João 11
Argumento
Neste capítulo temos a história do notável milagre que Cristo realizou pouco antes de morrer: a ressurreição de Lázaro, registrada somente por este evangelista.
Pois os outros três se limitam ao que Cristo fez na Galileia, onde passou a maior parte do tempo, e quase nunca levam seus relatos até Jerusalém antes da semana da paixão.
João, por sua vez, relata sobretudo o que aconteceu em Jerusalém; por isso, este episódio foi reservado para sua pena.
Alguns sugerem que, quando os outros evangelistas escreveram, Lázaro ainda estava vivo, e que registrá-lo antes não seria conveniente nem para sua segurança nem para sua humildade; supõe-se que agora ele já estivesse morto.
Esse milagre é relatado mais extensamente do que qualquer outro de Cristo, não só porque contém muitos detalhes muito instrutivos e, por si só, constitui grande prova de sua missão, mas também porque era um penhor da prova suprema que viria: a própria ressurreição de Cristo.
Aqui está: I. A notícia enviada a nosso Senhor Jesus sobre a enfermidade de Lázaro e a reação dele a essa notícia (vv. 1-16). II. A visita que fez aos parentes de Lázaro depois de saber de sua morte e a maneira como o receberam (vv. 17-32). III. O milagre da ressurreição de Lázaro dentre os mortos (vv. 33-44). IV. O efeito desse milagre sobre outras pessoas (vv. 45-57).
Versículos 1 a 15
A Morte de Lázaro.
Nestes versículos temos:
I. Um relato particular dos principais envolvidos nesta história (v. 1, 2). 1. Eles moravam em Betânia, povoado não muito distante de Jerusalém, onde Cristo costumava hospedar-se quando ia às festas.
Betânia é chamada aqui de povoado de Maria e Marta, isto é, o lugar onde moravam, assim como Betsaida é chamada cidade de André e Pedro (João 1:44).
Pois não vejo motivo para pensar, como alguns, que Marta e Maria fossem donas do povoado e os demais, seus inquilinos.
- Ali havia um irmão chamado Lázaro. Seu nome hebraico provavelmente era Eleazar; abreviado e com uma terminação grega, tornou-se Lázaro.
Talvez, tendo esta história em vista, nosso Salvador tenha usado o nome Lázaro naquela parábola em que tinha o desígnio de mostrar a bem-aventurança dos justos no seio de Abraão logo após a morte (Lucas 16:22).
- Ali havia duas irmãs, Marta e Maria, que parecem ter sido as responsáveis pela casa e pela administração dos assuntos da família; talvez Lázaro levasse uma vida retirada e se dedicasse ao estudo e à contemplação.
Era uma família decorosa, feliz e bem ordenada, com a qual Cristo tinha muita comunhão. Ao que parece, não havia marido nem esposa; a casa era mantida por um irmão e suas irmãs, que viviam juntos em união.
- Uma das irmãs é identificada especialmente como Maria, aquela que ungiu o Senhor com perfume (v. 2). Alguns pensam que era a mulher de quem lemos em Lucas 7:37, 38, que havia sido pecadora, uma mulher de má vida.
Prefiro pensar que se trata da unção de Cristo relatada por este evangelista (João 12:3), pois os evangelistas nunca remetem uns aos outros, mas João frequentemente remete, num trecho de seu evangelho, a outro trecho.
Atos extraordinários de piedade e devoção, quando procedem de um princípio sincero de amor a Cristo, não só serão aceitos por ele, mas também conquistarão boa reputação na igreja (Mateus 26:13).
Era essa a mulher cujo irmão, Lázaro, estava doente; e a enfermidade daqueles que amamos é uma aflição para nós.
Quanto mais amigos temos, mais vezes somos afligidos por solidariedade; e quanto mais queridos são, mais dolorosa é a aflição. Multiplicar nossos consolos apenas multiplica nosso zelo e nossas cruzes.
II. A notícia enviada a nosso Senhor Jesus sobre a enfermidade de Lázaro (v. 3). As irmãs sabiam onde Jesus estava, longe dali, além do Jordão, e mandaram-lhe um mensageiro especial para informá-lo da aflição da família.
Com isso, demonstraram: 1. O afeto e a preocupação que tinham com o irmão. Embora provavelmente herdassem os bens dele depois de sua morte, ainda assim desejavam ardentemente que continuasse vivo, como era seu dever.
Demonstraram amor por ele agora que estava doente, pois o irmão nasce para a adversidade, e o mesmo vale para a irmã. Devemos chorar com nossos amigos quando choram, assim como nos alegrar com eles quando se alegram.
- A consideração que tinham pelo Senhor Jesus, a quem queriam dar a conhecer todas as suas preocupações. Como Jefté, expunham diante dele tudo o que tinham a dizer.
Embora Deus conheça todas as nossas carências, dores e zelos, quer ouvi-las de nós; ele é honrado quando as apresentamos a ele.
A mensagem que enviaram foi muito breve: não faziam um pedido, muito menos ditavam o que Jesus deveria fazer ou insistiam; apenas expunham o caso, com a terna insinuação de um poderoso apelo: “Senhor, eis que está enfermo aquele a quem amas.”
Não dizem: “Aquele a quem amamos”, mas: “Aquele a quem tu amas.” Nossas maiores fontes de ânimo na oração vêm do próprio Deus e de sua graça.
Não dizem: “Senhor, eis que está enfermo aquele que te ama”, mas: “Aquele a quem tu amas”; pois nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou.
Nosso amor por ele não merece ser mencionado; o amor dele por nós nunca poderá ser suficientemente proclamado.
Repare: (1.) Há amigos e seguidores do Senhor Jesus por quem ele tem carinho especial, mais do que por outros. Entre os doze, havia um a quem Jesus amava.
(2.) Não é novidade que adoeçam aqueles a quem Cristo ama: tudo acontece igualmente a todos. As doenças do corpo corrigem a corrupção e provam as graças do povo de Deus.
(3.) É um grande consolo, quando estamos doentes, ter ao nosso redor pessoas que orem por nós.
(4.) Temos grande ânimo para orar pelos enfermos quando temos motivos para esperar que sejam amados por Cristo; e temos motivo para amar e orar por aqueles que temos motivos para pensar que Cristo ama e por quem zela.
III. Um relato de como Cristo recebeu a notícia da enfermidade de seu amigo:
- Predisse o que aconteceria e como terminaria a enfermidade e provavelmente enviou essa mensagem às irmãs de Lázaro por meio do mensageiro, para ampará-las enquanto demorava a ir até elas.
Ele prediz duas coisas:
(1.) “Esta enfermidade não é para a morte.” Era mortal, teve resultado fatal, e não há dúvida de que Lázaro estava, na verdade, morto havia quatro dias. Mas, [1.] esse não era o propósito para o qual a enfermidade fora enviada.
Ela não veio, como num caso comum, para convocá-lo à sepultura; havia nela uma intenção ulterior. Se tivesse vindo com esse propósito, a ressurreição dele o teria frustrado.
[2.] A morte também não seria o efeito final dessa enfermidade. Lázaro morreu, mas se poderia dizer que não morreu, pois factum non dicitur quod non perseverat — não se considera feito aquilo que não permanece para sempre.
A morte é uma despedida eterna deste mundo; é o caminho de onde não voltaremos. Nesse sentido, não era para a morte. A sepultura era sua longa morada, sua casa da eternidade.
Assim, Cristo disse da menina que se propunha a devolver à vida: “Ela não está morta.” A enfermidade dos bons, por mais ameaçadora que seja, não é para a morte, pois não conduz à morte eterna.
A morte do corpo para este mundo é o nascimento da alma para outro mundo. Quando nós ou nossos amigos adoecemos, apoiamo-nos sobretudo na esperança de recuperação, mas podemos nos frustrar nisso.
Por isso, é sábio firmar-nos naquilo que não pode nos frustrar: se pertencem a Cristo, aconteça o pior, não serão feridos pela segunda morte; então, a primeira tampouco os ferirá muito.
(2.) “Mas é para a glória de Deus”, para que fosse dada uma oportunidade de manifestar o poder glorioso de Deus. As aflições dos santos têm por desígnio a glória de Deus, que assim tem ocasião de lhes demonstrar seu favor; as misericórdias mais doces e comoventes são as que surgem da tribulação.
Isso deve nos reconciliar com as disposições mais sombrias da Providência. Todas são para a glória de Deus: esta enfermidade, esta perda ou este desapontamento. Se Deus é glorificado, devemos estar satisfeitos (Levítico 10:3).
Era para a glória de Deus, para que o Filho de Deus fosse glorificado por meio disso, pois a situação lhe deu ocasião de realizar aquele milagre glorioso, ressuscitando Lázaro.
Antes, o homem nascera cego para que Cristo tivesse a honra de curá-lo (João 9:3); agora, Lázaro teria de adoecer e morrer para que Cristo fosse glorificado como Senhor da vida.
Que isso console aqueles a quem Cristo ama em todas as suas aflições: o desígnio de todas elas é que o Filho de Deus seja glorificado por meio delas; sua sabedoria, seu poder e sua bondade são glorificados ao sustentá-los e socorrê-los. Veja 2 Coríntios 12:9, 10.
- Ele adiou a visita ao enfermo (v. 5, 6). As irmãs haviam apelado: “Senhor, aquele a quem amas está enfermo”; e o apelo foi acolhido (v. 5): “Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro.”
Assim, as alegações da fé são confirmadas no tribunal do céu. Agora, pensaríamos que, ao saber da enfermidade, ele se apressaria o máximo possível para ir até Lázaro.
Se os amava, parecia ser o momento de demonstrá-lo indo depressa, pois sabia que o esperavam com grande ansiedade. Mas escolheu o caminho oposto para mostrar seu amor.
Não se diz: “Ele os amava, mas demorou”; diz-se: “Ele os amava e, por isso, demorou”. Ao saber que seu amigo estava doente, em vez de ir logo até ele, permaneceu ainda dois dias no mesmo lugar.
(1.) Ele os amava, isto é, tinha grande estima por Marta e Maria, por sua sabedoria, graça, fé e paciência, mais do que por outros de seus discípulos. Por isso, adiou a visita, para prová-las e para que, ao fim, a provação resultasse em louvor e honra.
(2.) Ele os amava, isto é, tinha o desígnio de fazer algo grandioso e extraordinário por eles, realizar em favor deles um milagre que não fizera por nenhum outro amigo.
Por isso, demorou a visitá-los, para que Lázaro já estivesse morto e sepultado quando chegasse. Se tivesse chegado imediatamente e curado a enfermidade, não teria feito mais do que fizera por muitos.
Se o tivesse ressuscitado logo após a morte, não teria feito mais do que já fizera por alguns. Mas, adiando tanto o socorro, teve a oportunidade de fazer por ele mais do que por qualquer outro.
Repare: Deus tem intenções graciosas mesmo nos atrasos aparentes (Isaías 54:7, 8; Isaías 49:14, etc.). Os amigos de Cristo em Betânia não estavam fora de seus pensamentos; mesmo ao saber da aflição deles, ele não se apressou.
Quando a obra de livramento, temporal ou espiritual, público ou pessoal, parece parada, ela apenas aguarda o momento certo; tudo é belo em seu tempo.
IV. A conversa que teve com os discípulos quando estava prestes a visitar os amigos em Betânia (vv. 7-16). O colóquio é tão livre e familiar que confirma o que Cristo lhes diz: “Tenho-vos chamado amigos.”
Ele conversa sobre duas coisas: o perigo que corria e a morte de Lázaro.
- O perigo que corria ao ir para a Judeia (vv. 7-10):
(1.) Aqui está o aviso que Cristo deu aos seus discípulos sobre seu propósito de ir à Judeia, em direção a Jerusalém.
Seus discípulos eram os homens de seu conselho, e a eles ele diz (v. 7): “Vamos outra vez para a Judeia”, embora os habitantes da Judeia não sejam dignos de tal favor. Assim, Cristo renova suas ofertas de misericórdia àqueles que muitas vezes as rejeitaram.
Isso pode ser considerado, [1.] Como um propósito de sua bondade para com seus amigos em Betânia, cuja aflição e todas as circunstâncias que a agravavam ele conhecia muito bem, embora não lhe tivessem enviado mais mensageiros. Pois ele estava presente em espírito, ainda que ausente no corpo.
Quando soube que eles haviam chegado à última extremidade, e que o irmão e as irmãs já tinham se despedido definitivamente, disse: “Agora, vamos para a Judeia”. Cristo se levantará em favor de seu povo quando chegar o tempo de favorecê-lo, sim, e ainda, o tempo determinado.
E o pior momento costuma ser o tempo determinado: quando nossa esperança se perde e, quanto a nós, estamos eliminados; então saberão que eu sou o Senhor, quando eu abrir os túmulos (Ezequiel 37:11, 13). Portanto, nas profundezas da aflição, que isto nos impeça de cair nas profundezas do desespero: a extremidade do homem é a oportunidade de Deus, Jeová-Jiré.
Ou, [2.] Como uma prova da coragem dos discípulos: se se arriscariam a segui-lo até lá, onde pouco antes haviam se assustado com uma tentativa contra a vida de seu Mestre, que também consideravam uma tentativa contra a vida deles.
Ir à Judeia, que pouco antes se tornara quente demais para eles, foi uma declaração que os pôs à prova. Mas Cristo não disse: “Vão vocês para a Judeia, e eu ficarei aqui, abrigado”; não, ele disse: “Vamos”.
Repare: Cristo nunca leva seu povo a algum perigo sem acompanhá-lo; ele está com os seus até mesmo quando caminham pelo vale da sombra da morte.
(2.) A objeção deles contra essa viagem (v. 8): “Mestre, há pouco os judeus procuraram apedrejar-te, e vais outra vez para lá?” Aqui, [1.] Eles o lembram do perigo que ele correra ali não fazia muito tempo.
Os discípulos de Cristo tendem a dar mais importância aos sofrimentos do que seu Mestre e a lembrar por mais tempo as injúrias.
Ele suportara o insulto; aquilo passara, ficara para trás e fora esquecido, mas seus discípulos não conseguiam esquecê-lo: “há pouco”, nyn, isto é, agora, como se naquele mesmo dia tivessem tentado apedrejá-lo.
Embora tivesse acontecido pelo menos dois meses antes, a lembrança do susto ainda estava viva na mente deles. [2.] Eles se admiram de que ele queira voltar para lá: “Darás o favor de tua presença àqueles que te expulsaram de suas regiões?”
Os caminhos de Cristo para deixar passar as ofensas estão acima dos nossos. “Queres te expor entre um povo tão violentamente enfurecido contra ti? Vais outra vez para lá, onde foste tão maltratado?”
Aqui demonstraram grande zelo pela segurança de seu Mestre, como Pedro fez ao dizer: “Mestre, poupa-te”. Se Cristo estivesse inclinado a evitar o sofrimento, não lhe faltariam amigos para persuadi-lo; mas ele abrira a boca ao Senhor e não voltaria atrás, não poderia voltar atrás.
Contudo, ao demonstrarem preocupação com a segurança dele, os discípulos revelam ao mesmo tempo, Primeiro, desconfiança de seu poder, como se agora ele não pudesse proteger tanto a si mesmo quanto a eles na Judeia, assim como fizera antes. Seu braço está encurtado?
Quando nos preocupamos com os interesses da igreja e do reino de Cristo no mundo, ainda assim devemos descansar na sabedoria e no poder do Senhor Jesus, que sabe como proteger um rebanho de ovelhas no meio de uma manada de lobos.
Segundo, revelam um temor secreto de sofrerem eles mesmos, pois contam que isso acontecerá se ele sofrer.
Quando nossos interesses particulares coincidem com os interesses públicos, tendemos a pensar que somos zelosos pelo Senhor dos Exércitos, quando na verdade somos zelosos apenas por nossa riqueza, reputação, tranquilidade e segurança.
E buscamos nossos próprios interesses sob o pretexto de buscar os interesses de Cristo; por isso, precisamos distinguir quais são nossos princípios.
(3.) A resposta de Cristo a essa objeção (v. 9, 10): “Não há doze horas no dia?” Os judeus dividiam cada dia em doze horas e faziam suas horas mais longas ou mais curtas conforme a duração dos dias; assim, para eles, uma hora era a décima segunda parte do tempo entre o nascer e o pôr do sol, segundo alguns.
Ou, por estarem muito mais ao sul do que nós, seus dias tinham duração mais próxima de doze horas que os nossos. A divina Providência nos deu a luz do dia para trabalharmos e a prolonga por um tempo adequado.
