Matthew Henry

João 13

Argumento

Depois de concluir seus discursos públicos, nos quais “suportou a contradição dos pecadores”, nosso Salvador se dedica agora a uma conversa particular com seus amigos, na qual seu desígnio era o consolo dos santos.

Daqui em diante, temos o relato do que se passou entre ele e seus discípulos, a quem seriam confiados os assuntos de sua casa quando partisse para uma terra distante; temos também as instruções e os consolos necessários que lhes proporcionou. Como sua hora se aproximava, ele se empenhou em pôr sua casa em ordem. Neste capítulo:

I. Lava os pés de seus discípulos (vv. 1-17).

II. Prediz quem o trairá (vv. 18-30).

III. Instrui-os sobre a grande doutrina de sua própria morte e o grande dever do amor fraternal (vv. 31-35).

IV. Prediz que Pedro o negará (vv. 36-38).

Versículos 1 a 17

Cristo Lava os Pés dos Discípulos; A Necessidade da Obediência.

Em geral, os comentaristas dão como certo que Cristo lavou os pés dos discípulos e fez o discurso que se seguiu na mesma noite em que foi traído, durante a mesma refeição em que comeu a Páscoa e instituiu a Ceia do Senhor.

Mas não concordam se isso ocorreu antes da celebração, depois que tudo terminou ou entre a refeição pascal e a instituição da Ceia do Senhor. Este evangelista se empenha em reunir os episódios omitidos pelos outros e deixa de propósito de lado os que eles registraram, o que torna difícil harmonizá-los.

Se foi naquela noite, supomos que Judas saiu (v. 30) para preparar os homens que prenderiam o Senhor Jesus no jardim. Mas o dr. Lightfoot é claramente de opinião que tudo isso foi feito e dito, inclusive o que está registrado até o fim de João 14, não durante a ceia pascal — pois aqui se diz que ocorreu antes da festa da Páscoa (v. 1) —, mas na ceia em Betânia, dois dias antes da Páscoa.

Essa é a refeição de que lemos em Mateus 26:2-6, quando Maria, pela segunda vez, ungiu a cabeça de Cristo com o restante do seu frasco de perfume. Ou talvez tenha sido em outra ceia, na noite anterior à Páscoa, não na casa de Simão, o leproso, mas no alojamento de Jesus, onde só os discípulos estavam com ele e ele podia estar mais à vontade.

Nestes versículos temos o relato de Cristo lavando os pés dos discípulos. Foi um ato de natureza singular; não um milagre, a menos que o chamemos de milagre de humildade.

Maria acabara de ungir sua cabeça; agora, para que a aceitação desse gesto não parecesse ostentação, ele imediatamente a equilibra com este ato de humilhação. Mas por que Cristo faria isso? Se os pés dos discípulos precisavam ser lavados, eles mesmos poderiam lavá-los.

Um homem sábio não fará algo que pareça estranho e incomum sem razões e motivos muito bons. Temos certeza de que não foi por capricho nem por brincadeira; não, o ato foi muito solene e realizado com grande seriedade.

Aqui se indicam quatro motivos para Cristo ter feito isso: 1. Para testemunhar seu amor aos discípulos (v. 1, 2). 2. Para dar exemplo de sua humildade voluntária e condescendência (vv. 3-5).

  1. Para lhes indicar a lavagem espiritual, mencionada no discurso com Pedro (vv. 6-11). 4. Para lhes dar um exemplo a seguir (vv. 12-17). A exposição dessas quatro motivos abrangerá a explicação de todo o relato.

I. Cristo lavou os pés dos discípulos para dar prova daquele grande amor com que os amava: amou-os até o fim (v. 1, 2).

  1. Aqui se apresenta como verdade indubitável que nosso Senhor Jesus, “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (v. 1).

(1.) Isso é verdade a respeito dos discípulos que eram seus seguidores diretos, em particular os doze. Eles eram os seus no mundo: sua família, sua escola, seus amigos íntimos.

Ele não teve filhos próprios, mas os adotou e os tomou como seus. Tinha os seus no outro mundo, mas os deixou por um tempo para cuidar dos seus neste mundo.

Ele os amava, chamou-os para a comunhão consigo, tinha comunhão familiarmente com eles, era sempre terno com eles e zelava por seu consolo e sua reputação. Consentia que fossem muito à vontade com ele e suportava suas debilidades.

Amou-os até o fim: continuou a amá-los enquanto viveu e depois de sua ressurreição; nunca retirou deles sua benignidade. Embora algumas pessoas importantes tivessem abraçado sua causa, ele não abandonou os velhos amigos para dar lugar a novos; continuou ao lado de seus pobres pescadores.

Eles eram fracos e deficientes em conhecimento e graça, lentos e esquecidos; mas, embora os censurasse muitas vezes, nunca deixou de amá-los e zelar por eles.

(2.) Isso é verdade a respeito de todos os crentes, pois esses doze patriarcas representavam todas as tribos do Israel espiritual de Deus. Repare: [1.] Nosso Senhor Jesus tem um povo no mundo que é seu: pertence a ele porque o Pai lhe deu, ele o comprou e pagou caro por ele, e o separou para si.

Esse povo também é seu porque se consagrou a ele como povo peculiar. Quando se fala dos seus que não o receberam, a expressão é tous idious — “as pessoas que lhe pertencem”, como a esposa e os filhos pertencem a um homem com os quais ele mantém uma relação permanente.

[2.] Cristo ama sinceramente os seus que estão no mundo. Amou-os com amor benevolente quando se entregou para redimi-los. Ama-os com amor de complacência quando os admite à comunhão consigo.

Embora estejam neste mundo de trevas e distância, de pecado e corrupção, ainda assim ele os ama. Agora ia para junto dos seus no céu, os espíritos dos justos aperfeiçoados; mas parece preocupar-se mais com os seus na terra, pois eles mais precisavam de seu zelo: a criança doente recebe mais atenção.

[3.] Aqueles a quem Cristo ama, ele ama até o fim; é constante em seu amor pelo povo e repousa nesse amor. Ama com amor eterno (Jeremias 31:3), desde a eternidade, nos propósitos desse amor, até a eternidade, em seus efeitos.

Nada pode separar um crente do amor de Cristo. Ele ama os seus, eis telos — “até a perfeição” —, pois aperfeiçoará o que lhes diz respeito e os levará àquele mundo onde o amor é perfeito.

  1. Cristo manifestou seu amor por eles lavando-lhes os pés, assim como aquela mulher bondosa mostrou seu amor por Cristo ao lavar e enxugar os pés dele (Lucas 7:38).

Assim, mostraria que seu amor por eles era constante e também condescendente; para cumprir os desígnios desse amor, estava disposto a humilhar-se. As glórias do estado exaltado em que estava entrando não seriam obstáculo algum à afeição que tinha por seus escolhidos.

Desse modo, confirmaria a promessa feita a todos os santos: “fará com que se assentem à mesa e virá servi-los” (Lucas 12:37); daria a eles uma honra tão grande e surpreendente quanto a de um senhor servindo seus servos.

Pouco antes, os discípulos tinham revelado a fraqueza de seu amor por ele ao reclamarem do perfume derramado sobre sua cabeça (Mateus 26:8); ainda assim ele imediatamente lhes dá esta prova de seu amor. Nossas debilidades servem de contraste às bondades de Cristo e as realçam.

  1. Ele escolheu esse momento, pouco antes de sua última Páscoa, por dois motivos:

(1.) Porque sabia que sua hora havia chegado, a hora que esperava havia muito, em que partiria deste mundo para o Pai. Observe aqui: [1.] A mudança que sobreviria ao nosso Senhor Jesus: ele teria de partir.

Isso começou com sua morte, mas se completou com sua ascensão. Assim como Cristo, todos os crentes, por estarem unidos a ele, ao partirem deste mundo, deixam o corpo, vão para o Pai e ficam presentes com o Senhor.

É uma partida deste mundo hostil e injusto, infiel e traiçoeiro, mundo de trabalho, fadiga e tentação, vale de lágrimas; e é uma ida para o Pai, para contemplar o Pai dos espíritos e desfrutar dele como nosso.

[2.] O momento dessa mudança: sua hora havia chegado. Às vezes é chamada de hora dos inimigos (Lucas 22:53), a hora do triunfo deles; outras vezes, de sua hora, a hora de seu triunfo, que ele tivera em vista o tempo todo.

O tempo de seus sofrimentos fora fixado para uma hora, e sua duração seria de apenas uma hora. [3.] Ele sabia de antemão: sabia que sua hora havia chegado. Desde o princípio sabia que chegaria e quando; agora sabia que chegara.

Não sabemos quando chegará nossa hora; por isso, nunca devemos deixar de nos preparar habitualmente para ela. Mas, quando os sinais nos mostrarem que nossa hora chegou, devemos nos dedicar com empenho à preparação imediata, como fez nosso Mestre (2 Pedro 3:14).

Foi com a partida tão próxima que ele lavou os pés dos discípulos: assim como sua cabeça acabara de ser ungida para o dia de seu sepultamento, também os pés deles foram lavados em preparação para o dia em que seriam consagrados pela descida do Espírito Santo, cinquenta dias depois, assim como os sacerdotes eram lavados (Levítico 8:6).

Quando vemos que nosso dia se aproxima, devemos fazer todo o bem que pudermos àqueles que deixaremos para trás.

(2.) Porque o diabo já havia posto no coração de Judas a decisão de traí-lo (v. 2). Estas palavras, entre parênteses, podem ser entendidas: [1.] Como indicação da origem da traição de Judas. Era um pecado de tal natureza que trazia claramente a imagem e a inscrição do diabo.

Não sabemos como o diabo tem acesso ao coração dos homens, por quais métodos lança suas sugestões nem como as mescla, sem serem percebidas, aos pensamentos que nascem no próprio coração.

Mas há pecados cuja própria natureza é tão extremamente pecaminosa, e aos quais o mundo e a carne oferecem tão pouca tentação, que fica claro que Satanás deposita seu ovo num coração disposto a servir de ninho para chocá-lo.

Judas trair um mestre como aquele, por tão pouco e sem provocação alguma, era uma inimizade tão completa contra Deus que só o próprio Satanás poderia tê-la forjado. Ele pensou assim arruinar o reino do Redentor, mas de fato arruinou o seu próprio.

[2.] As palavras também indicam um motivo para Cristo ter lavado os pés dos discípulos naquele momento. Primeiro, como Judas já estava decidido a traí-lo, sua partida não podia estar distante. Se o assunto estava decidido, era fácil concluir, como Paulo: “Já estou pronto para ser oferecido.”

Repare: quanto mais maliciosos percebemos nossos inimigos contra nós, mais empenhados devemos estar em nos preparar para o pior que possa acontecer. Segundo, Judas já caíra na armadilha, e o diabo visava a Pedro e aos demais (Lucas 22:31); Cristo fortaleceria os seus contra ele.

Se o lobo apanhou uma ovelha do rebanho, é hora de o pastor cuidar bem das outras. É preciso pôr os antídotos em ação quando a infecção começa.

O dr. Lightfoot observa que os discípulos aprenderam com Judas a murmurar contra a unção de Cristo; compare João 12:4, etc., com Mateus 26:8. Para que os que aprenderam isso com ele não aprendessem coisas piores, Cristo os fortalece com uma lição de humildade contra os ataques mais perigosos do diabo.

Terceiro, Judas, que agora tramava traí-lo, era um dos doze. Cristo mostraria com isso que não tinha o desígnio de rejeitar todos por causa da falta de um só.

Embora um dos membros do grupo tivesse um demônio e fosse traidor, os outros não seriam prejudicados por isso. Cristo ama sua igreja apesar de haver hipócritas nela; continuava tendo afeição pelos discípulos, embora Judas estivesse entre eles e ele soubesse disso.

II. Cristo lavou os pés dos discípulos para dar exemplo de sua maravilhosa humildade, mostrar quão manso e condescendente era e revelar ao mundo até que ponto podia se rebaixar por amor aos seus. Isso é indicado nos vv. 3-5.

Jesus sabia e agora considerava de fato — talvez até estivesse falando sobre — as honras que tinha como Mediador; dizia aos amigos que “o Pai pusera todas as coisas em suas mãos”. Então se levantou da ceia e, para grande espanto dos presentes, que se perguntavam o que ele faria, lavou os pés dos discípulos.

  1. Aqui vemos a legítima exaltação do Senhor Jesus. Dizem-se aqui coisas gloriosas a respeito de Cristo como Mediador:

(1.) “O Pai pusera todas as coisas em suas mãos”; dera-lhe propriedade sobre tudo e poder sobre tudo, como possuidor do céu e da terra, em cumprimento dos grandes desígnios de sua obra. Veja Mateus 11:27.

