se arrependerem; mas o coração deles estava endurecido, e tudo foi em vão.

(2.) O que ele fará por fim a todos os seus inimigos implacáveis, que não se arrependerão para lhe dar glória: fugirão, cairão diante dele. Então se cumpriu a Escritura (Salmos 21:12): “Farás que virem as costas”, e também Salmos 20:8.

E isso se cumprirá cada vez mais: com o sopro de sua boca abaterá o ímpio (2 Tessalonicenses 2:8; Apocalipse 19:21). Quid judicaturus faciet, qui judicandus hoc facit? — O que fará quando vier para julgar, visto que fez isso quando veio para ser julgado? — Agostinho.

IV. Depois de repelir seus inimigos, ele protege seus amigos, e também por sua palavra (vv. 7-9). Aqui podemos observar:

  1. Como continuou a se expor à fúria deles (v. 7). Eles não ficaram muito tempo caídos onde haviam tombado, mas, por permissão divina, levantaram-se novamente; somente no outro mundo os juízos de Deus são eternos. Quando estavam caídos, alguém poderia pensar que Cristo deveria fugir; quando se levantaram, alguém poderia pensar que deveriam desistir da perseguição.

Contudo, vemos que, (1.) continuam tão ávidos quanto antes para prendê-lo. Recuperaram-se em meio a certa confusão e desordem; não podiam imaginar o que lhes acontecera, fazendo com que não conseguissem manter-se de pé, mas atribuíam isso a qualquer coisa, menos ao poder de Cristo.

Repare: há corações tão endurecidos no pecado que nada consegue reconduzi-los nem recuperá-los. (2.) Ele continua tão disposto quanto antes a ser preso. Quando caíram diante dele, não os insultou; vendo-os perplexos, fez-lhes a mesma pergunta: “A quem buscais?” E eles lhe deram a mesma resposta: “Jesus de Nazaré”.

Ao repetir a pergunta, parece aproximar-se ainda mais da consciência deles: “Não sabeis a quem buscais? Não percebeis que estais enganados e que vos metereis com quem pode derrotar-vos? Não vos bastou o que aconteceu? Quereis tentar outra luta?”

“Quem jamais endureceu o coração contra Deus e prosperou?” Ao repetirem a mesma resposta, mostraram obstinação em seu caminho perverso; ainda o chamam Jesus de Nazaré, com tanto desprezo quanto antes, e Judas está tão implacável quanto qualquer um deles. Portanto, temamos que, dando alguns passos audaciosos no início de um caminho pecaminoso, nosso coração venha a endurecer-se.

  1. Como maquinou proteger seus discípulos da fúria deles. Usou essa vantagem contra eles para proteger seus seguidores.

Ao demonstrar coragem em relação a si mesmo — “Eu vos disse que sou eu” —, demonstrou cuidado por seus discípulos: “Deixai estes seguir seu caminho”. Ele lhes fala como quem lhes dá uma ordem, e não como quem faz um acordo com eles, pois estavam à mercê dele, não ele à mercê deles.

Por isso, ordena-lhes como quem tem autoridade: Deixem estes seguir seu caminho; será por conta de vocês se mexerem com eles.

Isso agravou o pecado dos discípulos ao abandoná-lo, e especialmente o de Pedro ao negá-lo: Cristo lhes havia dado esse salvo-conduto, ou garantia de proteção, e ainda assim não tiveram fé e coragem suficientes para confiar nela, recorrendo a expedientes tão baixos e lamentáveis para se proteger. Quando Cristo disse: “Deixai estes seguir seu caminho”, pretendia:

(1.) Manifestar sua afetuosa preocupação por seus discípulos. Quando se expôs, poupou-os, porque ainda não estavam preparados para sofrer; sua fé era fraca, e seu ânimo, abatido. Trazê-los então ao sofrimento teria posto em risco suas almas e a vida de suas almas. Vinho novo não deve ser posto em odres velhos.

Além disso, tinham outro trabalho a fazer: deveriam seguir seu caminho, pois iriam por todo o mundo pregar o evangelho. Não os destruam, pois neles há uma bênção.

Nesse episódio, [1.] Cristo nos dá grande ânimo para segui-lo, pois, embora nos destine ao sofrimento, ainda assim considera nossa condição, determina sabiamente o momento da cruz e a ajusta às nossas forças; livrará os piedosos da tentação, seja afastando-a, seja sustentando-os através dela. [2.] Ele nos dá um bom exemplo de amor aos irmãos e de preocupação com o bem-estar deles.

Não devemos cuidar apenas do nosso próprio conforto e segurança, mas também dos outros e, em alguns casos, mais deles que de nós mesmos. Há um amor generoso e heroico que nos capacita a dar a vida pelos irmãos (1 João 3:16).

(2.) Pretendia dar uma amostra de sua obra como Mediador. Quando se ofereceu para sofrer e morrer, foi para que pudéssemos escapar. Ele era nosso antipsychos — aquele que sofre em nosso lugar. Quando disse: “Eis que venho”, também disse: “Deixai estes seguir seu caminho”; como o carneiro oferecido no lugar de Isaque.

  1. Com isso, confirmou a palavra que havia dito pouco antes (João 17:12): “Dos que tu me deste, não perdi nenhum”. Ao cumprir essa palavra nesse caso específico, Cristo deu a garantia de que ela se cumpriria em todo o seu alcance, não somente quanto aos que estavam então com ele, mas também quanto a todos os que viessem a crer nele por meio da palavra deles.

Embora a preservação de seus discípulos por Cristo se referisse especialmente à proteção de sua alma contra o pecado e a apostasia, aqui ela se aplica à preservação de sua vida natural, e com muita propriedade, pois até o corpo fazia parte da responsabilidade e do cuidado de Cristo.

Ele o ressuscitará no último dia e, portanto, deve preservá-lo, assim como ao espírito e à alma (1 Tessalonicenses 5:23; 2 Timóteo 4:17-18).

Cristo preservará a vida natural para o serviço ao qual foi destinada. Ela lhe é dada para ser usada em favor dele; ele não perderá esse serviço, mas será engrandecido nele, quer pela vida, quer pela morte. A vida será preservada enquanto ainda houver alguma utilidade a cumprir.

As testemunhas de Cristo não morrerão antes de apresentar seu testemunho. Mas isso não é tudo: essa preservação dos discípulos tendia também a preservá-los espiritualmente.

Eram então tão fracos na fé e na resolução que, muito provavelmente, se tivessem sido chamados a sofrer naquele momento, teriam envergonhado a si mesmos e ao Mestre; alguns deles, ao menos os mais fracos, teriam se perdido. Por isso, para não perder nenhum, ele não os expôs.

A segurança e a preservação dos santos se devem não somente à graça divina, que ajusta a força à provação, mas também à providência divina, que ajusta a provação à força.

V. Tendo provido à segurança de seus discípulos, repreende a imprudência de um deles e refreia a violência de seus seguidores, assim como repelira a violência de seus perseguidores (vv. 10-11). Aqui temos:

  1. A imprudência de Pedro. Ele tinha uma espada; não é provável que a usasse constantemente, como um cavalheiro, mas havia duas espadas entre todos eles (Lucas 22:38), e Pedro, encarregado de uma delas, desembainhou-a.

Pensou que, se havia um momento de usá-la, era aquele; golpeou um dos servos do sumo sacerdote, provavelmente um dos mais ousados, e, ao que parece, tentando abrir-lhe a cabeça ao meio, errou o golpe e apenas lhe cortou a orelha direita. Para dar maior certeza ao relato, registra-se o nome do servo: Malco, ou Maluque (Neemias 10:4).

(1.) Devemos reconhecer aqui a boa vontade de Pedro: ele tinha zelo sincero por seu Mestre, embora agora mal orientado. Pouco antes, prometera arriscar a vida por ele e agora queria cumprir suas palavras.

É provável que Pedro tenha ficado exasperado ao ver Judas à frente daquele bando; a vileza de Judas despertou a coragem de Pedro, e me espanta que, ao desembainhar a espada, não tenha mirado a cabeça do traidor.

(2.) Ainda assim, devemos reconhecer a má conduta de Pedro. Embora sua boa intenção o desculpasse, não o justificava. [1.] Ele não tinha autorização de seu Mestre para agir assim.

Os soldados de Cristo devem esperar a ordem de comando, e não se adiantar a ela; antes de se exporem ao sofrimento, devem certificar-se não apenas de que sua causa é boa, mas também de que seu chamado é claro. [2.] Transgrediu o dever próprio de sua posição e resistiu às autoridades constituídas, algo que Cristo nunca aprovou, mas proibiu: “não resistais ao mal” (Mateus 5:39).

[3.] Opôs-se ao sofrimento de seu Mestre e, apesar da repreensão que já recebera por isso, estava pronto a repetir: Mestre, poupe-se; que o sofrimento fique longe de você, embora Cristo lhe tivesse dito que devia e iria sofrer, e que sua hora havia chegado. Assim, enquanto parecia lutar por Cristo, lutava contra ele. [4.] Quebrou a capitulação que seu Mestre acabara de fazer com o inimigo.

Quando disse: “Deixai estes seguir seu caminho”, não apenas negociou a segurança deles, mas, na prática, empenhou sua palavra de que se comportariam bem e partiriam em paz. Pedro ouviu isso e, mesmo assim, não aceitou ficar obrigado por esse acordo.

Assim como podemos ser culpados de covardia pecaminosa quando somos chamados a nos apresentar, também podemos ser culpados de precipitação pecaminosa quando somos chamados a recuar. [5.] Expôs tolamente a si mesmo e aos demais discípulos à fúria daquela multidão enfurecida.

Se tivesse cortado a cabeça de Malco quando lhe cortou a orelha, podemos supor que os soldados teriam atacado todos os discípulos e os despedaçado, e teriam apresentado Cristo como alguém não melhor que Barrabás. Assim, muitos foram culpados de se destruírem em seu zelo pela própria preservação.

[6.] Pouco depois disso, Pedro se acovardou (negando seu Mestre). Temos razão para pensar que ele não teria feito aquilo se não tivesse visto seu Mestre fazê-los cair por terra; então poderia lidar com eles. Mas, quando o viu entregar-se apesar disso, sua coragem falhou.

O verdadeiro herói cristão, porém, se apresentará na causa de Cristo não somente quando ela estiver triunfando, mas também quando parecer estar em declínio; ficará do lado certo, mesmo que esse não seja o lado que está prevalecendo.

(3.) Devemos reconhecer a providência de Deus, que se sobrepôs ao dirigir o golpe, para que não causasse dano maior, mas apenas cortasse a orelha — o que foi mais uma marca do que uma mutilação. Reconheçamos também que Deus deu a Cristo a oportunidade de manifestar seu poder e sua bondade ao curar o ferimento (Lucas 22:51).