Considerando o ano inteiro, cada país tem tanta luz do dia quanto noite, e ainda um pouco mais, correspondente à duração dos crepúsculos. A vida do homem é um dia; esse dia se divide em diversas idades, condições e oportunidades, como em horas mais curtas ou mais longas, conforme Deus designou.
A consideração disso deve nos tornar não apenas muito diligentes quanto ao trabalho da vida — se o dia tem doze horas, cada uma deve ser preenchida com o dever, e nenhuma desperdiçada —, mas também tranquilos quanto aos perigos da vida.
Nosso dia se prolongará até que nosso trabalho esteja concluído e nosso testemunho, terminado. Cristo aplica isso ao seu caso e mostra por que deve ir à Judeia: porque recebeu um chamado claro para ir.
Para explicar isso, [1.] ele mostra o conforto e a satisfação que alguém tem em sua própria mente enquanto permanece no caminho do dever, conforme prescrito em geral pela palavra de Deus e determinado, em particular, pela providência de Deus: “Se alguém andar de dia, não tropeça”.
Isto é: se alguém se apega ao dever, ocupa-se dele e toma a vontade de Deus como regra, com consideração imparcial por todos os mandamentos de Deus, não hesita em sua própria mente; ao andar retamente, anda com segurança e santa confiança.
Assim como quem anda de dia não tropeça, mas segue firme e alegremente seu caminho, porque vê a luz deste mundo e, por ela, enxerga o caminho à sua frente, também o homem bom, sem buscar garantias paralelas nem objetivos dissimulados, confia na palavra de Deus como regra e considera a glória de Deus seu fim.
Ele vê essas duas grandes luzes e mantém os olhos nelas; assim, conta com um guia fiel em todas as suas dúvidas e uma proteção poderosa em todos os seus perigos (Gálatas 6:4; Salmos 119:6). Cristo, por onde quer que fosse, andava de dia; nós também andaremos assim, se seguirmos seus passos.
[2.] Ele mostra a dor e o perigo em que se encontra quem não anda segundo essa regra (v. 10): “Se alguém andar de noite, tropeça”.
Isto é: se alguém andar segundo o próprio coração e o que seus olhos veem, conforme o curso deste mundo — se olhar por seus próprios raciocínios carnais mais do que pela vontade e pela glória de Deus —, cairá em tentações e armadilhas.
Ficará sujeito a grande inquietação e a apreensões terríveis; tremerá ao ruído de uma folha e fugirá quando ninguém o perseguir, enquanto o homem íntegro ri diante do brandir da lança e permanece intrépido quando dez mil o atacam.
Veja Isaías 33:14-16. Ele tropeça porque não há luz nele, pois a luz em nós está para nossas ações morais assim como a luz ao nosso redor está para nossas ações naturais.
Ele não tem dentro de si um bom princípio; não é sincero; seu olho é mau. Assim, Cristo não apenas justifica seu propósito de ir à Judeia, mas também anima seus discípulos a acompanhá-lo e a não temer mal algum.
- A morte de Lázaro é aqui discutida entre Cristo e seus discípulos (vv. 11-16), e temos:
(1.) O aviso que Cristo deu aos discípulos sobre a morte de Lázaro e a indicação de que sua missão na Judeia era cuidar dele (v. 11). Depois de preparar os discípulos para essa marcha perigosa a um país inimigo, ele então lhes dá:
[1.] Informação clara sobre a morte de Lázaro, embora não tivesse recebido notícia dela: “Nosso amigo Lázaro dorme”. Vejamos como Cristo chama um crente e a morte de um crente.
Primeiro, ele chama o crente de seu amigo: “Nosso amigo Lázaro”. Repare: 1. Há uma aliança de amizade entre Cristo e os crentes, bem como afeição e comunhão amistosas que decorrem dela; nosso Senhor Jesus a reconhecerá e não se envergonhará dela. Seu segredo está com os justos.
- Todos os discípulos de Cristo devem considerar seus amigos aqueles que Cristo se agrada em reconhecer como amigos. Cristo fala de Lázaro como amigo de todos eles: “nosso amigo”. 3. A própria morte não rompe o vínculo de amizade entre Cristo e o crente. Lázaro está morto e, ainda assim, continua sendo nosso amigo.
Segundo, ele chama a morte de um crente de sono: “ele dorme”. É bom chamar a morte por nomes e títulos que nos ajudem a torná-la mais familiar e menos temível.
A morte de Lázaro foi, em sentido especial, um sono, assim como a da filha de Jairo, porque ele seria ressuscitado em breve; e, visto que certamente ressuscitaremos no fim, por que isso deveria fazer tanta diferença?
E por que a esperança crente dessa ressurreição para a vida eterna não tornaria tão fácil para nós deixar o corpo e morrer quanto tirar a roupa e dormir?
Quando um bom cristão morre, ele simplesmente dorme: descansa dos trabalhos do dia que passou e se revigora para a manhã seguinte. Ou melhor: nisso a morte leva vantagem sobre o sono: o sono é apenas um parêntese, mas a morte é o fim de nossos zelos e fadigas.
A alma não dorme, mas se torna mais ativa; o corpo, porém, dorme sem se agitar nem sentir terror, sem enfermidade nem perturbação.
Para os ímpios, a sepultura é uma prisão, e suas vestes funerárias são como as algemas de um criminoso reservado para a execução da sentença; para os piedosos, porém, ela é um leito, e todas as suas amarras são como os grilhões macios e felpudos de um sono tranquilo e reparador.
Embora o corpo se corrompa, ele se levantará pela manhã como se nunca tivesse conhecido a corrupção. É apenas tirar nossas roupas para que sejam consertadas e adornadas para o dia das bodas, o dia da coroação, para o qual nos levantaremos. Veja Isaías 57:2; 1 Tessalonicenses 4:14.
Os gregos chamavam seus cemitérios de dormitórios — koimeteria.
[2.] Indicações específicas de suas intenções favoráveis a respeito de Lázaro: “mas vou despertá-lo do sono”. Ele poderia ter feito isso e ainda permanecido onde estava.
Aquele que restaurou à distância alguém que estava morrendo (João 4:50) poderia ter ressuscitado à distância alguém que estava morto; mas ele concederia àquele milagre a honra de realizá-lo junto ao túmulo: “Vou despertá-lo”.
Assim como o sono é uma semelhança da morte, despertar do sono quando alguém é chamado — especialmente quando é chamado pelo próprio nome — é um emblema da ressurreição (Jó 14:15): “Então chamarás”.
Cristo mal disse “nosso amigo dorme” e imediatamente acrescentou: “Vou despertá-lo”. Quando Cristo conta a seu povo, em qualquer ocasião, quão grave é a situação, no mesmo fôlego lhe mostra com que facilidade e rapidez pode remediá-la.
Cristo dizer aos discípulos que essa era sua missão na Judeia talvez ajudasse a diminuir o medo de irem com ele para lá. Ele não subia para cumprir uma missão pública no templo, mas para fazer uma visita particular, que não exporia tanto nem ele nem os discípulos.
Além disso, ia prestar um favor a uma família a quem todos deviam gratidão.
(2.) Eles entenderam mal o sentido desse aviso e se confundiram (v. 12, 13): “Senhor, se dorme, ficará bem”. Isso indica, [1.] que tinham certa preocupação com seu amigo Lázaro; esperavam que ele se recuperasse: sothesetai — ficará salvo da morte desta vez.
Provavelmente tinham entendido, pelo mensageiro que trouxera notícias da doença, que um dos sintomas mais preocupantes era sua inquietação e incapacidade de dormir. Agora, ao ouvirem que dormia, concluíram que a febre estava cedendo e que o pior já passara.
Muitas vezes, o sono é um remédio da natureza e revigora as forças fracas e cansadas dela. Isso também é verdade quanto ao sono da morte: se um bom cristão dormir assim, ficará bem; melhor do que estava aqui.
[2.] Eles tinham uma preocupação ainda maior consigo mesmos, pois insinuavam que agora era desnecessário Cristo ir até Lázaro e expor a si mesmo e a eles: “Se ele dorme, logo ficará bem, e podemos permanecer onde estamos”.
Assim, esperamos que a boa obra para a qual somos chamados se faça sozinha ou seja feita por outra pessoa, caso haja perigo em realizá-la.
(3.) O equívoco deles é corrigido (v. 13): “Jesus falava de sua morte”. Veja aqui, [1.] como os discípulos de Cristo ainda eram lentos para entender.
Portanto, não condenemos como hereges todos os que interpretam mal o sentido de algumas palavras de Cristo. Não é bom exagerar os erros de nossos irmãos; contudo, este era grave, pois poderia ter sido facilmente evitado se tivessem se lembrado de quantas vezes a morte é chamada de sono no Antigo Testamento.
Deveriam ter entendido Cristo quando ele falava na linguagem das Escrituras. Além disso, seria estranho que o Mestre empreendesse uma viagem de dois ou três dias apenas para despertar um amigo de um sono natural, algo que qualquer outra pessoa poderia fazer.
Podemos ter certeza de que aquilo que Cristo se compromete a fazer é algo grandioso e incomum, uma obra digna dele. [2.] Veja com que cuidado o evangelista corrige esse erro: “Jesus falava de sua morte”.
Aqueles que falam em língua desconhecida ou usam figuras de linguagem devem aprender daqui a se explicar e orar para que possam interpretar, a fim de evitar mal-entendidos.
(4.) A declaração clara e explícita que Jesus lhes fez sobre a morte de Lázaro e sua decisão de ir a Betânia (v. 14, 15). [1.] Ele os informa da morte de Lázaro. O que antes dissera de modo obscuro, agora diz claramente e sem figura: “Lázaro está morto” (v. 14).
Cristo toma conhecimento da morte de seus santos, pois ela é preciosa aos seus olhos (Salmos 116:15); e não se agrada quando não a consideramos nem a levamos a sério. Veja que mestre compassivo Cristo é e como se inclina para os que estão fora do caminho, explicando, com suas palavras e ações posteriores, as dificuldades do que veio antes.
[2.] Ele lhes dá o motivo de ter demorado tanto para ir vê-lo: “Por vossa causa, alegro-me de não ter estado lá”. Se tivesse chegado a tempo, teria curado a doença e impedido a morte de Lázaro, o que teria sido um grande consolo para seus amigos.
Mas então os discípulos não teriam visto nenhuma prova ulterior de seu poder além das que já haviam visto muitas vezes e, por consequência, sua fé não teria progredido.
Agora, porém, que foi e o ressuscitou dentre os mortos, muitos passaram a crer nele, embora antes não cressem (v. 45); e também se fez muito para aperfeiçoar o que faltava à fé dos que já criam, propósito de Cristo: “para que creiais”.
[3.] Agora ele decide ir a Betânia e levar consigo os discípulos: “Vamos até ele”. Não diz: “Vamos às irmãs dele, para consolá-las” — o máximo que podemos fazer —, mas: “Vamos até ele”, pois Cristo pode realizar maravilhas em favor dos mortos.
A morte, que nos separa de todos os outros amigos e interrompe nosso contato com eles, não pode nos separar do amor de Cristo nem nos pôr fora do alcance de seu chamado. Assim como ele manterá sua aliança com o pó, também pode visitar o pó.
Lázaro está morto, mas vamos até ele; embora talvez aqueles que disseram “Se ele dorme, não é necessário ir” estivessem prontos para dizer “Se está morto, não adianta ir”.
(5.) Tomé anima os demais discípulos a acompanharem com coragem o Mestre em seus passos (v. 16): “Tomé, chamado Dídimo”. Tomé, em hebraico, e Dídimo, em grego, significam “gêmeo”. Diz-se de Rebeca (Gênesis 25:24) que havia gêmeos em seu ventre; a palavra é Thomim.
Provavelmente Tomé era gêmeo. Ele disse aos outros discípulos — que provavelmente se entreolhavam com medo e preocupação quando Cristo afirmou com tanta firmeza “Vamos até ele” —, com grande coragem: “Vamos também, para morrermos com ele”; com ele, isto é:
[1.] Com Lázaro, que estava morto — é assim que alguns entendem. Lázaro era um amigo querido e afetuoso tanto de Cristo quanto dos discípulos; talvez Tomé tivesse especial intimidade com ele. “Se ele está morto”, disse, “vamos também morrer com ele”.
Primeiro: “Se sobrevivermos, não saberemos viver sem ele”. Provavelmente Lázaro lhes fizera muitos favores, dera abrigo e sustento e lhes servira de olhos. Agora que partira, não tinham ninguém com a mesma disposição; por isso, diz Tomé, “seria melhor morrermos com ele”.
Às vezes estamos prontos a pensar que nossa vida está ligada à vida de alguns que nos são queridos. Mas Deus nos ensinará a viver — e a viver com conforto nele — quando partirem aqueles sem os quais pensávamos não poder viver. Mas não é só isso.
Segundo: “Se morrermos, esperamos ser felizes com ele”. Tomé tem uma crença tão firme na felicidade do outro lado da morte e uma esperança tão boa, pela graça, de que ele, os demais discípulos e Lázaro participarão dela, que está disposto a que todos vão morrer com Lázaro.
É melhor morrer e acompanhar nossos amigos cristãos ao mundo que fica mais rico com a chegada deles do que permanecer num mundo empobrecido pela partida deles.
Quanto mais amigos nossos partem daqui, menos laços nos prendem à terra e mais há para conduzir nosso coração ao céu. Como esse homem bom fala da morte com serenidade, como se fosse apenas tirar a roupa e ir para a cama!
[2.] “Vamos morrer com nosso Mestre, que agora se expõe à morte ao arriscar-se na Judeia”; e penso que esse é o sentido mais provável.
“Se ele vai ao perigo, vamos também e compartilhemos sua sorte, conforme a ordem que recebemos: ‘Segue-me’.” Tomé conhecia tão bem a maldade dos judeus contra Cristo e os propósitos de Deus a respeito dele — dos quais Cristo tantas vezes lhes falara — que não era uma suposição descabida pensar que agora ele ia morrer.
Agora Tomé demonstra, Primeiro, uma disposição graciosa para morrer com o próprio Cristo, fruto de forte afeição por ele, embora sua fé fosse fraca, como se viu depois (João 14:5; João 20:25). “Onde morreres, morrerei eu” (Rute 1:17).
Segundo, um desejo zeloso de levar os demais discípulos à mesma disposição: “Vamos todos, sem exceção, morrer com ele; se o apedrejarem, que nos apedrejem também. Quem desejaria sobreviver a um Mestre assim?”
Assim, em tempos difíceis, os cristãos devem animar uns aos outros. Cada um de nós pode dizer: “Vamos morrer com ele”. Repare: considerar a morte do Senhor Jesus deve nos tornar dispostos a morrer sempre que Deus nos chamar.
Versículos 17 a 32
Cristo em Betânia.
Resolvida a questão de que Cristo irá à Judeia, acompanhado de seus discípulos, eles se preparam para a viagem. Nela aconteceram algumas coisas que os outros evangelistas registram, como a cura do cego em Jericó e a conversão de Zaqueu.
Não devemos considerar que estamos desviados do nosso caminho quando estamos no caminho de fazer o bem; tampouco devemos nos dedicar tanto a uma boa obra a ponto de negligenciar outra.
Por fim, ele chega perto de Betânia, que, segundo dizem, ficava a cerca de quinze estádios de Jerusalém, aproximadamente duas milhas medidas (v. 18). Menciona-se essa distância porque, na prática, esse milagre foi realizado em Jerusalém e, portanto, entrou na conta da cidade.
Os milagres de Cristo na Galileia foram mais numerosos, mas os que ocorreram em Jerusalém ou perto dela foram mais ilustres. Ali ele curou um homem enfermo havia trinta e oito anos, outro que era cego desde o nascimento, e ressuscitou alguém que estava morto havia quatro dias.
Cristo chegou a Betânia; observe:
I. Em que condição encontrou seus amigos ali. É provável que, da última vez que estivera com eles, os tivesse deixado bem, com saúde e alegria; mas, quando nos despedimos de nossos amigos, não sabemos — embora Cristo soubesse — que mudanças poderão afetar a nós ou a eles antes de nos encontrarmos de novo.
- Encontrou seu amigo Lázaro no túmulo (v. 17). Ao chegar perto da cidade, provavelmente junto ao cemitério local, soube pelos vizinhos ou por algumas pessoas que encontrou que Lázaro estava sepultado havia quatro dias.
Alguns pensam que Lázaro morreu no mesmo dia em que o mensageiro levou a Jesus a notícia de sua doença; assim, contam dois dias de permanência no mesmo lugar e dois dias de viagem.
