Matthew Henry

João 10

Argumento

Neste capítulo temos: I. O discurso parabólico de Cristo a respeito de si mesmo como a porta do aprisco e o pastor das ovelhas (vv. 1-18). II. As diferentes opiniões das pessoas a respeito desse discurso (vv. 19-21). III. A disputa de Cristo com os judeus no templo, durante a Festa da Dedicação (vv. 22-39). IV. Sua retirada para o interior, em seguida (vv. 40-42).

Versículos 1 a 18

O Bom Pastor.

Não se sabe ao certo se este discurso foi proferido na Festa da Dedicação, no inverno (mencionada no v. 22), que pode ser considerada a data não só do que vem depois, mas também do que vem antes.

Favorece essa hipótese o fato de que, naquele discurso, Cristo continua a metáfora das ovelhas (v. 26, 27), o que dá a entender que aquele discurso e este ocorreram na mesma ocasião.

Ou será que este foi um prolongamento da conversa com os fariseus, no final do capítulo anterior? Os fariseus justificavam sua oposição a Cristo com o princípio de que eram os pastores da igreja e que Jesus, sem autorização deles, era um intruso e impostor; por isso, o povo tinha o dever de permanecer com eles contra Jesus.

Em resposta, Cristo descreve aqui quem são os falsos pastores e quem são os verdadeiros, deixando que tirem a conclusão sobre si mesmos.

I. Temos aqui a parábola ou comparação apresentada (vv. 1-5), tirada dos costumes daquele país no trato das ovelhas. As comparações usadas para esclarecer verdades divinas devem vir das coisas mais conhecidas e comuns, para que aquilo que deveria esclarecer as coisas de Deus não as obscureça.

O prefácio deste discurso é solene: “Em verdade, em verdade vos digo” — Amém, amém. Essa afirmação veemente indica a certeza e a importância do que ele disse.

Encontramos “amém” duplicado nos louvores e nas orações da igreja (Salmos 41:13; Salmos 72:19; Salmos 89:52). Se queremos que nossos améns sejam aceitos no céu, os améns de Cristo devem prevalecer na terra: seus améns repetidos.

  1. Na parábola temos: (1.) A evidência de um ladrão e salteador que vem para causar dano ao rebanho e estrago ao dono (v. 1). Ele não entra pela porta, pois não tem direito legítimo de entrar; sobe por outro lugar, por uma janela ou por alguma brecha na parede.

Como os perversos se empenham em causar dano! Que tramas preparam, que esforços fazem, que riscos correm em suas buscas perversas! Isso deveria nos envergonhar de nossa preguiça e covardia no serviço de Deus.

(2.) O caráter que distingue o legítimo dono, que é proprietário das ovelhas e cuida delas: “Entra pela porta”, como quem tem autoridade (v. 2), e vem prestar-lhes algum serviço, para enfaixar o que está quebrado e fortalecer o que está doente (Ezequiel 34:16).

As ovelhas precisam do cuidado humano e, em troca, são úteis ao homem (1 Coríntios 9:7); vestem e alimentam aqueles que lhes dão abrigo e alimento.

(3.) A entrada franqueada que o pastor encontra: “A ele o porteiro abre” (v. 3). Antigamente, colocavam os apriscos dentro dos portões externos de suas casas, para maior segurança dos rebanhos.

Assim, ninguém podia chegar às ovelhas pelo caminho certo, a menos que o porteiro lhe abrisse ou que o dono da casa lhe desse as chaves.

(4.) O cuidado e a provisão que ele oferece às ovelhas. Elas ouvem sua voz quando ele lhes fala familiarmente, ao entrarem no aprisco, como hoje as pessoas falam com seus cães e cavalos.

Mais ainda: ele chama suas próprias ovelhas pelo nome; tão exato é o conhecimento que tem delas e o registro que mantém. E as conduz para fora do aprisco, às pastagens verdes.

Quando as leva para pastar (v. 4, 5), não as tange por trás, mas, conforme o costume daqueles tempos, vai adiante delas, para evitar qualquer dano ou perigo que possam encontrar. Acostumadas a isso, elas o seguem e ficam seguras.

(5.) O comportamento peculiar das ovelhas em relação ao pastor: elas conhecem sua voz, discernem por ela o que ele quer e a distinguem da voz de um estranho (pois “o boi conhece seu dono”, Isaías 1:3).

Não seguem um estranho; suspeitando de algum mau desígnio, fogem dele. Não conhecem sua voz, mas sabem que não é a voz de seu próprio pastor.

Essa é a parábola. Temos sua explicação em Ezequiel 34:31: “Vós, rebanho meu, sois homens, e eu sou vosso Deus.”

  1. Observemos, a partir desta parábola: (1.) Que os homens bons são comparados apropriadamente a ovelhas. Como criaturas dependentes do Criador, os homens são chamados ovelhas de seu pasto.

Como novas criaturas, os homens bons têm as boas qualidades das ovelhas: são inofensivos e não ofendem, como ovelhas; mansos e tranquilos, sem alarde; pacientes como ovelhas sob a mão tanto de quem as tosquia como de quem as abate.

São úteis e proveitosos, dóceis e tratáveis para o pastor, sociáveis uns com os outros e muito usados em sacrifícios.

(2.) A igreja de Deus no mundo é um aprisco, para o qual são reunidos os filhos de Deus que andavam dispersos (João 11:52), onde são unidos e incorporados. É um bom aprisco (Ezequiel 34:14). Veja Miquéias 2:12.

Esse aprisco é bem protegido, pois o próprio Deus é como um muro de fogo ao seu redor (Zacarias 2:5).

(3.) Esse aprisco fica muito exposto a ladrões e salteadores: sedutores astutos que corrompem e enganam, e perseguidores cruéis que destroem e devoram; “lobos ferozes” (Atos 20:29).

São ladrões que querem roubar de Cristo suas ovelhas para sacrificá-las aos demônios, ou roubar-lhes o alimento para que pereçam por falta dele; são “lobos vestidos de ovelhas” (Mateus 7:15).

(4.) O grande Pastor das ovelhas cuida de modo extraordinário do rebanho e de todos os que lhe pertencem. Deus é o grande Pastor (Salmos 23:1).

Ele conhece os que são seus, chama-os pelo nome e os marca como propriedade sua; leva-os a pastos abundantes, onde os faz comer e descansar, fala-lhes com ternura e os guarda por sua providência.

Guia-os por seu Espírito e por sua palavra e vai adiante deles, para conduzi-los pelo caminho de seus passos.

(5.) Os pastores subordinados, encarregados de apascentar o rebanho de Deus, devem cumprir essa responsabilidade com cuidado e fidelidade.

Os magistrados devem defendê-lo, proteger e promover todos os seus interesses temporais. Os ministros devem servi-lo em seus interesses espirituais, alimentando sua alma com a palavra de Deus fielmente exposta e aplicada e com as ordenanças do evangelho devidamente ministradas, exercendo supervisão sobre ele.

Devem entrar pela porta de uma ordenação regular; a esses o porteiro abrirá. O Espírito de Cristo lhes porá diante uma porta aberta, dará autoridade na igreja e segurança em seu íntimo.

Devem conhecer pelo nome os membros de seus rebanhos e zelar por eles; conduzi-los aos pastos das ordenanças públicas e presidir entre eles; ser sua voz diante de Deus e a voz de Deus diante deles.

Em sua conduta, devem ser exemplos para os fiéis.

(6.) Os que são na verdade ovelhas de Cristo serão muito atentos ao seu Pastor e muito cautelosos e desconfiados diante de estranhos.

[1.] Seguem o Pastor, pois conhecem sua voz; têm tanto ouvido capaz de discernir quanto coração obediente.

[2.] Fogem do estranho e temem segui-lo, pois não conhecem sua voz. É perigoso seguir aqueles em quem não discernimos a voz de Cristo e que querem nos afastar da fé nele para nos levar a fantasias a respeito dele.

Os que experimentaram em sua alma o poder e a eficácia das verdades divinas, além de sentir-lhes o sabor e apreciá-las, têm notável discernimento para descobrir as astúcias de Satanás e distinguir entre o bem e o mal.

II. A ignorância dos judeus quanto ao propósito e ao sentido desse discurso (v. 6). Jesus lhes contou essa parábola, um discurso figurado, mas sábio, elegante e instrutivo; contudo, eles não entenderam o que lhes dizia.

Não perceberam a quem ele se referia ao falar dos ladrões e salteadores nem quem era o bom Pastor. É pecado e vergonha de muitos que ouvem a palavra de Cristo não a entenderem; isso acontece porque não querem entendê-la e insistem em interpretá-la mal.

Não conhecem nem apreciam as próprias realidades e, por isso, não entendem as parábolas e comparações que as ilustram. Os fariseus tinham alta opinião de seu próprio conhecimento, não suportavam que fosse questionado e, no entanto, não tinham discernimento para entender o que Jesus dizia: estava além de sua capacidade.

Frequentemente, os que mais alegam conhecimento são os mais ignorantes nas coisas de Deus.

III. A explicação que Cristo dá dessa parábola, esclarecendo por completo seus detalhes. Por mais difíceis que sejam as palavras do Senhor Jesus, nós o encontraremos disposto a explicar-se, se ao menos estivermos dispostos a entendê-lo.

Veremos uma passagem da Escritura explicando outra, e o bendito Espírito interpretando o bendito Jesus. Na parábola, Cristo distinguiu o pastor do ladrão dizendo que o pastor entra pela porta.

Ao explicar a parábola, porém, apresenta-se tanto como a porta pela qual o pastor entra quanto como o pastor que entra pela porta.

Embora talvez seja um solecismo na retórica fazer da mesma pessoa tanto a porta quanto o pastor, ainda assim não é solecismo na teologia dizer que Cristo recebe autoridade de si mesmo, assim como tem vida em si mesmo, e que ele próprio entra no Santo Lugar por seu próprio sangue, como a porta.

  1. Cristo é a porta. Ele diz isso aos que alegavam procurar a justiça, mas, como os sodomitas, se cansavam procurando a porta onde ela não podia ser encontrada.

Diz isso aos judeus, que queriam ser considerados as únicas ovelhas de Deus, e aos fariseus, que queriam ser considerados seus únicos pastores: Eu sou a porta do aprisco, a porta da igreja.

(1.) De modo geral, [1.] Cristo é como uma porta fechada para impedir a entrada de ladrões, salteadores e de todos os que não são dignos de entrar. Fechar a porta é proteger a casa; que segurança maior pode ter a igreja de Deus do que a interposição do Senhor Jesus, com sua sabedoria, poder e bondade entre ela e todos os seus inimigos?

