Matthew Henry

Jó 11

Argumento

As feridas do pobre Jó ainda sangravam, e sua chaga continuava a supurar sem cessar, mas nenhum dos amigos lhe trouxe azeite ou bálsamo. Zofar, o terceiro, derrama nelas tanto vinagre quanto os dois primeiros.

I. Faz uma acusação gravíssima contra Jó, chamando-o de orgulhoso e falso por justificar a si mesmo, vv. 1-4. II. Recorre a Deus para convencê-lo e pede que Deus o confronte (v. 5), a fim de que Jó reconheça:

  1. A sabedoria infalível e a justiça inviolável de Deus, v. 6. 2. Suas perfeições insondáveis, vv. 7-9. 3. Sua soberania incontestável e seu poder irresistível, v. 10. 4. A atenção que dedica aos filhos dos homens, v. 11, 12.

III. Assegura-lhe que, mediante arrependimento e reforma de vida (v. 13, 14), Deus restauraria sua antiga prosperidade e segurança (vv. 15-19). Se, porém, Jó fosse perverso, esperá-las seria inútil, v. 20.

Versículos 1 a 6

O Discurso de Zofar. (a.C. 1520.)

É triste ver a que paixões descontroladas até homens sábios e bons às vezes se deixam levar no calor da discussão. Zofar é um exemplo disso. Elifaz começou com uma introdução muito modesta (Jó 4:2). Bildade foi um pouco mais ríspido com Jó (Jó 8:2).

Zofar, porém, o ataca sem piedade e lhe dirige palavras muito duras: “Deveria ser justificado um homem cheio de palavras? E deveriam tuas mentiras calar os homens?” É assim que se consola Jó? Não, e tampouco é assim que se convence alguém.

Isso convém a quem se apresenta como defensor de Deus e de sua justiça? Tantæne animis coelestibus iræ? — Pode tamanho ressentimento morar em corações celestiais? Quem entra em controvérsia descobre como é difícil manter a calma.

Toda a sabedoria, cautela e firmeza de que dispõe mal bastarão para impedir que incorra em indecências como as que vemos em Zofar.

I. Ele retrata Jó como alguém que não era, v. 2, 3. Quer que o considerem ocioso e impertinente em suas palavras, alguém que gostava de ouvir a própria voz. Chama-o de mentiroso e zombador, tudo para que castigá-lo pareça justo.

Quem quer brigar com os irmãos e atacá-los ferozmente acha necessário pintá-los e retratar suas ações com as piores cores possíveis e, com ou sem razão, torná-los odiosos.

Lemos e examinamos os discursos de Jó nos capítulos anteriores e vimos que contêm muito bom senso e são bastante pertinentes: seus princípios são corretos, seus argumentos, sólidos, e muitas de suas expressões, ponderosas e muito significativas.

Quanto ao ardor e à paixão que neles há, um pouco de benevolência e caridade bastaria para desculpá-los e relevá-los. Ainda assim, Zofar o retrata maliciosamente:

  1. Como alguém que nunca pensava no que dizia, mas soltava a primeira coisa que lhe vinha à cabeça para fazer barulho com a multidão de palavras, esperando assim vencer a causa e desacreditar seus censores: “Não se responderá à multidão de palavras?”

Na verdade, às vezes pouco importa se receberão resposta ou não; talvez o silêncio seja a melhor refutação da impertinência e a forma mais clara de desprezá-la. “Não respondas ao insensato segundo a sua insensatez.” Mas, se houver resposta, que a deem a razão e a graça, não o orgulho e a paixão.

“Deveria ser justificado um homem cheio de palavras?” A margem diz “homem de lábios”, isto é, alguém que é só língua, vox et præterea nihil — mera voz.

Deveria ser considerado certo seu falatório, como na prática seria se não o censurassem por isso? Não, pois “na multidão de palavras não falta pecado”. Deveria ser justificado por falar muito? Uma profusão de palavras pode valer como argumento legítimo?