Penso, antes, que Lázaro morreu exatamente no instante em que Jesus disse: “Nosso amigo dorme; ele acaba de adormecer”. Penso também que o tempo entre sua morte e o sepultamento — que entre os judeus era breve —, junto com os quatro dias em que permaneceu no túmulo, foi consumido nessa viagem.
Pois Cristo viajou publicamente, como se vê por sua passagem por Jericó, e sua permanência na casa de Zaqueu tomou algum tempo. Os livramentos prometidos, embora sempre cheguem com certeza, ainda assim muitas vezes chegam devagar.
- Encontrou em dor os amigos que sobreviveram. Marta e Maria estavam quase submersas pela tristeza causada pela morte do irmão. Isso fica indicado quando se diz que muitos judeus foram consolar Marta e Maria.
Repare: (1.) Em geral, onde há morte, há pranteadores, sobretudo quando partem pessoas agradáveis e queridas por seus parentes e úteis à sua geração. A casa onde há morte é chamada casa de luto (Eclesiastes 7:2).
Quando alguém vai para sua longa morada, os pranteadores andam pelas ruas (Eclesiastes 12:5), ou melhor, sentam-se sozinhos e ficam em silêncio. A casa de Marta era uma casa onde havia temor de Deus e sobre a qual repousava sua bênção; ainda assim, tornou-se uma casa de luto.
A graça afasta a tristeza do coração (João 14:1), não da casa. (2.) Onde há pranteadores, deve haver consoladores. Devemos aos que sofrem o dever de chorar com eles e consolá-los; nosso pranto com eles será algum consolo.
Quando estamos sob o impacto presente da dor, tendemos a esquecer as coisas que nos trariam consolo e, por isso, precisamos de quem nos faça lembrá-las.
É uma misericórdia ter quem nos lembre dessas coisas quando estamos tristes; e é nosso dever lembrar delas aos que estão tristes. Os doutores judeus davam grande importância a isso, obrigando seus discípulos a considerar um dever de consciência consolar os enlutados depois do sepultamento dos mortos.
Eles os consolaram a respeito do irmão, isto é, falando dele: não apenas do bom nome que deixara, mas também do estado feliz para o qual fora. Quando parentes e amigos piedosos nos são tirados, temos motivos para sofrer por nós mesmos, que ficamos para trás e sentimos sua falta.
Mas também temos motivo para nos consolarmos a respeito dos que partiram antes de nós para uma felicidade em que não precisam de nós.
A visita que os judeus fizeram a Marta e Maria é prova de que eram pessoas importantes e de destaque; mostra também que eram atenciosas com todos. Assim, embora fossem seguidoras de Cristo, até aqueles que não o respeitavam eram corteses com elas.
Havia também uma providência nisso: provavelmente muitas senhoras judias vieram juntas, justamente naquele momento, consolar as enlutadas, para que fossem testemunhas incontestáveis do milagre e vissem como eram consoladores miseráveis em comparação com Cristo.
Cristo normalmente não convocava testemunhas para seus milagres. Contudo, se ninguém estivesse presente além dos parentes, isso poderia ser contestado. Por isso, o desígnio de Deus ordenou que eles se reunissem por acaso, para dar testemunho do milagre e calar a boca da incredulidade.
II. O que se passou entre ele e os amigos que sobreviveram durante esse encontro. Quando Cristo adia suas visitas por algum tempo, elas se tornam mais agradáveis, muito mais bem-vindas; foi o que aconteceu aqui.
Suas partidas tornam mais queridas suas voltas, e sua ausência nos ensina a valorizar sua presença. Temos aqui:
- O encontro entre Cristo e Marta:
(1.) Somos informados de que ela foi ao encontro dele (v. 20). [1.] Parece que Marta esperava ansiosamente a chegada de Cristo e perguntava por ele.
Ou enviara mensageiros para lhe trazer notícias de quando ele se aproximasse, ou perguntara muitas vezes: “Vistes aquele a quem minha alma ama?”, de modo que a primeira pessoa a avistá-lo correu até ela com a boa notícia.
Seja como for, ela soube que ele vinha antes de sua chegada. Esperou por muito tempo e perguntou muitas vezes: “Ele já chegou?”, mas não recebia notícias; contudo, aquele por quem tanto se esperava finalmente veio.
No fim, a visão falará e não mentirá. [2.] Quando lhe trouxeram a boa notícia de que Jesus estava chegando, Marta deixou tudo de lado e foi ao encontro dele, demonstrando uma acolhida muito afetuosa.
Ela dispensou toda a cerimônia e as formalidades com os judeus que vieram visitá-la e apressou-se para ir ao encontro de Jesus. Repare: quando Deus vem ao nosso encontro, por sua graça ou providência, trazendo misericórdia e consolo, devemos sair para encontrá-lo com fé, esperança e oração.
Alguns sugerem que Marta saiu da cidade para encontrar Jesus e avisá-lo de que havia diversos judeus na casa que não eram seus amigos, para que, se quisesse, pudesse evitar cruzar com eles.
[3.] Quando Marta foi ao encontro de Jesus, Maria ficou sentada em casa. Alguns pensam que ela não ouviu a notícia, pois estava na sala de visitas, recebendo condolências; Marta, ocupada com os afazeres domésticos, teria recebido a notícia antes.
Talvez Marta não tenha contado à irmã que Cristo estava chegando, por querer a honra de recebê-lo primeiro. Sancta est prudentia clam fratribus clam parentibus ad Christum esse conferre — “É santa prudência ir a Cristo sem que irmãos e pais saibam o que estamos fazendo” — Maldonat, sobre esta passagem.
Outros pensam que Maria soube que Cristo havia chegado, mas estava tão abatida pela tristeza que não quis se levantar. Preferiu alimentar sua dor, ficar meditando em sua aflição e dizer: “Faço bem em chorar”.
Comparando essa história com a de Lucas 10:38, etc., podemos observar as diferentes disposições dessas duas irmãs e as tentações e vantagens de cada uma.
A disposição natural de Marta era ativa e diligente; gostava de estar em todo lugar e de cuidar de tudo. Isso lhe servira de armadilha quando, por causa dessa disposição, ficava não apenas ansiosa e ocupada com muitas coisas, mas também impedida de se dedicar à devoção.
Agora, porém, num dia de aflição, essa disposição ativa lhe fez bem: manteve a dor afastada de seu coração, levou-a a ir ao encontro de Cristo e, assim, fez com que recebesse consolo dele mais cedo.
Por outro lado, a disposição natural de Maria era contemplativa e reservada. Antes, isso lhe fora uma vantagem, pois a colocara aos pés de Cristo para ouvir sua palavra e lhe permitira dedicar-lhe atenção ali, sem as distrações que ocupavam Marta.
Mas agora, no dia da aflição, essa mesma disposição se tornou uma armadilha: tornou-a menos capaz de enfrentar sua dor e a inclinou à melancolia. “Maria, porém, ficou sentada em casa”.
Vejam como será sábio da nossa parte vigiar cuidadosamente contra as tentações e aproveitar as vantagens de nossa disposição natural.
(2.) Aqui é relatada em detalhes a conversa entre Cristo e Marta.
[1.] O que Marta disse a Cristo (v. 21, 22).
Primeiro, ela se queixa da longa ausência e demora de Cristo. Disse isso não apenas com dor pela morte do irmão, mas também com certo ressentimento pela aparente falta de bondade do Mestre: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”.
Aqui há: 1. Alguma evidência de fé. Ela cria no poder de Cristo: embora a doença do irmão fosse muito grave, ainda assim ele poderia tê-lo curado e, assim, impedido sua morte.
Ela cria na compaixão dele: se ao menos tivesse visto Lázaro em sua extrema enfermidade e os queridos parentes todos chorando ao redor dele, teria se compadecido e evitado uma perda tão triste, pois suas misericórdias não falham.
Mas, 2. Aqui há tristes exemplos de incredulidade. Sua fé era verdadeira, mas fraca como uma cana quebrada, pois limita o poder de Cristo ao dizer: “Se estivesses aqui”.
Ela deveria saber que Cristo podia curar à distância e que suas ações graciosas não se limitavam à sua presença corporal. Também questiona a sabedoria e a bondade de Cristo por não ter se apressado até eles quando o chamaram, como se não tivesse calculado bem o momento.
Agora, poderia muito bem ter ficado onde estava e nem sequer ter vindo, em vez de chegar tarde; e, quanto a qualquer ajuda agora, ela mal consegue considerar essa possibilidade.
Segundo, ainda assim ela corrige e consola a si mesma pensando no favor eficaz que Cristo tinha no céu; pelo menos, censura a si mesma por censurar o Mestre e insinuar que ele chegara tarde: “Pois sei que, mesmo agora, por desesperadora que seja a situação, tudo o que pedires a Deus, Deus te concederá”.
Observe: 1. Como sua esperança estava disposta a confiar. Embora não tivesse coragem de pedir a Jesus que o ressuscitasse, pois ainda não havia precedente de alguém que, depois de estar morto por tanto tempo, tivesse voltado à vida, ainda assim ela humildemente, como uma suplicante modesta, entrega o caso à consideração sábia e compassiva do Senhor Jesus.
Quando não sabemos especificamente o que pedir ou esperar, confiemos em Deus de modo geral; que ele faça o que lhe parecer bom. Judicii tui est, non præsumptionis meæ — “Deixo isso ao teu juízo, não à minha presunção” — Agostinho, no local.
Quando não sabemos pelo que orar, é nosso consolo saber que o grande Intercessor sabe o que pedir por nós e sempre é ouvido. 2. Como sua fé era fraca.
Ela deveria ter dito: “Senhor, podes fazer tudo o que quiseres”; mas diz apenas: “Podes obter tudo o que pedires”. Ela se esquecera de que o Filho tinha vida em si mesmo e realizava milagres por seu próprio poder.
No entanto, devemos considerar ambos esses aspectos para dar ânimo à nossa fé e esperança, sem excluir nenhum: o domínio de Cristo na terra e seu favor e intercessão no céu.
Ele tem numa das mãos o cetro de ouro e, na outra, o incensário de ouro; seu poder é sempre soberano, e sua intercessão, sempre eficaz.
[2.] A palavra consoladora que Cristo deu a Marta em resposta à sua súplica comovente (v. 23): “Jesus lhe disse: Teu irmão ressuscitará”.
Na queixa, Marta olhou para trás e lamentou que Cristo não estivesse ali, pois, pensava ela, meu irmão ainda estaria vivo. Em casos assim, tendemos a aumentar nossa própria aflição imaginando o que poderia ter acontecido.
“Se tal medida tivesse sido tomada, se tal médico tivesse sido chamado, meu amigo não teria morrido.” Mas não sabemos isso; e de que adianta pensar assim? Quando a vontade de Deus se cumpre, devemos nos submeter a ele.
Cristo direciona Marta — e a nós, por meio dela — a olhar para a frente e pensar no que acontecerá, pois isso é certo e traz consolo seguro: “Teu irmão ressuscitará”.
Primeiro, isso era verdade a respeito de Lázaro num sentido particular: ele seria ressuscitado em breve. Mas Cristo fala disso em geral, como algo que aconteceria, e não como algo que ele próprio faria; tão humildemente nosso Senhor Jesus falava do que fazia.
Ele também se expressa de modo ambíguo, deixando-a inicialmente sem saber se o ressuscitaria naquele momento ou somente no último dia, para provar a fé e a paciência dela.
Segundo, isso se aplica a todos os santos e à ressurreição deles no último dia. Repare: é motivo de consolo, quando sepultamos nossos amigos e parentes piedosos, pensar que eles ressuscitarão.
Assim como a alma, ao morrer, não se perde, mas vai adiante, também o corpo não se perde, mas fica guardado. Imagine ouvir Cristo dizer: “Teu pai, teu filho, teu companheiro de vida ressuscitarão; estes ossos secos viverão”.
[3.] A fé que Marta misturou a essa palavra e a incredulidade que se misturou à fé (v. 24).
Primeiro, ela considera digna de confiança a afirmação de que ele ressuscitará no último dia. Embora a doutrina da ressurreição fosse receber sua plena comprovação com a ressurreição de Cristo, Marta já cria firmemente nela, pois havia sido revelada (Atos 24:15).
Que haverá um último dia, com o qual todos os dias do tempo se completarão e terminarão. 2. Que haverá uma ressurreição geral nesse dia, quando a terra e o mar entregarão seus mortos.
Que haverá a ressurreição particular de cada um: “Sei que eu ressuscitarei, e também este e aquele parente que me era querido”. Naquele dia, assim como osso voltará a osso, amigo voltará para junto de amigo.
Segundo, porém, ela parece pensar que essa afirmação não merece ser tão bem acolhida como de fato merece: “Sei que ele ressuscitará no último dia, mas de que isso nos serve agora?”
Como se os consolos da ressurreição para a vida eterna não merecessem ser mencionados ou não trouxessem satisfação suficiente para compensar sua aflição.
Vejam nossa fraqueza e insensatez: deixamos as coisas palpáveis do presente causar em nós uma impressão mais profunda, tanto de dor quanto de alegria, do que as coisas que são objeto da fé.
“Sei que ele ressuscitará no último dia.” E isso não basta? Ela parece pensar que não. Assim, por nosso descontentamento com as provações presentes, desvalorizamos muito nossas esperanças futuras e as desprezamos, como se não merecessem atenção.
[4.] A instrução e o ânimo ulteriores que Jesus Cristo lhe deu, pois não apagará o pavio que fumega nem quebrará a cana quebrada.
Ele lhe disse: “Eu sou a ressurreição e a vida” (v. 25, 26). Cristo a leva a crer em duas coisas referentes à aflição presente; são elas que nossa fé deve abraçar em situações semelhantes.
Primeiro, o poder de Cristo, seu poder soberano: “Eu sou a ressurreição e a vida”, a fonte da vida e o cabeça e autor da ressurreição.
Marta cria que, se Cristo orasse, Deus lhe concederia qualquer coisa; mas ele queria que ela soubesse que, por sua palavra, podia realizar qualquer coisa.
Marta cria na ressurreição no último dia. Cristo lhe diz que esse poder estava em suas próprias mãos e que os mortos ouviriam sua voz (João 5:25). Daí era fácil concluir: aquele que podia ressuscitar um mundo de pessoas mortas havia muitas eras certamente poderia ressuscitar um homem que estava morto havia apenas quatro dias.
Repare: é um consolo indizível para todos os bons cristãos saber que Jesus Cristo é a ressurreição e a vida, e que o será para eles. Ressurreição é voltar à vida; Cristo é o autor desse retorno e da vida à qual se retorna.
Esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do mundo vindouro, e Cristo é ambas: o autor e o princípio de ambas, bem como o fundamento de nossa esperança em ambas.
Segundo, as promessas da nova aliança, que nos dão mais motivos para esperar que viveremos. Observe:
a. A quem essas promessas são feitas: aos que creem em Jesus Cristo; aos que anuem a Jesus Cristo e confiam nele como o único Mediador da reconciliação e da comunhão entre Deus e os homens; aos que recebem o testemunho que Deus deu em sua palavra a respeito de seu Filho, conformam-se sinceramente a ele e atendem a todos os seus grandes propósitos.
A condição da promessa seguinte é expressa assim: “Todo aquele que vive e crê em mim”. Isso pode ser entendido de duas maneiras: (a.) Como vida natural: todo aquele que vive neste mundo, seja judeu ou gentio, onde quer que viva, se crer em Cristo, viverá por meio dele.
No entanto, há um limite de tempo: todo aquele que crer em mim durante a vida, enquanto estiver aqui neste período de prova, será feliz em mim; depois da morte será tarde demais.
Todo aquele que vive e crê, isto é, vive pela fé (Gálatas 2:20), tem uma fé que influencia sua conduta. Ou (b.) Como vida espiritual: aquele que vive e crê é quem, pela fé, nasceu de novo para uma vida celestial e divina; para ele, viver é Cristo — ele faz de Cristo a vida de sua alma.
b. Quais são as promessas (v. 25): “Ainda que morra, viverá”; ou melhor, “nunca morrerá” (v. 26). O homem é composto de corpo e alma, e há provisão para a felicidade de ambos.
(a.) Quanto ao corpo, temos a promessa de uma ressurreição bendita. Embora o corpo esteja morto por causa do pecado — não há como evitar que morra —, viverá de novo.
Aqui se deixam de lado e se consideram insignificantes todas as dificuldades que acompanham a condição dos mortos. Ainda que a sentença de morte fosse justa e seus efeitos, terríveis; ainda que os laços da morte fossem fortes; ainda que alguém esteja morto e sepultado, morto e decomposto, nada disso torna a promessa impossível.
