Matthew Henry

João 12

Argumento

Ao fim do capítulo anterior, foi triste o relato da desonra imposta ao nosso Senhor Jesus: escribas e fariseus o proclamaram traidor de sua igreja e lhe impuseram todas as marcas de infâmia possíveis; mas este capítulo equilibra aquele relato ao narrar a honra prestada ao Redentor, apesar de todo o descrédito lançado contra ele.

Assim, uma narrativa foi posta em contraste com a outra. Vejamos que honras foram acumuladas sobre a cabeça do Senhor Jesus, mesmo nas profundezas de sua humilhação:

I. A honra prestada por Maria ao ungir os pés de Jesus durante o jantar em Betânia (vv. 1-11).

II. A honra prestada pelo povo comum, com suas aclamações de alegria, quando ele entrou montado e triunfalmente em Jerusalém (vv. 12-19).

III. A honra prestada pelos gregos, que perguntaram por ele com grande desejo de vê-lo (vv. 20-26).

IV. A honra prestada a Jesus por Deus Pai, que deu testemunho dele por meio de uma voz do céu (vv. 27-36).

V. A honra prestada pelos profetas do Antigo Testamento, que predisseram a incredulidade daqueles que ouviram falar dele (vv. 37-41).

VI. A honra prestada a Jesus por alguns dos principais governantes, cujas consciências testemunhavam em favor dele, embora não tivessem coragem de admitir isso (v. 42, 43).

VII. A honra que ele reivindicou para si ao afirmar sua missão divina e dar o relato da incumbência que o trouxe ao mundo (vv. 44-50).

Versículos 1 a 11

Maria Unge os Pés de Cristo; Hipocrisia de Judas; Indignação dos Principais Sacerdotes.

Nestes versículos temos:

I. A bondosa visita que nosso Senhor Jesus fez a seus amigos em Betânia (v. 1). Ele subiu do interior seis dias antes da Páscoa e se hospedou em Betânia, cidade que, segundo o cálculo de nossa metrópole, ficava tão perto de Jerusalém que estava dentro dos limites registrados nos boletins de mortalidade.

Hospedou-se ali na casa de seu amigo Lázaro, a quem havia ressuscitado recentemente. Sua vinda a Betânia naquele momento pode ser considerada:

  1. Como preparação para a Páscoa que pretendia celebrar, à qual se faz referência ao indicar a data de sua chegada: “Seis dias antes da Páscoa”.

Os homens devotos reservavam algum tempo antes para se preparar para aquela solenidade; assim, convinha a nosso Senhor Jesus cumprir toda a justiça.

Desse modo, ele nos deu exemplo de um afastamento solene de outras atividades antes das solenidades da Páscoa do evangelho. Ouçamos a voz que clama: “Preparai o caminho do Senhor”.

  1. Como exposição voluntária à fúria de seus inimigos. Agora que sua hora se aproximava, ele veio ao alcance deles e se ofereceu livremente a eles, embora já lhes tivesse mostrado como podia escapar facilmente de todas as suas ciladas.

Repare: (1.) Nosso Senhor Jesus aceitou voluntariamente seus sofrimentos; sua vida não lhe foi tirada à força, mas ele a entregou: “Eis que venho”.

Assim como a força de seus perseguidores não podia vencê-lo, a astúcia deles não podia apanhá-lo de surpresa. Ele morreu porque quis.

(2.) Assim como há um tempo em que nos é consentido agir para preservar a própria vida, também há um tempo em que somos chamados a arriscar a vida pela causa de Deus, como Paulo, quando foi a Jerusalém ligado em espírito.

  1. Como demonstração de sua bondade para com seus amigos em Betânia, a quem amava e de cujo convívio logo seria afastado.

Foi uma visita de despedida: veio despedir-se deles e deixar-lhes palavras de consolo para o dia de provação que se aproximava.

Repare: embora Cristo se afaste por algum tempo de seu povo, dará sinais de que parte por amor, não por ira.

Betânia é aqui descrita como a cidade onde estava Lázaro, a quem Cristo ressuscitou dentre os mortos. O milagre realizado ali deu nova honra ao lugar e o tornou notável.

Cristo veio observar que proveito se tirava daquele milagre, pois, onde faz maravilhas e demonstra favores extraordinários, ele acompanha o resultado para ver se a intenção deles foi alcançada. Onde semeou abundantemente, observa se o que semeou torna a brotar.

II. A acolhida afetuosa que seus amigos lhe deram ali: “Prepararam-lhe um jantar” (v. 2), um grande jantar, um banquete. Discute-se se este foi o mesmo que é relatado em Mateus 26:6 etc., na casa de Simão. A maioria dos comentaristas pensa que sim, pois o conteúdo do relato e muitas circunstâncias coincidem.

Mas aquele episódio vem depois do que foi dito dois dias antes da Páscoa, ao passo que este ocorreu seis dias antes; tampouco é provável que Marta servisse em outra casa que não a sua. Por isso, inclino-me a concordar com o Dr. Lightfoot, que os considera eventos distintos.

O episódio de Mateus teria ocorrido no terceiro dia da semana da Páscoa; este, no sétimo dia da semana anterior, o sábado judaico, na noite antes de Jesus entrar montado e triunfante em Jerusalém. Aquele foi na casa de Simão; este, na de Lázaro.

Como essas foram as recepções mais públicas e solenes que lhe ofereceram em Betânia, é provável que Maria tenha honrado ambas com este gesto de respeito. O perfume que lhe restou da primeira vez, quando usou apenas uma libra dele (v. 3), ela empregou na segunda ocasião, quando o derramou por inteiro (Marcos 14:3).

Vejamos o relato dessa recepção. 1. Prepararam-lhe um jantar, pois, entre eles, o jantar costumava ser a melhor refeição. Fizeram isso como demonstração de respeito e gratidão, porque se prepara um banquete em sinal de amizade; e também para ter ocasião de conversar livre e agradavelmente com ele, porque o banquete promove o convívio.

Talvez seja em referência a essa e a outras recepções semelhantes oferecidas a Cristo nos dias de sua vida humana que ele promete aos que lhe abrem a porta do coração que ceiará com eles (Apocalipse 3:20).

  1. Marta servia; ela mesma atendia à mesa, como sinal de seu grande respeito pelo Mestre. Embora fosse pessoa de certa posição, não considerava indigno servir quando Cristo estava à mesa.

Tampouco deveríamos considerar desonra ou rebaixamento nos submetermos a qualquer serviço por meio do qual Cristo possa ser honrado. Cristo já havia censurado Marta por se inquietar com muitos afazeres. Mas ela não deixou de servir por causa disso, como alguns que, censurados por um extremo, teimosamente correm para o outro.

Não: ela continuou servindo, agora não à distância, como antes, mas ao alcance das palavras graciosas de Cristo. Considerava felizes aqueles que, como a rainha de Sabá disse a respeito dos servos de Salomão, estavam continuamente diante dele para ouvir sua sabedoria. É melhor servir à mesa de Cristo do que ser hóspede à mesa de um príncipe.

  1. Lázaro era um dos que estavam à mesa. Isso comprovava a realidade de sua ressurreição, assim como a de Cristo: havia pessoas que comiam e bebiam com ele (Atos 10:41).

Depois de ressuscitar, Lázaro não se retirou para o deserto, como se, após visitar o outro mundo, tivesse de ser eremita neste para sempre. Não: convivia familiarmente com as pessoas, como os demais. Sentou-se à mesa como testemunho do milagre que Cristo havia realizado.

Aqueles que Cristo ergueu para uma vida espiritual são levados a se sentar juntamente com ele. Veja Efésios 2:5, 6.

III. O respeito especial que Maria lhe demonstrou, acima dos demais, ao ungir-lhe os pés com perfume aromático (v. 3). Ela tinha uma libra de perfume de nardo, muito caro, que provavelmente guardava para seu próprio uso.

Mas a morte e a ressurreição de seu irmão a haviam desapegado por completo do uso de todas essas coisas. Com esse perfume, ela ungiu os pés de Jesus; e, como sinal ainda maior de reverência por ele e de descuido de si mesma, enxugou-os com os cabelos.

Todos os presentes notaram isso, pois a casa ficou cheia com o aroma do perfume. Veja Provérbios 27:16.

  1. Sem dúvida, ela pretendia que isso fosse uma demonstração de seu amor por Cristo, que havia dado provas concretas de amor por ela e sua família. Assim, ela procura saber o que lhe oferecer. Por esse gesto, vemos que seu amor por Cristo foi:

(1.) Um amor generoso. Longe de poupar despesas necessárias ao serviço dele, ela é tão inventiva para criar uma ocasião de gasto na religião quanto a maioria é para evitá-la. Se tinha alguma coisa mais valiosa que outra, isso precisava ser apresentado em honra de Cristo.

Repare: os que amam a Cristo na verdade o amam muito mais do que a este mundo e, por isso, estão dispostos a gastar por ele o que têm de melhor.

(2.) Um amor humilde. Ela não apenas ofereceu seu perfume a Cristo, mas o derramou sobre ele com as próprias mãos, embora pudesse ter mandado um de seus servos fazê-lo. Ou melhor: em vez de ungir-lhe a cabeça, como de costume, ungiu-lhe os pés.

O amor verdadeiro não poupa despesas nem esforços para honrar a Cristo. Considerando o que Cristo fez e sofreu por nós, seríamos muito ingratos se julgássemos árduo demais qualquer serviço, ou indigno demais qualquer gesto de humildade, pelo qual ele possa de fato ser glorificado.

(3.) Um amor que crê. Essa demonstração de amor era movida pela fé em Jesus como o Messias, o Cristo, o Ungido, que, sendo tanto sacerdote quanto rei, foi ungido assim como Arão e Davi.

Repare: o Ungido de Deus deve ser o nosso Ungido. Deus derramou sobre ele o óleo da alegria acima de seus companheiros? Derramemos sobre ele o perfume de nossas melhores afeições, acima de todos os concorrentes. Ao anuirmos a Cristo como nosso Rei, devemos seguir os desígnios de Deus e designar como nossa cabeça aquele que Deus designou (Oseias 1:11).

  1. O fato de a casa ter ficado cheia com o aroma agradável do perfume pode nos indicar:

(1.) Que os que recebem Cristo no coração e em casa trazem para esses lugares um aroma agradável. A presença de Cristo vem acompanhada de unguento e perfume que alegram o coração.

(2.) As honras prestadas a Cristo são consolo para todos os seus amigos e seguidores; para Deus e para os homens bons, são uma oferta de aroma agradável.

IV. A reprovação de Judas ao gesto de Maria, demonstração de seu respeito por Cristo (v. 4, 5). Observe:

  1. Quem o criticou foi Judas, um de seus discípulos; não um deles por natureza, mas apenas por pertencer ao grupo. É possível que os piores homens se escondam sob o disfarce da melhor profissão de fé. Muitos alegam estar ligados a Cristo, mas não têm afeição verdadeira por ele.

Judas era apóstolo e pregador do evangelho; ainda assim, desestimulou e censurou essa demonstração de afeto e devoção piedosos. Repare: é triste ver a vida religiosa e o zelo santo serem desaprovados por aqueles que, por seu ofício, deveriam apoiá-los e animá-los.

Mas esse era o homem que trairia Cristo. Repare: quando a frieza do amor por Cristo e o desprezo secreto pela piedade sincera aparecem em quem professa a religião, são sinais tristes de uma apostasia definitiva. Os hipócritas revelam, em manifestações menores de mundanismo, que estão prontos a ceder a tentações maiores.

  1. A alegação com que encobriu sua reprovação (v. 5): perguntou por que aquele perfume, destinado a um uso piedoso, não fora vendido por trezentos denários (8 libras e 10 xelins de nossa moeda) e o valor dado aos pobres.

(1.) Aqui há uma iniquidade repugnante, dourada com uma alegação vistosa e plausível, pois Satanás se transforma em anjo de luz.

(2.) Aqui a sabedoria mundana condena o zelo piedoso, acusando-o de imprudência e má administração. Os que se orgulham de sua sagacidade nos assuntos terrenos e desprezam nos outros a piedade sincera têm mais do espírito de Judas do que gostariam de admitir.

(3.) Aqui a caridade para com os pobres serve de disfarce para se opor a um ato de piedade para com Cristo e, secretamente, encobre a avareza. Muitos se eximem de gastar com a caridade sob a alegação de guardar recursos para ela; porém, se as nuvens estão cheias de chuva, elas a derramam.

Judas perguntou: “Por que não foi dado aos pobres?” É fácil responder: porque foi melhor empregado no Senhor Jesus. Repare: não devemos concluir que alguém não presta um serviço aceitável só porque não o faz do nosso modo e exatamente como gostaríamos.

Não devemos agir como se tudo tivesse de ser julgado imprudente e inadequado quando não segue nossas medidas e opiniões. Os orgulhosos consideram insensatos todos os que não os consultam.

  1. A hipocrisia de Judas foi desmascarada e revelada (v. 6). Temos aqui a observação do evangelista, inspirada por aquele que sonda o coração: “Ele disse isso não porque se importasse com os pobres”, como alegava, “mas porque era ladrão e estava com a bolsa.”

(1.) Não procedia de um princípio de caridade: não que ele se importasse com os pobres. Não tinha compaixão deles nem preocupação com eles. O que os pobres significavam para ele, além da possibilidade de servir aos próprios interesses como encarregado de sua assistência?

Assim, alguns defendem ardorosamente o poder da igreja, enquanto outros defendem sua pureza; contudo, talvez se possa dizer que não se importam com a igreja. Para eles, tanto faz se seus verdadeiros interesses afundam ou prosperam; sob essa alegação, porém, promovem a si mesmos.

Simeão e Levi alegaram zelo pela circuncisão, mas não se importavam com o selo da aliança, assim como Jeú não se importava com o Senhor dos Exércitos quando disse: “Vem ver o meu zelo.”

(2.) Procedia, sim, de um princípio de avareza. A verdade é que, como o perfume seria oferecido ao seu Mestre, Judas preferia recebê-lo em dinheiro, para acrescentá-lo ao fundo comum que lhe fora confiado; então ele saberia o que fazer com o dinheiro. Observe:

[1.] Judas era o tesoureiro da casa de Cristo; por isso, alguns pensam que foi chamado Iscariotes, o portador da bolsa.

Primeiro, veja de que bens Jesus e seus discípulos dispunham para viver. Eram poucos: não tinham fazendas nem comércio, celeiros nem depósitos; tinham somente uma bolsa — ou, como alguns pensam que a palavra significa, uma caixa ou arca — na qual guardavam apenas o suficiente para seu sustento.

Se houvesse algum excedente, davam-no aos pobres. Levavam consigo a bolsa para onde quer que fossem. Omnia mea mecum porto — “carrego comigo todos os meus bens”. Essa bolsa era abastecida pelas contribuições de pessoas de bem, e o Mestre e seus discípulos tinham tudo em comum.

Que isso diminua nossa estima pelas riquezas mundanas, nos desapegue das formalidades de posição e cerimônia e nos reconcilie com uma vida humilde e desprezada, caso esse seja nosso destino; afinal, esse também foi o destino de nosso Mestre. Por nossa causa, ele se tornou pobre.

