Matthew Henry

Jó 7

Argumento

Neste capítulo, Jó continua a expressar quanto suas calamidades lhe eram amargas e a justificar seu desejo de morrer. I. Queixa-se a si mesmo e aos amigos das aflições e da inquietação constante em que vive, vv. 1-6.

II. Volta-se a Deus e argumenta com ele (do v. 7 até o fim). Nessa fala, 1. Apela para o fim definitivo que a morte impõe à nossa condição presente, vv. 7-10. 2. Queixa-se com intensidade da condição miserável em que se encontra, vv. 11-16.

  1. Admira-se de que Deus contenda com ele e pede o perdão de seus pecados e a rápida libertação de suas misérias, vv. 17-21. É árduo organizar metodicamente as palavras de alguém que reconhecia estar quase desesperado, Jó 6:26.

Versículos 1 a 6

A Resposta de Jó a Elifaz. (a.C. 1520.)

Jó procura aqui desculpar aquilo que não podia justificar: seu desejo desmedido de morrer. Por que não desejaria o fim da vida, que poria fim às suas misérias? Para reforçar essa razão, ele raciocina:

I. A partir da condição geral do homem na terra (v. 1): “Ele tem poucos dias e é cheio de aflições. Todo homem morrerá em breve, e todo homem tem algum motivo, maior ou menor, para desejar morrer logo. Por que, então, atribuir-me como crime tão grave o desejo de morrer logo?”

Ou assim: “Peço que não entendam mal meu desejo de morrer, como se eu pensasse ser possível antecipar o momento designado por Deus. Não: sei muito bem que ele está determinado. Com essas palavras apenas me permito expressar minha presente angústia.”

“Não há um tempo designado, uma campanha militar, como diz o termo, para o homem sobre a terra? E não são seus dias aqui semelhantes aos de um trabalhador contratado?”

Observe: 1. O lugar presente do homem. Ele está sobre a terra, que Deus deu aos filhos dos homens, Salmos 115:16. Isso mostra sua pequenez e condição inferior. Como está abaixo dos habitantes daquelas regiões elevadas e puras!

Também mostra a misericórdia de Deus para com ele: ainda está sobre a terra, não sob ela; na terra, não no inferno. Nosso tempo aqui é limitado e curto, conforme os limites estreitos desta terra; o céu, porém, não pode ser medido, nem os dias do céu contados.

  1. Sua permanência nesse lugar. Não há um tempo designado para sua estada aqui? Sim: certamente há; e é fácil dizer quem o designou: aquele que nos fez e aqui nos colocou.

Não permaneceremos nesta terra para sempre nem por muito tempo, mas por um período certo, determinado por aquele em cuja mão estão nossos tempos. Não devemos pensar que somos governados pela fortuna cega dos epicureus, e sim pelo conselho sábio, santo e soberano de Deus.

  1. Sua condição durante essa permanência. A vida do homem é uma campanha militar e se assemelha aos dias de um trabalhador contratado. Cada um de nós deve considerar-se neste mundo:

(1.) Soldado, exposto a agruras e cercado de inimigos. Devemos servir e obedecer a ordens. Quando terminar nossa campanha, seremos desmobilizados e dispensados, com vergonha ou honra, conforme o que tivermos feito no corpo.

(2.) Trabalhador diarista, que precisa realizar a tarefa do dia enquanto ainda é dia e prestar contas à noite.

II. A partir de sua condição naquele momento. Jó pensava ter tantos motivos para desejar a morte quanto um pobre servo ou trabalhador contratado, cansado do serviço, para desejar as sombras da tarde, quando receberia seu denário e iria descansar, v. 2.

A escuridão da noite é tão bem-vinda ao trabalhador quanto a luz da manhã ao vigia, Salmos 130:6. O Deus da natureza providenciou descanso aos trabalhadores; não admira que o desejem. “Doce é o sono do trabalhador” (Eclesiastes 5:12).

Nenhum prazer agrada tanto ao amante do luxo quanto o repouso agrada ao trabalhador. Nenhum rico sente tanta satisfação quando chega o dia de receber seus aluguéis quanto o diarista sente ao receber o salário do dia.