Ainda que o pó espalhado esteja tão misturado ao pó comum que nenhuma habilidade humana consiga distingui-lo, muito menos separá-lo — formule-se o caso da maneira mais desfavorável possível —, temos certeza de que ele viverá de novo: o corpo será ressuscitado glorioso.
(b.) Quanto à alma, temos a promessa de uma imortalidade bendita. Aquele que vive e crê, unido a Cristo pela fé e vivendo espiritualmente em virtude dessa união, nunca morrerá.
Essa vida espiritual nunca será extinta, mas aperfeiçoada na vida eterna. Como a alma é espiritual por natureza e, portanto, imortal, se pela fé viver uma vida espiritual, de acordo com sua natureza, também será imortal sua felicidade.
Ela nunca morrerá; nunca deixará de estar tranquila e feliz, e não haverá interrupção ou pausa em sua vida, como acontece com a vida do corpo.
Por fim, a mortalidade do corpo será tragada pela vida; mas a vida da alma — da alma que crê — será tragada pela imortalidade sem mediação, ao morrer.
Ele não morrerá, eis ton aiona, para sempre — Non morietur in æternum; assim Cipriano cita a passagem. O corpo não ficará morto para sempre no túmulo; morre, como as duas testemunhas, por um tempo, tempos e metade de um tempo.
Quando o tempo deixar de existir e todos os seus períodos forem contados e concluídos, um espírito de vida vindo de Deus entrará nele. Mas não é só isso: as almas não morrerão daquela morte que é para sempre; não morrerão eternamente.
Bem-aventurado e santo — isto é, abençoado e feliz — é aquele que pela fé participa da primeira ressurreição, que participa de Cristo, a própria ressurreição; pois a segunda morte, que é uma morte para sempre, não terá poder sobre ele. Veja João 6:40.
Cristo lhe pergunta: “Você crê nisso? Pode aceitar isso, aplicando-o a si mesma? Pode confiar na minha palavra?”
Repare: quando lemos ou ouvimos a palavra de Cristo sobre as grandes coisas do outro mundo, devemos perguntar seriamente a nós mesmos: “Cremos nisso, nesta verdade em particular, que vem acompanhada de tantas dificuldades e se aplica ao meu caso?”
“Minha fé nisso torna essa verdade real para mim e dá à minha alma a certeza dela, de modo que eu possa dizer não apenas ‘creio nisso’, mas ‘creio assim’?”
Marta se prendia à ideia de que seu irmão fosse ressuscitado neste mundo. Antes de Cristo lhe dar esperança quanto a isso, direcionou seus pensamentos para outra vida, outro mundo: “Isso não importa; mas você crê no que lhe digo a respeito do estado futuro?”
As provações e os consolos do tempo presente não causariam em nós a impressão que causam se crêssemos como deveríamos nas coisas da eternidade.
[5.] Marta deu seu assentimento sincero ao que Cristo disse (v. 27). Temos aqui o credo de Marta, sua boa confissão, igual àquela pela qual Pedro foi elogiado (Mateus 16:16, 17); é a conclusão de todo o assunto.
Primeiro, aqui está o guia de sua fé: a palavra de Cristo. Sem alteração, ressalva ou condição, ela a aceita por inteiro, tal como Cristo a disse: “Sim, Senhor”. Com isso, reconhece como verdadeira cada parte do que Cristo prometeu, no sentido pretendido por ele: “Assim seja”.
A fé é um eco à revelação divina: repete as mesmas palavras e decide permanecer nelas. “Sim, Senhor. Conforme a palavra o estabeleceu, assim creio e a aceito”, disse a rainha Elizabeth.
Segundo, o fundamento de sua fé é a autoridade de Cristo: ela crê nisso porque crê que aquele que o diz é o Cristo. Recorre ao fundamento para sustentar a construção. “Creio”, pepisteuka — “Tenho crido que tu és o Cristo e, por isso, creio nisto”. Observe:
a. O que ela cria e confessava a respeito de Jesus: três coisas que significam o mesmo: (a.) que ele era o Cristo, ou Messias, prometido e esperado com esse nome e título, o Ungido; (b.) que era o Filho de Deus — assim o Messias foi chamado (Salmos 2:7), não apenas por sua função, mas por natureza.
(c.) que era aquele que viria ao mundo, ho erchomenos. Ela acolheu como presente a bênção das bênçãos que a igreja esperara por tantas eras como algo futuro.
b. O que ela concluiu disso e por que apresentou essa confissão. Se admite que Jesus é o Cristo, não há dificuldade em crer que ele é a ressurreição e a vida; pois, se é o Cristo, então (a.) é a fonte de luz e verdade, e podemos aceitar como fiéis e divinas todas as suas palavras, com base em sua própria autoridade.
Se é o Cristo, é aquele profeta a quem devemos ouvir em todas as coisas. (b.) É a fonte de vida e bem-aventurança; portanto, podemos confiar tanto em seu poder quanto em sua veracidade.
Como corpos reduzidos a pó poderão viver de novo? Como almas tão sobrecarregadas e obscurecidas como as nossas poderão viver para sempre?
Não poderíamos crer nisso se não crêssemos que aquele que se compromete a fazê-lo é o Filho de Deus, que tem vida em si mesmo e a tem para nós.
- O encontro entre Cristo e Maria, a outra irmã. Observe aqui:
(1.) O aviso que Marta lhe deu da chegada de Cristo (v. 28): depois de dizer isso, como quem não precisava dizer mais nada, ela foi embora, tranquila em seu coração, e chamou Maria, sua irmã.
[1.] Marta, tendo recebido pessoalmente instrução e consolo de Cristo, chamou a irmã para compartilhá-los com ela. Houve um tempo em que Marta quis tirar Maria de junto de Cristo para que viesse ajudá-la com muitos serviços (Lucas 10:40); para compensá-la por isso, agora se empenha em conduzi-la a Cristo.
[2.] Chamou-a em segredo e sussurrou-lhe ao ouvido, pois havia ali pessoas, judeus que não eram amigos de Cristo. Os santos são chamados à comunhão com Jesus Cristo por um convite secreto e seletivo, feito a eles, e não aos outros.
Eles têm um alimento que o mundo desconhece e uma alegria da qual nenhum estranho participa. [3.] Chamou-a por ordem de Cristo; ele lhe dissera que fosse chamar a irmã.
Esse chamado eficaz, seja quem for o mensageiro, é enviado por Cristo: “O Mestre chegou e te chama”. Primeiro, ela chama Cristo de Mestre, didaskalos, isto é, mestre e instrutor; era esse o título pelo qual costumavam chamá-lo e conhecê-lo.
O sr. George Herbert gostava de chamar Cristo de “meu Mestre”. Segundo, ela celebra a chegada dele: “O Mestre chegou”. Aquele por quem há tanto tempo ansiávamos e esperávamos chegou, chegou; esse era o melhor bálsamo naquela aflição.
“Lázaro partiu, e com ele se foi o consolo que tínhamos nele; mas o Mestre chegou, melhor do que o amigo mais querido, e nele há o bastante para compensar abundantemente todas as nossas perdas.”
“Chegou aquele que é nosso mestre, que nos ensinará a tirar proveito de nossa tristeza (Salmos 94:12), que nos ensinará e, assim, nos consolará.” Terceiro, ela convida a irmã a ir encontrá-lo: “Ele chama por você, pergunta onde você está e quer que mandem chamá-la”.
Repare: quando Cristo, nosso Mestre, vem, chama por nós. Ele vem em sua palavra e em suas ordenanças; chama-nos para elas, por meio delas e para si mesmo.
Ele chama por você em particular, pelo seu nome (Salmos 27:8); e, se chamar por você, também lhe dará cura e consolo.
(2.) A pressa com que Maria foi até Cristo depois desse aviso (v. 29): assim que ouviu a boa notícia de que o Mestre havia chegado, levantou-se depressa e foi até ele.
Ela mal imaginava que ele estivesse tão perto, pois muitas vezes ele está mais perto dos que choram em Sião do que eles percebem. Mas, quando soube que estava perto, levantou-se de um salto e, tomada de alegria, correu ao seu encontro.
A menor indicação de que Cristo se aproxima com graça basta para a fé viva, que está pronta a perceber o sinal e responder ao primeiro chamado. Quando Cristo chegou, [1.] ela não olhou pelo decoro próprio do luto.
Esquecendo a cerimônia e os costumes habituais nesses casos, atravessou a cidade correndo para encontrar Cristo. Que nenhum escrúpulo exagerado de decência ou honra nos prive, em ocasião alguma, da oportunidade de ter comunhão com Cristo.
[2.] Ela não consultou os vizinhos, os judeus que estavam com ela para consolá-la. Deixou todos para ir até ele; não pediu conselho, nem sequer licença, nem desculpas pela falta de humanidade.
(3.) Somos informados de onde Maria encontrou o Mestre (v. 30): ele ainda não havia entrado em Betânia, mas estava nos limites da cidade, no lugar onde Marta o encontrara.
Veja aqui: [1.] o amor de Cristo por sua obra. Ele ficou perto do lugar onde estava o túmulo, para estar pronto a ir até lá.
Não entrou na cidade para descansar do cansaço da viagem antes de terminar a obra para a qual viera. Também não entrou, para que isso não parecesse ostentação ou um desígnio de reunir uma multidão para assistir ao milagre.
[2.] O amor de Maria por Cristo: ela continuamente o amava muito. Embora Cristo parecesse pouco bondoso ao demorar, ainda assim ela não conseguia levar a mal coisa alguma da parte dele. Vamos, assim, a Cristo, fora do acampamento (Hebreus 13:13).
(4.) O equívoco dos judeus que estavam com Maria sobre ela ter saído tão depressa (v. 31): disseram: “Ela vai ao túmulo para chorar lá”. Marta suportou essa aflição melhor do que Maria, que era uma mulher de espírito sensível e triste; essa era sua disposição natural.
Os que têm essa disposição precisam vigiar contra a melancolia e devem ser tratados com compaixão e receber ajuda. Esses consoladores perceberam que suas formalidades não lhe serviam de nada e que ela se obstinava na tristeza.
Por isso, concluíram que, ao sair e seguir naquela direção, ela ia ao túmulo para chorar lá. Veja: [1.] Muitas vezes, a insensatez e a falha dos enlutados consistem em maquinar como agravar sua própria dor e tornar pior o que já é ruim.
Em casos assim, tendemos a sentir um estranho prazer na própria dor e a dizer: “Fazemos bem em nos entregar com veemência à tristeza, até à morte”. Tendemos a nos apegar às coisas que agravam a aflição.
De que isso nos serve, se nosso dever é nos conformar à vontade de Deus nessa situação? Por que os enlutados deveriam ir chorar junto ao túmulo, se não se entristecem como os que não têm esperança?
A aflição já é dolorosa por si só; por que torná-la ainda mais dolorosa? [2.] A sabedoria e o dever dos consoladores consistem em impedir, tanto quanto possível, que os que choram em excesso reavivem a tristeza, e em distraí-los dela.
Os judeus que acompanharam Maria foram assim conduzidos a Cristo e se tornaram testemunhas de um de seus milagres mais gloriosos. É bom permanecer ao lado dos amigos de Cristo em suas tristezas, pois assim podemos conhecê-lo melhor.
(5.) A maneira como Maria se dirigiu a nosso Senhor Jesus (v. 32): acompanhada por seu grupo de consoladores, ela foi até ele e caiu aos seus pés, como alguém dominada por intensa tristeza; disse, entre muitas lágrimas (como se vê no v. 33): “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”, como Marta dissera antes, pois elas muitas vezes diziam isso uma à outra.
Aqui, [1.] sua postura é muito humilde e submissa. Ela caiu aos pés dele, mais do que Marta, que tinha maior domínio sobre as próprias emoções.
Ela não caiu como uma enlutada desfalecida, mas aos pés dele como uma suplicante humilde. Maria já se sentara aos pés de Cristo para ouvir sua palavra (Lucas 10:39); agora a encontramos ali por outro motivo.
Repare: os que, em dias de paz, se colocam aos pés de Cristo para receber instrução podem, com consolo e confiança, lançar-se aos pés dele em dias de aflição, esperando encontrar seu favor.
Ela caiu aos pés dele, submetendo-se à vontade dele quanto ao que já acontecera e confiando em sua boa vontade quanto ao que ainda seria feito.
Quando estivermos aflitos, devemos nos lançar aos pés de Cristo, com tristeza de arrependimento e humilhação por causa do pecado, e com paciente submissão ao dispor divino.
Maria se lançou aos pés de Cristo para demonstrar o profundo respeito e reverência que tinha por ele. Era assim que os súditos costumavam honrar seus reis e príncipes.
Mas nosso Senhor Jesus não aparecia com a glória secular de um príncipe terreno; por isso, os que o honravam com essa postura de adoração certamente o consideravam mais que um homem e pretendiam prestar-lhe honra divina.
Assim, Maria professou a fé cristã tão verdadeiramente quanto Marta e, na prática, disse: “Creio que tu és o Cristo”. Curvar-se diante de Cristo e confessá-lo com a língua são apresentados como equivalentes (Romanos 14:11; Filipenses 2:10, 11).
Ela fez isso diante dos judeus que a acompanhavam. Embora fossem amigos dela e de sua família, eram inimigos ferrenhos de Cristo. Ainda assim, diante deles, ela se prostrou aos pés de Cristo, sem se envergonhar de demonstrar sua reverência por ele nem temer desagradar seus amigos e vizinhos.
Que se ressentissem como quisessem, ela se prostrava aos pés dele; e, se isso a tornasse desprezível, ela se tornaria ainda mais desprezível. Veja Cantares de Salomão 8:1.
Servimos a um Mestre de quem não temos motivo para nos envergonhar. Sua aprovação de nossos serviços basta para compensar o descrédito dos homens e todos os seus vitupérios.
[2.] O que ela lhe disse foi muito comovente: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”. A demora de Cristo foi planejada para o melhor resultado, e assim se mostrou.
Mesmo assim, as duas irmãs, de maneira muito imprópria, lançaram isso em seu rosto e, na prática, o culparam pela morte do irmão.
Ele poderia com razão ter se ressentido dessa cobrança repetida; poderia ter dito que tinha outras coisas a fazer além de atender às ordens delas e estar à disposição delas, e que viria quando seus afazeres permitissem.
Mas não disse uma palavra assim. Considerou as circunstâncias da aflição delas e que os que sofrem perdas pensam ter licença para falar; por isso, ignorou a falta de humanidade daquela acolhida e nos deu exemplo de brandura e mansidão em tais situações.
Maria não acrescentou mais nada, como Marta fizera. Mas, pelo que vem a seguir, vemos que compensou com lágrimas o que lhe faltou em palavras: disse menos que Marta, mas chorou mais.
As lágrimas de afeição devota têm voz, uma voz alta e eficaz aos ouvidos de Cristo; não há retórica como essa.
Versículos 33 a 44
Cristo junto ao Túmulo de Lázaro; A Ressurreição de Lázaro.
Aqui está: I. A terna compaixão de Cristo por seus amigos aflitos e a parte que tomou para si em suas tristezas, manifestada de três maneiras:
- Pelos gemidos e pela perturbação interior de seu espírito (v. 33): Jesus viu Maria chorar pela perda de um irmão afetuoso e os judeus que vieram com ela chorar pela perda de um bom vizinho e amigo.
Ao ver que aquele era um lugar de pranteadores, um bochim, gemeu em espírito e se perturbou. Veja aqui:
(1.) As dores dos filhos dos homens, representadas pelas lágrimas de Maria e de seus amigos. Que emblema do mundo era este, este vale de lágrimas!
A própria natureza nos ensina a chorar por nossos queridos parentes quando a morte os leva; por meio disso, a Providência nos chama a chorar e lamentar.
É provável que os bens de Lázaro tenham passado para as irmãs e representado um acréscimo considerável à fortuna delas. Em casos assim, as pessoas dizem hoje em dia que não podem desejar a morte dos parentes — isto é, não dizem que podem —, mas, se eles morressem, não gostariam que voltassem à vida.
Essas irmãs, porém, qualquer que fosse o proveito que tivessem com a morte do irmão, desejavam sinceramente que ele voltasse à vida.
A religião também nos ensina a chorar com os que choram, como esses judeus choraram com Maria, lembrando que nós também estamos no corpo. Os que na verdade amam seus amigos compartilham suas alegrias e dores, pois o que é a amizade senão compartilhar afeições? (Jó 16:5).