Vencerá a disputa com floreios de linguagem? Não. Nem Deus nem homens sábios o aceitarão por seu muito falar (Mateus 6:7).

  1. Como alguém que não fazia caso da consciência no que dizia: mentiroso que esperava, pelo descaramento de suas mentiras, silenciar os adversários — “Deveriam tuas mentiras calar os homens?” — e zombador que ridicularizava toda a humanidade.

Sabia dar falsa aparência a qualquer coisa e não se envergonhava de enganar todos com quem conversava: “Quando zombas, ninguém te fará passar vergonha?” Não é hora de falar e conter uma corrente tão violenta?

Jó não estava louco; falava palavras de verdade e sobriedade, mas foi assim deturpado. Elifaz e Bildade já lhe tinham respondido e feito o que podiam para envergonhá-lo. Portanto, não foi generoso da parte de Zofar atacar com tanta violência um homem já tão acossado. Eram três contra um.

II. Zofar acusa Jó de dizer o que não disse (v. 4): “Disseste: ‘Minha doutrina é pura’”. E se Jó o tivesse dito? Era verdade que tinha fé sã e juízo ortodoxo e que falava de Deus melhor que seus amigos.

Mesmo que tivesse se expressado sem cuidado, disso não se seguiria que sua doutrina fosse falsa. Zofar, porém, acusa-o de dizer: “Sou limpo aos teus olhos”. Jó não dissera isso.

De fato, havia dito: “Tu sabes que não sou perverso” (Jó 10:7). Também dissera: “Pequei”, e jamais alegara perfeição sem mancha. Sustentara que não era hipócrita, como os amigos o acusavam, mas insinuar daí que ele não admitiria ser pecador era injusto.

Devemos dar às palavras e ações dos irmãos a melhor interpretação que elas permitam; os que disputam, porém, são tentados a dar-lhes a pior.

III. Zofar recorre a Deus e deseja que ele se manifeste contra Jó. Está tão certo de que Jó não tem razão que só se contentará se Deus aparecer imediatamente para calá-lo e condená-lo.

É comum que, com confiança excessiva, nos apressemos a envolver Deus em nossas disputas e a concluir que, se ele falasse, tomaria nosso partido e falaria por nós. Assim faz Zofar: “Ah, se Deus falasse!”, pois ele certamente abriria os lábios contra Jó. Quando Deus falou, porém, abriu os lábios em favor de Jó e contra os três amigos.

De fato, devemos deixar que todas as controvérsias sejam decididas pelo juízo de Deus, que sabemos ser conforme a verdade. Mas nem sempre têm razão aqueles que se apressam a recorrer a esse juízo e antecipam a sentença contra os adversários.

Zofar não espera convencer Jó por si mesmo. Por isso, deseja que Deus o convença de duas coisas que convém a todos nós considerar devidamente e reconhecer com alegria em meio a todas as aflições:

  1. A profundidade insondável dos conselhos de Deus. Zofar não pode alegar que a mostrará, mas deseja que o próprio Deus revele a Jó o bastante dos segredos da sabedoria divina para convencê-lo de que eles são ao menos o dobro do que se vê, v. 6. Repare:

(1.) Há segredos na sabedoria divina, arcana imperii — segredos de governo. O caminho de Deus está no mar; nuvens e escuridão o rodeiam. Ele tem razões de governo que não podemos sondar nem devemos investigar com indiscrição.

(2.) O que sabemos de Deus não é nada comparado com o que não podemos saber. Aquilo que está oculto é mais do que o dobro daquilo que se mostra (Efésios 3:9).

(3.) Ao nos dedicarmos a adorar a profundidade dos conselhos divinos cujo fundo não conseguimos alcançar, tranquilizaremos muito nossa mente sob a mão de Deus que nos aflige.

(4.) Deus conhece muito mais mal em nós do que nós mesmos conhecemos; assim alguns entendem a passagem. Quando Deus deu a Davi a percepção e consciência do pecado, Davi disse que Deus lhe fizera conhecer sabedoria no íntimo (Salmos 51:6).