A conciliação e a arbitragem de todas as questões em conflito entre Deus e os homens foram confiadas às mãos de Cristo, o grande árbitro e mediador. Também lhe foi confiada a administração do reino de Deus entre os homens, em todos os seus aspectos; assim, todos os atos, tanto de governo quanto de juízo, passariam por suas mãos. Ele é herdeiro de todas as coisas.

(2.) Ele veio de Deus. Isso implica que, no princípio, estava com Deus e já existia e possuía glória, não apenas antes de nascer neste mundo, mas antes que o próprio mundo existisse.

Quando veio ao mundo, veio como embaixador de Deus, com uma comissão recebida dele. Veio de Deus como Filho de Deus e enviado de Deus. Os profetas do Antigo Testamento foram levantados e empregados por Deus, mas Cristo veio diretamente dele.

(3.) Ele foi para Deus, para ser glorificado com ele com a mesma glória que tinha junto de Deus desde a eternidade. O que vem de Deus volta para Deus; os que nascem do céu estão destinados ao céu.

Assim como Cristo veio de Deus para agir por ele na terra, foi para Deus para agir por nós no céu; e é consolador pensar em quão bem recebido foi ali: foi levado à presença do Ancião de Dias (Daniel 7:13). E lhe foi dito: “Assenta-te à minha direita” (Salmos 110:1).

(4.) Ele sabia de tudo isso. Não era como um príncipe no berço, que nada sabe da honra para a qual nasceu, nem como Moisés, que não sabia que seu rosto resplandecia. Não: tinha plena visão de todas as honras de seu estado exaltado e, mesmo assim, rebaixou-se tanto. Mas o que isso tem a ver aqui?

[1.] Isso o levou a deixar rapidamente as instruções e os legados que devia aos discípulos, pois sua hora havia chegado, quando teria de se despedir deles e seria exaltado acima da comunhão familiar que tinha com eles (v. 1).

[2.] Isso pode ter sido o que o sustentou em seus sofrimentos e o conduziu com coragem por esse duro confronto. Judas estava prestes a traí-lo, e ele sabia disso e sabia quais seriam as consequências; mas, sabendo também que viera de Deus e voltaria para Deus, não recuou: prosseguiu com coragem.

[3.] Parece ter sido mencionado para realçar sua condescendência e torná-la ainda mais admirável. Às vezes, os motivos da graça divina são apresentadas nas Escrituras como estranhas e surpreendentes (Isaías 57:17, 18; Oseias 2:13, 14).

Assim, o que deveria ter sido motivo para Cristo assumir ares de grandeza é apresentado como motivo para ele se rebaixar, pois os pensamentos de Deus não são como os nossos. Compare isso às passagens que introduzem exemplos notáveis de graça condescendente com manifestações da glória divina, como Salmos 68:4, 5; Isaías 57:15; 66:1, 2.

  1. Vemos aqui o rebaixamento voluntário de nosso Senhor Jesus, apesar de tudo isso. Sabendo de sua própria glória como Deus e de sua autoridade e poder como Mediador, poderíamos pensar que faria o seguinte: levantar-se da ceia, tirar as roupas comuns, pedir vestes especiais, mandar que mantivessem distância e exigir homenagem.

Mas não: fez exatamente o contrário. Ao considerar tudo isso, deu o maior exemplo de humildade. Repare: uma firme certeza do céu e da felicidade, em vez de encher alguém de orgulho, torna-o e o mantém muito humilde.

Os que desejam conformar-se a Cristo e participar de seu Espírito devem esforçar-se para manter a mente humilde em meio às maiores honras. O que Cristo se humilhou para fazer foi lavar os pés dos discípulos.

(1.) O ato em si era humilde e servil, trabalho destinado aos servos de posição mais baixa. Abigail disse: “Que a tua serva seja serva para lavar os pés dos servos do meu senhor” (1 Samuel 25:41); que eu receba a tarefa mais humilde.

Se ele tivesse lavado as mãos ou o rosto deles, já seria uma grande condescendência (Eliseu derramou água sobre as mãos de Elias, 2 Reis 3:11); mas o fato de Cristo se rebaixar a um trabalho tão penoso deve mesmo nos causar admiração.

Assim, ele nos ensinaria a não considerar nada abaixo de nós quando pudermos servir à glória de Deus e ao bem de nossos irmãos.

(2.) Sua condescendência foi ainda maior porque fez isso por seus próprios discípulos, que eram pessoas de condição humilde e desprezível e não cuidavam muito do corpo; é provável que raramente lavassem os pés, e por isso estivessem muito sujos.

Em relação a Cristo, eram seus alunos e servos; deveriam ter lavado os pés dele, pois dependiam dele e dele esperavam tudo. Muitas pessoas, embora tenham espírito altivo, fazem coisas humildes para agradar aos superiores: ascendem rebaixando-se e sobem rastejando.

Mas Cristo fazer isso por seus discípulos não poderia ser um ato de conveniência política nem de cortesia interesseira; era pura humildade.

(3.) Ele se levantou da ceia para fazê-lo. Embora traduzamos essa expressão (v. 2) como “terminada a ceia”, seria melhor entendê-la como “havendo uma ceia” ou “estando ele à mesa”; pois ele se sentou de novo (v. 12) e o vemos mergulhar um pedaço de pão (v. 26).

Portanto, ele lavou os pés durante a refeição e assim nos ensinou: [1.] Não considerar uma interrupção nem motivo justo para incômodo sermos chamados durante a refeição para prestar um serviço real a Deus ou ao próximo, dando mais valor ao cumprimento de nosso dever do que ao alimento necessário (João 4:34).

Cristo não abandonaria a pregação para agradar aos parentes mais próximos (Marcos 3:33), mas deixaria a refeição para demonstrar amor aos discípulos. [2.] Não sermos exigentes demais com a comida.

Lavar pés sujos na hora da refeição faria muitos estômagos delicados se revirarem; Cristo, porém, o fez. Não para nos ensinar a ser grosseiros ou desleixados — limpeza e piedade podem caminhar juntas —, mas para nos ensinar a não sermos exigentes nem indulgentes e a mortificar o apetite delicado, dando aos bons modos o devido lugar, e nada além dele.

(4.) Para fazer isso, vestiu-se como servo: tirou as roupas largas e exteriores para poder dedicar-se a esse serviço com mais agilidade. Devemos nos preparar para cumprir nosso dever sem ares de grandeza, dispostos a trabalhar.

Precisamos nos despir de tudo o que alimente nosso orgulho ou nos atrapalhe no que temos a fazer, e cingir os lombos da mente, como quem se dedica seriamente ao trabalho.

(5.) Ele o fez com toda a cerimônia humilde possível, cumprindo distintamente cada parte do serviço, sem omitir nenhuma. Serviu como se estivesse acostumado a isso; fez tudo sozinho, sem ninguém para auxiliá-lo.

Cingiu-se com a toalha, como os servos põem um pano no braço ou um avental à frente do corpo; derramou na bacia água dos jarros que estavam ali (João 2:6), lavou os pés dos discípulos e, para completar o serviço, enxugou-os.

Alguns pensam que não lavou os pés de todos, mas apenas de quatro ou cinco, o que julgariam suficiente para cumprir o propósito. Não vejo, porém, nada que sustente essa conjectura; em outros lugares, quando ele fazia distinção, isso era mencionado.

O fato de lavar os pés de todos, sem exceção, ensina-nos a ter amor universal e abrangente por todos os discípulos de Cristo, até pelos menores.

(6.) Nada indica o contrário; portanto, ele lavou também os pés de Judas, entre os demais, pois Judas estava presente (v. 26). É característica de uma viúva verdadeira ter lavado os pés dos santos (1 Timóteo 5:10), e há algum consolo nisso.

Mas aqui o bendito Jesus lavou os pés de um pecador, o pior dos pecadores, o pior para ele, que naquele momento maquinava traí-lo.

Muitos intérpretes consideram que Cristo lavar os pés dos discípulos representa toda a sua obra. Ele sabia que era igual a Deus e que todas as coisas lhe pertenciam; ainda assim, levantou-se de sua mesa de glória, despiu-se de suas vestes de luz, cingiu-se de nossa natureza, tomou a forma de servo, veio não para ser servido, mas para servir.

Derramou seu sangue e derramou sua alma até a morte; assim preparou uma bacia para “nos lavar dos nossos pecados” (Apocalipse 1:5).

III. Cristo lavou os pés dos discípulos para lhes representar a lavagem espiritual e a limpeza da alma das contaminações do pecado. Isso está claramente indicado na conversa que teve com Pedro a esse respeito (vv. 6-11), na qual podemos observar:

  1. A surpresa de Pedro ao ver seu Mestre iniciar esse serviço humilde (v. 6): então Jesus veio a Simão Pedro com a toalha e a bacia e lhe pediu que estendesse os pés para serem lavados.

Crisóstomo conjectura que Jesus primeiro lavou os pés de Judas, que prontamente aceitou a honra e gostou de ver seu Mestre rebaixar-se tanto. É mais provável que, ao iniciar esse serviço (isso é tudo o que significa ter começado a lavar, no v. 5), ele tenha escolhido Pedro primeiro.

Os demais provavelmente não teriam permitido que lhes lavasse os pés se não tivessem antes ouvido a explicação dada na conversa entre Cristo e Pedro. Quer tenha vindo primeiro a Pedro, quer não, quando chegou a ele, Pedro se assustou com a proposta: “Senhor, tu lavas meus pés?”

A ênfase recai nos pronomes “tu” e “mim”; a ordem das palavras também chama a atenção: sy mou — “Como? Tu, os meus?” Tu mihi lavas pedes? Quid est tu? Quid est mihi? Cogitanda sunt potius quam dicenda — “Tu lavas meus pés? O que significa tu? E o que significa a mim? Essas coisas devem antes ser contempladas do que ditas.” Agostinho, sobre esta passagem.

“Como? Tu, nosso Senhor e Mestre, a quem conhecemos e em quem cremos como Filho de Deus, Salvador e governante do mundo, fazes isso por mim, um verme indigno da terra, um homem pecador, ó Senhor? Lavarão meus pés essas mãos que, com um toque, limparam leprosos, deram vista a cegos e ressuscitaram mortos?” Assim diz Teofilacto, citado pelo dr. Taylor.

Pedro teria tomado de muito boa vontade a bacia e a toalha para lavar os pés de seu Mestre e se orgulharia dessa honra (Lucas 17:7, 8). “Isso seria natural e correto; mas meu Mestre lavar meus pés é uma incongruência sem precedentes, um paradoxo que não consigo entender. É esse o costume dos homens?”

Repare: as condescendências de Cristo, especialmente as que ele mostra para conosco, pelas quais vemos que sua graça se importa conosco, são justamente motivo de admiração (João 14:22). “Quem sou eu, Senhor Deus? E que é a casa de meu pai?”

  1. A resposta direta de Cristo à pergunta de Pedro, nascida da surpresa. Era, no mínimo, suficiente para calar suas objeções (v. 7): “O que faço, tu não o sabes agora, mas o saberás depois.” Há aqui dois motivos pelas quais Pedro devia aceitar o que Cristo fazia:

(1.) Porque, naquele momento, não entendia a ação e não devia se opor ao que não compreendia, mas submeter-se à vontade e à sabedoria daquele que podia dar um bom motivo para tudo o que dizia e fazia.

Cristo queria ensinar a Pedro uma obediência sem exigir explicações: “O que faço, tu não o sabes agora e, portanto, não és juiz competente disso; deves crer que está bem feito porque sou eu quem o faz.”

Repare: a consciência das trevas em que nos encontramos e de nossa incapacidade de julgar o que Deus faz deve tornar-nos comedidos e modestos ao censurar seus procedimentos; veja Hebreus 11:8.

(2.) Porque havia naquela ação algo importante, cujo sentido ele conheceria depois: “Saberás depois o quanto precisas ser lavado, quando fores culpado do grave pecado de me negar”; assim entendem alguns.

“Saberás quando, no exercício do ofício de apóstolo, fores encarregado de lavar dos que estão sob teus cuidados os pecados e as máculas de suas afeições terrenas”; assim entende o dr. Hammond.

Repare: [1.] Nosso Senhor Jesus faz muitas coisas cujo sentido até seus discípulos desconhecem no momento, mas que conhecerão depois. O que fez ao se tornar homem por nós e ao se tornar um verme, e não um homem, por nós; o que fez ao viver nossa vida e ao entregá-la não podia ser entendido antes.

Depois ficou claro que isso lhe convinha (Hebreus 2:17). Providências posteriores explicam as anteriores; depois vemos a direção benéfica de acontecimentos que pareceram os mais adversos, e o caminho que julgávamos indireto se revela o caminho certo.