[2.] Ele é como uma porta aberta para passagem e comunicação. Primeiro, por Cristo, como porta, temos nosso primeiro acesso ao rebanho de Deus (João 14:6).

Segundo, conduzimos nossa vida religiosa entrando e saindo, com a ajuda dele e aceitos nele, caminhando de um lado para outro em seu nome (Zacarias 10:12).

Terceiro, por meio dele, Deus vem à sua igreja, visita-a e comunica-se com ela. Quarto, por meio dele, como porta, as ovelhas são finalmente admitidas no reino celestial (Mateus 25:34).

(2.) Mais especificamente:

[1.] Cristo é a porta dos pastores; assim, os que não entram por ele não devem ser considerados pastores, mas, conforme a regra estabelecida no v. 1, ladrões e salteadores, embora aleguem ser pastores. As ovelhas, porém, não os ouviram.

Isso se refere a todos os que tinham o título de pastores em Israel, fossem magistrados ou ministros, mas exerciam o cargo sem consideração alguma pelo Messias e sem outras expectativas a respeito dele além daquelas sugeridas por seu próprio interesse carnal.

Observe: primeiro, a descrição que se dá deles: são ladrões e salteadores (v. 8). Todos os que vieram antes dele não quer dizer antes no tempo, pois muitos eram pastores fiéis; refere-se aos que anteciparam a missão dele e foram antes de ele os enviar (Jeremias 23:21), arrogando-se precedência e superioridade sobre ele, como se diz que o anticristo se exalta (2 Tessalonicenses 2:4).

“Os escribas, fariseus e principais sacerdotes, todos os que vieram antes de mim — tantos quantos tentaram impedir minha influência e evitar que eu conquistasse espaço na mente das pessoas, enchendo-as de preconceitos contra mim — são ladrões e salteadores.”

“Roubam corações que não lhes pertencem e defraudam o legítimo dono de sua propriedade.” Condenaram nosso Salvador como ladrão e salteador porque ele não entrou por eles, como se fossem a porta, nem lhes pediu licença.

Mas Cristo mostra que eles deveriam ter recebido dele sua comissão, ter sido admitidos por ele e vindo depois dele. Como não fizeram isso e passaram à sua frente, eram ladrões e salteadores.

Recusaram-se a entrar como discípulos dele; por isso, foram condenados como usurpadores, e suas alegadas comissões foram anuladas e substituídas.

Repare: os rivais de Cristo roubam sua igreja, por mais que aleguem ser pastores, ou melhor, pastores de pastores.

Segundo, o cuidado tomado para proteger as ovelhas deles: “Mas as ovelhas não os ouviram.” Os que tinham verdadeiro gosto pela piedade, eram espirituais e celestiais e se dedicavam sinceramente a Deus e à piedade não podiam aprovar de modo algum as tradições dos anciãos nem apreciar suas formalidades.

Sem quaisquer instruções específicas de seu Mestre, os discípulos de Cristo não viam escrúpulo em comer com as mãos não lavadas nem em colher espigas no sábado. Nada é tão contrário ao verdadeiro cristianismo quanto o farisaísmo, nem tão desagradável a uma alma verdadeiramente devota quanto as devoções hipócritas dos fariseus.

[2.] Cristo é a porta das ovelhas (v. 9): “Por mim” — di emou, isto é, por meio de mim como porta —, se alguém entrar no aprisco como parte do rebanho, será salvo; não só estará a salvo de ladrões e salteadores, mas será feliz e entrará e sairá.

Temos aqui: primeiro, instruções claras sobre como entrar no aprisco: devemos entrar por Jesus Cristo, como porta. Pela fé nele, o grande Mediador entre Deus e os homens, entramos em aliança e comunhão com Deus.

Não se entra na igreja de Deus sem entrar na igreja de Cristo; ninguém é considerado membro do reino de Deus entre os homens a menos que se disponha a submeter-se à graça e ao governo do Redentor.

Agora devemos entrar pela porta da fé (Atos 14:27), pois a porta da inocência se fechou para nós e essa passagem se tornou inacessível (Gênesis 3:24).

Segundo, há preciosas promessas para os que seguem essa instrução. 1. Serão salvos no futuro; esse é o privilégio de seu lar.

Essas ovelhas serão salvas de serem penhoradas e confinadas pela justiça divina por causa das transgressões cometidas, pois seu grande Pastor prestou satisfação pelos estragos; serão salvas de servir de presa ao leão que ruge e serão felizes para sempre.

  1. Enquanto isso, entrarão e sairão e encontrarão pastagem; esse é o privilégio de seu caminho. Conduzirão sua vida no mundo pela graça de Cristo e estarão em seu aprisco como alguém em casa, com livre entrada, saída e retorno.

Os verdadeiros crentes estão em casa em Cristo. Quando saem, não se lhes fecha a porta como a estranhos, mas têm liberdade para voltar; quando entram, não ficam presos como invasores, mas têm liberdade para sair.

Saem ao campo pela manhã e entram no aprisco à noite; em ambos os lugares, o Pastor os conduz e guarda, e eles encontram pastagem: grama no campo, forragem no aprisco.

Em público e em particular, têm a palavra de Deus com a qual se ocupar; por ela sua vida espiritual é sustentada e nutrida, e nela seus desejos despertados pela graça são satisfeitos. São saciados com a bondade da casa de Deus.

  1. Cristo é o pastor (v. 11, etc.). No Antigo Testamento, profetizou-se que ele seria pastor (Isaías 40:11; Ezequiel 34:23; Ezequiel 37:24; Zacarias 13:7).

No Novo Testamento, ele é chamado o grande Pastor (Hebreus 13:20), o Supremo Pastor (1 Pedro 5:4) e Pastor e bispo de nossas almas (1 Pedro 2:25).

Deus, nosso grande proprietário, de cujo pasto somos ovelhas por criação, constituiu seu Filho Jesus como nosso pastor; e aqui ele reconhece repetidamente essa relação.

Ele cuida de sua igreja e de cada crente como um bom pastor cuida de seu rebanho. E espera da igreja e de cada crente a mesma dedicação e obediência que os pastores daqueles países recebiam de seus rebanhos.

(1.) Cristo é pastor, e não age como o ladrão nem como os que não entram pela porta. Observe:

[1.] O desígnio danoso do ladrão (v. 10): o ladrão não vem com boa intenção, mas para roubar, matar e destruir. Primeiro, aqueles cujos corações e afetos os ladrões roubam de Cristo e de suas pastagens são mortos e destruídos espiritualmente por eles, pois as heresias que introduzem às escondidas são condenatórias.

Os que enganam almas são assassinos de almas. Aqueles que roubam as Escrituras, mantendo-as numa língua desconhecida, que roubam os sacramentos, mutilando-os e alterando sua natureza, e que roubam as ordenanças de Cristo para substituí-las por suas próprias invenções, matam e destroem.

A ignorância e a idolatria são destrutivas. Segundo, aqueles que não conseguem roubar — que não conseguem atrair, impelir nem arrastar para fora do rebanho de Cristo — procuram matar e destruir fisicamente por perseguições e massacres.

Quem não se deixa roubar corre o risco de ser abatido.

[2.] O desígnio gracioso do pastor. Ele veio:

Primeiro, para dar vida às ovelhas. Em oposição ao desígnio do ladrão, que é matar e destruir — desígnio dos escribas e fariseus —, Cristo afirma que veio entre os homens.

  1. Para que tivessem vida. Veio trazer vida ao rebanho, à igreja em geral, que parecia mais um vale cheio de ossos secos do que um pasto coberto de rebanhos.

Cristo veio defender as verdades divinas, purificar as ordenanças divinas, corrigir os abusos e reavivar o zelo que morria; veio buscar as ovelhas perdidas e enfaixar a que estava quebrada (Ezequiel 34:16). Para sua igreja, isso equivale à vida dentre os mortos.

Veio dar vida aos crentes em particular. A vida inclui todo bem e se opõe à morte ameaçada (Gênesis 2:17).

Veio para que tivéssemos vida como um criminoso perdoado, um doente curado e um morto ressuscitado: para sermos justificados, santificados e, por fim, glorificados.

  1. Para que a tivessem em maior abundância, kai perisson echosin. Como lemos, a expressão é comparativa: para que tivessem vida mais abundante do que a vida perdida e confiscada por causa do pecado; mais abundante do que a prometida pela lei de Moisés — muitos dias em Canaã — e mais do que se poderia esperar ou do que somos capazes de pedir ou pensar.

Mas também se pode entender sem o sentido comparativo: para que tivessem abundância, ou a tivessem abundantemente. Cristo veio dar vida e perisson ti — algo a mais, algo melhor: vida com vantagens.

Para que, em Cristo, não só vivêssemos, mas vivêssemos com consolo, vivêssemos em abundância, vivêssemos e nos alegrássemos. Vida abundante é vida eterna, sem morte ou medo da morte: vida e muito mais.

Segundo, veio dar sua vida pelas ovelhas, para que pudesse dar-lhes vida (v. 11): “O bom pastor dá a vida pelas ovelhas.”

  1. É próprio de todo bom pastor arriscar e expor a vida pelas ovelhas. Jacó fez isso, suportando tamanho cansaço para cuidar delas (Gênesis 31:40). Davi também o fez ao abater o leão e o urso.

São Paulo foi um pastor de almas assim: de bom grado se gastava e se deixava gastar para o serviço delas, sem considerar sua vida preciosa em comparação com a salvação delas.

  1. Mas era prerrogativa do grande Pastor dar a vida para comprar seu rebanho (Atos 20:28), satisfazer pela transgressão dele e derramar o sangue para lavá-lo e limpá-lo.

(2.) Cristo é o bom pastor, e não age como o mercenário. Muitos não eram ladrões que pretendiam matar e destruir as ovelhas; passavam por pastores, mas eram muito negligentes no cumprimento do dever, e seu descuido causava grande estrago ao rebanho: eram pastores insensatos e ociosos (Zacarias 11:15, 17).

Em oposição a esses:

[1.] Cristo chama a si mesmo de bom pastor (v. 11) e, novamente, no v. 14, de ho poimen ho kalos — aquele pastor, o bom Pastor que Deus prometera. Repare: Jesus Cristo é o melhor dos pastores, o melhor do mundo para cuidar das almas.

Ninguém é tão hábil, fiel e compassivo como ele; ninguém alimenta, guia, protege e cura as almas como ele.

[2.] Ele prova ser assim, em oposição a todos os mercenários (vv. 12-14). Observe:

Primeiro, descreve-se o descuido do pastor infiel (v. 12, 13). O mercenário é contratado como servo e recebe pagamento por seu trabalho; as ovelhas não lhe pertencem, e ele não tem com elas nem lucro nem prejuízo.