Assim, aquilo que ameaçava redundar em descrédito para Cristo tornou-se ocasião para algo que muito contribuiu para sua honra, até mesmo entre seus adversários.

  1. A repreensão que o Mestre lhe deu (v. 11): “Mete a tua espada na bainha”, isto é, no estojo da espada. É uma censura branda, pois foi o zelo que o levou além dos limites da prudência. Cristo não agravou a questão; apenas lhe ordenou que não fizesse aquilo de novo.

Muitos pensam que a dor e a aflição os desculparão se forem ríspidos e impacientes com quem está ao redor, mas Cristo nos deu aqui um exemplo de mansidão no sofrimento.

Pedro devia guardar a espada, pois a espada que lhe seria confiada era a do Espírito — armas de guerra que não são carnais, mas poderosas. Quando Cristo derrubou os agressores com uma palavra, mostrou a Pedro que ele também devia estar armado com a palavra, viva e eficaz, mais afiada que qualquer espada de dois gumes. Pouco depois, com essa palavra, prostrou Ananias e Safira mortos a seus pés.

  1. O motivo dessa repreensão: “O cálice que meu Pai me deu, não o beberei?” Mateus relata outro motivo que Cristo apresentou para essa repreensão, mas João preserva esta, que Mateus omitira. Nela, Cristo nos dá (1.) plena prova de sua submissão à vontade do Pai.

Entre tudo o que havia de errado na atitude de Pedro, parece que nada o incomodou tanto quanto Pedro querer impedi-lo de sofrer agora que sua hora havia chegado: “O quê, Pedro? Vais te interpor entre o cálice e os lábios? Afasta-te de mim, Satanás”.

Se Cristo estava decidido a sofrer e morrer, era presunção de Pedro opor-se a isso por palavras ou atos. “Não o beberei?” O modo de falar expressa uma resolução firme, sem sequer cogitar o contrário. Ele estava disposto a beber aquele cálice, embora fosse amargo: uma infusão de absinto e fel, o cálice do tremor, um cálice de sangue, a borra do cálice da cólera do Senhor (Isaías 51:22).

Ele o bebeu para pôr em nossas mãos o cálice da salvação, o cálice da consolação, o cálice da bênção. Por isso estava disposto a bebê-lo: seu Pai o colocara em sua mão. Se o Pai assim queria, era o melhor; que assim fosse. (2.) Cristo nos dá um belo modelo de submissão à vontade de Deus em tudo o que nos diz respeito.

Devemos beber com Cristo do cálice que ele bebeu (Mateus 20:23) e persuadir a nós mesmos a aceitá-lo.

[1.] É apenas um cálice: seja o que for, é algo pequeno em comparação. Não é um mar, um mar Vermelho, um mar Morto, pois não é o inferno; é leve e dura somente por um momento. [2.] É um cálice que nos é dado; os sofrimentos são dádivas. [3.] É dado por um Pai, que tem autoridade paterna e não nos faz injustiça; e que tem afeto de pai e não pretende nos ferir.

VI. Tendo se reconciliado inteiramente com essa providência, entregou-se serenamente como prisioneiro, não porque não pudesse escapar, mas porque não quis.

Alguém poderia pensar que a cura da orelha de Malco os faria ceder, mas nada os demovia. Maledictus furor, quem nec majestas miraculi nec pietas beneficii confringere potuit — Maldita fúria, que nem a grandeza do milagre pôde aplacar, nem a ternura do benefício pôde abrandar — Anselmo. Observe aqui:

  1. Como o prenderam: “Prenderam Jesus”. Somente alguns deles podiam pôr as mãos nele, mas a acusação recai sobre todos, pois todos ajudaram e instigaram. Em traição, não há cúmplices secundários: todos são autores principais. Então se cumpriu a Escritura: “Touros me cercaram” (Salmos 22:12); “cercaram-me como abelhas” (Salmos 118:12).

O fôlego de nossas narinas foi preso nas covas deles (Lamentações 4:20). Muitas vezes haviam fracassado nas tentativas de prendê-lo; agora que o tinham nas mãos, podemos supor que se lançaram sobre ele com ainda mais violência.

  1. Como o mantiveram sob custódia: “Amarraram-no”. Somente este evangelista menciona esse detalhe de seus sofrimentos: assim que o prenderam, amarraram-no, imobilizaram-no, algemaram-no.

Segundo a tradição, “amarraram-no com tanta crueldade que o sangue brotou das pontas de seus dedos; depois de lhe prenderem as mãos atrás das costas, puseram-lhe uma corrente de ferro ao redor do pescoço e o arrastaram com ela”. Veja Gerhard, Harm., cap. 5.

(1.) Isso mostra a maldade de seus perseguidores. Amarraram-no, [1.] para atormentá-lo e causar-lhe dor, como amarraram Sansão para afligi-lo. [2.] Para desonrá-lo e envergonhá-lo: os escravos eram amarrados, e assim foi Cristo, embora tivesse nascido livre. [3.] Para impedir sua fuga, pois Judas lhes dissera que o segurassem bem.

Veja a insensatez deles: pensavam poder prender com grilhões aquele poder que acabara de se mostrar onipotente.

[4.] Amarraram-no como alguém já condenado, pois estavam decididos a levá-lo até a morte, para que morresse como morre um insensato, isto é, como um malfeitor, com as mãos amarradas (2 Samuel 3:33-34). Cristo havia prendido a consciência de seus perseguidores com o poder de sua palavra, que os atormentava; para se vingarem dele, puseram-lhe essas amarras.

Cristo diante de Anás e Caifás; A Queda de Pedro; Cristo Formalmente Acusado; Pedro Nega Cristo Novamente.

Versículos 13 a 27

Temos aqui o relato da acusação formal contra Cristo diante do sumo sacerdote, bem como algumas circunstâncias ali ocorridas que os outros evangelistas omitiram. A negação de Pedro, cuja história os outros evangelistas haviam apresentado por inteiro, está entrelaçada com os demais acontecimentos.

Como o crime que lhe imputavam dizia respeito à religião, os juízes do tribunal espiritual entenderam que o caso estava diretamente sob sua jurisdição.

Tanto judeus quanto gentios o prenderam; assim, tanto judeus quanto gentios o julgaram e condenaram, pois ele morreu pelos pecados de ambos. Vamos percorrer a narrativa em ordem.

I. Depois de prendê-lo, levaram-no primeiro a Anás, antes de conduzi-lo ao tribunal que o aguardava na casa de Caifás (v. 13). 1. Levaram-no, levaram-no como em triunfo, qual troféu de sua vitória; levaram-no como cordeiro ao matadouro e passaram com ele pela Porta das Ovelhas, mencionada em Neemias 3:1. Por ali se ia do monte das Oliveiras a Jerusalém.

Arrastaram-no violentamente, como se fosse o pior e mais vil dos malfeitores. Nós havíamos sido levados pelos nossos próprios desejos impetuosos e feitos cativos por Satanás, à sua vontade; para que fôssemos resgatados, Cristo foi levado, cativo pelos agentes e instrumentos de Satanás.

  1. Levaram-no à presença dos chefes que os haviam enviado. Era por volta da meia-noite, e alguém poderia pensar que deveriam tê-lo posto sob custódia (Levítico 24:12), levando-o a alguma prisão até que chegasse o momento apropriado para reunir um tribunal.

Mas o levaram imediatamente, não aos magistrados para ser detido, e sim aos juízes para ser condenado. A perseguição era tão violenta porque, em parte, temiam que alguém o resgatasse; desse modo, não apenas não deixariam tempo para isso, como também incutiriam terror.

Em parte, agiam assim porque ansiavam avidamente pelo sangue de Cristo, como a águia que se precipita sobre a presa. 3. Levaram-no primeiro a Anás. Provavelmente a casa dele ficava no caminho e era conveniente para que parassem e se refrescassem; alguns pensam que também para receberem pagamento pelo serviço.

Suponho que Anás fosse idoso e frágil, incapaz de comparecer ao conselho com os demais naquela hora da noite, mas desejasse muito ver a presa. Para satisfazê-lo com a certeza de que haviam conseguido o que queriam, para que o velho dormisse mais tranquilo e para receber sua bênção por isso, apresentaram-lhe o prisioneiro.

É triste ver pessoas idosas e doentes, quando já não podem pecar como antes, sentirem prazer naqueles que pecam. O Dr. Lightfoot pensa que Anás não estava presente porque deveria comparecer cedo ao templo naquela manhã para examinar os sacrifícios que seriam oferecidos naquele dia, a fim de verificar se não tinham defeito.

Se assim foi, isso tinha um significado: Cristo, o grande sacrifício, foi apresentado a ele e enviado de lá amarrado, aprovado e pronto para o altar. 4. Anás era sogro de Caifás, o sumo sacerdote.

Esse parentesco por casamento explica talvez por que Caifás ordenou que se prestasse essa deferência a Anás, dando-lhe a primeira oportunidade de ver o prisioneiro; ou por que Anás quis apoiar Caifás num assunto que lhe era tão caro.

Repare: a convivência e as alianças com pessoas perversas fortalecem muito a muitos em seus caminhos perversos.

II. Anás não os deteve por muito tempo, pois estava tão disposto quanto qualquer um deles a levar adiante a acusação. Por isso, enviou Jesus amarrado a Caifás, à casa dele, que havia sido designada como ponto de encontro do Sinédrio naquela ocasião, ou ao lugar habitual no templo onde o sumo sacerdote realizava seu tribunal; isso é mencionado no v. 24.

Mas nossos tradutores indicam na margem que esse versículo deveria aparecer aqui e, por isso, o leem nesse lugar: Anás o tinha enviado. Observe aqui:

  1. O poder de Caifás é indicado (v. 13): ele era sumo sacerdote naquele mesmo ano. O mandato do sumo sacerdote durava a vida inteira, mas, por causa das frequentes mudanças provocadas pelas manobras simoníacas de homens ambiciosos junto ao governo, o cargo havia se tornado quase anual. Isso prenunciava a aproximação de seu fim, enquanto eles se minavam uns aos outros.

Deus estava derrubando todos eles, para que viesse aquele a quem o direito pertencia. Caifás era sumo sacerdote justamente no ano em que o Messias seria eliminado. Isso indica (1.) que, quando um sumo sacerdote deveria praticar uma coisa má, segundo a presciência de Deus, a Providência ordenava que um homem mau estivesse na cadeira para fazê-la.

