João 15
Argumento
É geralmente aceito que o discurso de Cristo neste capítulo e no seguinte ocorreu ao fim da última ceia, na noite em que foi traído. Trata-se de um discurso contínuo, não interrompido como o do capítulo anterior, e o tema escolhido é muito apropriado à triste ocasião de um sermão de despedida.
Agora que estava prestes a deixá-los, I. Eles seriam tentados a deixá-lo e voltar novamente a Moisés; por isso, ele lhes diz quão necessário era que se apegassem a ele pela fé e permanecessem nele. II. Eles seriam tentados a se tornar estranhos uns aos outros; por isso, insiste que se amem e mantenham, depois de sua partida, a comunhão que até então lhes servira de consolo.
III. Eles seriam tentados a recuar de seu apostolado quando enfrentassem agruras; por isso, ele os preparou para suportar o impacto da hostilidade do mundo. Quatro palavras resumem o discurso deste capítulo: 1. Fruto, vv. 1-8. 2. Amor, vv. 9-17. 3. Ódio, vv. 18-25. 4. O Consolador, v. 26, 27.
Versículos 1 a 8
Cristo, a Verdadeira Videira.
Aqui Cristo fala sobre o fruto, os frutos do Espírito que seus discípulos deveriam produzir, usando a figura de uma videira. Observe aqui:
I. A doutrina ensinada por essa figura e o entendimento que devemos ter dela:
- Que Jesus Cristo é a videira, a videira verdadeira. É uma demonstração da humildade de Cristo ele ter por bem falar de si mesmo por meio de comparações humildes e simples. Aquele que é o Sol da justiça e a brilhante Estrela da manhã compara-se a uma videira.
A igreja, que é Cristo místico, é uma videira (Salmos 80:8); Cristo também é uma videira, pois é a igreja em semente. Assim Cristo e sua igreja são apresentados. (1.) Ele é a videira plantada na vinha, e não uma planta que surgiu espontaneamente; foi plantada na terra, pois ele é o Verbo feito carne.
A videira tem uma aparência pouco atraente e nada promissora; Cristo não tinha aparência nem formosura (Isaías 53:2). A videira é uma planta que se espalha, e Cristo será conhecido como salvação até os confins da terra. O fruto da videira honra a Deus e alegra o homem (Juízes 9:13); assim também o fruto da mediação de Cristo, que vale mais que o ouro (Provérbios 8:19).
(2.) Ele é a videira verdadeira, pois a verdade se opõe à alegação e à falsificação. Ele é realmente uma planta frutífera, uma planta de renome. Não é como a videira brava que enganou os que colheram dela (2 Reis 4:39), mas uma videira verdadeira.
Diz-se que as árvores infrutíferas mentem (Habacuque 3:17, nota à margem), mas Cristo é uma videira que não engana. Toda excelência encontrada em alguma criatura e útil ao homem é apenas uma sombra da graça que há em Cristo para o bem de seu povo.
Ele é a videira verdadeira prefigurada pela videira de Judá, que o enriqueceu com o sangue das uvas (Gênesis 49:11); pela videira de José, cujos ramos passaram por cima do muro (Gênesis 49:22); e pela videira de Israel, sob a qual ele habitava em segurança (1 Reis 4:25).
- Que os que creem são ramos dessa videira, o que pressupõe que Cristo é a raiz. A raiz não se vê, e nossa vida está oculta com Cristo. A raiz sustenta a árvore (Romanos 11:18), espalha a seiva por ela e é essencial para seu vigor e sua frutificação. Em Cristo estão todo o sustento e toda a provisão.
Os ramos da videira são muitos: alguns ficam de um lado da casa ou do muro, outros do outro lado. Contudo, como se encontram na raiz, todos formam uma só videira. Assim, todos os bons cristãos, embora distantes uns dos outros no lugar e na opinião, encontram-se em Cristo, o centro de sua unidade.
Os que creem, como os ramos da videira, são fracos e incapazes de permanecer firmes por si mesmos; precisam ser sustentados. Veja Ezequiel 15:2.
- Que o Pai é o lavrador, georgos — aquele que trabalha a terra. Embora a terra seja do Senhor, ela não lhe dá fruto se ele não a cultivar. Deus não apenas tem direito à videira e a todos os ramos, mas também cuida deles.
Ele a plantou e regou, e dá o crescimento, pois somos lavoura de Deus (1 Coríntios 3:9). Veja Isaías 5:1, 2; 27:2, 3. Ele cuidou de Cristo, a raiz, sustentou-o e o fez florescer de uma terra seca.
Ele cuida de todos os ramos, poda-os e vigia sobre eles para que nada lhes faça mal. Nunca houve lavrador tão sábio e vigilante com sua vinha como Deus é com sua igreja; por isso, ela certamente prosperará.
II. O dever ensinado por essa figura é dar fruto e, para isso, permanecer em Cristo:
- Devemos dar fruto. Esperamos uvas de uma videira (Isaías 5:2) e vida cristã de um cristão. Esse fruto é o temperamento e a disposição cristãos, uma vida e uma conduta cristãs, devoções e desígnios cristãos.
Devemos honrar a Deus, fazer o bem e demonstrar a pureza e o poder da religião que professamos; isso é dar fruto. Os discípulos deveriam dar fruto como cristãos, em toda espécie de fruto de justiça, e como apóstolos, espalhando o bom perfume do conhecimento de Cristo. Para persuadi-los, ele apresenta:
(1.) A condenação dos que não dão fruto (v. 2): eles são cortados. [1.] Aqui se indica que muitos são considerados ramos em Cristo sem, contudo, dar fruto. Se estivessem realmente unidos a Cristo pela fé, dariam fruto; mas, ligados a ele apenas pelo fio de uma profissão exterior, embora pareçam ramos, logo se mostrarão secos.
Os que professam a fé sem dar fruto são infiéis: professam, e nada mais. Também se poderia ler: “Todo ramo que não dá fruto em mim”; o sentido é quase o mesmo, pois os que não dão fruto em Cristo, em seu Espírito e em sua graça, é como se não dessem fruto algum (Oseias 10:1).
[2.] Aqui se ameaça que eles serão cortados, em justiça para com eles e por bondade para com os demais ramos. Daquele que não tem união real com Cristo nem o fruto que dela procede será tirado até mesmo o que parecia ter (Lucas 8:18). Alguns pensam que isso se refere primeiro a Judas.
(2.) A promessa feita aos que dão fruto: ele os poda para que deem mais fruto. Repare: [1.] Dar ainda mais fruto é a bendita recompensa da prontidão em dar fruto. A primeira bênção foi: “Frutificai”; e continua sendo uma grande bênção.
[2.] Até os ramos frutíferos precisam ser limpos ou podados para dar ainda mais fruto. Kathairei — ele tira o que é supérfluo e exuberante, o que impede o crescimento e a frutificação. Os melhores ainda têm em si algo que é defeituoso, aliquid amputandum — algo que deve ser removido.
Há ideias, paixões ou disposições que precisam ser purificadas; Cristo prometeu removê-las por sua palavra, seu Espírito e sua providência. Isso será eliminado aos poucos, no tempo apropriado.
[3.] A poda dos ramos frutíferos, para que deem mais fruto, é o cuidado e a obra do grande lavrador, para sua própria glória.
(3.) Os benefícios que os que creem recebem pela doutrina de Cristo e cuja eficácia devem procurar demonstrar em uma conduta frutífera: “Agora estais limpos” (v. 3). [1.] O convívio deles estava limpo, agora que Judas fora expulso por aquela palavra de Cristo: “O que fazes, faze-o depressa”. Enquanto não se livrassem dele, não estavam todos limpos.
A palavra de Cristo é uma palavra que distingue e separa o precioso do vil; no grande dia da separação, purificará a igreja dos primogênitos. [2.] Cada um deles estava limpo, isto é, santificado pela verdade de Cristo (João 17:17); a fé pela qual receberam a palavra de Cristo purificou seu coração (Atos 15:9).
Por meio da palavra, o Espírito da graça os refinou, tirando a escória do mundo e da carne, e removeu deles o fermento dos escribas e fariseus. Ao ver a fúria arraigada e a inimizade deles contra o Mestre, os discípulos já estavam bastante limpos desse fermento.