Segundo, veja quem administrava os poucos bens que tinham: Judas, que era o responsável pela bolsa. Cabia-lhe receber e pagar, e não encontramos registro de que prestasse contas das compras que fazia.

Ele foi designado para esse cargo por uma destas razões: 1. Por ser o menor e o menos destacado de todos os discípulos. Não foi Pedro nem João quem se tornou administrador, embora fosse um posto de confiança e vantagem, mas Judas, o de posição mais modesta entre eles.

Repare: os encargos seculares, além de desviar o ministro do evangelho de seu caminho, rebaixam-no. Veja 1 Coríntios 6:4. Os principais ministros de Estado no reino de Cristo se recusaram a se ocupar dos recursos financeiros (Atos 6:2).

  1. Porque desejava o cargo. No íntimo, gostava de mexer com dinheiro; por isso, confiaram-lhe a bolsa, ou:

(1.) Como um favor, para agradá-lo e, assim, comprometê-lo a ser leal ao Mestre. Às vezes, os súditos se voltam contra o governo por não receberem os cargos que desejam; mas Judas não tinha motivo para reclamar disso. Escolheu a bolsa e ficou com ela.

Ou (2.) como juízo contra ele, para puni-lo por sua maldade secreta: puseram em suas mãos aquilo que seria um laço e uma armadilha para ele. Repare: fortes inclinações interiores para o pecado são muitas vezes punidas, com justiça, por fortes tentações exteriores ao pecado.

Temos poucos motivos para cobiçar a bolsa ou nos orgulhar dela, pois, na melhor das hipóteses, somos apenas seus administradores. E quem administrava a bolsa era Judas, homem de má fama e nascido para ser enforcado — perdoem a expressão. A prosperidade dos insensatos os destrói.

[2.] Tendo recebido a bolsa sob sua responsabilidade, era ladrão, isto é, tinha disposição para roubar. O amor dominante ao dinheiro é roubo no coração, assim como a ira e a vingança são assassinato no coração.

Ou talvez ele já fosse de fato culpado de desviar os bens do Mestre e de apropriar-se do que fora dado ao fundo comum. Alguns conjecturam que, naquela ocasião, ele maquinava encher os bolsos, fugir e abandonar o Mestre, pois o ouvira falar tanto das tribulações que se aproximavam e não conseguia de modo algum conformar-se com elas.

Repare: aqueles a quem se confia a administração e a destinação do dinheiro público precisam ser guiados por princípios firmes de justiça e honestidade, para que nenhuma mancha fique em suas mãos. Alguns fazem piada de lesar por embuste o governo, a igreja ou o país.

Mas, se o embuste é roubo e, sendo as comunidades mais importantes que as pessoas em particular, roubá-las é pecado ainda maior, a culpa do furto e o destino dos ladrões não serão motivo de riso. Judas, que havia traído a confiança recebida, pouco depois traiu seu Mestre.

V. A justificação do que Maria fez, por Cristo (v. 7, 8): “Deixai-a em paz.” Com isso, ele demonstrou que aceitava a bondade dela. Embora estivesse completamente morto para todos os prazeres dos sentidos, por se tratar de um sinal da boa vontade dela, mostrou-se satisfeito com o gesto.

Também demonstrou seu cuidado para que ela não fosse molestada por causa dele. A expressão pode ser lida assim: “Perdoem-na”; ou: “Desculpem-na desta vez; se isso é um erro, é um erro de amor.”

Repare: Cristo não quer que sejam censurados nem desanimados os que sinceramente têm o desígnio de agradá-lo, embora em seus esforços honestos não haja toda a prudência possível (Romanos 14:3). Embora não quiséssemos fazer como eles, ainda assim deixemo-los em paz. Para a justificação de Maria:

  1. Cristo faz uma interpretação favorável do que ela fez, algo que os que a condenaram não perceberam: “Ela guardou isto para o dia do meu sepultamento.” Ou: “Ela reservou isto para o dia do meu embalsamamento”, segundo o Dr. Hammond.

“Vocês não se ressentem do perfume usado para embalsamar seus amigos falecidos, nem dizem que ele deveria ser vendido e dado aos pobres. Esta unção teve esse propósito ou, pelo menos, pode ser entendida assim; pois o dia do meu sepultamento está próximo, e ela ungiu um corpo que já é como se estivesse morto.”

Repare: (1.) Nosso Senhor Jesus pensava muito e com frequência em sua própria morte e sepultamento. Faríamos bem em fazer o mesmo. (2.) Muitas vezes a Providência abre uma oportunidade para os bons cristãos, e o Espírito da graça abre o coração deles, de modo que suas manifestações de zelo piedoso se mostram mais oportunas e belas do que qualquer previsão deles poderia torná-las.

(3.) A graça de Cristo interpreta com bondade as palavras e ações piedosas das pessoas boas. Ela não apenas dá a melhor interpretação ao que está errado, mas também extrai o máximo do que é bom.

  1. Ele dá uma resposta suficiente à objeção de Judas (v. 8). (1.) No reino da Providência, foi ordenado que sempre tivéssemos os pobres conosco, isto é, algumas pessoas que são alvos apropriados de caridade (Deuteronômio 15:11). Eles continuarão a existir enquanto houver, neste estado decaído da humanidade, tanta insensatez e tanta aflição.

(2.) No reino da graça, foi ordenado que a igreja não tivesse sempre a presença física de Jesus Cristo: “A mim não me tendes sempre”, mas apenas por pouco tempo. Repare: quando dois deveres entram em disputa, precisamos de sabedoria para saber qual deles tem prioridade; isso deve ser decidido pelas circunstâncias.

Devemos aproveitar as oportunidades, primeiro e com o maior vigor aquelas que provavelmente durarão menos e que vemos desaparecer com maior rapidez. O dever que pode ser cumprido a qualquer momento deve ceder lugar àquele que só pode ser cumprido agora.

VI. A atenção pública que nosso Senhor Jesus recebeu naquele jantar em Betânia (v. 9): muitos judeus souberam que ele estava ali, pois era o assunto da cidade, e acorreram ao lugar. Vieram em maior número porque ele havia se mantido escondido havia pouco e agora aparecia, como o sol que surge por trás de uma nuvem escura.

  1. Vieram para ver Jesus, cujo nome fora muito exaltado e ganhara destaque pelo milagre recente de ressuscitar Lázaro. Não vieram para ouvi-lo, mas para satisfazer a curiosidade vendo-o em Betânia; temiam que ele não aparecesse publicamente, como costumava fazer, naquela Páscoa.

Não vieram prendê-lo nem denunciá-lo, embora as autoridades o tivessem declarado fora da lei; vieram para vê-lo e demonstrar-lhe respeito. Repare: Cristo conquistará o afeto de algumas pessoas, apesar de todas as tentativas de seus inimigos de difamá-lo.

Quando se soube onde Cristo estava, multidões foram até ele. Repare: onde está o rei, ali está a corte; onde está Cristo, ali o povo se reúne (Lucas 17:37).

  1. Vieram ver Lázaro e Cristo juntos, uma cena muito atraente. Alguns vieram para confirmar a fé em Cristo, talvez ouvindo o relato da própria boca de Lázaro.

Outros vieram apenas para satisfazer a curiosidade, a fim de dizer que tinham visto um homem que morrera e fora sepultado, mas voltara a viver. Assim, naqueles dias de festa, Lázaro servia de espetáculo para os que, como os atenienses, passavam o tempo contando e ouvindo novidades.

Talvez alguns tenham vindo fazer perguntas curiosas a Lázaro sobre o estado dos mortos e perguntar que notícias trazia do outro mundo. Nós mesmos talvez já tenhamos dito que teríamos viajado muito para conversar uma hora com Lázaro.

Mas, se alguém veio com essa intenção, é provável que Lázaro tenha permanecido calado e não lhes contado nada sobre sua viagem. Pelo menos, as Escrituras se calam e não nos dão notícia dela; não devemos querer ser sábios além do que está escrito.

Contudo, nosso Senhor Jesus estava presente e era pessoa muito mais adequada a quem dirigir essas perguntas do que Lázaro. Pois, se não ouvirmos Moisés e os profetas, nem Cristo e os apóstolos, se não atentarmos ao que dizem sobre o outro mundo, tampouco seremos persuadidos, ainda que Lázaro ressuscite dentre os mortos. Temos uma palavra profética ainda mais segura.

VII. A indignação dos principais sacerdotes diante da crescente influência de nosso Senhor Jesus e a trama para esmagar essa influência (v. 10, 11): eles deliberaram — ou decretaram — como também poderiam matar Lázaro, pois, por causa dele, muitos judeus se afastavam e criam em Jesus. Isso ocorria por causa do que lhe havia acontecido, não por algo que ele tivesse dito ou feito. Observe:

  1. Quão vãs e malsucedidas haviam sido até então as tentativas deles contra Cristo! Fizeram tudo o que podiam para afastar dele as pessoas e exasperá-las contra ele. Ainda assim, muitos judeus — seus vizinhos, protegidos e admiradores — foram vencidos pelas provas convincentes dos milagres de Cristo.

Eles abandonaram a causa e o partido dos sacerdotes, deixaram de obedecer à tirania deles e creram em Jesus. Isso ocorreu por causa de Lázaro: sua ressurreição deu vida à fé deles e os convenceu de que esse Jesus era, sem dúvida, o Messias, que tinha vida em si mesmo e poder para dar vida.

Esse milagre os confirmou na crença nos outros milagres que ouviram dizer que Jesus realizara na Galileia. O que seria impossível para aquele que podia ressuscitar os mortos?

  1. Quão absurda e irracional foi a decisão daquele dia: Lázaro tinha de ser morto. Foi um exemplo da fúria mais grosseira possível. Eles eram como um touro selvagem preso numa rede, cheio de fúria e golpeando ao redor sem pensar.

Isso mostrava que não temiam a Deus nem respeitavam as pessoas. Pois, (1.) se temessem a Deus, não teriam cometido tal ato de desafio contra ele. Deus queria que Lázaro vivesse por um milagre, mas eles queriam que morresse por maldade.

Clamavam: “Fora com tal homem; não convém que viva”, quando Deus havia acabado de enviá-lo de volta à terra, declarando que convinha muito que vivesse. O que era isso senão agir contra Deus?

Queriam matar Lázaro e desafiar o poder do Todo-Poderoso a ressuscitá-lo outra vez, como se pudessem contender com Deus e contestar os direitos do Rei dos reis. Quem tem as chaves da morte e do túmulo, ele ou eles?

O cæca malitia! Christus qui suscitare potuit mortuum, non possit occisum — “Malícia cega, supor que Cristo, que pôde ressuscitar alguém que morrera de morte natural, não pudesse ressuscitar alguém que tivesse sido abatido!” — Agostinho, in loc..

Lázaro foi escolhido como alvo de ódio especial porque Deus o distinguira com provas de seu amor particular, como se os sacerdotes tivessem feito um pacto ofensivo e defensivo com a morte e o inferno e decidido punir severamente todos os desertores.

Seria de esperar que, em vez disso, tivessem pensado em como fazer amizade com Lázaro e sua família e, por intermédio deles, reconciliar-se com aquele Jesus que haviam perseguido. Mas o deus deste mundo cegou a mente deles.

(2.) Se respeitassem as pessoas, não teriam cometido tamanha injustiça contra Lázaro, um homem inocente, a quem não podiam atribuir crime algum. Que laços seriam fortes o bastante para conter quem consegue romper tão facilmente os vínculos mais sagrados da justiça comum e violar os princípios que até a própria natureza ensina?

Mas julgavam que a defesa da própria tirania e superstição bastava para justificar e até consagrar as maiores vilanias e torná-las meritórias, como ocorre na Igreja de Roma.

A Entrada de Cristo em Jerusalém

Versículos 12 a 19

O relato da entrada triunfal de Cristo montado em Jerusalém é registrado por todos os evangelistas, por merecer atenção especial. Nele podemos observar:

I. O respeito que o povo comum prestou a nosso Senhor Jesus (v. 12, 13). Somos informados:

  1. Quem lhe prestou esse respeito: uma grande multidão, ochlos polys — grande número dos que tinham vindo para a festa. Não eram os habitantes de Jerusalém, mas pessoas do interior, vindas de regiões distantes para adorar na festa.

Quanto mais perto do templo do Senhor, mais longe do Senhor do templo. Eram pessoas que tinham vindo para a festa. (1.) Talvez tivessem ouvido Cristo no interior e fossem grandes admiradoras dele; por isso, estavam prontas a demonstrar-lhe respeito em Jerusalém, onde sabiam que ele tinha muitos inimigos.

Repare: os que têm verdadeira estima e reverência por Cristo não se envergonham nem têm medo de reconhecê-lo diante dos homens em qualquer ocasião que possa honrá-lo. (2.) Talvez fossem judeus mais devotos que haviam chegado à festa algum tempo antes, para se purificarem, e que eram mais inclinados à religião do que seus vizinhos; foram esses que se mostraram tão prontos a honrar Cristo.

Repare: quanto mais os homens prezam a Deus e a religião em geral, mais dispostos estarão a acolher Cristo e sua religião, que não destrói as revelações e instituições anteriores, mas as aperfeiçoa.

Não foram os governantes nem os grandes homens que saíram ao encontro de Cristo, mas o povo comum. Alguns os teriam chamado de turba, de ralé; mas Cristo escolheu as coisas fracas e loucas (1 Coríntios 1:27) e é mais honrado pela multidão do que pela magnificência de seus seguidores. Ele avalia os homens por sua alma, não por seus nomes e títulos de honra.

  1. Em que ocasião o fizeram: ouviram que Jesus estava chegando a Jerusalém. Tinham perguntado por ele (João 11:55, 56) se não viria à festa. Agora ouvem que está chegando, pois ninguém que busca Cristo o busca em vão.

Quando souberam que ele vinha, puseram-se em movimento para recebê-lo de modo agradável. Repare: as notícias da aproximação de Cristo e de seu reino devem nos despertar para considerar qual é a tarefa do dia, para que seja realizada naquele dia.

Israel deve preparar-se para encontrar seu Deus (Amós 4:12), e as virgens, para encontrar o noivo.

  1. De que modo expressaram seu respeito: não tinham as chaves da cidade para lhe entregar, nem espada ou maça para levar diante dele, nem a música da cidade para homenageá-lo. Mas ofereceram o que tinham.

Até mesmo essa multidão desprezada era um pálido reflexo da gloriosa companhia que João viu diante do trono e diante do Cordeiro (Apocalipse 7:9, 10). Embora aquelas pessoas não estivessem diante do trono, estavam diante do Cordeiro, o Cordeiro pascal, que agora, conforme o costume, quatro dias antes da festa, foi separado para ser sacrificado por nós.

A respeito daquele coro celestial, diz-se:

(1.) Que eles tinham palmas nas mãos, e estes também tinham ramos de palmeiras. A palmeira sempre foi símbolo de vitória e triunfo. Cícero chama de plurimarum palmarum homo — “homem de muitas palmas” — aquele que vencera muitos prêmios.

Cristo estava prestes a conquistar, por sua morte, principados e potestades; por isso, era apropriado que a palma do vencedor fosse levada diante dele. Embora estivesse apenas cingindo a armadura, podia vangloriar-se como se já a tivesse tirado.