(2.) Que, quando Deus queria tornar visível a corrupção que havia no coração de um homem mau, colocava-o numa posição de poder, onde tinha tentação e oportunidade para manifestá-la. A ruína de Caifás foi ter sido sumo sacerdote naquele ano e, assim, tornar-se líder na execução de Cristo.

A promoção já arruinou a reputação de muitos homens; eles não teriam sido desonrados se não tivessem recebido cargos.

  1. A malícia de Caifás é indicada (v. 14) pela repetição do que ele dissera algum tempo antes: fosse justo ou injusto, culpado ou inocente, convinha que um homem morresse pelo povo; isso se refere ao relato de João 11:50.

Essa observação aparece aqui para mostrar (1.) que homem mau ele era: aquele Caifás governava a si mesmo e à igreja segundo regras de conveniência política, desafiando as regras da justiça. (2.) O mau tratamento que Cristo provavelmente receberia em seu tribunal, já que seu caso fora decidido antes de ser ouvido e eles já haviam resolvido o que fariam com ele: deveria morrer.

Assim, seu julgamento era uma farsa. Do mesmo modo, os inimigos do evangelho de Cristo estão decididos a destruí-lo, seja ele verdadeiro ou falso. (3.) Isso testemunha a inocência de nosso Senhor Jesus pela boca de um de seus piores inimigos, que reconheceu que ele fora sacrificado pelo bem público e que sua morte não era justa, mas apenas conveniente.

  1. Anás participou da acusação contra Cristo. Tornou-se cúmplice da culpa (1.) junto com o comandante e os oficiais que, sem lei nem misericórdia, o haviam amarrado. Anás aprovou essa atitude ao mantê-lo preso, quando deveria tê-lo soltado, pois Cristo não fora condenado por crime algum nem tentara fugir.

Se não fazemos o que podemos para desfazer o mal que outros fizeram, tornamo-nos cúmplices ex post facto — depois do fato. Era mais desculpável que soldados rudes o amarrassem do que Anás, que deveria saber melhor, o mantivesse amarrado.

(2.) Também foi cúmplice do sumo sacerdote e do conselho que o condenaram e o levaram à morte. Anás não estava presente com eles, mas, ao agir assim, desejou-lhes êxito e tornou-se participante de suas más obras.

III. Na casa de Caifás, Simão Pedro começou a negar seu Mestre (vv. 15-18).

  1. Pedro teve muita dificuldade para entrar no pátio onde o tribunal estava reunido; o relato está nos v. 15, 16. Aqui podemos observar:

(1.) A bondade de Pedro para com Cristo, que, embora não se tivesse mostrado bondade, manifestou-se de duas maneiras: [1.] Que ele seguiu Jesus quando o levaram. Embora a princípio tivesse fugido com os demais, depois criou um pouco de coragem e o seguiu à distância, lembrando-se das promessas que fizera de permanecer com ele, qualquer que fosse o custo.

Os que seguiram Cristo em meio às suas honras e delas participaram, quando o povo lhe gritava “Hosana”, deveriam tê-lo seguido agora em meio ao seu descrédito e participado dele. Os que na verdade amam e valorizam Cristo o seguirão em todo tempo e por todos os caminhos.

[2.] Quando não conseguiu entrar onde Jesus estava, cercado por seus inimigos, ficou do lado de fora, junto à porta, querendo estar o mais perto possível dele e esperando uma oportunidade para se aproximar. Assim, quando encontramos oposição ao seguir Cristo, devemos mostrar nossa boa vontade.

Contudo, essa bondade de Pedro não foi bondade, pois lhe faltaram força e coragem para perseverar. Como se viu, ele apenas se meteu numa armadilha. Considerando tudo, até mesmo o fato de seguir Cristo deve ser censurado: Cristo, que o conhecia melhor do que ele conhecia a si mesmo, dissera expressamente (João 13:36): “Para onde vou, não podes seguir-me agora”.

Repetidas vezes, também lhe dissera que ele o negaria; e Pedro havia acabado de experimentar a própria fraqueza ao abandoná-lo. Repare: devemos tomar cuidado para não tentar a Deus, avançando em dificuldades que excedem nossas forças e nos arriscando demais no caminho do sofrimento.

Se nosso chamado para nos expor estiver claro, podemos esperar que Deus nos capacite a honrá-lo; se não estiver, podemos temer que Deus nos deixe passar vergonha.

(2.) A bondade do outro discípulo para com Pedro, que, como se viu, tampouco foi bondade. Como São João, várias vezes neste evangelho, fala de si mesmo como “outro discípulo”, muitos intérpretes foram levados a imaginar que esse outro discípulo era João.

Muitos conjecturam como ele teria se tornado conhecido do sumo sacerdote. Propter generis nobilitatem — por ser de nascimento superior —, diz Jerônimo (Epitaph. Marcel.), como se fosse de família mais nobre que seu irmão Tiago, embora ambos fossem filhos de Zebedeu, o pescador.

Alguns dirão que ele vendera sua propriedade ao sumo sacerdote; outros, que fornecia peixes para a família dele. Ambas as hipóteses são muito improváveis. Não vejo razão para pensar que esse outro discípulo fosse João ou um dos doze.

Cristo tinha outras ovelhas que não eram daquele aprisco. Como diz a versão siríaca, talvez esse homem fosse unus ex discipulis aliis — um daqueles outros discípulos que criam em Cristo, mas moravam em Jerusalém e ali mantinham suas posições. Talvez fosse José de Arimateia ou Nicodemos, conhecidos do sumo sacerdote, mas sem que este soubesse que eram discípulos de Cristo.

Repare: assim como muitos parecem discípulos, mas não o são, muitos são discípulos, mas não parecem. Há pessoas boas escondidas nas cortes, até mesmo na de Nero, assim como escondidas nas multidões. Não devemos concluir que alguém não é amigo de Cristo só porque convive e tem relações com aqueles que são conhecidos como seus inimigos.

Então, [1.] Esse outro discípulo, quem quer que fosse, mostrou consideração por Pedro ao introduzi-lo. Não fez isso apenas para satisfazer sua curiosidade e afeição, mas também para lhe dar a oportunidade de servir seu Mestre durante o julgamento, caso surgisse ocasião.

Os que têm verdadeiro afeto por Cristo e seus caminhos, ainda que sejam reservados por temperamento e suas circunstâncias os levem à cautela e ao recolhimento, se sua fé for sincera, mostrarão, quando chamados a isso, para que lado se inclinam, estando prontos a fazer um favor a um discípulo reconhecido.

Talvez Pedro tivesse introduzido esse discípulo à comunhão com Cristo algum tempo antes; agora, ele retribuiu a bondade e não se envergonhou de reconhecê-lo, embora, ao que parece, Pedro estivesse naquele momento abatido e com aparência desolada. [2.] Mas essa bondade não foi bondade; ou melhor, foi uma grande falta de bondade.

Ao deixá-lo entrar no pátio do sumo sacerdote, expôs Pedro à tentação, e as consequências foram ruins. Repare: muitas vezes, os favores de nossos amigos se tornam uma armadilha para nós por causa de um afeto mal orientado.

  1. Assim que entrou, Pedro foi imediatamente assaltado pela tentação e derrotado por ela (v. 17). Observe aqui:

(1.) Como foi leve o ataque. Quem o desafiou foi apenas uma criada insignificante, tão pouco importante que fora encarregada de guardar a porta. Ela apenas lhe perguntou, sem muita atenção: “Não és tu um dos discípulos deste homem?”

Provavelmente suspeitou disso por causa do jeito acanhado de Pedro e porque ele entrara timidamente. Muitas vezes defenderíamos melhor uma causa boa se tivéssemos coragem e soubéssemos demonstrá-la. Pedro teria algum motivo para se alarmar se Malco o tivesse atacado e dito: “Este é o homem que me cortou a orelha; vou cortar-lhe a cabeça por isso”.

Mas, quando uma criada apenas lhe perguntou: “Tu não és um deles?”, ele poderia ter respondido sem perigo: “E se eu for?” Suponhamos que os servos zombassem dele e o insultassem por isso: quem não consegue suportar tão pouco por Cristo suporta muito pouco. Isso é apenas correr contra soldados de infantaria.

(2.) Como foi rápida a capitulação. Sem parar para recobrar o ânimo, respondeu de imediato: “Não sou”. Se tivesse a coragem do leão, teria dito: “É uma honra ser um deles”; ou, se tivesse a prudência da serpente, teria ficado calado naquela ocasião, pois era um tempo mau.

Mas, preocupado apenas com a própria segurança, pensou que só poderia garanti-la com uma negativa categórica: “Não sou”. Não apenas negou, mas também desprezou a condição de discípulo e escarneceu das palavras dela.

(3.) Mesmo assim, avançou ainda mais para dentro da tentação: Os servos e os oficiais estavam ali, e Pedro com eles (v. 18).

[1.] Veja como os servos cuidaram de si mesmos. Como a noite estava fria, acenderam uma fogueira no pátio, não para seus senhores — tão empenhados estavam em perseguir Cristo que se esqueceram do frio —, mas para se aquecerem. Não se importavam com o que acontecesse a Cristo; só queriam sentar-se e se aquecer (Amós 6:6).

[2.] Veja como Pedro se juntou a eles e se colocou entre eles. Sentou-se e se aqueceu. Primeiro, já era grave o bastante ele não acompanhar seu Mestre e não se apresentar por ele na parte superior do pátio, onde Cristo estava sendo interrogado.

Pedro poderia ter testemunhado a seu favor e enfrentado as falsas testemunhas que depunham contra ele, caso o Mestre o chamasse. Ao menos poderia ter observado com atenção o que acontecia, para relatar aos demais discípulos, nenhum dos quais conseguira entrar e ouvir o julgamento.

Também poderia ter aprendido com o exemplo de seu Mestre como se portar quando chegasse sua vez de sofrer assim. Contudo, nem a consciência nem a curiosidade o levaram ao tribunal; ele ficou sentado de lado, como se, à semelhança de Gálio, não se importasse com coisa alguma.

Ao mesmo tempo, temos razão para pensar que seu coração estava tão cheio de dor e preocupação quanto podia estar, mas lhe faltava coragem para demonstrá-las. Senhor, não nos deixe cair em tentação.

Em segundo lugar, foi muito pior ele se juntar aos inimigos de seu Mestre: “Estava em pé com eles e aquecia-se”. Essa era uma desculpa fraca para se associar a eles. Uma pequena coisa atrai à má companhia aqueles que se deixam levar pelo prazer de uma boa fogueira.

Se o zelo de Pedro por seu Mestre não tivesse congelado, mas continuasse tão ardente quanto parecera poucas horas antes, ele não precisaria se aquecer ali. Pedro era muito culpado, 1. por se associar àqueles homens perversos e andar em sua companhia.