(2.) A graça do Filho de Deus e sua compaixão pelos que sofrem. Em todas as aflições deles, ele também é afligido (Isaías 63:9; Juízes 10:16). Quando Cristo viu todos chorando:
[1.] Gemeu em espírito. Deixou-se tentar — como nós, quando somos perturbados por alguma grande aflição —, mas sem pecado. Isso foi uma expressão, em primeiro lugar, de seu desagrado diante da dor excessiva dos que estavam ao seu redor, como em Marcos 5:39: “Por que fazeis tanto alvoroço e chorais?” Que agitação é essa? Isso convém aos que creem em Deus, no céu e em outro mundo?
Ou, em segundo lugar, de sua percepção sensível do estado calamitoso da vida humana e do poder da morte, ao qual o homem caído está sujeito.
Como agora iria atacar vigorosamente a morte e o túmulo, preparou-se para o combate, vestiu as roupas da vingança, e seu furor o sustentou. Para empreender com mais resolução a reparação de nossas aflições e a cura de nossas dores, teve por bem sentir o peso delas; sob esse fardo, gemeu em espírito.
Ou, em terceiro lugar, isso expressou sua terna compaixão por seus amigos aflitos. Aqui se ouvia o clamor das entranhas, as misericórdias que a igreja aflita tanto suplica (Isaías 63:15).
Cristo não apenas pareceu preocupado, mas gemeu em espírito; sentiu o sofrimento deles por dentro e com sinceridade. Os falsos amigos de Davi fingiam compaixão para disfarçar sua inimizade (Salmos 41:6); mas devemos aprender de Cristo a amar e nos compadecer sem fingimento. O suspiro de Cristo foi profundo e sincero.
[2.] Ele se perturbou. A expressão é que ele perturbou a si mesmo, e é muito significativa. Tinha todas as paixões e afeições da natureza humana, pois em tudo devia ser semelhante a seus irmãos; mas tinha perfeito domínio sobre elas.
Elas nunca se manifestavam, a não ser quando e como eram chamadas a isso. Ele nunca se perturbava sem que ele mesmo se perturbasse, quando via motivo. Muitas vezes se dispunha a sentir perturbação, mas nunca perdia o domínio de si por causa dela.
Ele agia voluntariamente tanto em seu sofrimento quanto em sua compaixão. Tinha poder para depor sua dor e poder para retomá-la.
- A preocupação dele com os amigos também se manifestou na pergunta bondosa que fez sobre os restos mortais de seu amigo falecido (v. 34): “Onde o pusestes?”
Ele sabia onde Lázaro fora sepultado, mas perguntou porque (1.) queria se expressar como homem, mesmo quando estava prestes a exercer o poder de Deus.
Ao ser encontrado em forma humana, adapta-se aos modos e costumes dos filhos dos homens: Non nescit, sed quasi nescit — “Não ignora, mas faz como se ignorasse”, diz Agostinho aqui.
(2.) Perguntou onde estava o túmulo para que, se fosse até lá por seu próprio conhecimento, os judeus incrédulos não suspeitassem de um acordo entre ele e Lázaro, nem de algum truque.
Muitos comentaristas observam isso com base em Crisóstomo. (3.) Queria desviar a dor dos amigos enlutados, despertando neles a expectativa de algo grandioso, como se dissesse:
“Não vim aqui com palavras de condolência, para misturar às suas algumas lágrimas inúteis e sem efeito. Não; tenho outro trabalho a fazer. Venham, vamos ao túmulo e cuidar do que temos a fazer ali”.
Repare: voltar-se seriamente para nosso trabalho é o melhor remédio contra a dor excessiva.
(4.) Queria indicar o zelo especial que tem com os corpos dos santos enquanto jazem no túmulo: ele sabe onde são postos e cuidará deles. Há não apenas uma aliança com o pó, mas também uma guarda sobre ele.
- Isso se manifestou por suas lágrimas. Os que estavam com ele não lhe disseram onde o corpo fora sepultado; queriam que ele fosse ver e o conduziram diretamente ao túmulo, para que a visão tocasse ainda mais seu coração diante daquela calamidade.
(1.) Enquanto ia ao túmulo, como se estivesse seguindo o cortejo fúnebre, “Jesus chorou” (v. 35). É um versículo muito curto, mas oferece muitas instruções úteis.
[1.] Que Jesus Cristo era realmente e na verdade homem e participou, com os filhos dos homens, não apenas de carne e sangue, mas também de uma alma humana, capaz de sentir alegria, dor e outras afeições.
Cristo deu essa prova de sua humanidade nos dois sentidos da palavra: como homem, podia chorar; e, como homem misericordioso, queria chorar, antes de dar prova de sua divindade.
[2.] Que ele era homem de dores e experimentado no sofrimento, como fora predito (Isaías 53:3). Nunca lemos que riu, mas mais de uma vez o vemos em lágrimas.
Assim, mostra não apenas que uma condição de luto é compatível com o amor de Deus, mas também que os que semeiam para o Espírito devem semear com lágrimas.
[3.] Lágrimas de compaixão ficam bem aos cristãos e os tornam mais semelhantes a Cristo. Para os que sofrem, é um alívio ter amigos que se compadeçam deles, sobretudo um amigo como seu Senhor Jesus.
(2.) Interpretaram de maneiras diferentes o choro de Cristo. [1.] Alguns o interpretaram com bondade e benevolência, de uma maneira muito natural (v. 36): “Então disseram os judeus: Vede como ele o amava!”
Parecem admirados que ele tivesse afeição tão forte por alguém que não era seu parente e com quem não convivera por muito tempo, pois Cristo passou a maior parte do tempo na Galileia, bem longe de Betânia.
Seguindo esse exemplo de Cristo, devemos demonstrar amor aos nossos amigos, tanto em vida quanto na morte. Devemos prantear nossos irmãos que dormem em Jesus como pessoas cheias de amor, embora não desprovidas de esperança, como os homens piedosos que sepultaram Estêvão (Atos 8:2).
Embora nossas lágrimas não tragam proveito aos mortos, embalsamam sua memória. Aquelas lágrimas indicavam seu amor especial por Lázaro; mas ele deu provas igualmente evidentes de seu amor por todos os santos ao morrer por eles.
Quando apenas derramou uma lágrima por Lázaro, disseram: “Vede como ele o amava!” Nós, por quem ele entregou a vida, temos muito mais motivo para dizer: “Vede como ele nos amava!” “Ninguém tem maior amor do que este...”
[2.] Outros fizeram uma observação irritada e injusta, como se aquelas lágrimas mostrassem sua incapacidade de ajudar o amigo (v. 37): “Não podia este homem, que abriu os olhos do cego, ter impedido a morte de Lázaro?”
Aqui insinuam dissimuladamente, primeiro, que, como a morte de Lázaro — ao que parecia por suas lágrimas — era uma grande dor para ele, se pudesse tê-la impedido, teria feito isso; portanto, como não o fez, tendem a pensar que não podia.
Assim também, quando Cristo estava morrendo, concluíram que ele não podia salvar a si mesmo e descer da cruz porque não o fez. Não consideraram que a sabedoria divina sempre dirige as ações do poder divino, não meramente segundo sua vontade, mas segundo o conselho de sua vontade, ao qual devemos nos conformar.
Se morrem os amigos de Cristo, a quem ele ama, ou se sua igreja, a quem ama, é perseguida e afligida, não devemos atribuir isso a alguma deficiência de seu poder ou de seu amor. Devemos concluir que isso acontece porque ele vê que é o melhor.
Segundo, insinuam que, por isso, seria justo questionar se ele de fato abriu os olhos do cego, isto é, se não foi uma fraude. Pensaram que ele não realizar esse milagre bastava para invalidar o anterior; ao menos, parecia que seu poder era limitado e, portanto, não era divino.
Cristo logo convenceu esses murmuradores ao ressuscitar Lázaro dentre os mortos, obra ainda maior. Isso provou que ele poderia ter impedido a morte de Lázaro, mas não o fez porque queria glorificar ainda mais a si mesmo.
II. A aproximação de Cristo ao túmulo e os preparativos para a realização desse milagre:
- Cristo repete seus gemidos ao se aproximar do túmulo (v. 38): “Gemendo outra vez dentro de si, chega ao túmulo.” Gemeu (1.) por estar descontente com a incredulidade dos que duvidavam de seu poder e o censuravam por não ter impedido a morte de Lázaro; sentiu dor pela dureza do coração deles.
Nunca gemeu tanto por suas próprias dores e sofrimentos quanto pelos pecados e insensatez dos homens, particularmente os de Jerusalém (Mateus 23:37).
(2.) Comoveu-se com os lamentos renovados das irmãs enlutadas quando se aproximaram do túmulo, provavelmente mais intensos e comoventes do que antes; seu espírito terno foi profundamente tocado pelo pranto delas.
(3.) Alguns pensam que gemeu em espírito porque, para satisfazer o desejo de seus amigos, traria Lázaro de volta a este mundo pecaminoso e atribulado, tirando-o do descanso em que acabara de entrar.
Isso seria uma bondade para Marta e Maria, mas, para Lázaro, seria como lançar de novo ao mar tempestuoso alguém que acabara de chegar a um porto seguro e tranquilo.
Se Lázaro tivesse sido deixado em paz, Cristo logo teria ido encontrá-lo no outro mundo; mas, depois de restaurá-lo à vida, Cristo logo o deixaria para trás neste mundo.
(4.) Cristo gemeu como alguém que queria sentir a condição calamitosa da natureza humana, sujeita à morte, da qual estava prestes a resgatar Lázaro.
Assim, estimulou a si mesmo a apegar-se a Deus na oração que faria, para oferecê-la com fortes clamores (Hebreus 5:7).
Os ministros, quando enviados pela pregação do evangelho para ressuscitar almas mortas, devem sentir profundamente a condição deplorável daqueles por quem pregam e oram, e gemer dentro de si ao pensar nela.
- Descreve-se aqui o túmulo onde Lázaro jazia: era uma caverna, e havia uma pedra sobre ela.
Provavelmente, os túmulos das pessoas comuns eram escavados como os nossos; pessoas de destaque, porém, como entre nós, eram sepultadas em criptas. Assim foi com Lázaro, e também com o sepulcro em que Cristo foi enterrado.
Provavelmente, esse costume se manteve entre os judeus em imitação dos patriarcas, que sepultavam seus mortos na caverna de Macpela (Gênesis 23:19).
O zelo pelos corpos de seus amigos mortos indica que esperavam a ressurreição. Consideravam encerrada a cerimônia fúnebre quando a pedra era rolada até o túmulo ou, como aqui, colocada sobre ele, como a pedra posta à entrada da cova em que Daniel foi lançado (Daniel 6:17), para que o propósito não fosse alterado.
Isso indicava que os mortos estão separados dos vivos e partiram para o lugar de onde não voltarão. Essa pedra provavelmente era uma lápide com uma inscrição, que os gregos chamavam mnemeion — “lembrança” —, pois é tanto um memorial dos mortos quanto uma lembrança para os vivos, recordando-lhes aquilo de que todos devemos nos lembrar.
Os latinos a chamam Monumentum, de monendo, “advertir”, porque ela dá um aviso.
- Dá-se a ordem para remover a pedra (v. 39): “Tirai a pedra”. Ele queria que a pedra fosse removida para que todos os presentes vissem o corpo morto no sepulcro, houvesse passagem para sua saída e ficasse evidente que era um corpo verdadeiro, não um fantasma ou espectro.
Queria que alguns servos a removessem, para que fossem testemunhas, pelo cheiro da decomposição, de que o corpo estava na verdade morto.
Um bom passo para ressuscitar uma alma para a vida espiritual é remover a pedra: eliminar os preconceitos e abrir caminho para que a palavra chegue ao coração, faça ali sua obra e diga o que tem a dizer.
- Marta faz uma objeção à abertura do túmulo: “Senhor, já cheira mal”, ou já se tornou repugnante, “pois está morto há quatro dias”; tetartaios gar esti, quatriduanus est: ele está há quatro dias no outro mundo, cidadão e habitante do túmulo há quatro dias.
Provavelmente, Marta percebeu o cheiro do corpo enquanto removiam a pedra e, por isso, exclamou assim.
(1.) É fácil observar aqui a natureza dos corpos humanos. Quatro dias são pouco tempo; contudo, que grande mudança esse período provoca no corpo do homem se ele ficar tanto tempo sem alimento, e ainda mais se ficar tanto tempo sem vida!
Os corpos mortos, diz o dr. Hammond, depois de uma transformação dos humores que se completa em setenta e duas horas, tendem naturalmente à putrefação.
Os judeus dizem que, no quarto dia depois da morte, o corpo está tão alterado que já não se pode ter certeza de que pertence àquela pessoa; assim o afirma Maimônides, citado por Lightfoot.
Cristo ressuscitou no terceiro dia porque não devia ver a corrupção.
(2.) Não é fácil dizer qual era o desígnio de Marta ao falar isso. [1.] Alguns pensam que ela falou por delicadeza adequada, como convinha ao corpo morto; agora que começava a se decompor, não queria que fosse exposto publicamente e transformado em espetáculo.
[2.] Outros pensam que ela falou por preocupação com Cristo, receando que o cheiro do corpo morto lhe fosse desagradável. Aquilo que é muito repugnante é comparado a um sepulcro aberto (Salmos 5:9).
Se houvesse algo repugnante, ela não queria que seu Mestre se aproximasse; mas ele não era daqueles sensíveis e delicados que não suportam um cheiro ruim.
Se fosse, não teria visitado o mundo da humanidade, que o pecado transformara num verdadeiro monturo, inteiramente repugnante (Salmos 14:3).
[3.] A resposta de Cristo parece indicar que aquelas palavras eram expressão de sua incredulidade e desconfiança: “Senhor, agora é tarde demais para tentar fazer algum bem por ele; seu corpo começa a apodrecer, e é impossível que esse cadáver em decomposição volte à vida”.
Ela considera que o caso dele não tem solução nem esperança, pois não havia exemplos recentes nem antigos de alguém que voltasse à vida depois de começar a se decompor.
Quando nossos ossos estão secos, estamos prontos a dizer: “Nossa esperança se perdeu”. Ainda assim, essas palavras desconfiadas dela serviram para tornar o milagre tanto mais evidente quanto mais ilustre.
Por elas, ficou claro que ele estava na verdade morto, e não em transe; pois, embora se pudesse fingir a postura de um corpo morto, não se podia fingir o cheiro. Ao sugerir que aquilo não poderia ser feito, ela deu ainda mais honra àquele que o fez.
- A censura branda que Cristo dirigiu a Marta por sua fé fraca (v. 40): “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?”
Essa palavra que lhe dirigiu não havia sido registrada antes. É provável que ele a tenha dito quando ela afirmou: “Senhor, eu creio” (v. 27); basta que tenha sido registrada aqui, onde é repetida.
Repare: (1.) Nosso Senhor Jesus nos deu todas as garantias imagináveis de que uma fé sincera finalmente será coroada com uma visão bendita: “Se creres, verás as gloriosas manifestações de Deus em teu favor neste mundo e a ti no outro mundo”.
Se aceitarmos a palavra de Cristo e confiarmos em seu poder e fidelidade, veremos a glória de Deus e seremos felizes ao contemplá-la.
(2.) Precisamos que nos lembrem com frequência dessas misericórdias seguras com que nosso Senhor Jesus nos animou. Cristo não responde diretamente ao que Marta dissera nem promete especificamente o que faria; manda que ela se apegue às garantias gerais que já havia dado: “Crê somente”.
Tendemos a esquecer o que Cristo falou e precisamos que ele nos faça lembrar disso por seu Espírito: “Não te disse isso? E achas que ele voltará atrás no que disse?”
- A abertura do túmulo, em obediência à ordem de Cristo e apesar da objeção de Marta (v. 41): “Então tiraram a pedra”. Só prosseguiram depois que Marta se convenceu e deixou de lado sua objeção.
Se queremos ver a glória de Deus, devemos deixar Cristo seguir seu próprio caminho; não devemos prescrever-lhe o que fazer, mas nos submeter a ele. Eles tiraram a pedra; isso era tudo o que podiam fazer. Só Cristo podia dar vida.
O que o homem pode fazer é apenas preparar o caminho do Senhor, enchendo os vales, nivelando os montes e, como aqui, removendo a pedra.
III. O próprio milagre realizado. A remoção da pedra convidou os espectadores a se reunirem em torno do túmulo, não para entregar pó ao pó e terra à terra, mas para receber de volta pó do pó e terra da terra.
Com a expectativa deles despertada, nosso Senhor Jesus se pôs a realizar sua obra.
- Ele se dirige ao seu Pai vivo no céu — foi assim que o chamou (João 6:57) — e volta os olhos para ele aqui.
(1.) O gesto que fez era muito significativo: levantou os olhos, expressão exterior da elevação de sua mente e demonstração aos que estavam ao redor de onde vinha seu poder.