Quando vê o lobo chegando ou algum outro perigo ameaçando, abandona as ovelhas ao lobo, pois, na verdade, não se importa com elas. Aqui há clara referência ao pastor ídolo (Zacarias 11:17).

Os maus pastores — magistrados e ministros — são aqui descritos tanto por seus princípios ruins quanto por suas práticas ruins.

a. Seus maus princípios, raiz de suas más práticas. O que leva os que têm a responsabilidade pelas almas a trair o encargo recebido em tempos difíceis e, em tempos tranquilos, a negligenciá-lo? O que os torna falsos, levianos e egoístas? São mercenários e não se importam com as ovelhas.

Isto é, (a.) A riqueza do mundo é o principal bem que buscam; são mercenários. Assumiram o ofício de pastor como profissão para viver e enriquecer, não como oportunidade de servir a Cristo e fazer o bem.

O amor ao dinheiro e ao próprio ventre é o que os move. Isso não significa que sejam mercenários os que, servindo ao altar, vivem dele com conforto. O trabalhador é digno de seu alimento; uma remuneração vergonhosa logo dará origem a um ministério vergonhoso.

Mercenários são os que amam mais o pagamento do que o trabalho e põem nele o coração, como se diz do mercenário (Deuteronômio 24:15). Veja 1 Samuel 2:29; Isaías 56:11; Miquéias 3:5, 11.

(b.) O trabalho de seu cargo é aquilo com que menos se preocupam. Não valorizam as ovelhas nem se interessam pela alma dos outros; sua ocupação é dominar os irmãos, não cuidar deles nem ajudá-los.

Buscam os próprios interesses e, ao contrário de Timóteo, não cuidam naturalmente do estado das almas. O que se pode esperar, senão que fujam quando o lobo vier?

O mercenário não se importa com as ovelhas, pois elas não lhe pertencem. Em certo sentido, podemos dizer que as ovelhas não pertencem aos melhores pastores subordinados: eles não têm domínio sobre elas nem são seus proprietários — apascentem minhas ovelhas e meus cordeiros, diz Cristo.

Mas, quanto ao carinho e à afeição, deveriam considerá-las suas. Paulo considerava seus aqueles a quem chamava de muito amados e por quem ansiava. Os que não abraçam de coração os interesses da igreja nem os fazem seus não permanecerão fiéis a ela por muito tempo.

b. Suas más práticas, resultado desses maus princípios (v. 12). Veja aqui: (a.) Como o mercenário abandona vergonhosamente seu posto: ao ver o lobo chegando, embora seja justamente quando as ovelhas mais precisam dele, deixa-as e foge.

Repare: os que se preocupam mais com a própria segurança do que com o dever tornam-se presas fáceis das tentações de Satanás.

(b.) Como são fatais as consequências! O mercenário imagina que as ovelhas poderão cuidar de si mesmas, mas isso não acontece: o lobo as apanha e dispersa, e o rebanho sofre uma devastação terrível, cuja responsabilidade recairá toda sobre o pastor traidor.

O sangue das almas que perecem será exigido dos atalaias descuidados.

Segundo, veja a graça e a ternura do bom Pastor, contrapostas ao que foi dito antes, conforme a profecia (Ezequiel 34:21, 22, etc.): “Eu sou o bom Pastor.”

É motivo de consolo para a igreja e para todos os seus amigos saber que, por mais que ela sofra estragos e corra perigo devido à traição e à má administração dos oficiais subordinados, o Senhor Jesus é e continuará sendo, como sempre foi, o bom Pastor.

Eis dois grandes exemplos da bondade do pastor:

a. Ele conhece seu rebanho e todos os que a ele pertencem ou de algum modo se relacionam com ele; são de duas categorias, e ambas são conhecidas por ele:

(a.) Ele conhece todos os que agora fazem parte de seu rebanho (v. 14, 15), como o bom Pastor (v. 3, 4): “Conheço as minhas ovelhas e sou conhecido pelas minhas.”

Repare: há conhecimento mútuo entre Cristo e os verdadeiros crentes; eles se conhecem muito bem, e esse conhecimento implica afeição.

[a.] Cristo conhece suas ovelhas. Com olhar perspicaz, sabe quais são e quais não são suas ovelhas; conhece as ovelhas em meio a suas muitas fraquezas e os bodes sob seus disfarces mais plausíveis.

Com olhar favorável, conhece os que na verdade são suas ovelhas. Observa a condição delas, interessa-se por elas e tem por elas consideração terna e afetuosa.

Lembra-se delas continuamente em sua intercessão, que vive sempre para fazer dentro do véu; visita-as graciosamente por seu Espírito e tem comunhão com elas.

Conhecê-las significa aprová-las e aceitá-las (Salmos 1:6; Salmos 37:18; Êxodo 33:17).

[b.] Ele é conhecido por elas. Observa-as com olhar favorável, e elas o observam com olhar de fé. O conhecimento que Cristo tem de suas ovelhas vem antes do conhecimento que elas têm dele, pois ele nos conheceu e amou primeiro (1 João 4:19).

Nossa felicidade depende não tanto de conhecê-lo, mas de sermos conhecidos por ele (Gálatas 4:9). Ainda assim, uma característica das ovelhas de Cristo é que o conhecem: distinguem-no de todos os que alegam ser Cristo e dos intrusos, conhecem sua vontade e sua voz e experimentam o poder de sua morte.

Cristo fala aqui como se se gloriasse de ser conhecido por suas ovelhas e considerasse a estima delas uma honra para si.

Nesta ocasião, Cristo menciona (v. 15) o conhecimento mútuo entre ele e seu Pai: “Assim como o Pai me conhece, também eu conheço o Pai.” Isso pode ser considerado, Primeiro, o fundamento do conhecimento íntimo e da relação que existem entre Cristo e os crentes.

A aliança da graça, vínculo dessa relação, fundamenta-se na aliança da redenção entre o Pai e o Filho, que certamente permanece firme. O Pai e o Filho se entendiam perfeitamente nesse assunto; não poderia haver engano que deixasse algo incerto ou o colocasse em risco.

O Senhor Jesus conhece os que escolheu e tem certeza deles (João 13:18); eles também sabem em quem confiaram e estão seguros dele (2 Timóteo 1:12).

O fundamento de ambos é o conhecimento perfeito que o Pai e o Filho tinham da vontade um do outro, quando o conselho de paz se deu entre ambos.

Ou, Segundo, isso pode ser considerado uma comparação apropriada, que ilustra a intimidade entre Cristo e os crentes. Pode ser ligado às palavras anteriores assim: Cristo conhece suas ovelhas e é conhecido por elas, assim como o Pai o conhece e ele conhece o Pai. Compare João 17:21.

  1. Assim como o Pai conhecia e amava o Filho e o reconheceu em seus sofrimentos, quando foi levado como ovelha ao matadouro, Cristo conhece suas ovelhas e as vigia com ternura.

Estará com elas quando forem deixadas sozinhas, assim como o Pai esteve com ele.

  1. Assim como o Filho conhecia o Pai, o amava e lhe obedecia, fazendo sempre o que lhe agradava e confiando nele como seu Deus mesmo quando parecia abandoná-lo, os crentes conhecem Cristo com obediência e confiança.

(b.) Ele conhece os que ainda farão parte desse rebanho (v. 16): “Tenho outras ovelhas”, às quais tenho direito e nas quais tenho interesse, mas que não são deste aprisco, a igreja judaica; “também me convém trazê-las”. Observe:

[a.] O interesse que Cristo tinha pelos pobres gentios. Às vezes ele indicara sua preocupação especial com as ovelhas perdidas da casa de Israel; de fato, seu ministério pessoal se limitou a elas. Mas diz: “Tenho outras ovelhas.”

Os que, com o passar do tempo, cressem em Cristo e fossem levados, dentre os gentios, à obediência a ele são chamados aqui de ovelhas. Cristo diz que são suas, embora ainda não fossem chamadas e muitas nem tivessem nascido, pois foram escolhidas por Deus e dadas a Cristo nos conselhos do amor divino desde a eternidade.

Pela dádiva do Pai e por sua própria compra, Cristo tem direito a muitas almas que ainda não possui. Assim, já tinha muitos em Corinto quando a cidade ainda jazia na maldade (Atos 18:10).

“Tenho aquelas outras ovelhas”, diz Cristo; “estão em meu coração e diante de meus olhos. Tenho tanta certeza de que as terei como se já as tivesse.”

Cristo fala dessas outras ovelhas, Primeiro, para desfazer o desprezo dirigido a ele por ter poucos seguidores e apenas um pequeno rebanho, como se, embora fosse um bom pastor, ainda assim fosse um pastor pobre: “Mas”, diz ele, “tenho mais ovelhas do que vocês veem.”

Segundo, para abater o orgulho e a vanglória dos judeus, que pensavam que o Messias reuniria todas as suas ovelhas entre eles. “Não”, diz Cristo, “tenho outras que porei junto aos cordeiros do meu rebanho, embora vocês desdenhem de colocá-las até entre os cães do seu.”

[b.] Os propósitos e as determinações de sua graça a respeito delas: “Também me convém trazê-las”, levá-las para casa, a Deus, e introduzi-las na igreja; para isso, tirá-las de sua conduta vã e reconduzi-las de seus desvios, como àquela ovelha perdida (Lucas 15:5).

Mas por que ele deve trazê-las? De onde vem essa necessidade? Primeiro, da condição delas: “Devo trazê-las, ou ficarão vagando para sempre; como ovelhas, nunca voltarão por si mesmas, e ninguém mais pode ou quer trazê-las.”

Segundo, essa necessidade vem das obrigações que ele próprio assumiu. Ele deve trazê-las, ou não será fiel à confiança que recebeu nem cumprirá seu compromisso: “São minhas, compradas e pagas; portanto, não posso negligenciá-las nem deixá-las perecer.” Por uma questão de honra, deve trazer aquelas que lhe foram confiadas.

[c.] O efeito e a consequência felizes disso, em dois aspectos: Primeiro: “Elas ouvirão a minha voz. Não apenas minha voz será ouvida entre elas — antes não tinham ouvido e, por isso, não podiam crer; agora o som do evangelho chegará aos confins da terra —, mas elas mesmas a ouvirão. Falarei e lhes darei a capacidade de ouvir.”

A fé vem pelo ouvir. A atenção diligente à voz de Cristo é tanto um meio quanto uma prova de que fomos conduzidos a Cristo e, por meio dele, a Deus.

Segundo: “Haverá um só aprisco e um só pastor.” Assim como há um só pastor, haverá um só aprisco. Judeus e gentios, ao se converterem à fé em Cristo, serão incorporados numa só igreja e compartilharão igualmente de seus privilégios, sem distinção.