Sem dúvida, eles se divertiam com a expedição daquela noite, zombando de Cristo, do que ele dissera e fizera, e celebrando a vitória que julgavam ter obtido sobre ele. Que tipo de diversão isso proporcionaria a Pedro?

Se concordasse com o que diziam ou anuísse em silêncio, envolver-se-ia no pecado; se não, expor-se-ia ao perigo. Mesmo sem coragem para se apresentar publicamente por seu Mestre, Pedro poderia ao menos ter tido devoção suficiente para se retirar a um canto e chorar em segredo pelo sofrimento de Cristo e pelo próprio pecado de abandoná-lo.

Se não podia fazer o bem, poderia evitar o caminho de fazer o mal. É melhor esconder-se do que aparecer sem propósito ou com um propósito ruim. 2. Ele queria ser considerado um deles, para que não suspeitassem que era discípulo de Cristo.

Este é Pedro? Que contradição com a oração de todo homem bom: “Não ajuntes a minha alma com os pecadores!” Saul entre os profetas não é tão absurdo quanto Davi entre os filisteus. Os que pedem para não ter o destino dos escarnecedores no futuro devem temer agora o assento dos escarnecedores.

É perigoso aquecer-nos ao lado daqueles junto aos quais corremos o risco de nos queimar (Salmos 141:4).

IV. Tendo Pedro, amigo de Cristo, começado a negá-lo, o sumo sacerdote, seu inimigo, começa a acusá-lo, ou melhor, a pressioná-lo a acusar a si mesmo (vv. 19-21). Ao que parece, a primeira tentativa foi provar que ele era um enganador e mestre de falsa doutrina, relato que este evangelista apresenta.

Quando não conseguiram provar isso, acusaram-no de blasfêmia, como relatam os outros evangelistas e, por isso, João omite aqui. Observe:

  1. Os artigos ou pontos sobre os quais Cristo foi interrogado (v. 19): seus discípulos e sua doutrina. Observe:

(1.) A irregularidade do processo: era contrário a toda lei e justiça. Prenderam-no como criminoso, mas, agora que era seu prisioneiro, não tinham nada para acusá-lo: nenhuma denúncia formal, nenhum acusador.

O próprio juiz tinha de ser o acusador, e o próprio prisioneiro, a testemunha; contra toda razão e justiça, obrigavam-no a ser seu próprio acusador.

(2.) A intenção. O sumo sacerdote, então (oun — portanto, expressão que parece referir-se ao v. 14), porque havia resolvido que Cristo devia ser sacrificado à malícia particular deles sob o pretexto do bem público, interrogou-o sobre questões que poderiam levá-lo à morte.

Interrogou-o, [1.] acerca de seus discípulos, para acusá-lo de sedição e apresentá-lo como perigoso tanto para o governo romano quanto para a comunidade judaica.

Perguntou quem eram seus discípulos, quantos eram, de que país vinham, quais eram seus nomes e caráteres, insinuando que seus alunos estavam sendo preparados para ser soldados e, com o tempo, formariam um grupo temível. Alguns pensam que a pergunta sobre os discípulos significava: “Que foi feito de todos eles agora? Onde estão? Por que não aparecem?”

Assim, repreendia Cristo pela covardia deles ao abandoná-lo, acrescentando essa aflição às demais. É significativo que a primeira coisa imputada a Cristo tenha sido chamar e reconhecer seus discípulos, pois foi por eles que ele se santificou e sofreu.

[2.] Interrogou-o acerca de sua doutrina, para acusá-lo de heresia e sujeitá-lo à pena prevista pela lei contra os falsos profetas (Deuteronômio 13:9-10).

Esse assunto pertencia propriamente à jurisdição daquele tribunal (Deuteronômio 17:12); por isso, um profeta não podia perecer senão em Jerusalém, onde o tribunal se reunia. Não podiam provar que ele ensinara doutrina falsa, mas esperavam arrancar dele alguma coisa que pudessem distorcer em seu prejuízo e torná-lo culpado por uma palavra ou outra (Isaías 29:21).

Nada lhe perguntaram sobre os milagres, pelos quais fizera tanto bem e comprovara sua doutrina sem possibilidade de contestação, pois sabiam que não poderiam usá-los contra ele. Assim, os adversários de Cristo, enquanto criam diligentemente desavenças com sua verdade, fecham voluntariamente os olhos para as provas dela e não lhes dão atenção.

  1. O recurso de Cristo em resposta a essas perguntas. (1.) Quanto a seus discípulos, nada disse, pois a pergunta era imprópria. Se sua doutrina era sã e boa, ter discípulos a quem comunicá-la não era mais do que faziam e consentiam os próprios mestres deles.

Se Caifás, ao perguntar sobre seus discípulos, pretendia prendê-los numa armadilha e causar-lhes problemas, Cristo se calou por consideração a eles, pois dissera: “Deixai estes seguir seu caminho”.

Se a intenção era repreendê-lo pela covardia deles, não é de admirar que nada dissesse, pois Rudet hæc opprobria nobis, Et dici potuisse, et non potuisse refelli — a vergonha recai sobre nós quando são feitas acusações que não podemos refutar: ele nada diria para condená-los, mas tampouco poderia dizer algo para justificá-los.

(2.) Quanto à sua doutrina, não respondeu a respeito de nenhum ponto específico; de modo geral, remeteu-se aos que o haviam ouvido, pois ele era manifesto não apenas a Deus, mas também à consciência deles (vv. 20-21).

[1.] Cristo acusa tacitamente seus juízes de conduzirem o processo de maneira ilegal. De fato, não fala mal dos governantes do povo nem diz àqueles príncipes: “Vós sois perversos”; mas apela às regras estabelecidas pelo próprio tribunal para que julgassem se o tratavam com justiça. “Julgais de fato com retidão?” (Salmos 58:1). Assim, pergunta: “Por que me interrogais?”

Isso aponta duas absurdidades no julgamento. Primeiro: “Por que me interrogais agora acerca de minha doutrina, se já a condenastes?” Eles haviam decretado a excomunhão de todos os que o reconhecessem (João 9:22) e publicado uma proclamação para prendê-lo; e agora vinham perguntar qual era sua doutrina!

Assim, ele era condenado sem ser ouvido, como acontece com sua doutrina e sua causa em geral. Segundo: “Por que me interrogais? Devo acusar a mim mesmo, quando não tendes testemunhos contra mim?”

[2.] Cristo insiste em que tratou com eles de modo justo e aberto ao anunciar sua doutrina e se justifica com isso. Pela lei, o Sinédrio deveria investigar a propagação clandestina de doutrinas perigosas e o aliciamento secreto (Deuteronômio 13:6). Cristo, portanto, se defende plenamente dessa acusação.

Primeiro, quanto à maneira como pregava: falava abertamente, parresia — com liberdade e franqueza. Não expunha as coisas de modo ambíguo, como Apolo fazia com seus oráculos. Os que querem minar a verdade e espalhar ideias corruptas procuram alcançar seu objetivo por insinuações dissimuladas, levantando perguntas, criando dificuldades e sem afirmar nada.

Cristo, porém, explicava-se plenamente com expressões como “Em verdade, em verdade vos digo”. Suas censuras eram francas e corajosas, e seus testemunhos denunciavam claramente as corrupções de sua época.

Segundo, quanto às pessoas a quem pregava: falava ao mundo, a todos os que tinham ouvidos para ouvir e disposição para ouvi-lo, grandes ou pequenos, instruídos ou sem instrução, judeus ou gentios, amigos ou inimigos.

Sua doutrina não temia a avaliação de uma multidão heterogênea, nem negava seu conhecimento a quem quer que fosse, como costumam fazer os mestres de alguma invenção rara; antes, comunicava-a livremente, como o sol espalha seus raios.

Terceiro, quanto aos lugares em que pregava: quando estava no interior, pregava habitualmente nas sinagogas, os locais de reunião para o culto, e no sábado, o dia da reunião.

Quando subia a Jerusalém, pregava a mesma doutrina no templo, durante as festas solenes, quando judeus de todas as regiões se reuniam ali. Embora muitas vezes também pregasse em casas particulares, nos montes e à beira-mar, mostrando que sua palavra e seu culto não deviam ficar confinados a templos e sinagogas, o que ensinava em particular era exatamente o mesmo que ensinava em público.

Repare: a doutrina de Cristo, pregada com pureza e clareza, não precisa ter vergonha de aparecer diante da assembleia mais numerosa, pois traz consigo sua própria força e beleza. Os ministros fiéis de Cristo estariam dispostos a que o mundo inteiro ouvisse o que dizem. A sabedoria clama nos lugares de reunião (Provérbios 1:21; 8:3; 9:3).

Quarto, quanto à própria doutrina: nada disse em segredo que fosse contrário ao que dizia em público; em particular, apenas repetia e explicava o que já havia ensinado. “Nada falei em segredo”: não era como se desconfiasse da verdade de sua doutrina ou tivesse consciência de algum desígnio perverso nela.

Não procurava esconderijos, pois não temia acusações, nem dizia coisa alguma de que precisasse se envergonhar. O que falava em particular aos discípulos, ordenava-lhes que proclamassem sobre os telhados (Mateus 10:27). Deus diz de si mesmo: “Não falei em segredo” (Isaías 45:19); seu mandamento não está oculto (Deuteronômio 30:11), e a justiça que vem da fé fala da mesma maneira (Romanos 10:6).

Veritas nihil metuit nisi abscondi — a verdade não teme nada, a não ser ser escondida — Tertuliano.

[3.] Cristo apela aos que o ouviram e pede que sejam interrogados sobre a doutrina que pregou e se ela tinha aquela perigosa tendência que se supunha: “Perguntai aos que me ouviram o que lhes falei; alguns podem estar no tribunal ou ser chamados de suas camas”.

Ele não se refere a seus amigos e seguidores, de quem se poderia esperar um testemunho favorável, mas diz: “Perguntai a qualquer ouvinte imparcial; perguntai aos vossos próprios oficiais”. Alguns pensam que apontou para eles ao dizer: “Eis que eles sabem o que eu disse”, referindo-se ao relato que fizeram de sua pregação (João 7:46): “Nunca homem algum falou como este homem”.

Ou melhor, podiam perguntar a alguns dos que estavam no tribunal, pois é provável que alguns o tivessem ouvido e fossem por ele silenciados. Repare: a doutrina de Cristo pode apelar com segurança a todos os que a conhecem e tem tanto direito e razão a seu favor que os que julgam com imparcialidade não podem deixar de testemunhar a seu favor.

