Matthew Henry

Jó 10

Argumento

Jó reconhece aqui que estava muito confuso (v. 15), e sua fala refletia esse estado: não sabia o que dizer e, talvez, às vezes mal soubesse o que dizia.

Neste capítulo, I. Queixa-se das agruras que enfrenta (vv. 1-7) e então se consola por estar nas mãos do Deus que o criou, usando isso como argumento, vv. 8-13. II. Volta a queixar-se da severidade com que Deus o trata (vv. 14-17) e depois se consola pensando que a morte poria fim a seus sofrimentos, vv. 18-22.

Versículos 1 a 7

A Resposta de Jó a Bildade. (a.C. 1520.)

Aqui está: I. A decisão apaixonada de persistir na queixa, v. 1. Intimidado pelo temor da majestade de Deus, a ponto de não conseguir defender sua causa diante dele, Jó decide aliviar-se um pouco dando vazão ao ressentimento.

Começa com palavras veementes: “Minha alma está cansada da vida, cansada deste corpo e impaciente por se livrar dele. Desgostou-se da vida, está descontente com ela, enjoou-se dela e anseia pela morte.”

Por causa da fraqueza da graça, agiu contra o que a própria natureza determina. Agiríamos mais como homens se agíssemos mais como santos.

A fé e a paciência nos impediriam de nos cansar da vida, e de sermos cruéis com ela, como alguns leem, mesmo quando a Providência a torna extremamente cansativa para nós; pois cansar-se da vida é cansar-se da correção de Deus.

Jó, cansado de viver e sem outra forma de alívio, decide queixar-se e falar. Não dará vazão à sua alma por meio de mãos violentas, mas dará vazão à amargura da alma por meio de palavras violentas.

Quem perdeu pensa ter licença para falar. As paixões desenfreadas, assim como os apetites desenfreados, costumam tomar o fato de não conseguirem conter-se como desculpa para seus excessos. Mas para que recebemos sabedoria e graça, senão para pôr um freio na boca? A corrupção de Jó fala aqui, mas a graça também toma a palavra:

  1. Ele se queixará, mas dirigirá a queixa a si mesmo. Não acusará Deus nem lhe atribuirá injustiça ou falta de bondade. Jó não conhecia especificamente o fundamento da controvérsia de Deus com ele nem o motivo da ação; em geral, porém, supunha que estivesse em si mesmo e aceitava de bom grado toda a culpa.

  2. Ele falará, mas expressará a amargura da alma, não um juízo firme. “Se falo de modo errado, não sou eu, mas o pecado que habita em mim; não é minha alma, mas a amargura dela.”

II. Uma súplica humilde a Deus. Jó falará, mas sua primeira palavra será uma oração; segundo a maneira como estou disposto a entendê-la, é uma boa oração, v. 2.

  1. Pede libertação do aguilhão de suas aflições, que é o pecado: “Não me condene; não me separe de você para sempre. Embora esteja sob a cruz, não me deixe sob a maldição; embora sinta o golpe da vara de um Pai, não me elimine pela espada de um Juiz.”

“Você me corrige; suportarei isso tão bem quanto puder. Mas, ah, não me condene!” Os que estão em Cristo Jesus encontram consolo no fato de que, embora estejam aflitos, “não há condenação para eles”, Romanos 8:1.

Ou melhor: o Senhor os corrige para que não sejam condenados com o mundo, 1 Coríntios 11:32. É a condenação, portanto, que devemos rogar que seja afastada acima de tudo quando estamos aflitos. “Seja qual for a maneira como quiser me tratar, Senhor, não me condene. Meus amigos me condenam, mas você não.”

  1. Pede que lhe seja revelada a verdadeira causa das aflições, que também é o pecado: Senhor, mostre-me por que contende comigo. Quando Deus nos aflige, contende conosco, e sempre há motivo para essa contenda.