[2.] O lava-pés dos discípulos por Cristo tinha um significado que eles próprios só entenderam depois, quando ele explicou que era uma representação da lavagem da regeneração e quando o Espírito foi derramado sobre eles do alto.

Devemos deixar Cristo seguir seu próprio caminho, tanto nas ordenanças quanto nas providências, e veremos no fim que era o melhor caminho.

  1. A recusa categórica de Pedro a permitir, apesar disso, que Cristo lavasse seus pés (v. 8): “De modo algum lavarás meus pés”; não, nunca. É assim que se lê no original. É a linguagem de uma decisão firme. Agora:

(1.) Havia nisso uma aparência de humildade e modéstia. Pedro parecia ter, e sem dúvida tinha, grande respeito por seu Mestre, como em Lucas 5:8. Assim muitos se deixam privar de sua recompensa por uma humildade voluntária (Colossenses 2:18, 23), uma abnegação que Cristo não prescreve nem aceita.

(2.) Sob essa aparência de humildade havia verdadeira oposição à vontade do Senhor Jesus. “Lavarei teus pés”, diz Cristo; “Mas tu nunca os lavarás”, diz Pedro, “isso não é apropriado”. Desse modo, fez-se mais sábio que Cristo.

Não é humildade, mas incredulidade, rejeitar as ofertas do evangelho, como se fossem ricas demais para nos serem feitas ou boas notícias demais para serem verdade.

  1. A insistência de Cristo em sua oferta e a boa razão dada a Pedro para aceitá-la: “Se eu não te lavar, não tens parte comigo.” Isso pode ser entendido:

(1.) Como uma séria advertência contra a desobediência: “Se eu não te lavar, se continuares recalcitrante e não te conformares à vontade de teu Mestre numa questão tão pequena, não serás reconhecido como um de meus discípulos, mas serás justamente dispensado e excluído por não obedecer às ordens.”

Assim entendem diversos autores antigos. Se Pedro se fizer mais sábio que seu Mestre e discutir as ordens a que devia obedecer, estará, na prática, renunciando à sua lealdade e dizendo, como disseram aqueles: “Que parte temos em Davi, no Filho de Davi?”

Assim será sua condenação: não terá parte nele. Que sua cortesia não ultrapasse o que lhe faz bem, pois “obedecer é melhor do que sacrificar” (1 Samuel 15:22). Ou:

(2.) Como declaração da necessidade da lavagem espiritual; e assim penso que deve ser entendido: “Se eu não lavar tua alma da contaminação do pecado, não tens parte comigo, nem direito em mim, nem comunhão comigo, nem benefício algum por meio de mim.”

Repare: todos aqueles, e somente aqueles, que são lavados espiritualmente por Cristo têm parte nele. [1.] Ter parte em Cristo, ou com Cristo, encerra toda a felicidade do cristão: ser participante de Cristo (Hebreus 3:14) e compartilhar os privilégios inestimáveis que resultam da união e da relação com ele.

É aquela boa parte cuja posse é a única coisa necessária. [2.] Para termos parte em Cristo, é necessário que ele nos lave. Todos aqueles que Cristo reconhece e salva, ele justifica e santifica; ambas as coisas estão incluídas na lavagem que lhes dá.

Não podemos participar de sua glória se não participarmos de seu mérito e de sua justiça, de seu Espírito e de sua graça.

  1. Pedro faz mais do que se submeter: pede com insistência que Cristo o lave (v. 9). Se é esse o sentido da fala, Pedro pede ao Senhor que lhe lave não apenas os pés, mas também as mãos e a cabeça. Como Pedro muda de ideia depressa!

Quando se corrigiu o erro de seu entendimento, logo se alterou a decisão corrompida de sua vontade. Por isso, não sejamos inflexíveis em nenhuma decisão — exceto na de seguir Cristo —, pois logo podemos encontrar motivo para voltar atrás. Sejamos cautelosos ao tomar uma decisão à qual pretendemos nos apegar. Observe:

(1.) Como Pedro está pronto a voltar atrás no que disse: “Senhor, como fui tolo ao falar de modo tão precipitado!” Agora que ser lavado lhe parecia um ato de autoridade e graça de Cristo, ele o aceitava; antes, não gostara da ideia quando parecia apenas um ato de humilhação.

Repare: [1.] As pessoas boas, quando percebem seu erro, não hesitam em se retratar. [2.] Cedo ou tarde, Cristo levará todos a concordar com ele.

(2.) Como ele insiste pela graça purificadora do Senhor Jesus e pela influência dela sobre todo o seu ser, até sobre as mãos e a cabeça. Repare: o divórcio de Cristo e a exclusão de ter parte nele são o mal mais temível aos olhos de todos os que receberam luz; para evitá-lo, aceitarão qualquer coisa.

Por medo disso, devemos pedir insistentemente a Deus em oração que nos lave, nos justifique e nos santifique. “Senhor, para que eu não seja separado de ti, torna-me apto para ti pela lavagem da regeneração.”

“Senhor, lava não apenas meus pés das contaminações grosseiras que aderem a eles, mas também minhas mãos e minha cabeça das manchas que adquiriram e da sujeira imperceptível que sai do próprio corpo pela transpiração.”

Repare: os que na verdade desejam ser santificados desejam sê-lo por inteiro, e que a pessoa toda, com todas as suas partes e faculdades, seja purificada (1 Tessalonicenses 5:23).

  1. A explicação ulterior que Cristo dá desse sinal como representação da lavagem espiritual:

(1.) Com referência aos discípulos que lhe eram fiéis (v. 10): quem se lavou por inteiro no banho — como era costume frequente naquelas regiões —, ao voltar para casa, só precisa lavar os pés; as mãos e a cabeça já foram lavadas, e apenas os pés se sujaram na caminhada de volta.

Pedro havia passado de um extremo ao outro. Primeiro, não queria deixar Cristo lavar seus pés; agora, ignora o que Cristo já havia feito por ele em seu batismo e o que isso significava, e pede que lhe sejam lavadas também as mãos e a cabeça.

Cristo então lhe explica o sentido: ele precisa ter os pés lavados, mas não as mãos e a cabeça. [1.] Veja aqui o consolo e o privilégio dos que se encontram em estado de justificação: foram lavados por Cristo e estão inteiramente limpos, isto é, Deus graciosamente os aceita como se assim fossem.

Embora pequem, não precisam, depois de se arrependerem, ser colocados novamente em estado de justificação, pois, nesse caso, teriam de ser batizados muitas vezes.

A certeza de estar justificado pode ficar obscurecida e o consolo disso, suspenso, sem que o título que o assegura seja anulado ou retirado. Embora tenhamos motivo para nos arrepender todos os dias, os dons e a vocação de Deus não são revogados.

O coração pode ser varrido e adornado e, mesmo assim, continuar sendo o palácio do diabo; mas, se for lavado, pertence a Cristo, e ele não o perderá.

[2.] Veja qual deve ser o zelo diário daqueles que, pela graça, estão em estado de justificação: lavar os pés, limpar-se da culpa que contraem todos os dias por debilidade e descuido, renovando o exercício do arrependimento e aplicando com fé a eficácia do sangue de Cristo.

Devemos também lavar os pés pela vigilância constante contra tudo o que macula, pois devemos limpar nosso caminho e nossos pés tomando cuidado com ele (Salmos 119:9).

Os sacerdotes, quando eram consagrados, eram lavados com água. Embora depois não precisassem ser lavados por inteiro, sempre que entravam para ministrar tinham de lavar os pés e as mãos na bacia, sob pena de morte (Êxodo 30:19, 20).

A provisão feita para nossa limpeza não deve tornar-nos presunçosos, mas ainda mais cautelosos. “Lavei meus pés; como os macularei?” Do perdão de ontem, devemos tirar uma razão contra a tentação de hoje.

(2.) Com referência a Judas: “Vós estais limpos, mas não todos” (v. 10, 11). Cristo declara limpos seus discípulos, limpos pela palavra que lhes havia dito (João 15:3).

Ele mesmo os lavou e então disse: “Vós estais limpos”; mas fez uma exceção quanto a Judas: “não todos”. Todos haviam sido batizados, inclusive Judas, mas nem todos estavam limpos; muitos têm o sinal sem terem aquilo que ele representa.

Repare: [1.] Mesmo entre os que são chamados discípulos de Cristo e professam ter relação com ele, há alguns que não estão limpos (Provérbios 30:12). [2.] O Senhor conhece os que são seus e os que não são (2 Timóteo 2:19).

Os olhos de Cristo conseguem distinguir entre o precioso e o vil, entre o limpo e o impuro. [3.] Quando pessoas que se diziam discípulas mais tarde se revelam traidoras, sua apostasia final é prova segura de que foram hipócritas o tempo todo.

[4.] Cristo julga necessário informar os discípulos de que nem todos estão limpos, para que cada um de nós vigie a si mesmo — “Serei eu, Senhor? Serei eu um dos que estão entre os limpos, mas não estão limpos?” — e para que, quando os hipócritas forem descobertos, isso não nos surpreenda nem nos faça tropeçar.

IV. Cristo lavou os pés dos discípulos para nos dar um exemplo. Explicou o que havia feito depois de terminar o ato (vv. 12-17). Observe:

  1. Com que solenidade explicou o significado do que havia feito (v. 12): depois de lavar os pés deles, perguntou: “Sabeis o que fiz?”

(1.) Adiou a explicação até terminar o ato, [1.] para pôr à prova a submissão e a obediência implícita dos discípulos. Eles só saberiam depois o que ele estava fazendo, para aprenderem a aceitar sua vontade mesmo quando não pudessem dar um motivo para ela.

[2.] Também porque era adequado terminar o enigma antes de decifrá-lo. Assim, quanto à obra inteira de Cristo, quando seus sofrimentos terminaram, quando retomou as vestes de seu estado exaltado e estava pronto para se sentar novamente, ele abriu o entendimento dos discípulos e derramou seu Espírito (Lucas 24:45, 46).

(2.) Antes de explicar o ato, perguntou se conseguiam interpretá-lo: “Sabeis o que vos fiz?” Fez essa pergunta não só para que percebessem sua ignorância e a necessidade de instrução — como em Zacarias 4:5, 13: “Não sabes o que são estas coisas?” e “Eu disse: Não, meu senhor” —, mas também para despertar neles o desejo e a expectativa de receber instrução.

“Eu quero que vocês saibam e, se prestarem atenção, vou lhes explicar.” Repare: Cristo quer que os sinais sacramentais sejam explicados e que seu povo conheça o significado deles; do contrário, por mais significativos que sejam, nada significam para quem não conhece aquilo que representam.

Por isso, somos instruídos a perguntar: “Que significa este serviço para vós?” (Êxodo 12:26).

  1. Em que ele baseou o que tinha a dizer (v. 13): “Vocês me chamam Mestre e Senhor; dão-me esses títulos ao falar de mim e comigo, e dizem bem, porque eu o sou.” Vocês estão na relação de discípulos comigo, e eu cumpro o papel de mestre para vocês. Repare:

(1.) Jesus Cristo é nosso Mestre e Senhor; aquele que é nosso Redentor e Salvador é também, para esse fim, nosso Senhor e Mestre. Ele é nosso Mestre, didaskalos — nosso professor e instrutor em todas as verdades e regras necessárias, como profeta que nos revela a vontade de Deus.

Ele é nosso Senhor, kyrios — nosso governante e dono, com autoridade sobre nós e direito sobre nós. (2.) Convém que os discípulos de Cristo o chamem de Mestre e Senhor, não por formalidade, mas de verdade; não por obrigação, mas com alegria.

O devoto sr. Herbert, quando mencionava o nome de Cristo, costumava acrescentar “meu Mestre”. Em um de seus poemas, ele se expressa assim:

Quão doce soa “meu Mestre”, “meu Mestre”!
Como o âmbar-gris deixa um aroma rico ao paladar,
Assim estas palavras trazem doce contentamento, uma fragrância oriental: “meu Mestre”.

(3.) Chamar Cristo de Mestre e Senhor nos obriga a receber e obedecer à instrução que ele nos dá. Assim, Cristo queria comprometer de antemão a obediência dos discípulos a um mandamento desagradável à carne e ao sangue.

Se Cristo é nosso Mestre e Senhor por nossa própria anuência, e muitas vezes o chamamos assim, a honra e a honestidade nos obrigam a obedecer-lhe.

  1. A lição que ensinou com isso: “Vós também deveis lavar os pés uns dos outros” (v. 14):

(1.) Alguns entenderam isso literalmente e pensaram que essas palavras instituíam uma prática permanente na igreja: os cristãos deveriam lavar os pés uns dos outros numa cerimônia religiosa solene, como sinal de amor humilde mútuo.