Unidos a Cristo, se unirão nele; duas varas se tornarão uma na mão do Senhor. Repare: um só pastor faz um só aprisco; um só Cristo faz uma só igreja.

Assim como a igreja é uma em sua constituição, sujeita a um só cabeça, animada por um só Espírito e guiada por uma só regra, seus membros também devem ser um em amor e afeto (Efésios 4:3-6).

b. A oferta que Cristo faz de si mesmo por suas ovelhas é outra prova de que é bom pastor; com isso, demonstrou ainda mais seu amor (v. 15, 17, 18).

(a.) Ele declara seu propósito de morrer por seu rebanho (v. 15): “Dou a minha vida pelas ovelhas.” Não apenas arriscou a vida por elas — num caso assim, a esperança de salvá-la poderia equilibrar o temor de perdê-la —, mas de fato a entregou e se submeteu à necessidade de morrer por nossa redenção.

Tithemi: ponho-a como penhor ou garantia, como preço de compra pago à vista. As ovelhas destinadas ao matadouro, prontas para serem sacrificadas, foram resgatadas pelo sangue do pastor.

Ele deu a vida hyper ton probaton, não só para o bem das ovelhas, mas em lugar delas. Milhares de ovelhas haviam sido oferecidas em sacrifício em favor de seus pastores, como ofertas pelo pecado; aqui, porém, numa inversão surpreendente, o pastor é sacrificado pelas ovelhas.

Quando Davi, pastor de Israel, era culpado e o anjo destruidor erguia a espada contra o rebanho por causa dele, com boa razão apelou: “Estas ovelhas, que fizeram de mal? Seja contra mim a tua mão” (2 Samuel 24:17).

Mas o Filho de Davi era sem pecado e sem mancha; e suas ovelhas, que mal não fizeram? Ainda assim, ele diz: “Seja contra mim a tua mão.”

Cristo parece referir-se aqui à profecia: “Desperta, ó espada, contra o meu pastor” (Zacarias 13:7). Embora, por ora, o pastor seja ferido e o rebanho disperso, isso acontece para que ele seja reunido.

(b.) Ele remove o escândalo da cruz, que para muitos é pedra de tropeço, apresentando quatro considerações:

[a.] Que dar a vida pelas ovelhas era a condição cujo cumprimento lhe daria direito às honras e aos poderes de seu estado exaltado (v. 17): “Por isso meu Pai me ama, porque dou a minha vida.”

“Nesses termos, como Mediador, devo esperar a aceitação e aprovação de meu Pai e a glória que me foi destinada por desígnio: tornar-me sacrifício pelo remanescente escolhido.”

Não quer dizer que, como Filho de Deus, ele não fosse amado pelo Pai desde a eternidade; mas, como Deus-homem, como Emanuel, era amado pelo Pai por se comprometer a morrer pelas ovelhas.

Por isso, a alma de Deus se deleitava nele como seu eleito, pois nisso ele era seu servo fiel (Isaías 42:1); por isso disse: “Este é o meu Filho amado.” Que exemplo do amor de Deus pela humanidade: amou ainda mais seu Filho porque este nos amou!

Veja quanto valor Cristo atribui ao amor de seu Pai: para se recomendar a esse amor, daria a vida pelas ovelhas. Se julgou suficiente o amor de Deus em recompensa por todos os seus serviços e sofrimentos, deveríamos julgá-lo pouco para nós e cortejar os sorrisos do mundo para compensar?

“Por isso meu Pai me ama”, isto é, ama a mim e a todos os que pela fé se tornam um comigo; ama a mim e ao corpo místico, porque dou a minha vida.

[b.] Que ele deu a vida para retomá-la: Dou a minha vida para tornar a recebê-la. Primeiro, isso era efeito do amor de seu Pai e o primeiro passo de sua exaltação, fruto desse amor.

Por ser o Santo de Deus, não deveria ver corrupção (Salmos 16:10). Deus o amava demais para deixá-lo na sepultura.

Segundo, ao dar a vida, tinha em vista declarar-se Filho de Deus com poder por meio da ressurreição (Romanos 1:4).

Por uma estratégia divina, semelhante à usada diante de Ai (Josué 8:15), entregou-se à morte como se tivesse sido vencido por ela, para vencê-la de modo ainda mais glorioso e triunfar sobre a sepultura.

Entregou um corpo humilhado para assumir um corpo glorificado, próprio para subir ao mundo dos espíritos. Deixou uma vida adaptada a este mundo e assumiu outra adaptada ao mundo vindouro, como o grão de trigo (João 12:24).

[c.] Que ele sofreu e morreu por plena vontade própria (v. 18): “Ninguém tira nem pode tirar a minha vida contra a minha vontade; eu a dou livremente, por conta própria; entrego-a por meu próprio ato e feito, pois tenho — coisa que ninguém tem — autoridade para dá-la e para retomá-la.”

1º. Veja aqui o poder de Cristo, Senhor da vida, especialmente da própria vida, que tinha em si mesmo.

  1. Tinha poder para conservar a vida contra todo o mundo; ninguém poderia tirá-la dele sem sua própria anuência. Embora parecesse que a vida de Cristo fora tomada de assalto, na realidade ele a entregou; caso contrário, teria sido inexpugnável e jamais tomada.

O Senhor Jesus não caiu nas mãos de seus perseguidores por não conseguir evitá-lo; entregou-se a eles porque havia chegado sua hora. Ninguém lhe tira a vida. Nenhum herói mais ousado jamais lançou desafio como esse.

  1. Tinha poder para dar a vida. (1.) Tinha capacidade para isso. Quando queria, podia desatar o vínculo entre a alma e o corpo e separá-los sem praticar violência contra si mesmo.

Como assumira voluntariamente um corpo, podia voluntariamente entregá-lo; isso se viu quando clamou em alta voz e entregou o espírito.

(2.) Tinha autoridade para isso, exousian. Ainda que pudéssemos encontrar instrumentos cruéis para pôr fim à própria vida, Id possumus quod jure possumus — só podemos fazer aquilo que temos o direito de fazer.

Não temos liberdade para isso; mas Cristo tinha autoridade soberana para dispor da própria vida como quisesse. Não era devedor, como nós, nem da vida nem da morte; era perfeitamente sui juris.

  1. Tinha poder para retomá-la; nós não temos. Uma vez entregue, nossa vida é como água derramada no chão; mas, quando Cristo deu a vida, continuou a tê-la ao alcance e à sua disposição, podendo retomá-la.

Ao entregá-la voluntariamente, podia limitar a entrega como quisesse; e o fez com poder para revogá-la, o que era necessário para preservar os objetivos dessa entrega.

2º. Veja aqui a graça de Cristo: como ninguém podia exigir legalmente sua vida nem arrancá-la à força, ele a entregou por vontade própria, para nossa redenção.

Ofereceu-se para ser o Salvador: “Eis que venho.” Então, como nossa condição exigia, ofereceu-se em sacrifício: “Aqui estou eu; deixai estes seguir seu caminho”. “Por essa vontade somos santificados” (Hebreus 10:10).

Ele foi tanto quem ofereceu como a oferta; assim, ao entregar sua vida, ofereceu a si mesmo.

Versículos 19 a 21

Opiniões a Respeito de Cristo.

Temos aqui um relato das diferentes opiniões do povo sobre Cristo, por ocasião do discurso anterior. Houve entre eles uma divisão, um cisma; divergiram em suas opiniões, e isso inflamou os ânimos e formou partidos.

Já haviam estado em semelhante agitação (João 7:43; 9:16); e, onde uma vez houve divisão, ela volta a ocorrer. Rupturas surgem mais depressa do que são reparadas ou remendadas.

As palavras de Cristo ocasionaram essa divisão. Era de esperar que elas antes reunissem todos nele, como seu centro; mas os puseram em desacordo, como Cristo predissera (Lucas 12:51).

Mas é melhor que os homens estejam divididos quanto à doutrina de Cristo do que unidos no serviço do pecado (Lucas 11:21). Veja em particular qual foi o debate.

I. Nessa ocasião, alguns falaram mal de Cristo e de suas palavras, seja abertamente perante a assembleia, pois seus inimigos eram muito atrevidos, seja em particular entre si. Disseram: “Tem demônio e está louco; por que o ouvis?”

  1. Lançam descrédito sobre ele como endemoninhado. A pior das acusações é lançada sobre o melhor dos homens. Ele tem a mente transtornada, desvaria e delira, e não merece mais atenção que os devaneios de um homem num manicômio.

Assim, ainda hoje, se alguém prega com seriedade e insistência sobre o outro mundo, dirão que fala como um fanático; atribuirão sua conduta à fantasia, a um cérebro febril e a uma imaginação perturbada.

  1. Ridicularizam seus ouvintes: “Por que o ouvis? Por que o animais a tal ponto que dais atenção ao que ele diz?” Repare: Satanás arruína muitos, fazendo-os perder o apreço pela palavra e pelas ordenanças e apresentando a participação nelas como algo fraco e tolo.

Os homens não deixariam que risos os privassem do alimento de que precisam; contudo, permitem que a zombaria os afaste do que é ainda mais necessário. Os que ouvem Cristo e misturam fé ao que ouvem logo saberão explicar bem por que o ouvem.

II. Outros se levantaram em defesa dele e de seu discurso. Embora a corrente fosse forte, ousaram nadar contra ela; e, embora talvez não cressem nele como o Messias, não suportavam ouvi-lo ser assim injuriado.

Se nada mais pudessem dizer em seu favor, fariam questão de sustentar que era um homem em pleno juízo, que não tinha demônio e não era nem irrefletido nem destituído de graça.

As manifestações de descrédito absurdas e inteiramente infundadas que às vezes se lançam sobre Cristo e seu evangelho levaram pessoas que, de outro modo, não tinham grande afeição nem por ele nem pelo evangelho a sair em defesa de ambos.

Alegam duas coisas: 1. A excelência de sua doutrina: “Estas não são palavras de quem tem demônio; não são palavras vãs. Os que têm a mente transtornada não costumam falar dessa maneira. Estas não são palavras de alguém violentamente possuído por um demônio ou voluntariamente aliado ao diabo.”

Se o cristianismo não é a verdadeira religião, certamente é o maior embuste já imposto ao mundo; e, se for assim, deve vir do diabo, pai de todas as mentiras.

Mas é certo que a doutrina de Cristo não é doutrina de demônios, pois combate diretamente o reino do diabo; Satanás é astuto demais para se dividir contra si mesmo.

Há tanta santidade nas palavras de Cristo que podemos concluir que não são palavras de quem tem demônio e, portanto, são palavras de alguém enviado por Deus. Não vêm do inferno e, por isso, devem vir do céu.