V. Enquanto os juízes o interrogavam, os servos que estavam por perto o maltratavam (vv. 22-23).

  1. Um dos oficiais lhe fez uma afronta vil. Embora Cristo falasse com tanta calma e apresentasse provas tão convincentes, aquele insolente o esbofeteou, provavelmente na cabeça ou no rosto, dizendo: “É assim que respondes ao sumo sacerdote?” como se ele tivesse sido desrespeitoso com o tribunal.

(1.) Bateu nele: edoke rhapisma — deu-lhe um golpe. Alguns pensam que isso significa um golpe com vara ou varinha, de rhabdos, ou com o bastão que era insígnia de seu cargo. Então se cumpriu a Escritura (Isaías 50:6): “Ofereci minhas faces”, eis rhapismata — aos golpes — assim diz a Septuaginta; é a palavra usada aqui.

Também Miquéias 5:1: “Ferirão com a vara a face do juiz de Israel”; e o tipo correspondente (Jó 16:10): “Bateram-me na face com desprezo”. Foi injusto golpear alguém que não dissera nem fizera nada de errado; insolente um servo humilde golpear alguém reconhecidamente importante; covarde golpear quem estava com as mãos amarradas; e bárbaro golpear um prisioneiro diante do tribunal.

Foi uma violação da ordem pública diante do próprio tribunal, e ainda assim os juízes a apoiaram. A confusão de rosto era nossa justa porção, mas Cristo a tomou sobre si: “Que a maldição e a vergonha recaiam sobre mim”.

(2.) Repreendeu-o de modo arrogante e autoritário: “É assim que respondes ao sumo sacerdote?” Como se o bendito Jesus não fosse digno de falar com seu senhor, ou não fosse sábio o bastante para saber como se dirigir a ele; como se, prisioneiro rude e ignorante, precisasse ser controlado pelo carcereiro e ensinado a se comportar.

Alguns dos antigos sugerem que esse oficial era Malco, que devia a Cristo a cura da orelha e a preservação da cabeça, mas retribuiu-lhe tão mal. Quem quer que fosse, agiu para agradar ao sumo sacerdote e conquistar seu favor, pois suas palavras expressavam zelo pela dignidade daquele sacerdote.

Governantes perversos nunca ficam sem servos perversos, prontos a agravar o sofrimento daqueles que seus senhores perseguem. Um sucessor desse sumo sacerdote ordenou aos que estavam por perto que esbofeteassem Paulo desse modo (Atos 23:2).

Alguns pensam que esse oficial se considerou ofendido pelo recurso de Cristo aos que o rodeavam acerca de sua doutrina, como se quisesse apresentá-lo como testemunha. Talvez fosse um dos oficiais que haviam falado bem dele (João 7:46) e, para não ser considerado agora um amigo secreto, apresentou-se assim como inimigo ferrenho.

  1. Cristo suportou essa afronta com admirável mansidão e paciência (v. 23): Se falei mal no que acabo de dizer, dê testemunho do mal. Apresente-o ao tribunal e deixe que julguem aqueles a quem cabe julgar; mas, se falei bem e como me convinha, por que você me bate? Ele poderia ter respondido com um milagre de cólera: deixá-lo mudo ou morto, ou fazer secar a mão que se levantara contra ele.

Mas aquele era o dia de sua paciência e sofrimento, e ele respondeu com a mansidão da sabedoria, para nos ensinar a não nos vingarmos, nem retribuirmos insulto com insulto, mas a suportar as injúrias com a inocência da pomba, mesmo quando, com a prudência da serpente, como nosso Salvador, mostramos a injustiça delas e recorremos ao magistrado a respeito delas.

Cristo não ofereceu a outra face nessa ocasião, o que mostra que a regra de Mateus 5:39 não deve ser entendida literalmente. Alguém pode oferecer a outra face e, ainda assim, estar com o coração cheio de malícia. Comparando o preceito de Cristo com seu exemplo, aprendemos (1.) que não devemos ser nossos próprios vingadores nem juízes em causa própria.

É melhor receber do que dar o segundo golpe, que provoca a desavença. Temos permissão para nos defender, mas não para nos vingar; se isso for necessário para preservar a paz pública e conter e intimidar os malfeitores, o magistrado deve ser o vingador (Romanos 13:4).

(2.) Nossa reação às injúrias que sofremos deve ser sempre racional, nunca passional; foi assim a reação de Cristo. Quando sofreu, argumentou, mas não ameaçou. Expôs com justiça suas razões àquele que lhe fizera a injúria; nós também podemos fazer o mesmo.

(3.) Quando formos chamados a sofrer, devemos nos adaptar com paciência aos desconfortos dessa condição. Uma indignidade sofrida deve nos preparar para receber outra e para suportá-la da melhor maneira possível.

VI. Enquanto os servos o maltratavam, Pedro prosseguia negando-o (vv. 25-27). É uma história triste e não foi um dos menores sofrimentos de Cristo.

  1. Pedro repetiu o pecado pela segunda vez (v. 25). Enquanto se aquecia com os servos, como se fosse um deles, perguntaram-lhe: “Não és tu um dos discípulos dele?”

“O que estás fazendo aqui entre nós?” Talvez tenha ouvido que Cristo estava sendo interrogado acerca de seus discípulos e, com medo de ser preso ou ao menos esbofeteado como seu Mestre se o reconhecesse, negou categoricamente e disse: “Não sou”.

(1.) Foi grande insensatez meter-se na tentação, permanecendo na companhia de pessoas que não eram apropriadas para ele e com as quais nada tinha que ver. Ficou ali para se aquecer; mas os que se aquecem junto aos malfeitores esfriam em relação às pessoas e às coisas boas. Os que gostam de ficar junto ao fogo do diabo correm o risco de acabar no fogo do diabo.

Pedro poderia ter ficado junto de seu Mestre no tribunal e se aquecido melhor junto ao fogo do amor dele, que muitas águas não poderiam apagar (Cantares de Salomão 8:6-7).

Ali poderia aquecer-se com zelo por seu Mestre e indignação contra seus perseguidores, mas preferiu aquecer-se com eles, em vez de se inflamar contra eles. Mas como pode alguém — um discípulo — aquecer-se sozinho? (Eclesiastes 4:11).

(2.) Foi grande infelicidade ser novamente assaltado pela tentação; não se podia esperar outra coisa, pois aquele era um lugar e uma hora de tentação. Quando o juiz interrogou Cristo sobre seus discípulos, provavelmente os servos perceberam a deixa e desafiaram Pedro a se declarar um deles: “Responde quando teu nome for chamado”.

Veja aqui [1.] a astúcia do tentador ao derrubar quem já via vacilando e ao reunir forças maiores contra ele: agora não era uma criada, mas todos os servos. Repare: ceder a uma tentação convida outra, talvez mais forte. Satanás redobra os ataques quando recuamos.

[2.] O perigo da má companhia. Em geral, procuramos ser aprovados por aqueles com quem escolhemos conviver; valorizamos a boa opinião deles e queremos estar bem aos olhos deles. Como escolhemos nossas companhias, escolhemos também os elogios que receberemos e nos comportamos de acordo.

Por isso, precisamos fazer bem a primeira escolha e não nos misturar com aqueles a quem não podemos agradar sem desagradar a Deus. (3.) Foi grande fraqueza de Pedro — ou melhor, grande perversidade — ceder à tentação e dizer que não era um dos discípulos de Cristo, como se tivesse vergonha daquilo que era sua honra e medo de sofrer por isso, o que teria sido uma honra ainda maior.

Veja como o medo das pessoas se torna uma armadilha. Quando Cristo era admirado, acolhido com afeto e tratado com respeito, Pedro se agradava e talvez até se orgulhasse de ser discípulo dele, esperando participar das honras dadas ao Mestre.

Assim, muitos que parecem prezar a reputação da religião quando ela está em voga têm vergonha do descrédito que ela traz. Mas devemos aceitá-la nos bons e nos maus momentos.

  1. Pedro repetiu o pecado pela terceira vez (v. 26, 27). Um dos servos, parente de Malco, atacou-o. Ao ouvir Pedro negar que fosse discípulo de Cristo, contradisse-o com muita segurança: “Não te vi com ele no jardim? A orelha de meu parente é testemunha!” Pedro negou novamente, como se não conhecesse Cristo, não conhecesse o jardim, nem soubesse coisa alguma de todo aquele caso.

(1.) Esse terceiro ataque da tentação foi mais direto que os anteriores. Antes, sua ligação com Cristo era apenas suspeita; agora, alguém que o vira com Jesus e o vira desembainhar a espada em sua defesa apresentava provas contra ele. Repare: os que pensam ajudar a si mesmos nas dificuldades por meio do pecado apenas se enredam e se embaraçam ainda mais.

Tenhamos coragem, pois a verdade virá à tona. Talvez uma ave do céu revele aquilo que tentamos esconder com uma mentira. Menciona-se que esse servo era parente de Malco porque essa circunstância tornaria a situação ainda mais aterrorizante para Pedro.

Ele pensa: “Agora estou perdido; acabou para mim. Não é preciso outra testemunha nem acusador”. Se pudermos evitar, não devemos fazer de ninguém nosso inimigo em particular, pois pode chegar o momento em que ele ou algum parente seu nos tenha à mercê. Quem pode vir a precisar de um amigo não deve fazer um inimigo.

Observe, porém: embora houvesse provas suficientes contra Pedro e sua negação desse motivo suficiente para processá-lo, ele escapou; ninguém lhe causou nem tentou causar prejuízo. Repare: muitas vezes somos levados ao pecado por medos infundados e sem causa, para os quais não há ocasião, que um pouco de sabedoria e firmeza bastaria para dissipar.

(2.) Ceder à tentação foi tão vil quanto da primeira vez: ele negou novamente. Veja aqui [1.] a natureza do pecado em geral: o coração se endurece pelo engano do pecado (Hebreus 3:13). Foi espantoso que Pedro chegasse tão depressa a tamanha insolência e sustentasse com tanta segurança uma mentira diante de uma refutação tão clara.

Mas o começo do pecado é como deixar escapar água: uma vez rompida a barreira, as pessoas facilmente passam do mal ao pior. [2.] A natureza específica da mentira: é um pecado que gera outros e, por isso, extremamente pecaminoso. Uma mentira precisa de outra para sustentá-la, e esta, de mais outra.

Uma máxima da política do diabo é Male facta male factis tegere, ne perpluant — encobrir um pecado com outro, para que não se descubra.

Versículos 28 a 40

Cristo no Pretório; Cristo Formalmente Acusado diante de Pilatos.