  1. A justiça irrefutável dos procedimentos de Deus. “Saiba, portanto, que, por mais severa que seja a correção que você sofre, Deus exige de você menos do que sua iniquidade merece”; ou, segundo outra leitura, “perdoa-lhe parte da iniquidade e não o trata conforme toda a culpa que ela merece”. Repare:

(1.) Quando não se paga a dívida do dever, é justo exigir o pagamento da dívida do castigo.

(2.) Seja qual for o castigo que recebamos neste mundo, devemos reconhecer que é menor do que nossas iniquidades merecem. Portanto, em vez de nos queixarmos das aflições, devemos agradecer por não estarmos no inferno (Lamentações 3:39; Salmos 103:10).

Versículos 7 a 12

Zofar fala aqui coisas muito boas acerca de Deus, de sua grandeza e glória, e acerca do homem, de sua vaidade e insensatez. Quando comparadas entre si e consideradas devidamente, essas verdades exercem poderosa influência sobre nossa submissão a todas as dispensações da Providência divina.

I. Veja aqui quem Deus é e adore-o.

  1. Ele é um Ser incompreensível, infinito e imenso. Nossa inteligência finita não pode formar uma ideia adequada de sua natureza nem de suas perfeições; por isso, seria a maior presunção julgar seus conselhos e suas ações.

Conhecemos tão pouco da natureza divina que somos juízes incompetentes da Providência divina. Quando censuramos suas dispensações, falamos de coisas que não compreendemos. Não podemos descobrir plenamente quem Deus é; como, então, ousamos encontrar nele algum defeito? Zofar mostra:

(1.) Que a natureza de Deus ultrapassa infinitamente a capacidade de nossa inteligência: “Você pode descobrir Deus, conhecê-lo até a perfeição? Não. O que pode fazer? O que pode saber?”, v. 7, 8.

Você, criatura pobre, fraca e de visão curta, verme da terra que existe desde ontem? Mesmo que busque a Deus com toda a curiosidade, desejo e diligência, ousará empreender tal busca ou poderá esperar concluí-la com êxito?

Buscando, podemos encontrar Deus (Atos 17:27), mas não descobrir o que ele prefere ocultar. Podemos percebê-lo, mas não compreendê-lo; podemos saber que ele existe, mas não conhecer plenamente sua natureza. O olho pode ver o oceano, mas não enxergar além dele.

Por uma busca humilde, diligente e cheia de fé, podemos descobrir algo de Deus, mas não conhecê-lo perfeitamente. Podemos saber algo do que ele é, mas não tudo; tampouco podemos compreender sua obra do princípio ao fim (Eclesiastes 3:11). Repare: Deus é insondável.

Não se podem contar as eras de sua eternidade nem medir a extensão de sua imensidão; não se podem sondar as profundezas de sua sabedoria nem estabelecer limites ao alcance de seu poder; jamais se poderá descrever o brilho de sua glória nem enumerar os tesouros de sua bondade.

Essa é boa razão para sempre falar de Deus com humildade e cautela, sem lhe prescrever o que fazer nem contender com ele. Devemos ser gratos pelo que revelou de si mesmo e ansiar por estar onde o veremos como ele é (1 Coríntios 13:9, 10).

(2.) Que essa natureza ultrapassa infinitamente os limites de toda a criação. É mais alta que o céu, segundo alguns, mais profunda que o inferno, o grande abismo, mais comprida que a terra e mais larga que o mar, cujas muitas regiões continuam desconhecidas hoje, e um número ainda maior o era então.

Compreender a natureza de Deus está inteiramente fora de nosso alcance. Esse conhecimento é maravilhoso demais para nós (Salmos 139:6). Não podemos sondar os desígnios de Deus nem descobrir os motivos de seus procedimentos. Seus juízos são um grande abismo.