  1. O poder de seus milagres: pode um demônio, isto é, um homem que tem demônio, abrir os olhos dos cegos? Nem loucos nem homens maus podem operar milagres.

Os demônios não são senhores das forças da natureza a ponto de poderem realizar tais milagres, nem são tão amigos da humanidade que queiram realizá-los, mesmo que pudessem.

O diabo antes tirará a visão dos homens do que lhes abrirá os olhos. Portanto, Jesus não tinha demônio.

Versículos 22 a 38

O Colóquio de Cristo com os Judeus.

Temos aqui outro encontro entre Cristo e os judeus no templo; é difícil dizer o que é mais estranho: as palavras graciosas que saíram de sua boca ou as palavras maldosas que saíram da boca deles.

I. Temos aqui a ocasião desse colóquio: era a Festa da Dedicação, e era inverno. Era uma festa observada anualmente por anuência, em memória da dedicação de um novo altar e da purificação do templo por Judas Macabeu, depois que o templo fora profanado e o altar, maculado.

Encontramos o relato completo na história dos Macabeus (1 Macabeus 4) e a profecia a respeito em Daniel 8:13, 14. Veja mais sobre a festa em 2 Macabeus 1:18.

O retorno da liberdade foi para eles como vida dentre os mortos. Para recordá-lo, celebravam uma festa anual no dia 25 do mês de Quisleu, cerca do começo de dezembro, e nos sete dias seguintes.

A celebração não se limitava a Jerusalém, como a das festas divinas; cada um a observava em seu próprio lugar, não como tempo santo — somente uma instituição divina pode santificar um dia —, mas como ocasião festiva, como os dias de Purim (Ester 9:19).

Cristo planejou estar agora em Jerusalém, não para honrar a festa, que não exigia sua presença ali, mas para aproveitar aqueles oito dias de folga para bons propósitos.

II. O lugar onde aconteceu (v. 23): “Jesus andava no templo, no pórtico de Salomão”, assim chamado (Atos 3:11), não por ter sido construído por Salomão, mas por ter sido construído no mesmo lugar que aquele que havia levado seu nome no primeiro templo; o nome foi conservado para dar-lhe maior reputação.

Ali Cristo andava para observar os procedimentos do grande sinédrio, que ali se sentava (Salmos 82:1). Andava pronto a dar audiência a qualquer um que se dirigisse a ele e a lhe oferecer seus serviços.

Ao que parece, andou sozinho por algum tempo, como alguém negligenciado; andava pensativo, prevendo a ruína do templo. Os que têm alguma coisa a dizer a Cristo podem encontrá-lo no templo e caminhar com ele ali.

III. O próprio colóquio, no qual observe:

  1. Uma pergunta de peso que lhe foi feita pelos judeus (v. 24). Cercaram-no para provocá-lo. Ele aguardava uma oportunidade de lhes fazer uma bondade, e eles aproveitaram a oportunidade para lhe causar um dano.

Má vontade em troca de boa vontade não é uma retribuição rara e incomum. Ele não podia estar em paz, não, nem mesmo no templo, a casa de seu Pai, sem ser perturbado.

Eles o cercaram como se o sitiassem, rodeando-o como abelhas. Vieram como se tivessem um desejo conjunto e unânime de ser esclarecidos; vieram como um só homem, alegando investigar a verdade com imparcialidade e insistência, mas tinham a intenção de um ataque geral contra nosso Senhor Jesus.

E pareciam expressar o pensamento de sua nação, como se fossem a boca de todos os judeus: “Até quando nos fazes duvidar? Se tu és o Cristo, dize-nos”.

(1.) Entram em desavença com ele, como se ele os tivesse mantido injustamente em suspense até então. Ten psychen hemon aireis — Até quando você rouba nossos corações? Ou tira nossas almas? Alguns entendem assim.

Insinuam vilmente que a parcela de amor e respeito do povo que ele tinha não a obtivera de modo justo, mas por meios indiretos, como Absalão roubou os corações dos homens de Israel; e como os sedutores enganam os corações dos simples e assim arrastam discípulos atrás de si (Romanos 16:18; Atos 20:30).

Mas a maioria dos intérpretes entende a frase como nós: “Até quando você nos mantém em suspense? Até quando somos mantidos discutindo se você é o Cristo ou não, sem conseguir resolver a questão?”

Ora, [1.] isso era resultado da incredulidade e dos fortes preconceitos deles: depois que nosso Senhor Jesus provara tão plenamente ser o Cristo, ainda estavam em dúvida a respeito disso.

Hesitavam voluntariamente, quando poderiam facilmente ter sido esclarecidos. Havia um conflito entre suas convicções, que lhes diziam que ele era o Cristo, e suas corrupções, que diziam: Não: porque ele não era o tipo de Cristo que esperavam.

Os que escolhem ser céticos podem, se quiserem, manter a balança de modo que as razões mais convincentes não pesem mais do que as objeções mais insignificantes, mas os pratos podem continuamente permanecer equilibrados.

[2.] Era uma demonstração de insolência e presunção culparem o próprio Cristo por sua dúvida, como se ele os fizesse duvidar por ser incoerente consigo mesmo; na verdade, eles próprios se faziam duvidar ao alimentar seus preconceitos.

Se as palavras da Sabedoria parecem duvidosas, a falha não está no objeto, mas no olho; todas são claras para quem entende. Cristo quer nos fazer crer; nós mesmos nos levamos a duvidar.

(2.) Desafiam-no a dar uma resposta direta e categórica sobre ser ou não o Messias: Se você é o Cristo, como muitos creem que você é, diga-nos claramente, não por parábolas, como Eu sou a luz do mundo e o bom Pastor e coisas semelhantes, mas totidem verbis — com tantas palavras: ou que você é o Cristo ou, como João Batista, que você não é (João 1:20).

Essa insistente pergunta parecia boa: alegavam desejar conhecer a verdade, como se estivessem prontos a aceitá-la. Mas era realmente má e feita com mau desígnio.

Se ele lhes dissesse claramente que era o Cristo, nada mais seria necessário para torná-lo exposto ao ciúme e à severidade do governo romano. Todos sabiam que o Messias devia ser rei; portanto, qualquer um que alegasse ser o Messias seria processado como traidor — era isso que queriam.

Por mais claramente que lhes dissesse ser o Cristo, teriam imediatamente isto a dizer: “Tu dás testemunho de ti mesmo”, como haviam dito (João 8:13).

  1. A resposta de Cristo a essa pergunta, na qual:

(1.) Ele se justifica, mostrando que não é de modo algum cúmplice da incredulidade e do ceticismo deles, e os remete: [1.] Ao que lhes dissera: Eu lhes disse. Contara-lhes que era o Filho de Deus, o Filho do Homem, que tinha vida em si mesmo, que tinha autoridade para executar juízo, etc.

E não é este, então, o Cristo? Ele lhes dissera essas coisas, e eles não creram. Por que então essas coisas lhes seriam ditas outra vez, apenas para satisfazer sua curiosidade? “Vós não crestes”. Alegavam apenas ter dúvidas, mas Cristo lhes diz que não creram.

O ceticismo religioso não é melhor do que a incredulidade pura e simples. Não cabe a nós ensinar a Deus como deve nos ensinar nem prescrever com que clareza deve nos dizer seu pensamento, mas ser agradecidos pela revelação divina tal como a temos.

Se não cremos nisso, tampouco seríamos persuadidos, por mais que a revelação se ajustasse aos nossos caprichos.

[2.] Ele os remete às suas obras e ao exemplo de sua vida, não só perfeitamente pura, mas altamente beneficente e coerente com sua doutrina; e especialmente aos seus milagres, que realizou para a confirmação de sua doutrina.

Era certo que ninguém poderia realizar aqueles milagres a menos que Deus estivesse com ele; e Deus não estaria com ele para atestar uma falsificação.

(2.) Ele os condena por sua incredulidade obstinada, apesar de todas as razões mais claras e poderosas empregadas para convencê-los: “Vós não crestes”; e, novamente, “vós não crestes”. Vocês continuam sendo o que sempre foram, obstinados em sua incredulidade.

Mas o motivo que apresenta é muito surpreendente: Vocês não creram porque não são das minhas ovelhas; não creem em mim porque não me pertencem.

[1.] Vocês não têm disposição para ser meus seguidores, não têm uma índole dócil e ensinável, não têm inclinação para receber a doutrina e a lei do Messias; vocês não se agruparão com minhas ovelhas, não virão e verão, não virão e ouvirão minha voz.

Antipatias arraigadas contra o evangelho de Cristo são amarras de iniquidade e incredulidade.

[2.] Vocês não são destinados a ser meus seguidores; não são daqueles que me foram dados por meu Pai para serem trazidos à graça e à glória. Não são do número dos eleitos; e sua incredulidade, se vocês persistirem nela, será uma evidência certa de que não são.

Repare: aqueles a quem Deus nunca concede a graça da fé nunca foram destinados ao céu e à felicidade. O que Salomão diz da imoralidade é verdade sobre a incredulidade: É uma cova profunda, e aquele que é abominado pelo Senhor cairá nela (Provérbios 22:14).

Non esse electum, non est causa incredulitatis propriè dicta, sed causa per accidens. Fides autem est donum Dei et effectus prædestinationis — não estar entre os eleitos não é a causa propriamente dita da incredulidade, mas apenas sua causa acidental. Mas a fé é o dom de Deus e o efeito da predestinação. Assim Jansênio faz aqui uma boa distinção.

(3.) Ele aproveita a ocasião para descrever tanto a disposição graciosa quanto a condição feliz dos que são suas ovelhas; pois há tais pessoas, embora eles não sejam.

[1.] Para convencê-los de que não eram suas ovelhas, lhes diz quais eram as características de suas ovelhas. Primeiro, ouvem sua voz (v. 27), pois sabem que é dele (v. 4); e ele assumiu o compromisso de que a ouvirão (v. 16).

Discernem-na: É a voz do meu amado (Cantares de Salomão 2:8). Sentem prazer nela, estão em seu elemento quando estão sentadas a seus pés para ouvir sua palavra.

Agem de acordo com ela e fazem da palavra de Cristo sua regra. Cristo não considerará suas ovelhas aqueles que são surdos aos seus chamados e aos seus encantos (Salmos 58:5).

Segundo, seguem-no. Submetem-se à sua orientação por uma obediência voluntária a todos os seus mandamentos e uma alegre conformidade com seu espírito e modelo.

A palavra de ordem sempre foi: “Segue-me.” Devemos tê-lo diante dos olhos como nosso líder e capitão, seguir seus passos e andar como ele andou.