Também nos deu um exemplo; assim, esse sinal exterior é recomendado à nossa prática. Veja João 17:1. Que respondam por isso os que o ridicularizam de modo irreverente.
Mas o que especialmente se exige de nós é elevar o coração a Deus nos céus. O que é a oração senão a subida da alma até Deus e o direcionamento de seus afetos e movimentos para o céu?
Ele levantou os olhos, olhando para cima, para além do túmulo onde Lázaro jazia, e deixando de lado todas as dificuldades que dali surgiam, a fim de manter os olhos fixos na onipotência divina.
Isso nos ensina a agir como Abraão, que não considerou seu próprio corpo já amortecido nem o ventre de Sara já morto; não ocupou os pensamentos com essas coisas e, assim, alcançou fé suficiente para não duvidar da promessa (Romanos 4:20).
(2.) Ele se dirigiu a Deus com grande segurança e confiança, como lhe convinha: “Pai, agradeço-te porque me ouviste”.
[1.] Aqui ele nos ensinou, por seu próprio exemplo, primeiro, a chamar Deus de Pai em oração e a nos aproximarmos dele como filhos se aproximam de um pai: com humilde reverência e, ainda assim, santa ousadia.
Segundo, ensinou-nos a louvá-lo em nossas orações e, quando vamos pedir misericórdia ulterior, a reconhecer com gratidão favores anteriores. Ações de graças que dão glória a Deus — não a nós mesmos, como na oração do fariseu: “Deus, agradeço-te” — são formas decorosas para apresentarmos nossas súplicas.
[2.] Mas a ação de graças de nosso Salvador aqui destinava-se a expressar a certeza inabalável que ele tinha da realização desse milagre, que estava em seu próprio poder fazer em concordância com seu Pai: Pai, agradeço a você porque minha vontade e a sua são, neste assunto, como sempre, a mesma.
Elias e Eliseu ressuscitaram mortos como servos, por meio de súplicas; Cristo, porém, como um Filho, o fez por autoridade, pois tinha vida em si mesmo e poder para vivificar quem quisesse.
Ele fala disso como obra sua (v. 11): “Vou, para que eu possa despertá-lo”; mas fala também como algo que obteve por oração, pois seu Pai o ouviu.
É provável que tenha feito essa oração quando gemeu em espírito uma e outra vez (v. 33, 38), numa oração mental, com gemidos que não podiam ser expressos.
Primeiro, Cristo apresenta esse milagre como resposta à oração: 1. Porque assim quis se humilhar; embora fosse um Filho, ainda assim aprendeu essa obediência: pedir e receber.
Sua coroa de Mediador lhe foi concedida a pedido, embora lhe pertencesse por direito (Salmos 2:8; João 17:5). Ele ora pela glória que possuía antes que o mundo existisse, embora pudesse tê-la exigido, pois jamais perdera o direito a ela.
- Porque teve por bem assim honrar a oração, fazendo dela a chave com que até ele próprio destrancou os tesouros do poder e da graça divinos. Assim queria nos ensinar, na oração, por meio do exercício vivo da fé, a entrar no Santo dos Santos.
Segundo, Cristo, certo de que sua oração fora atendida, declara:
a. Sua grata aceitação dessa resposta: “Agradeço-te porque me ouviste”. Embora o milagre ainda não tivesse sido realizado, ainda assim a oração fora atendida, e ele triunfa antes da vitória.
Ninguém mais pode alegar uma certeza como a de Cristo; contudo, pela fé na promessa, podemos ter uma perspectiva de misericórdia antes de ela ser efetivamente concedida, alegrar-nos com essa perspectiva e agradecer a Deus por ela.
Nas devoções de Davi, o mesmo salmo que começa pedindo uma misericórdia termina dando graças por ela. Repare: (a.) As misericórdias concedidas em resposta à oração devem ser reconhecidas com gratidão especial.
Além da própria concessão da misericórdia, devemos valorizá-la como um grande favor: que se repare em nossas pobres orações. (b.) Devemos ir ao encontro dos primeiros sinais da resposta à oração com ações de graças antecipadas.
Assim como Deus nos responde com misericórdia antes mesmo que clamemos e nos ouve enquanto ainda estamos falando, também devemos responder-lhe com louvor antes que conceda o pedido, agradecendo enquanto ainda nos dirige palavras boas e consoladoras.
b. Sua alegre certeza de que seria prontamente atendido em todo momento (v. 42): “E eu sei que me ouves sempre”.
Ninguém pense que esse foi algum favor incomum concedido a ele naquela ocasião, algo que nunca recebera antes nem voltaria a receber. Não: o mesmo poder divino o acompanhava em todo o seu empreendimento, e ele não empreendia nada sem saber que estava de acordo com o conselho da vontade de Deus.
Eu dei graças, diz ele, por ter sido ouvido nisso, porque tenho certeza de que serei ouvido em tudo. Veja aqui: (a.) A influência que nosso Senhor Jesus tinha no céu. O Pai sempre o ouvia; ele tinha acesso ao Pai em todas as ocasiões e tinha êxito junto a ele em cada incumbência.
E podemos ter certeza de que essa influência não é menor por ele ter ido ao céu, o que pode nos animar a confiar em sua intercessão e a entregar-lhe todos os nossos pedidos, pois temos certeza de que o Pai sempre o ouve.
(b.) A confiança que tinha nessa influência: Eu sabia disso. Não hesitava nem duvidava nem um pouco; tinha plena certeza, em sua própria mente, da satisfação do Pai nele e da concordância do Pai com ele em tudo.
Não podemos ter uma certeza tão específica quanto a dele; mas isto sabemos: que qualquer coisa que pedimos segundo sua vontade, ele nos ouve (1 João 5:14, 15).
Terceiro, mas por que Cristo daria essa indicação pública de ter obtido o milagre por oração? Ele acrescenta: É por causa das pessoas que estão ao redor, para que creiam que você me enviou; pois a oração pode pregar.
- Era para eliminar as objeções e censuras de seus inimigos. Os fariseus e seus seguidores sugeriam blasfemamente que ele realizava milagres por pacto com o diabo.
Para demonstrar o contrário, dirigiu-se abertamente a Deus, usando orações, não encantamentos; não sussurrou nem murmurou como os que consultavam espíritos familiares (Isaías 8:19), mas, com os olhos e a voz elevados, declarou sua comunicação com o Céu e dependência do Céu.
- Era para confirmar a fé dos que estavam bem dispostos para com ele: “Para que creiam que tu me enviaste”, não para destruir as vidas dos homens, mas para salvá-los.
Moisés, para mostrar que Deus o enviara, fez a terra se abrir e engolir homens (Números 16:31). Elias, para mostrar que Deus o enviara, fez descer fogo do céu e consumir homens; pois a lei era uma dispensação de terror e morte.
Cristo, porém, prova sua missão ao devolver a vida a alguém que estava morto. Alguns dão esta interpretação: se Cristo tivesse declarado que o fazia livremente por seu próprio poder, alguns de seus discípulos fracos, que ainda não compreendiam sua natureza divina, pensariam que ele atribuía demais a si mesmo e ficariam escandalizados.
Essas criancinhas não podiam suportar aquele alimento sólido; por isso, ele escolhe falar de seu poder como recebido e derivado. Fala de si mesmo com abnegação, para poder falar tanto mais claramente a nós.
Non ita respexit ad suam dignitatem atque ad nostram salutem — No que disse, não olhou tanto por sua dignidade quanto por nossa salvação. Jansênio.
- Agora ele se dirige a seu amigo morto na terra. Clamou em alta voz: “Lázaro, vem para fora!”
(1.) Poderia ter ressuscitado Lázaro por um exercício silencioso de seu poder e vontade e pelas operações imperceptíveis do Espírito da vida; mas o fez por meio de um chamado, um chamado em alta voz:
[1.] Para indicar o poder então exercido ao ressuscitar Lázaro, como criou essa coisa nova; ele falou, e isso foi feito. Clamou em alta voz para indicar a grandeza da obra e do poder empregado nela e, por assim dizer, estimular a si mesmo para esse ataque às portas da morte, como soldados que avançam com um grito.
Falando a Lázaro, era apropriado clamar em alta voz, pois, primeiro, a alma de Lázaro, que seria chamada de volta, estava distante; não pairava junto ao túmulo, como os judeus imaginavam, mas havia sido levada ao Hades, o mundo dos espíritos. Agora, é natural falar alto quando chamamos os que estão distantes.
Segundo, o corpo de Lázaro, que seria chamado a levantar-se, estava dormindo; em geral falamos alto quando queremos despertar alguém do sono.
Ele clamou em alta voz para que se cumprisse a Escritura (Isaías 45:19): “Não falei em segredo, num lugar escuro da terra”.
[2.] Para servir de tipo de outras obras maravilhosas e, em particular, de outras ressurreições que o poder de Cristo realizaria. Esse chamado em alta voz foi uma figura, primeiro, do chamado do evangelho, pelo qual almas mortas seriam tiradas do túmulo do pecado.
Cristo já falara dessa ressurreição (João 5:25) e de sua palavra como meio para realizá-la (João 6:63); agora apresenta uma amostra dela. Por sua palavra, diz às almas: “Vivei”; sim, e ainda, diz-lhes: “Vivei” (Ezequiel 16:6). “Levanta-te dentre os mortos” (Efésios 5:14).
O espírito de vida vindo de Deus entrou naqueles que tinham sido ossos mortos e secos, quando Ezequiel profetizou sobre eles (Ezequiel 37:10).
Os que deduzem dos mandamentos da palavra, de voltar-se e viver, que o homem tem poder próprio para converter-se e regenerar-se poderiam igualmente deduzir desse chamado a Lázaro que ele tinha poder para ressuscitar a si mesmo.
Segundo, foi uma figura do som da trombeta do arcanjo no último dia, que despertará os que dormem no pó e os convocará diante do grande tribunal, quando Cristo descerá com um brado, um chamado ou uma ordem como esta: “Sai para fora!” (Salmos 50:4).
Ele chamará tanto os céus pelas almas deles quanto a terra por seus corpos, para que possa julgar seu povo.
(2.) Esse chamado em alta voz foi apenas breve, contudo, por meio de Deus, poderoso para derrubar as fortalezas do túmulo. [1.] Ele o chama pelo nome, Lázaro, como chamamos pelo nome aqueles que queremos despertar de um sono profundo.
Deus disse a Moisés, como sinal de seu favor: “Conheço-te pelo nome”. Chamá-lo pelo nome indica que o mesmo indivíduo que morreu ressuscitará no último dia.
Aquele que chama as estrelas pelo nome pode distinguir pelo nome as suas estrelas que estão no pó da terra e não perderá nenhuma delas.
[2.] Ele o chama para fora do túmulo, falando com ele como se já estivesse vivo e não tivesse nada a fazer senão sair de seu túmulo. Não lhe diz Viva, pois ele próprio deve dar vida; mas lhe diz Mova-se, pois, quando pela graça de Cristo vivemos espiritualmente, devemos nos estimular a mover-nos.
O túmulo do pecado e deste mundo não é lugar para aqueles a quem Cristo vivificou; por isso, devem sair dele.
[3.] O desfecho correspondeu à intenção: “O que estava morto saiu” (v. 44). O poder acompanhou a palavra de Cristo para reunir a alma e o corpo de Lázaro; então ele saiu.
O milagre é descrito não por suas fontes invisíveis, para satisfazer nossa curiosidade, mas por seus efeitos visíveis, para moldar nossa fé.
Alguém pergunta onde estava a alma de Lázaro durante os quatro dias em que ficou separada do corpo? Não nos é dito, mas temos motivos para pensar que estava no paraíso, em alegria e felicidade.
Mas você dirá: “Não foi então realmente uma falta de bondade para com ela fazê-la retornar à prisão do corpo?” E, se assim fosse, ainda assim, por ser para a honra de Cristo e para servir aos interesses de seu reino, não foi mais uma injúria para Lázaro do que foi para São Paulo permanecer na carne, quando sabia que partir para Cristo era tanto melhor.
Se alguém perguntar se, depois de ressuscitado, Lázaro poderia dar um relato ou descrição da saída de sua alma do corpo ou seu retorno a ele, ou o que viu no outro mundo, suponho que ambas as mudanças fossem tão inexplicáveis para ele próprio que teria de dizer, como Paulo: “Se no corpo ou fora do corpo, não posso dizer”.
Quanto ao que viu e ouviu, não era lícito nem possível expressá-lo. Num mundo dos sentidos, não conseguimos formar para nós mesmos, muito menos comunicar aos outros, ideias adequadas do mundo dos espíritos e dos assuntos desse mundo.
Não desejemos ser sábios além do que está escrito. E isto é tudo o que está escrito a respeito da ressurreição daquele Lázaro: “O que estava morto saiu”.
Alguns observaram que, embora leiamos sobre muitos que foram ressuscitados dentre os mortos e sem dúvida depois conviveram familiarmente com os homens, ainda assim a Escritura não registrou uma palavra sequer dita por nenhum deles, exceto por nosso Senhor Jesus apenas.
(3.) Esse milagre foi realizado: [1.] Rapidamente. Nada se interpõe entre a ordem “Vem para fora” e o resultado: “Ele saiu”. dictum factum — mal se disse, se fez; que haja vida, e houve vida.
Assim também a mudança na ressurreição acontecerá “num momento, num piscar de olhos” (1 Coríntios 15:52). O poder onipotente que pode realizá-la pode fazê-lo num instante.
Então você chamará, e eu responderei; ele virá ao chamado, como Lázaro: “Aqui estou”.
[2.] Perfeitamente. Ele foi tão completamente revivido que se levantou de seu túmulo tão vigorosamente quanto em qualquer vez em que se levantara de sua cama e recuperou não apenas a vida, mas também a saúde.
Não foi ressuscitado para uma necessidade momentânea, mas para viver como os outros homens.
[3.] Com este milagre adicional, como alguns o consideram: ele saiu do túmulo apesar de estar preso às vestes funerárias, com as quais tinha as mãos e os pés amarrados e o rosto envolto num lenço — pois esse era o costume dos judeus ao sepultar.
Saiu com as mesmas vestes com que fora sepultado, para que ficasse evidente que era ele mesmo, não outra pessoa, e que não estava apenas vivo, mas também forte e capaz de andar, por assim dizer, mesmo com as vestes funerárias.
O rosto envolto num lenço provava que ele realmente estivera morto; do contrário, em menos de tantos dias, aquilo o teria sufocado. E os presentes, ao desatá-lo, o manuseariam e o veriam, que era ele próprio, e assim seriam testemunhas do milagre.
Agora veja aqui, primeiro, quão pouco levamos conosco quando deixamos o mundo: apenas uma mortalha e um caixão. Não há troca de roupa no túmulo; há somente um único conjunto de vestes funerárias.
Segundo, em que condição ficaremos no túmulo. Que sabedoria ou recurso pode haver quando os olhos estão vendados? Que trabalho pode ser feito quando as mãos e os pés estão presos? E assim será no túmulo, para onde estamos indo.
Tendo Lázaro saído, preso e atrapalhado por suas vestes funerárias, bem podemos imaginar que os que estavam junto ao túmulo ficaram extremamente surpresos e assustados; nós ficaríamos assim se víssemos um corpo morto se levantar.
Mas Cristo, para tornar a situação familiar, põe essas pessoas para trabalhar: Desatem-no, afrouxem suas vestes funerárias, para que sirvam de vestes diurnas até ele chegar à sua casa, e então ele irá por si mesmo, assim vestido, sem guia nem pessoa que o apoie, à sua própria casa.
Assim como, no Antigo Testamento, as trasladações de Enoque e Elias foram demonstrações palpáveis de um estado futuro e invisível — uma cerca da metade da era patriarcal, a outra da economia mosaica —, assim, no Novo Testamento, a ressurreição de Lázaro teve por desígnio confirmar a doutrina da ressurreição.
A Consulta dos Fariseus; A Profecia de Caifás; Uma Conspiração contra Cristo.
Versículos 45 a 57
Temos aqui um relato das consequências desse glorioso milagre, que, como de costume, produziu efeitos diferentes: para alguns, foi cheiro de vida para vida; para outros, de morte para morte.
I. Alguns foram atraídos por ele e levados a crer. Muitos judeus, ao verem o que Jesus fazia, creram nele; e tinham bons motivos, pois aquilo era prova incontestável de sua missão divina.
Muitas vezes tinham ouvido falar de seus milagres, mas evitavam ser convencidos, questionando se de fato haviam acontecido. Agora, porém, que eles próprios viram o que ele fez, sua incredulidade foi vencida, e finalmente se renderam.