A comparação é clara. A aplicação, breve e um tanto obscura, fica fácil se suprirmos uma ou duas palavras: não se deve esperar precisão de linguagem de alguém na condição de Jó.

“Assim como o servo deseja ardentemente a sombra, eu, pelo mesmo motivo, desejo ardentemente a morte, pois me coube possuir...” Ouçamos sua queixa.

  1. Seus dias eram inúteis, e assim tinham sido por muito tempo. Jó fora inteiramente afastado de seus afazeres e estava totalmente incapaz de retomá-los. Cada dia lhe era um fardo, porque não tinha condições de fazer o bem nem de empregá-lo em algo proveitoso.

Et vitæ partem non attigit ullam: não conseguia preencher o tempo com coisa alguma que produzisse resultado. Ele chama isso de possuir meses de vaidade, v. 3. Para um homem bom, é especialmente penoso que a doença e a velhice o obriguem a deixar de ser útil.

Jó insiste menos no fato de não ter prazer nesses dias do que no de não fazer o bem durante eles; por isso são meses de vaidade. Mas, quando somos incapazes de trabalhar para Deus, basta que permaneçamos serenamente à sua espera; seremos aceitos do mesmo modo.

  1. Suas noites eram inquietas, vv. 3-4. A noite alivia a fadiga e o cansaço do dia, não apenas para os trabalhadores, mas também para quem sofre. Se uma pessoa enferma conseguir dormir um pouco à noite, isso ajuda o corpo, e há esperança de que melhore, João 11:12.

Seja qual for a aflição, o sono oferece alguma interrupção às preocupações, sofrimentos e dores que nos atormentam: é um parêntese em nossos sofrimentos. O pobre Jó, porém, não conseguia obter esse alívio.

(1.) Suas noites eram exaustivas. Em vez de descansar, cansava-se ainda mais, revirando-se de um lado para outro até a manhã. Quem sente grande desconforto, por dor no corpo ou angústia na alma, tenta mudar de lado, lugar ou posição para encontrar algum alívio.

Mas, enquanto a causa interior permanece a mesma, tudo é inútil. Isso se assemelha ao espírito irritado e descontente, sempre a mudar de posição, mas nunca à vontade. Jó temia a noite tanto quanto o servo a desejava e, ao deitar-se, dizia: “Quando terminará a noite?”

(2.) Essas noites exaustivas lhe haviam sido designadas. Deus, que determina os tempos previamente designados, também lhe atribuira noites assim. Em qualquer coisa que nos seja penosa, é bom reconhecer aquilo que nos foi designado.

Desse modo podemos aceitar o acontecimento, não apenas por ser inevitável por ter sido designado, mas porque foi planejado a algum fim santo. Quando temos noites agradáveis, devemos reconhecer que também nos foram designadas e dar graças por elas: muitos que são melhores do que nós passam noites exaustivas.

  1. Seu corpo era repugnante, v. 5. Suas feridas criavam vermes, as crostas pareciam torrões de terra e a pele estava rachada: tão grave era a doença que se agarrara a ele.

Veja como é vil o corpo que temos e quão poucos motivos há para mimá-lo ou orgulhar-nos dele. Ele traz em si os princípios da própria corrupção. Por mais que hoje o estimemos, pode chegar o tempo em que o abominaremos e desejaremos livrar-nos dele.

  1. Sua vida se aproximava rapidamente do fim, v. 6. Jó julgava não ter motivos para esperar uma vida longa, pois sentia que declinava depressa: “Meus dias passam mais depressa que a lançadeira do tecelão”. Isto é: “Resta-me pouco tempo; há apenas alguns grãos de areia em minha ampulheta, e logo cairão”.

Os movimentos naturais são mais rápidos perto do centro. Jó pensava que seus dias passavam depressa porque acreditava estar chegando ao fim da jornada. Considerava-os quase terminados e, portanto, não tinha esperança de recuperar a antiga prosperidade.

