Matthew Henry

Jó 9

Argumento

Neste capítulo e no seguinte, temos a resposta de Jó ao discurso de Bildade. Ele fala de Deus com honra, de si mesmo com humildade e de seus sofrimentos com sentimento, mas não diz uma palavra para censurar os amigos ou a falta de bondade deles, nem para responder diretamente ao que Bildade disse.

Com sabedoria, atém-se ao mérito da questão. Não faz comentários sobre a pessoa que a apresentou nem procura motivo para acusá-la. Neste capítulo, temos: I. A exposição da doutrina da justiça de Deus, v. 2. II. A prova dessa doutrina, com base em sua sabedoria, poder e domínio soberano, vv. 3-13.

III. A aplicação da doutrina, na qual: 1. Jó condena a si mesmo, incapaz de contender com Deus num tribunal ou numa batalha, vv. 14-21. 2. Sustenta que não podemos julgar o caráter das pessoas por sua condição exterior, vv. 22-24. 3. Queixa-se da grandeza dos sofrimentos, da confusão em que se encontra e de não saber o que dizer ou fazer, vv. 25-35.

Versículos 1 a 13

A Resposta de Jó a Bildade. (a.C. 1520.)

Bildade começou repreendendo Jó por falar tanto, Jó 8:2. Jó não responde a isso, embora pudesse facilmente devolver-lhe a crítica. Mas concorda com o princípio que Bildade apresenta em seguida: Deus nunca perverte o juízo. “Sei que assim é, de verdade”, v. 2.

Repare: devemos estar prontos a reconhecer em que concordamos com aqueles com quem discutimos. Não devemos desprezar, muito menos resistir, a uma verdade por ter sido apresentada por um adversário e usada contra nós. Devemos recebê-la à luz e com amor por ela, mesmo que tenha sido aplicada incorretamente.

“É verdade que a perversidade leva os homens à ruína e que os piedosos recebem a proteção especial de Deus. Concordo com essas verdades. Mas como qualquer homem pode defender sua causa diante de Deus?” “À sua vista, nenhum vivente será justificado”, Salmos 143:2. Como poderia o homem ser justo diante de Deus?

Alguns entendem isso como uma queixa apaixonada sobre o rigor e a severidade de Deus, como se fosse impossível tratar com ele. Não se pode negar que há neste capítulo expressões irritadas que parecem falar dessa maneira.

Mas considero isso antes uma confissão piedosa da condição pecaminosa do homem, e em particular da de Jó: se Deus tratasse qualquer um de nós segundo o merecimento de nossas iniquidades, certamente estaríamos perdidos.

I. Ele apresenta como verdade que o homem não está em pé de igualdade com seu Criador, seja numa disputa, seja num combate.

  1. Numa disputa (v. 3): “Se alguém quiser contender com ele”, seja num processo judicial, seja num debate, “não poderá responder-lhe a uma de mil.”

(1.) Deus pode fazer mil perguntas embaraçosas às quais aqueles que contendem com ele e acusam seus procedimentos não conseguem responder. Quando falou a Jó do meio do redemoinho, fez-lhe muitas perguntas — “Você sabe isto? Pode fazer aquilo?” —, e Jó não conseguiu responder a nenhuma delas, Jó 38 e 39. Deus pode facilmente mostrar a insensatez dos maiores pretendentes à sabedoria.

(2.) Deus pode nos acusar de mil delitos, formular contra nós mil artigos de acusação formal. Não podemos responder de modo a nos livrar da imputação de nenhum deles; devemos, pelo silêncio, concordar que todos são verdadeiros. Não podemos rejeitar um por ser estranho ao caso, outro por ser irrelevante e outro por ser falso.

Não podemos negar o fato num deles e alegar inocência, nem negar a culpa em outro, admitindo o fato e justificando-o. Não: somos incapazes de responder a Deus. Devemos pôr a mão sobre a boca, como Jó fez (Jó 40:4, 5), e exclamar: “Culpado, culpado.”

  1. Num combate (v. 4): “Quem se endureceu contra ele e prosperou?” A resposta é muito fácil. Desde o princípio do mundo até hoje, não se pode apontar um único pecador ousado que tenha endurecido contra Deus e persistido obstinadamente em rebelar-se contra ele sem descobrir que Deus era forte demais e pagar caro pela própria insensatez.

Tais transgressores não prosperaram nem tiveram paz. Não encontraram consolo em seu caminho nem alcançaram êxito. O que algum homem já ganhou ao medir habilidades ou disputar direitos com seu Criador?