Mas não era só isso. Levar ramos de palmeiras fazia parte da cerimônia da Festa dos Tabernáculos (Levítico 23:40; Neemias 8:15). A alegria expressa na recepção dada a nosso Senhor Jesus indica que todas as festas apontavam para o evangelho e se cumpriram nele, especialmente a Festa dos Tabernáculos (Zacarias 14:16).

(2.) Que eles clamavam em alta voz: “Salvação ao nosso Deus” (Apocalipse 7:10). Assim fizeram estes: gritaram diante dele, como é comum em recepções populares: “Hosana! Bendito é o Rei de Israel que vem em nome do Senhor”. Hosana significa salvação.

A frase é citada de Salmos 118:25, 26. Veja como essas pessoas comuns conheciam bem as Escrituras e como as aplicavam apropriadamente ao Messias. Os pensamentos elevados acerca de Cristo são mais bem expressos com palavras das Escrituras.

Em suas aclamações, [1.] reconhecem nosso Senhor Jesus como o Rei de Israel, que vem em nome do Senhor. Embora agora viesse em pobreza e desonra, reconheciam-no como rei, contrariando as ideias que seus escribas lhes haviam dado sobre o Messias.

Isso expressa tanto sua dignidade e honra, que devemos adorar, quanto seu domínio e poder, aos quais devemos nos submeter. Reconhecem-no, primeiro, como Rei legítimo, que vem em nome do Senhor (Salmos 2:6), enviado por Deus não apenas como profeta, mas também como rei.

Segundo, como o Rei prometido e esperado havia muito, o Messias, o Príncipe, pois ele é o Rei de Israel. Conforme a luz que tinham, proclamaram-no Rei de Israel nas ruas de Jerusalém. E, por serem israelitas, assim o reconheceram como seu Rei.

[2.] Desejam de coração o bem de seu reino, que é o sentido de “hosana”. Que o Rei de Israel prospere, assim como, quando Salomão foi coroado, clamaram: “Viva o rei Salomão!” (1 Reis 1:39).

Ao clamarem “hosana”, fizeram três pedidos: primeiro, que seu reino viesse, com sua luz e conhecimento, e com seu poder e eficácia. “Que Deus faça prosperar o arado do evangelho.”

Segundo, que seu reino conquistasse e triunfasse sobre toda oposição (Apocalipse 6:2). Terceiro, que continuasse. “Hosana” significa: “Que o Rei viva para sempre”. Ainda que seu reino sofra perturbação, que nunca seja destruído (Salmos 72:17).

[3.] Dão-lhe as boas-vindas a Jerusalém: “Bem-vindo é aquele que vem! Estamos muito contentes em vê-lo. Entra, bendito do Senhor. É justo que o acompanhemos com nossas bênçãos, pois ele vem ao nosso encontro trazendo as dele.”

Essa recepção se parece com esta: “Levantai vossas cabeças, ó portas” (Salmos 24:7-9). Assim, todos devemos dar as boas-vindas a Cristo em nosso coração: devemos louvá-lo e nos agradar nele.

Assim como devemos nos agradar muito no ser e nos atributos de Deus e em sua relação conosco, também devemos nos agradar na pessoa e nos ofícios do Senhor Jesus e em sua mediação entre nós e Deus. A fé diz: “Bendito o que vem.”

II. A posição que Cristo assumiu para receber o respeito que lhe era prestado (v. 14): quando encontrou, ou conseguiu, um jumentinho, montou nele.

A cena era um tanto humilde: ele sozinho sobre um jumento, cercado por uma multidão que gritava “Hosana”. 1. Havia ali muito mais pompa do que ele costumava assumir: normalmente viajava a pé, mas agora estava montado.

Embora seus seguidores devam estar dispostos a aceitar coisas humildes e não buscar nada que pareça grandioso, é-lhes consentido usar os serviços das criaturas inferiores, conforme Deus, em sua providência, lhes concede a posse particular daquilo sobre o que, pela aliança com Noé e seus filhos, deu ao ser humano domínio geral.

  1. Ainda assim, havia muito menos pompa do que os grandes deste mundo costumam assumir. Se Cristo tivesse feito uma entrada pública com a pompa de um homem de alta posição, teria montado numa carruagem como a de Salomão (Cantares de Salomão 3:9, 10), com colunas de prata, base de ouro e cobertura de púrpura.

Mas, se julgarmos segundo os costumes deste mundo, ser recebido assim teria sido antes um descrédito do que uma honra para o Rei de Israel; pareceria que queria parecer grande, mas não sabia como. Seu reino não era deste mundo e, por isso, não veio com pompa exterior.

Ele agora se humilhava; porém, em seu estado exaltado, João o vê numa visão montado num cavalo branco, com um arco e uma coroa.

III. O cumprimento das Escrituras neste acontecimento: como está escrito: “Não temas, filha de Sião” (v. 15). Essa citação vem de Zacarias 9:9. Todos os profetas deram testemunho dele, especialmente a respeito deste acontecimento.

  1. Foi predito que o Rei de Sião viria, e viria assim, montado num jumentinho; até esse detalhe foi predito, e Cristo cuidou para que se cumprisse com exatidão. Repare: (1.) Cristo é o Rei de Sião. O santo monte de Sião fora destinado desde a antiguidade a ser a metrópole ou cidade real do Messias.

(2.) O Rei de Sião cuida e cuidará dela, vem e virá a ela. Embora se retire por pouco tempo, volta no momento devido. (3.) Embora venha devagar — o jumento tem passo lento —, vem com certeza e com tanta humildade e condescendência que muito anima os apelos e as expectativas de seus súditos leais.

Os humildes suplicantes podem chegar a falar com ele. Se Sião se desanima porque seu Rei não aparece com mais pompa ou força, saiba que, embora venha montado num jumentinho, ele sai contra seus inimigos, cavalgando pelos céus para ajudá-la (Deuteronômio 33:26).

  1. Por isso, a filha de Sião é chamada a contemplar seu Rei, a reparar nele e em sua aproximação. Contemple e maravilhe-se, pois ele vem à vista de todos, embora sem ostentação exterior (Cantares de Salomão 3:11). “Não temas.”

Na profecia, Sião é exortada a alegrar-se muito e a aclamar; aqui, porém, isso é expresso como “Não temas”. Os medos da incredulidade são inimigos das alegrias espirituais. Se forem curados e vencidos, a alegria virá naturalmente.

Cristo vem ao seu povo para silenciar seus temores. Se não conseguirmos chegar à exultação da alegria, ainda assim devemos nos esforçar para sair da opressão do medo. Alegre-se muito; ou, pelo menos, não tema.

IV. A observação do evangelista a respeito dos discípulos (v. 16): a princípio, eles não entenderam por que Cristo fez aquilo nem como a Escritura se cumpriu. Mas, quando Jesus foi glorificado e o Espírito foi derramado, lembraram-se de que essas coisas estavam escritas a respeito dele no Antigo Testamento e de que eles e outros haviam feito essas coisas com ele em cumprimento disso.

  1. Veja aqui a imperfeição dos discípulos em seu estado infantil: nem eles entenderam essas coisas a princípio. Quando buscaram o jumento e o fizeram montar nele, não perceberam que realizavam a cerimônia de entronização do Rei de Sião.

Observe: (1.) Muitas vezes a Escritura se cumpre pela ação de pessoas que não têm em vista a própria Escritura no que fazem (Isaías 45:4). (2.) Há muitas coisas excelentes na palavra e na providência de Deus que os próprios discípulos não entendem de imediato.

Isso ocorre quando começam a conhecer as coisas de Deus, enquanto veem homens como árvores que andam; e também quando essas coisas lhes são apresentadas pela primeira vez para que as examinem e considerem. O que depois fica claro, a princípio era obscuro e duvidoso.

(3.) Convém aos discípulos de Cristo, quando amadurecem no conhecimento, refletir muitas vezes sobre as tolices e fraquezas de seus primeiros passos. Assim, a graça gratuita recebe a glória por seu progresso, e eles podem ter compaixão dos ignorantes. “Quando eu era criança, falava como criança.”

  1. Veja aqui o progresso dos discípulos em seu estado adulto. Embora tivessem sido crianças, não o foram para sempre, mas prosseguiram até a perfeição. Observe:

(1.) Quando entenderam: quando Jesus foi glorificado. Pois, [1.] até então, não compreendiam corretamente a natureza do reino dele. Esperavam que aparecesse com pompa e poder externos e, por isso, não sabiam aplicar a uma aparência tão humilde as Escrituras que falavam desse reino.

Repare: compreender corretamente a natureza espiritual do reino de Cristo, seus poderes, glórias e vitórias, impediria que interpretássemos e aplicássemos mal as Escrituras que falam dele.

[2.] Até então, o Espírito que os conduziria a toda a verdade ainda não fora derramado. Repare: os discípulos de Cristo são capacitados a entender as Escrituras pelo mesmo Espírito que as inspirou. Para todos os santos, o Espírito de revelação é espírito de sabedoria (Efésios 1:17, 18).

(2.) Como entenderam: compararam a profecia com o desfecho e os colocaram lado a lado, para que um iluminasse o outro. Assim, chegaram a entender ambos. Então se lembraram de que essas coisas haviam sido escritas a respeito dele pelos profetas e que, em conformidade com elas, assim lhe aconteceu.

Repare: há uma harmonia admirável entre a palavra e as obras de Deus. Lembrar o que está escrito nos permite entender o que acontece; observar o que acontece nos ajuda a entender o que está escrito. “Como ouvimos, assim vimos.” A Escritura se cumpre todos os dias.

V. O motivo que levou o povo a prestar esse respeito a nosso Senhor Jesus quando ele chegou a Jerusalém, embora as autoridades fossem tão contrárias a ele: foi o milagre extraordinário que realizara pouco antes ao ressuscitar Lázaro.

  1. Veja que relato e que confirmação tinham desse milagre. Sem dúvida, a cidade inteira falava dele; a notícia estava na boca de todos. Mas os que o consideravam prova da missão de Cristo e fundamento de sua fé nele quiseram certificar-se dos fatos.

Por isso, foram atrás das testemunhas oculares, para conhecer a certeza do acontecimento por meio das provas mais fortes que ele podia oferecer. Assim, as pessoas que estavam presentes quando ele chamou Lázaro para fora do túmulo foram encontradas, interrogadas e deram testemunho (v. 17).

Afirmaram unanimemente que era verdade, sem possibilidade de discussão ou contradição. Se chamadas, estavam prontas a depor sob juramento, pois isso está implícito no termo Emartyrei. Repare: a verdade dos milagres de Cristo foi comprovada por provas incontestáveis.

É provável que os que viram o milagre não apenas o confirmassem a quem lhes perguntasse, mas o divulgassem espontaneamente, para acrescentar aos triunfos daquele dia solene. A chegada de Cristo naquele momento, vindo de Betânia, onde o milagre ocorreu, os faria lembrar dele.

Repare: os que desejam o bem do reino de Cristo devem se apressar em proclamar o que sabem que pode redundar em sua honra.

  1. Como aproveitaram esse fato e que influência teve sobre eles (v. 18): “Por essa causa”, tanto quanto por qualquer outra, o povo foi ao encontro dele. (1.) Alguns, por curiosidade, queriam ver quem fizera uma obra tão extraordinária.

Cristo havia pregado muitos bons sermões em Jerusalém, mas nenhum atraiu tantas multidões quanto esse milagre. (2.) Outros, por consciência, procuravam honrá-lo como alguém enviado por Deus.

Esse milagre foi deixado para um dos últimos, para confirmar os que vieram antes e conquistar para Cristo essa honra pouco antes de seus sofrimentos. As obras de Cristo foram todas não apenas bem realizadas (Marcos 7:37), mas também realizadas no momento certo.

VI. A indignação dos fariseus diante de tudo isso. Alguns deles provavelmente viram a entrada pública de Cristo; em pouco tempo, todos ouviram falar dela. O conselho encarregado de encontrar meios para destruí-lo pensava ter alcançado seu objetivo quando ele se retirara para a vida privada e logo seria esquecido em Jerusalém.

Agora, porém, enfurecem-se e se irritam ao ver que tinham imaginado algo vão. 1. Reconhecem que não haviam conseguido vantagem alguma contra ele; era evidente que não conseguiram coisa alguma.

Com todas as insinuações, não conseguiram afastar dele o afeto do povo nem, com suas ameaças, impedi-lo de demonstrar esse afeto. Repare: os que se opõem a Cristo e lutam contra seu reino perceberão que não conseguem coisa alguma.

Deus cumprirá seus propósitos apesar deles e apesar dos pequenos esforços de sua malícia impotente. “Nada conseguis” — ouk opheleite, “não tiram proveito algum”. Repare: nada se ganha ao opor-se a Cristo.

  1. Reconhecem que ele havia conquistado terreno: “O mundo foi atrás dele”. Uma multidão enorme o acompanhava, um mundo de gente — hipérbole comum na maioria das línguas.

Mesmo assim, como Caifás, sem saber, profetizaram que o mundo iria atrás dele: gente de todos os tipos, de todas as partes; as nações seriam discipuladas. Mas com que intenção disseram isso?

(1.) Expressaram assim a irritação com o crescimento da influência de Cristo; a inveja os atormentava. Se o chifre do justo for exaltado com honra, os ímpios o verão e se entristecerão (Salmos 112:9, 10).

Considerando a importância desses fariseus e a grande honra que recebiam, seria de esperar que não invejassem Cristo por uma honra tão pequena quanto a que lhe era prestada. Mas os orgulhosos querem monopolizar a honra e não querem dividi-la com ninguém, como Hamã.

(2.) Assim incitam a si mesmos e uns aos outros a levar adiante com mais vigor a guerra contra Cristo. Era como se dissessem: “Não adianta continuar agindo com hesitação e demora. Precisamos tomar outras medidas, mais eficazes, para deter esse contágio.”

“Chegou a hora de empregar ao máximo nossa habilidade e nossas forças, antes que o mal se torne impossível de remediar.” Assim, os inimigos da religião se tornam mais resolutos e ativos quando são frustrados. E os amigos dela ficarão desanimados a cada decepção, se sabem que sua causa é justa e que, no fim, será vitoriosa?

Versículos 20 a 26

Certos Gregos Desejam Ver Jesus; A Recompensa dos Servos de Cristo.

Honra é aqui prestada a Cristo por certos gregos que perguntaram por ele com respeito. Não nos dizem em que dia da última semana de Cristo isso aconteceu; provavelmente não foi no mesmo dia em que ele entrou montado em Jerusalém, pois aquele dia foi ocupado pelo trabalho público, mas um ou dois dias depois.

I. Somos informados de quem prestou essa honra a nosso Senhor Jesus: certos gregos entre as pessoas que tinham vindo adorar na festa (v. 20). Alguns pensam que eram judeus da dispersão, membros das doze tribos espalhadas entre os gentios, chamados gregos, judeus helenistas; outros pensam que eram gentios chamados prosélitos da porta, como o eunuco e Cornélio.

A religião natural pura encontrava sua melhor assistência entre os judeus; por isso, os gentios inclinados à piedade se uniam a eles em suas reuniões solenes, até onde lhes era consentido. Havia adoradores devotos do Deus verdadeiro até entre os que eram estrangeiros à comunidade de Israel.