Temos aqui o relato da acusação formal contra Cristo diante de Pilatos, o governador romano, no pretório — palavra latina em forma grega —, a casa do pretor ou sala do tribunal. Levaram-no para lá às pressas, a fim de obter sua condenação no tribunal romano e sua execução pelo poder romano.

Decididos a matá-lo, escolheram esse caminho: 1. Para que fosse morto de maneira mais legal e regular, de acordo com a constituição vigente de seu governo, pois haviam se tornado uma província do Império. Assim, não seria apedrejado num tumulto popular, como Estêvão, mas executado segundo as formalidades então vigentes da justiça.

Desse modo, foi tratado como malfeitor, sendo feito pecado por nós. 2. Para que fosse morto com mais segurança. Se conseguissem envolver o governo romano no caso, governo que o povo temia, haveria pouco perigo de tumulto.

  1. Para que fosse morto com maior descrédito para si mesmo. A morte na cruz, que os romanos costumavam aplicar, era a mais vergonhosa de todas; queriam, por meio dela, imprimir nele uma marca indelével de infâmia e assim destruir para sempre sua reputação. Por isso insistiam: “Crucifica-o!”

  2. Para que fosse morto com menos descrédito para eles. Era odioso matar alguém que fizera tanto bem no mundo. Por isso, estavam dispostos a lançar a culpa sobre o governo romano, para que este se tornasse menos querido pelo povo e eles se livrassem do descrédito.

Assim, muitos temem mais o escândalo de uma má ação do que o pecado nela envolvido. Veja Atos 5:28. Duas coisas se observam aqui sobre a acusação: (1.) A estratégia e o empenho deles em levá-la adiante: agiram cedo.

Alguns pensam que eram duas ou três da madrugada; outros, cinco ou seis, quando a maioria ainda estava na cama. Assim haveria menos perigo de oposição por parte dos que eram favoráveis a Cristo; ao mesmo tempo, mantinham seus agentes a postos para reunir aqueles que pudessem influenciar a clamar contra ele.

Veja quanto se empenhavam nisso e com que violência o perseguiam. Agora que o tinham nas mãos, não perderiam tempo até vê-lo na cruz; abriram mão do descanso natural para levar o assunto adiante. Veja Miquéias 2:1.

(2.) A superstição e a vil hipocrisia deles. Os principais sacerdotes e os anciãos, embora acompanhassem o prisioneiro para garantir que tudo fosse feito com eficácia, não entraram no pretório, por ser a casa de um gentio incircunciso. Temiam macular-se e, por isso, ficaram do lado de fora, para poder comer a Páscoa.

Não se tratava do cordeiro pascal — comido na noite anterior —, mas da festa da Páscoa, com os sacrifícios oferecidos no décimo quinto dia, o Chagigah, como o chamavam. Eram os novilhos da Páscoa mencionados em Deuteronômio 16:2 e 2 Crônicas 30:24; 35:8-9.

Deveriam comer desses sacrifícios e, por isso, não entrariam no tribunal, com medo de tocar num gentio e contrair uma contaminação não legal, mas apenas tradicional. Tinham escrúpulos quanto a isso, mas nenhum quanto a violar todas as leis da equidade para perseguir Cristo até a morte. Coavam um mosquito e engoliam um camelo.

Vejamos agora o que aconteceu no tribunal. Temos aqui:

I. O colóquio de Pilatos com os acusadores. Eles foram chamados primeiro e expuseram o que tinham a dizer contra o prisioneiro, como era justo (vv. 29-32):

  1. O juiz pede a acusação formal. Como eles não quiseram entrar na sala, Pilatos saiu até o pátio diante da casa para conversar com eles. Considerando Pilatos como magistrado e dando a cada um o que lhe é devido, vemos nele três qualidades dignas de elogio: (1.) Aplicava-se ao trabalho com diligência e atenção.

Se a ocasião fosse boa, seria muito louvável que estivesse disposto a ser chamado cedo ao tribunal. Os que ocupam cargos públicos não devem amar o próprio conforto. (2.) Adaptou-se ao capricho do povo e abriu mão da dignidade de seu cargo para atender aos escrúpulos deles.

Poderia ter dito: “Se são tão delicados que não querem entrar, voltem para casa como vieram”. Pelo mesmo princípio, poderíamos dizer: “Se o reclamante tem escrúpulos em tirar o chapéu diante do magistrado, que sua queixa nem seja ouvida”.

Mas Pilatos não insistiu nisso. Teve consideração por eles e foi ao seu encontro; quando é para o bem, devemos fazer-nos tudo para com todos. (3.) Apegou-se à regra da justiça ao pedir que apresentassem a acusação, pois suspeitava que a perseguição fosse maliciosa: “Que acusação trazeis contra este homem?” Qual é o crime de que vocês o acusam, e que provas têm?

Antes de Valério Publícola transformar este princípio em lei romana, já era uma lei da natureza: Ne quis indicta causa condemnetur — ninguém deve ser condenado sem ser ouvido. Veja Atos 25:16-17. É injusto prender alguém sem indicar uma causa no mandado; muito mais injusto é levar alguém a julgamento sem que haja uma acusação formal contra ele.

  1. Os acusadores exigem que ele seja condenado com base na suspeita geral de que era criminoso, sem alegar — muito menos provar — qualquer coisa específica que merecesse a morte ou a prisão (v. 30): Se ele não fosse malfeitor, ou praticante do mal, não o teríamos entregado a você para ser condenado.

Isso mostra que eram (1.) extremamente duros e desumanos com Pilatos, um grupo de homens mal-humorados que desprezavam as autoridades. Embora Pilatos fosse tão cortês a ponto de sair para conversar com eles, estavam profundamente irritados com ele.

Ele lhes fizera a pergunta mais razoável possível; mesmo que fosse absurda, não poderiam ter respondido com maior desprezo. (2.) Muito rancorosos e maliciosos para com nosso Senhor Jesus: justo ou injusto, queriam que ele fosse considerado malfeitor e tratado como tal.

Devemos presumir que alguém é inocente até que se prove sua culpa; eles, porém, presumiam culpado aquele que poderia provar sua inocência. Não podiam dizer: “É traidor, assassino, criminoso, perturbador da paz”; diziam apenas: “É malfeitor”.

Malfeitor aquele que andava fazendo o bem! Chamem aqueles que ele curou, alimentou e ensinou; aqueles que libertou dos demônios e ressuscitou dentre os mortos; perguntem-lhes se ele é malfeitor. Repare: não é novidade que os maiores benfeitores sejam estigmatizados e tratados como os piores malfeitores.

(3.) Muito orgulhosos e convencidos de si mesmos, de seu julgamento e de sua justiça. Agiam como se entregar um homem com a acusação genérica de malfeitor bastasse para o magistrado civil basear nisso uma sentença judicial. O que poderia ser mais arrogante?

  1. O juiz o devolve ao tribunal deles (v. 31): Tomem-no vocês e julguem-no segundo sua própria lei; não me incomodem com ele. (1.) Alguns pensam que Pilatos lhes fez um agrado, reconhecendo que lhes restava algum poder e permitindo que o exercessem.

Podiam aplicar castigos corporais, como açoites nas sinagogas; não se sabe se podiam aplicar a pena capital. “Mas”, diz Pilatos, “fazei tudo o que vossa lei vos permitir; se fordes além disso, farei vista grossa”. Disse isso para agradar aos judeus, mas não estava disposto a lhes prestar o serviço que pediam.

(2.) Outros pensam que Pilatos zombava deles e os repreendia por seu atual estado de fraqueza e sujeição. Eles queriam ser os únicos juízes da culpa. “Ora”, diz Pilatos, “se é isso que quereis, continuai como começastes: vós o julgastes culpado segundo a vossa lei; condenai-o também segundo ela, se ousardes, e levai adiante esse capricho”.

Nada é mais absurdo, nem merece mais ser exposto, do que pessoas fracas e em posição subalterna pretenderem dar ordens e se vangloriarem de sua sabedoria, quando lhes cabe receber ordens. Alguns pensam que Pilatos também faz aqui uma alusão à lei de Moisés, como se ela permitisse o que a lei romana não permitiria de modo algum: julgar alguém sem ouvi-lo.

“Talvez a vossa lei permita isso, mas a nossa não.” Assim, por causa das corrupções deles, a lei de Deus foi blasfemada; o mesmo acontece também com seu evangelho.

  1. Renunciam a qualquer autoridade como juízes e, como não há alternativa, contentam-se em ser acusadores. Agora se mostram menos insolentes e mais submissos, reconhecendo: “Não nos é permitido matar ninguém, seja qual for a pena menor que possamos aplicar; e este é um malfeitor cujo sangue queremos derramar”.

(1.) Alguns pensam que haviam perdido o poder de julgar questões de vida e morte somente por negligência e por cederem covardemente às iniquidades favoritas daquela época. Assim diz o Dr. Lightfoot: ouk exesti — “Não está em nosso poder sentenciar alguém à morte; se o fizermos, imediatamente teremos a multidão contra nós”.

(2.) Outros pensam que os romanos lhes haviam tirado esse poder, porque não o usaram bem ou porque se considerava confiança grande demais colocá-lo nas mãos de um povo conquistado, mas ainda não subjugado. Reconhecer isso era, para eles, um elogio a Pilatos e uma tentativa de compensar a dureza anterior (v. 30).

Mas essa declaração prova plenamente que o cetro havia se apartado de Judá e, portanto, que o Messias já viera (Gênesis 49:10). Se os judeus não têm poder para matar ninguém, onde está o cetro? Contudo, não perguntam: “Onde está Siló?”

(3.) De todo modo, a providência fez com que não tivessem poder para matar ninguém ou que, naquela ocasião, deixassem de exercê-lo, para que se cumprisse a palavra de Jesus, que indicava a espécie de morte que ele teria (v. 32). Observe:

[1.] Em geral, até aqueles que pretendiam frustrar as palavras de Cristo, sem que essa fosse sua intenção, foram levados pela mão soberana de Deus a servir ao seu cumprimento. Nenhuma palavra de Cristo ficará sem se cumprir; ele nunca pode enganar nem ser enganado.

Até mesmo os principais sacerdotes, ao persegui-lo como impostor, tiveram o espírito dirigido de modo a ajudar a provar que ele era verdadeiro. Poderíamos pensar que, tomando outras medidas, teriam frustrado suas predições. Contudo, não foi essa a intenção deles (Isaías 10:7).

[2.] Em particular, cumpriram-se as palavras que Cristo havia dito acerca de sua própria morte. Duas delas se cumpriram porque os judeus deixaram de julgá-lo segundo sua lei. Primeiro, ele havia dito que seria entregue aos gentios e que eles o matariam (Mateus 20:19; Marcos 10:33; Lucas 18:32-33), e assim se cumpriu essa palavra.