Toda oposição a Deus é como pôr sarças e espinhos diante de um fogo consumidor: tentativa tão insensata, infrutífera e destrutiva, Isaías 27:4; Ezequiel 28:24; 1 Coríntios 10:22. Anjos apóstatas se endureceram contra Deus, mas não prosperaram, 2 Pedro 2:4. O dragão luta, mas é expulso, Apocalipse 12:9.

Homens perversos se endurecem contra Deus, questionam sua sabedoria, desobedecem às suas leis, não se arrependem dos pecados nem aceitam correção nas aflições. Rejeitam as ofertas de sua graça e resistem à ação de seu Espírito. Desprezam suas ameaças e se levantam contra seus interesses no mundo.

Mas prosperaram? Podem prosperar? Não. Estão apenas acumulando para si cólera para o dia da cólera. Aqueles que fazem essa pedra rolar descobrirão que ela voltará contra eles.

II. Jó prova a tese mostrando como é o Deus com quem temos de tratar: ele é sábio de coração, por isso não podemos responder-lhe num tribunal; é poderoso em força, por isso não podemos enfrentá-lo numa luta.

Não há loucura maior do que pensar em contender com um Deus de sabedoria e poder infinitos, que sabe tudo e pode fazer tudo, e a quem ninguém pode vencer por astúcia nem por força.

O diabo esperava que, no dia da aflição, Jó amaldiçoasse a Deus e falasse mal dele. Jó, porém, põe-se a honrá-lo e a falar dele em termos elevados. Embora sofra intensamente e esteja tão ocupado com as próprias misérias, quando surge a ocasião de mencionar a sabedoria e o poder de Deus, ele se esquece das queixas.

Detém-se com prazer nesse tema nobre e útil e o desenvolve numa torrente de eloquência. Jó extrai provas da sabedoria e do poder de Deus:

  1. Do reino da natureza, no qual o Deus da natureza age com poder irresistível e faz o que lhe agrada, pois todas as ordens e forças da natureza vêm dele e dele dependem.

(1.) Quando lhe agrada, Deus altera o curso da natureza e faz suas correntes retrocederem, vv. 5-7. Segundo a lei comum da natureza, as montanhas estão firmes e, por isso, são chamadas eternas. A terra está estabelecida e não pode ser removida (Salmos 93:1); suas colunas estão fixadas de modo inabalável.

O sol nasce no tempo devido, e os astros exercem sua influência sobre este mundo inferior. Mas, quando quer, Deus não apenas pode desviar a natureza do caminho habitual: pode inverter sua ordem e mudar sua lei.

[1.] Nada é mais firme do que as montanhas. Quando falamos em removê-las, queremos dizer algo impossível. O poder divino, porém, pode fazê-las mudar de lugar: ele as remove sem que saibam, quer queiram, quer não. Pode fazê-las baixar a cabeça, nivelá-las e derrubá-las em sua ira.

Deus pode espalhar as montanhas com a mesma facilidade com que o lavrador espalha montículos de terra, por mais altas, vastas e rochosas que sejam. Os homens têm grande dificuldade para atravessá-las; Deus, porém, quando quer, pode fazê-las desaparecer. Fez tremer o Sinai, Salmos 68:8. Os montes saltaram, Salmos 114:4. As montanhas eternas se dispersaram, Habacuque 3:6.

[2.] Nada parece mais fixo do que a terra em seu eixo. Mas Deus pode, quando quer, abalá-la para fora do lugar, erguê-la de seu centro e fazer tremer até suas colunas. Aquilo que parecia sustentá-la precisará de apoio quando Deus lhe der um abalo. Veja quanto devemos à paciência de Deus.

Ele tem poder suficiente para sacudir a terra debaixo desta raça humana culpada, que a faz gemer sob o peso do pecado, e assim expulsar dela os perversos (Jó 38:13). Contudo, conserva a terra e o homem sobre ela e não a faz engolir os rebeldes, como fez certa vez.

[3.] Nada é mais constante do que o nascer do sol: ele nunca falta ao tempo designado. Mas Deus pode suspendê-lo quando quer. Aquele que no princípio ordenou que nascesse pode revogar sua ordem. Certa vez o sol recebeu ordem de parar; em outra ocasião, de recuar. Isso mostrou que continua sob o controle do seu grande Criador.

Tamanho é o poder de Deus! Quão grande, então, é sua bondade, pela qual faz o sol brilhar até sobre os maus e ingratos, embora pudesse retê-lo! Aquele que fez os astros também pode, se quiser, selá-los e escondê-los de nossos olhos.

Terremotos e fogos subterrâneos já removeram montanhas e abalaram a terra. Em dias e noites muito escuros e nublados, parece-nos que o sol recebeu ordem para não nascer e que os astros foram selados, Atos 27:20.