Apliquemos isso a todos os que creem. A palavra de Cristo lhes é dirigida e tem poder de limpeza: ao operar a graça, também elimina a corrupção. Ela limpa como o fogo limpa o ouro de sua escória e como o remédio limpa o corpo de sua doença.
Demonstramos que fomos limpos pela palavra quando damos fruto para a santidade. Talvez haja aqui uma alusão à lei sobre as vinhas em Canaã: o fruto delas era considerado impuro e incircunciso nos três primeiros anos após o plantio; no quarto ano, seria consagrado em louvor ao Senhor. Então estaria puro (Levítico 19:23, 24).
Os discípulos haviam passado três anos sob a instrução de Cristo; agora, “estais limpos”.
(4.) A glória que nossa frutificação dará a Deus, e o consolo e a honra que ela nos trará (v. 8). Se dermos muito fruto, [1.] nosso Pai será glorificado nisso. A frutificação dos apóstolos, no exercício diligente de seu ofício, glorificaria a Deus pela conversão de pessoas e por oferecê-las a ele (Romanos 15:9, 16).
A frutificação de todos os cristãos, em uma esfera menor ou mais limitada, também glorifica a Deus. Por causa das boas obras notáveis dos cristãos, muitos são levados a glorificar nosso Pai que está nos céus.
[2.] Assim seremos de fato discípulos de Cristo, mostrando que o somos e que somos de fato aquilo que dizemos ser. Assim demonstraremos nosso discipulado e o honraremos; seremos para nosso Mestre um nome, um louvor e uma glória, ou seja, discípulos de fato (Jeremias 13:11).
Assim nosso Mestre nos reconhecerá no grande dia, e receberemos a recompensa dos discípulos: uma parte na alegria de nosso Senhor. E quanto mais fruto dermos, abundando no que é bom, mais ele será glorificado.
- Para dar fruto, precisamos permanecer em Cristo, manter pela fé nossa união com ele e fazer tudo na vida religiosa pela força dessa união. Aqui temos:
(1.) O dever ordenado (v. 4): “Permanecei em mim, e eu em vós.” Repare: o grande interesse de todos os discípulos de Cristo é manter continuamente sua dependência de Cristo e a comunhão com ele, apegar-se a ele de modo habitual e receber dele o sustento na prática.
Os que vieram a Cristo precisam permanecer nele: permaneçam em mim pela fé, e eu em vocês pelo meu Espírito; permaneçam em mim, e não temam que eu não permanecerei em vocês. A comunhão entre Cristo e os que creem nunca falha do lado dele.
Devemos permanecer na palavra de Cristo, dando atenção a ela, e ela deve permanecer em nós como luz para os nossos pés. Devemos permanecer no mérito de Cristo como nossa justiça e apelo, e ele deve permanecer em nós como sustento e consolo.
O nó do ramo permanece na videira, e a seiva da videira permanece no ramo; assim há entre os dois uma comunicação contínua.
(2.) A necessidade de permanecer em Cristo para dar fruto (v. 4, 5): Vocês não podem dar fruto se não permanecerem em Cristo; mas, se o fizerem, darão muito fruto; pois, em suma, sem Cristo, ou separados dele, vocês não podem fazer nada.
Como dar fruto é tão necessário para nosso consolo e nossa felicidade, a melhor razão para nos levar a permanecer em Cristo é que, de outro modo, não poderemos dar fruto. [1.] Permanecer em Cristo é necessário para fazer muito bem.
Quem é constante no exercício da fé em Cristo e do amor por ele, vive de suas promessas e é guiado por seu Espírito, dá muito fruto. É muito útil para a glória de Deus e para seu próprio acerto de contas no grande dia. Repare: a união com Cristo é um princípio nobre, do qual procede todo bem.
Uma vida de fé no Filho de Deus é, incomparavelmente, a vida mais excelente que alguém pode viver neste mundo. É equilibrada e estável, pura e celestial, útil e consoladora, e cumpre todo o propósito da vida.
[2.] Permanecer em Cristo é necessário para fazer qualquer bem. Não é apenas um meio de cultivar e aumentar o bem que já existe em nós; é também a raiz e a fonte de todo bem: “Sem mim nada podeis fazer”: não apenas nenhuma grande coisa — curar enfermos ou ressuscitar mortos —, mas nada.
Repare: nossa dependência da graça do Mediador para todas as ações da vida espiritual e divina é tão necessária e constante quanto nossa dependência da providência do Criador para todas as ações da vida natural. Em ambos os casos, é pelo poder divino que vivemos, nos movemos e existimos.
Sem o mérito de Cristo, nada podemos fazer para nossa justificação; sem o Espírito de Cristo, nada podemos fazer para nossa santificação. Sem Cristo, nada podemos fazer corretamente, nada que seja fruto agradável a Deus ou proveitoso para nós (2 Coríntios 3:5).
Dependemos de Cristo não apenas como a videira depende do muro para se sustentar, mas, como o ramo depende da raiz, para receber a seiva.
(3.) As consequências fatais de abandonar Cristo (v. 6): “Se alguém não permanecer em mim, é lançado fora como um ramo.” Essa é a descrição do estado terrível dos hipócritas que não estão em Cristo e dos apóstatas que não permanecem nele.
[1.] Eles são lançados fora como ramos secos e murchos, arrancados porque atrapalham a árvore. É justo que não recebam benefício de Cristo aqueles que pensam não precisar dele, e que os que o rejeitam sejam rejeitados por ele.
Os que não permanecem em Cristo serão abandonados por ele: deixados à própria sorte, cairão em pecados escandalosos e, então, serão justamente excluídos da comunhão dos fiéis.
[2.] Eles murcham, como um ramo quebrado da árvore. Os que não permanecem em Cristo talvez floresçam por algum tempo em uma profissão plausível, ou ao menos aceitável, mas em pouco tempo murcham e desaparecem.
Suas capacidades e seus dons murcham; seu zelo e sua devoção murcham; seu crédito e sua reputação murcham; suas esperanças e seus consolos murcham (Jó 8:11-13). Repare: os que não dão fruto acabarão sem folhas.
Como seca depressa a figueira que Cristo amaldiçoou! [3.] Os homens os recolhem. Os agentes e emissários de Satanás os apanham e fazem deles presa fácil.
Os que se afastam de Cristo imediatamente se juntam aos pecadores; quando as ovelhas se desviam do aprisco de Cristo, o diabo está pronto para tomá-las para si. Quando o Espírito do Senhor se retirou de Saul, um espírito maligno se apoderou dele.
[4.] Eles os lançam no fogo; isto é, eles são lançados no fogo. Os que os seduzem e os levam ao pecado, na prática, os lançam ali, pois fazem deles filhos do inferno.
O fogo é o lugar mais apropriado para os ramos murchos, pois não servem para mais nada (Ezequiel 15:2-4). [5.] Eles são queimados. Isso é consequência natural, mas aqui se acrescenta com muita ênfase e torna a ameaça terrível.
Não serão consumidos em um instante, como os espinhos debaixo de uma panela (Eclesiastes 7:6), mas kaietai — estão ardendo para sempre em um fogo que não apenas não pode ser apagado, como nunca se extinguirá.
Isso acontece por abandonarem Cristo; esse é o fim das árvores estéreis. Os apóstatas são duas vezes mortos (Judas 1:12); quando se diz que são lançados no fogo e queimados, é como se fossem condenados duas vezes.
Alguns entendem que os homens que os recolhem representam o ministério dos anjos no grande dia, quando recolherão do reino de Cristo tudo o que causa escândalo e juntarão o joio em feixes para o fogo.
(4.) O privilégio bendito dos que permanecem em Cristo (v. 7): se as palavras de Cristo permanecerem neles, pedirão ao Pai, em seu nome, o que quiserem, e lhes será concedido. Veja aqui: [1.] Como nossa união com Cristo é mantida: pela palavra.
“Se permanecerdes em mim”, dissera ele antes, “e eu em vós”; aqui explica: “e as minhas palavras permanecerem em vós”. Pois é na palavra que Cristo nos é apresentado e oferecido (Romanos 10:6-8).
É na palavra que o recebemos e o acolhemos; assim, onde a palavra de Cristo habita ricamente, Cristo também habita. Se a palavra for nosso guia e conselheiro constante, se estiver em nós como em sua própria casa, então permaneceremos em Cristo, e ele em nós.