Segundo, havia dito que seria crucificado (Mateus 20:19; 26:2) e levantado (João 3:14; 12:32). Se o tivessem julgado segundo a lei deles, teria sido apedrejado. Em alguns casos, os judeus recorriam à fogueira, ao estrangulamento e à decapitação, mas nunca à crucificação.

Era necessário, portanto, que Cristo fosse morto pelos romanos para que, pendurado num madeiro, se tornasse maldição por nós (Gálatas 3:13) e lhe fossem traspassados as mãos e os pés. Assim como o poder romano fez com que nascesse em Belém, agora o levou a morrer numa cruz; ambas as coisas ocorreram conforme as Escrituras.

Também está determinado a respeito de nós, embora não nos tenha sido revelado, de que morte morreremos; isso deve nos livrar de toda preocupação inquietante quanto a esse assunto: “Senhor, o que, quando e como determinaste”.

II. Temos aqui o colóquio de Pilatos com o prisioneiro (v. 33, etc.). Nela temos:

  1. O prisioneiro levado ao tribunal. Depois de conversar à porta com os principais sacerdotes, Pilatos entrou no pretório e mandou que trouxessem Jesus. Não quis interrogá-lo no meio da multidão, onde o barulho poderia atrapalhá-lo, e ordenou que o levassem para dentro; não teve dificuldade em entrar entre os gentios.

Pelo pecado, tornamo-nos sujeitos ao juízo de Deus e deveríamos comparecer diante de seu tribunal. Portanto, Cristo, feito pecado e maldição por nós, foi acusado como criminoso. Pilatos o levou a julgamento para que Deus não nos levasse a julgamento.

  1. O interrogatório. Os outros evangelistas contam que os acusadores o acusaram de subverter a nação e proibir o pagamento de tributo a César; foi por isso que Pilatos o interrogou.

(1.) Pilatos lhe fez uma pergunta para prendê-lo numa armadilha e encontrar algo em que fundamentar uma acusação: “És tu o rei dos judeus? Ho basileus — aquele rei dos judeus de quem tanto se fala e a quem se espera há tanto tempo; o Príncipe, o Messias? És tu? Pretendes ser esse rei? Chamas a ti mesmo assim e queres que te considerem tal?”

Pilatos estava longe de imaginar que ele realmente fosse o Messias, ou de fazer disso uma questão. Alguns pensam que fez a pergunta com ar de desdém e desprezo: “O quê? És rei, tu que pareces tão insignificante? És o rei dos judeus, povo que tanto te odeia e persegue? És rei de jure — por direito —, enquanto o imperador é apenas rei de facto — de fato?”

Como não podiam provar que Jesus alguma vez o dissera, Pilatos queria obrigá-lo a dizê-lo agora, para que pudesse agir com base na própria confissão dele.

(2.) Cristo respondeu à pergunta com outra, não para fugir dela, mas para levar Pilatos a refletir sobre o que fazia e em que se baseava (v. 34): Você diz isso por si mesmo, por uma suspeita que surgiu em seu próprio coração, ou outros lhe falaram de mim, e só pergunta para agradá-los?

[1.] “É evidente que não tens razão para dizer isso por ti mesmo”. Por seu cargo, Pilatos devia proteger os interesses do governo romano, mas não podia dizer que estivessem ameaçados ou prejudicados por qualquer coisa que nosso Senhor Jesus tivesse dito ou feito.

Jesus nunca apareceu com pompa mundana, nunca assumiu poder temporal nem atuou como juiz ou árbitro. Nunca lhe imputaram princípios ou práticas de traição, nem coisa alguma que pudesse levantar a menor suspeita.

[2.] “Se outros te falaram de mim para te incitar contra mim, deves considerar quem são e quais são seus princípios. Aqueles que me apresentam como inimigo de César não são eles próprios os verdadeiros inimigos? Não usam isso apenas como pretexto para encobrir sua malícia? Se é assim, um juiz que queira fazer justiça deve examinar o caso cuidadosamente”.

Ou melhor, se Pilatos tivesse investigado o assunto com o cuidado devido, teria descoberto que o verdadeiro motivo da fúria dos principais sacerdotes contra Jesus era ele não estabelecer um reino temporal em oposição ao poder romano.

Se tivesse feito isso e realizado milagres para libertar os judeus do jugo romano, como Moisés fizera para libertá-los do jugo egípcio, eles não teriam se aliado aos romanos contra ele; teriam feito dele seu rei e lutado sob seu comando contra os romanos.

Como Jesus não correspondeu a essa expectativa, atribuíram-lhe aquilo de que eles próprios eram notoriamente culpados: desafeição e desígnio contra o governo vigente. Seria justo dar crédito a uma acusação dessas?

(3.) Pilatos se ofende com a resposta de Cristo e a recebe muito mal (v. 35). A pergunta de Pilatos responde diretamente à de Cristo (v. 34). [1.] Cristo lhe perguntara se falava por si mesmo. “Não”, responde Pilatos.

“Sou judeu, por acaso, para suspeitares que estou conspirando contra ti? Nada sei do Messias, nem quero saber; não tomo parte na discussão sobre quem é ou não é o Messias; na discussão sobre quem é ou não é o Messias. Para mim, tanto faz”.

Observe com que desprezo Pilatos pergunta: “Sou judeu?” Por muitos motivos, os judeus eram um povo honrado; mas, tendo corrompido a aliança de seu Deus, ele os tornou desprezíveis e vis diante de todo o povo (Malaquias 2:8-9). Assim, um homem sensato e honrado considerava uma vergonha ser tido por judeu.

É triste que, quando um turco é suspeito de desonestidade, pergunte: “O quê, você me toma por cristão?” Bons nomes muitas vezes sofrem por causa dos homens maus que os carregam. [2.] Cristo lhe perguntara se outros lhe haviam falado dele.

“Sim”, responde Pilatos, “e foram os teus próprios compatriotas, que, ao que se poderia pensar, seriam parciais a teu favor; e também os sacerdotes, cujo testemunho, in verbum sacerdotis — pela palavra de um sacerdote —, deveria ser levado em conta. Portanto, só me resta agir com base no que me informaram”.

Assim, Cristo continua a sofrer em sua religião por causa dos que pertencem à sua própria nação, até mesmo sacerdotes que professam ter relação com ele, mas não vivem de acordo com sua profissão. [3.] Cristo evitara responder à pergunta: “És tu o rei dos judeus?” Por isso, Pilatos lhe faz outra, mais geral: “O que fizeste?”

“Que provocação deste à tua própria nação, especialmente aos sacerdotes, para que se enfureçam tanto contra ti? Certamente não há tanta fumaça sem fogo; o que aconteceu?”

(4.) Na resposta seguinte, Cristo responde de modo mais completo e direto à pergunta anterior de Pilatos — “És rei?” —, explicando em que sentido é rei, mas não um rei que de algum modo ofereça perigo ao governo romano. Não é um rei secular, pois seu reino não se sustenta por métodos seculares (v. 36). Observe:

[1.] Uma descrição da natureza e da constituição do reino de Cristo: Não é deste mundo. A afirmação é negativa para corrigir os equívocos correntes a respeito dele; mas a ideia positiva está implícita: é o reino dos céus e pertence a outro mundo. Cristo é rei e tem um reino, mas não deste mundo.

Primeiro, sua origem não é deste mundo. Os reinos dos homens surgem do mar e da terra (Daniel 7:3; Apocalipse 13:1, 11); mas a cidade santa desce do céu, da parte de Deus (Apocalipse 21:2). Seu reino não vem por sucessão, eleição ou conquista, mas por designação direta e especial da vontade e do conselho divinos.

Segundo, sua natureza não é mundana; é um reino dentro das pessoas (Lucas 17:21), estabelecido em seu coração e em sua consciência (Romanos 14:17). Suas riquezas são espirituais, seus poderes são espirituais e toda a sua glória está no interior. Os ministros de Estado do reino de Cristo não têm o espírito do mundo (1 Coríntios 2:12).

Terceiro, suas defesas e seu sustento não são mundanos; suas armas são espirituais. Não precisava nem usava força secular para se manter e avançar, nem era conduzido de modo prejudicial a reis ou províncias. Não interferia minimamente nas prerrogativas dos príncipes nem na propriedade de seus súditos.

Não tendia a alterar qualquer organização nacional em assuntos seculares, nem se opunha a outro reino além do pecado e de Satanás. Quarto, sua orientação e seu desígnio não são mundanos. Cristo não buscava, nem permitiria que seus discípulos buscassem, o esplendor e o poder dos grandes da terra.

Quinto, seus súditos, embora estejam no mundo, ainda assim não são do mundo. São chamados e escolhidos para fora dele, nascidos de outro mundo e destinados a ele. Não são alunos nem favoritos do mundo; não se deixam governar por sua sabedoria nem se enriquecem com seus bens.

[2.] Apresenta-se uma prova da natureza espiritual do reino de Cristo. Se ele pretendesse se opor ao governo, teria usado as mesmas armas deles e repelido a força com uma força da mesma natureza; mas não foi esse o caminho que tomou: Se meu reino fosse deste mundo, meus servos lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus e meu reino não fosse destruído por eles.

Primeiro, seus seguidores não tentaram lutar. Não houve tumulto nem tentativa de resgatá-lo, embora a cidade estivesse então cheia de galileus, seus amigos e compatriotas, em geral armados. A conduta pacífica de seus discípulos nessa ocasião bastava para silenciar a ignorância dos insensatos.

Segundo, ele não lhes ordenou que lutassem; ou melhor, proibiu-os. Isso demonstrava tanto que não dependia de auxílio terreno — pois poderia ter convocado legiões de anjos a seu serviço, mostrando que seu reino vinha do alto — quanto que não temia a oposição terrena.

Ele estava muito disposto a ser entregue aos judeus, sabendo que aquilo que teria destruído qualquer reino deste mundo seria o avanço e o estabelecimento do seu. Portanto, conclui com razão: Agora vocês podem ver que meu reino não é daqui; está no mundo, mas não é dele.

(5.) Em resposta à pergunta seguinte de Pilatos, Cristo responde ainda mais diretamente (v. 37). Temos aqui [1.] a pergunta clara de Pilatos: “Então tu és rei? Falas de um reino que possuis; és, portanto, rei em algum sentido? Que fundamento tens para reivindicar isso? Explica-te”.

[2.] A boa confissão que nosso Senhor Jesus fez diante de Pôncio Pilatos em resposta a isso (1 Timóteo 6:13): “Tu dizes que eu sou rei”, isto é, É como você diz: sou rei, pois vim para dar testemunho da verdade.