Basta dizer que Jó fala aqui do que Deus pode fazer. Se, porém, precisarmos entender suas palavras como referência ao que ele de fato fez, talvez todos esses versículos possam ser aplicados ao dilúvio de Noé, quando as montanhas da terra foram abaladas e o sol e os astros escureceram.

Cremos que o mundo atual está reservado para aquele fogo que consumirá as montanhas e derreterá a terra com seu calor ardente, e que converterá o sol em trevas.

(2.) Pelo tempo que lhe agrada, Deus preserva o curso e a ordem estabelecidos da natureza; isso é uma criação contínua. Sozinho, por seu próprio poder e sem ajuda de ninguém:

[1.] Ele estende os céus (v. 8). Não apenas os estendeu no princípio, mas continua a estendê-los, isto é, conserva-os abertos. De outro modo, eles se enrolariam por si mesmos como um rolo de pergaminho.

[2.] Ele pisa as ondas do mar, isto é, reprime-as e as mantém sob controle para que não voltem a inundar a terra (Salmos 104:9). Isso é apresentado como motivo para que todos temamos a Deus e o reverenciemos, Jeremias 5:22. Ele é mais poderoso do que as ondas orgulhosas, Salmos 93:4; 65:7.

[3.] Ele faz as constelações. Três são nomeadas em lugar de todas as demais (v. 9): Arcturo, Órion e Plêiades; e, de modo geral, as câmaras do sul. Deus fez no princípio os astros que compõem essas constelações e os dispôs naquela ordem. Ainda os faz, pois conserva sua existência e dirige seus movimentos.

Ele faz deles aquilo que são para o homem e inclina o coração humano a observá-los, algo de que os animais são incapazes. Não só os astros que vemos e aos quais damos nome, mas também os do outro hemisfério, em torno do polo antártico, que jamais aparecem à nossa vista e são chamados aqui de câmaras do sul, estão sob a direção e o domínio de Deus. Quão sábio e poderoso ele é!

  1. Jó extrai provas do reino da Providência, dessa Providência especial que se ocupa dos assuntos dos filhos dos homens. Considere o que Deus faz no governo do mundo, e você dirá que ele é sábio de coração e poderoso em força.

(1.) Ele faz muitas coisas grandes, numerosas e maravilhosas, v. 10. Aqui Jó repete o que Elifaz dissera (Jó 5:9), usando no original exatamente as mesmas palavras. Não evita repetir o adversário, embora agora discutam. Deus é grande e faz grandes coisas, um Deus que opera maravilhas.

Suas obras admiráveis são tão numerosas que não podemos contá-las e tão misteriosas que não podemos compreendê-las. Como são profundos os seus conselhos!

(2.) Ele age invisivelmente e sem ser percebido, v. 11. “Ele passa por mim em suas operações, e eu não o vejo nem o percebo. Seu caminho está no mar”, Salmos 77:19. As operações das causas secundárias costumam ser visíveis aos sentidos, mas Deus faz tudo à nossa volta sem que o vejamos, Atos 17:23.

Nosso entendimento finito não consegue sondar seus conselhos, perceber seus movimentos nem compreender os meios que emprega. Portanto, não somos juízes competentes dos procedimentos de Deus, pois não sabemos o que ele faz nem quais são seus desígnios.

Os arcana imperii — segredos do governo — estão acima de nós; por isso, não devemos presumir explicá-los nem comentá-los.

(3.) Ele age com soberania incontestável, v. 12. Retira nossos consolos e motivos de confiança terrenos quando e como lhe agrada: retira saúde, bens, parentes, amigos e a própria vida. Seja o que for que desapareça, é ele quem o retira. Não importa por que mão foi tirado: devemos reconhecer a mão de Deus nessa perda.

O Senhor tira, e quem pode impedi-lo? Quem pode fazê-lo voltar atrás? Na margem: “Quem o fará restituir?” Quem pode dissuadi-lo ou alterar seus conselhos? Quem pode resistir a ele ou se opor às suas obras? Quem pode controlá-lo ou exigir-lhe contas?

Que processo se pode mover contra ele? Quem lhe dirá: “Que fazes?” ou “Por que ages assim?”, Daniel 4:35. Deus não é obrigado a nos dar uma razão para o que faz. Não entendemos agora o sentido de seus atos; haverá tempo para entendê-los mais tarde.

Então ficará claro que o que hoje parece ter sido feito por prerrogativa foi feito com sabedoria infinita e para o melhor resultado.

(4.) Ele age com poder irresistível, ao qual nenhuma criatura pode se opor, v. 13. Se Deus não retirar sua ira — o que pode fazer quando quiser, pois é Senhor dela e a libera ou recolhe conforme sua vontade —, os ajudantes orgulhosos se curvarão diante dele. Isto é, certamente quebrará e esmagará aqueles que, com orgulho, se ajudam mutuamente contra ele.