Foi nos últimos tempos da igreja judaica que houve essa afluência dos gentios ao templo em Jerusalém, um feliz prenúncio da derrubada da parede divisória entre judeus e gentios.

Segundo Josefo, a proibição de os sacerdotes aceitarem qualquer oferta ou sacrifício de um gentio — decretada por Eleazar, filho do sumo sacerdote Ananias — foi uma das coisas que levou os romanos contra eles (Guerra 2.409-410).

Embora esses gregos, se fossem incircuncisos, não fossem admitidos a comer a Páscoa, ainda assim vieram adorar na festa. Devemos usar com gratidão os privilégios que temos, ainda que possa haver outros dos quais sejamos excluídos.

II. A honra que lhe prestaram: desejaram conhecê-lo (v. 21). Tendo vindo adorar na festa, quiseram aproveitar o melhor possível seu tempo; por isso, procuraram Filipe, pedindo que lhes mostrasse como poderiam conversar pessoalmente com o Senhor Jesus.

  1. Desejando ver Cristo, empenharam-se em usar os meios apropriados. Não concluíram que fosse impossível falar com ele por estar cercado por tanta gente, nem se contentaram com meros desejos: decidiram tentar o que poderia ser feito.

Repare: os que desejam ter o conhecimento de Cristo devem buscá-lo. 2. Dirigiram-se a Filipe, um de seus discípulos. Alguns pensam que já o conheciam e moravam perto de Betsaida, na Galileia dos gentios.

Nesse caso, aprendemos que devemos aproveitar nosso conhecimento de pessoas boas para crescer no conhecimento de Cristo. É bom conhecer aqueles que conhecem o Senhor.

Mas, se esses gregos fossem da região da Galileia, provavelmente teriam acompanhado Cristo ali, onde ele residia a maior parte do tempo. Por isso, penso que procuraram Filipe apenas porque o viram como um seguidor próximo de Cristo e foi o primeiro com quem conseguiram falar.

O fato de terem recorrido a um dos discípulos de Cristo para conseguir a oportunidade de conversar com ele demonstra a reverência que tinham por Cristo: consideravam-no alguém grande, embora parecesse de condição humilde.

Os que agora desejam ver Jesus pela fé, estando ele no céu, devem recorrer aos seus ministros, que ele designara para esse propósito: guiar as pobres almas em sua busca por ele. Paulo deve mandar chamar Ananias, e Cornélio, Pedro.

A condução desses gregos ao conhecimento de Cristo por meio de Filipe significava a atuação dos apóstolos e o uso de seu ministério na conversão dos gentios à fé e no discipulado das nações.

  1. O pedido que fizeram a Filipe foi breve: “Senhor, queremos ver Jesus.” Deram-lhe um título de respeito, como alguém digno de honra, porque tinha relação com Cristo.

O assunto deles é que queriam ver Jesus: não apenas contemplar seu rosto para poder dizer, ao voltar para casa, que tinham visto aquele de quem tanto se falava — provavelmente já o tinham visto em público —, mas conversar livremente com ele e receber ensino dele.

Não era fácil encontrá-lo desocupado, pois suas mãos estavam tão cheias de trabalho público. Agora que tinham vindo adorar na festa, queriam ver Jesus.

Repare: quando participamos das ordenanças sagradas, especialmente da Páscoa do evangelho, o grande desejo de nossas almas deve ser ver Jesus: ter nosso conhecimento dele aumentado, nossa dependência dele animada e prosseguir em nossa conformidade com ele.

Devemos vê-lo como nosso, manter comunhão com ele e receber dele comunicações de graça. Se não vemos Jesus, não alcançamos nosso propósito ao vir.

  1. Temos o relato que Filipe levou ao seu Mestre (v. 22). Ele fala com André, que também era de Betsaida e um membro mais antigo no colégio dos apóstolos, contemporâneo de Pedro, e consulta-o sobre o que fazer e se ele pensava que a proposta seria aceitável ou não.

Isso porque Cristo às vezes dissera que fora enviado somente à casa de Israel. Eles concordam que devem apresentar o pedido; mas Filipe quer que André vá com ele, lembrando-se da promessa de Cristo de que seriam bem recebidos se dois deles concordassem a respeito de qualquer coisa que pedissem (Mateus 18:19).

Repare: os ministros de Cristo devem ajudar uns aos outros e juntar-se para ajudar almas a chegar a Cristo. Dois são melhores do que um.

Parece que André e Filipe levaram o recado a Cristo quando ele ensinava em público, pois lemos (v. 29) sobre as pessoas que estavam por perto; mas raramente ele ficava sozinho.

III. Cristo aceita essa honra que lhe prestaram, como se vê pelo que disse ao povo em consequência disso (v. 23, etc.). Ele prediz tanto a honra que ele próprio receberia ao ser seguido (v. 23, 24) quanto a honra que receberiam os que o seguissem (v. 25, 26). Essas palavras foram destinadas a orientar e animar os gregos e todos os demais que desejavam conhecê-lo.

  1. Ele prevê a abundante colheita da conversão dos gentios, da qual esse episódio era, por assim dizer, as primícias (v. 23). Cristo disse aos dois discípulos que intercederam em favor dos gregos, mas duvidavam de que seriam atendidos: Chegou a hora em que o Filho do Homem será glorificado, pela entrada dos gentios na igreja e, para isso, deve ser rejeitado pelos judeus. Observe:

(1.) O fim aqui designado era a glorificação do Redentor. E é assim? Os gentios começam a me buscar? A estrela da manhã lhes aparece? E aquela bendita aurora, que também conhece seu lugar e seu tempo, começa a alcançar os confins da terra? Então chegou a hora de o Filho do homem ser glorificado.

Isso não surpreendia Cristo, mas era um paradoxo para os que estavam ao redor dele. Repare: [1.] O chamado dos gentios para a igreja de Deus, seu chamado eficaz, contribuiu grandemente para a glória do Filho do homem. Multiplicar os redimidos era engrandecer o Redentor.

[2.] Havia um tempo, um tempo determinado, uma hora, uma hora certa para o Filho do homem ser glorificado. Ela chegou por fim, quando os dias de sua humilhação foram contados e concluídos. Ele fala de sua aproximação com júbilo e triunfo: “Chegou a hora”.

(2.) O meio surpreendente para alcançar esse fim seria a morte de Cristo, sugerida por esta comparação (v. 24):

Em verdade, em verdade, digo a vocês, vocês a quem falei de minha morte e sofrimentos: a menos que um grão de trigo caia não apenas sobre a terra, mas dentro dela, e morra, e seja sepultado e perdido, permanece só, e vocês nunca veem mais nada dele. Mas, se morrer segundo o curso da natureza (senão seria um milagre), produz muito fruto, Deus dando a cada semente seu próprio corpo.

Cristo é o grão de trigo, o grão mais valioso e útil. Temos aqui: [1.] A necessidade da humilhação de Cristo é indicada.

Ele jamais teria sido a cabeça viva e vivificante e a raiz da igreja, se não tivesse descido do céu a esta terra amaldiçoada e subido da terra à árvore maldita, consumando assim nossa redenção.

Ele deve derramar sua alma até a morte; de outro modo, não pode repartir uma porção com os grandes (Isaías 53:12). Receberá uma descendência, mas deve derramar seu sangue para adquiri-los e purificá-los; deve conquistá-los e trazê-los como adorno.

Isso também era necessário como preparação para a glória que teria quando multidões se unissem à sua igreja. Se, por seus sofrimentos, ele não tivesse prestado satisfação pelo pecado e assim trazido uma justiça eterna, não estaria suficientemente preparado para receber os que viessem a ele; portanto, teria de permanecer só.

[2.] A vantagem da humilhação de Cristo é ilustrada. Em sua encarnação, ele caiu na terra e pareceu ser sepultado vivo neste mundo, tão velada estava sua glória. Mas não foi só isso: ele morreu.

Essa semente imortal submeteu-se às leis da mortalidade e jaziu no túmulo como a semente sob os torrões de terra. Mas, assim como a semente brota novamente, verde, fresca e florescente, e com grande aumento, assim um Cristo morrendo reuniu a si milhares de cristãos vivos e tornou-se a raiz deles.

A salvação das almas até agora, e de agora até o fim dos tempos, deve-se inteiramente à morte desse grão de trigo. Por ela, o Pai e o Filho são glorificados, a igreja é preenchida e o corpo místico se mantém e, por fim, será completado.

Quando o tempo acabar, o Capitão da nossa salvação, que leva muitos filhos à glória pela virtude de sua morte e sendo assim aperfeiçoado pelos sofrimentos, será para sempre celebrado com os louvores de admiração dos santos e dos anjos (Hebreus 2:10, 13).

  1. Ele prediz e promete abundante recompensa aos que o acolherem de coração, junto com seu evangelho e sua causa, e demonstrarem isso por sua fidelidade em sofrer por ele ou servi-lo:

(1.) Sofrendo por ele (v. 25): quem ama a própria vida mais do que a Cristo a perderá; mas quem odeia a própria vida neste mundo e põe o favor de Deus e sua participação em Cristo acima dela conservará a vida para a vida eterna.

Cristo insistiu muito nessa doutrina, pois o grande desígnio de sua religião é nos desapegar deste mundo, colocando diante de nós outro mundo.

[1.] Veja as consequências fatais do amor excessivo à vida. Muitos se mimam até a morte e perdem a vida por amá-la demais.

Quem ama tanto a vida física que satisfaz seu apetite e provê para a carne, para cumprir seus desejos, encurtará os próprios dias; perderá a vida de que tanto gosta, bem como outra infinitamente melhor.

Quem ama tanto a vida do corpo, seus adornos e prazeres que, por medo de expor a vida ou esses bens, nega a Cristo, a perderá, isto é, perderá uma felicidade real no outro mundo enquanto pensa assegurar uma felicidade imaginária neste.

Pele por pele, o homem pode dar pela própria vida e fazer um bom trato; mas quem entrega por ela sua alma, seu Deus e seu céu paga caro demais pela vida e comete a loucura de quem vendeu o direito de primogenitura por uma porção de ensopado.

[2.] Veja também a bendita recompensa de desprezar santamente a vida. Quem odeia tanto a vida do corpo que a arrisca para preservar a vida de sua alma encontrará ambas, com vantagem indizível, na vida eterna.

Repare: primeiro, exige-se dos discípulos de Cristo que odeiem a vida neste mundo. A vida neste mundo pressupõe uma vida no outro, e a vida neste mundo é odiada quando é amada menos que a do outro.

Nossa vida neste mundo inclui todos os desfrutes de nossa condição presente: riquezas, honras, prazeres e uma vida longa para desfrutá-los. Devemos odiar essas coisas, isto é, desprezá-las como vãs e incapazes de nos fazer felizes, temer as tentações que trazem e deixá-las alegremente sempre que entrarem em disputa com o serviço de Cristo (Atos 20:24; 21:13; Apocalipse 12:11).

Veja aqui muito do poder da piedade: ela vence as afeições naturais mais fortes. E muito do mistério da piedade: é a maior sabedoria e, ainda assim, leva os homens a odiarem a própria vida.

Segundo, os que, por amor a Cristo, odeiam a própria vida neste mundo receberão ampla recompensa na ressurreição dos justos. Quem odeia a vida a conservará: entrega-a nas mãos de quem a guardará para a vida eterna e a devolverá com um aperfeiçoamento tão grande quanto o que a vida celestial pode fazer da vida terrena.

(2.) Servindo-o (v. 26): Se alguém professa servir-me, siga-me, como um servo segue seu senhor; e onde eu estou, ekei kai ho diakonos ho emos estai — ali esteja meu servo. Assim alguns leem como parte do dever: que esteja ali, para dedicar-se a mim. Nós lemos como parte da promessa: ali estará em felicidade comigo.

E, para que isso não pareça pouco, Cristo acrescenta: “Se alguém me serve, meu Pai o honrará”; e isso basta, mais que basta. Os gregos desejavam ver Jesus (v. 21), mas Cristo os faz saber que não basta vê-lo: é preciso servi-lo.

Ele não veio ao mundo para ser espetáculo que contemplamos, mas um rei por quem sejamos governados. Diz isso para dar ânimo aos que o procuraram a se tornarem seus servos. Ao contratar servos, costuma-se especificar tanto o trabalho quanto o salário; Cristo faz as duas coisas aqui.

[1.] Aqui está o trabalho que Cristo espera de seus servos: é muito fácil, razoável e apropriado a eles.

Primeiro, que acompanhem os movimentos de seu Mestre: “Se alguém me serve, siga-me.” Os cristãos devem seguir Cristo, seguir seus métodos e prescrições, fazer o que ele diz, seguir seu exemplo e modelo, andar como ele andou e seguir sua direção por meio da providência e do Espírito.

Devemos ir aonde ele nos conduz e pelo caminho que nos mostra; devemos seguir o Cordeiro aonde quer que ele vá à nossa frente. Se alguém me serve, se entra nessa relação comigo, aplique-se à atividade do meu serviço e esteja sempre pronto ao meu chamado.

Ou, se alguém de fato me serve, faça uma profissão aberta e pública de sua relação comigo, seguindo-me, assim como o servo reconhece seu Mestre ao segui-lo nas ruas.

Segundo, que acompanhem o descanso de seu Mestre: Onde eu estou, ali esteja meu servo, para me servir. Cristo está onde está sua igreja, nas reuniões de seus santos, onde suas ordenanças são administradas. Ali estejam seus servos, para se apresentar diante dele e receber instruções dele.

Ou, onde eu estarei no céu, para onde agora vou, ali estejam os pensamentos e as afeições dos meus servos, ali esteja sua conduta, onde Cristo está sentado (Colossenses 3:1, 2).

[2.] Aqui está o salário que Cristo promete a seus servos: é muito rico e nobre.

Primeiro, serão felizes com ele: “Onde eu estou, ali estará também o meu servo”. Estar com Cristo quando ele vivia em pobreza e desonra pareceria um cargo pouco vantajoso; sem dúvida, ele se refere a estar com ele no paraíso, sentar-se com ele à sua mesa no alto, em seu trono.

A felicidade do céu consiste em estar com Cristo ali (João 17:24). Cristo fala da felicidade do céu como se já estivesse lá: “Onde eu estou”, pois tinha certeza dela, estava perto dela, e ela estava continuamente sobre seu coração e diante de seus olhos.

A mesma alegria e glória que ele considerou recompensa suficiente por todos os seus serviços e sofrimentos são oferecidas a seus servos como recompensa pelos deles. Os que o seguem no caminho estarão com ele no fim.

Segundo, serão honrados por seu Pai. Ele os compensará por todas as suas dores e perdas, conferindo-lhes uma honra que convém a um grande Deus dar, mas muito além do que esses vermes indignos da terra poderiam esperar receber.

O próprio Deus é quem recompensa: ele considera os serviços prestados ao Senhor Jesus como prestados a si mesmo. A recompensa é a honra verdadeira, duradoura e suprema: a honra que vem de Deus.

Diz-se (Provérbios 27:18): “Quem atende a seu Mestre” (com humildade e diligência) “será honrado”. Deus honrará os que servem a Cristo; essa honra será percebida em outro dia, embora agora esteja sob um véu.