Isso também se aplica à vida humana em geral. Nossos dias são como a lançadeira do tecelão, lançada de um lado a outro do tecido num piscar de olhos e depois de volta, repetidamente, até se esgotar o fio que leva. Então cortamos nossa vida como o tecelão, Isaías 38:12.

O tempo avança depressa: não se pode deter seu movimento e, depois de passar, não se pode trazê-lo de volta. Enquanto vivemos, assim como semeamos (Gálatas 6:8), também tecemos. Cada dia, como a lançadeira, deixa um fio para trás.

Muitos tecem a teia da aranha, que não lhes servirá, Jó 8:14. Se tecermos para nós vestes santas e mantos de justiça, tiraremos proveito deles quando nossa obra for examinada, e cada um colherá o que semeou e vestirá o que teceu.

Versículos 7 a 16

Jó talvez tenha percebido que seus amigos, embora não o interrompessem, começavam a cansar-se e já não davam muita atenção ao que dizia. Por isso, volta-se aqui a Deus e fala com ele. Se os homens não nos ouvirem, Deus ouvirá; se não puderem ajudar-nos, ele poderá, pois seu braço não está encolhido nem seu ouvido pesado.

Contudo, não devemos tomar Jó aqui como mestre de como falar com Deus. É preciso admitir que há uma grande mistura de paixão e corrupção em suas palavras. Mas, se Deus não é rigoroso ao apontar cada erro que seu povo comete ao falar, procuremos também interpretá-las da melhor maneira.

Jó pede a Deus que alivie seu sofrimento ou ponha fim à sua vida. Apresenta-se a ele:

I. Como homem que está morrendo, e morrendo com certeza e em breve. Quando adoecemos, é bom pensar e falar sobre a morte, pois um propósito da doença é lembrá-la. Se nos lembramos devidamente dela, podemos, com fé, apresentá-la a Deus, como Jó faz aqui (v. 7): “Ó, lembra-te de que minha vida é vento”.

Jó recomenda-se à piedade e compaixão de Deus por ser criatura muito fraca e frágil. Sua permanência neste mundo é curta e incerta; sua partida, certa e próxima; sua volta, impossível e impensável.

Sua vida é vento, como a de todos os homens: talvez ruidosa e impetuosa como o vento, mas vã e vazia, que logo passa e, depois de passar, não pode ser trazida de volta. Deus teve compaixão de Israel ao se lembrar de que eram apenas carne, um vento que passa e não volta, Salmos 78:38-39. Observe:

  1. As reflexões piedosas que Jó faz sobre a própria vida e morte. Verdades simples como a brevidade e a vaidade da vida e a inevitabilidade e irreversibilidade da morte nos fazem bem quando pensamos e falamos delas aplicando-as a nós mesmos. Consideremos:

(1.) Que em breve nos despediremos de todas as coisas visíveis e temporárias. Os olhos do corpo se fecharão e não verão mais o bem, aquele bem no qual a maioria das pessoas põe o coração, pois clamam: Quem nos fará ver o bem?, Salmos 4:6.

Se formos tolos a ponto de colocar nossa felicidade nos bens visíveis, o que será de nós quando eles se ocultarem para sempre aos nossos olhos e já não virmos o bem? Vivamos, portanto, pela fé que é a substância e a evidência das coisas invisíveis.

(2.) Que então iremos para um mundo invisível: O olho daquele que aqui me viu não me verá mais ali. É o Hades, estado invisível, v. 8.

A morte leva nossos entes queridos e amigos para as trevas (Salmos 88:18) e em breve nos tirará da vista deles. Quando partirmos daqui, não seremos mais vistos (Salmos 39:13), mas passaremos a conviver com as coisas invisíveis e eternas.

(3.) Que Deus pode, facilmente e num instante, pôr fim à nossa vida e enviar-nos a outro mundo (v. 8): “Teus olhos estão sobre mim, e eu não existo; quando quiseres, podes olhar-me para a eternidade e, com um olhar severo, levar-me à sepultura”.

Se, descontente, você me lançasse um olhar severo,
Eu cairia, morreria, como atingido por um raio.

Sir R. Blackmore.