Homens orgulhosos se opõem a Deus e aos seus procedimentos; nessa oposição, unem as mãos. Os reis da terra se levantam e os governantes conspiram para rejeitar seu jugo, destruir suas verdades e perseguir seu povo. “Homens de Israel, ajudem!”, Atos 21:28; Salmos 83:8.

Se um inimigo do reino de Deus cai sob seu juízo, os demais acorrem orgulhosamente para ajudá-lo e pensam poder livrá-lo de sua mão. Mas é inútil. A menos que Deus resolva retirar sua ira — o que faz muitas vezes, pois este é o dia de sua paciência —, os ajudantes orgulhosos se curvarão diante dele e cairão com aqueles que pretendiam socorrer.

Quem conhece o poder da ira de Deus? Aqueles que se julgam fortes o suficiente para ajudar os outros não conseguirão ajudar a si mesmos diante dela.

Versículos 14 a 21

Jó aplica agora a si mesmo o que disse sobre a completa incapacidade do homem de contender com Deus. Na prática, desespera de alcançar seu favor. Segundo alguns, isso nasce da ideia severa que fazia de Deus, como se ele tivesse decidido opor-se a Jó, com ou sem razão, e fosse forte demais para ele.

Penso, antes, que nasce da consciência de como era imperfeita sua própria justiça e da percepção sombria e nebulosa que naquele momento tinha do desagrado de Deus para com ele.

I. Jó não ousava discutir com Deus (v. 14): “Se os ajudantes orgulhosos se curvam diante dele, quanto menos eu, criatura pobre e fraca, tão longe de ajudar alguém que preciso muito de ajuda, poderei responder-lhe? Que posso dizer contra o que Deus faz? Se eu tentar argumentar com ele, certamente será forte demais para mim.”

Se o oleiro transformar o barro num vaso para desonra ou quebrar o vaso que fez, o barro ou o vaso quebrado discutirá com ele? Igualmente absurdo é o homem que responde contra Deus ou pensa que pode resolver a questão discutindo com ele. Não; cale-se toda carne diante dele.

II. Jó não ousava insistir em sua própria justificação diante de Deus. Defendia sua integridade perante os amigos e não admitia que fosse hipócrita ou perverso, como insinuavam; ainda assim, jamais alegaria essa integridade como sua justiça diante de Deus.

“Jamais me arriscarei a recorrer à aliança da inocência nem pensarei que posso sair absolvido em virtude dela.” Jó conhecia tanto a Deus quanto a si mesmo o suficiente para não ousar insistir em sua própria justificação diante de Deus.

  1. Conhecia a Deus o suficiente para não ousar enfrentar um julgamento com ele, vv. 15-19. Sabia defender sua causa diante dos amigos e julgava-se capaz de tratar com eles. Mas, mesmo que sua causa fosse melhor do que era, sabia que discuti-la com Deus não adiantaria.

(1.) Deus o conhecia melhor do que ele conhecia a si mesmo. Portanto (v. 15): “Mesmo que eu me julgasse justo e meu coração não me condenasse, Deus é maior do que meu coração. Ele conhece minhas faltas e erros secretos, que não percebo nem consigo entender, e pode acusar-me deles. Por isso, eu não responderia.”

São Paulo fala de modo semelhante: “Não conheço nada contra mim”, não tenho consciência de alguma perversidade dominante, “mas nem por isso sou justificado”, 1 Coríntios 4:4. “Não ouso submeter-me a essa prova, para que Deus não me acuse de algo que eu mesmo não percebi.”

Assim, Jó abre mão dessa alegação e suplica ao seu Juiz; isto é, lança-se à misericórdia de Deus, sem esperar sair absolvido pelos próprios méritos.

(2.) Ele não tinha motivo para pensar que suas orações possuíssem algum valor que as recomendasse à aceitação divina ou lhes assegurasse uma resposta de paz. Não havia nelas qualquer mérito ao qual pudesse atribuir o resultado.

Este vinha unicamente da graça e compaixão de Deus, que responde antes que o chamemos, não porque o chamamos, e atende bondosamente às nossas orações, mas não por causa delas (v. 16).

“Se eu o tivesse chamado e ele respondido, concedendo-me aquilo que lhe pedi, minhas melhores orações seriam tão fracas e imperfeitas que eu não creria que, com isso, tivesse atendido à minha voz. Não poderia dizer que ele me salvou com sua mão direita e me respondeu” (Salmos 60:5), “mas que o fez unicamente por amor ao próprio nome.”

O bispo Patrick explica assim: “Se eu tivesse suplicado e ele tivesse atendido ao meu desejo, não pensaria que minha oração tivesse produzido esse resultado.” Que se saiba: não é por causa de vocês.