Os que servem a Cristo precisam humilhar-se e costumam ser desprezados pelo mundo. Em recompensa por ambas as coisas, serão exaltados no tempo devido.

Até aqui, o discurso de Cristo se refere aos gregos que desejavam vê-lo e os anima a servi-lo. Não nos dizem o que aconteceu com aqueles gregos, mas gostamos de esperar que os que assim perguntaram pelo caminho do céu, com o rosto voltado para lá, o tenham encontrado e nele caminhado.

Versículos 27 a 36

O Testemunho Divino a Cristo; o Discurso de Cristo com o Povo.

O Pai honra Cristo com uma voz do céu, motivada pela parte seguinte de seu discurso, que, por sua vez, propiciou um colóquio ulterior com o povo. Nestes versículos temos:

I. As palavras que Cristo dirigiu ao Pai por causa da aflição que tomou seu espírito naquele momento: “Agora está perturbada a minha alma” (v. 27). É estranho ouvir essas palavras da boca de Cristo, especialmente naquele momento.

Elas vêm em meio a várias perspectivas agradáveis, quando se poderia pensar que ele diria: “Agora minha alma está satisfeita”. Repare: a aflição da alma às vezes vem depois de grandes expansões do espírito.

Neste mundo de mescla e mudança, devemos esperar que nossa alegria seja abatida; o mais alto grau de consolo pode estar a apenas um grau da aflição. Depois de estar no terceiro céu, Paulo recebeu um espinho na carne. Observe:

  1. O temor de Cristo diante dos sofrimentos que se aproximavam: “Agora está perturbada a minha alma”. Agora começava a cena sombria e terrível; agora vinham as primeiras dores do parto de sua alma; agora começava sua agonia, e sua alma se tornava profundamente triste.

Repare: (1.) O pecado de nossa alma causou a aflição da alma de Cristo quando ele assumiu a tarefa de nos redimir e salvar e de fazer de sua alma uma oferta por nosso pecado.

(2.) A aflição da alma dele destinava-se a aliviar a de nossas almas. Depois disso, disse aos discípulos (João 14:1): Não se perturbem os corações de vocês; por que os de vocês e o meu também deveriam estar perturbados?

Nosso Senhor Jesus prosseguiu alegremente em sua obra, contemplando a alegria que lhe estava proposta, mas ainda assim se submeteu à aflição da alma. O luto santo é compatível com a alegria espiritual e é o caminho para a alegria eterna.

Cristo estava então perturbado, triste e com medo, mas apenas por um tempo; não seria assim para sempre nem por muito tempo. Esse também é o consolo dos cristãos em suas aflições: duram só um momento e serão transformadas em alegria.

  1. O impasse em que parece encontrar-se, indicado por estas palavras: “E que direi?” Isso não significa que consultasse outra pessoa, como se precisasse de conselho, mas que ponderava consigo mesmo o que convinha dizer naquele momento.

Quando nossa alma está perturbada, devemos tomar cuidado para não falar sem refletir; precisamos ponderar conosco o que diremos. Cristo fala como alguém sem saber que decisão tomar, como se não soubesse o que escolher.

Havia uma luta entre a obra que assumira, que exigia sofrimento, e a natureza que assumira, que temia esse sofrimento. Entre as duas, ele faz uma pausa: “Que direi?” Olhou, e não havia quem o ajudasse; isso o fez parar.

Calvino vê nessas palavras uma grande demonstração da humilhação de Cristo: ele falou como alguém sem saber o que fazer. Quo se magis exinanivit gloriæ Dominus, eo luculentius habemus erga nos amoris specimen — quanto mais inteiramente o Senhor da glória se esvaziou, mais brilhante é a prova do amor que nos dedicou.

Assim, ele foi tentado em todos os aspectos como nós, para nos animar a voltar os olhos para ele quando não soubermos o que fazer.

  1. Sua oração a Deus nesse impasse: “Pai, salva-me desta hora”; ek tes oras tautes — para fora desta hora. Não pedia tanto que a hora não viesse, mas que ele fosse conduzido através dela.

“Salva-me desta hora” era a linguagem da natureza inocente, que derramava seus sentimentos em oração. Repare: almas perturbadas têm o dever e o interesse de recorrer a Deus em oração fiel e fervorosa, reconhecendo-o como Pai.

Cristo aceitou voluntariamente seus sofrimentos e, ainda assim, orou para ser salvo deles. Repare: orar para ser poupado de uma aflição é perfeitamente compatível com suportá-la com paciência e submeter-se nela à vontade de Deus.

Observe que ele chama seu sofrimento de “esta hora”, referindo-se aos acontecimentos esperados para aquele momento próximo. Com isso, indica que o tempo de seu sofrimento era: (1.) Um tempo determinado, fixado até a hora, e ele sabia disso.

Antes fora dito duas vezes que sua hora ainda não havia chegado; agora estava tão próxima que ele podia dizer que chegara. (2.) Um tempo breve. Uma hora logo passa; assim também passaram os sofrimentos de Cristo. Ele podia olhar além deles, para a alegria que lhe estava proposta.

  1. Ainda assim, sua submissão à vontade do Pai. Imediatamente se corrige e, por assim dizer, retira o que dissera: “Mas para isto vim a esta hora”. A natureza inocente disse a primeira palavra; a sabedoria divina e o amor, a última.

Repare: quem quer proceder com retidão precisa ponderar uma segunda vez. Quem apresenta a queixa fala primeiro; mas, para julgarmos com justiça, precisamos ouvir o outro lado.

Ao reconsiderar, conteve-se: “Para isto vim a esta hora”. Não se cala porque não podia evitar o sofrimento e não havia remédio; consola-se porque não queria evitá-lo.

O sofrimento seguia seu compromisso voluntário e seria o coroamento de toda a sua obra; se recuasse agora, frustraria tudo o que fizera até então. Há aqui uma referência aos conselhos divinos a respeito de seus sofrimentos, pelos quais era necessário que se submetesse e sofresse.

Repare: saber que desde o início fomos destinados às horas mais sombrias da vida deve ajudar-nos a aceitá-las (1 Tessalonicenses 3:3).

  1. Sua preocupação com a honra do Pai nisso. Ao retirar o pedido anterior, apresenta outro, ao qual permanecerá fiel: “Pai, glorifica o teu nome”, com o mesmo sentido de “Pai, seja feita a tua vontade”, pois a vontade de Deus visa à sua própria glória.

Isso expressa mais que mera submissão à vontade de Deus: é a consagração de seus sofrimentos à glória divina. Era uma palavra de mediador, dita por ele como nosso fiador, que assumira a tarefa de satisfazer a justiça divina por nosso pecado.

O dano que causamos a Deus pelo pecado atinge sua glória, sua glória declarativa; pois, fora disso, não somos capazes de lhe causar injúria. Nunca pudemos reparar essa ofensa, nem qualquer outra criatura pôde fazê-lo por nós.

Portanto, nada restava senão que Deus obtivesse honra sobre nós por meio de nossa ruína completa. Nosso Senhor Jesus, então, interveio e assumiu a tarefa de satisfazer a honra de Deus que fora ofendida; fez isso por sua humilhação.

Negou a si mesmo as honras devidas ao Filho de Deus encarnado, despojou-se delas e se submeteu ao maior descrédito. Aqui ele oferece essa satisfação como equivalente:

“Pai, glorifica o teu nome; que a tua justiça seja honrada no sacrifício, não no pecador; que a dívida seja cobrada de mim. Eu sou solvente; o devedor principal não é.” Assim, restituiu aquilo que não havia tirado.

II. A resposta do Pai a esse pedido; pois ele sempre o ouvia e continua a ouvi-lo. Observe: 1. Como essa resposta foi dada: por uma voz do céu. Os judeus falam muito de Bath-kôl — “filha de uma voz” —, uma das diversas maneiras pelas quais Deus falou aos profetas no passado.

Mas não encontramos outro caso em que ele tenha falado assim a alguém além de nosso Senhor Jesus. Essa honra foi reservada para ele (Mateus 3:17; 17:5). Aqui, provavelmente, a voz audível foi precedida por alguma aparição visível, ou de luz ou de trevas, pois ambas já serviram como veículos da glória divina.

  1. Qual foi a resposta: uma resposta expressa àquele pedido: “Pai, glorifica o teu nome.” Já o glorifiquei e o glorificarei outra vez. Quando oramos como nos foi ensinado — “Pai nosso, santificado seja o teu nome” —, temos o consolo de saber que essa oração foi respondida no caso de Cristo e, por meio dele, no caso de todos os verdadeiros crentes.

(1.) O nome de Deus havia sido glorificado na vida de Cristo, em sua doutrina, em seus milagres e em todos os exemplos de santidade e bondade que deu.

(2.) O nome de Deus seria ainda mais glorificado na morte e nos sofrimentos de Cristo. Sua sabedoria e poder, sua justiça e santidade, sua verdade e bondade foram grandemente glorificados.

As exigências de uma lei violada foram plenamente satisfeitas; a afronta à autoridade de Deus foi reparada. Deus aceitou a satisfação e declarou-se muito satisfeito. O que Deus já fez para glorificar seu próprio nome nos dá ânimo para esperar o que ainda fará. Aquele que garantiu os interesses de sua própria glória continuará a garanti-los.

III. A opinião dos que estavam por perto sobre essa voz (v. 29). Podemos esperar que alguns deles estivessem tão bem preparados para receber uma revelação divina que tenham entendido o que foi dito e dado testemunho disso.

Mas aqui se menciona a interpretação perversa da multidão: alguns disseram que fora um trovão. Outros perceberam que era claramente uma voz articulada e inteligível e disseram que, com certeza, um anjo lhe falara.

Isso mostra: 1. Que foi um acontecimento real, até mesmo no julgamento dos que não tinham qualquer disposição favorável a Cristo. 2. Que relutavam em admitir uma prova tão evidente da missão divina de Cristo.

Preferiam dizer que era isto, aquilo ou qualquer outra coisa, a admitir que Deus lhe falara em resposta à sua oração. E, se houve um trovão com sons articulados (como em Apocalipse 10:3, 4), não era essa a voz de Deus? Ou, se anjos lhe falaram, não são eles mensageiros de Deus? Mas assim Deus fala uma vez, sim, e ainda duas vezes, e o homem não percebe.

IV. O relato que nosso Salvador dá dessa voz:

  1. Por que foi enviada (v. 30): “Ela veio, não por minha causa, não apenas para meu ânimo e satisfação” — nesse caso, poderia ter sido sussurrada em particular ao ouvido dele —, “mas por causa de vocês”.

(1.) “Para que todos vocês que a ouviram creiam que o Pai me enviou.” O que se diz do céu a respeito de nosso Senhor Jesus e da glorificação do Pai nele é dito por nossa causa, para que nos submetamos a ele e nele descansemos.

(2.) “Para que vocês, meus discípulos, que vão me seguir nos sofrimentos, sejam consolados por meio deles com os mesmos consolos que me sustentam.” Que isso os anime a entregar a própria vida por causa de Cristo, se forem chamados a fazê-lo, pois isso redundará em honra de Deus.

Repare: as promessas e o amparo concedidos a nosso Senhor Jesus em seus sofrimentos foram destinados a nós. Por nossa causa, ele se santificou e se consolou.

  1. Qual era o significado da voz. Aquele que repousava no seio do Pai conhecia sua voz e o que ela significava. Quando Deus disse que glorificaria o próprio nome, tinha em vista duas coisas:

(1.) Que, pela morte de Cristo, Satanás seria vencido (v. 31): “Agora é o julgamento.” Cristo fala com exultação e triunfo divinos.

“Chegou o ano dos meus redimidos e o tempo marcado para esmagar a cabeça da serpente e despedaçar as forças das trevas; eis a gloriosa conquista! Agora, agora se fará a grande obra, há tanto considerada nos conselhos divinos e anunciada na Palavra escrita, há tanto esperada pelos santos e temida pelos demônios.” O triunfo consiste nisto:

[1.] Agora é o julgamento do mundo. Krisis, entendam o termo como expressão médica: “Agora é a crise deste mundo.” O mundo enfermo e doente chegou ao ponto decisivo.

Este é o dia crítico em que a balança trêmula penderá para a vida ou para a morte de toda a humanidade. Todos os que não forem recuperados por esse meio ficarão sem ajuda e sem esperança.

Ou, melhor, trata-se de um termo jurídico, como o entendemos: “Agora a sentença foi registrada para que se execute a condenação contra o príncipe deste mundo.” Repare: a morte de Cristo foi o julgamento deste mundo.

Primeiro, é um julgamento de revelação e distinção — judicium discretionis, segundo Agostinho. Agora este mundo é posto à prova, pois os homens serão caracterizados segundo o que a cruz de Cristo significa para eles.

Para uns, ela é loucura e pedra de tropeço; para outros, sabedoria e poder de Deus. Os dois ladrões crucificados com Cristo foram uma figura disso. Os homens são julgados pelo que pensam da morte de Cristo.

Segundo, é um julgamento de favor e absolvição dos eleitos que estão no mundo. Cristo na cruz se interpôs entre um Deus justo e um mundo culpado, como sacrifício pelo pecado e fiador dos pecadores.

Assim, quando ele foi julgado, a iniquidade foi posta sobre ele e ele foi ferido por nossas transgressões, aquilo foi, por assim dizer, o julgamento deste mundo: por meio disso foi estabelecida uma justiça eterna, não apenas para os judeus, mas para o mundo inteiro (1 João 2:1, 2; Daniel 9:24).

Terceiro, é um julgamento de condenação contra as forças das trevas; veja João 16:11. Aqui, julgamento significa reivindicação e libertação: restabelecer um direito violado.

Na morte de Cristo, houve um grande julgamento entre Cristo e Satanás, entre a serpente e a descendência prometida. A causa era o mundo e o domínio sobre ele.

Por tempos incontáveis, o diabo havia exercido poder entre os filhos dos homens. Agora alega ter adquirido esse direito pelo decurso do tempo, fundamentando sua reivindicação também na perda de direito causada pelo pecado.

Vemos que ele aceitaria um acordo (Lucas 4:6, 7): daria a Cristo os reinos deste mundo, contanto que Cristo os recebesse por meio dele, dele dependesse e permanecesse sob seu domínio.

Mas Cristo quis levar a disputa até o fim. Morrendo, ele removeu a perda de direito imposta pela justiça divina; então contestou o título de modo legítimo e o recuperou no tribunal do céu.

O domínio de Satanás foi declarado usurpação, e o mundo foi adjudicado ao Senhor Jesus como direito seu (Salmos 2:6, 8). O julgamento deste mundo é que ele pertence a Cristo, e não a Satanás. Portanto, que todos nós, como arrendatários, reconheçamos Cristo como nosso senhor.

[2.] Agora o príncipe deste mundo é expulso. Primeiro, o diabo é aqui chamado príncipe deste mundo porque governa os homens mundanos por meio das coisas do mundo. Ele é o governante das trevas deste mundo, isto é, deste mundo escuro e dos que nele andam em trevas (2 Coríntios 4:4; Efésios 6:12).