Seguir as prescrições de sua palavra, as indicações de sua providência e as orientações de seu Espírito; seguir o Cordeiro (o dux gregis — o líder do rebanho), aonde quer que vá. É inútil ouvir sua voz se não o seguimos.

[2.] Para convencê-los de que não pertencer às ovelhas de Cristo era sua grande infelicidade e miséria, ele descreve aqui o estado e a situação abençoados daqueles que lhe pertencem.

Isso também serviria de sustento e consolo a seus pobres seguidores desprezados, impedindo-os de invejar o poder e a grandeza dos que não eram suas ovelhas.

Primeiro, nosso Senhor Jesus toma conhecimento de suas ovelhas: Elas ouvem minha voz, e eu as conheço. Distingue-as das demais (2 Timóteo 2:19) e tem consideração especial por cada uma (Salmos 34:6).

Conhece suas carências e desejos, conhece suas almas na adversidade, onde encontrá-las e o que fazer em favor delas. Conhece os outros de longe, mas suas ovelhas, de perto.

Segundo, providenciou uma felicidade para elas, adequada a elas: “Dou-lhes a vida eterna” (v. 28). 1. O patrimônio estabelecido em favor delas é rico e valioso: é vida, vida eterna.

O homem tem alma vivente; por isso, a felicidade providenciada é vida, adequada à sua natureza. O homem tem alma imortal; por isso, a felicidade providenciada é vida eterna, que corre paralela à sua duração.

A vida eterna é a ventura e o bem supremo de uma alma imortal.

  1. A maneira de transmiti-la é gratuita: Eu a dou a elas; não é negociada e vendida mediante contraprestação de valor, mas dada pela graça gratuita de Jesus Cristo.

O doador tem poder para dá-la. Aquele que é a fonte da vida e o Pai da eternidade autorizou Cristo a dar a vida eterna (João 17:2).

Não Eu a darei, mas Eu de fato a dou; é um dom presente. Ele dá a certeza dela, seu penhor e sinal, suas primícias e antecipações, aquela vida espiritual que é a vida eterna iniciada, o céu na semente, no broto, no embrião.

Terceiro, ele assumiu o compromisso de garantir sua segurança e preservá-las até essa felicidade:

a. Serão salvas da perdição eterna. De modo algum perecerão para sempre; assim são as palavras. Assim como há vida eterna, também há destruição eterna: a alma não é aniquilada, mas arruinada; sua existência continua, mas seu consolo e sua felicidade se perdem irremediavelmente.

Todos os crentes são salvos disso. Qualquer cruz que tenham de suportar, não entrarão em condenação. Um homem nunca está arruinado até estar no inferno, e eles não descerão até ele.

Pastores com rebanhos grandes muitas vezes perdem algumas ovelhas e permitem que pereçam; Cristo, porém, assumiu o compromisso de que nenhuma de suas ovelhas perecerá, nem uma só.

b. Elas não podem ser impedidas de alcançar sua felicidade eterna; ela está reservada, mas aquele que a dá a elas as preservará até ela.

(a.) O próprio poder de Cristo está empenhado em favor delas: “Nem homem algum as arrebatará da minha mão”. Supõe-se aqui uma grande disputa por essas ovelhas.

O Pastor cuida tanto do bem-estar delas que as mantém não só dentro do aprisco e sob seus olhos, mas em sua mão, participando de seu amor especial e tomadas sob sua proteção especial (“Todos os seus santos estão em tua mão”, Deuteronômio 33:3).

Mesmo assim, seus inimigos são tão audaciosos que tentam arrebatá-las da mão daquele a quem pertencem e sob cujo zelo estão; mas não podem, não o farão.

Repare: estão seguros os que se encontram nas mãos do Senhor Jesus. Os santos são preservados em Cristo Jesus; sua salvação não está sob a guarda deles próprios, mas sob a guarda de um Mediador.

Os fariseus e governantes fizeram tudo o que puderam para amedrontar os discípulos de Cristo e afastá-los de segui-lo, censurando-os e ameaçando-os; mas Cristo diz que não conseguirão o intento.

(b.) O poder do Pai também está empenhado em preservá-las (v. 29). Cristo agora aparecia em fraqueza e, para que sua segurança não fosse por isso considerada insuficiente, apresenta seu Pai como uma garantia ulterior.

Observe: [a.] O poder do Pai: “Meu Pai é maior do que todos.” Maior do que todos os outros amigos da igreja, todos os outros pastores, magistrados ou ministros, e capaz de fazer em favor deles o que eles não podem fazer.

Esses pastores cochilam e dormem, e será fácil arrebatar as ovelhas de suas mãos; mas o Pai guarda seu rebanho dia e noite.

Ele é maior do que todos os inimigos da igreja e do que toda oposição aos seus interesses; é capaz de proteger os seus contra todos os insultos deles; é maior do que toda a força combinada do inferno e da terra.

É mais sábio do que a antiga serpente, embora ela seja conhecida por sua astúcia; mais forte do que o grande dragão vermelho, embora seu nome seja legião e seu título, principados e potestades.

O diabo e seus anjos tiveram muitas investidas, muitas tentativas de arrebatar o domínio, mas nunca conseguiram o intento até agora (Apocalipse 12:7, 8). O Senhor nas alturas é mais poderoso.

[b.] O interesse do Pai pelas ovelhas, pelo qual seu poder se empenha em favor delas: Meu Pai foi quem as deu a mim, e está comprometido por honra a sustentar seu dom.

Elas foram dadas ao Filho como um depósito a ser administrado por ele; por isso, Deus continuará cuidando delas. Todo o poder divino está empenhado em cumprir todos os conselhos divinos.

[c.] A segurança dos santos decorre dessas duas verdades. Se assim é, ninguém — nem homem nem diabo — pode arrebatá-los da mão do Pai, privá-los da graça que têm ou impedi-los de alcançar a glória que lhes está destinada.

Ninguém pode tirá-los da proteção de Deus nem colocá-los sob o poder desses inimigos. O próprio Cristo experimentou o poder do Pai, que o sustentava e fortalecia; por isso, também coloca todos os seus seguidores em suas mãos.

Aquele que garantiu a glória do Redentor garantirá a glória dos redimidos.

Para corroborar ainda mais essa segurança, a fim de que as ovelhas de Cristo tenham forte consolação, ele afirma a união desses dois responsáveis pelo compromisso: “Eu e meu Pai somos um”, e conjunta e individualmente assumimos o compromisso pela proteção dos santos e sua perfeição.

Isso significa mais do que a harmonia, a anuência e o bom entendimento que havia entre o Pai e o Filho na obra da redenção humana.

Todo homem bom é um com Deus na medida em que concorda com ele; portanto, aqui se deve entender a unidade de natureza entre o Pai e o Filho: são da mesma substância e iguais em poder e glória.

Os pais usaram essa passagem contra os sabelianos, para provar a distinção e pluralidade das pessoas — o Pai e o Filho são dois —, e contra os arianos, para provar a unidade da natureza — esses dois são um.

Se nos calássemos por completo a respeito desse sentido das palavras, até as pedras que os judeus pegaram para atirar contra ele o proclamariam; pois os judeus entenderam que, com isso, ele se fazia Deus (v. 33), e ele não o negou.

Ele prova que ninguém poderia arrebatá-las de sua mão porque não poderiam arrebatá-las da mão do Pai. Essa razão não teria sido conclusiva se o Filho não tivesse tido o mesmo poder onipotente do Pai e, consequentemente, sido um com ele em essência e operação.

IV. A fúria e a violência dos judeus contra Cristo por causa desse discurso: “Os judeus pegaram pedras outra vez” (v. 31). Não se usa aqui a mesma palavra de antes (João 8:59), mas ebastasan lithous — carregaram pedras —, pedras grandes, pesadas, como as que usavam para apedrejar malfeitores.

Trouxeram-nas de algum lugar distante, como se preparassem sua execução sem qualquer processo judicial; agiam como se ele já estivesse condenado por blasfêmia, diante de provas notórias que dispensavam qualquer outro julgamento.

O absurdo dessa afronta dos judeus contra Cristo ficará claro se considerarmos: 1. Que eles o haviam desafiado com arrogância, para não dizer insolência, a declarar claramente se era ou não o Cristo.

Agora, porém, quando não só diz que é o Cristo, mas prova que o é, condenam-no como malfeitor. Se os pregadores da verdade a apresentam com modéstia, são chamados de covardes; se a apresentam com ousadia, de insolentes. Mas a Sabedoria é justificada por seus filhos.

  1. Que, quando antes haviam tentado algo semelhante, foi em vão: Cristo escapou do meio deles (João 8:59); mesmo assim, repetem a tentativa frustrada.

Pecadores audaciosos atiram pedras contra o céu, embora elas voltem sobre a própria cabeça; fortalecem-se contra o Todo-Poderoso, embora ninguém jamais tenha se endurecido contra ele e prosperado.

V. A terna contestação de Cristo diante dessa violência (v. 32). Jesus respondeu ao que faziam, pois não lemos que tenham dito algo, a menos que talvez incitassem a multidão reunida ao redor dele a juntar-se a eles, gritando: “Apedreja-o! Apedreja-o!”, como fariam depois: “Crucifica-o! Crucifica-o!”

Quando poderia ter respondido com fogo do céu, ele replicou mansamente: “Muitas boas obras vos tenho mostrado da parte de meu Pai; por qual dessas obras me apedrejais?” São palavras tão ternas que se poderia pensar que derreteriam um coração de pedra.

Ao lidar com seus inimigos, Cristo continuava argumentando com base em suas obras — as pessoas mostram quem são pelo que fazem —, suas boas obras, kala erga: obras excelentes, notáveis. Opera eximia vel præclara; a expressão significa tanto obras grandiosas como boas obras.

  1. O poder divino de suas obras os declarava culpados da incredulidade mais obstinada. Eram obras de seu Pai, tão acima do alcance e do curso da natureza que provavam que aquele que as realizava fora enviado por Deus e agia com autorização dele.

Cristo lhes mostrara essas obras: realizara-as abertamente diante do povo, não num canto. Elas suportariam o exame e podiam ser submetidas ao testemunho dos espectadores mais atentos e imparciais.

Não as realizou à luz de velas, como fazem os que só se preocupam com a aparência; mostrou-as em pleno dia, diante do mundo (João 18:20). Veja Salmos 111:6. Suas obras demonstravam de modo tão irrefutável a validade de sua comissão que eram uma prova incontestável dela.

  1. A graça divina manifesta em suas obras os declarava culpados da mais vil ingratidão. O que fazia entre eles não eram apenas milagres, mas atos de misericórdia; não apenas obras admiráveis para espantá-los, mas obras de amor e bondade para lhes fazer bem e torná-los bons, conquistando-lhes o afeto.