(3.) As misérias em que Deus o havia lançado, apesar de sua integridade, davam a Jó prova muito sensível de que Deus age com soberania ao ordenar e distribuir as condições exteriores dos homens neste mundo. Embora nunca trate ninguém com injustiça, nesta vida nem sempre concede a todos o que lhes é devido por completo.

Isto é, os melhores nem sempre recebem o melhor tratamento, nem os piores, o pior. Deus reserva para o estado futuro a distribuição completa e exata das recompensas e punições. Jó não tinha consciência de alguma culpa extraordinária, mas sofria aflições extraordinárias, v. 17, 18.

Todo homem deve esperar que o vento o atinja e desarrume, mas Jó fora quebrado por uma tempestade. Entre espinhos e sarças, todos devem esperar arranhões; Jó, porém, fora ferido, e suas feridas se multiplicaram.

Todos devem esperar uma cruz diária e, às vezes, provar do cálice amargo. Mas as dificuldades do pobre Jó vinham em sucessão tão rápida que ele não tinha tempo de respirar e estava cheio de amargura. Mesmo assim, atreve-se a dizer que tudo isso vinha sem causa, sem que tivesse dado motivo grave.

Até aqui, fizemos a melhor leitura possível das palavras de Jó, apesar do juízo de muitos bons intérpretes. Neste ponto, porém, sem dúvida ele falou de modo imprudente com os lábios. Atingiu a bondade de Deus ao dizer que não o deixava tomar fôlego, embora ainda conservasse uso tão bom da razão e da fala que podia discorrer assim.

Atingiu também sua justiça ao afirmar que tudo acontecia sem causa. É verdade, contudo, que por um lado muitos são culpados de pecados maiores do que as fraquezas comuns da natureza humana e, ainda assim, não sofrem mais do que as calamidades comuns da vida humana.

Por outro lado, há muitos que sofrem mais do que as calamidades comuns da vida humana e, no entanto, não têm consciência de mais do que as fraquezas comuns da natureza humana.

(4.) Jó não tinha qualquer condição de defender sua causa diante de Deus, v. 19:

[1.] Não pela força das armas. “Não ouso entrar em combate com o Todo-Poderoso. Se falo de força e penso sair vencedor por ela, eis que ele é forte, mais forte do que eu, e certamente me vencerá.” Não há como discutir, disse alguém certa vez a César, com quem comanda legiões; muito menos com aquele que comanda legiões de anjos.

Poderá seu coração resistir — sua coragem e presença de espírito —, ou poderão suas mãos ser fortes para se defender nos dias em que eu tratar com você? Ezequiel 22:14.

[2.] Não pela força dos argumentos. “Não ouso pôr à prova o mérito da causa. Se falo de julgamento e insisto no meu direito, quem marcará uma data para eu apresentar minha defesa? Não há poder superior a que eu possa apelar nem tribunal acima dele que marque uma audiência para a causa. Deus é supremo, e dele procede o julgamento que cada homem terá de aceitar.”

  1. Jó conhecia a si mesmo o suficiente para não ousar enfrentar um julgamento, v. 20, 21. “Se eu tentar justificar-me e alegar uma justiça própria, minha defesa será minha acusação. Minha boca me condenará mesmo enquanto procura absolver-me.”

O homem bom conhece o engano do próprio coração e o vigia com zelo piedoso. Muitas vezes descobre nele um mal que por muito tempo não percebera; por isso suspeita que haja em si mais mal do que aquele de que tem consciência. Desse modo, jamais pensará em justificar-se diante de Deus.

Se dissermos que não temos pecado, não apenas enganamos a nós mesmos, mas afrontamos a Deus. Pecamos ao dizê-lo e desmentimos a Escritura, que declarou todos sujeitos ao pecado.

“Se eu disser que sou perfeito, que não tenho pecado e que Deus não tem nada de que me acusar, o próprio fato de eu dizê-lo provará que sou perverso, orgulhoso, ignorante e presunçoso. Ou melhor: mesmo que eu fosse perfeito, mesmo que Deus me declarasse justo, eu não conheceria minha alma nem me preocuparia em prolongar a vida enquanto ela está carregada de tantas misérias.”

Ou: “Mesmo que eu estivesse livre de pecados graves, mesmo que minha consciência não me acusasse de algum crime enorme, não confiaria tanto em meu coração a ponto de insistir em minha inocência ou de julgar que vale a pena disputar com Deus pela minha vida.” Em suma, contender com Deus é insensatez; submeter-nos a ele e lançar-nos a seus pés é tanto nossa sabedoria quanto nosso dever.