Mas bem-aventurados os que não viram e creram. Quanto mais vemos de Cristo, mais motivos encontramos para amá-lo e confiar nele.
Esses eram alguns dos judeus que foram visitar Maria para consolá-la. Quando fazemos o bem aos outros, colocamo-nos no caminho de receber favores de Deus e temos oportunidades de receber o bem enquanto o praticamos.
II. Outros ficaram irritados com o milagre e se endureceram em sua incredulidade.
- Os informantes agiram assim (v. 46). Alguns deles, testemunhas oculares do milagre, longe de se convencerem, foram aos fariseus, que sabiam ser inimigos implacáveis de Jesus, e contaram o que ele havia feito.
Não fizeram isso apenas como quem transmite uma notícia digna de atenção, muito menos para levá-los a pensar melhor de Cristo, mas com o desígnio malicioso de incitar ainda mais à perseguição aqueles que já não precisavam de estímulo.
Aqui temos um exemplo extraordinário: (1.) de incredulidade extremamente obstinada, que se recusa a ceder mesmo diante dos meios de convencimento mais poderosos. É difícil imaginar como poderiam escapar à força dessa evidência, não fosse o deus deste mundo ter cegado a mente deles.
(2.) de inimizade profundamente arraigada. Se não aceitavam que ele devia ser reconhecido como o Cristo, ao menos se poderia pensar que seriam apaziguados e persuadidos a não persegui-lo.
Mas, se a água não for suficiente para apagar o fogo, ela o atiçará. Eles contaram o que Jesus havia feito, e nada disseram além da verdade; mas a malícia deles deu ao relato uma marca diabólica, tão grave quanto a mentira.
Deturpar o que é verdadeiro é tão mau quanto inventar o que é falso. Doeg é chamado de língua falsa, mentirosa e enganadora (Salmos 52:2-4; 120:2, 3), embora o que tenha dito fosse verdade.
- Os juízes, os líderes — os líderes cegos — do povo não ficaram menos enfurecidos com o relato que lhes foi feito; e aqui somos informados do que fizeram:
(1.) Um conselho especial foi convocado e se reuniu (v. 47): “Então os principais sacerdotes e os fariseus reuniram um conselho”, como fora predito: “Os governantes deliberam juntos contra o Senhor” (Salmos 2:2).
As reuniões do Sinédrio deveriam servir ao bem público; mas, sob esse pretexto, causaram ao povo a maior injúria e o maior dano. As coisas que diziam respeito à paz da nação estavam ocultas aos olhos dos encarregados das deliberações.
Esse conselho foi convocado não apenas para aconselhamento conjunto, mas também para que se provocassem mutuamente. Assim como o ferro afia o ferro, e brasas alimentam brasas e lenha alimenta o fogo, eles poderiam aumentar e inflamar uns nos outros a inimizade e a ira contra Cristo e sua doutrina.
(2.) A questão foi apresentada como grave e de grande importância.
[1.] O assunto a ser debatido era o que fariam com aquele Jesus para deter o crescimento de sua influência. Disseram: “Que faremos? Pois esse homem faz muitos milagres”.
Apresentaram o relato da ressurreição de Lázaro e chamaram os homens, irmãos e pais para ajudar, com tanta preocupação como se um inimigo temível tivesse entrado com um exército no coração do país.
Primeiro, reconhecem que os milagres de Cristo são verdadeiros e que ele havia realizado muitos. Assim, testemunham contra si mesmos, pois reconhecem suas credenciais e, ainda assim, negam sua missão.
Segundo, consideram o que devem fazer e altercam consigo mesmos por não terem agido antes e de modo eficaz para esmagá-lo.
Nem sequer consideram se devem recebê-lo e reconhecê-lo como o Messias, embora afirmem esperá-lo e Jesus tenha dado provas convincentes de que era ele.
Dão por certo que ele é um inimigo e, como tal, deve ser eliminado: “Que faremos? Não temos zelo pela sustentação de nossa igreja? Não significa nada para nós que uma doutrina tão destrutiva para nossos interesses esteja se espalhando assim?”
“Vamos ceder sem resistência o espaço que conquistamos na afeição do povo? Vamos ver nossa autoridade ser desprezada e o ofício do qual tiramos nosso sustento ser arruinado sem nos mexermos?”
“O que estivemos fazendo esse tempo todo? E no que estamos pensando agora? Vamos ficar sempre falando sem realizar nada?”
[2.] O que tornava o assunto tão grave era o perigo que julgavam ameaçar sua igreja e sua nação por parte dos romanos (v. 48): “Se não o calarmos e eliminarmos, todos crerão nele. Como isso significará estabelecer um novo rei, os romanos ficarão ressentidos, virão com um exército e tomarão nosso lugar e nossa nação; portanto, não podemos perder tempo”. Veja que opinião tinham:
Primeiro, de seu próprio poder. Falam como se pensassem que o progresso e o sucesso da obra de Cristo dependiam de sua tolerância; como se ele não pudesse continuar realizando milagres e fazendo discípulos sem que o deixassem em paz.
Era como se pudessem vencer aquele que vencera a morte ou como se pudessem lutar contra Deus e sair vitoriosos. Mas aquele que está sentado no céu ri da presunção com que a malícia impotente imagina ser onipotente.
Segundo, de sua própria capacidade política. Imaginavam ter grande discernimento e visão de futuro, e muita sagacidade em suas previsões sobre a conduta humana.
a. Arrogaram-se o direito de prever que, em pouco tempo, se lhe permitissem continuar, todos creriam nele. Assim, quando lhes convinha, reconheciam que sua doutrina e seus milagres tinham um poder muito convincente, irresistível, capaz de fazer de todos seus prosélitos e seguidores devotos.
Agora fazem a influência dele parecer temível, embora, para servir a outro propósito, esses mesmos homens tentassem torná-la desprezível (João 7:48): “Acaso algum dos governantes creu nele?” Temiam que as pessoas cressem nele, pois então todos os seus planos seriam frustrados.
Repare: o sucesso do evangelho é o terror de seus adversários; se almas são salvas, eles estão arruinados.
b. Previam que, se a maioria da nação fosse atraída por ele, isso provocaria a ira dos romanos. “Virão e tomarão nosso lugar”: o país em geral, especialmente Jerusalém; ou o templo, o lugar santo, seu lugar querido, seu ídolo; ou ainda seus cargos no templo, suas posições de poder e confiança.
Era verdade que os romanos os observavam com grande desconfiança e sabiam que só lhes faltavam poder e oportunidade para sacudir seu jugo.
Também era verdade que, se os romanos lançassem um exército contra eles, seria muito difícil resistir. Contudo, revelou-se uma covardia que não se esperaria encontrar nos sacerdotes do Senhor, se sua maldade não os tivesse privado do favor de Deus e de todas as pessoas de bem.
Se tivessem conservado sua integridade, não precisariam temer os romanos; mas falam como um povo desalentado, como os homens de Judá que disseram vergonhosamente a Sansão: “Não sabes que os filisteus nos dominam?” (Juízes 15:11).
Quando os homens perdem a piedade, perdem a coragem. Mas (a.) era falso que o progresso do evangelho de Cristo pudesse irritar os romanos contra a nação judaica, pois o evangelho não prejudicava reis nem províncias; pelo contrário, era muito benéfico.
Os romanos não tinham ciúme algum da crescente influência de Cristo, pois ele ensinava as pessoas a pagar tributo a César e a não resistir ao mal, mas a tomar a cruz.
No julgamento de Cristo, o governador romano não encontrou nele culpa alguma. Havia mais perigo de os sacerdotes provocarem a ira dos romanos contra a nação judaica do que Cristo.
Repare: temores alegados muitas vezes servem de pretexto para desígnios maliciosos. (b.) Ainda que houvesse algum perigo de desagradar aos romanos ao tolerar a pregação de Cristo, isso não justificaria odiar e perseguir um homem bom.
Repare: [a.] Os inimigos de Cristo e de seu evangelho muitas vezes disfarçaram sua inimizade com aparente zelo pelo bem público e pela segurança comum; para isso, acusaram seus profetas e ministros de perturbar Israel e de virar o mundo de cabeça para baixo.
[b.] A prudência carnal costuma invocar razões de Estado contra as regras da justiça. Quando os homens se preocupam mais com a própria riqueza e segurança do que com a verdade e o dever, isso é sabedoria terrena, animal e diabólica.
Mas veja o resultado: alegaram temer que tolerar o evangelho de Cristo lhes traria desolação pelas mãos dos romanos e, por isso, opuseram-se a ele, com ou sem razão.
No fim, porém, a perseguição deles ao evangelho trouxe sobre eles aquilo que temiam, completou a medida de sua iniquidade, e os romanos vieram e tomaram seu lugar e sua nação; seu lugar não os reconhece mais.
Repare: a calamidade que tentamos evitar pecando é justamente aquela que, com isso, tomamos o caminho mais eficaz para trazer sobre nós mesmos.
Os que pensam que, opondo-se ao reino de Cristo, protegerão ou promoverão seus próprios interesses terrenos descobrirão que Jerusalém é uma pedra muito mais pesada do que imaginam (Zacarias 12:3). “O temor do ímpio virá sobre ele” (Provérbios 10:24).
(3.) Caifás faz, nessa ocasião, um discurso malicioso, mas cheio de sentido oculto, no conselho.
[1.] A malícia disso fica evidente à primeira vista (v. 49, 50). Como era o sumo sacerdote e, portanto, presidia o conselho, decidiu a questão antes que fosse debatida: “Vocês não sabem nada; essa hesitação revela sua ignorância, pois não é um assunto que admita discussão. Decide-se facilmente, se considerarem esta máxima conhecida: é melhor para nós que um homem morra pelo povo”. Aqui temos:
Primeiro, o conselheiro era Caifás, que naquele mesmo ano era o sumo sacerdote. Por determinação divina, o sumo sacerdócio cabia ao herdeiro homem da casa de Arão durante toda a vida natural dele e, depois, passava ao herdeiro homem dele.
Naqueles tempos degenerados, porém, embora o ofício não fosse anual como o de cônsul, era mudado com frequência, conforme conseguissem obter influência junto às autoridades romanas. Aconteceu que, naquele ano, Caifás usava a mitra.
Segundo, o conselho significava, em resumo, que precisavam encontrar algum meio de matar Jesus. Temos motivos para pensar que suspeitavam fortemente que ele fosse de fato o Messias.
Mas sua doutrina contrariava tanto suas tradições prediletas e seus interesses terrenos, e seu desígnio frustrava tanto as ideias que tinham do reino do Messias, que decidiram que, quem quer que ele fosse, deveria morrer.
Caifás não diz: “Vamos silenciá-lo, prendê-lo ou bani-lo”, medidas mais do que suficientes para conter alguém que consideravam perigoso. Ele precisa morrer.
Repare: os que se colocaram contra o cristianismo geralmente se despojaram da humanidade e tornaram-se infames pela crueldade.
Terceiro, isso é insinuado de modo plausível, com toda a sutileza e malícia da antiga serpente. 1. Caifás sugere sua própria perspicácia, que, por ser sumo sacerdote, devemos supor que excedia a dos outros, embora o Urim e o Tumim já tivessem desaparecido havia muito tempo.
Com que desprezo diz: “Vocês não sabem nada; são apenas sacerdotes comuns. Mas permitam que eu enxergue mais longe do que vocês!” É comum que os que têm autoridade imponham, em virtude dela, suas determinações corruptas.
E, porque deveriam ser os mais sábios e melhores, esperam que todos acreditem que de fato o são. 2. Ele considera evidente e indiscutível a questão, como se fossem muito ignorantes os que não a vissem assim.
Repare: muitas vezes a razão e a justiça são esmagadas pela força. “A verdade caiu na rua” e, quando está caída, é pisoteada; “a equidade não pode entrar” e, quando fica de fora, continua de fora (Isaías 59:14).
- Ele insiste numa máxima política: o bem-estar da coletividade deve ser preferido ao de indivíduos. “É melhor para nós, sacerdotes, para quem tudo está em jogo, que um homem morra pelo povo”.
É verdade até certo ponto que é conveniente — e mais do que isso, na verdade honroso — arriscar a vida a serviço do país (Filipenses 2:17; 1 João 3:16). Mas matar um inocente sob o pretexto de zelar pela segurança pública é a política do diabo.
Caifás insinua astutamente que o maior e melhor dos homens, embora major singulis — maior que qualquer indivíduo —, é minor universis — menor que a coletividade reunida — e deveria considerar bem empregada, ou melhor, bem perdida, sua vida para salvar seu país da ruína.
Mas que relação isso tem com assassinar alguém que era claramente uma grande bênção, sob o pretexto de evitar um dano imaginário para o país?
A questão deveria ter sido apresentada assim: seria conveniente que atraíssem sobre si mesmos e sobre sua nação a culpa de derramar sangue, o sangue de um profeta, para proteger seus interesses civis de um perigo que não tinham motivo justo para temer?
Seria conveniente afastar de si Deus e sua glória, em vez de arriscar o desagrado dos romanos, que não lhes poderiam causar prejuízo se Deus estivesse ao lado deles?
Repare: a política carnal, que se orienta apenas por considerações terrenas e pensa que pode salvar tudo pelo pecado, acaba arruinando tudo.
[2.] O sentido oculto desse conselho de Caifás não aparece à primeira vista, mas o evangelista nos conduz a ele (v. 51, 52): “Ele não disse isso por conta própria”. Suas palavras não expressavam apenas sua própria inimizade e estratégia; sem que ele soubesse, profetizou que Jesus morreria por aquela nação.
Aqui temos um comentário precioso sobre um texto pernicioso: o conselho do maldito Caifás foi interpretado de modo a coincidir com os desígnios do Deus bendito.
A caridade nos ensina a dar às palavras e ações das pessoas a interpretação mais favorável que elas comportem; mas a piedade nos ensina a tirar delas bom proveito, mesmo contra a intenção com que foram ditas ou feitas.
Se, ao agirem contra nós, os ímpios podem ser a mão de Deus para nos humilhar e reformar, por que, ao falarem contra nós, não poderiam ser a boca de Deus para nos instruir e convencer?
No caso de Caifás, porém, houve uma direção extraordinária do Céu, que o levou a dizer algo capaz de um sentido muito sublime. Assim como o coração de todos está nas mãos de Deus, também estão suas línguas.
Enganam-se os que dizem: “Nossa língua nos pertence”, como se pudéssemos dizer o que quiséssemos sem prestar contas ao juízo de Deus, ou como se pudéssemos falar livremente, sem que a providência e o poder de Deus nos contivessem. Balaão não pôde dizer o que queria quando veio amaldiçoar Israel, nem Labão quando perseguiu Jacó.
(4.) O evangelista explica e amplia as palavras de Caifás.
[1.] Explica o que ele disse e mostra que essas palavras não apenas se prestavam a um propósito excelente, mas foram destinadas a ele. Caifás não falou por conta própria.
Como artifício para incitar o conselho contra Cristo, falou por conta própria ou, antes, pelo diabo. Mas, como oráculo que declarava ser propósito e desígnio de Deus, por meio da morte de Cristo, salvar do pecado e da cólera o Israel espiritual de Deus, não falou por conta própria, pois nada sabia disso.
Não era essa sua intenção, nem isso passava por seu coração; nele só havia o desejo de destruir e exterminar (Isaías 10:7).
Primeiro, ele profetizou, e os que profetizavam não falavam por conta próprias em suas profecias. Mas será que Caifás também está entre os profetas? Sim, pro hâc vice — desta vez —, embora fosse um homem mau e inimigo implacável de Cristo e de seu evangelho.
Repare: 1. Deus pode, e muitas vezes o faz, usar homens maus para cumprir seus propósitos, até mesmo contra as intenções deles. Não apenas os mantém acorrentados, impedindo-os de fazer o dano que desejam, mas também os conduz pelo freio a prestar o serviço que não querem.
- Palavras proféticas pronunciadas por alguém não são prova infalível de que haja no coração um princípio de graça. “Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome?” será rejeitado como apelo sem valor.
Segundo, ele profetizou, sendo sumo sacerdote naquele ano. Isso não significa que ser sumo sacerdote o preparasse ou qualificasse de algum modo para profetizar; não podemos supor que a mitra pontifical tenha inspirado primeiro o mais vil dos homens que a usaram.
- Como sumo sacerdote, e por isso alguém de destaque e eminência no conselho, Deus teve por bem pôr essa palavra significativa em sua boca, em vez de na boca de outro, para que ela fosse mais notada — ou para que fosse ainda mais grave não lhe darem atenção.