Segundo, diz-se que ele é expulso, expulso agora. Tudo o que até então fora feito para enfraquecer o reino do diabo ocorrera pela virtude de Cristo que ainda viria; por isso, diz-se que acontece agora.

Cristo, reconciliando o mundo com Deus pelo mérito de sua morte, quebrou o poder da morte e expulsou Satanás como destruidor. Cristo, reconduzindo o mundo a Deus pela doutrina de sua cruz, quebrou o poder do pecado e expulsou Satanás como enganador.

O ferimento do calcanhar de Cristo foi o esmagamento da cabeça da serpente (Gênesis 3:15). Quando os oráculos de Satanás foram silenciados, seus templos abandonados, seus ídolos privados de alimento e os reinos do mundo se tornaram reinos de Cristo, então o príncipe deste mundo foi expulso.

Isso se vê pela comparação com a visão de João (Apocalipse 12:8-11), na qual se diz que isso foi feito pelo sangue do Cordeiro. Cristo expulsava demônios com frequência dos corpos das pessoas; isso era uma indicação do grande desígnio de toda a sua obra.

Observe com que certeza Cristo fala aqui da vitória sobre Satanás: ela está praticamente consumada. Mesmo quando se entrega à morte, ele triunfa sobre ela.

(2.) Que, pela morte de Cristo, almas seriam convertidas, e isso significaria a expulsão de Satanás (v. 32): “Se eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim”. Observe aqui duas coisas:

[1.] O grande desígnio de nosso Senhor Jesus era atrair todos os homens a si: não apenas os judeus, que havia muito professavam ser um povo próximo de Deus, mas também os gentios, que estavam longe. Ele seria “o desejo de todas as nações” (Ageu 2:7), e a ele os povos se reuniriam.

Os inimigos de Cristo temiam que o mundo fosse atrás dele; apesar da oposição deles, ele atrairia o mundo a si. Observe aqui como o próprio Cristo é tudo em tudo na conversão de uma alma.

Primeiro, é Cristo quem atrai: “Eu atrairei”. Às vezes essa ação é atribuída ao Pai (João 6:44), mas aqui é atribuída ao Filho, o braço do Senhor.

Ele não força as pessoas, mas as atrai com as “cordas de um homem” (Oseias 11:4; Jeremias 31:3), como um ímã. A alma é levada a querer, mas isso acontece num dia de poder.

Segundo, é a Cristo que somos atraídos: “Eu os atrairei a mim, como ao centro de sua unidade”. A alma que estava distante de Cristo passa a conhecê-lo; quem se mostrava retraído e desconfiava dele passa a amá-lo e confiar nele, atraído a aceitar suas condições e a entrar em seus braços.

Cristo estava indo para o céu e atrairia para lá, para junto de si, o coração dos homens.

[2.] O método surpreendente que usou para cumprir seu desígnio: ser levantado da terra. Para evitar equívocos sobre o que quis dizer, somos informados (v. 33): disse isso para indicar de que morte morreria, a morte de cruz, embora tivessem o desígnio de matá-lo a pedradas e o tivessem tentado.

O crucificado primeiro era pregado na cruz, e depois levantado nela. Cristo foi levantado como espetáculo diante do mundo, entre o céu e a terra, como se não fosse digno de nenhum dos dois.

Contudo, o verbo usado aqui indica uma elevação honrosa: ean hypsotho — “Se eu for exaltado”. Cristo considerava seus sofrimentos uma honra.

Seja qual for a morte que tivermos, se morrermos em Cristo, seremos levantados deste calabouço, desta cova de leões, às regiões de luz e amor. Aprendamos com nosso Mestre a falar da morte com santa jovialidade e a dizer: “Então seremos levantados”.

A atração de todos os homens a Cristo viria depois que ele fosse levantado da terra. Primeiro, viria depois no tempo. O grande crescimento da igreja ocorreu depois da morte de Cristo.

Enquanto ele vivia, lemos que milhares foram milagrosamente alimentados durante uma pregação; depois de sua morte, lemos que milhares foram acrescentados à igreja durante uma pregação. Israel começou a multiplicar-se no Egito depois da morte de José.

Segundo, essa atração viria como consequência bendita de sua morte. Repare: há na morte de Cristo poder e eficácia para atrair almas a ele. A cruz de Cristo, embora seja pedra de tropeço para alguns, é um ímã para outros.

Alguns veem aqui uma alusão a peixes puxados para dentro de uma rede: o levantamento de Cristo seria como estender a rede (Mateus 13:47, 48). Outros pensam no hasteamento de um estandarte, que reúne os soldados.

Ou, antes, a figura remete à serpente de bronze levantada no deserto. Ela atraía todos os picados pelas serpentes ardentes tão logo soubessem que fora erguida e que nela havia poder para curar. Ah, como todos acorriam a ela!

Assim também acorreram a Cristo quando a salvação por meio dele foi pregada a todas as nações; veja João 3:14, 15. Talvez haja ainda uma referência à posição em que foi crucificado, com os braços estendidos, convidando todos a se aproximarem e acolhendo todos os que viessem.

Os que submeteram Cristo àquela morte vergonhosa pensavam afastar dele todos os homens; mas o diabo foi superado no tiro com seu próprio arco. Do comedor saiu alimento.

V. A objeção do povo ao que ele disse e sua contestação capciosa (v. 34). Embora tivessem ouvido a voz do céu e as palavras de graça que saíram da boca de Cristo, ainda assim levantaram objeções e procuraram desavenças com ele.

Cristo se chamara Filho do Homem (v. 23), título que eles sabiam pertencer ao Messias (Daniel 7:13). Também dissera que o Filho do Homem precisava ser levantado, o que entenderam como referência à sua morte; provavelmente ele mesmo lhes explicara isso.

Alguns pensam que repetiu o que dissera a Nicodemos (João 3:14): “Assim deve o Filho do Homem ser levantado”. Contra isso:

  1. Invocaram as passagens do Antigo Testamento que falam da permanência do Messias. Segundo elas, longe de ser eliminado no meio de seus dias, ele seria sacerdote para sempre (Salmos 110:4) e rei para sempre (Salmos 89:29, etc.).

Seus dias seriam prolongados para todo o sempre e seus anos durariam muitas gerações (Salmos 21:4; 61:6). De tudo isso concluíram que o Messias não morreria.

Assim, um vasto conhecimento da letra das Escrituras, quando o coração não é santificado, pode ser usado em favor da incredulidade e para combater o cristianismo com as próprias armas dele. A perversidade com que opuseram essas passagens ao que Jesus dissera aparece ao considerarmos:

(1.) Que, ao citarem as Escrituras para provar que o Messias permanece para sempre, ignoraram os textos que falam de sua morte e de seus sofrimentos.

Tinham ouvido da Lei que o Messias permanece para sempre; nunca tinham ouvido dela que ele seria eliminado (Daniel 9:26) e derramaria sua alma até a morte (Isaías 53:12)? E que suas mãos e seus pés seriam perfurados? Por que, então, achavam tão estranho que o Filho do Homem fosse levantado?

Repare: muitas vezes caímos em grandes erros e depois os defendemos com razões bíblicas porque separamos coisas que Deus uniu em sua palavra e opomos uma verdade a outra sob a alegação de apoiar a outra.

Ouvimos no evangelho aquilo que exalta a graça gratuita, mas também aquilo que impõe deveres. Devemos acolher ambas as coisas de coração, sem separá-las nem colocá-las uma contra a outra.

(2.) Que, ao se oporem ao que Cristo dissera sobre os sofrimentos do Filho do Homem, ignoraram o que ele também dissera sobre sua glória e exaltação. Tinham ouvido da Lei que Cristo permanece para sempre; não ouviram nosso Senhor Jesus dizer que seria glorificado, daria muito fruto e atrairia todos a si?

Não acabara de prometer honras imortais a seus seguidores, o que pressupunha que ele permaneceria para sempre? Mas não deram atenção a isso.

Assim, debatedores desonestos contestam partes da opinião de um adversário que, se considerassem por inteiro, teriam de aceitar. Há paradoxos na doutrina de Cristo que são pedras de tropeço para pessoas de mente corrompida: Cristo crucificado e, contudo, glorificado; levantado da terra e, contudo, atraindo todos os homens a si.

  1. Perguntaram então: “Quem é esse Filho do Homem?” Não perguntaram para aprender, mas com escárnio e insolência, como se o tivessem vencido e desacreditado.

“Tu dizes que o Filho do Homem deve morrer; nós provamos que o Messias não deve morrer. Onde fica, então, tua condição de Messias? Esse Filho do Homem, como te chamas, não pode ser o Messias; terás de pensar em outra coisa para alegar.”

O que os predispunha contra Cristo era sua condição humilde e sua pobreza: preferiam não ter Messias algum a ter um Messias sofredor.

VI. O que Cristo disse em resposta a essa objeção, ou melhor, o que disse a respeito dela. A objeção era inteiramente capciosa; eles mesmos poderiam respondê-la, se quisessem: o homem morre e, contudo, é imortal e permanece para sempre; assim também o Filho do Homem.

Portanto, em vez de responder a esses tolos segundo a sua tolice, ele lhes faz uma séria advertência para que não desperdicem o dia de suas oportunidades com objeções tão vãs e infrutíferas (v. 35, 36): “Ainda por pouco tempo, sim, por bem pouco tempo, a luz estará com vocês; portanto, sejam sábios em seu próprio benefício e andem enquanto têm a luz.”

  1. De modo geral, podemos observar aqui: (1.) A preocupação de Cristo com as almas dos homens e seu desejo de que elas tenham bem-estar. Com que ternura ele adverte aqui aqueles que maquinavam o mal contra ele a cuidarem bem de si mesmos! Mesmo quando suportava a oposição dos pecadores, buscava a conversão deles. Veja Provérbios 29:10.

(2.) O método que ele adota com esses opositores: instrui com mansidão os que se opõem a si mesmos (2 Timóteo 2:25). Se a consciência dos homens fosse despertada com a devida preocupação por seu estado eterno, e se considerassem quão pouco tempo têm para gastar, sem nenhum tempo a perder, não desperdiçariam pensamentos e tempo preciosos com objeções frívolas.

  1. Em particular, vemos aqui:

(1.) A vantagem que desfrutavam por terem Cristo e seu evangelho entre eles, bem como a brevidade e a incerteza de desfrutarem disso: “Ainda por pouco tempo a luz está convosco.” Cristo é essa luz; e alguns dos antigos sugerem que, ao chamar a si mesmo de luz, ele responde implicitamente à objeção deles.

Sua morte na cruz era tão compatível com sua permanência para sempre quanto o pôr do sol a cada noite é compatível com sua perpetuidade. A duração do reino de Cristo é comparada à do sol e da lua (Salmos 72:17; 89:36, 37).

As ordenanças do céu estão fixadas de modo imutável e, contudo, o sol e a lua se põem e são eclipsados; assim, Cristo, o Sol da justiça, permanece para sempre e, ainda assim, foi eclipsado por seus sofrimentos e esteve em nosso horizonte por pouco tempo. Agora, [1.] Naquele tempo, os judeus tinham a luz entre eles: tinham a presença física de Cristo, ouviam sua pregação e viam seus milagres.

Para nós, a Escritura é uma luz que brilha em lugar escuro. [2.] A luz estaria com eles por pouco tempo; Cristo logo os deixaria, o estado visível de sua igreja seria dissolvido pouco depois, o reino de Deus lhes seria tirado, e cegueira e dureza sobreviriam a Israel. Repare: é bom que todos consideremos por quanto pouco tempo teremos a luz conosco.

O tempo é curto e talvez a oportunidade dure menos ainda. O castiçal pode ser removido; no mínimo, nós mesmos logo seremos removidos. Ainda por pouco tempo a luz da vida estará conosco; ainda por pouco tempo a luz do evangelho estará conosco: o dia da graça, os meios da graça, o Espírito da graça; por muito pouco tempo.

(2.) O aviso para que aproveitassem ao máximo esse privilégio enquanto o desfrutavam, por causa do perigo de perdê-lo: “Andai enquanto tendes a luz”; como viajantes que avançam o máximo possível para não serem surpreendidos pela noite durante a jornada, pois viajar à noite é desconfortável e inseguro.

“Venham”, dizem eles, “vamos apressar o passo e avançar enquanto ainda há luz do dia.” Assim deveríamos ser sábios quanto às nossas almas, nós que viajamos rumo à eternidade. Repare: [1.] Nossa tarefa é andar, avançar em direção ao céu e nos aproximar dele tornando-nos mais aptos para estar lá.

Nossa vida é apenas um dia, e temos uma jornada de um dia a percorrer. [2.] O melhor momento para andar é enquanto temos luz. O dia é a ocasião apropriada para o trabalho, assim como a noite é para o descanso.

O tempo apropriado para obter graça é quando a palavra da graça nos é pregada e o Espírito da graça contende conosco; portanto, esse é o momento de nos ocuparmos.

[3.] É de grande importância aproveitarmos assim nossas oportunidades, para que nosso dia não termine antes de concluirmos o trabalho e a jornada de um dia: “Para que as trevas não venham sobre vocês, para que não percam suas oportunidades, sem poder recuperá-las nem realizar, sem elas, a tarefa que têm diante de si.”

Então vêm as trevas, isto é, uma incapacidade tão completa de assegurar a grande salvação que torna bastante deplorável a condição do pecador descuidado; de modo que, se sua obra ficar por fazer então, provavelmente ficará por fazer para sempre.

(3.) A triste condição daqueles que, pelo pecado, desperdiçaram a oportunidade do evangelho e chegaram ao término de seu dia de graça. Andam em trevas e não sabem por onde vão nem aonde se dirigem; não conhecem o caminho em que andam nem o destino para o qual caminham.

Quem está privado da luz do evangelho e não conhece suas revelações e orientações vagueia sem cessar em equívocos e erros, por mil caminhos tortuosos, sem se dar conta disso. Ponha de lado as instruções da doutrina cristã, e pouco saberemos da diferença entre o bem e o mal. Essa pessoa caminha para a destruição sem conhecer o perigo, pois está dormindo ou dançando à beira do abismo.

(4.) O grande dever e interesse de cada um de nós, inferidos de tudo isso (v. 36): “Enquanto tendes luz, crede na luz.” Os judeus tinham então a presença de Cristo entre eles; que a aproveitassem. Mais tarde, os apóstolos lhes fizeram as primeiras ofertas do evangelho por onde quer que fossem.

Agora, esta é uma advertência para que não percam a oportunidade, mas aceitem a oferta quando lhes for feita; o mesmo Cristo diz a todos os que desfrutam do evangelho. Repare: [1.] É dever de cada um de nós crer na luz do evangelho, recebê-la como luz divina e aderir às verdades que ela revela, pois é luz para os nossos olhos; e seguir sua orientação, pois é luz para os nossos pés.

Cristo é a luz, e devemos crer nele tal como nos é revelado: como uma luz verdadeira, que não nos enganará, e uma luz segura, que não nos desviará.

[2.] Temos a responsabilidade de fazer isso enquanto temos a luz, de nos apegar a Cristo enquanto temos o evangelho para nos mostrar o caminho até ele e nos orientar nesse caminho.

[3.] Os que creem na luz serão filhos da luz; serão reconhecidos como cristãos, chamados filhos da luz (Lucas 16:8; Efésios 5:8) e do dia (1 Tessalonicenses 5:5).