Ambrósio entendeu assim e praticou o rito na igreja de Milão. Agostinho diz que os cristãos que não o faziam com as mãos — esperava ele — o faziam com o coração, em humildade; mas afirma que é muito melhor fazê-lo também com as mãos, quando houver ocasião, como em 1 Timóteo 5:10.

Os cristãos não devem desdenhar fazer o que Cristo fez. Calvino diz que o papa, ao realizar anualmente essa cerimônia na quinta-feira da Semana da Paixão, é antes um macaco que imita Cristo do que seu seguidor, pois o dever ordenado em conformidade com Cristo era mútuo: “Lavem os pés uns dos outros.”

Jansênio diz que isso é feito Frigidè et dissimiliter — “com frieza e de modo diferente do modelo primitivo”.

(2.) Sem dúvida, porém, deve ser entendido em sentido figurado: é um sinal instrutivo, mas não sacramental como a eucaristia. Foi uma parábola para os olhos; com ela, nosso Mestre quis nos ensinar três coisas:

[1.] Humilde condescendência. Devemos aprender com nosso Mestre a ser humildes de coração (Mateus 11:29) e a andar com toda humildade; devemos pensar humildemente de nós mesmos, tratar nossos irmãos com respeito e considerar que nada está abaixo de nós senão o pecado.

Devemos dizer daquilo que parece humilde, mas contribui para a glória de Deus e o bem dos irmãos, como Davi (2 Samuel 6:22): “Se ser vil é isso, serei ainda mais vil.” Cristo muitas vezes ensinou humildade aos discípulos, e eles haviam esquecido a lição; agora, porém, ensina-a de uma forma que certamente não poderiam esquecer.

[2.] Humilhar-se para servir. Devemos nos rebaixar às tarefas mais humildes do amor, para o bem e o benefício real uns dos outros, como o bendito Paulo, que, embora livre de todos, fez-se servo de todos; e como o bendito Jesus, que veio não para ser servido, mas para servir.

Não devemos nos queixar de ter de cuidar dos outros, esforçar-nos por eles, gastar tempo e nos rebaixar em benefício daqueles a quem não estamos particularmente obrigados, até mesmo de nossos inferiores e daqueles que não podem nos retribuir.

Lavar os pés depois de uma viagem contribui tanto para o decoro da pessoa como para seu alívio. Assim, lavar os pés uns dos outros é olhar tanto pela honra quanto pelo conforto alheios, fazer o que pudermos para promover a reputação de nossos irmãos e tranquilizar-lhes o ânimo. Veja 1 Coríntios 10:24; Hebreus 6:10.

O dever é mútuo: devemos tanto aceitar a ajuda de nossos irmãos como ajudá-los. [3.] Servir à santificação uns dos outros: vocês devem lavar os pés uns dos outros, limpando-os das contaminações do pecado.

Agostinho entende assim, e muitos outros também. Não podemos expiar os pecados uns dos outros, pois isso é próprio de Cristo; mas podemos ajudar a purificar uns aos outros do pecado.

Primeiro devemos lavar a nós mesmos; essa caridade deve começar em casa (Mateus 7:5), mas não terminar aí. Devemos lamentar as falhas e tolices de nossos irmãos, sobretudo suas contaminações graves (1 Coríntios 5:2), e lavar com lágrimas os pés deles, sujos pelo pecado.

Devemos censurá-los com fidelidade e fazer o que pudermos para levá-los ao arrependimento (Gálatas 6:1); devemos adverti-los para impedir que caiam na lama. Isso é lavar os pés deles.

  1. Aqui vemos a confirmação e o reforço desse mandamento pelo exemplo do que Cristo havia feito: se eu, seu Senhor e Mestre, fiz isso a vocês, vocês devem fazê-lo uns aos outros. Ele mostra a força dessa razão de duas maneiras:

(1.) Sou seu Mestre, e vocês são meus discípulos; portanto, devem aprender comigo (v. 15). Nisso, como em outras coisas, dei um exemplo: “façam aos outros como eu fiz a vocês”. Observe: [1.] Que bom mestre é Cristo.

Ele ensina tanto pelo exemplo como pela doutrina e, para isso, veio ao mundo e habitou entre nós: para nos deixar um modelo de todas as graças e deveres ensinados por sua religião santa. É um modelo sem um único traço errado.

Assim, tornou suas leis mais claras e honrosas. Cristo é um comandante como Gideão, que disse aos soldados: “Olhem para mim e façam o mesmo” (Juízes 7:17); como Abimeleque, que disse: “O que vocês me viram fazer, façam depressa e façam como eu fiz” (Juízes 9:48).

E é como César, que chamava seus soldados não de milites — “soldados” —, mas de commilitones — “companheiros de armas”. Sua palavra habitual não era Ite illue — “Vão para lá” —, mas Venite huc — “Venham para cá”.

[2.] Que bons discípulos devemos ser! Devemos fazer como ele fez; foi para isso que nos deixou um modelo: para que o sigamos e sejamos como ele neste mundo (1 João 4:17), andando como ele andou (1 João 2:6).

O exemplo de Cristo aqui deve ser seguido especialmente pelos ministros, nos quais as graças da humildade e do amor santo devem se destacar. Ao exercê-las, eles servem eficazmente aos interesses de seu Mestre e aos propósitos de seu ministério.

Quando Cristo enviou os apóstolos como seus representantes, ordenou-lhes que não assumissem ares de grandeza nem agissem com mão pesada, mas que se fizessem “tudo para todos” (1 Coríntios 9:22).

O que fiz aos pés sujos de vocês, façam às almas contaminadas dos pecadores: lavem-nas. Alguns que pensam que isso aconteceu na ceia pascal entendem que seja uma regra para admitir participantes à Ceia do Senhor: primeiro, devem ser lavados e limpos pela reforma de vida e por uma conduta irrepreensível; depois, devem ser admitidos para cercar o altar de Deus.

Mas todos os cristãos também aprendem aqui a se humilhar uns diante dos outros em amor e a agir como Cristo agiu: sem que lhe pedissem, sem pagamento. Não devemos prestar serviços de amor por interesse nem de má vontade.

(2.) Sou seu Mestre, e vocês são meus discípulos; portanto, vocês não podem considerar indigno de si fazer aquilo que viram que eu fiz, por mais humilde que pareça, pois (v. 16): “O servo não é maior que seu senhor, nem aquele que é enviado maior que aquele que o enviou”; isso continua verdadeiro mesmo quando o enviado vai com todo o aparato e poder de um embaixador.

Cristo usou essa razão (Mateus 10:24, 25) para que não estranhassem sofrer como ele sofreu; aqui, usa-o para que não se incomodem em se humilhar como ele se humilhou. O que ele não considerou uma desonra para si, eles não devem considerar uma desonra para si mesmos.

Talvez os discípulos estivessem interiormente contrariados com a ordem de lavar os pés uns dos outros, por julgarem-na incompatível com a dignidade a que esperavam ser elevados em breve. Para afastar esses pensamentos, Cristo lhes recorda que eram seus servos.

Não eram melhores que seu Mestre; o que era compatível com a dignidade dele era ainda mais compatível com a deles. Se ele era humilde e condescendente, não cabia a eles serem orgulhosos e arrogantes. Repare:

[1.] Devemos vigiar bem a nós mesmos, para que a bondosa condescendência de Cristo conosco e a exaltação que nos concede não nos levem, por causa da corrupção de nossa natureza, a pensar muito de nós mesmos ou pouco dele.

Precisamos ser lembrados de que não somos maiores que nosso Senhor. [2.] Tudo a que nosso Mestre se dignou por amor a nós, devemos nos dignar a fazer ainda mais por imitação dele.

Ao humilhar-se, Cristo dignificou a humildade, conferiu-lhe honra e obrigou seus seguidores a não considerar nada abaixo deles senão o pecado. Costumamos dizer a quem se recusa, com desdém, a fazer algo: “Alguém tão bom quanto você já fez isso e não foi tido em menos conta”; e isso é verdade, se nosso Mestre o fez.

Quando vemos nosso Mestre servindo, não podemos deixar de perceber como nos fica mal querer dominar.

Versículos 18 a 29

A Traição de Judas Predita; A Ansiedade dos Discípulos.

Temos aqui a descoberta da trama de Judas para trair seu Mestre. Cristo o conhecia desde o princípio, mas só agora o revelou pela primeira vez aos discípulos.

Eles não esperavam que Cristo fosse traído, embora ele muitas vezes lhes tivesse dito isso; muito menos suspeitavam que um deles o faria. Vemos aqui:

I. Cristo lhes dá uma indicação geral do que aconteceria (v. 18): “Não falo de todos vós.” Não posso esperar que todos façam essas coisas, pois sei quem escolhi e quem deixei de lado; mas a Escritura se cumprirá (Salmos 41:9): “Aquele que come pão comigo levantou contra mim o calcanhar.”

Ele ainda não revela claramente nem o crime nem o criminoso, mas desperta neles a expectativa de uma revelação ulterior.

  1. Ele lhes indica que nem todos eram íntegros. Dissera (v. 10): “Vós estais limpos, mas não todos.” Aqui também diz: “Não falo de todos vós.” Repare: o que se diz das excelências dos discípulos de Cristo não pode ser dito de todos os que recebem esse nome.

A palavra de Cristo distingue: separa um animal de outro e separará milhares para o inferno, embora se iludissem com a esperança de que estavam indo para o céu. “Não falo de todos vós”: de vocês, meus discípulos e seguidores.

Repare: mesmo nas melhores convívios há mistura de maus e bons, um Judas entre os apóstolos; será assim até chegarmos à bendito convívio, na qual nada impuro ou dissimulado entrará.

  1. Que ele próprio sabia quem estava bem e quem não estava: “Sei quem escolhi”, quais são os poucos escolhidos entre os muitos chamados pelo chamado comum. Repare: (1.) Os escolhidos foram escolhidos pelo próprio Cristo; ele indicou aqueles por quem se comprometeu a responder.

(2.) Cristo conhece os que foram escolhidos, pois nunca se esquece daqueles que uma vez teve em seus pensamentos de amor (2 Timóteo 2:19).

  1. Que a Escritura se cumpriu na traição daquele que se mostrou infiel a Cristo, o que reduz bastante tanto a surpresa como o escândalo causado pelo fato.

Cristo recebeu em sua família alguém que sabia de antemão que seria traidor e não o impediu disso por meio da graça eficaz, para que a Escritura se cumprisse. Portanto, que isso não seja pedra de tropeço para ninguém; embora não diminua em nada a culpa de Judas, pode diminuir o escândalo que sua traição nos causa.

A Escritura citada é a queixa de Davi pela traição de alguns de seus inimigos. Os intérpretes judeus, e em geral os nossos que os seguem, entendem que se refere a Aitofel; Grotius pensa que indica que a morte de Judas seria semelhante à de Aitofel.

Mas, como esse salmo fala da doença de Davi, da qual nada sabemos na época em que Aitofel o abandonou, é melhor entendê-lo como referência a outro amigo que lhe foi infiel. Nosso Salvador aplica isso a Judas.

(1.) Como apóstolo, Judas teve o mais alto privilégio: comia pão com Cristo. Era íntimo dele e recebia seu favor; fazia parte de sua família e era um daqueles com quem Cristo tinha comunhão íntima.

Davi diz de seu amigo traidor: “Comia do meu pão”; mas Cristo, por ser pobre, não tinha pão que pudesse propriamente chamar de seu. Ele diz: “Comia pão comigo”; era pão recebido da bondade dos amigos que o sustentavam, do qual os discípulos também participavam, Judas entre eles.

Onde quer que Cristo fosse, Judas era bem-vindo. Não jantava entre os servos, mas se sentava à mesa com seu Mestre; comia do mesmo prato, bebia do mesmo cálice e, em todos os aspectos, era tratado como ele.

Comeu com Cristo o pão multiplicado pelo milagre e participou da Páscoa com ele. Repare: nem todos os que comem pão com Cristo são de fato seus discípulos. Veja 1 Coríntios 10:3-5.

(2.) Como apóstata, Judas foi culpado da mais vil traição: levantou contra Cristo o calcanhar. [1.] Abandonou-o, virou-lhe as costas e saiu do convívio dos discípulos (v. 30).

[2.] Desprezou-o, sacudiu contra ele o pó de seus pés, em desprezo por Cristo e por seu evangelho. Ou melhor, [3.] tornou-se seu inimigo: deu-lhe um golpe com o pé, como fazem os lutadores contra os adversários que querem derrubar.