Deus nunca se ira sem motivo, embora nós o façamos. É desejável conhecer esse motivo para que possamos arrepender-nos, mortificar e abandonar o pecado pelo qual Deus contende conosco. Ao investigá-lo, deixemos a consciência cumprir sua função e tratar-nos com franqueza, como em Gênesis 42:21.

III. Uma discussão irritada com Deus a respeito do modo como ele o trata. Jó realmente fala agora com a amargura da alma, não sem lançar algumas insinuações maldosas contra a justiça de seu Deus.

  1. Jó considera incompatível com a bondade de Deus e com a misericórdia de sua natureza tratar com tanta dureza a própria criatura, impondo-lhe mais do que pode suportar (v. 3): “É bom para você oprimir?” Não, certamente não é. O que ele reprova nos homens (Lamentações 3:34-36) não fará ele mesmo.

“Senhor, ao tratar-me assim, você parece oprimir seu súdito, desprezar a obra de suas mãos e favorecer seus inimigos. O que significa isso? Sua natureza é tal que não pode ter prazer nisso; seu nome é tal que isso não pode honrá-lo.”

“Por que, então, trata-me assim? Que vantagem há em meu sangue?” Longe de Jó pensar que Deus lhe fazia injustiça; ele simplesmente não conseguia conciliar o modo como a providência o tratava com a justiça divina.

Os homens bons muitas vezes enfrentaram essa dificuldade e precisam esperar até que o dia a esclareça. Por isso, não acolhamos agora pensamentos duros sobre Deus, pois então veremos que não havia motivo para eles.

  1. Jó considera incompatível com o conhecimento infinito de Deus pôr seu prisioneiro, por assim dizer, no cavalete de tortura para lhe arrancar uma confissão, vv. 4-6.

(1.) Tem certeza de que Deus não descobre nem julga as coisas como os homens: ele não tem olhos de carne (v. 4), pois é Espírito. Olhos de carne não enxergam no escuro, mas as trevas nada escondem de Deus.

Olhos de carne ficam em um só lugar de cada vez e alcançam apenas uma pequena distância; os olhos do Senhor, porém, estão em toda parte e percorrem a terra inteira.

Muitas coisas ficam ocultas aos olhos de carne, mesmo aos mais atentos e penetrantes. Há uma vereda que nem o olho do abutre viu; mas nada está ou pode estar oculto aos olhos de Deus, diante dos quais tudo está nu e descoberto.

Olhos de carne veem apenas a aparência exterior e podem ser iludidos por uma deceptio visus, ilusão dos sentidos. Deus, porém, vê todas as coisas como realmente são. Sua visão não pode ser enganada, pois ele sonda o coração e testemunha os pensamentos e as intenções dele.

Olhos de carne descobrem as coisas aos poucos e, quando vemos uma, perdemos outra de vista; Deus vê tudo de uma só vez. Olhos de carne logo se cansam e precisam fechar-se toda noite, mas o guarda de Israel não cochila nem dorme, e sua visão nunca enfraquece.

Deus não vê como o homem vê, isto é, não julga como o homem julga, que, na melhor das hipóteses, o faz secundum allegata et probata, segundo o que é alegado e provado, conforme a aparência das coisas, não conforme a realidade.

Com frequência, o homem julga também sob a influência de afetos, paixões, preconceitos e interesses. Sabemos, porém, que o julgamento de Deus é conforme a verdade e que ele a conhece não por informações recebidas, mas por sua própria observação.

Os homens descobrem coisas secretas pesquisando, interrogando testemunhas, comparando provas e formulando conjecturas; persuadem com lisonjas ou forçam os envolvidos a confessar. Deus não precisa de nenhum desses meios de descoberta: não vê como o homem vê.

(2.) Jó tem certeza de que, assim como Deus não tem a visão limitada do homem, tampouco tem sua vida curta (v. 5): “Seus dias são como os dias do homem, poucos e maus? Transcorrem em sucessão ou estão sujeitos a mudanças, como os dias do homem? Não, de modo algum.”