[2.] Como nossa comunhão com Cristo é mantida: pela oração. “Pedireis o que quiserdes, e vos será feito.” O que poderíamos desejar além de receber o que pedirmos? Repare: os que permanecem em Cristo, que é o deleite de seu coração, terão por meio dele o que seu coração deseja.
Se temos Cristo, nada de bom nos faltará. Essa promessa implica duas coisas. Primeiro, se permanecermos em Cristo, e sua palavra em nós, não pediremos nada que não seja apropriado que nos seja concedido.
As promessas que permanecem em nós estão prontas para se transformar em orações; e orações assim orientadas certamente serão atendidas. Segundo, se permanecermos em Cristo e em sua palavra, teremos tanto favor diante de Deus e contaremos tanto com a mediação de Cristo que todas as nossas orações receberão uma resposta de paz.
Versículos 9 a 17
O Amor de Cristo por Seus Discípulos.
Cristo, que é o próprio amor, fala aqui de um amor em quatro aspectos.
I. O amor do Pai por ele. A esse respeito, Cristo nos diz aqui: 1. Que o Pai o amava (v. 9): “Como o Pai me amou.” Amava-o como Mediador: “Este é o meu Filho amado.” Ele era o Filho do seu amor. O Pai o amava e entregou todas as coisas em suas mãos; contudo, amou o mundo a ponto de entregá-lo por todos nós.
Ao entrar em seus sofrimentos, Cristo se consolava com o fato de que seu Pai o amava. Aqueles a quem Deus ama como Pai podem desprezar o ódio do mundo inteiro. 2. Que ele permanecia no amor do Pai (v. 10). Amava continuamente o Pai e era amado por ele.
Mesmo quando foi feito pecado e maldição por nós, e quando o Senhor teve por bem esmagá-lo, ainda assim permaneceu no amor do Pai. Veja Salmos 89:33. Porque continuou amando o Pai, atravessou de bom ânimo os sofrimentos; e, por isso, o Pai continuou a amá-lo.
- Que permanecia no amor do Pai porque guardava a lei do Pai: “Tenho guardado os mandamentos de meu Pai”, como Mediador, “e permaneço no seu amor”. Ao prosseguir e levar sua missão até o fim, mostrou que continuava amando o Pai; por isso, o Pai continuou a amá-lo.
A alma do Pai se deleitava nele, porque Cristo não falhou nem desanimou (Isaías 42:1-4). Nós, ao quebrarmos a lei da criação, nos excluímos do amor de Deus. Cristo satisfez por nós ao obedecer à lei da redenção; assim, permaneceu nesse amor e nos reconduziu a ele.
II. O próprio amor de Cristo por seus discípulos. Embora os deixe, ele os ama. Observe aqui:
- O modelo desse amor: “Assim como o Pai me amou, também eu vos amei.” Que expressão extraordinária da graça condescendente de Cristo! Como o Pai amou a ele, que era digníssimo, Cristo amou os discípulos, que eram indigníssimos. O Pai amou Cristo como seu Filho, e Cristo os ama como seus filhos.
O Pai entregou todas as coisas em suas mãos; assim, Cristo nos dá gratuitamente todas as coisas juntamente consigo. O Pai o amou como Mediador, cabeça da igreja e grande depositário da graça e do favor divinos, que não recebera apenas para si, mas em benefício daqueles em favor de quem lhe foram confiados.
E ele diz: “Fui um depositário fiel. Assim como o Pai confiou seu amor a mim, eu o transmito a vocês.” Portanto, o Pai se agradou dele para que pudesse agradar-se de nós nele; e o amou para que, nele, o Amado, nos tornasse aceitos (Efésios 1:6).
- As provas e os frutos desse amor são quatro:
(1.) Cristo amou seus discípulos, pois deu a vida por eles (v. 13): ninguém tem maior prova de amor a mostrar do que dar a vida por seu amigo. Foi com esse amor que Cristo nos amou: ele é nosso antipsychos, quem presta fiança em nosso lugar, corpo por corpo, vida por vida, embora conhecesse nossa insolvência e previsse quanto lhe custaria assumir esse compromisso. Observe aqui:
[1.] O alcance do amor entre os seres humanos. Sua maior prova é dar a vida por um amigo para salvar a vida dele. Talvez tenha havido feitos heroicos de amor desse tipo, maiores até do que arrancar os próprios olhos (Gálatas 4:15).
Se uma pessoa dará tudo o que tem pela própria vida, quem entrega a vida por um amigo entrega tudo e não pode dar mais. Às vezes, esse pode ser nosso dever (1 João 3:16). Paulo aspirava a essa honra (Filipenses 2:17), e por um homem bom alguns até ousam morrer (Romanos 5:7). É o amor em seu grau mais elevado, forte como a morte.
[2.] A excelência do amor de Cristo acima de todos os outros amores. Ele não apenas igualou, mas superou os exemplos mais ilustres de amor. Outros deram a vida, aceitando que lhes fosse tirada; Cristo, porém, entregou a sua. Não foi apenas passivo: fez disso um ato e uma decisão seus.
A vida que outros deram tinha valor igual, e talvez inferior, àquela pela qual foi entregue; Cristo, porém, vale infinitamente mais do que dez mil de nós. Outros deram assim a vida por seus amigos; Cristo deu a sua por nós quando éramos inimigos (Romanos 5:8, 10).
Plusquam ferrea aut lapidea corda esse oportet, quæ non emolliet tam incomparabilis divini amoris suavitas: os corações que não se abrandam diante de tão incomparável doçura do amor divino devem ser mais duros que ferro ou pedra. — Calvino.
(2.) Cristo amou seus discípulos, pois os acolheu numa aliança de amizade consigo (v. 14, 15): “Se, por sua obediência, vocês demonstrarem que são de fato meus discípulos, são meus amigos e serão tratados como amigos.” Repare: os seguidores de Cristo são seus amigos, e ele bondosamente se agrada de chamá-los e considerá-los assim.
Aqueles que cumprem o dever de seus servos são admitidos e elevados à dignidade de seus amigos. Davi tinha em sua corte um servo, e Salomão outro, que de modo especial eram amigos do rei (2 Samuel 15:37; 1 Reis 4:5). Mas todos os servos de Cristo recebem essa honra.
Podemos, numa situação particular, prestar amizade a um desconhecido. Mas abraçamos todos os interesses de um amigo e nos importamos com todas as suas preocupações: é assim que Cristo considera os crentes seus amigos.
Ele os visita e tem comunhão com eles como amigos; suporta-os e os vê pelo melhor lado; aflige-se em suas aflições e alegra-se com sua prosperidade. Ele intercede por eles no céu e ali cuida de todos os seus interesses.
Os amigos têm uma só alma? “Aquele que se une ao Senhor é um só espírito” (1 Coríntios 6:17). Embora muitas vezes se mostrem pouco amigos, Cristo é um amigo que ama em todo tempo. Observe quão afetuosamente isso é expresso aqui:
[1.] Ele não os chamará de servos, embora eles o chamem de Mestre e Senhor. Aqueles que desejam imitar a humildade de Cristo não devem ter orgulho de insistir, a toda ocasião, em sua autoridade e superioridade. Devem lembrar-se de que seus servos são também seus conservos.
Mas [2.] ele os chamará de amigos. Não apenas os amará, mas os deixará saber disso, pois em sua língua está a lei da bondade. Depois de ressuscitar, parece falar dos discípulos e com eles com mais terna afeição do que antes: “Vai a meus irmãos” (João 20:17); “Filhos, tendes algum alimento?” (João 21:5).
Observe, porém, que, embora Cristo os chamasse de amigos, eles se chamavam de servos dele: Pedro, servo de Cristo (2 Pedro 1:1), e também Tiago (Tiago 1:1). Quanto mais honra Cristo nos concede, mais devemos procurar honrá-lo; quanto mais elevados a seus olhos, mais humildes aos nossos.
(3.) Cristo amou seus discípulos, pois lhes comunicou seus pensamentos com grande liberdade (v. 15): “Daqui em diante, vocês não serão mantidos tão no escuro quanto antes, como servos a quem só se informa a tarefa presente. Quando o Espírito for derramado, vocês conhecerão, como amigos, os desígnios de seu Mestre. Tudo o que ouvi de meu Pai lhes declarei.”
Quanto à vontade secreta de Deus, há muitas coisas que devemos nos contentar em desconhecer. Quanto à vontade revelada, porém, Jesus Cristo nos transmitiu fielmente o que recebeu do Pai (João 1:18; Mateus 11:27).