Curou enfermos, limpou leprosos e expulsou demônios. Eram benefícios não só para os envolvidos, mas também para o povo; ele os repetira e multiplicara.

Então, por qual dessas obras o apedrejavam? Não podiam dizer que ele lhes causara prejuízo ou lhes dera motivo justo para se ofenderem. Se queriam criar desavença com ele, teria de ser por alguma boa obra, por algum benefício que lhes fizera; caberia a eles dizer qual.

Repare: (1.) A horrível ingratidão de nossos pecados contra Deus e Jesus Cristo os agrava muito e os torna extremamente pecaminosos. Veja como Deus argumenta nesse sentido (Deuteronômio 32:6; Jeremias 2:5; Miquéias 6:3).

(2.) Não devemos estranhar encontrar pessoas que não só nos odeiam sem motivo, mas se tornam nossas adversárias por causa do amor que lhes demonstramos (Salmos 35:12; Salmos 41:9).

Ao perguntar: “Por qual dessas obras me apedrejais?”, Cristo demonstra a profunda satisfação que tinha com sua própria inocência, que dá coragem a alguém no dia do sofrimento.

Também leva seus perseguidores a pensar no verdadeiro motivo de sua inimizade e a perguntar, como devem fazer todos os que causam problemas ao próximo: “Por que o perseguimos?”, como Jó aconselha seus amigos a fazerem (Jó 19:28).

VI. A justificativa que dão pela tentativa contra Cristo e o motivo em que fundamentam sua acusação (v. 33). Que pecado não encontrará folhas de figueira para se cobrir, se até os perseguidores sanguinários do Filho de Deus encontram algo a dizer em sua defesa?

  1. Não queriam parecer inimigos de seu país a ponto de persegui-lo por uma boa obra: “Não é por uma boa obra que te apedrejamos.” De fato, mal admitiam que alguma de suas obras fosse boa.

A cura do homem enfermo (João 5) e a do cego (João 9) estavam longe de ser reconhecidas como bons serviços à cidade e dignas de reconhecimento; foram incluídas entre seus crimes porque ocorreram no sábado.

Mas, mesmo que tivesse feito alguma boa obra, não admitiriam que o apedrejavam por isso, embora fossem justamente essas obras que mais os exasperavam (João 11:47). Assim, por mais absurdo que fosse, não admitiam suas próprias absurdidades.

  1. Queriam parecer tão zelosos por Deus e por sua glória a ponto de processá-lo por blasfêmia: “Porque tu, sendo homem, te fazes Deus.” Aqui temos:

(1.) Um alegado zelo pela lei. Parecem muito preocupados com a honra da majestade divina e tomados de horror religioso diante daquilo que imaginavam lançar descrédito sobre ela.

Um blasfemo devia ser apedrejado (Levítico 24:16). Pensavam que essa lei não só justificava, mas também santificava a tentativa deles, como em Atos 26:9.

Repare: muitas vezes, as práticas mais vis são disfarçadas com alegações plausíveis. Nada é tão corajoso quanto uma consciência bem instruída, e nada é tão violento quanto uma consciência enganada. Veja Isaías 66:5; João 16:2.

(2.) Havia verdadeira inimizade contra o evangelho, e não podiam afrontá-lo mais do que apresentando Cristo como blasfemo. Não é novidade que aqueles que decidem tratar os melhores homens da pior maneira lhes atribuam o pior caráter.

[1.] O crime que lhe imputavam era blasfêmia: falar de Deus com descrédito e malícia. O próprio Deus está fora do alcance do pecador e não pode receber qualquer injúria real; por isso, a inimizade contra Deus cospe seu veneno sobre o nome dele e assim demonstra sua má vontade.

[2.] A prova do crime: “Tu, sendo homem, te fazes Deus.” Assim como a glória de Deus é ser Deus — glória que lhe roubamos quando o fazemos inteiramente semelhante a nós —, também é sua glória não haver outro além dele; roubamos essa glória quando fazemos a nós mesmos ou a qualquer criatura inteiramente semelhantes a ele.

Ora, Primeiro, até aí eles tinham razão: o que Cristo dissera de si mesmo equivalia a afirmar que era Deus, pois dissera ser um com o Pai e que daria vida eterna. Cristo não nega isso; teria negado se a conclusão deles fosse um equívoco decorrente de suas palavras.

Mas, Segundo, erravam muito ao considerá-lo um simples homem e entender que a divindade que reivindicava era uma usurpação, uma pretensão inventada por ele.

Achavam absurdo e ímpio que alguém como ele, que parecia um homem pobre, de condição baixa e desprezível, se declarasse o Messias e reivindicasse as honras que reconheciam ser devidas ao Filho de Deus.

Repare: 1. Os que dizem que Jesus é um simples homem e apenas um deus feito, como dizem os socinianos, na prática o acusam de blasfêmia, mas acabam provando a acusação contra si mesmos.

  1. Quem, sendo homem pecador, faz de si um deus — como o papa, que reivindica poderes e prerrogativas divinos — é sem dúvida blasfemo e anticristo.

VII. A resposta de Cristo à acusação deles — pois nisso consistia a justificativa que apresentaram — e a defesa das reivindicações que lhe atribuíam como blasfemas (v. 34, etc.). Ele prova, com duas razões, que não é blasfemo:

  1. Por uma razão tirada da palavra de Deus. Apela ao que estava escrito na lei deles, isto é, no Antigo Testamento; quem se opõe a Cristo certamente encontra as Escrituras contra si.

Está escrito (Salmos 82:6): “Eu disse: vós sois deuses.” É uma razão a minore ad majus — do menor para o maior. Se eles eram deuses, muito mais eu. Observe:

(1.) Como explica o texto (v. 35): chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida, e a Escritura não pode ser anulada. A palavra da comissão de Deus lhes foi dada, designando-os para seus cargos de juízes; por isso são chamados deuses (Êxodo 22:28).

A alguns a palavra de Deus veio sem mediação, como a Moisés; a outros, por meio de uma ordenança instituída. O governo civil é instituição divina; os magistrados são delegados de Deus e, por isso, as Escrituras os chamam deuses.

Temos certeza de que a Escritura não pode ser anulada, violada ou censurada. Toda palavra de Deus é correta; nem o estilo nem a linguagem das Escrituras podem ser contestados ou corrigidos (Mateus 5:18).

(2.) Como aplica o texto. Em termos gerais, é fácil concluir que eram muito precipitados e irracionais ao condenar Cristo como blasfemo apenas por se chamar Filho de Deus, quando eles mesmos chamavam assim seus governantes e tinham respaldo das Escrituras.

Mas a razão vai além (v. 36): se aqueles magistrados foram chamados deuses por terem sido comissionados para administrar a justiça na nação, como podem dizer daquele que o Pai santificou e enviou ao mundo que blasfema?

Temos aqui duas coisas a respeito do Senhor Jesus: [1.] A honra que o Pai lhe concedeu e da qual ele legitimamente se gloria: ele o santificou e o enviou ao mundo.

Os magistrados eram chamados filhos de Deus, embora apenas recebessem a palavra de Deus e o espírito de governo lhes fosse dado em certa medida, como a Saul. Mas nosso Senhor Jesus era a própria Palavra e tinha o Espírito sem medida.

Os magistrados eram constituídos para um país, cidade ou nação em particular; ele foi enviado ao mundo, revestido de autoridade universal, como Senhor de todos.

A palavra era enviada a eles, como a pessoas distantes; ele, porém, foi enviado para fora, pois desde a eternidade estava com Deus. O Pai o santificou, isto é, designou-o e separou-o para o ofício de Mediador, qualificando-o e preparando-o para esse ofício.

Santificá-lo equivale a selá-lo (João 6:27). Repare: a quem o Pai envia, ele santifica; aqueles que destina em seus desígnios a propósitos santos, prepara com princípios e disposições santos.

O Deus santo só recompensará aqueles que encontra santos ou torna santos e, por isso, só a eles empregará. O Pai tê-lo santificado e enviado era garantia suficiente para que se chamasse Filho de Deus; porque era um ente santo, foi chamado Filho de Deus (Lucas 1:35). Veja Romanos 1:4.

[2.] A desonra que os judeus lhe fizeram, da qual ele com razão se queixa: disseram impiamente que aquele a quem o Pai assim honrara era blasfemo por se chamar Filho de Deus.

“Dizeis isso a respeito dele? Ousais dizê-lo? Ousais falar assim contra os céus? Tendes ousadia e cara de pau suficientes para dizer ao Deus da verdade que mente ou para condenar aquele que é justíssimo? Olhai-me nos olhos e dizei-o, se puderdes. O quê? Dizeis que o Filho de Deus é blasfemo?”

Se os demônios, que ele veio condenar, tivessem dito isso dele, não seria tão surpreendente; mas que os homens, a quem veio ensinar e salvar, falem assim dele: espantem-se com isso, ó céus!

Veja a linguagem da incredulidade obstinada: na prática, ela chama o santo Jesus de blasfemo. É difícil dizer o que mais causa espanto: homens que respiram o ar de Deus falarem tais coisas ou homens que as disseram ainda serem deixados respirando o ar de Deus.

A maldade do homem e a paciência de Deus, por assim dizer, contendem para ver qual é mais admirável.

  1. Por uma razão tirada de suas próprias obras (v. 37, 38). Antes, respondera à acusação de blasfêmia apenas com uma razão ad hominem — voltando contra alguém a razão que ele próprio usara. Agora sustenta suas reivindicações e prova que ele e o Pai são um (v. 37, 38): “Se não faço as obras de meu Pai, não creiais em mim.”

Embora pudesse, com razão, ter abandonado como incuráveis aqueles miseráveis blasfemos, dignou-se a argumentar com eles. Observe:

(1.) A partir de que argumenta: de suas obras, que muitas vezes apresentara como credenciais e provas de sua missão. Assim como provou ser enviado de Deus pela divindade de suas obras, também devemos provar que estamos unidos a Cristo pelo caráter cristão de nossas obras.

[1.] A razão é muito convincente: as obras que realizava eram obras de seu Pai, que somente o Pai podia fazer e que não poderiam ocorrer pelo curso comum da natureza, mas apenas pelo poder soberano do Deus da natureza, que se sobrepõe a ela.

Opera Deo propria — obras próprias de Deus — e Opera Deo digna — obras dignas de Deus: obras de poder divino.

Aquele que pode dispensar as leis da natureza, revogá-las, alterá-las e sobrepor-se a elas como quer, por seu próprio poder, certamente é o príncipe soberano que primeiro instituiu e estabeleceu essas leis.