Repare: não é novidade que aqueles que pareciam amigos de Cristo se revelem seus verdadeiros inimigos. Os que alegavam exaltá-lo se exaltam contra ele e, assim, provam ser culpados não apenas da mais vil ingratidão, mas também da mais vil traição e perfídia.

II. Cristo explica por que contou antecipadamente aos discípulos sobre a traição de Judas (v. 19): “Agora eu lhes digo isso antes que aconteça, antes que Judas comece a executar sua trama perversa, para que, quando se cumprir, em vez de tropeçarem por causa disso, sejam confirmados na crença de que eu sou aquele que havia de vir.”

  1. Pela visão clara e certa que tinha dos acontecimentos futuros, da qual deu provas incontestáveis neste e em outros casos, ele provou ser o verdadeiro Deus, diante de quem todas as coisas estão nuas e expostas.

Cristo predisse que Judas o trairia quando não havia motivo para suspeitar disso e, assim, provou ser a Palavra eterna, que discerne os pensamentos e as intenções do coração.

O cumprimento evidente das profecias do Novo Testamento sobre a apostasia dos últimos tempos (encontradas em 2 Tessalonicenses 2, 1 Timóteo 4 e no Apocalipse) prova que esses escritos foram divinamente inspirados e confirma nossa fé em todo o cânon das Escrituras.

  1. Ao aplicar a si mesmo os tipos e as profecias do Antigo Testamento, provou ser o verdadeiro Messias, de quem todos os profetas davam testemunho. Assim estava escrito, e assim era necessário que Cristo sofresse; e sofreu exatamente como estava escrito (Lucas 24:25, 26; João 8:28).

III. Cristo dá uma palavra de ânimo aos apóstolos e a todos os ministros que emprega em seu serviço (v. 20): “Quem recebe aquele que eu enviar, recebe a mim.” O sentido dessas palavras é igual ao de outras passagens das Escrituras, mas não é fácil perceber sua ligação aqui.

Cristo dissera aos discípulos que deviam humilhar-se e rebaixar-se. “Agora”, diz ele, “embora alguns os desprezem por sua humildade, outros os honrarão, e serão honrados por isso.”

Os que sabem que foram dignificados pela comissão de Cristo podem aceitar ser desprezados aos olhos do mundo. Ou Cristo pretendia silenciar as dúvidas dos que, por haver um traidor entre os apóstolos, ficariam receosos de receber qualquer um deles: se um deles foi infiel ao Mestre, a quem algum deles seria fiel? Ex uno disce omnes — “São todos iguais.”

Não: assim como Cristo não terá os outros em menor conta por causa do crime de Judas, ficará ao lado deles, reconhecerá que lhe pertencem e levantará pessoas que os recebam.

Os que receberam Judas quando ele pregava — talvez convertidos e edificados por sua pregação — não saíram prejudicados nem deveriam lamentar isso, embora mais tarde ele tenha se revelado traidor; afinal, era alguém enviado por Cristo.

Não podemos saber o que os homens são, muito menos o que serão; mas devemos receber os que parecem enviados por Cristo, até que se prove o contrário.

Embora alguns, ao acolherem desconhecidos, tenham recebido ladrões sem saber, ainda assim devemos ser hospitaleiros, pois alguns, desse modo, receberam anjos. Os abusos cometidos contra nossa caridade, mesmo quando a exercemos com toda a prudência, não justificam a falta de caridade nem nos privam da recompensa por ela.

  1. Somos animados a receber ministros enviados por Cristo: “Quem recebe qualquer enviado meu, ainda que fraco, pobre e sujeito às mesmas paixões que os demais (pois lei e evangelho fazem sacerdotes sujeitos à debilidade), se ele transmitir minha mensagem, for legitimamente chamado e designado para isso e dedicar-se como ministro à palavra e à oração, será reconhecido como meu amigo.”

Cristo estava prestes a deixar o mundo, mas deixaria uma ordem de homens como seus representantes, para expor sua palavra. Os que a recebem, à luz dela e por amor a ela, recebem a Cristo.

Crer na doutrina de Cristo, obedecer à sua lei e aceitar a salvação oferecida nos termos propostos: isso é receber aqueles que Cristo envia e receber o próprio Senhor Jesus Cristo.

  1. Somos aqui animados a receber Cristo como enviado por Deus: “Quem assim me recebe”, recebendo Cristo em seus ministros, “recebe também o Pai”, pois eles também vêm cumprir sua incumbência e batizam em nome do Pai, assim como do Filho.

Ou, de modo geral: quem me recebe como seu Príncipe e Salvador recebe aquele que me enviou como sua porção e felicidade. Cristo foi enviado por Deus; ao abraçarmos sua religião, abraçamos a única religião verdadeira.

IV. Cristo lhes comunica mais especificamente a trama que um deles então urdia contra ele (v. 21). Depois de falar de modo geral, preparando-os para uma revelação mais particular, Jesus se perturbou em espírito e mostrou isso por algum gesto ou sinal.

Então testemunhou, declarando solenemente — cum animo testandi, com a solenidade de uma testemunha sob juramento —: “Um de vós me trairá; um de vós, meus apóstolos e seguidores constantes.”

De fato, só se pode dizer que alguém o traiu se era uma pessoa em quem depositava confiança e que testemunhara seus momentos de recolhimento. Essa predição não determinou Judas ao pecado por nenhuma necessidade fatal; embora o desfecho tenha seguido a predição, não foi causado por ela.

Cristo não é o autor do pecado. Contudo, quanto a esse pecado hediondo de Judas:

  1. Cristo o previu, pois até o que é secreto, futuro e oculto aos olhos de todos os viventes está nu e descoberto diante dos olhos dele. Sabe o que há nos homens melhor do que eles próprios sabem (2 Reis 8:12) e, portanto, vê o que farão. “Eu sabia que procederias de modo muito traiçoeiro” (Isaías 48:8).

  2. Ele o predisse não apenas em favor dos demais discípulos, mas também de Judas, para que este recebesse o aviso e escapasse da armadilha do diabo. Traidores não prosseguem em suas tramas quando descobrem que foram desmascarados.

Certamente Judas, ao ver que seu Mestre conhece seu desígnio, recuará a tempo; se não o fizer, isso agravará sua condenação.

  1. Ele falou disso com evidente preocupação: perturbou-se em espírito ao mencioná-lo. Muitas vezes falara de seus próprios sofrimentos e de sua morte sem demonstrar a perturbação que mostrou agora, ao falar da ingratidão e da traição de Judas. Isso o atingiu num ponto sensível.

Repare: as quedas e os desvios dos discípulos de Cristo causam grande perturbação ao espírito de seu Mestre; os pecados dos cristãos são motivo de dor para Cristo.

“Como! Um de vós me trairá? Vós, que recebestes de mim favores tão especiais, de quem eu tinha motivo para esperar firmeza e que professastes tanto respeito por mim; que injustiça encontrastes em mim para que um de vós me traia?”

Isso lhe feriu o coração, assim como a desobediência dos filhos causa dor àqueles que os alimentaram e criaram (Isaías 1:2). Veja Salmos 95:10; Isaías 53:10.

V. Os discípulos logo ficam alarmados. Sabiam que seu Mestre não os enganaria nem brincaria com eles; por isso, olharam uns para os outros com evidente preocupação, sem saber de quem ele falava.

  1. Ao se olharem uns aos outros, mostraram a perturbação que o anúncio lhes causara. Ficaram tão horrorizados que mal sabiam para onde olhar ou o que dizer. Viram seu Mestre perturbado e, por isso, também ficaram perturbados.

Estavam num banquete em que eram recebidos com alegria; contudo, disso aprendemos a alegrar-nos com tremor e como se não nos alegrássemos. Quando Davi chorou pela rebelião de seu filho, todos os seus seguidores choraram com ele (2 Samuel 15:30); o mesmo ocorreu aqui com os discípulos de Cristo.

Repare: o que causa dor a Cristo causa, e deve causar, dor a todos os que são dele, especialmente as faltas escandalosas daqueles que levam seu nome: “Quem se escandaliza, sem que eu me abrase?”

  1. Desse modo, tentaram descobrir o traidor. Olhavam atentamente para o rosto uns dos outros, procurando ver quem corava ou revelava a culpa do coração por alguma alteração no semblante ao ouvir o anúncio.

Mas os fiéis tinham a consciência tão limpa que podiam levantar o rosto sem mancha, ao passo que o falso discípulo tinha a consciência tão cauterizada que não se envergonhava nem era capaz de corar. Assim, não conseguiram descobri-lo desse modo.

Cristo deixou seus discípulos perplexos e confusos por algum tempo para humilhá-los e prová-los, despertando neles desconfiança de si mesmos e indignação diante da vileza de Judas. Às vezes, é bom ficarmos perplexos e sermos levados a parar para refletir.

VI. Os discípulos estavam ansiosos para que o Mestre explicasse a quem se referia. Só isso poderia aliviá-los da aflição presente, pois cada um julgava ter tantos motivos para suspeitar de si mesmo quanto de qualquer de seus irmãos. Agora:

  1. Entre todos os discípulos, João era o mais indicado para perguntar, pois era o favorito e estava sentado junto do Mestre (v. 23): “Estava reclinado sobre o peito de Jesus um dos seus discípulos, a quem Jesus amava.” Pela comparação com João 21:20, 24, vemos que era João. Observe:

(1.) O carinho especial que Jesus tinha por ele. Era conhecido por esta expressão descritiva: o discípulo a quem Jesus amava. Amava todos eles (v. 1), mas João lhe era especialmente querido. Seu nome significa gracioso.

Daniel, honrado com as revelações do Antigo Testamento, como João foi com as do Novo, era um homem muito amado (Daniel 9:23). Repare: entre os discípulos de Cristo, alguns lhe são mais queridos do que outros.

(2.) Seu lugar e sua postura naquele momento: estava reclinado sobre o peito de Jesus. Alguns dizem que, naquelas regiões, havia o costume de comer reclinados, de modo que o segundo ficava junto ao peito do primeiro, e assim por diante.

Isso não me parece provável, pois nessa posição não poderiam comer nem beber com comodidade. Mas, fosse esse o costume ou não, João estava agora reclinado sobre o peito de Cristo, o que parece ter sido uma expressão extraordinária de afeto naquele momento.

Repare: há discípulos que Cristo acolhe em seu peito e que desfrutam de comunhão mais livre e íntima com ele do que outros. O Pai amou o Filho e o acolheu em seu peito (João 1:18); de modo semelhante, os crentes são um com Cristo (João 17:21).

Em breve, todos os santos terão essa honra no seio de Abraão. Aqueles que se colocam aos pés de Cristo serão acolhidos por ele em seu peito.

(3.) Contudo, João omite seu nome porque ele mesmo escreveu o relato. Usa aquela expressão em lugar do nome para mostrar que se alegrava com ela: seu título de honra era ser o discípulo a quem Jesus amava, assim como nas cortes de Davi e de Salomão havia alguém que era amigo do rei.

Ainda assim, não escreve seu nome, mostrando que não se orgulhava disso nem queria parecer gabar-se. Paulo, em situação semelhante, diz: “Conheci um homem em Cristo.”

  1. Entre todos os discípulos, Pedro era o mais ansioso por saber (v. 24). Sentado a certa distância, fez algum sinal a João para que perguntasse. Em geral, Pedro tomava a dianteira e era o mais disposto a se manifestar.

Quando o temperamento natural leva alguém a ter essa ousadia ao responder e perguntar, se for regido pela humildade e pela sabedoria, pode tornar essa pessoa muito útil. Deus distribui seus dons de maneiras diversas.

Mas, para que os que tomam a dianteira na igreja não se julguem superiores e os mais modestos não desanimem, convém notar que o discípulo amado era João, não Pedro.

Pedro desejava saber não apenas para ter certeza de que não era ele, mas também para que, descobrindo quem era, pudessem afastar-se do traidor, precaver-se contra ele e, se possível, impedir seu desígnio.

Poderíamos achar desejável saber quem na igreja nos enganará; contudo, baste-nos isto: Cristo sabe, ainda que nós não saibamos. Pedro não perguntou pessoalmente porque, graças ao lugar que ocupava à mesa, João tinha oportunidade muito melhor de sussurrar a pergunta ao ouvido de Cristo e receber uma resposta igualmente reservada.

É bom aproveitar nossa relação com aqueles que estão próximos de Cristo e pedir-lhes que orem por nós. Conhecemos alguém de quem tenhamos motivo para pensar que repousa no peito de Cristo? Peçamos a essa pessoa que diga uma boa palavra em nosso favor.

  1. A pergunta foi feita conforme o pedido (v. 25): reclinado sobre o peito de Jesus, e assim podendo sussurrar-lhe, João disse: “Senhor, quem é?” Aqui João demonstra:

(1.) Consideração por seu condiscípulo e pelo gesto que ele fizera. Embora Pedro não desfrutasse da honra de João naquele momento, ainda assim João não desprezou por isso o sinal e a sugestão que recebeu dele.