Cristo declarou aos discípulos as grandes coisas referentes à redenção humana para que as anunciassem a outros. Eram os homens de seu conselho (Mateus 13:11).
(4.) Cristo amou seus discípulos, pois os escolheu e designou para serem os principais instrumentos de sua glória e honra no mundo (v. 16): “Eu vos escolhi e vos designei.” Seu amor por eles se manifestou:
[1.] Na escolha deles, na escolha deles para o apostolado (João 6:70): Eu escolhi vocês doze. A iniciativa não partiu deles: não foram eles que escolheram Cristo; foi ele quem os escolheu primeiro.
Por que foram admitidos a tamanha intimidade com ele, empregados como seus embaixadores e revestidos de tamanho poder do alto? Não foi por sua sabedoria e bondade em escolher Cristo como Mestre, mas pelo favor e graça de Cristo em escolhê-los como discípulos.
Convém que o próprio Cristo escolha seus ministros. Ele ainda o faz por sua providência e por seu Espírito. Embora os ministros escolham para si essa santa vocação, a escolha de Cristo precede a deles, orienta-a e a determina.
De todos os escolhidos para a graça e a glória, pode-se dizer: não escolheram a Cristo, mas ele os escolheu (Deuteronômio 7:7, 8).
[2.] Na designação deles: “Eu vos designei”, hetheka hymas: “Coloquei-os no ministério” (1 Timóteo 1:12), “dei-lhes uma incumbência”. Ao coroar-lhes a cabeça com tal honra e encher-lhes as mãos com tamanha responsabilidade, Cristo mostrou que os considerava seus amigos.
Depositou neles enorme confiança ao fazê-los embaixadores para tratar dos assuntos de seu reino neste mundo inferior e principais ministros de Estado em sua administração. O tesouro do evangelho lhes foi confiado. Primeiro, para que fosse propagado: “Para que vocês vão”, hina hymeis hypagete: “Para que vão como quem carrega um jugo ou um fardo.”
Pois o ministério é um trabalho, e aqueles que o empreendem precisam estar dispostos a suportar muito. “Para que percorram o mundo de lugar em lugar e deem fruto.” Foram designados não para ficar parados, mas para ir por toda parte, ser diligentes em seu trabalho e dedicar-se incansavelmente a fazer o bem.
Foram designados não para esmurrar o ar, mas para ser instrumentos nas mãos de Deus, levando nações à obediência a Cristo (Romanos 1:13). Repare: aqueles a quem Cristo designa devem dar fruto e o darão; devem trabalhar e não trabalharão em vão.
Segundo, para que o evangelho fosse perpetuado: “Para que o fruto de vocês permaneça”, para que o bom efeito de seus trabalhos continuasse no mundo de geração em geração, até o fim dos tempos.
A igreja de Cristo não seria algo de vida curta, como tantas seitas de filósofos que foram novidade por nove dias. Ela não surgiu numa noite nem pereceria numa noite; duraria como os dias do céu.
Os sermões e escritos dos apóstolos foram transmitidos a nós e, ainda hoje, somos edificados sobre esse fundamento. Desde que a igreja cristã foi fundada pelo ministério dos apóstolos e dos setenta discípulos, uma geração de ministros e cristãos partiu, mas outra sempre chegou.
Em virtude daquela grande carta (Mateus 28:19), Cristo tem uma igreja no mundo que, como dizem nossos juristas a respeito das corporações, não morre, mas vive pela sucessão. Assim, o fruto deles permanece até hoje e permanecerá enquanto durar a terra.
[3.] Seu amor por eles se manifestou no acesso que tinham ao trono da graça: tudo o que vocês pedirem a meu Pai em meu nome, ele lhes dará. Provavelmente, isso se refere em primeiro lugar ao poder de realizar milagres com o qual os apóstolos foram revestidos, poder que deveria ser obtido pela oração.
“Quaisquer dons necessários ao progresso de seu trabalho e qualquer auxílio do céu de que precisem em algum momento, basta pedir e receberão.” Três coisas são sugeridas aqui para nosso ânimo na oração, e são muito animadoras.
Primeiro, temos a quem recorrer: Deus é Pai. Cristo o chama aqui de Pai, tanto dele quanto nosso; e o Espírito, pela palavra e em nosso coração, ensina-nos a clamar: “Aba, Pai.”
Segundo, chegamos em bom nome. Seja qual for o assunto que levemos ao trono da graça, conforme a vontade de Deus, podemos, com humilde ousadia, invocar o nome de Cristo e apelar para nossa ligação com ele e seu cuidado por nós.
Terceiro, foi-nos prometida uma resposta de paz: aquilo que formos pedir nos será dado. Essa grande promessa ligada a esse grande dever mantém uma comunicação consoladora e proveitosa entre o céu e a terra.
III. O amor dos discípulos por Cristo, ordenado em vista do grande amor com que ele os amou. Ele os exorta a três coisas:
- Permanecer no seu amor (v. 9): “Permaneçam no amor de vocês por mim e no meu amor por vocês.” Ambos os sentidos são possíveis. Devemos encontrar nossa felicidade na permanência do amor de Cristo por nós e nos empenhar em dar provas contínuas do nosso amor por ele.
Não devemos deixar que nada nos tente a afastar-nos dele ou o provoque a afastar-se de nós. Repare: todos os que amam a Cristo devem permanecer nesse amor, isto é, amá-lo sempre, aproveitar todas as ocasiões para demonstrá-lo e amá-lo até o fim.
Os discípulos sairiam para servir a Cristo e encontrariam muitos problemas. Mas Cristo diz: “Permaneçam no meu amor. Mantenham o amor de vocês por mim, e todos os problemas que enfrentarem serão leves; o amor tornou leves para Jacó sete anos de trabalho árduo. Não deixem que as aflições sofridas por minha causa apaguem esse amor; antes, permitam que o avivem.”
- Deixar que a alegria dele permaneça neles e os encha (v. 11). Era esse o desígnio dos preceitos e das promessas que lhes dera.
(1.) Que sua alegria permanecesse neles. No original, as palavras estão dispostas de modo a permitir duas leituras: [1.] Que minha alegria por vocês permaneça. Se derem muito fruto e permanecerem em seu amor, Cristo continuará alegrando-se com eles como antes.
Repare: os discípulos frutíferos e fiéis são a alegria do Senhor Jesus; ele descansa no amor que lhes tem (Sofonias 3:17). Assim como há no céu um arrebatamento de alegria pela conversão dos pecadores, há uma alegria permanente pela perseverança dos santos.
Ou: [2.] Que minha alegria, isto é, a alegria de vocês em mim, permaneça. É vontade de Cristo que seus discípulos se alegrem nele sempre e continuamente (Filipenses 4:4). A alegria do hipócrita dura apenas um instante, mas a dos que permanecem no amor de Cristo é uma festa contínua.
A palavra do Senhor permanece para sempre, e o mesmo acontece com a alegria que procede dela e nela se fundamenta.
(2.) Que a alegria de vocês seja completa. Não apenas que estejam cheios de alegria, mas que sua alegria em Cristo e no amor dele cresça cada vez mais, até chegar à perfeição, quando entrarem na alegria do seu Senhor. Repare:
[1.] Somente aqueles em quem permanece a alegria de Cristo têm alegria completa. As alegrias do mundo são vazias: logo causam enfado, mas nunca satisfazem. Só a alegria da sabedoria encherá a alma (Salmos 36:8).
[2.] O desígnio de Cristo em sua palavra é tornar completa a alegria de seu povo. Veja 1 João 1:4. Ele disse estas coisas e outras para que nossa alegria se torne cada vez mais plena e, por fim, perfeita.
- Demonstrar seu amor por Cristo guardando seus mandamentos: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor” (v. 10). “Isso provará a fidelidade e a constância do amor de vocês por mim; então, poderão ter certeza de que meu amor por vocês continuará.” Observe aqui:
(1.) A promessa: “Permanecereis no meu amor” como numa morada, sentindo-se em casa no amor de Cristo; como num lugar de descanso, vivendo à vontade nele; como numa fortaleza, seguros nele. “Permanecereis no meu amor”: terão graça e força para perseverar em amar-me.