Os homens se tornam mais sábios pela experiência e adquirem conhecimento pela observação diária. Para eles, a verdade é filha do tempo; por isso precisam de tempo para pesquisar e, se uma experiência falha, precisam tentar outra.

Com Deus não é assim: para ele nada é passado ou futuro, mas tudo está presente. Os dias do tempo, pelos quais se mede a vida humana, não são nada diante dos anos da eternidade, nos quais a vida de Deus está envolta.

(3.) Por isso Jó acha estranho que Deus prolongue sua tortura e o mantenha preso nessa aflição, sem levá-lo a julgamento nem conceder-lhe soltura, como se precisasse de tempo para investigar sua iniquidade e de meios para procurar seu pecado, v. 6.

Jó não pensava que Deus o atormentasse a fim de encontrar uma acusação contra ele. Contudo, o modo como Deus o tratava dava essa impressão, desonrosa para Deus, e poderia levar as pessoas a considerá-lo um senhor severo.

“Senhor, se não cuidar do meu consolo, zele pela sua honra. Faça alguma coisa por seu grande nome e não desonre o trono de sua glória”, Jeremias 14:21.

  1. Jó acha que manter preso um pobre homem que Deus sabe ser inocente, só porque ninguém pode livrá-lo de suas mãos, parece um abuso de sua onipotência (v. 7): “Você sabe que não sou perverso”.

Jó já se reconhecera pecador e culpado diante de Deus, mas sustenta aqui que não era perverso, nem entregue ao pecado, nem inimigo de Deus, nem fingido na religião; não se afastara perversamente de seu Deus, Salmos 18:21.

“Mas ninguém pode livrar-me de suas mãos. Não há, portanto, remédio: devo contentar-me em permanecer aqui, esperar seu tempo e lançar-me à sua misericórdia, submetendo-me à sua vontade soberana.” Veja aqui:

(1.) O que deve aquietar-nos em meio às aflições: não há proveito algum em contender com a Onipotência.

(2.) O que nos consolará abundantemente: se pudermos apelar a Deus, como Jó faz aqui: “Senhor, você sabe que não sou perverso. Não posso dizer que não tenho faltas nem que não sou fraco; mas, pela graça, posso dizer que não sou perverso. Você sabe que não sou, pois sabe que o amo.”

Versículos 8 a 13

Nestes versículos podemos observar:

I. Como Jó contempla a Deus como seu Criador e sustentador, descrevendo sua dependência dele como autor e preservador de sua existência. Essa é uma das primeiras coisas que todos precisamos conhecer e considerar.

  1. Deus nos criou, e não nossos pais, que foram apenas instrumentos de seu poder e de sua providência em nossa geração. Ele nos fez, e não nós mesmos.

Suas mãos fizeram e formaram nosso corpo e cada parte dele (v. 8), de maneira assombrosa e maravilhosa. A alma que anima o corpo também é dádiva sua. Jó aqui repara em ambas.

(1.) O corpo é feito como o barro (v. 9), moldado em determinada forma, nesta forma, assim como o barro vira um vaso segundo a habilidade e a vontade do oleiro. Somos vasos de barro, humildes em nossa origem e logo reduzidos a pedaços.

Portanto, a coisa formada não deve dizer àquele que a formou: Por que me fez assim? Não devemos orgulhar-nos do corpo, pois sua matéria vem da terra; tampouco devemos desonrá-lo, pois sua forma vem da sabedoria divina.

A formação do corpo humano no ventre é descrita pela bela comparação de Deus derramar Jó como leite, que se coagula em queijo (v. 10), e pela enumeração de alguns detalhes, v. 11.

Embora venhamos nus ao mundo, o próprio corpo está vestido e armado: a pele e a carne são sua roupa; os ossos e os tendões, sua armadura, defensiva, não ofensiva. Os órgãos vitais, coração e pulmões, ficam assim cobertos, fora de vista, e protegidos contra ferimentos.