Paulo atribui ao amor divino dimensões tão imensuráveis quanto as que Zofar atribui aqui à sabedoria divina e, ainda assim, recomenda que o conheçamos (Efésios 3:18, 19): para que conheçamos a largura, o comprimento, a profundidade e a altura do amor de Cristo.

  1. Deus é Senhor soberano (v. 10). Se ele eliminar alguém pela morte — a margem diz “se fizer uma mudança”, pois a morte é uma mudança; se mudar as nações, as famílias ou a situação de nossos assuntos —, se o encerrar na prisão ou na rede da aflição (Salmos 66:11), quem poderá impedi-lo?

Se agarrar alguma criatura como o caçador agarra a presa, ele a recolherá, segundo o bispo Patrick; quem o obrigará a devolvê-la? Se juntar pessoas como joio para o fogo, ou recolher a si o espírito e o fôlego do homem (Jó 34:14), quem poderá detê-lo?

Quem pode suspender a sentença ou opor-se à sua execução? Quem pode controlar seu poder ou contestar sua sabedoria e justiça em juízo?

Se aquele que fez tudo do nada achar conveniente reduzir tudo ao nada ou ao caos original, ou se aquele que no princípio separou luz de trevas e terra seca de mar quiser juntá-los novamente, quem poderá impedi-lo? Se quem criou desfizer a criação, quem poderá dissuadi-lo, mudar sua decisão, deter sua mão ou impedir e acusar seus procedimentos?

  1. Deus observa os filhos dos homens com rigor e justiça (v. 11): “Ele conhece os homens vãos”. Conhecemos pouco dele, mas ele nos conhece perfeitamente. Também vê a perversidade, não para aprová-la (Habacuque 1:13), mas para censurá-la.

(1.) Observa os homens vãos. Todos o são — todo homem, mesmo em sua melhor condição, é inteiramente vaidade —, e Deus leva isso em conta ao lidar com eles.

Sabe quais são os projetos e as esperanças dos homens vãos, produtos de suas fantasias tolas, e pode arruiná-los e frustrá-los. Assentado no céu, ri deles.

Deus toma conhecimento da vaidade dos homens, isto é, dos pecados menores, segundo alguns: pensamentos e palavras vãs e a inconstância na prática do bem.

(2.) Observa os homens maus. Vê também a perversidade grave, por mais secretamente que seja praticada e por mais habilmente que a disfarcem e encubram. Toda a perversidade dos maus está nua e patente diante dos olhos de Deus, que tudo veem. Não a considerará? Certamente sim, e pedirá contas dela, ainda que por algum tempo pareça calado.

II. Veja aqui quem é o homem e humilhe-se, v. 12. Deus vê que o homem vão quer ser sábio e parecer sábio, embora nasça como filhote de jumento selvagem: tolo e insensato, incapaz de aprender ou de ser domesticado. Veja quem é o homem:

  1. É criatura vã, vazia: esse é o sentido da palavra. Deus o fez pleno, mas ele se esvaziou e empobreceu. Agora é raca, uma criatura que nada possui em si.

  2. É criatura insensata. Tornou-se como os animais que perecem (Salmos 49:20; Salmos 73:22): um idiota, nascido como jumento, o mais estúpido dos animais, um filhote de jumento ainda não preparado para serviço algum.

Se algum dia vier a servir para alguma coisa, será graças a Cristo, que, no dia de seu triunfo, serviu-se de um filhote de jumento.

  1. É criatura obstinada e indomável. Um filhote de jumento comum pode tornar-se útil; o de um jumento selvagem, porém, jamais será domesticado nem atende ao chamado do condutor. Veja Jó 39:5-7.

O homem se julga tão livre e senhor de si quanto o filhote de jumento selvagem acostumado ao deserto (Jeremias 2:24), ansioso por satisfazer os próprios apetites e paixões.