Os que têm Deus por Pai são filhos da luz, pois Deus é luz; nasceram do alto, são herdeiros do céu e filhos da luz, pois o céu é luz.

VII. A retirada de Cristo diante deles, em seguida: Jesus disse essas coisas e, naquele momento, não disse mais nada; deixou aquilo para que considerassem, retirou-se e se ocultou deles. E fez isso, 1. Para convencê-los e despertá-los. Se não derem atenção ao que ele disse, não terá mais nada a lhes dizer. Estão apegados à sua incredulidade, como Efraim aos ídolos; deixem-nos.

Repare: Cristo, com justiça, retira os meios da graça daqueles que entram em desavença com ele e esconde o rosto de uma geração obstinada (Deuteronômio 32:20). 2. Para sua própria preservação. Ele se ocultou da fúria e da ira deles, retirando-se, provavelmente, para Betânia, onde se hospedava.

Isso mostra que o que ele disse os irritou e enfureceu, e que ficaram piores por aquilo que deveria tê-los tornado melhores.

Versículos 37 a 41

A Incredulidade do Povo.

Temos aqui a honra que os profetas do Antigo Testamento prestaram ao nosso Senhor Jesus: predisseram e lamentaram a incredulidade de muitos que não creram nele.

Era de fato uma desonra e uma dor para Cristo que sua doutrina tivesse tão pouca aceitação e tanta oposição; mas o cumprimento das Escrituras nisso remove o espanto e o descrédito, faz cessar o escândalo e mostra que aquilo não foi uma decepção para Cristo.

Sobre esse povo obstinado, dizem-se aqui duas coisas, ambas preditas pelo profeta evangélico Isaías: eles não creram e não podiam crer.

I. Não creram (v. 37): Embora tivesse feito tantos milagres diante deles, os quais, como se poderia pensar, deveriam tê-los convencido, ainda assim não creram, mas se opuseram a ele. Observe:

  1. A abundância dos meios de convencimento que Cristo lhes ofereceu: ele fez milagres, tantos milagres; tosauta semeia significa tanto “tantos” quanto “tão grandes”. Isso se refere a todos os milagres que ele havia realizado antes; ou melhor, os cegos e os coxos foram até ele no templo, e ele os curou (Mateus 21:14).

Seus milagres eram a grande prova de sua missão, e era sobre a evidência deles que ele se apoiava. Aqui ele insiste em dois aspectos deles: (1.) O número: eram muitos, variados e de diversos tipos, numerosos e repetidos com frequência; cada novo milagre confirmava a realidade de todos os anteriores.

A multidão de seus milagres não era apenas prova de que seu poder não se esgotava, mas também dava maior oportunidade de examiná-los; se houvesse embuste em algum deles, seria praticamente impossível que não fosse descoberta em um ou outro. E, como todos eram milagres de misericórdia, quanto mais numerosos, mais bem se fazia.

(2.) O caráter público deles. Ele realizou esses milagres diante deles, não à distância, nem em algum lugar escondido, mas diante de muitas testemunhas, perante seus próprios olhos.

  1. A ineficácia desses meios: ainda assim, não creram nele. Não podiam contestar as premissas, mas se recusavam a aceitar a conclusão. Repare: os meios de convencimento mais abundantes e poderosos, por si sós, não produzem fé no coração depravado e preconceituoso dos homens. Eles viram e, mesmo assim, não creram.

  2. O cumprimento das Escrituras nisso (v. 38): “Para que se cumprisse a palavra de Isaías.” Não que aqueles judeus incrédulos tivessem o desígnio de cumprir as Escrituras; antes, imaginavam que se cumpriam neles aquelas passagens que falam dos melhores filhos da igreja. Mas o desfecho correspondeu exatamente à predição, de modo que (ut por ita ut) esta palavra de Isaías se cumpriu.

Quanto mais improvável um desfecho, mais a previsão dele manifesta a presciência divina. Ninguém poderia imaginar que o reino do Messias, sustentado por provas tão convincentes, enfrentaria tanta oposição entre os judeus; por isso, a incredulidade deles é chamada de obra maravilhosa e prodígio (Isaías 29:14).

O próprio Cristo se espantou com isso, mas era o que Isaías predissera (Isaías 53:1), e agora se cumpriu. Observe: (1.) Aqui o evangelho é chamado de relato deles: “Quem creu em nosso relato?”, te akon hemon, isto é, “o que ouvimos”, aquilo que ouvimos de Deus e que vocês ouviram de nós.

Nosso relato é o que anunciamos, como o relato de um fato ou de uma resolução solene do senado. (2.) Prediz-se que relativamente poucos daqueles a quem esse relato é anunciado serão persuadidos a crer nele.

Muitos o ouvem, mas poucos lhe dão atenção e o acolhem: “Quem creu nisso?” Aqui e ali alguém, mas quase ninguém; nem os sábios, nem os nobres. Para eles, não passa de um relato que carece de confirmação.

(3.) Fala-se disso como algo profundamente lamentável: tão poucos creem no relato do evangelho. “Senhor” foi anteposto aqui pela Septuaginta, mas não aparece no hebraico, e indica que os mensageiros levaram a Deus um relato pesaroso da fria recepção que eles e seu relato tiveram, assim como o servo veio e contou ao seu senhor todas essas coisas (Lucas 14:21).

(4.) O motivo pelo qual os homens não creem no relato do evangelho é que o braço do Senhor não lhes foi revelado; isto é, porque não buscam conhecer nem se submetem à graça de Deus. Não conhecem por experiência o poder e a comunhão da morte e da ressurreição de Cristo, nos quais o braço do Senhor é revelado. Viram os milagres de Cristo, mas não viram neles o braço do Senhor revelado.

II. Não podiam crer e, portanto, não podiam, porque Isaías disse: “Ele cegou os olhos deles.” É uma declaração difícil; quem pode explicá-la? Temos certeza de que Deus é infinitamente justo e misericordioso e, por isso, não podemos pensar que alguém seja incapaz de fazer o bem, resultante dos conselhos de Deus, a ponto de ficar sob a necessidade fatal de praticar o mal.

Deus não condena ninguém por mero exercício de soberania; contudo, está dito: Não podiam crer. Santo Agostinho, ao chegar à exposição destas palavras, expressa santo temor de investigar esse mistério: Justa sunt judicia ejus, sed occulta — “Seus juízos são justos, mas ocultos.”

  1. Não podiam crer, isto é, não queriam; estavam obstinadamente decididos a permanecer na incredulidade. Crisóstomo e Agostinho tendem a entendê-lo assim; o primeiro dá vários exemplos bíblicos em que a impossibilidade expressa a recusa invencível da vontade, como em Gênesis 37:4: “Não podiam falar-lhe pacificamente.” E em João 7:7.

Esta é uma incapacidade moral, como a de quem se acostumou a praticar o mal (Jeremias 13:23). Mas:

  1. Não podiam crer porque Isaías dissera: “Ele cegou os olhos deles.” Aqui a dificuldade aumenta; é certo que Deus não é o autor do pecado e, contudo:

(1.) Às vezes se deve reconhecer a mão justa de Deus na cegueira e na obstinação daqueles que persistem na impenitência e na incredulidade; por meio disso, são justamente punidos por terem antes resistido à luz divina e se rebelado contra a lei divina.

Se Deus retira a graça de que abusaram e entrega os homens às paixões a que se entregaram; se concede que o espírito mau faça sua obra naqueles que resistiram ao bom Espírito; e se, em sua providência, põe pedras de tropeço no caminho dos pecadores que confirmam seus preconceitos, então cega os olhos deles e endurece o coração deles.

Esses são juízos espirituais, como a entrega dos gentios idólatras a paixões vergonhosas e dos cristãos degenerados a fortes enganos. Observe o método de conversão aqui implícito e as etapas que ela percorre: [1.] Os pecadores são levados a ver com os olhos, a discernir a realidade das coisas divinas e a adquirir algum conhecimento delas.

[2.] A compreender com o coração, aplicando essas coisas a si mesmos; não apenas assentindo e aprovando, mas anuindo e aceitando. [3.] A converter-se e voltar-se efetivamente do pecado para Cristo, do mundo e da carne para Deus, como sua felicidade e porção.

[4.] Então Deus os curará, justificará e santificará; perdoará seus pecados, que são como feridas sangrentas, e mortificará suas corrupções, que são como doenças ocultas. Quando Deus nega sua graça, nada disso acontece.

A alienação da mente em relação a Deus e à vida divina, e a aversão a ambos, tornam-se uma antipatia arraigada e invencível; assim, o caso se torna desesperador.

(2.) A cegueira e a dureza judiciais são ameaçadas na palavra de Deus contra aqueles que persistem voluntariamente na maldade; e foram preditas em particular a respeito da igreja e da nação judaicas. Todas as obras de Deus, assim como as nossas, são conhecidas por ele.

Cristo sabia de antemão quem o trairia e falou disso (João 6:70). Isso confirma a veracidade das profecias das Escrituras; assim, até a incredulidade dos judeus pode ajudar a fortalecer nossa fé. Também serve de advertência a cada pessoa, para que tome cuidado, a fim de que não lhe sobrevenha o que foi dito pelos profetas (Atos 13:40).

(3.) O que Deus predisse certamente acontecerá; assim, por uma consequência necessária na ordem do raciocínio, poderia dizer-se que eles não podiam crer porque Deus predissera pelos profetas que não creriam.

O conhecimento de Deus é tal que ele não pode ser enganado quanto ao que prevê, e sua verdade é tal que ele não pode enganar ao predizer; assim, a Escritura não pode ser anulada. Observe, porém, que a profecia não nomeou pessoas específicas.

Portanto, não se poderia dizer: “Fulano e sicrano não podiam crer porque Isaías o dissera”; ela apontava para o conjunto da nação judaica, que persistiria na incredulidade até que suas cidades ficassem desertas e sem habitantes, como se segue (Isaías 6:11, 12).

Contudo, ainda se reservava um remanescente (Isaías 6:13, “nele haverá um décimo”); essa reserva bastava para manter aberta uma porta de esperança para cada pessoa, pois cada uma poderia dizer: “Por que eu não poderia fazer parte desse remanescente?”

Por fim, depois de citar a profecia, o evangelista mostra (v. 41) que ela pretendia ir além dos dias do próprio profeta e que sua referência principal eram os dias do Messias: “Essas coisas disse Isaías quando viu a glória dele e falou a seu respeito.”

  1. Lemos na profecia que isso foi dito a Isaías (Isaías 6:8, 9). Mas aqui nos dizem que ele o disse com pertinência a este caso. Pois nada foi dito por ele como profeta que primeiro não lhe tivesse sido dito; e nada lhe foi dito que depois não fosse dito por ele àqueles a quem foi enviado. Veja Isaías 21:10.

  2. Aqui se diz que a visão que o profeta teve da glória de Deus foi a visão da glória de Jesus Cristo: “Ele viu a glória dele.” Portanto, Jesus Cristo é igual ao Pai em poder e glória, e seus louvores são celebrados igualmente. Cristo tinha glória antes da fundação do mundo, e Isaías a viu.

  3. Diz-se que o profeta falou a respeito dele. Parece que aquilo foi dito a respeito do próprio profeta, pois foi a ele que foram dadas a incumbência e as instruções; contudo, aqui se diz que foi dito a respeito de Cristo, pois, assim como todos os profetas testemunharam dele, todos também o prefiguraram.

O que disseram a respeito dele foi que, para muitos, sua vinda não seria apenas infrutífera, mas fatal, um cheiro de morte para a morte. Poder-se-ia objetar contra sua doutrina: “Se ela vinha do céu, por que os judeus não creram nela?” A resposta é esta: não foi por falta de provas, mas porque o coração deles se tornara gordo e seus ouvidos, pesados.

Foi dito a respeito de Cristo que ele seria glorificado na ruína de uma multidão incrédula, assim como na salvação de um remanescente escolhido.

Versículos 42 a 43

A Covardia dos Governantes.

Esses governantes prestaram certa honra a Cristo, pois creram nele, convenceram-se de que fora enviado por Deus e receberam sua doutrina como divina. Mas não lhe deram honra suficiente, pois não tiveram coragem de professar sua fé nele.

Muitos professavam mais apreço por Cristo do que de fato tinham; estes tinham mais apreço por ele do que estavam dispostos a professar. Veja aqui a luta, nesses governantes, entre suas convicções e suas tendências corruptas.

I. Veja o poder da palavra nas convicções que dominavam muitos deles, que não fecharam voluntariamente os olhos para a luz. Creram nele, como Nicodemos, e o receberam como mestre vindo de Deus.

Repare: talvez a verdade do evangelho tenha maior influência sobre a consciência dos homens do que imaginamos. Muitos não conseguem deixar de aprovar em seu coração aquilo de que, contudo, se retraem exteriormente.

Talvez esses principais governantes fossem verdadeiros crentes, embora muito fracos, e sua fé fosse como um pavio que fumega. Repare: talvez haja mais pessoas boas do que pensamos. Elias julgava ter ficado sozinho, quando Deus tinha sete mil adoradores fiéis em Israel.

Alguns são realmente melhores do que parecem. Suas faltas são conhecidas, mas seu arrependimento, não; a bondade de uma pessoa pode ficar encoberta por uma fraqueza culpável, embora perdoável, da qual ela própria na verdade se arrepende.

O reino de Deus não chega a todos de modo igualmente perceptível; nem todos os que são bons têm a mesma capacidade de parecer bons.

II. Veja o poder do mundo em sufocar essas convicções. Creram em Cristo, mas, por causa dos fariseus, que tinham poder para prejudicá-los, não ousavam confessá-lo, por medo de serem excomungados. Observe aqui:

  1. Em que falharam e se mostraram deficientes: não confessaram Cristo. Repare: há motivo para questionar a sinceridade de uma fé que tem medo ou vergonha de se mostrar, pois os que creem com o coração devem confessar com a boca (Romanos 10:9).

  2. O que temiam: ser expulsos da sinagoga, o que julgavam lhes trazer desonra e estrago. Como se lhes causasse algum prejuízo serem expulsos de uma sinagoga que se tornara sinagoga de Satanás e da qual Deus se afastava!

  3. O que estava na raiz desse medo: amavam o louvor dos homens, escolhiam-no como um bem mais valioso e o buscavam como um fim mais desejável do que o louvor de Deus.

Isso era uma idolatria implícita, como a de adorar e servir à criatura mais do que ao Criador (Romanos 1:25). Puseram esses dois louvores em pratos opostos da balança e, depois de pesá-los, agiram conforme o resultado.

(1.) Puseram o louvor dos homens em um dos pratos e consideraram quão bom seria louvar os homens, mostrar deferência à opinião dos fariseus e receber louvor dos homens: ser elogiados pelos principais sacerdotes e aplaudidos pelo povo como bons filhos da igreja, da igreja judaica.

Não quiseram confessar Cristo, receando com isso diminuir a reputação dos fariseus e perder a própria, impedindo assim que eles próprios obtivessem cargos. Além disso, os seguidores de Cristo tinham má reputação e eram vistos com desprezo, o que não podiam suportar aqueles que estavam acostumados a receber honra.