Repare: os que repousam no peito de Cristo muitas vezes podem aprender algo útil com os que se colocam aos seus pés e ser lembrados de algo em que não haviam pensado por si mesmos. João estava disposto a atender Pedro, pois tinha boa oportunidade de fazê-lo.

Conforme o dom que cada um recebeu, assim deve empregá-lo para o bem comum (1 Pedro 4:10).

(2.) Reverência por seu Mestre. Embora lhe sussurrasse ao ouvido, chamou-o de Senhor. A intimidade que lhe fora concedida não diminuía em nada o respeito pelo Mestre.

Convém-nos usar palavras respeitosas e guardar o decoro até em nossas devoções secretas, das quais nenhum olhar humano é testemunha, assim como nas reuniões públicas. Quanto mais íntima a comunhão que as almas agraciadas têm com Cristo, mais sentem o quanto ele é digno e o quanto elas são indignas (Gênesis 18:27).

  1. Cristo respondeu prontamente à pergunta, mas sussurrou a resposta ao ouvido de João, pois os demais ainda ignoravam o assunto, como mostra o v. 29. Ele disse que o traidor seria aquele a quem desse um bocado — psomion, um pedaço, uma crosta — depois de mergulhá-lo no molho.

Quando mergulhou o bocado, João observou atentamente seu movimento, e Jesus o deu a Judas. Judas o aceitou prontamente, sem suspeitar de seu desígnio, satisfeito por receber um bocado saboroso que lhe deixasse bom gosto na boca.

(1.) Cristo identificou o traidor por um sinal. Poderia ter dito a João quem era, mencionando seu nome: “O adversário e inimigo é aquele perverso Judas; ele é o traidor, e nenhum outro”. Contudo, quis exercitar a capacidade de observação de João e indicar como seus ministros precisam de um espírito de discernimento.

Os falsos irmãos contra os quais devemos nos prevenir não nos são identificados por palavras, mas por sinais; devem ser reconhecidos por seus frutos e por seu espírito. Formar um juízo correto a respeito deles requer muita diligência e zelo.

(2.) O sinal foi o bocado que Cristo lhe deu, um sinal muito apropriado porque cumpria a Escritura (v. 18): o traidor seria alguém que comia pão com ele e, naquele momento, compartilhava sua mesa. O gesto também tinha um significado e nos ensina:

[1.] Que às vezes Cristo dá bocados a traidores. Riquezas, honras e prazeres deste mundo são bocados — se assim posso dizer — que a Providência às vezes põe nas mãos de homens maus.

Talvez Judas tenha se julgado favorecido por receber o bocado, como Benjamim à mesa de José, com uma porção só para si. Assim, a prosperidade dos insensatos, como um bocado que entorpece, contribui para destruí-los.

[2.] Que não devemos reagir com fúria contra aqueles que sabemos ser muito maliciosos conosco. Cristo serviu Judas com a mesma bondade com que serviu os outros à mesa, embora soubesse que ele tramava sua morte. “Se teu inimigo tiver fome, alimenta-o”; agir assim é seguir o exemplo de Cristo.

VII. Judas, em vez de ser convencido por isso de sua maldade, ficou ainda mais confirmado nela; e o aviso que lhe foi dado foi para ele aroma de morte para a morte; pois o relato prossegue:

  1. Então o diabo tomou posse dele (v. 27): “Depois do bocado, Satanás entrou nele.” Não para torná-lo melancólico, nem para levá-lo à loucura, como ocorreu com alguns dos que ele possuiu; nem para precipitá-lo no fogo ou na água — teria sido melhor para ele se isso fosse o pior, ou se, junto com os porcos, tivesse sido afogado no mar.

Mas Satanás entrou nele para dominá-lo com um preconceito arraigado contra Cristo e sua doutrina, e com desprezo por ele, como alguém cuja vida tinha pouco valor; para despertar nele o desejo cobiçoso do salário da injustiça e a resolução de não recuar diante de nada para obtê-lo.

Mas (1.) Satanás já não estava nele antes? Como, então, se diz que agora Satanás entrou nele? Judas sempre foi um diabo (João 6:70), um filho da perdição; mas agora Satanás conquistou uma posse mais plena dele, entrou nele mais abundantemente.

Seu propósito de trair o Mestre agora amadurecera e se tornara uma resolução firme; agora ele voltou com outros sete espíritos mais perversos do que ele (Lucas 11:26).

Repare: [1.] Embora o diabo esteja em todo homem perverso que pratica as obras dele (Efésios 2:2), ainda assim às vezes entra de modo mais evidente e poderoso do que em outras, quando os leva a alguma maldade monstruosa, diante da qual a humanidade e a consciência natural recuam.

[2.] Os que traem Cristo têm muito do diabo dentro de si. Cristo fala do pecado de Judas como maior do que o de qualquer um de seus perseguidores.

(2.) Como Satanás veio a entrar nele depois do bocado? Talvez Judas tenha percebido imediatamente que fora descoberto, e isso o tenha levado ao desespero em suas resoluções. Muitos pioram por causa dos dons da generosidade de Cristo e são confirmados em sua impenitência por aquilo que deveria tê-los levado ao arrependimento.

As brasas de fogo amontoadas sobre a cabeça deles, em vez de derretê-los, os endurecem.

  1. Então Cristo o dispensou e o entregou aos desejos de seu próprio coração: Jesus lhe disse: “O que fazes, faze depressa”. Isso não deve ser entendido como se Cristo o aconselhasse a praticar sua maldade ou a autorizasse; pode ser, porém, uma destas duas coisas: (1.) Cristo o abandonava à direção e ao poder de Satanás.

Cristo sabia que Satanás entrara nele e estava de posse tranquila; agora, então, entrega Judas como alguém sem esperança. Os diversos meios que Cristo empregara para convencê-lo foram inúteis.

Por isso: “O que você está fazendo, fará depressa; se está decidido a arruinar a si mesmo, vá em frente e arque com as consequências”. Repare: quando o espírito maligno é recebido de bom grado, o bom Espírito se retira com justiça.

Ou (2.) Cristo o desafiava a fazer o pior que pudesse: “Você está tramando contra mim; ponha seu plano em execução, e seja bem-vindo. Quanto antes, melhor. Não tenho medo de você; estou pronto para enfrentá-lo”. Repare: nosso Senhor Jesus estava muito disposto a sofrer e morrer por nós, e não suportava demora para levar sua missão até o fim.

Cristo fala da traição de Judas como algo que ele já estava fazendo, embora apenas a estivesse planejando. Os que maquinam danos e têm o desígnio de causá-los, aos olhos de Deus, já estão causando danos.

  1. Os que estavam à mesa não entenderam o que ele queria dizer, pois não ouviram o que sussurrou a João (v. 28, 29): ninguém à mesa, nem os discípulos nem qualquer outro convidado, exceto João, sabia com que intenção ele lhe dissera aquilo.

(1.) Eles não suspeitaram que Cristo falava a Judas como a um traidor, pois nem sequer lhes passava pela cabeça que Judas fosse assim ou viesse a se tornar tal pessoa. Repare: é uma falta de discernimento desculpável nos discípulos de Cristo não serem perspicazes em suas censuras.

A maioria está sempre pronta a dizer, ao ouvir palavras duras ditas em termos gerais: “É de fulano que ele está falando; agora é de sicrano”. Mas aos discípulos de Cristo fora tão bem ensinado que amassem uns aos outros que não aprenderam facilmente a suspeitar uns dos outros; o amor não suspeita mal.

(2.) Por isso, deram por certo que ele lhe falava como administrador ou tesoureiro da casa, dando-lhe ordens para gastar algum dinheiro. As suposições deles nesse caso nos mostram para que usos e propósitos nosso Senhor Jesus costumava dirigir os pagamentos daquele pequeno fundo que possuía; assim, ensinam-nos a honrar o Senhor com nossos bens.

Concluíram que algo deveria ser comprado, seja [1.] para obras de piedade: “Compra aquilo de que necessitamos para a festa”. Embora tivesse tomado emprestado um cômodo para celebrar a Páscoa, ainda assim comprou provisões para ela.

Deve ser considerado bem empregado o que se gasta naquilo de que precisamos para manter entre nós as ordenanças de Deus; e agora temos menos motivo para nos queixar dessa despesa, pois nosso culto evangélico está longe de ser tão dispendioso quanto era o culto da lei.

[2.] Ou para obras de caridade: que ele desse alguma coisa aos pobres. Isso mostra, primeiro, que nosso Senhor Jesus, embora vivesse de ofertas (Lucas 8:3), também dava esmolas aos pobres, tirando um pouco do pouco que tinha.

Ele poderia muito bem ser dispensado disso, não só porque era pobre, mas porque fazia muito bem de outras maneiras, curando tantas pessoas gratuitamente; ainda assim, para nos dar exemplo, contribuiu para socorrer os pobres com aquilo que tinha para o sustento de sua família; veja Efésios 4:28.

Segundo, mostra que o tempo de uma festa religiosa era considerado apropriado para obras de caridade. Quando celebrou a Páscoa, Jesus mandou separar algo para os pobres. Quando experimentamos a generosidade de Deus para conosco, isso deve nos levar a ser generosos com os pobres.

  1. Então Judas se pôs vigorosamente a executar seu desígnio contra Jesus: foi embora. Observemos:

(1.) A rapidez de sua partida: saiu imediatamente e deixou a casa, [1.] por medo de ser descoberto mais claramente pelos presentes, pois, se isso acontecesse, esperava que todos caíssem sobre ele e o matassem, ou pelo menos arruinassem seu desígnio.

[2.] Saiu como alguém cansado da companhia de Cristo e do convívio com os apóstolos. Cristo não precisou expulsá-lo; ele mesmo se expulsou. Repare: afastar-se da comunhão dos fiéis costuma ser o primeiro ato manifesto de quem se desvia e o início de uma apostasia.

[3.] Saiu para executar seu desígnio, procurar aqueles com quem faria o negócio e acertar o trato com eles. Agora que Satanás o dominava, apressava-o precipitadamente, para que não percebesse seu erro e se arrependesse.

(2.) O momento de sua partida: era noite. [1.] Embora fosse noite, hora imprópria para negócios, Satanás entrara nele, e Judas não se incomodou com o frio e a escuridão da noite.

Isso deve nos envergonhar de nossa preguiça e covardia no serviço de Cristo: os servos do diabo são tão zelosos e ousados a serviço dele. [2.] Era noite, o que lhe dava a vantagem do sigilo e do ocultamento.

Ele não queria ser visto tratando com os principais sacerdotes e, por isso, escolheu a noite escura como o momento mais adequado para tais obras das trevas. Os que praticam o mal amam mais as trevas do que a luz. Veja Jó 24:13, etc..

Versículos 31 a 35

A Partida de Cristo, Predita.

Este e o que vem a seguir, até o fim de João 14, foi a conversa de Cristo à mesa com seus discípulos. Quando terminou a ceia, Judas saiu; mas o que fizeram o Mestre e os discípulos que ele deixou sentados à mesa?

Eles se dedicaram a uma conversa proveitosa, para nos ensinar a tornar, tanto quanto pudermos, a comunhão com nossos amigos à mesa úteis à religião. Cristo começa essa conversa. Quanto mais nos empenhamos humildemente em promover uma comunicação boa e voltada à edificação, mais nos parecemos com Jesus Cristo.

Sobretudo aqueles que, por sua posição, reputação e dons, têm influência sobre a companhia e são ouvidos pelos outros devem usar a influência que têm em outros aspectos como oportunidade para lhes fazer o bem. Nosso Senhor Jesus conversa com eles (provavelmente de maneira muito mais extensa do que está registrado aqui):

I. Sobre o grande mistério de sua própria morte e seus sofrimentos, a respeito do qual eles ainda estavam tão às escuras que não conseguiam se convencer de que o acontecimento em si ocorreria, muito menos entendiam seu significado. Por isso, Cristo lhes dá instruções que faziam cessar o escândalo da cruz.

Cristo só começou essa conversa depois que Judas saiu, pois ele era um falso irmão. A presença de pessoas perversas muitas vezes é um impedimento à conversa proveitosa.

Quando Judas saiu, Cristo disse: “Agora o Filho do homem é glorificado” — agora que Judas foi desmascarado e afastado, ele que era uma mancha no banquete de amor deles e um escândalo para sua família, “agora o Filho do homem é glorificado”.

Repare: Cristo é glorificado quando os convívios cristãos são purificados. As corrupções em sua igreja são um descrédito para ele; a remoção dessas corrupções afasta esse descrédito.