A admirável estrutura do corpo humano é um exemplo notável da sabedoria, do poder e da bondade do Criador. Que pena que esses corpos se tornem instrumentos de injustiça, quando poderiam ser templos do Espírito Santo!

(2.) A alma é a vida, a alma é a pessoa, e é dádiva de Deus: “Concedeste-me vida”, soprou em mim o fôlego da vida, sem o qual o corpo seria apenas um cadáver sem valor.

Deus é o Pai dos espíritos. Fez de nós almas viventes e nos dotou da capacidade de raciocinar. Deu-nos vida e favor, e a vida é um favor: grande favor, maior que o alimento e a roupa; favor distintivo, que nos capacita a receber outros favores.

Jó está agora em melhor disposição do que quando discutiu com a vida como se ela fosse um fardo e perguntou: “Por que não morri ao sair do ventre?”

Ou “vida e favor” podem significar a vida e todos os seus consolos, em referência à prosperidade que Jó desfrutara antes. Houve tempo em que caminhava à luz do favor divino e pensava, como Davi, que por esse favor seu monte permanecia firme.

  1. Deus nos sustenta. Depois de acender a lâmpada da vida, não a deixa queimar com sua própria reserva, mas a abastece continuamente de óleo novo:

“Tua visitação preservou meu espírito, manteve-me vivo, protegeu-me dos adversários da vida, da morte em meio à qual estamos e dos perigos aos quais estamos continuamente expostos, e me abençoou com todo o sustento necessário à vida e com as provisões diárias de que ela precisa e que solicita.”

II. Como Jó apresenta isso a Deus em sua defesa e o uso que faz do argumento. Ele recorda a Deus (v. 9): “Lembra-te, peço-te, de que me fizeste”. E daí?

  1. “Você me fez e, portanto, me conhece perfeitamente (Salmos 139:1-13). Não precisa examinar-me com açoites nem me pôr na tortura para descobrir o que há dentro de mim.”

  2. “Você me fez do barro por um ato de soberania; irá desfazer-me por outro ato semelhante de soberania? Se for assim, devo submeter-me.”

  3. “Você destruirá a obra de suas próprias mãos?” É um argumento que os santos muitas vezes apresentaram em oração: “Nós somos o barro, e tu, nosso oleiro”, Isaías 64:8; “Tuas mãos me fizeram e me formaram”, Salmos 119:73.

Assim Jó diz: “Você me fez; irá destruir-me?” (v. 8). “Fará com que eu volte ao pó?”, v. 9. “Não terá piedade de mim? Não me poupará, ajudará e amparará a obra de suas próprias mãos?”, Salmos 138:8.

“Você me fez e conhece minha força; permitirá que eu seja pressionado além do limite? Fui feito para ser infeliz? Fui preservado apenas para ficar reservado a essas calamidades?”

Se usarmos esse argumento conosco como estímulo ao dever — “Deus me fez e me sustenta; por isso, vou servi-lo e submeter-me a ele” —, poderemos apresentá-lo a Deus como pedido de misericórdia: “Você me fez; faça-me novo. Sou seu; salve-me”.

Jó não sabia conciliar os antigos favores de Deus com as atuais demonstrações de desagrado, mas conclui (v. 13): “Estas coisas você ocultou no coração. Ambas seguem o conselho de sua vontade e, portanto, certamente são compatíveis, embora não pareçam”.

Quando Deus muda seu modo de agir de maneira tão surpreendente, embora não saibamos explicá-lo, devemos crer que há bons motivos ocultos em seu coração, que logo serão manifestados.

Não cabe a nós, nem está a nosso alcance, indicar a causa; mas “sei que isso está contigo”. Todas as suas obras são conhecidas por Deus.