Consideravam dignas de especial atenção as máximas dos grandes homens: “A sentença divina está nos lábios do rei”. Portanto, essa sentença divina foi posta nos lábios do sumo sacerdote, para que, mesmo por sua boca, se estabelecesse que Cristo morreu pelo bem da nação, e não por qualquer iniquidade que houvesse cometido.
Aconteceu que ele era sumo sacerdote no ano determinado para ser o ano dos redimidos, quando o Messias, o Príncipe, teria de ser eliminado, mas não em favor de si mesmo (Daniel 9:26); e Caifás teria de reconhecê-lo.
- Ele era sumo sacerdote naquele ano, um ano célebre, em que, segundo a profecia, haveria um derramamento do Espírito muito mais abundante do que jamais se vira (Joel 2:28, 29, comparado com Atos 2:17).
Algumas gotas da chuva bendita caíram sobre Caifás, como as migalhas — diz o dr. Lightfoot — do pão dos filhos que caem da mesa para os cães.
Aquele foi o ano em que expirou o sacerdócio levítico. Da boca daquele que era sumo sacerdote naquele ano foi arrancada uma renúncia implícita desse sacerdócio em favor daquele que, ao contrário do que eles haviam feito por muitas eras, não ofereceria animais em favor daquela nação, mas ofereceria a si mesmo e, assim, poria fim à oferta pelo pecado.
Caifás fez essa renúncia sem o saber, assim como Isaque deu a bênção a Jacó.
Terceiro, o tema de sua profecia era que Jesus morreria por aquela nação. Era justamente isso que todos os profetas testemunhavam: anunciavam de antemão os sofrimentos de Cristo (1 Pedro 1:11) e que a morte de Cristo seria a vida e a salvação de Israel.
Caifás se referia aos que, naquela nação, se apegavam obstinadamente ao judaísmo; Deus, porém, referia-se aos que receberiam a doutrina de Cristo e se tornariam seus seguidores: todos os crentes, a descendência espiritual de Abraão.
A morte de Cristo, que Caifás agora planejava, arruinou, naquela nação, a causa que ele pretendia proteger e consolidar, pois trouxe sobre eles cólera até o extremo.
Mas promoveu o interesse que Caifás esperava que fosse arruinado, pois Cristo, depois de ser levantado da terra, atraiu todos a si.
É grande o que se profetiza aqui: Jesus morreria, morreria por outros, não só para o bem deles, mas em seu lugar; morreria por aquela nação, pois a salvação por sua morte foi oferecida primeiro a ela.
Se toda a nação dos judeus tivesse crido unanimemente em Cristo e recebido seu evangelho, não só teria sido salva eternamente, como também teria sido salva como nação de suas aflições.
A fonte foi aberta primeiro para a casa de Davi (Zacarias 13:1). Ele morreu por aquela nação para que ela não perecesse inteira, mas um remanescente fosse salvo (Romanos 11:5).
[2.] O evangelista amplia essa palavra de Caifás (v. 52): Cristo morreria “não somente por aquela nação”, por mais que ela se considerasse a favorita do Céu, “mas também para reunir em um só os filhos de Deus que andavam dispersos”.
Observe aqui, primeiro, por quem Cristo morreu. Não apenas pela nação dos judeus — para o Filho de Deus seria relativamente pouca coisa empreender uma obra tão grandiosa apenas para restaurar os sobreviventes de Jacó e os dispersos de Israel —; ele deveria ser a salvação até os confins da terra (Isaías 49:6).
Ele deveria morrer pelos filhos de Deus dispersos. 1. Alguns entendem que eram os filhos de Deus que viviam naquele tempo, dispersos pelo mundo gentio: homens piedosos de todas as nações (Atos 2:5), que temiam a Deus (Atos 10:2) e o adoravam (Atos 17:4).
Eram prosélitos da porta, que serviam ao Deus de Abraão, mas não se submetiam à lei cerimonial de Moisés. Tinham algum senso de religião natural, mas estavam dispersos pelas nações; não possuíam assembleias solenes próprias, nem uma profissão de fé particular que os unisse ou distinguisse.
Cristo morreu para incorporá-los num grande convívio, que receberia seu nome e seria governado por ele. Isso significava erguer um estandarte ao qual todos os que se importavam com Deus e com a própria alma poderiam recorrer e sob o qual poderiam se alistar.
- Outros incluem, junto com esses, todos os que pertencem à eleição da graça. São chamados filhos de Deus, embora ainda não tenham nascido, porque foram predestinados para a adoção de filhos (Efésios 1:5).
Esses estão dispersos por diversos lugares da terra, entre todas as tribos e línguas (Apocalipse 7:9), e por diversas eras do mundo, até o fim dos tempos. Em todas as gerações há pessoas que o temem.
Cristo levou todos eles em consideração na expiação que fez com seu sangue; assim como orou, também morreu em favor de todos os que creriam nele.
Segundo, o propósito e a intenção de sua morte em relação a essas pessoas: ele morreu para reunir os que andavam errantes e juntar num só corpo os que estavam dispersos; para chamar a si os que estavam longe dele e unir nele os que estavam longe uns dos outros.
A morte de Cristo é: 1. A grande força que atrai nosso coração; para isso ele foi levantado: para atrair as pessoas a si.
A conversão das almas é reuni-las a Cristo como seu governante e refúgio, como pombas que voam para suas janelas; e ele morreu para realizar isso.
Ao morrer, comprou essas pessoas para si e obteve para elas o dom do Espírito Santo. Seu amor por nós ao morrer é o grande ímã do nosso amor por ele.
- O grande centro de nossa unidade. Ele as reúne num só corpo (Efésios 1:10). Elas são um com ele — um corpo, um espírito — e são uma com as outras nele.
Todos os santos, em todos os lugares e épocas, se encontram em Cristo, assim como todos os membros se encontram na cabeça e todos os ramos, na raiz.
Pelo mérito de sua morte, Cristo apresentou todos os santos, juntos, à graça e ao favor de Deus (Hebreus 2:11-13); e, pelo apelo de sua morte, recomenda cada um deles ao amor e à afeição dos demais (João 13:34).
(5.) O resultado desse debate foi uma decisão do conselho de matar Jesus (v. 53): “Daquele dia em diante, deliberaram juntos para matá-lo.” Agora compreendiam a intenção uns dos outros e, assim, cada um se firmou na própria decisão: Jesus tinha de morrer.
Parece que nomearam uma comissão para se reunir de die in diem — dia após dia —, examinar o assunto, deliberar a respeito e receber propostas de como executá-lo.
Repare: a maldade dos ímpios amadurece aos poucos (Tiago 1:15; Ezequiel 7:10). Naquele momento, deram dois passos importantes em seu desígnio maldito contra Cristo.
[1.] O que antes alguns haviam cogitado individualmente, agora todos apoiavam juntos. Assim, fortaleciam uns aos outros nessa maldade e prosseguiam com mais confiança.
Os maus se confirmam e se animam a si mesmos e uns aos outros em práticas perversas quando comparam suas ideias. Pessoas de mente corrupta se felicitam ao descobrir que outros pensam como elas.
Então aquilo que antes parecia impraticável passa a parecer não apenas possível, mas fácil de realizar: vis unita fortior — “as forças, quando reunidas, tornam-se mais poderosas”.
[2.] Antes, desejavam que ele fosse morto, mas não tinham um pretexto para isso. Agora dispõem de uma alegação plausível com que justificar sua decisão, que servirá, se não para remover a culpa — isso era o menor de seus zelos —, ao menos para afastar a má fama.
Assim poderiam satisfazer, se não a consciência pessoal, ao menos a consciência política, como alguns fazem uma distinção sutil. Muitos continuam a praticar o mal sem receio, desde que tenham alguma desculpa a apresentar.
A decisão de matar Jesus, com ou sem razão, prova que todo o formalismo do julgamento pelo qual ele passaria depois era apenas encenação e alegação: já tinham decidido o que fazer.
(6.) Em seguida, Cristo se retirou, pois sabia muito bem qual fora a decisão daquele grupo secreto (v. 54).
[1.] Suspendeu suas aparições públicas: já não andava abertamente entre os judeus, entre os habitantes da Judeia, propriamente chamados judeus, sobretudo os de Jerusalém. Ou periepatei: já não circulava entre eles de um lugar para outro, pregando e realizando milagres com a liberdade e a franqueza de antes; enquanto permaneceu na Judeia, ficou incógnito.
Assim, os principais sacerdotes puseram debaixo do cesto a luz de Israel.
[2.] Retirou-se para uma região obscura, tão pouco conhecida que quase não se encontra em outros lugares o nome da cidade para onde foi.
Foi para uma região próxima ao deserto, como se tivesse sido expulso do convívio dos homens ou, antes, desejando, como Jeremias, encontrar no deserto um abrigo de viajantes (Jeremias 9:2).
Entrou numa cidade chamada Efraim. Alguns pensam que era Efrata, isto é, Belém, onde nasceu e que ficava na fronteira do deserto de Judá; outros pensam que era Efrom ou Efraim, mencionada em 2 Crônicas 13:19.
Seus discípulos foram com ele; não queriam deixá-lo sozinho, nem ele queria deixá-los em perigo. Ali permaneceu, dietribe; ali tinha comunhão.
Sabia aproveitar esse período de retiro em comunhão particular, quando não podia pregar em público. Tinha comunhão com seus discípulos, sua família, quando foi forçado a sair do templo; suas diatribai, ou discursos, sem dúvida eram muito edificantes.
Devemos fazer o bem que pudermos quando não podemos fazer o bem que gostaríamos.
Mas por que Cristo se retirou naquele momento? Não foi porque temesse o poder dos inimigos nem desconfiasse do próprio poder. Tinha muitas maneiras de se salvar, não era avesso ao sofrimento nem estava despreparado para ele.
Primeiro, retirou-se para deixar uma marca de seu desagrado sobre Jerusalém e o povo judeu. Eles o rejeitaram e rejeitaram seu evangelho; por isso, com justiça, ele se afastou deles com seu evangelho.
O Príncipe dos mestres fora então levado para um canto (Isaías 30:20); não havia mais visão pública dele. Isso era um triste presságio da densa escuridão que logo cairia sobre Jerusalém, porque ela não reconhecera o tempo de sua visitação.
Segundo, retirou-se para tornar ainda mais indesculpável a crueldade de seus inimigos. Se o que os incomodava e julgavam perigoso para o público era sua presença pública, ele provaria se a ira deles diminuiria ao se retirar para a vida privada.
Quando Davi fugiu para Gate, Saul ficou satisfeito e não o procurou mais (1 Samuel 27:4). Mas aqueles ímpios estavam caçando a vida de Cristo, sua vida preciosa.
Terceiro, sua hora ainda não havia chegado; por isso, evitou o perigo de uma maneira comum aos homens. Assim, autorizou e animou seus servos a fugir durante a perseguição e consolou os que são privados de sua utilidade e sepultados vivos na obscuridade e no isolamento. O discípulo não é superior ao seu Senhor.
Quarto, retirou-se por algum tempo para que seu retorno a Jerusalém, quando chegasse sua hora, fosse ainda mais notável e glorioso. Isso aumentou as aclamações de alegria com que seus simpatizantes o receberam em sua próxima aparição pública, quando entrou na cidade montado, em triunfo.
(7.) A rigorosa busca por ele durante seu retiro (vv. 55-57).
[1.] A ocasião era a proximidade da Páscoa, festa em que esperavam que ele estivesse presente, conforme o costume (v. 55): “A Páscoa dos judeus estava próxima.” Era uma festa que brilhava no calendário deles e pela qual esperavam com grande expectativa durante algum tempo.
Essa era a quarta e última Páscoa de Cristo desde o início de seu ministério público. Podia-se dizer, na verdade, como em 2 Crônicas 35:18, que nunca houve em Israel uma Páscoa como aquela, pois nela Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós.
Agora que a Páscoa estava próxima, muitos vieram de todas as regiões do país a Jerusalém para se purificarem.
Isso podia ser, primeiro, uma purificação necessária para os que haviam contraído alguma contaminação cerimonial. Eles vinham para ser aspergidos com a água da purificação e realizar os demais ritos de limpeza prescritos pela lei, pois não podiam comer a Páscoa estando impuros (Números 9:6).
Assim, antes da Páscoa do evangelho, devemos renovar nosso arrependimento, lavar-nos pela fé no sangue de Cristo e, desse modo, rodear o altar de Deus.
Ou, segundo, podia ser uma purificação voluntária, um recolhimento mediante jejum, oração e outros exercícios religiosos. Muitos, mais devotos que seus vizinhos, passavam algum tempo nisso antes da Páscoa e escolhiam fazê-lo em Jerusalém, para aproveitar o serviço do templo.
Assim também devemos, por meio de uma preparação solene, estabelecer limites ao redor do monte em que esperamos encontrar Deus.
[2.] A busca por notícias era muito ansiosa: “Que vos parece? Não virá à festa?” (v. 56).
Primeiro, alguns pensam que essas palavras foram ditas por pessoas que lhe queriam bem e esperavam sua chegada, para ouvir seus ensinamentos e ver seus milagres.
Os que vieram cedo do interior para se purificar desejavam muito encontrar Cristo. Talvez tenham chegado antes por causa dessa expectativa; por isso, enquanto estavam no templo, o lugar da purificação, perguntavam pelas notícias de Cristo.
Será que alguém poderia lhes dar esperança de vê-lo? Se havia pessoas assim, entre as mais devotas e mais bem dispostas para com a religião, que demonstravam esse respeito por Cristo, isso era um freio à inimizade dos principais sacerdotes e um testemunho contra eles.
Segundo, porém, parece mais provável que fossem seus inimigos que perguntavam por ele, desejosos de encontrar uma oportunidade para prendê-lo.
Ao verem a cidade começar a se encher de pessoas devotas vindas do interior, admiraram-se de não o encontrar entre elas. Quando deveriam ajudar os que vinham se purificar, como lhes cabia, tramavam contra Cristo.
Como a igreja judaica havia se degenerado! Os sacerdotes do Senhor se tornaram como os sacerdotes dos bezerros: uma armadilha em Mispa e uma rede estendida sobre o Tabor, peritos em promover matanças (Oseias 5:1, 2).
Em vez de celebrar a festa com pães sem fermento, eles próprios estavam fermentados pelo pior tipo de malícia! Perguntarem “Que vos parece? Não virá à festa?” implica:
- Uma insinuação invejosa contra Cristo, como se ele deixasse de comparecer à festa do Senhor por medo de se expor.
Se outros faltam por irreligiosidade, ninguém os censura. Mas, se Cristo falta para preservar a própria vida — pois Deus quer misericórdia, e não sacrifício —, isso se transforma em motivo de descrédito, como aconteceu com Davi, cujo lugar ficou vazio na festa.
Saul queria que Davi estivesse ali apenas para ter a oportunidade de pregá-lo à parede com sua lança (1 Samuel 20:25-27, etc.). É triste ver ordenanças santas prostituídas para propósitos tão profanos.
- Um temor angustiado de que sua presa lhes escapasse: “Ele não virá à festa? Se não vier, nossos planos fracassarão e estaremos perdidos, pois não podemos mandar um oficial ao interior para trazê-lo”.
[3.] As ordens do governo para prendê-lo foram muito rigorosas (v. 57). O grande Sinédrio publicou uma proclamação, ordenando severamente que, se alguém, na cidade ou no interior, soubesse onde ele estava — como se fosse um criminoso fugitivo —, informasse as autoridades para que pudesse ser preso.
Provavelmente, prometiam uma recompensa a quem o denunciasse e impunham uma pena a quem lhe desse abrigo. Assim, apresentavam-no ao povo como um homem exposto a ataques e perigoso, um fora da lei contra quem qualquer um poderia investir.
Saul publicou uma proclamação semelhante para prender Davi, e Acabe fez o mesmo com Elias. Veja, primeiro, como estavam empenhados nessa perseguição e trabalhavam nela incansavelmente, justamente quando, se tivessem algum senso de religião e do dever de seu ofício, teriam encontrado outra coisa para fazer.
Segundo, veja como estavam dispostos a envolver outros em sua culpa. Se alguém pudesse trair Cristo, queriam que essa pessoa pensasse que tinha a obrigação de fazê-lo. Assim, abusaram da influência que tinham sobre o povo para os piores propósitos.
Repare: agrava os pecados dos governantes ímpios o fato de geralmente transformarem seus subordinados em instrumentos de sua injustiça.
Apesar dessa proclamação, embora sem dúvida muitos soubessem onde Cristo estava, ele continuou sem ser descoberto. O afeto de alguns por ele era grande, e Deus mantinha firme domínio sobre a consciência de outros; assim, o Senhor o escondeu.