Os milagres que os apóstolos realizaram em nome de Cristo, por seu poder e para confirmar sua doutrina, reforçaram essa razão e continuaram a comprová-lo depois que ele partiu.

[2.] A razão é apresentada com toda a justiça que se poderia desejar e reduzido a uma questão breve. Primeiro: “Se não faço as obras de meu Pai, não creiais em mim.”

Cristo não exige fé cega e implícita, nem que aceitem sua missão divina além das provas que apresentou. Não procurou conquistar o afeto das pessoas nem persuadi-las com insinuações dissimuladas; tampouco iludiu a credulidade delas com afirmações ousadas.

Com a maior franqueza possível, não lhes exigiu fé além das garantias que oferecia. Cristo não é um senhor severo que espera colher assentimento onde não semeou razões.

Ninguém perecerá por não crer naquilo que não lhe foi apresentado com motivos suficientes para ser considerado verdadeiro; assim o julga a própria Sabedoria infinita.

Segundo, se ele faz as obras de seu Pai, se realiza milagres incontestáveis para confirmar uma doutrina santa, ainda que não creiam nele e sejam tão escrupulosos que não aceitem sua palavra, devem crer nas obras, nos próprios olhos e na própria razão; o fato fala por si com bastante clareza.

Assim como as coisas invisíveis do Criador são claramente vistas em suas obras de criação e na providência comum (Romanos 1:20), também as coisas invisíveis do Redentor foram vistas em seus milagres e em todas as suas obras de poder e misericórdia. Portanto, os que não foram convencidos por essas obras ficaram sem desculpa.

(2.) Para que argumenta: para que saibam e creiam, com entendimento e plena convicção, que o Pai está nele e ele no Pai; o mesmo que dissera antes (v. 30): “Eu e meu Pai somos um.”

O Pai estava no Filho de tal modo que nele habitava toda a plenitude da Divindade; e era pelo poder divino que ele realizava seus milagres.

O Filho estava no Pai de tal modo que conhecia perfeitamente todo o pensamento do Pai, não por comunicação, mas por consciência própria, pois repousara junto ao seio do Pai.

Devemos conhecer essa verdade; não conhecê-la e explicá-la — pois não podemos investigá-la até compreendê-la perfeitamente —, mas conhecê-la e crer nela, reconhecendo e adorando a profundidade cujo fundo não conseguimos alcançar.

Versículos 39 a 42

Cristo Se Retira para Além do Jordão.

Temos aqui o desfecho do colóquio com os judeus. Seria de esperar que ela os convencesse e comovesse, mas seus corações estavam endurecidos. Aqui se relata:

I. Como o atacaram à força. “Portanto, procuraram novamente prendê-lo” (v. 39). Portanto: 1. Porque ele havia respondido plenamente à acusação de blasfêmia e afastado essa imputação, de modo que, por vergonha, não podiam continuar tentando apedrejá-lo, maquinaram prendê-lo e processá-lo como criminoso contra o Estado.

Quando se viram obrigados a desistir da tentativa por meio de um tumulto popular, quiseram experimentar o que conseguiriam fazer sob aparência de um processo legal. Veja Apocalipse 12:13.

Ou: 2. Porque ele perseverava no mesmo testemunho a respeito de si, eles persistiam na maldade contra ele. Na prática, voltou a dizer o que dissera antes, pois a testemunha fiel nunca se afasta daquilo que já disse.

Por isso, diante da mesma provocação, manifestaram a mesma hostilidade e tentaram justificar a tentativa de apedrejá-lo com outra tentativa de prendê-lo.

Tal é o temperamento e a estratégia do espírito perseguidor: malè facta malè factis tegere ne perpluant — encobrir más ações com outras, para que as primeiras não fracassem.

II. Como ele lhes escapou pela fuga. Não foi uma retirada desonrosa, que revelasse alguma fraqueza humana, mas um afastamento glorioso, no qual havia muito do poder divino.

Ele escapou das mãos deles sem a intervenção de algum amigo que o ajudasse; por sua própria sabedoria, livrou-se deles. Cobriu-se com um véu, ou lançou uma névoa diante dos olhos deles, ou amarrou as mãos daqueles cujo coração não transformou.

Repare: nenhuma arma formada contra nosso Senhor Jesus prosperará (Salmos 2:4). Ele escapou, não porque temesse sofrer, mas porque sua hora ainda não havia chegado. E aquele que soube livrar a si mesmo sem dúvida sabe livrar os piedosos da tentação e abrir-lhes um caminho de escape.

III. Como se estabeleceu durante sua retirada: voltou para além do Jordão (v. 40). O bispo de nossas almas não veio para ficar fixo numa única sede episcopal, mas para ir de lugar em lugar fazendo o bem.

Esse grande benfeitor nunca estava fora de seu caminho, pois, aonde quer que chegasse, havia trabalho a fazer. Embora Jerusalém fosse a cidade real, ainda assim fez muitas visitas bondosas ao interior, não só à sua própria região, a Galileia, mas também a outras partes, até as mais distantes, além do Jordão. Agora observe:

  1. O abrigo que encontrou ali. Foi para uma parte isolada da região e lá permaneceu; ali encontrou algum descanso e sossego, que não podia encontrar em Jerusalém.

Repare: embora os perseguidores possam expulsar Cristo e seu evangelho da própria cidade ou região, não podem expulsá-los do mundo. Embora Jerusalém não tivesse sido reunida nem quisesse sê-lo, ainda assim Cristo era glorioso e continuaria a sê-lo.

A ida de Cristo para além do Jordão prefigurava a retirada do reino de Deus dos judeus e sua entrega aos gentios. Cristo e seu evangelho muitas vezes foram melhor recebidos pelas pessoas simples do campo do que pelos sábios, poderosos e nobres (1 Coríntios 1:26, 27).

  1. O sucesso que encontrou ali. Não foi para lá apenas em busca da própria segurança, mas para fazer o bem.

Escolheu ir ao lugar onde João batizara no princípio (João 1:28), pois certamente ainda restavam naquela região impressões do ministério e do batismo de João, que predisporiam o povo a receber Cristo e sua doutrina.

Afinal, ainda não se haviam passado três anos desde que João realizava batismos, e o próprio Cristo fora batizado ali, em Betábara. Cristo veio então ver que fruto restava de todo o trabalho que João Batista tivera entre eles e o que conservavam daquilo que haviam ouvido e recebido naquele tempo.

O desfecho correspondeu, em certa medida, à expectativa; pois nos é dito:

(1.) Que afluíram a ele (v. 41): “Muitos acorreram a ele.” O retorno dos meios da graça a um lugar, depois de algum tempo de interrupção, costuma despertar intensamente os afetos.

Alguns pensam que Cristo escolheu permanecer em Betábara, a casa da passagem, onde ficavam as balsas que atravessavam o Jordão.

A afluência de pessoas ao lugar lhe daria a oportunidade de ensinar muitos que viriam ouvi-lo por estar em seu caminho, mas que dificilmente dariam um passo fora da estrada para ouvir sua palavra.

(2.) Que argumentaram em favor dele e buscaram razões para se convencerem a unir-se a ele, tanto quanto os de Jerusalém buscavam objeções contra ele. Disseram com muito discernimento: “João não fez milagre algum; mas tudo quanto João disse deste homem era verdade.”

Ao recordar o que tinham visto e ouvido de João e compará-lo com o ministério de Cristo, consideraram duas coisas:

[1.] Que Cristo superava em muito o poder de João Batista, pois João não fez milagre algum, mas Jesus faz muitos. Daí é fácil concluir que Jesus é maior que João. E, se João era um profeta tão grande, quão grande é então esse Jesus!

Cristo é mais bem conhecido e reconhecido quando comparado com outros de modo a colocá-lo acima de todos eles. Embora João tenha vindo no espírito e poder de Elias, ainda assim não realizou milagres como Elias, para que o povo não hesitasse entre ele e Jesus.

Por isso, a honra de realizar milagres foi reservada a Jesus como uma flor de sua coroa. Assim haveria uma demonstração palpável e inegável de que, embora viesse depois de João, ainda assim fora posto muito à frente dele.

[2.] Que Cristo correspondia exatamente ao testemunho de João Batista. João não só não fez milagre algum que desviasse o povo de Cristo, mas também disse muitas coisas para conduzir as pessoas a Cristo e encaminhá-las a ele como aprendizes.

Agora eles se lembravam disso: tudo o que João dissera desse homem era verdade. Ele seria o Cordeiro de Deus e batizaria com o Espírito Santo e com fogo. João dissera grandes coisas a seu respeito, despertando-lhes a expectativa.

Assim, embora não tivessem zelo suficiente para ir à região de Cristo a fim de informar-se a seu respeito, ainda assim, quando ele veio à região deles e lhes trouxe o evangelho à porta, reconheceram que era tão grande quanto João havia dito.

Quando nos familiarizamos com Cristo e o conhecemos por experiência, descobrimos que tudo o que a Escritura diz a seu respeito é verdade; ou melhor, a realidade supera o relato (1 Reis 10:6, 7).

João Batista já havia morrido e partido, mas seus ouvintes se beneficiaram do que haviam ouvido antes. Comparando o que ouviram então com o que viam agora, obtiveram dupla vantagem:

Primeiro, foram confirmados na crença de que João era profeta: predissera tais coisas e falara da eminência que Jesus alcançaria, embora seu começo fosse tão modesto.

Segundo, ficaram preparados para crer que Jesus era o Cristo, pois nele viam cumprir-se as coisas que João predissera. Com isso vemos que o sucesso e a eficácia da palavra pregada não se limitam à vida do pregador nem expiram com seu último suspiro.

Aquilo que parecia água derramada no chão pode depois ser recolhido. Veja Zacarias 1:5, 6.

(3.) Que muitos creram nele ali. Crendo que aquele que realizava tais milagres e em quem se cumpriam as predições de João era quem afirmava ser, o Filho de Deus, entregaram-se a ele como discípulos (v. 42). Devemos pôr ênfase:

[1.] Nas pessoas que creram nele: eram muitas. Enquanto os que receberam e acolheram sua doutrina em Jerusalém eram como as poucas uvas que restam depois da vindima, os que creram nele no interior, além do Jordão, eram uma colheita abundante reunida para ele.

[2.] No lugar em que isso aconteceu: ali João havia pregado e batizado, com grande sucesso; ali muitos creram no Senhor Jesus. Onde a pregação da doutrina do arrependimento obteve o sucesso desejado, é mais provável que prospere a pregação da doutrina da reconciliação e da graça do evangelho.

Onde João foi bem recebido, Jesus não será mal recebido. A trombeta do jubileu soa mais doce aos ouvidos daqueles que, no Dia da Expiação, afligiram suas almas por causa do pecado.


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