Versículos 22 a 24

Aqui Jó toca brevemente no ponto principal da controvérsia entre ele e seus amigos. Eles sustentavam que os justos e bons sempre prosperam neste mundo e que somente os perversos vivem na miséria e na aflição. Jó afirmava, ao contrário, que é comum os perversos prosperarem e os justos sofrerem muito.

Esse era o ponto central em que discordavam. Os amigos não haviam provado sua afirmação; por isso, Jó mantém a sua: “Eu disse e repito: todas as coisas acontecem igualmente a todos.”

  1. É preciso reconhecer que há muita verdade no que Jó quer dizer aqui: os juízos temporais, quando se espalham, atingem tanto bons quanto maus. O anjo destruidor raramente distingue — embora certa vez o tenha feito — entre as casas dos israelitas e as dos egípcios.

No juízo sobre Sodoma, que é chamado de “vingança do fogo eterno” (Judas 1:7), longe esteja de Deus matar o justo com o perverso, fazendo o justo receber o mesmo tratamento que o perverso (Gênesis 18:25). Mas, nos juízos meramente temporais, os justos recebem sua parte e, às vezes, a parte maior.

A espada devora um como o outro, Josias como Acabe. Assim Deus destrói tanto o íntegro quanto o perverso, envolvendo ambos na mesma ruína comum. Bons e maus foram juntos enviados para a Babilônia, Jeremias 24:5, 9.

Se o açoite matar subitamente e derrubar tudo o que encontra, Deus se agradará de ver como o mesmo açoite que causa a perdição dos perversos prova os inocentes e sua fé. Essa fé será considerada digna de louvor, honra e glória, 1 Pedro 1:7; Salmos 66:10.

Contra os justos voam as flechas do Todo-Poderoso,
Pois ele se agrada de provar os inocentes,
Para revelar seu ânimo constante e semelhante ao de Deus,
Não destruído pelas aflições, mas purificado.

Sir R. Blackmore.

Que isso reconcilie os filhos de Deus com seus sofrimentos: são apenas provas destinadas à honra e ao benefício deles. Se Deus se agrada dessas provas, não fiquem eles insatisfeitos. Se ele ri da prova dos inocentes, por saber quão glorioso será seu resultado, que eles também riam da destruição e da fome (Jó 5:22).

Que triunfem sobre elas, dizendo: “Ó morte, onde está o teu aguilhão?” Por outro lado, os perversos estão tão longe de ser alvo dos juízos de Deus que a terra lhes é entregue, v. 24. Desfrutam vastas posses e grande poder, têm o que querem e fazem o que querem.

A terra é entregue “à mão do perverso” — no original, a palavra está no singular. O diabo, esse perverso, é chamado deus deste mundo e se gaba de que a terra lhe foi entregue, Lucas 4:6.

Ou ela é entregue à mão de um homem perverso. Segundo conjecturam o bispo Patrick e a obra Assembly’s Annotations, Jó talvez se refira a algum tirano conhecido que vivia então naquela região e cuja grande perversidade e prosperidade tanto ele quanto seus amigos conheciam bem.

Os perversos recebem a terra, mas os justos recebem o céu. O que é melhor: céu sem terra ou terra sem céu? Deus, em sua providência, eleva homens perversos enquanto cobre o rosto daqueles que têm condições de ser juízes, homens sábios e bons, aptos para governar, e os sepulta vivos no anonimato.

Talvez permita que sejam humilhados e condenados, e que seus rostos sejam cobertos como os de criminosos pelos perversos a quem a terra foi entregue. Vemos isso acontecer todos os dias. Se não é Deus quem o faz, quem e onde está aquele que o faz?

A quem podemos atribuir isso senão àquele que governa os reinos dos homens e os entrega a quem quer? Daniel 4:32. Contudo:

  1. É preciso reconhecer que há paixão demais no que Jó diz aqui. Seu modo de expressar-se é irritadiço. Ao querer dizer que Deus aflige, não deveria ter dito: “Ele destrói tanto o íntegro quanto o perverso.” Ao querer dizer que Deus se agrada da prova dos inocentes, não deveria ter dito: “Ele ri dela”, pois Deus não aflige de bom grado.

Quando o espírito se aquece numa discussão ou no descontentamento, precisamos pôr uma guarda à porta dos lábios, para manter o devido respeito ao falar das coisas divinas.

Versículos 25 a 35

Aqui Jó se torna cada vez mais queixoso e não conclui o capítulo falando da sabedoria e justiça de Deus com a reverência com que começou. Quem alimenta o hábito de se queixar não sabe a que indecências — ou melhor, a que impiedades — será levado. O começo dessa contenda com Deus é como abrir passagem às águas; por isso, pare antes de se envolver nela.