Se a mesma mão que primeiro derramou em nosso coração o amor de Cristo não nos conservasse nesse amor, não permaneceríamos nele por muito tempo. Por amor ao mundo, deixaríamos de amar o próprio Cristo.
(2.) A condição da promessa: “Se guardardes os meus mandamentos.” Os discípulos deveriam guardá-los não apenas pela constante conformidade de sua própria vida a eles, mas também por transmiti-los fielmente a outros.
Deveriam guardá-los como depositários em cujas mãos fora confiado aquele grande depositum, pois cabia-lhes ensinar tudo o que Cristo ordenara (Mateus 28:20). Deviam guardar esse mandamento sem mácula (1 Timóteo 6:14) e, assim, demonstrar que permaneciam em seu amor.
Para levá-los a guardar seus mandamentos, Cristo apresenta: [1.] Seu próprio exemplo: “Assim como eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor.” Cristo se submeteu à lei da mediação e assim preservou sua honra e seu consolo.
Com isso, ensina-nos a nos submeter às leis do Mediador, pois, de outro modo, não podemos preservar a honra e o consolo de nossa relação com ele. [2.] A necessidade da obediência para terem parte nele (v. 14): vocês são meus amigos, se fizerem tudo o que lhes ordeno, e não de outro modo. Repare:
Primeiro, só serão considerados amigos fiéis de Cristo os que se mostrarem seus servos obedientes. Aqueles que se recusarem a tê-lo como rei serão tratados como inimigos. Idem velle et idem nolle ea demum vera est amicitia: a amizade envolve uma comunhão de aversões e afeições. — Salústio.
Segundo, só a obediência universal a Cristo é aceitável: obedecer-lhe em tudo o que nos ordena, sem excluir mandamento algum e, muito menos, sem levantar objeções contra qualquer um deles.
IV. O amor dos discípulos uns pelos outros, ordenado como prova de seu amor por Cristo e como resposta agradecida ao amor dele por eles. Devemos guardar seus mandamentos; e este é seu mandamento: que nos amemos uns aos outros (v. 12; novamente no v. 17).
Nenhum dever da religião é recomendado com mais frequência nem defendido com mais emoção pelo nosso Senhor Jesus do que o amor mútuo, e com boa razão. 1. O exemplo de Cristo o recomenda aqui (v. 12): “Como eu vos amei.”
O amor de Cristo por nós deve orientar e motivar nosso amor uns pelos outros. Assim e por esse motivo, devemos nos amar: do mesmo modo que Cristo nos amou e porque ele nos amou. Cristo menciona aqui algumas demonstrações de seu amor pelos discípulos: chamou-os de amigos, revelou-lhes seus pensamentos e estava pronto a conceder-lhes o que pedissem. Vão e façam o mesmo.
- Seu preceito o exige. Cristo emprega sua autoridade e o tornou uma das leis de seu reino. Observe como ele o expressa de maneiras diferentes nestes dois versículos, ambas muito enfáticas:
(1.) “Este é o meu mandamento” (v. 12), como se fosse o mais necessário de todos. Sob a lei, a proibição da idolatria foi o mandamento em que mais se insistiu, prevendo-se a inclinação do povo a esse pecado. Do mesmo modo, Cristo, prevendo a inclinação da igreja cristã à falta de amor, deu maior ênfase a este preceito.
(2.) “Estas coisas vos mando” (v. 17). Ele fala como se estivesse prestes a lhes confiar muitas ordens, mas nomeia apenas esta: “Que vos ameis uns aos outros.” Isso se deve não só ao fato de que esse mandamento inclui muitos deveres, mas também ao fato de que ele exercerá boa influência sobre todos eles.
Versículos 18 a 25
O Ódio e a Perseguição Anunciados.
Aqui Cristo fala do ódio, que é o caráter e a índole do reino do diabo, assim como o amor é o caráter e a índole do reino de Cristo. Observe aqui:
I. Em quem se encontra esse ódio: no mundo, nos filhos deste mundo, em contraste com os filhos de Deus; nos que defendem os interesses do deus deste mundo, trazem a sua imagem e estão sujeitos ao seu poder.
São todos os que, judeus ou gentios, não quiseram entrar na igreja de Cristo, à qual ele chamou em voz audível e que ele separa visivelmente deste mundo maligno. Chamá-los de mundo indica:
O número deles: havia um mundo de pessoas que se opunha a Cristo e ao cristianismo. Senhor, como se multiplicaram os que perturbam o Filho de Davi! Temo que, se submetêssemos a votação a escolha entre Cristo e Satanás, Satanás teria muito mais votos que nós.
A confederação e a combinação deles: essas multidões se juntam e são como uma só (Salmos 83:5). Judeus e gentios, que não conseguiam concordar em mais nada, concordaram em perseguir o ministro de Cristo.
O espírito e a disposição deles: são homens deste mundo (Salmos 17:13, 14), inteiramente dedicados a este mundo e às coisas dele, sem jamais pensar em outro mundo.
O povo de Deus é ensinado a odiar os pecados dos pecadores, não as próprias pessoas; ainda assim, é ensinado a amar e fazer o bem a todos. Um espírito malicioso, rancoroso e invejoso não é o espírito de Cristo, mas o do mundo.
II. Contra quem se dirige esse ódio: contra os discípulos de Cristo, contra o próprio Cristo e contra o Pai.
- O mundo odeia os discípulos de Cristo: “O mundo vos odeia” (v. 19); Cristo fala disso como algo que eles deviam esperar e levar em conta (v. 18), como em 1 João 3:13.
(1.) Observe como isso aparece aqui: [1.] Cristo havia demonstrado grande bondade para com eles, tratando-os como amigos; mas, para que não ficassem orgulhosos disso, foi-lhes dado, como a Paulo, um espinho na carne, isto é, como ali se explica, descrédito e perseguições por causa de Cristo (2 Coríntios 12:7, 10).
[2.] Cristo lhes havia designado uma obra, mas lhes diz que dificuldades encontrariam nela, para que não fossem surpreendidos e pudessem se preparar. [3.] Ele lhes havia ordenado que se amassem; e tinham motivos de sobra para isso, pois o mundo os odiaria.
Deveriam ser bondosos uns com os outros, pois receberiam muita falta de bondade e hostilidade dos que estavam de fora. “Conservem a paz entre vocês, e isso os fortalecerá contra as desavenças do mundo.” Os que estão no meio de inimigos precisam manter-se unidos.
(2.) Observe o que está incluído aqui:
[1.] A inimizade do mundo contra os seguidores de Cristo: ele os odeia. Repare: a quem Cristo abençoa, o mundo amaldiçoa. Os favoritos e herdeiros do céu nunca foram os queridos deste mundo, desde que se estabeleceu a antiga inimizade entre a descendência da mulher e a da serpente.
Por que Caim odiava Abel, senão porque suas obras eram justas? Esaú odiava Jacó por causa da bênção; os irmãos de José o odiavam porque seu pai o amava; Saul odiava Davi porque o Senhor era com ele; Acabe odiava Micaías por causa de suas profecias. Essas são as causas sem causa do ódio do mundo.
[2.] Dois frutos dessa inimizade aparecem aqui (v. 20). Primeiro, eles perseguirão vocês porque os odeiam, pois o ódio é uma paixão inquieta. É o destino comum dos que querem “viver piedosamente em Cristo Jesus” sofrer perseguição (2 Timóteo 3:12).
Cristo previu o mau tratamento que seus embaixadores receberiam no mundo. Ainda assim, por causa dos poucos que seriam chamados para fora do mundo por meio de seu ministério, enviou-os como ovelhas no meio de lobos.
Segundo, outro fruto de sua inimizade está implícito: eles rejeitariam a doutrina dos discípulos. Quando Cristo diz que, se guardaram as palavras dele, também guardarão as deles, quer dizer que não guardarão nem levarão em conta as palavras dos discípulos mais do que levaram em conta e guardaram as dele.
Repare: os pregadores do evangelho não podem deixar de considerar o desprezo por sua mensagem a maior injúria que lhes pode ser feita. Foi uma grande afronta a Jeremias dizer: “Não demos atenção a nenhuma de suas palavras” (Jeremias 18:18).
[3.] As causas dessa inimizade. O mundo os odiará:
Primeiro, porque não pertencem ao mundo (v. 19): se fossem do mundo, tivessem o espírito dele e defendessem os seus interesses, fossem carnais e mundanos, o mundo os amaria como propriedade sua; mas, como foram chamados para fora do mundo, ele os odeia e sempre os odiará.