No entanto, talvez tivessem tido mais coragem se soubessem o que uns e outros pensavam; cada um julgava que, se se declarasse a favor de Cristo, ficaria sozinho e não teria ninguém para apoiá-lo. Mas, se algum deles tivesse a coragem de quebrar o gelo, teria mais aliados do que imaginava.

(2.) Puseram o louvor de Deus no outro prato. Sabiam que, ao confessar Cristo, tanto dariam louvor a Deus quanto receberiam louvor dele, que se agradaria deles e lhes diria: “Muito bem”; mas:

(3.) Deram preferência ao louvor dos homens, e isso fez a balança pender. Os sentidos prevaleceram sobre a fé e apresentaram como mais desejável gozar da boa opinião dos fariseus do que ser aceitos por Deus.

Repare: o amor pelo louvor dos homens é um grande obstáculo ao poder e à prática da religião e da piedade. Muitos ficam aquém da glória de Deus porque dão atenção e valor ao aplauso dos homens.

O amor pelo louvor dos homens, como fim secundário naquilo que é bom, fará alguém tornar-se hipócrita quando a religião estiver na moda e por meio dela se puder obter prestígio.

E o amor pelo louvor dos homens, como princípio vil naquilo que é mau, fará alguém tornar-se apóstata quando a religião estiver em descrédito e por causa dela se puder perder prestígio, como aconteceu aqui. Veja Romanos 2:29.

Versículos 44 a 50

O Último Discurso de Cristo aos Judeus.

Temos aqui a honra que Cristo não tomou para si, mas reivindicou, ao relatar sua missão e a incumbência que o trouxe ao mundo.

Provavelmente, esse discurso não foi feito ao mesmo tempo que o anterior (pois, depois dele, Cristo se retirou, v. 36), mas algum tempo depois, quando apareceu novamente em público. Conforme o registro deste evangelista, foi o sermão de despedida de Cristo aos judeus e seu último discurso público; tudo o que vem a seguir foi dito em particular aos discípulos.

Observe agora como nosso Senhor Jesus pronunciou essa palavra de despedida: ele clamou e disse. “Porventura a sabedoria não clama?” (Provérbios 8:1); “clama nas ruas” (Provérbios 1:20). O fato de erguer a voz e clamar indica:

  1. Sua ousadia ao falar. Embora eles não tivessem coragem de professar abertamente a fé em sua doutrina, ele teve coragem de anunciá-la publicamente. Se eles se envergonhavam dela, ele não; antes, pôs seu rosto como uma pederneira (Isaías 50:7).

  2. Seu empenho ao falar. Clamou como alguém sério, insistente e sincero no que dizia, disposto a lhes comunicar não apenas o evangelho de Deus, mas também a própria alma.

  3. Isso demonstra seu desejo de que todos prestassem atenção. Como era a última vez que ele anunciava pessoalmente o seu evangelho, fez uma proclamação: “Quem quiser me ouvir, venha agora.” Qual é, então, a conclusão de tudo, o resumo final de todos os discursos de Cristo?

É muito semelhante ao de Moisés (Deuteronômio 30:15): vejam, pus diante de vocês a vida e a morte. Assim, Cristo se despede do templo com uma solene declaração de três coisas:

I. Os privilégios e a dignidade dos que creem; isso nos dá grande ânimo a crer em Cristo e professar essa fé. É algo que não deve nos deixar acanhados, nem para praticá-lo nem para reconhecê-lo, pois:

  1. Pela fé em Cristo, somos conduzidos a um relacionamento honroso com Deus (v. 44, 45): Quem crê em mim e, assim, me vê, crê naquele que me enviou e, assim, o vê. Quem crê em Cristo:

(1.) Não crê num simples homem, como ele parecia ser e geralmente era considerado, mas naquele que é o Filho de Deus, igual ao Pai em poder e glória. Ou melhor:

(2.) Sua fé não termina em Cristo; por meio dele, ela se dirige ao Pai que o enviou. O Pai é nosso alvo, e chegamos a ele por Cristo, nosso caminho. A doutrina de Cristo é crida e recebida como verdade de Deus.

A alma que crê encontra descanso em Deus por meio de Cristo, o Mediador; pois sua entrega a Cristo tem por objetivo ser apresentada a Deus. O cristianismo não se compõe de filosofia nem de política, mas de pura teologia.

Isso é ilustrado no v. 45: “Quem me vê” — o que equivale a crer nele, pois a fé é o olho da alma — “vê aquele que me enviou”. Ao conhecermos Cristo, chegamos ao conhecimento de Deus. Pois:

[1.] Deus se dá a conhecer na face de Cristo (2 Coríntios 4:6), que é “a expressão exata da sua pessoa” (Hebreus 1:3). [2.] Todos os que contemplam Cristo com fé são conduzidos por ele ao conhecimento de Deus, que Cristo nos revelou por sua palavra e por seu Espírito.

Cristo, como Deus, era a imagem da pessoa do Pai; como Mediador, porém, era o representante do Pai em sua relação com os homens. A luz, a lei e o amor divinos nos são comunicados nele e por meio dele.

Assim, ao vê-lo — isto é, ao contemplá-lo como nosso Salvador, Príncipe e Senhor, por direito de redenção —, vemos e contemplamos o Pai como nosso dono, governante e benfeitor, por direito de criação; pois Deus se agrada de lidar com a humanidade caída por meio de um representante.

  1. Por isso, somos conduzidos a desfrutar de nós mesmos com consolo (v. 46): Vim como luz ao mundo, para que todo aquele que crê em mim, judeu ou gentio, não permaneça nas trevas. Observe: (1.) O caráter de Cristo: “Vim como luz ao mundo”, para iluminá-lo.

Isso implica que ele já existia como luz antes de vir ao mundo, assim como o sol existe antes de nascer. Os profetas e os apóstolos foram feitos luzes para o mundo; mas só Cristo veio como luz a este mundo, pois antes já era uma luz gloriosa no mundo celestial (João 3:19).

(2.) O consolo dos cristãos: eles não permanecem nas trevas. [1.] Não continuam na condição sombria em que se encontravam por natureza; são luz no Senhor. Estão sem qualquer verdadeiro consolo, alegria ou esperança, mas não permanecem nessa condição; para eles, a luz está semeada.

[2.] Ainda que depois venham a passar por trevas de aflição, inquietação ou medo, há provisão para que não permaneçam nelas por muito tempo. [3.] São libertos daquela escuridão que é perpétua e permanece para sempre: as trevas absolutas, sem o menor raio de luz nem esperança de que ele apareça.

II. O risco e o perigo dos que não creem, o que serve de aviso claro para que tomem cuidado para não persistir na incredulidade (v. 47, 48): “Se alguém ouvir as minhas palavras e não crer, eu não o julgo” — não apenas eu, ou não agora, para não parecer injusto ao julgar minha própria causa.

Contudo, que a incredulidade não pense que ficará impune: embora eu não o julgue, há quem o julgue. Assim, temos aqui a condenação da incredulidade. Observe:

  1. Quem são aqueles cuja incredulidade é condenada aqui: os que ouvem as palavras de Cristo e, mesmo assim, não creem nelas.

Não serão condenados por sua incredulidade aqueles que nunca tiveram, nem poderiam ter, o evangelho; cada pessoa será julgada segundo a medida da luz que recebeu: Os que pecaram sem lei serão julgados sem lei. Mas os que ouviram, ou poderiam ter ouvido, e não quiseram, estão sujeitos a essa condenação.

  1. A maldade atribuída por interpretação à incredulidade deles: não receber a palavra de Cristo é interpretado (v. 48) como rejeitá-lo, ho atheton eme. A expressão indica uma rejeição com escárnio e desprezo. Onde a bandeira do evangelho está desfraldada, não há neutralidade: cada pessoa é súdita ou inimiga.

  2. A maravilhosa paciência e tolerância de nosso Senhor Jesus para com aqueles que o desprezaram quando veio à terra: “Eu não o julgo”, não agora. Repare: Cristo não se apressou a tirar vantagem contra os que recusaram as primeiras ofertas de sua graça; continuou esperando para usar de misericórdia.

Não deixou mudos nem matou os que o contradiziam; nunca intercedeu contra Israel, como Elias fez. Embora tivesse autoridade para julgar, suspendeu o exercício dessa autoridade, pois primeiro tinha outra obra a realizar, a de salvar o mundo:

(1.) Salvar efetivamente aqueles que lhe foram dados antes de vir julgar a humanidade degenerada. (2.) Oferecer salvação ao mundo todo e, nessa medida, salvá-los, de modo que, se não forem salvos, a culpa seja deles.

Ele devia remover o pecado pelo sacrifício de si mesmo. A execução do poder de juiz não condizia com essa incumbência (Atos 8:33). Em sua humilhação, seu juízo foi retirado, suspenso por algum tempo.

  1. O juízo certo e inevitável dos incrédulos no grande dia, o dia em que se revelará o justo juízo de Deus: a incredulidade certamente será um pecado condenatório. Alguns pensam que, quando Cristo diz “não julgo ninguém”, quer dizer que eles já estão condenados.

Não é necessário processo: eles mesmos se julgam. Não é necessária execução: eles mesmos se arruínam. A condenação recai sobre eles naturalmente (Hebreus 2:3). Cristo não precisa aparecer como acusador deles; são miseráveis se ele não aparecer como advogado em favor deles. Seja como for, ele lhes diz claramente quando e onde serão chamados a prestar contas.

(1.) Há quem os julgue. Nada é mais terrível que abusar da paciência e pisotear a graça. Embora por algum tempo a misericórdia triunfe sobre o juízo, ainda assim haverá juízo sem misericórdia. (2.) O juízo final deles está reservado para o último dia; Cristo os intima a comparecer naquele dia para responder por todo o desprezo que lhe demonstraram.

A justiça divina designou um dia e adiou a sentença para esse dia (Mateus 26:64). (3.) A palavra de Cristo os julgará então: As palavras que eu falei, por menos que vocês as tenham valorizado, julgarão o incrédulo no último dia. Diz-se que os apóstolos, pregadores da palavra de Cristo, também julgarão (Lucas 22:30).

As palavras de Cristo julgarão os incrédulos de duas maneiras: [1.] Como prova de seu crime, irão declará-los culpados. Cada palavra que Cristo disse, cada sermão, cada razão e cada oferta bondosa serão apresentados como testemunho contra os que desprezaram tudo o que ele disse.

[2.] Como norma de sua condenação, irão condená-los: serão julgados segundo os termos da aliança que Cristo obteve e anunciou. A palavra de Cristo — “Quem não crer será condenado” — julgará todos os incrédulos à ruína eterna; e há muitas outras palavras semelhantes.

III. Uma solene declaração da autoridade que Cristo tinha para exigir nossa fé e requerer que recebêssemos sua doutrina sob pena de condenação (v. 49, 50). Observe:

  1. A comissão que nosso Senhor Jesus recebeu do Pai para transmitir sua doutrina ao mundo (v. 49): Não falei por mim mesmo, como simples homem, muito menos como um homem comum; mas o Pai me deu um mandamento sobre o que eu deveria dizer. Isso corresponde ao que ele disse em João 7:16. “Minha doutrina”:

(1.) Não é minha, pois não falei por mim mesmo. Cristo, como Filho do Homem, não falou o que fosse maquinação ou elaboração humana; como Filho de Deus, não agiu separadamente, nem por conta própria, mas o que dizia resultava dos conselhos de paz.

Como Mediador, sua vinda ao mundo foi voluntária e com sua plena anuência, mas não arbitrária, nem decidida por conta própria. Mas, (2.) a doutrina era daquele que o enviou. Deus Pai lhe deu:

[1.] Sua comissão. Deus o enviou como seu agente e representante plenipotenciário, para negociar os assuntos entre ele e a humanidade, iniciar um tratado de paz e estabelecer seus termos.

[2.] Suas instruções, aqui chamadas de mandamento, pois eram como as dadas a um embaixador, indicando não apenas o que ele podia dizer, mas o que devia dizer. Ao mensageiro da aliança foi confiada uma incumbência que ele precisava cumprir.

Repare: nosso Senhor Jesus aprendeu a obediência antes de ensiná-la a nós, embora fosse Filho. O Senhor Deus deu ordens ao primeiro Adão, e sua desobediência nos arruinou; deu ordens ao segundo Adão, e sua obediência nos salvou.

Deus lhe ordenou o que devia dizer e o que devia falar; duas palavras com o mesmo sentido, para indicar que cada palavra era divina. Às vezes, os profetas do Antigo Testamento falavam por si mesmos; Cristo, porém, falava sempre pelo Espírito.

Alguns fazem esta distinção: ele recebeu instruções sobre o que dizer em seus sermões formais e sobre o que falar em suas conversas familiares. Outros distinguem assim: recebeu instruções sobre o que dizer em sua pregação naquele tempo e sobre o que falar ao julgar no último dia, pois tinha comissão e instruções para ambas as coisas.

  1. O alcance, o desígnio e a tendência dessa comissão: “Sei que o seu mandamento é a vida eterna” (v. 50). A comissão dada a Cristo dizia respeito ao estado eterno dos seres humanos e visava à vida e à felicidade eternas nesse estado.

As instruções dadas a Cristo como profeta tinham por objetivo revelar a vida eterna (1 João 5:11); o poder que lhe foi dado como rei era para conceder a vida eterna (João 17:2). Assim, o mandamento que lhe foi dado era a vida eterna.

Cristo diz que sabia disso: “Sei que é assim.” Isso indica com que alegria e segurança ele prosseguiu em sua incumbência, sabendo muito bem que fora enviado para uma boa missão, que produziria fruto para a vida eterna.

Isso também indica quão justamente perecerão os que rejeitam Cristo e sua palavra. Os que desobedecem a Cristo desprezam e renunciam à vida eterna; assim, não só as palavras de Cristo os julgarão, mas também as deles próprios. A condenação deles será esta: eles mesmos a decidiram. Quem poderia contestá-la?

  1. A observância exata de Cristo da comissão e das instruções que recebeu, e sua ação constante em conformidade com elas: Tudo o que falo é como o Pai me disse. Cristo conhecia intimamente os conselhos de Deus e foi fiel ao revelar aos seres humanos tudo o que, por acordo, deveria ser revelado; nada do que lhes era proveitoso foi omitido.

Assim como a testemunha fiel livra almas, ele também o fez: falou a verdade, toda a verdade e nada além da verdade. Repare: (1.) Isso é grande ânimo para a fé; podemos confiar nossa alma às palavras de Cristo, quando corretamente compreendidas.

(2.) É um grande exemplo de obediência. Cristo falou como lhe foi ordenado, e nós também devemos falar; comunicou o que o Pai lhe disse, e nós também devemos fazê-lo. Veja Atos 4:20.

Em meio a toda a honra que lhe era prestada, Cristo considera esta a honra que lhe cabe: falou o que o Pai lhe dissera, e falou da maneira que lhe fora indicada. Essa era sua glória: como Filho, foi fiel àquele que o designou.

Por meio de uma fé sincera em cada palavra de Cristo e de uma submissão completa da alma a ela, devemos dar-lhe a glória devida ao seu nome.


Ajustes de leitura

Tamanho do texto
Tipo de letra