Primeiro, reconhece que é rei, embora não no sentido que Pilatos pretendia. Esperava-se que o Messias viesse com o título de rei, “Messias, o Príncipe”. Por isso, depois de admitir diante de Caifás que era o Cristo, não negaria diante de Pilatos que era rei, para não parecer contradizer a si mesmo.

Repare: embora Cristo tivesse assumido a forma de servo, mesmo então tinha direito de reivindicar a honra e a autoridade de rei. Segundo, explica-se e mostra como é rei: veio dar testemunho da verdade e governa a mente das pessoas pelo poder da verdade.

Se pretendesse se declarar príncipe temporal, teria dito: “Nasci para isto e vim ao mundo para governar as nações, conquistar reis e tomar posse de reinos”. Não; veio como testemunha, em favor do Deus que fez o mundo e contra o pecado que o arruína. Por essa palavra de seu testemunho, estabelece e mantém seu reino.

Foi predito que ele seria testemunha para o povo e, como tal, líder e comandante do povo (Isaías 55:4). O reino de Cristo não era deste mundo, onde a verdade falha (Isaías 59:15: Qui nescit dissimulare, nescit regnare — quem não sabe dissimular não sabe reinar), mas daquele mundo em que a verdade reina eternamente.

A missão de Cristo ao vir ao mundo, e sua obra nele, eram dar testemunho da verdade. 1. Revelá-la: mostrar ao mundo o que, de outro modo, não poderia ser conhecido sobre Deus, sua vontade e sua benevolência para com as pessoas (João 1:18; 17:26). 2. Confirmá-la (Romanos 15:8).

Por seus milagres, testemunhou a verdade da religião, da revelação divina, das perfeições e da providência de Deus, bem como a verdade de sua promessa e aliança, para que todos cressem por meio dele. Ao fazer isso, é rei e estabelece um reino.

(1.) O fundamento, o poder, o espírito e a essência do reino de Cristo são a verdade, a verdade divina. Quando disse: “Eu sou a verdade”, disse, na prática: “Sou rei”. Ele conquista pela força convincente da verdade e governa por seu poder soberano. Em sua majestade, cavalga triunfante por causa da verdade (Salmos 45:4).

Com sua verdade julgará os povos (Salmos 96:13). Ela é o cetro de seu reino. Ele nos atrai com laços humanos, por meio da verdade que nos é revelada e que recebemos com amor; assim, leva nossos pensamentos à obediência. Veio como luz ao mundo e governa como o sol durante o dia.

(2.) Os súditos desse reino são os que pertencem à verdade. Todos os que, pela graça de Deus, são libertos do poder do pai da mentira e estão dispostos a receber a verdade e submeter-se ao seu poder e influência ouvirão a voz de Cristo, tornar-se-ão seus súditos e lhe serão fiéis e leais.

Todo aquele que tem alguma percepção real da verdadeira religião acolherá a religião cristã e pertence ao reino de Cristo; pelo poder da verdade, ele os torna dispostos (Salmos 110:3).

Todos os que amam a verdade ouvirão a voz de Cristo, pois não há verdades maiores, melhores, mais seguras e mais doces do que as encontradas em Cristo, por meio de quem vieram a graça e a verdade. Assim, ao ouvir a voz de Cristo, sabemos que pertencemos à verdade (1 João 3:19).

(6.) Pilatos, então, faz uma boa pergunta a Jesus, mas não espera pela resposta (v. 38). Perguntou: “Que é a verdade?” e logo saiu novamente.

[1.] Certamente era uma boa pergunta, e não poderia ter sido dirigida a alguém mais capaz de respondê-la. A verdade é aquela pérola de grande valor que o entendimento humano deseja e busca; pois não encontra descanso senão naquilo que é, ou ao menos se entende ser, verdade.

Quando examinamos as Escrituras e ouvimos a ministração da palavra, devemos fazê-lo com esta pergunta: “Que é a verdade?”, e com esta oração: “Guia-me na tua verdade, em toda a verdade”. Muitos, porém, fazem essa pergunta sem ter paciência e constância suficientes para perseverar na busca da verdade, ou humildade e sinceridade suficientes para recebê-la quando a encontram (2 Timóteo 3:7).

Muitos agem assim até com a própria consciência: fazem-lhe perguntas necessárias, como “Quem sou eu?” e “O que fiz?”, mas não esperam tempo suficiente pela resposta.

[2.] Não se sabe com que desígnio Pilatos fez essa pergunta. Primeiro, talvez a tenha feito como quem queria aprender, começando a pensar bem de Cristo e a considerá-lo com algum respeito. Talvez desejasse saber que novas ideias ele propunha e que aperfeiçoamentos alegava trazer à religião e ao conhecimento.

Mas, enquanto desejava ouvir dele alguma nova verdade, como Herodes desejava ver algum milagre, o clamor e a agitação da turba dos sacerdotes diante de sua porta o obrigaram a interromper bruscamente a conversa.

Segundo, alguns pensam que fez a pergunta como juiz, investigando melhor o caso que lhe fora apresentado: “Deixa-me compreender este mistério e diz-me qual é a verdade do caso, qual é a situação real”.

Terceiro, outros pensam que a fez como zombador, em tom de escárnio: “Falas de verdade; podes dizer-me o que é a verdade ou dar-me uma definição dela?” Assim, zombava do evangelho eterno, aquela grande verdade que os principais sacerdotes odiavam e perseguiam e pela qual Cristo agora testemunhava e sofria.

Como os homens sem religião, que gostam de debochar de todas as religiões, ele ridicularizou ambos os lados. Por isso, Cristo não lhe respondeu. “Não respondas ao insensato segundo a sua insensatez”; não lancem pérolas aos porcos. Mas, embora Cristo não tenha dito a Pilatos o que é a verdade, disse-o a seus discípulos e, por meio deles, a nós (João 14:6).

III. O resultado dos dois colóquios, com os acusadores e com o prisioneiro (vv. 38-40), aparece em dois fatos:

  1. O juiz se mostrou amigo de Cristo e favorável a ele, pois:

(1.) declarou publicamente sua inocência (v. 38): “Não encontro nele culpa alguma”. Considerando o caso por inteiro, supõe que talvez houvesse entre Cristo e os acusadores alguma divergência religiosa, na qual Jesus pudesse estar tão certo quanto eles; mas nada de criminoso aparecia contra ele.

Essa declaração solene da inocência de Cristo serviu [1.] para justificá-lo e honrá-lo. Mostrou que, embora fosse tratado como o pior dos malfeitores, nunca merecera tal tratamento. [2.] Para explicar o desígnio e a intenção de sua morte: ele não morreu por nenhum pecado próprio, segundo o próprio julgamento do juiz; morreu, portanto, como sacrifício pelos nossos pecados.

E isso também estava de acordo com o julgamento dos próprios acusadores: convinha que um homem morresse pelo povo (João 11:50). Ele “não cometeu violência, nem houve engano na sua boca” (Isaías 53:9); devia ser eliminado, “mas não por si mesmo” (Daniel 9:26).

[3.] Essa declaração agravou o pecado dos judeus, que o perseguiam com tanta violência. Se um prisioneiro teve um julgamento justo e foi absolvido por aqueles que são os juízes apropriados do crime, sobretudo quando não há razão para suspeitar que sejam parciais a seu favor, deve ser considerado inocente, e seus acusadores devem aceitar a decisão.

Mas nosso Senhor Jesus, embora declarado inocente, continuou sendo tratado como malfeitor, e eles continuaram sedentos por seu sangue.

(2.) Pilatos propôs uma maneira de soltá-lo (v. 39): Vocês têm o costume de que eu lhes solte um prisioneiro na Páscoa; será este rei dos judeus? Não propôs isso aos principais sacerdotes, pois sabia que nunca concordariam, mas à multidão; foi um recurso ao povo, como se vê em Mateus 27:15.

Provavelmente ouvira que, poucos dias antes, o povo comum recebera Jesus com gritos de “Hosana”. Por isso, considerou-o favorito da multidão e alvo da inveja apenas dos governantes. Não duvidava de que pediriam a libertação de Jesus; isso silenciaria os acusadores e tudo terminaria bem.

[1.] Pilatos consente no costume deles, que talvez se apoiasse numa prática antiga em honra à Páscoa, memorial de sua libertação. Mas isso era acrescentar às palavras de Deus, como se ele não tivesse instituído o suficiente para comemorar devidamente aquela libertação. Ainda que fosse um ato de misericórdia, poderia ser injusto para com a comunidade (Provérbios 17:15).

[2.] Oferece libertar Jesus, segundo o costume. Se Pilatos tivesse a honestidade e a coragem próprias de um juiz, não teria indicado um inocente para concorrer a esse favor com um criminoso notório; se não encontrava culpa nele, tinha o dever de consciência de soltá-lo. Mas quis conciliar os lados e agradar a todos, guiando-se mais pela sabedoria mundana do que pelas regras da justiça.

  1. O povo se mostrou inimigo de Cristo e implacável contra ele (v. 40): todos clamaram repetidas vezes: Não este homem; não o solte, mas Barrabás. Observe (1.) como eram ferozes e violentos. Pilatos lhes propôs a questão com calma, como algo que merecia consideração cuidadosa, mas eles decidiram no calor do momento e manifestaram sua decisão aos gritos, em meio ao maior tumulto e confusão.

Repare: os inimigos da santa religião de Cristo gritam contra ela e esperam, assim, destruí-la. Veja o clamor em Éfeso (Atos 19:34). Os que pensam pior de coisas ou pessoas apenas porque são alvo de tais clamores demonstram pouquíssima firmeza e reflexão.

Ou melhor, há motivo para suspeitar que faltem razão e justiça àqueles que recorrem ao tumulto popular. (2.) Como eram tolos e absurdos, conforme se indica no breve relato do outro candidato: “Ora, Barrabás era ladrão”. Portanto, [1.] violava a lei de Deus; ainda assim, seria poupado em vez daquele que censurava o orgulho, a avareza e a tirania dos sacerdotes e anciãos.

Barrabás podia ser ladrão, mas não lhes roubaria a cadeira de Moisés nem suas tradições; então, não havia problema. [2.] Era inimigo da segurança pública e da propriedade particular. Em geral, a cidade clamava contra os ladrões (Jó 30:5: “Gritavam atrás deles como atrás de um ladrão”), mas agora clamava a favor de um.

Assim agem os que preferem seus pecados a Cristo. O pecado é ladrão, e todo desejo vil é ladrão; ainda assim, escolhem-no tolamente em vez de Cristo, que na verdade nos enriqueceria.


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