Repare: 1. Não devemos nos admirar de que o mundo trate com carinho, como amigos, os que se dedicam a ele; a maioria dos homens abençoa os avarentos (Salmos 10:3; 49:18). 2. Tampouco devemos nos admirar de que o mundo difame como inimigos os que foram libertos dele.
Quando Israel é resgatado do Egito, os egípcios os perseguem. Observe: os discípulos de Cristo não são do mundo, não porque tenham se distinguido dele por sua própria sabedoria e virtude, mas porque Cristo os escolheu do mundo para separá-los para si.
Esse é o motivo pelo qual o mundo os odeia: (1.) A glória para a qual foram destinados por causa dessa escolha os coloca acima do mundo e, assim, faz deles objetos de inveja. Os santos julgarão o mundo, e os retos terão domínio; por isso, são odiados.
(2.) A graça que receberam por causa dessa escolha os coloca contra o mundo. Eles nadam contra a corrente do mundo e não se conformam a ele; dão testemunho contra ele e não se conformam a ele. Saber que eram odiados por serem a escolha e os escolhidos do Senhor Jesus e não pertencerem ao mundo os sustentaria em todas as calamidades causadas pelo ódio do mundo.
[1.] Isso não era motivo justo para o mundo odiá-los. Se fazemos algo para nos tornar odiosos, temos motivo para lamentar; mas, se as pessoas nos odeiam por aquilo pelo qual deveriam nos amar e estimar, devemos ter pena delas, não nos afligir.
Ou melhor, [2.] isso era motivo justo para que os discípulos se alegrassem. Quem é odiado por ser rico e prosperar não se importa com quem fica contrariado com isso, desde que desfrute dessa satisfação.
Populus me sibilat, at mihi plaudo Ipse domi
— Que continuem a vaiar, diz ele, Enquanto, em minha própria opinião, sou plenamente feliz.
Timon, em Horácio.
Muito mais podem se dar por felizes os que o mundo odeia, mas a quem Cristo ama.
Segundo, outra causa pela qual o mundo os odiaria seria o fato de pertencerem a Cristo (v. 21): “Por causa do meu nome.” Aqui está o cerne da controvérsia. Seja o que for alegado, esse é o motivo da desavença: odeiam os discípulos de Cristo porque levam o nome dele e o sustentam no mundo.
Repare: 1. A característica dos discípulos de Cristo é defender o nome dele. O nome em que foram batizados é aquele pelo qual viverão e morrerão. 2. É comum que os que se apresentam em defesa do nome de Cristo sofram por isso: muitas coisas e coisas árduas, todas essas coisas.
É motivo de consolo para os que mais sofrem saber que sofrem por causa do nome de Cristo. “Se sois insultados pelo nome de Cristo, bem-aventurados sois” (1 Pedro 4:14). De fato, vocês são bem-aventurados, considerando não apenas a honra impressa nesses sofrimentos (Atos 5:41), mas também o consolo que lhes é infundido e, sobretudo, a coroa de glória a que eles conduzem.
Se sofrermos com Cristo e por Cristo, reinaremos com ele.
Terceiro, apesar de tudo, a verdadeira causa da inimizade do mundo contra os discípulos de Cristo é a ignorância do próprio mundo (v. 21): “Porque não conhecem aquele que me enviou.”
Eles não conhecem a Deus. Se as pessoas conhecessem devidamente os primeiros princípios da religião natural e se ao menos conhecessem a Deus, ainda que não aceitassem o cristianismo, não poderiam odiá-lo nem persegui-lo. Não têm conhecimento os que devoram o povo de Deus (Salmos 14:4).
Eles não conhecem a Deus como aquele que enviou nosso Senhor Jesus e o autorizou a ser o grande Mediador da paz. Não conhecemos Deus corretamente se não o conhecemos em Cristo; os que perseguem os que ele envia mostram não saber que Jesus foi enviado por Deus. Veja 1 Coríntios 2:8.
O mundo odeia o próprio Cristo. Isso é mencionado aqui com dois propósitos:
(1.) Para amenizar a perturbação de seus seguidores, causada pelo ódio do mundo, e torná-la menos estranha e menos dolorosa (v. 18): “Sabeis que me odiou antes de vós”, proton hymon. Lemos isso como prioridade de tempo: ele começou a beber do cálice amargo do sofrimento e depois nos deixou beber do mesmo cálice em resposta a ele.
Mas pode ser lido como expressão de sua superioridade sobre eles: Vocês sabem que ele me odiou, a mim, seu primeiro, seu chefe e capitão, seu líder e comandante. [1.] Se Cristo, que se destacava em bondade, era perfeitamente inocente e fazia o bem a todos, foi odiado, podemos esperar que alguma virtude ou mérito nosso nos proteja da malícia?
[2.] Se nosso Mestre, o fundador de nossa religião, encontrou tanta oposição ao plantá-la, seus servos e seguidores não podem esperar outra coisa ao propagá-la e professá-la. Para isso, remete-os (v. 20) à sua própria palavra, quando os admitiu ao discipulado: “Lembrai-vos da palavra que vos disse”.
Comparar as palavras posteriores de Cristo com as anteriores nos ajudaria a entendê-las. Tampouco algo contribuiria mais para nos deixar tranquilos do que lembrar as palavras de Cristo, que explicarão suas providências. Nessa palavra há agora, primeiro, uma verdade clara: “O servo não é maior que seu Senhor”.
Ele lhes dissera isso (Mateus 10:24). Cristo é nosso Senhor; por isso, devemos acompanhar diligentemente todos os seus movimentos e aceitar com paciência tudo o que dispõe, pois o servo é inferior a seu senhor.
As verdades mais claras às vezes são as razões mais fortes para os deveres mais árduos. Eliú responde a muitas murmurações de Jó com esta única verdade evidente por si mesma: “Deus é maior que o homem” (Jó 33:12). Assim, há aqui, em segundo lugar, uma conclusão apropriada extraída dela:
Se me perseguiram, como vocês viram e provavelmente verão muito mais, também perseguirão vocês; podem esperar isso e contar com isso. Pois: 1. Vocês farão o mesmo que fiz para provocá-los; vão censurá-los por seus pecados, chamá-los ao arrependimento e dar-lhes regras estritas de vida santa, que eles não suportarão.
- Vocês não podem fazer mais do que fiz para favorecê-los; depois de tão grande exemplo, ninguém se espante se sofrer o mal por fazer o bem.
Ele acrescenta: Se guardaram minhas palavras, guardarão também as de vocês; assim como houve poucos, e somente poucos, sobre os quais minha pregação agiu, assim haverá poucos, e somente poucos, pela pregação de vocês.
Alguns dão outro sentido a isso, entendendo que eteresan foi usado por pareteresan. Se ficaram à espreita de minhas palavras, com o desígnio de me enredar, da mesma maneira ficarão à espreita para enredar vocês em sua conversa.
(2.) Para agravar a perversidade desse mundo incrédulo e expor quanto ela é pecaminosa. Odiar e perseguir os apóstolos já era bastante mau, mas, neles, odiar e perseguir o próprio Cristo era muito pior.
O mundo geralmente tem má reputação na Escritura, e nada pode lhe dar reputação pior do que isto: odiou Jesus Cristo. Há um mundo de pessoas que odeiam Cristo. Ele insiste em duas coisas para agravar a perversidade dos que o odiavam:
[1.] Que havia o maior motivo imaginável para que o amassem. As boas palavras e boas obras dos homens costumam recomendá-los. Quanto a Cristo, primeiro, suas palavras eram tais que mereciam o amor deles (v. 22):
Se eu não lhes tivesse falado, para conquistar seu amor, não teriam pecado; sua oposição não teria chegado a ser ódio a mim, seu pecado, comparativamente, não teria sido pecado. Mas agora que lhes falei tanto para me recomendar às suas melhores afeições, não têm alegação nem desculpa para seu pecado. Observe aqui:
- A vantagem daqueles que desfrutam do evangelho: nele Cristo vem e lhes fala. Falou pessoalmente aos homens daquela geração e continua falando a nós por nossas Bíblias e ministros, como alguém que tem a autoridade mais indiscutível sobre nós e afeição por nós.