Versículos 14 a 22

Temos aqui:

I. As queixas apaixonadas de Jó. Ele insiste muito nessa nota áspera e desagradável; embora não se possa justificá-lo, pode-se desculpá-lo. Não se queixava sem motivo, como os israelitas murmuradores, mas tinha razões para queixar-se. Se sua conduta nos parece imprópria, sirva de aviso para que conservemos melhor o domínio de nós mesmos.

  1. Jó queixa-se do rigor do julgamento de Deus e da severidade do modo como ele o trata, quase chamando-o de summum jus: justiça que beira a dureza.

Queixa-se de que Deus aproveita toda ocasião contra ele: “Se eu pecar, então tu me observas”, v. 14.

(1.) “Se eu der apenas um passo em falso, disser uma palavra inadequada ou lançar um olhar enviesado, certamente serei censurado por isso. A consciência, sua representante, não deixará de me repreender e de me dizer que esta contração, esta pontada de dor, me pune por aquele erro.”

Se Deus observasse as iniquidades dessa maneira, estaríamos arruinados. Mas devemos reconhecer o contrário: embora pequemos, Deus não nos trata com rigor extremo.

(2.) Queixa-se de que Deus leva essa vantagem até as últimas consequências: “Você não me absolverá de minha iniquidade.” Em meio às aflições, Jó não conseguia receber o consolo do perdão nem ouvir a voz da alegria e do contentamento.

É difícil perceber amor no coração de Deus quando vemos desagrado em seu rosto e uma vara em sua mão.

(3.) Queixa-se de que, fosse qual fosse seu caráter, sua condição presente era muito penosa, v. 15.

[1.] Se fosse perverso, estaria certamente perdido no outro mundo: “Se sou perverso, ai de mim”. Repare: estar em pecado é estar em condição miserável.

Cada um de nós deve crer nisso, como Jó, aplicando-o a si mesmo: “Se sou perverso, ainda que prospere e viva em prazeres, ai de mim”.

Algumas pessoas têm especial motivo para temer uma desgraça dupla caso sejam perversas: “Eu, que tenho conhecimento, que fiz grande profissão de fé, tantas vezes fui convencido profundamente e fiz tantas belas promessas; eu, que nasci de pais tão bons, recebi boa educação, vivi em famílias piedosas e por muito tempo desfrutei dos meios da graça; se sou perverso, ai de mim, mil vezes ai de mim”.

[2.] Se fosse justo, ainda assim Jó não ousaria levantar a cabeça nem responder como antes, Jó 9:15. Está tão oprimido e dominado pelas aflições que não consegue erguer o olhar com consolo ou confiança.

Por fora havia combates; por dentro, temores. Entre uns e outros, estava cheio de confusão: não só o rosto se confundia pela humilhação que sofrera e pelas censuras dos amigos; seu espírito também estava confuso. Sua mente permanecia agitada, e ele estava quase desnorteado, Salmos 88:15.

  1. Jó queixa-se da severidade com que a sentença é executada. Pensava que Deus não apenas o punia por cada falha, mas o punia intensamente, vv. 16-17. Sua aflição era:

(1.) Penosa, muito penosa; extraordinária, extremamente extraordinária. Deus o caçava como um leão feroz caça e alcança a presa. Não apenas se mostrava estranho a Jó, mas agia de maneira extraordinária contra ele, trazendo-lhe aflições incomuns e tornando-o um prodígio, um espanto para muitos.

Todos se admiravam de que Deus infligisse tanto sofrimento e de que Jó conseguisse suportá-lo. O que tornava suas aflições mais penosas era sentir nelas a indignação de Deus: isso lhes dava gosto tão amargo e peso tão grande.

Eram testemunhas de Deus contra ele, sinais de seu desagrado. Isso transformava as feridas do corpo em feridas do espírito.

(2.) Sua aflição crescia, ficando continuamente pior. Jó insiste muito nisso: quando esperava que a maré virasse e começasse a baixar, ela subia cada vez mais. Cresciam a aflição e a indignação de Deus que Jó percebia nela. Ele não se sentia melhor, de modo algum melhor.