  1. Ainda assim, é criatura orgulhosa e convencida. Quer ser sábio e ser considerado sábio; preza a honra da sabedoria, mas não se sujeita às suas leis. Quer ser sábio, isto é, busca uma sabedoria proibida e, como seus primeiros pais, ao tentar ser sábio acima do que está escrito, perde a árvore da vida pela árvore do conhecimento.

É adequado que criatura assim contenda com Deus ou lhe peça contas? Se conhecêssemos melhor a Deus e a nós mesmos, saberíamos melhor como nos conduzir diante dele.

Versículos 13 a 19

Assim como os outros dois, Zofar anima Jó a esperar tempos melhores, se ele adotar uma disposição melhor.

I. Dá-lhe bons conselhos (v. 13, 14), como Elifaz (Jó 5:8) e Bildade (Jó 8:5) haviam feito. Quer que Jó se arrependa e volte a Deus. Observe os passos desse retorno:

  1. Jó deve olhar para dentro de si, mudar sua mente e tornar boa a árvore. Deve preparar o coração, pois é nele que a conversão e a reforma de vida devem começar.

O coração que se afastou de Deus deve ser reconduzido; o que o pecado contaminou e desordenou deve ser purificado e posto em ordem; o que vacilava e não estava firme deve ser firmado e estabelecido. É isso que a palavra aqui significa.

O coração está preparado para buscar a Deus quando está decidido e plenamente resolvido a dedicar-se a isso e a perseverar até o fim.

  1. Jó deve olhar para cima e estender as mãos para Deus. Isto é, deve estimular a si mesmo a apegar-se a ele e orar com fervor e insistência, empenhando-se na oração e esperando receber misericórdia e graça.

Dar a mão ao Senhor significa entregar-nos a ele e fazer aliança com ele (2 Crônicas 30:8). Jó deve fazer isso e, para fazê-lo, preparar o coração. Ele já havia orado, mas Zofar quer que ore de maneira melhor: não como alguém que recorre a um tribunal, e sim como quem faz uma petição e suplica humildemente.

  1. Jó deve corrigir o que está errado em sua própria conduta; do contrário, suas orações não terão efeito (v. 14): “Se houver iniquidade em tua mão, afasta-a de ti.” Isto é, se ainda pratica algum pecado, deve abandoná-lo com repulsa e santa indignação, firmemente resolvido a não voltar a ele nem ter mais nada com ele (Ezequiel 18:31; Oseias 14:9; Isaías 30:22).

“Se tens nas mãos algum lucro da iniquidade, bens obtidos por fraude ou opressão, faz restituição deles”, como Zaqueu (Lucas 19:8), “e sacode as mãos para não os reter” (Isaías 33:15). A culpa do pecado não é removida se o ganho obtido com ele não é devolvido.

  1. Jó deve fazer o máximo para reformar também sua família: “Não deixes a perversidade morar em tuas tendas; não permitas que tua casa acolha nem abrigue pessoas perversas, práticas perversas ou riquezas obtidas por perversidade”.

Zofar suspeitava que Jó governara mal sua numerosa casa, que onde havia muitas pessoas havia muitos perversos e que a ruína da família fora o castigo por essa perversidade. Por isso, se esperava que Deus voltasse para ele, deveria corrigir o que estava errado ali.

Ainda que a perversidade entrasse em suas tendas, Jó não deveria permitir que ali morasse (Salmos 101:3, etc.).

II. Zofar lhe assegura consolo se seguir esses conselhos, v. 15, etc. Se Jó se arrepender e reformar sua vida, sem dúvida terá paz e felicidade, e tudo ficará bem.

Talvez Zofar insinuasse que, se Deus não produzisse logo tal mudança na condição de Jó, ele e os amigos se sentiriam confirmados na opinião de que Jó era hipócrita e fingido diante de Deus.