Cada palavra sua é pura, traz consigo uma majestade que impõe respeito e, ainda assim, uma ternura que se inclina aos outros, capaz, poderíamos pensar, de encantar a víbora mais surda.
- A desculpa daqueles que não desfrutam do evangelho: Se eu não lhes tivesse falado, se nunca tivessem ouvido falar de Cristo e da salvação por ele, não teriam pecado. (1.) Não esse tipo de pecado. Não poderiam ser acusados de desprezar Cristo se ele não tivesse vindo e lhes oferecido sua graça.
Assim como não se imputa pecado onde não há lei, não se imputa incredulidade onde não há evangelho. Onde ela é imputada, é, nesse sentido, o único pecado que condena: sendo um pecado contra o remédio, outros pecados não condenariam se a culpa deles não fosse atada a este.
(2.) Não esse grau de pecado. Se não tivessem tido o evangelho entre eles, seus outros pecados não teriam sido tão maus; pois Deus fez vista grossa aos tempos de ignorância (Lucas 12:47, 48).
- A culpa agravada sob a qual estão aqueles a quem Cristo veio e falou em vão, a quem chamou e convidou em vão, com quem argumentou e a quem apelou em vão. “Não têm capa para o seu pecado”; são inteiramente indesculpáveis e, no dia do juízo, ficarão sem fala, sem uma palavra para dizer em sua defesa. Repare:
Quanto mais claras e plenas são as revelações que nos são feitas da graça e da verdade de Jesus Cristo, quanto mais nos é dito para nos convencer e conquistar nosso afeto, maior é nosso pecado se não o amamos nem cremos nele. A palavra de Cristo tira do pecado sua capa, para que se mostre pecado.
Segundo, suas obras, assim como suas palavras, eram tais que mereciam o amor deles (v. 24): Se eu não tivesse feito entre eles, em seu país e diante de seus olhos, obras como nenhum outro homem jamais fez, não teriam pecado.
Sua incredulidade e inimizade teriam desculpa, e poderiam ter alguma aparência de razão para dizer que minha palavra não devia ser acreditada, se não fosse confirmada de outro modo. Mas ele apresentou provas satisfatórias de sua missão divina, obras que nenhum outro homem fez. Repare:
Assim como o Criador demonstra seu poder e sua divindade por suas obras (Romanos 1:20), assim também faz o Redentor. Seus milagres, suas misericórdias, obras de maravilha e obras de graça, provam que foi enviado por Deus, enviado numa missão bondosa.
As obras de Cristo eram tais que nenhum homem jamais fez. Nenhuma pessoa comum, sem uma comissão do céu e Deus com ela, poderia realizar milagres (João 3:2). E nenhum profeta jamais realizou milagres como esses, tão numerosos, tão ilustres.
Moisés e Elias realizaram milagres como servos, por um poder recebido; Cristo, porém, como um Filho, por seu próprio poder. O que espantou o povo foi isto: ele ordenava com autoridade às doenças e aos demônios (Marcos 1:27); reconheceram que nunca tinham visto algo semelhante (Marcos 2:12).
Todas eram boas obras, obras de misericórdia. E isso parece ser especialmente o que se pretende aqui, pois ele os repreende pelo fato de o odiarem. Alguém que era útil a todos, mais que qualquer outro homem jamais fora, deveria, poderíamos pensar, ser amado por todos; contudo, até ele é odiado.
- As obras de Cristo aumentam a culpa da incredulidade dos pecadores e de sua inimizade contra ele até o último grau de perversidade e absurdo. Se tivessem apenas ouvido suas palavras, sem ver suas obras — se só tivéssemos seus sermões registrados, sem seus milagres —, a incredulidade poderia ter apelado à falta de provas; agora, porém, não tem desculpa.
Ou melhor: tanto a rejeição de Cristo por eles quanto por nós tem em si o pecado não só de incredulidade obstinada, mas de ingratidão vil. Viram que Cristo era muito amável e se empenhava em lhes demonstrar bondade; contudo, o odiaram e se empenharam em lhe causar dano. E vemos em sua palavra aquele grande amor com que nos amou, mas não somos movidos por ele.
[2.] Que não havia motivo algum para que o odiassem. Alguns, numa ocasião, dizem e fazem o que os recomenda, mas, noutra, dizem e fazem o que provoca e demonstra falta de bondade. Nosso Senhor Jesus, porém, não apenas fez muito para merecer a estima e a boa vontade dos homens, mas nunca fez algo que justamente provocasse seu desagrado.
Ele apela a isso citando uma passagem da Escritura (v. 25): Isso acontece, esse ódio injustificado a mim e a meus discípulos por minha causa, para que se cumprisse a palavra escrita em sua lei — isto é, no Antigo Testamento, que é uma lei e foi recebido por eles como lei —: “Odiaram-me sem causa”.
Davi diz isso de si mesmo como tipo de Cristo (Salmos 35:19; 69:4). Repare: primeiro, os que odeiam Cristo o odeiam sem causa justa alguma; a inimizade contra Cristo é uma inimizade injustificada.
Julgamos dignos de ódio os arrogantes e teimosos, mas Cristo é manso e humilde, compassivo e terno; também os que, sob a aparência de gentileza, são maliciosos, invejosos e vingativos. Mas Cristo se dedicou ao serviço dos que se valiam dele, sim, e ainda, dos que o maltratavam; trabalhou pelo descanso dos outros e se empobreceu para nos enriquecer.
Julgamos odiosos os que prejudicam reis e províncias e perturbam a paz pública; mas Cristo, pelo contrário, foi a maior bênção imaginável para seu país e, ainda assim, foi odiado. De fato, testemunhou que as obras deles eram más, com o desígnio de torná-los bons; mas odiá-lo por esse motivo era odiá-lo sem causa.
Segundo, nisso a Escritura se cumpriu, e o antítipo correspondeu ao tipo. Saul e seus cortesãos odiaram Davi sem causa, pois ele fora útil a Saul com sua harpa e sua espada. Absalão e seu partido o odiaram, embora para Absalão ele tivesse sido um pai indulgente e para os demais um grande benfeitor.
Assim o Filho de Davi foi odiado e caçado da maneira mais injusta. Os que odiavam Cristo não tinham o desígnio de cumprir a Escritura ao fazê-lo; mas Deus, ao tolerar isso, tinha esse cumprimento em vista. Confirma nossa fé em Cristo como Messias que até isso tenha sido predito a seu respeito e, tendo sido predito, se tenha cumprido nele.
E não devemos achar estranho nem árduo que isso tenha um cumprimento ulterior em nós. Tendemos a justificar nossas queixas das injúrias que nos são feitas com o fato de não terem causa; contudo, quanto mais é assim, mais elas se parecem com os sofrimentos de Cristo e mais facilmente podem ser suportadas.
- Em Cristo, o mundo odeia o próprio Deus. Isso é dito duas vezes aqui (v. 23): Quem me odeia, embora pense que seu ódio não vai mais longe, na realidade odeia também meu Pai. E novamente, no v. 24: “Viram e odiaram tanto a mim quanto a meu Pai”. Repare:
(1.) Há os que odeiam Deus, apesar da beleza de sua natureza e da generosidade de sua providência. Enfurecem-se com sua justiça, como os demônios que nela creem e tremem; irritam-se com seu domínio e de bom grado despedaçariam suas amarras. Os que não conseguem negar que há um Deus, mas desejam que não houvesse, o veem e o odeiam.
(2.) O ódio a Cristo será interpretado e julgado como ódio a Deus, pois, em sua pessoa, ele é a imagem expressa de seu Pai e, em seu ofício, seu grande agente e embaixador. Deus quer que todos honrem o Filho como honram o Pai; por isso, o acolhimento que o Filho recebe é o que o Pai recebe.
Daí é fácil concluir que os inimigos da religião cristã, por mais que exaltem a religião natural, são realmente inimigos de toda religião. Os deístas são, na prática, ateus; e os que ridicularizam a luz do evangelho, se pudessem, apagariam até a luz natural e se livrariam de todas as obrigações da consciência e do temor de Deus.
Que um mundo incrédulo e maligno saiba que sua inimizade contra o evangelho de Cristo será considerada no grande dia uma inimizade contra o próprio Deus bendito; e que todos os que sofrem por causa da justiça, segundo a vontade de Deus, tirem consolo disso.
Se o próprio Deus é odiado neles e atacado por meio dele, não precisam nem se envergonhar de sua causa nem temer o desfecho.