Ou, antes, Judas agora saíra para pôr as rodas em movimento, a fim de que Cristo fosse morto, e era provável que isso se concretizasse em breve: “Agora o Filho do homem é glorificado”, isto é, agora ele é crucificado.

  1. Aqui há algo muito consolador que Cristo lhes ensina a respeito de seus sofrimentos:

(1.) Que ele próprio seria glorificado por meio deles. O Filho do homem agora seria exposto à maior ignomínia e desonra, tratado com extremo desprezo e desonrado tanto pela covardia de seus amigos como pela insolência de seus inimigos; contudo, agora seria glorificado. Pois:

[1.] Agora obteria uma vitória gloriosa sobre Satanás e todos os poderes das trevas, despojando-os e triunfando sobre eles. Agora está cingindo a armadura para enfrentar esses adversários de Deus e dos homens, com uma segurança tão grande como se já a tivesse deposto.

[2.] Agora realizaria uma libertação gloriosa para seu povo: por sua morte, os reconciliaria com Deus e traria justiça e felicidade eternas para eles. Derramaria aquele sangue que seria uma fonte inesgotável de alegrias e bênçãos para todos os que creem.

[3.] Agora daria um exemplo glorioso de renúncia e paciência debaixo da cruz, coragem e desprezo pelo mundo, zelo pela glória de Deus e amor pelas almas humanas; um exemplo que faria com que ele fosse admirado e honrado para sempre.

Cristo fora glorificado por muitos milagres que realizara; contudo, fala de sua glorificação agora, em seus sofrimentos, como se ela superasse todas as outras glórias de seu estado humilde.

(2.) Que Deus Pai seria glorificado por meio deles. Os sofrimentos de Cristo eram [1.] a satisfação da justiça de Deus; assim, Deus era glorificado por meio deles. A ofensa feita à honra de Deus pelo pecado humano foi reparada com grandes vantagens.

Os fins da lei foram plenamente atendidos, e a glória do governo de Deus foi efetivamente afirmada e mantida. [2.] Os sofrimentos de Cristo manifestaram a santidade e a misericórdia de Deus.

Os atributos de Deus brilham na criação e na providência, mas ainda mais na obra da redenção; veja 1 Coríntios 1:24; 2 Coríntios 4:6. Deus é amor, e assim demonstrou seu amor.

(3.) Que ele próprio seria grandemente glorificado depois deles, visto que Deus seria grandemente glorificado por meio deles (v. 32). Observe como Jesus desenvolve esse assunto:

[1.] Ele tem certeza de que Deus o glorificará; e aqueles que Deus glorifica são de fato gloriosos. O inferno e a terra se uniram para aviltar Cristo, mas Deus resolveu glorificá-lo, e assim o fez.

Deus o glorificou em seus sofrimentos por meio dos sinais e maravilhas espantosos, tanto no céu quanto na terra, que os acompanharam e arrancaram até mesmo dos que o crucificaram o reconhecimento de que ele era o Filho de Deus. Mas o glorificou sobretudo depois de seus sofrimentos, quando o colocou à sua direita e lhe deu um nome acima de todo nome.

[2.] Que Deus o glorificará em si mesmo — en heauto. Ou, primeiro, em Cristo mesmo: Deus o glorificará em sua própria pessoa, e não apenas em seu reino entre os homens. Isso pressupõe sua ressurreição em breve.

Uma pessoa comum pode ser honrada depois da morte em sua memória ou em sua posteridade, mas Cristo foi honrado em si mesmo. Ou, em segundo lugar, em Deus mesmo: Deus o glorificará consigo mesmo, como se explica em João 17:5.

Ele se assentará com o Pai em seu trono (Apocalipse 3:21). Essa é a verdadeira glória. [3.] Que Deus o glorificará imediatamente. Jesus considerava a alegria e a glória que lhe estavam propostas não apenas grandes, mas próximas; e suas tristezas e sofrimentos, breves e prestes a terminar.

Os bons serviços prestados aos príncipes terrenos muitas vezes ficam muito tempo sem recompensa; mas Cristo recebeu seus cargos imediatamente. Passaram-se apenas quarenta horas, ou menos, entre sua morte e sua ressurreição, e quarenta dias entre ela e sua ascensão; portanto, podia-se dizer com razão que ele foi glorificado imediatamente (Salmos 16:10).

[4.] Tudo isso se dá porque Deus é glorificado em seus sofrimentos e por meio deles: visto que Deus é glorificado em Cristo e recebe honra de seus sofrimentos, também o glorificará em si mesmo e lhe dará honra.

Repare: primeiro, na exaltação de Cristo, levou-se em conta sua humilhação, pela qual ele recebeu uma recompensa. Porque se humilhou, Deus o exaltou sobremaneira.

Se o Pai obtém tanto em sua glória por meio da morte de Cristo, podemos ter certeza de que o Filho não perderá nada da sua. Veja a aliança entre eles (Isaías 53:12). Segundo, os que se dedicam a glorificar a Deus certamente terão a felicidade de ser glorificados com ele.

  1. Aqui há algo que Cristo lhes ensina a respeito de seus sofrimentos que serve para despertá-los, pois ainda eram lentos de coração para compreendê-los (v. 33): “Filhinhos, ainda por um pouco estou convosco”, etc. Cristo lhes apresenta duas coisas para estimulá-los a aproveitar as oportunidades que ainda tinham; são duas palavras solenes:

(1.) Que eles descobririam que seria muito breve sua permanência neste mundo junto deles. “Filhinhos.” Essa forma de tratamento não destaca tanto a fraqueza deles quanto a ternura e a compaixão de Jesus; ele lhes fala com o afeto de um pai, prestes a deixá-los e a deixar-lhes bênçãos.

Saibam, então, que “ainda por um pouco estou convosco”. Quer entendamos isso como referência à morte ou à ascensão de Jesus, dá praticamente no mesmo: ele tinha pouco tempo para passar com eles. Portanto, [1.] que aproveitassem a vantagem que tinham naquele momento.

Se tinham alguma boa pergunta, ou queriam conselho, instrução ou consolo, que falassem depressa, pois “ainda por um pouco estou convosco”. Devemos aproveitar ao máximo as ajudas que temos para a alma enquanto as temos, porque não as teremos por muito tempo; elas serão tiradas de nós, ou nós seremos tirados delas.

[2.] Que não se apegassem excessivamente à presença física dele como se sua felicidade e seu consolo dependessem dela. Não: precisavam pensar em viver sem ela, não permanecer sempre como criancinhas, mas caminhar sozinhos, sem suas amas.

Os meios e recursos são designados apenas por pouco tempo; não devemos repousar neles, mas seguir por meio deles até nosso descanso, para o qual apontam.

(2.) Que eles descobririam que seria muito difícil segui-lo ao outro mundo, para estar com ele. O que Jesus dissera aos judeus (João 7:34), disse também aos discípulos, pois eles precisavam ser estimulados pelas mesmas considerações apresentadas para convencer e despertar os pecadores.

Cristo lhes diz aqui, [1.] Que sentiriam falta dele quando partisse: “Vós me buscareis”, isto é, “desejareis ter-me novamente convosco”. Muitas vezes nos é ensinado o valor das misericórdias pela falta delas.

Embora a presença do Consolador lhes desse alívio real e eficaz nos apertos e dificuldades, ainda assim não era uma satisfação tão palpável quanto teria sido a presença física de Jesus para aqueles que estavam acostumados a ela. Mas observe: Cristo disse aos judeus: “Vós me buscareis e não me achareis”; aos discípulos, porém, disse apenas: “Vós me buscareis”.

Com isso, indicava que, embora não encontrassem sua presença física mais do que os judeus a encontrariam, ainda assim encontrariam algo equivalente e não o buscariam em vão. Quando procuraram seu corpo no sepulcro, embora não o tivessem encontrado, ainda assim o buscaram com bom propósito.

[2.] Que não poderiam ir para onde ele iria. Isso lhes sugere pensamentos elevados a respeito dele, que se dirigia a um mundo invisível e inacessível, para habitar na luz à qual ninguém pode chegar; e também pensamentos modestos a respeito de si mesmos e pensamentos sérios sobre seu estado futuro.

Cristo lhes diz que não poderiam segui-lo, assim como Josué disse ao povo que não poderiam servir ao Senhor, apenas para estimulá-los a agir com ainda mais diligência e zelo. Não poderiam segui-lo até a cruz, pois lhes faltavam coragem e determinação; isso ficou evidente quando todos o abandonaram e fugiram.

Tampouco poderiam segui-lo até a coroa, pois não tinham suficiência própria, e seu trabalho e combate ainda não haviam terminado.

II. Jesus conversa com eles sobre o grande dever do amor fraternal (v. 34, 35): vocês amarão uns aos outros. Judas acabara de sair e se mostrara um falso irmão; mas, por isso, eles não deviam alimentar suspeitas e desconfianças uns dos outros, que seriam a ruína do amor.

Embora houvesse um Judas entre eles, ainda assim nem todos eram Judas. Agora que a inimizade dos judeus contra Cristo e seus seguidores crescia até o auge, e eles deviam esperar o mesmo tratamento que seu Mestre recebera, cabia-lhes fortalecer as mãos uns dos outros pelo amor fraternal. Três razões em favor do amor mútuo são apresentadas:

  1. A ordem do Mestre (v. 34): “Um novo mandamento vos dou”. Jesus não apenas o recomenda como amável e agradável, nem apenas o aconselha como excelente e proveitoso; ele o ordena e o torna uma das leis fundamentais de seu reino.

Essa ordem acompanha a de crer em Cristo (1 João 3:23; 1 Pedro 1:22). É a ordem de nosso soberano, que tem o direito de nos dar leis; é a ordem de nosso Redentor, que nos dá essa lei para curar nossas enfermidades espirituais e nos preparar para a bem-aventurança eterna.

É um novo mandamento, isto é, (1.) um mandamento renovado. Ele existe desde o princípio (1 João 2:7), é tão antigo quanto a lei da natureza e era o segundo grande mandamento da lei de Moisés.

Contudo, por também ser um dos grandes mandamentos do Novo Testamento, de Cristo, o novo Legislador, é chamado de novo mandamento; é como um livro antigo numa nova edição, revista e ampliada.

Esse mandamento foi tão corrompido pelas tradições da igreja judaica que, quando Cristo o restaurou e o apresentou sob sua verdadeira luz, podia muito bem ser chamado de novo mandamento.

As leis da vingança e da retaliação estavam tão em voga, e o amor próprio tinha tanto domínio, que a lei do amor fraternal fora esquecida como obsoleta e fora de uso. Assim, ao vir renovado de Cristo, era novo para o povo.

(2.) É um mandamento excelente, como é excelente um cântico novo, que tem em si um encanto incomum. (3.) É um mandamento eterno, tão extraordinariamente novo que permanece sempre novo.

É como a nova aliança, que nunca envelhecerá (Hebreus 8:13); o mandamento será novo por toda a eternidade, quando a fé e a esperança estiverem ultrapassadas. (4.) É novo na forma como Cristo o apresenta.

Antes era: “Amarás o teu próximo”; agora é: vocês amarão uns aos outros. A ordem é apresentada de maneira mais cativante quando assim se apresenta como dever mútuo que temos uns para com os outros.

  1. O exemplo do Salvador é outra razão em favor do amor fraternal: “Como eu vos amei”. É isso que torna o mandamento novo: essa regra e motivo do amor — “como eu vos amei” — é inteiramente nova e esteve oculta por séculos e gerações.

Entenda isso, (1.) à luz de todas as demonstrações do amor de Cristo por seus discípulos, que eles já haviam experimentado enquanto ele entrava e saía entre eles. Falou-lhes com bondade, preocupou-se sinceramente com eles e com seu bem-estar, instruiu-os, aconselhou-os e consolou-os, orou com eles e por eles.

Defendeu-os quando eram acusados, tomou o partido deles quando eram atacados e declarou publicamente que lhe eram mais queridos do que sua mãe, irmã ou irmão. Censurou-os pelo que estava errado, mas suportou com compaixão suas falhas, desculpou-os, fez deles a avaliação mais favorável e relevou muitos descuidos.

Foi assim que os amou; e acabara de lavar-lhes os pés. Eles também deviam amar uns aos outros e amar até o fim. Ou (2.) isso pode ser entendido como referência à demonstração especial de amor que Jesus estava prestes a dar a todos os seus discípulos, entregando a vida por eles.

“Ninguém tem maior amor do que este” (João 15:13). Ele nos amou a todos assim? Pode esperar, com razão, que amemos uns aos outros. Não somos capazes de fazer uns pelos outros algo da mesma natureza (Salmos 49:7), mas devemos amar uns aos outros de maneira semelhante em certos aspectos.