Quando sofremos, podemos queixar-nos a Deus, como tantas vezes fez o salmista, mas de modo algum devemos queixar-nos de Deus, como Jó faz aqui.

I. Sua queixa da passagem dos dias de prosperidade é bastante apropriada (v. 25, 26): “Meus dias, isto é, todos os meus bons dias, se foram para nunca mais voltar. Foram-se de repente, antes que eu percebesse.”

“Nenhum mensageiro enviado às pressas” — como Cusi e Aimaás — “com boas notícias correu tão depressa quanto meus consolos ao fugir de mim. Nenhum navio chegou ao porto, nenhuma águia voou sobre a presa com tamanha velocidade.”

“Da minha prosperidade, não resta vestígio algum, assim como não resta vestígio da águia no ar nem do navio no mar”, Provérbios 30:19. Veja aqui:

  1. Como o tempo passa depressa. Está sempre em movimento, apressando-se para o fim, e não espera por ninguém. Quão pouca necessidade temos de passatempos e quão grande necessidade de aproveitar bem o tempo! Ele se esgota e corre tão depressa rumo à eternidade, que se aproxima à medida que o tempo passa.

  2. Como são vãos os prazeres do tempo, dos quais podemos ser totalmente privados enquanto o tempo ainda continua. Nossa vida pode durar mais do que o sol da nossa prosperidade. Quando ele se põe, é como se nunca tivesse brilhado.

A lembrança de termos cumprido nosso dever nos alegrará depois; não acontecerá o mesmo com a lembrança de termos acumulado grandes riquezas terrenas quando todas se perderem. “Eles fogem sem que se possa chamá-los de volta, não veem bem algum nem deixam bem algum para trás.”

II. Sua queixa do desconforto presente é desculpável, v. 27, 28.

  1. Ao que parece, Jó se esforçou para aquietar-se e recompor-se, como os amigos o aconselharam. Era esse o bem que desejava fazer: queria esquecer as queixas e louvar a Deus, deixar a tristeza e consolar-se, para estar apto a manter comunhão tanto com Deus quanto com os homens.

  2. Ele descobriu, porém, que não conseguia: “Tenho medo de todas as minhas dores. Quanto mais luto contra o sofrimento, mais ele prevalece sobre mim e se mostra forte demais!” Num caso assim, é mais fácil saber o que devemos fazer do que fazê-lo, saber que disposição devemos ter do que alcançá-la e conservá-la.

É fácil pregar paciência a quem sofre e dizer-lhe que deve esquecer as queixas e consolar-se. Mas fazer isso não é tão rápido quanto dizê-lo. O medo e a tristeza são tirânicos e não se deixam submeter facilmente, como deveriam, à religião e à reta razão. Mas:

III. A queixa de Jó de que Deus era implacável e inflexível não podia de modo algum ser desculpada. Era a linguagem de sua corrupção. Ele conhecia melhor a Deus e, em outro momento, estaria longe de acolher pensamentos tão duros sobre ele. Agora tais pensamentos invadiam seu espírito e se manifestavam nessas queixas apaixonadas.

Os homens bons nem sempre falam de acordo com seu caráter. Deus, porém, conhece sua natureza e a força das tentações que enfrentam; por isso, permite-lhes mais tarde retirar pelo arrependimento o que disseram de errado e não o lança em sua conta.

  1. Jó parece falar aqui:

(1.) Como se desesperasse de obter de Deus qualquer alívio ou reparação para suas aflições, mesmo apresentando provas excelentes de sua integridade: “Sei que não me terás por inocente.” Seus sofrimentos haviam durado tanto e aumentado tão depressa que Jó já não esperava que Deus viesse a manifestar sua inocência, livrando-o deles e devolvendo-lhe a prosperidade.

“Com razão ou sem ela, serei tratado como perverso. Meus amigos continuarão a pensar assim de mim, e Deus continuará a enviar as aflições que lhes dão motivo para isso. Por que, então, me esforço em vão para defender minha inocência e minha integridade?”, v. 29.

É inútil falar numa causa cujo julgamento já foi decidido de antemão. Entre os homens, muitas vezes os mais inocentes se esforçam em vão para se defender: serão considerados culpados, por mais claras que sejam as provas em seu favor.

Não é assim em nossos tratos com Deus. Ele é defensor da inocência oprimida, e nunca foi em vão confiar-lhe uma causa justa.

Mais do que desesperar de alívio, Jó espera que seus esforços para defender-se o tornem ainda mais sujeito a acusações (v. 30, 31): “Se eu me lavar com água de neve e tornar minha integridade tão evidente quanto possível, tudo será inútil. A sentença terá de ser contrária a mim.”