Versículos 26 a 27
O Consolador Anunciado.
Cristo acabara de falar da grande oposição que seu evangelho provavelmente enfrentaria no mundo e das agruras impostas a seus pregadores. Para que ninguém temesse que eles e o evangelho fossem vencidos por essa torrente violenta, ele mostra aqui a todos os que desejam o bem de sua causa e de seus interesses como se providenciou um apoio eficaz para ela.
Esse apoio viria tanto do testemunho principal do Espírito (v. 26) quanto do testemunho subordinado dos apóstolos (v. 27). Testemunhos são o apoio próprio da verdade.
I. Promete-se aqui que o bendito Espírito defenderá a causa de Cristo no mundo, apesar da oposição que encontrará. Quando foi vituperado, Cristo confiou ao Pai sua causa injustiçada e nada perdeu por ter ficado em silêncio. Pois o Consolador veio, defendeu-a com poder e a levou à vitória.
Cristo afirma que, quando vier o Consolador, ou Advogado, que procede do Pai e que ele enviará para suprir a falta de sua presença física, o Espírito dará testemunho dele contra os que o odeiam sem motivo. Este versículo nos diz mais sobre o Espírito Santo do que qualquer outro versículo da Bíblia.
E, uma vez que somos batizados em seu nome, importa que o conheçamos até onde ele nos é revelado.
- Aqui temos uma descrição de sua essência, ou melhor, de sua subsistência. Ele é o Espírito da verdade, que procede do Pai. Aqui, (1.) fala-se dele como pessoa distinta, não como qualidade ou atributo, mas como pessoa sob o nome próprio de Espírito e o título próprio de Espírito da verdade, título adequado quando ele é apresentado como testemunha.
(2.) Ele é apresentado como pessoa divina, que procede do Pai por emanações que existem desde os tempos antigos, desde a eternidade. O espírito, ou sopro, do homem, chamado sopro de vida, procede do homem. Quando modulado, esse sopro comunica seu pensamento; quando intensificado, às vezes ele emprega sua força para apagar aquilo que quer extinguir e avivar aquilo que deseja estimular.
Assim, o bendito Espírito é a emanação da luz divina e a energia do poder divino. Os raios do sol, pelos quais ele distribui e difunde sua luz, seu calor e sua influência, procedem do sol e, ainda assim, são um com ele.
O Credo Niceno diz que o Espírito procede do Pai e do Filho, pois é chamado Espírito do Filho (Gálatas 4:6). E aqui se diz que o Filho o envia. A igreja grega preferiu dizer: do Pai pelo Filho.
- Quanto à sua missão: (1.) Ele virá com derramamento mais abundante de seus dons, graças e poderes do que jamais ocorrera. Cristo fora por muito tempo ho erchomenos, aquele que devia vir; agora o bendito Espírito o é.
(2.) “Eu o enviarei a vocês da parte do Pai.” Cristo dissera em João 14:16 que rogaria ao Pai e este lhes enviaria o Consolador, o que indica que o Espírito é fruto da intercessão de Cristo no interior do véu. Aqui ele diz: “Eu o enviarei”, o que indica que o Espírito é fruto do seu domínio no interior do véu. O Espírito foi enviado:
[1.] Por Cristo como Mediador, agora elevado às alturas para dar dons aos homens e revestido de todo o poder. [2.] Da parte do Pai: “Não apenas do céu, a casa de meu Pai” (o Espírito foi dado com um som vindo do céu, Atos 2:2), “mas conforme a vontade e a designação de meu Pai, com a cooperação de seu poder e de sua autoridade.”
[3.] Aos apóstolos, para instruí-los na pregação, capacitá-los para a obra e sustentá-los em seus sofrimentos. Foi dado a eles e a seus sucessores, tanto no cristianismo quanto no ministério; a eles, a seus filhos e aos filhos de seus filhos, conforme a promessa de Isaías 59:21.
- Quanto ao seu ofício e às suas operações, que são duas: (1.) Uma está implícita no título que recebe: ele é o Consolador, ou Advogado. Advogado de Cristo, para defender sua causa contra a incredulidade do mundo; Consolador dos santos, diante do ódio do mundo.
(2.) A outra é expressa: “Ele dará testemunho de mim.” Não é apenas advogado, mas também testemunha de Jesus Cristo. É um dos três que dão testemunho no céu e o primeiro dos três que testemunham na terra (1 João 5:7, 8).
Ele instruiu os apóstolos e os capacitou a realizar milagres. Inspirou a redação das Escrituras, testemunhas permanentes que dão testemunho de Cristo (João 5:39). O poder do ministério vem do Espírito, pois ele qualifica os ministros; e também o poder do cristianismo, pois ele santifica os cristãos. Em ambos, dá testemunho de Cristo.
II. Promete-se aqui que também os apóstolos, com o auxílio do Espírito, teriam a honra de ser testemunhas de Cristo (v. 27): eles também dariam testemunho dele, como testemunhas qualificadas, porque estiveram com ele desde o começo de seu ministério. Observe aqui:
- Que os apóstolos foram designados para testemunhar de Cristo no mundo. Depois de dizer que o Espírito daria testemunho, ele acrescenta que os apóstolos também dariam testemunho. Repare: a obra do Espírito não dispensa a nossa; antes, mobiliza-a e a anima.
Embora o Espírito dê testemunho, os ministros também devem dar o seu, e o povo deve ouvi-lo; pois o Espírito da graça testemunha e age por meio dos meios da graça.
Os apóstolos foram as primeiras testemunhas chamadas no célebre processo entre Cristo e o príncipe deste mundo, que terminou com a expulsão do intruso. Isso indica: (1.) A tarefa que lhes foi dada: atestar a verdade, toda a verdade e nada além da verdade a respeito de Cristo, para recuperar seu direito legítimo e defender sua coroa e dignidade.
Embora os discípulos tenham fugido quando deveriam ter testemunhado em favor de Cristo em seu julgamento perante o sumo sacerdote e Pilatos, depois que o Espírito foi derramado sobre eles, surgiram corajosamente para defender a causa de Cristo contra as acusações que lhe eram feitas.
A verdade da religião cristã seria provada, em grande medida, pelo testemunho dos fatos, sobretudo da ressurreição de Cristo. Para isso, os apóstolos foram escolhidos de modo especial como testemunhas (Atos 10:41), e deram testemunho de acordo com essa missão (Atos 3:15; 5:32). Os ministros de Cristo são suas testemunhas.
(2.) A honra que lhes foi concedida: seriam cooperadores de Deus. O Espírito daria testemunho de Cristo; e os apóstolos também, sob a direção do Espírito e em cooperação com ele, testemunhariam. O Espírito os preservaria de erros ao relatarem o que sabiam por experiência própria e os informaria daquilo que só poderiam saber por revelação.
Isso poderia animá-los diante do ódio e do desprezo do mundo: Cristo os honrara e os reconheceria como seus.
- Que eles estavam qualificados para isso: “Vós estais comigo desde o princípio.” Não apenas ouviram seus sermões públicos, mas também tiveram comunhão particular e constante com ele. Cristo passou fazendo o bem. Enquanto outras pessoas viam suas obras maravilhosas e misericordiosas apenas na própria cidade ou região, os que viajavam com ele testemunharam todas elas.
Também tiveram oportunidade de observar a pureza imaculada de sua conduta. Podiam testemunhar que jamais viram nele nem ouviram dele coisa alguma com o menor vestígio de fraqueza humana. Repare:
(1.) Temos sólidas razões para aceitar o testemunho que os apóstolos deram de Cristo, pois não falaram por ouvir dizer, mas daquilo de que tinham a maior certeza imaginável (2 Pedro 1:16; 1 João 1:1, 3).
(2.) Os mais capazes de testemunhar de Cristo são os que estiveram com ele pela fé, pela esperança e pelo amor, vivendo em comunhão com Deus nele. Os ministros precisam primeiro conhecer Cristo e, então, pregá-lo. Quem fala das coisas de Deus por experiência própria fala melhor.
É uma vantagem especial conhecer Cristo desde o princípio e compreender tudo desde o começo (Lucas 1:3): estar com ele desde os primeiros dias da nossa vida. Conhecer cedo o evangelho de Cristo e manter comunhão constante com ele torna uma pessoa semelhante a um bom chefe de família.