Ainda assim, ele transmite uma grande verdade: “A obra da justiça será paz, e o efeito da justiça, tranquilidade e segurança para sempre” (Isaías 32:17). Aqueles que sinceramente retornam a Deus podem esperar:

  1. Santa confiança diante de Deus: então Jó levantará o rosto para o céu sem mancha e poderá aproximar-se com ousadia do trono da graça, sem aquele terror e espanto de que falou (Jó 9:34).

Se nosso coração não nos condena por hipocrisia e falta de arrependimento, temos confiança ao nos aproximarmos de Deus e ao esperar nele (1 João 3:21). Se somos olhados na face do Ungido, nosso rosto antes abatido pode erguer-se; antes contaminado, agora lavado no sangue de Cristo, pode erguer-se sem mancha.

Podemos nos aproximar com plena certeza da fé quando nosso coração tiver sido aspergido para afastar a má consciência (Hebreus 10:22). Alguns entendem isso como restauração da boa reputação de Jó diante dos homens (Salmos 37:6). Se fizermos as pazes com Deus, poderemos olhar alegremente os amigos no rosto.

  1. Santa serenidade interior: “Ficarás firme e não temerás”, não te assustarás com más notícias, pois teu coração estará firme (Salmos 112:7).

Jó estava então cheio de confusão (Jó 10:15), enquanto via Deus como inimigo e contendia com ele. Zofar lhe assegura que, se se submetesse e se humilhasse, sua mente se aquietaria e ele ficaria livre das terríveis apreensões a respeito de Deus que tanto o agitavam.

Quanto menos assustados estivermos, mais firmes seremos e, portanto, mais aptos a cumprir nossos deveres e a suportar nossos sofrimentos.

  1. Lembrança reconfortante das aflições passadas (v. 16): “Esquecerás tua miséria”, como a mãe esquece as dores do parto pela alegria de ter nascido o filho. Jó ficará completamente livre das marcas que ela lhe deixou.

Jó recordará a miséria como águas que passaram ou foram derramadas de uma vasilha, sem deixar sabor nem cor, como deixam outros líquidos. As feridas de sua aflição atual serão plenamente curadas, sem restar cicatriz nem dor.

Jó havia tentado esquecer sua queixa (Jó 9:27), mas descobrira que não podia; sua alma ainda se lembrava do absinto e do fel. Aqui, porém, Zofar lhe indica como esquecer: que, pela fé e pela oração, leve a Deus suas dores e preocupações, deixe-as com ele e então se esquecerá delas.

Onde o pecado pesa muito, a aflição pesa pouco. Se nos lembrarmos devidamente de nossos pecados, em comparação com eles esqueceremos nossa miséria; com maior razão se recebermos o consolo de um perdão confirmado e uma paz estabelecida.

Quem teve a iniquidade perdoada não dirá: “Estou doente”; antes, se esquecerá da enfermidade (Isaías 33:24).

  1. Perspectiva reconfortante da paz futura. Zofar pensa agradar Jó com isso, em resposta às muitas expressões de desespero com que ele dissera ser inútil esperar voltar a ver dias bons neste mundo: “Sim, mas você pode”, diz Zofar, “e boas noites também”. Ele lhe dá esperança de uma mudança abençoada.

(1.) Embora a luz de Jó esteja agora eclipsada, voltará a brilhar, ainda mais intensamente do que antes (v. 17). Até o sol de seu entardecer será mais brilhante que o sol do meio-dia, e seu entardecer será belo e claro como a manhã, tanto em honra quanto em prazer.

Sua luz brilhará da obscuridade (Isaías 58:10). A nuvem espessa e escura de trás da qual seu sol surgirá só servirá para realçar seu esplendor. A luz brilhará até em sua velhice, e aqueles dias maus se tornarão bons para ele.

Repare: os que verdadeiramente retornam a Deus começam então a resplandecer. Seu caminho é como a luz brilhante, que aumenta; o fim de seu dia será a perfeição dessa luz, e seu entardecer neste mundo será a manhã num mundo melhor.

(2.) Embora agora viva em temor e terror contínuos, Jó viverá em santo descanso e segurança, sempre protegido e em paz (v. 18): “Estarás seguro, porque há esperança”.