“Você me mergulhará numa vala” — segundo alguns, a cova da destruição; ou, mais provavelmente, um esgoto imundo —, “e eu me tornarei tão repulsivo para todos ao redor que minhas próprias roupas me abominarão, e até eu terei nojo de tocar em mim.”

Jó via suas aflições como vindas de Deus. Eram elas que o enegreciam aos olhos dos amigos. Por isso, queixava-se delas e de sua duração: arruinavam não só seu conforto, mas também sua reputação.

Ainda assim, essas palavras admitem uma interpretação boa. Podemos esforçar-nos ao máximo para justificar-nos diante dos homens, preservar nosso bom nome e manter as mãos livres da sujeira dos pecados graves que o mundo consegue ver.

Deus, porém, conhece nosso coração e pode acusar-nos de tantos pecados secretos que acabará com toda a nossa pretensão de pureza e inocência. Assim, faz-nos ver como somos repulsivos aos olhos do Deus santo. Paulo, enquanto fariseu, mantinha as mãos muito limpas; mas o mandamento veio, revelou-lhe os pecados do coração e o fez conhecer a cobiça. Isso o mergulhou na vala.

(2.) Como se desesperasse de obter uma audiência justa diante de Deus — e isso seria de fato difícil.

[1.] Jó se queixa de não estar em pé de igualdade com Deus (v. 32): “Ele não é homem como eu. Eu ousaria discutir com outro homem — cacos de barro podem contender com outros cacos da terra —, mas Deus está infinitamente acima de mim. Por isso, não ouso entrar em combate com ele; certamente perderei se contender com ele.” Repare:

Primeiro, Deus não é homem como nós. Podemos dizer dos maiores príncipes: “São homens como nós”, mas não do grande Deus. Seus pensamentos e caminhos estão infinitamente acima dos nossos, e não devemos medi-lo por nossa própria medida. O homem é insensato e fraco, frágil e instável; Deus não é assim. Somos criaturas dependentes e mortais; ele é o Criador independente e imortal.

Segundo, a consideração disso deve tornar-nos muito humildes e silenciosos diante de Deus. Não nos igualemos a ele; contemplemo-lo sempre como infinitamente superior a nós.

[2.] Jó se queixa de não haver árbitro ou mediador capaz de acertar as diferenças entre ele e Deus e decidir a controvérsia (v. 33): “Não há entre nós quem julgue a causa.” Queixar-se de que não havia alguém assim era, na prática, desejar que houvesse; é assim que a Septuaginta lê o texto: “Quem dera houvesse um mediador entre nós!”

Jó de bom grado submeteria a questão a um árbitro, mas nenhuma criatura poderia exercer essa função. Por isso, ainda precisava entregá-la ao próprio Deus e decidir aceitar seu julgamento.

Nosso Senhor Jesus é o bendito mediador que mediou entre o céu e a terra e pôs a mão sobre ambos. O Pai confiou-lhe todo o julgamento, e nós também devemos confiá-lo a ele. Mas, naquela época, essa verdade ainda não havia sido trazida à luz com a clareza que recebeu do evangelho, o qual já não deixa lugar para uma queixa como a de Jó.

[3.] Os terrores de Deus, postos em ordem de batalha contra Jó, deixavam-no tão confuso que ele não sabia como dirigir-se a Deus com a confiança com que antes costumava aproximar-se dele, v. 34, 35.

“Além da distância que sua transcendência infinita mantém entre nós, seu modo de tratar-me agora me desanima muito: que ele afaste de mim sua vara.” Jó se refere menos às aflições exteriores do que ao peso que recaía sobre seu espírito por pensar na cólera de Deus. Esse era o medo que o aterrorizava.

“Que esse peso seja removido; que eu volte a ver sua misericórdia e não fique atônito vendo apenas seus terrores. Então eu falaria e apresentaria minha causa diante dele. Mas não é assim comigo: a nuvem não se dissipou; a cólera de Deus continua sobre mim e consome minhas forças como antes. Não sei o que fazer.”

  1. De tudo isso, aproveitemos a ocasião:

(1.) Para reverenciar a Deus e temer o poder de sua cólera. Se ela deixou homens bons tão perturbados, onde aparecerão o ímpio e o pecador?

(2.) Para ter compaixão dos que estão feridos no espírito e orar fervorosamente por eles, pois nessa condição não sabem como orar por si mesmos.

(3.) Para conservar com cuidado bons pensamentos sobre Deus, pois ideias severas a seu respeito abrem caminho a muito dano.

(4.) Para bendizer a Deus porque não estamos numa condição tão desconsolada quanto a do pobre Jó aqui, mas caminhamos na luz do Senhor. Alegremo-nos nela, mas com tremor.


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