As testemunhas contra ele se renovavam para que, se uma não bastasse para declará-lo culpado, outra o fizesse. Mudanças e guerra se voltavam contra ele. Se alguma coisa mudava, não era para melhor; Jó continuava em estado de guerra.

Enquanto estivermos neste mundo, devemos esperar que as nuvens voltem depois da chuva; talvez as provações mais penosas e duras estejam reservadas para o fim.

Deus estava em guerra com Jó, e essa era uma grande mudança. Não costumava tratá-lo assim, o que agravava a aflição e a tornava realmente extraordinária.

Em geral, Deus se mostra bondoso com seu povo. Se por algum tempo parece agir de outro modo, essa é sua obra estranha, seu ato estranho; nisso ele se mostra extraordinário.

  1. Jó queixa-se da própria vida e de ter nascido para enfrentar toda essa aflição e miséria (vv. 18-19): “Se esse era o destino reservado para mim, por que saí do ventre? Por que não fui sufocado ali ou ao nascer?”

Essa era a linguagem de sua paixão, uma recaída no mesmo pecado cometido antes. Acabara de chamar a vida de favor (v. 12); agora a chama de fardo e discute com Deus por tê-la dado, ou melhor, imposto a ele.

O sr. Caryl interpreta isso favoravelmente a Jó: “Podemos supor por caridade”, diz, “que o que o afligia era estar numa condição de vida que, segundo pensava, o impedia de cumprir o principal propósito da vida: glorificar a Deus.”

“Sua harpa estava pendurada nos salgueiros, e ele não tinha a disposição necessária para louvar a Deus. Mais ainda, temia que as aflições trouxessem desonra a Deus e dessem aos inimigos ocasião de blasfemar.”

“Por isso desejava: ‘Ah, se eu tivesse morrido!’ O homem piedoso considera sua vida inútil se não vive para o louvor e a glória de Deus.”

Se era esse o pensamento de Jó, ele se baseava num engano, pois podemos glorificar o Senhor no meio do fogo. Podemos, contudo, aprender com isso a não nos apegar demais à vida.

Às vezes, até homens sábios e bons chegaram a uma condição na qual se queixaram da vida. Por que temeríamos morrer ou cobiçaríamos ser vistos pelos homens, se pode chegar o dia em que desejaremos ter morrido sem que olho algum nos visse?

Por que lamentaríamos desmedidamente a morte de nossos filhos ainda pequenos, que ficam como se nunca tivessem existido e são levados do ventre à sepultura, quando talvez em algum momento desejemos que esse tivesse sido nosso próprio destino?

II. Os pedidos humildes de Jó. Ele ora:

  1. Para que Deus veja sua aflição (v. 15), tome conhecimento de sua situação e a considere com compaixão. Davi também ora assim (Salmos 25:18): “Olha para minha aflição e minha dor”.

Em meio às dificuldades, devemos entregar-nos a Deus dessa maneira e podemos consolar-nos com o fato de que ele conhece nossa alma na adversidade.

  1. Para que Deus lhe conceda algum alívio. Se não conseguisse a remoção da aflição, não poderia ao menos obter uma pausa?

“Senhor, não me deixes sempre na tortura, sempre no limite do sofrimento: ah, deixa-me em paz, para que eu tome um pouco de consolo!”, v. 20. “Concede-me alguma trégua, um tempo para respirar, um pouco de tranquilidade para desfrutar da minha própria vida.” Jó consideraria isso um grande favor.

Quem não agradece devidamente pelo alívio constante deveria pensar em quão bem-vinda seria uma hora de alívio se vivesse em dor constante. Jó apresenta dois argumentos:

(1.) A vida e sua luz eram muito breves: “Não são poucos os meus dias?”, v. 20. Sim, certamente são, muito poucos. “Senhor, não permita que todos sejam miseráveis, todos marcados pelo extremo sofrimento. Tenho pouco tempo de vida; deixe-me desfrutar algum consolo enquanto ela durar.”