Repare: quem tem, pela graça, boa esperança em Deus e no Céu está certamente protegido e tem motivo para sentir-se seguro, por mais difíceis que sejam os tempos que atravesse neste mundo. Quem anda retamente pode andar com confiança porque, embora haja aflições e perigos, também há esperança de que tudo acabará bem.

A esperança é âncora da alma (Hebreus 6:19). “Cavarás ao teu redor”, isto é, “estarás tão seguro quanto um exército entrincheirado”.

Os que se submetem ao governo de Deus serão acolhidos sob sua proteção e ficarão seguros de dia e de noite:

[1.] De dia, enquanto trabalham fora de casa: “Cavarás em segurança, tu e teus servos por ti, e não voltarás a sofrer o ataque dos saqueadores que se lançaram sobre teus servos enquanto lavravam” (Jó 1:14, 15).

A prosperidade prometida não significa viver ocioso, mas ter uma ocupação e exercê-la sob proteção divina. “Cavarás e estarás seguro”, não “roubarás e estarás seguro” nem “te entregarás à farra e estarás seguro”. O caminho do dever é o caminho da segurança.

[2.] À noite, enquanto descansam em casa: “Repousarás em segurança”, e o sono do trabalhador é doce, apesar dos perigos da escuridão. A coluna de nuvem durante o dia será coluna de fogo durante a noite:

“Deitar-te-ás (v. 19), sem seres obrigado a vaguear sem lugar para repousar a cabeça, nem a ficar acordado e vigilante à espera de ataques. Irás para a cama na hora habitual, e não só ninguém te ferirá, como ninguém te fará temer nem te dará motivo de alarme”.

Repare: noites tranquilas e sono sem perturbação são grandes misericórdias; quem ouve os ruídos da guerra sabe disso. O caminho da tranquilidade é buscar a Deus e permanecer em seu amor. Nada precisa atemorizar os que retornam a Deus como seu descanso e fazem dele sua morada.

(3.) Embora agora seja desprezado, Jó voltará a ser procurado: “Muitos solicitarão teu favor e considerarão vantajoso conquistar tua amizade”. Busca-se o favor daqueles que se destacam pela sabedoria, ou são considerados sábios, e dos muito ricos ou poderosos.

Zofar conhecia Jó tão bem que previa que, por mais baixa que estivesse a maré, quando voltasse a subir, subiria tanto quanto antes. Jó voltaria a ser o querido de sua terra. Os que buscam devidamente o favor de Deus provavelmente verão o dia em que outros lhes pedirão favor, como as virgens insensatas às prudentes: “Dai-nos do vosso azeite”.

III. Zofar conclui com um breve relato da condenação dos perversos (v. 20): “Mas os olhos dos perversos desfalecerão”. Ao que parece, suspeitava que Jó não seguiria seus conselhos; aqui lhe diz qual seria o resultado, pondo diante dele a morte e a vida.

Veja o que acontecerá aos que persistem na perversidade e não querem reformar-se:

  1. Não alcançarão o bem que se iludem esperando para si neste mundo e no outro. A decepção será sua condenação, sua vergonha e seu tormento sem fim. Seus olhos desfalecerão esperando o que nunca virá. Quando o perverso morre, perece sua expectativa (Provérbios 11:7).

Sua esperança será como um sopro, segundo a margem: desaparecerá sem possibilidade de retorno. Ou sua esperança morrerá e expirará como um homem ao entregar o espírito. Ela lhes faltará quando mais precisarem dela e esperarem sua realização; se extinguirá e os deixará em completa confusão.

  1. Não evitarão o mal de que às vezes se amedrontam só de pensar. Não escaparão à execução da sentença proferida contra eles; não conseguirão enfrentá-la com arrogância nem fugir mais depressa que ela. Os que não querem fugir para Deus descobrirão que é inútil tentar fugir dele.

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