Devemos ter esse amor diante de nós como modelo e seguir suas orientações. Nosso amor uns pelos outros deve ser livre e pronto, laborioso e custoso, constante e perseverante; deve ser amor pelas almas uns dos outros.

Também devemos amar uns aos outros por esse motivo e com essa consideração: Cristo nos amou. Veja Romanos 15:1, 3; Efésios 5:2, 25; Filipenses 2:1-5.

  1. A reputação de sua profissão de fé (v. 35): “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros”. Observe: devemos ter amor, não apenas demonstrá-lo, mas tê-lo em sua raiz e hábito, mesmo quando não há ocasião presente para demonstrá-lo; devemos estar sempre prontos para isso.

“Por isso se verá que sois de fato meus seguidores, por me seguirdes nisso.” Repare: o amor fraternal é o distintivo dos discípulos de Cristo. Cristo os reconhece por esse amor; por ele eles podem reconhecer a si mesmos (1 João 2:14), e os outros também podem reconhecê-los.

Esse é o uniforme de sua família, a marca distintiva de seus discípulos. Cristo queria que fossem conhecidos por isso, por superarem todos os outros nesse aspecto: amarem uns aos outros.

O amor era aquilo pelo qual seu Mestre era conhecido. Todos os que já ouviram falar dele também ouviram falar de seu amor, de seu grande amor. Portanto, se vocês virem pessoas mais afetuosas umas com as outras do que é comum, digam: “Certamente são seguidores de Cristo; estiveram com Jesus”.

Isso mostra, (1.) Que o coração de Cristo estava muito empenhado em que seus discípulos amassem uns aos outros. Nisso deviam ser diferentes: enquanto o mundo vive cada um por si, eles deviam dedicar-se sinceramente uns aos outros.

Ele não diz: Por isso os homens saberão que vocês são meus discípulos, se fizerem milagres, pois quem faz milagres é um zero sem amor (1 Coríntios 13:1, 2); mas, se amarem uns aos outros por um princípio de renúncia de si mesmos e gratidão a Cristo.

Cristo queria que esse amor fosse o proprium de sua religião, a principal marca da verdadeira igreja. (2.) Que a verdadeira honra dos discípulos de Cristo é se destacarem no amor fraternal.

Nada será mais eficaz para recomendá-los à estima e ao respeito dos outros. Veja que poderosa atração era esse amor (Atos 2:46, 47). Tertuliano o apresenta como a glória da igreja primitiva: os cristãos eram conhecidos pelo afeto que tinham uns pelos outros.

Seus adversários também reparavam nisso e diziam: “Vejam como esses cristãos se amam!” (Apologia, cap. 39). (3.) Que, se os seguidores de Cristo não amam uns aos outros, não apenas lançam um descrédito injusto sobre sua profissão de fé, mas dão motivo justo para que se duvide de sua sinceridade.

“Ó Jesus! São estes os teus cristãos, pessoas passionais, maliciosas, rancorosas e grosseiras? É esta a túnica de teu filho?”

Quando nossos irmãos precisam de nossa ajuda e temos oportunidade de lhes ser úteis, quando discordam de nós em opinião e prática, ou de algum modo rivalizam conosco ou nos provocam, e assim temos ocasião de condescender e perdoar, em situações assim se saberá se temos esse distintivo dos discípulos de Cristo.

Versículos 36 a 38

A Autoconfiança de Pedro.

Nestes versículos, temos:

I. A curiosidade de Pedro e a correção que recebeu:

  1. A pergunta de Pedro foi ousada e direta (v. 36): “Senhor, para onde vais?” Referia-se ao que Cristo dissera (v. 33): “Para onde vou, não podeis vir.”

Pedro deixa de lado as instruções práticas que Cristo lhes dera sobre o amor fraternal e não faz nenhuma pergunta sobre elas. Em vez disso, prende-se justamente ao assunto que Cristo de propósito lhes mantivera oculto.

Repare: é comum entre nós indagar mais sobre coisas secretas, que pertencem somente a Deus, do que sobre as reveladas, que pertencem a nós e a nossos filhos. Desejamos mais satisfazer nossa curiosidade do que orientar nossa consciência; preferimos saber o que se faz no céu a saber o que podemos fazer para chegar lá.

Isso se observa facilmente na comunhão entre cristãos: logo se abandona um assunto claro e edificante, sem mais nada a dizer sobre ele, como se estivesse esgotado; já uma questão controversa se transforma em contenda interminável de palavras.

  1. A resposta de Cristo foi instrutiva. Ele não satisfez a curiosidade de Pedro com detalhes sobre o mundo para onde ia, nem jamais anunciou suas glórias e alegrias com a mesma clareza com que anunciou seus sofrimentos. Disse, porém, o que já dissera (v. 36): basta isto: “Não podes seguir-me agora, mas seguir-me-ás depois.”

(1.) Podemos entender isso como segui-lo até a cruz: “Ainda não tens fé e determinação suficientes para beber do meu cálice.” Sua covardia durante os sofrimentos de Cristo mostrou que era assim.

Por esse motivo, quando Cristo foi preso, cuidou da segurança de seus discípulos: “Deixai ir estes”, pois não podiam segui-lo naquele momento. Cristo considera a condição de seus discípulos e não lhes destina trabalho e agruras para os quais ainda não estão preparados; cada dia será conforme as forças que tiverem.

Embora estivesse destinado ao martírio, Pedro não podia seguir Cristo naquele momento, pois ainda não atingira plena maturidade. Mas o seguiria depois: por fim, seria crucificado como seu Mestre.

Não pense Pedro que, por escapar do sofrimento agora, jamais sofrerá. O fato de escaparmos uma vez da cruz não nos autoriza a concluir que nunca a encontraremos; podemos estar reservados para provas maiores do que todas as que já conhecemos.

(2.) Podemos entendê-lo como segui-lo até a coroa. Cristo estava a caminho da glória, e Pedro desejava muito acompanhá-lo. “Não”, diz Cristo, “não podes seguir-me agora. Ainda não estás maduro para o céu nem terminaste tua obra na terra.”

“O precursor precisa entrar primeiro para preparar um lugar para ti; mas tu me seguirás depois, quando tiveres combatido o bom combate e chegar o tempo designado.”

Repare: os crentes não devem esperar ser glorificados assim que forem efetivamente chamados, pois há um deserto entre o mar Vermelho e Canaã.

II. A confiança de Pedro e a correção que recebeu:

  1. Pedro faz uma ousada declaração de sua constância. Não se conforma em ficar para trás e pergunta: “Senhor, por que não posso seguir-te agora? Duvidas de minha sinceridade e determinação? Prometo-te que, se for preciso, darei minha vida por ti.”

Alguns pensam que Pedro tinha uma suposição semelhante à dos judeus em situação parecida (João 7:35): Cristo tinha o desígnio de fazer uma viagem por terra ou por mar a algum lugar distante, e Pedro declarava sua decisão de acompanhá-lo aonde quer que fosse.

Mas, como ouvira tantas vezes seu Mestre falar dos próprios sofrimentos, certamente não podia entender sua partida de outro modo senão pela morte. Como Tomé, decidiu ir e morrer com ele; preferia morrer com Cristo a viver sem ele. Veja aqui:

(1.) O amor afetuoso que Pedro tinha por nosso Senhor Jesus: “Darei minha vida por ti, e não posso fazer mais do que isso.” Creio que Pedro disse o que pensava; embora imprudente, não era insincero em sua decisão.

Repare: Cristo deve ser mais querido para nós do que nossa própria vida. Por isso, quando formos chamados a fazê-lo, devemos estar dispostos a entregá-la por sua causa (Atos 20:24).

(2.) Como se ressentiu de ver isso posto em dúvida, como indica sua contestação: “Senhor, por que não posso seguir-te agora? Suspeitas de minha fidelidade a ti?” (1 Samuel 29:8).

Repare: o verdadeiro amor sofre ao ouvir sua sinceridade posta sob acusação, como em João 21:17. Cristo de fato dissera que um deles era um diabo, mas esse já fora identificado e havia saído. Por isso, Pedro julgava poder falar com mais segurança de sua própria sinceridade: “Senhor, estou decidido a nunca te deixar; então, por que não posso seguir-te?”

Tendemos a pensar que podemos fazer qualquer coisa e nos ofendemos quando nos dizem que não podemos fazer isto ou aquilo, ao passo que, sem Cristo, nada podemos fazer.

  1. Cristo lhe faz uma previsão surpreendente de sua inconstância (v. 38). Jesus Cristo nos conhece melhor do que nós mesmos e tem muitas maneiras de fazer aqueles a quem ama conhecerem a si mesmos e de resguardá-los do orgulho.

(1.) Repreende Pedro por sua autoconfiança: “Darás tua vida por mim?” Parece-me que o disse com um sorriso: “Pedro, tuas promessas são grandiosas e extravagantes demais para que se possa confiar nelas.”

“Não consideras com quanta relutância e luta se entrega uma vida, nem como é árduo morrer; não é coisa que se faça tão depressa quanto se diz.”

Com isso, Cristo leva Pedro a reconsiderar, não para que revogue sua decisão ou recue, mas para que acrescente a ela esta ressalva necessária: “Senhor, se tua graça me capacitar, darei minha vida por ti.”

“Assumes o compromisso de morrer por mim? Como! Tu, que tremeste quando caminhavas sobre a água em minha direção? Tu, que, ao ouvir falar de sofrimentos, exclamaste: ‘Longe de ti isso, Senhor!’? Foi fácil deixar teus barcos e tuas redes para me seguir, mas não é tão fácil entregar tua vida.”

O próprio Mestre lutou quando chegou a hora de entregar a vida, e o discípulo não é maior que seu Senhor. Repare: é bom que nos envergonhemos de nossa presunçosa confiança em nós mesmos.

Pode uma cana ferida se apresentar como coluna, ou uma criança doente se oferecer como campeã? “Que tolo sou ao me vangloriar assim!”

(2.) Prediz claramente a covardia de Pedro na hora decisiva. Para calar sua vanglória, para que Pedro não repetisse: “Sim, Mestre, farei isso”, Cristo declara solenemente: “Em verdade, em verdade te digo que o galo não cantará até que me tenhas negado três vezes.”

Ele não diz, como disse depois, “esta noite”, pois parece que isso ocorreu duas noites antes da Páscoa. Mas anuncia: “Em breve me terás negado três vezes no espaço de uma só noite; ou melhor, num intervalo tão curto quanto o que separa o primeiro e o último canto do galo.”

“O galo não cantará, não terá terminado de cantar, até que me tenhas negado repetidas vezes, por medo de sofrer.” O canto do galo é mencionado por dois motivos:

[1.] Para indicar que a prova na qual Pedro fracassaria ocorreria durante a noite. Era uma circunstância improvável, mas o fato de Cristo predizê-la foi uma demonstração de sua presciência infalível.

[2.] Porque o canto do galo seria a ocasião do arrependimento de Pedro, o que não teria ocorrido por si só se Cristo não houvesse incluído esse detalhe na previsão.

Cristo não apenas previu que Judas o trairia, embora este só tivesse esse desígnio em seu coração; também previu que Pedro o negaria, embora Pedro não tivesse o desígnio de fazê-lo, mas o contrário. Cristo conhece tanto a maldade dos pecadores quanto a fraqueza dos santos.

Cristo disse a Pedro, primeiro, que o negaria, que o renegaria e abjuraria: “Não apenas deixarás de me seguir continuamente, mas terás vergonha de admitir que um dia me seguiste.”

Segundo, que não o faria apenas uma vez, num deslize precipitado da língua, mas repetiria a negação uma segunda e uma terceira vez, depois de ter tido tempo para pensar. E isso se mostrou verdadeiro demais.

Costumamos dizer que as profecias das Escrituras se expressam de forma obscura e figurada porque, se descrevessem claramente o desfecho, seu cumprimento seria impedido ou imposto por uma fatalidade incompatível com a liberdade humana.

Contudo, esta profecia clara e expressa da negação de Pedro não provocou nenhum desses resultados, nem tornou Cristo minimamente cúmplice do pecado de Pedro.

Mas podemos imaginar como a notícia mortificou a confiança que Pedro tinha na própria coragem, ainda mais porque lhe foi dita de uma maneira que ele não ousou contradizer. Do contrário, teria respondido como Hazael: “Como! Teu servo é um cão?” Isso só podia deixá-lo confuso.

Repare: os que se sentem mais seguros costumam estar menos a salvo; e os que mais vergonhosamente revelam sua fraqueza são aqueles que mais confiantemente presumem de sua própria força (1 Coríntios 10:12).


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