Esse argumento apela à bondade da natureza divina, cuja consideração traz grande consolo ao espírito aflito.

Se o usarmos diante de Deus para pedir misericórdia — “Não são poucos os meus dias? Senhor, tenha piedade de mim” —, devemos usá-lo também para nos estimular a cumprir nosso dever:

“Não são poucos os meus dias? Então preciso aproveitar bem o tempo e as oportunidades, fazer com toda a força o que minha mão encontrar para fazer, a fim de estar pronto para os dias da eternidade, que serão muitos.”

(2.) A morte e suas trevas estavam muito próximas e durariam muito tempo (vv. 21-22): “Senhor, dê-me algum alívio antes que eu morra”, isto é, “para que eu não morra de dor”.

Davi apela de modo semelhante (Salmos 13:3): “Para que eu não durma o sono da morte”. Então seria tarde demais para esperar alívio, pois “mostrarás maravilhas aos mortos?”, Salmos 88:10.

“Deixe-me ter um pouco de consolo antes que eu morra, para que eu me despeça deste mundo com calma, não na confusão em que agora estou.” Devemos buscar a graça com igual fervor e orar assim:

“Senhor, renove-me no homem interior; Senhor, santifique-me antes que eu morra, pois depois já não poderá ser feito.” Veja como Jó fala aqui da condição dos mortos.

[1.] É uma condição fixa, da qual jamais voltaremos a viver uma vida como esta, Jó 7:10. Ao morrer, despedimo-nos definitivamente deste mundo. O corpo será colocado onde permanecerá por muito tempo; a alma receberá sentença para o estado em que ficará para sempre. Aquilo que só será feito uma vez, e com consequências eternas, precisa ser bem feito.

[2.] É uma condição muito sombria, ao menos como nos parece. Na morte, as almas santas vão para uma terra de luz, onde não há morte; deixam, porém, o corpo numa terra de trevas e sombra da morte.

Jó acumula expressões de igual sentido para mostrar que tem, como os demais homens, um temor natural da morte e da sepultura. Somente a extrema miséria em que vivia o levava a desejá-las. Vamos olhar um pouco dentro da sepultura; encontraremos:

Primeiro, que ali não há ordem: é noite perpétua, sem sucessão de dias. Todos estão no mesmo nível, sem distinção entre príncipe e camponês; ali o servo está livre do senhor, Jó 3:19.

Nenhuma ordem é observada ao levar as pessoas à sepultura: não vai primeiro o mais velho, nem o mais rico, nem o mais pobre. Contudo, cada um vai na sua ordem, a ordem designada pelo Deus da vida.

Segundo, que ali não há luz. Na sepultura há trevas densas, trevas que, é verdade, não podem ser sentidas, mas não deixam de ser temidas por quem desfruta a luz da vida.

Na sepultura não há conhecimento, consolo, alegria, louvor a Deus nem trabalho pela nossa salvação; portanto, não há luz. Jó tinha tanta vergonha de que outros vissem suas feridas, e tanto medo de vê-las ele próprio, que as trevas da sepultura, capazes de escondê-las e encobri-las, lhe seriam bem-vindas por esse motivo.

As trevas se aproximam; por isso, caminhemos e trabalhemos enquanto temos a luz. Como a sepultura é terra de trevas, é bom que sejamos levados até lá de olhos fechados; assim, faz pouca diferença.

A sepultura é terra de trevas para o homem. Consideramos que os amigos que foram para lá passaram às trevas, Salmos 88:18.

Para Deus, porém, não é assim. A prova é que o pó do corpo dos santos, embora disperso e misturado com outro pó, não se perderá em nenhuma de suas partes. Os olhos de Deus estão sobre cada grão, e tudo reaparecerá no grande dia.


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