Deus retira nosso fôlego e morremos; ou melhor, basta-lhe olhar para a terra, e ela treme, Salmos 104:29, 32.

(4.) Que, uma vez levados a outro mundo, nunca mais voltaremos a este. A passagem deste mundo para o outro é constante, mas vestigia nulla retrorsum: não há caminho de volta.

“Portanto, Senhor, alivie-me bondosamente pela morte, pois esse alívio será permanente. Não voltarei às calamidades desta vida.” Quando morremos, partimos para não voltar:

[1.] Da casa sob a terra (v. 9). Quem desce à sepultura não sobe mais até a ressurreição geral; não volta ao seu lugar neste mundo. Morrer é uma tarefa que se realiza uma só vez; por isso deve ser bem realizada. Um erro então já não pode ser corrigido.

Isso é ilustrado pela nuvem que se desfaz e se dispersa. Ela se consome e desaparece, dissolve-se no ar e nunca se reúne de novo. Outras nuvens surgem, mas a mesma não retorna. Assim surge uma nova geração de homens, enquanto a anterior se consome completamente e desaparece.

Quando vemos uma nuvem imensa, que parece prestes a eclipsar o sol e inundar a terra, dispersar-se e sumir de repente, digamos: “Assim é a vida humana: um vapor que aparece por pouco tempo e depois desaparece”.

[2.] Não voltaremos à nossa casa sobre a terra (v. 10). O homem não retorna à sua casa para possuí-la e desfrutá-la, nem para seus negócios e prazeres. Outros tomarão posse dela e a conservarão até a entregarem, por sua vez, a outra geração.

O rico no inferno desejou que Lázaro fosse enviado à sua casa, pois sabia que seria inútil pedir permissão para ir ele próprio. Os santos glorificados não voltarão aos cuidados, fardos e tristezas de sua casa; nem os pecadores condenados, às festas e aos prazeres da sua.

Seu lugar já não os conhecerá, reconhecerá ou terá relação com eles, nem estará sob sua influência. Convém garantir um lugar melhor ao morrer, pois este mundo não nos reconhecerá mais.

  1. A conclusão apaixonada que ele tira disso. Dessas premissas Jó poderia ter extraído conclusão melhor que esta (v. 11): “Portanto, não reprimirei minha boca; falarei; queixar-me-ei”.

O santo Davi, ao meditar sobre a fragilidade da vida humana, fez uso oposto dessa verdade: “Emudeci e não abri a boca”, Salmos 39:9. Jó, porém, sentindo-se perto da morte, apressa-se tanto a se queixar como se estivesse fazendo a última vontade e testamento ou não pudesse morrer em paz antes de dar vazão à sua paixão.

Quando nos restam poucos fôlegos, devemos empregá-los nos santos e piedosos suspiros da fé e da oração, não nos hálitos repugnantes e nocivos do pecado e da corrupção. É melhor morrer orando e louvando do que morrer queixando-se e entrando em desavença.

II. Como homem enfermo, acometido grave e dolorosamente tanto no corpo quanto na mente. Nessa parte de sua exposição, Jó se mostra bastante irritadiço, como se Deus o tratasse com dureza e lhe impusesse mais do que convinha:

“Sou eu um mar ou uma baleia (v. 12)? Sou um mar furioso, que precisa ser contido para refrear suas ondas orgulhosas? Ou uma baleia indomável, que precisa ser detida pela força para não devorar todos os peixes do mar?”

“Sou tão forte que é preciso tanto esforço para me segurar? Tão impetuoso que somente essas poderosas amarras de aflição podem me domar e conter?”

Quando sofremos, somos muito propensos a reclamar de Deus e de sua providência, como se ele nos impusesse mais restrições do que o necessário. No entanto, só somos entristecidos quando há necessidade, e nunca além do que a necessidade exige.

  1. Jó se queixa de não conseguir repousar na cama, vv. 13-14. Nela esperamos algum descanso quando estamos exaustos de trabalho, dor ou viagem: “Minha cama me consolará, e meu leito aliviará minha queixa. O sono me dará algum alívio por algum tempo”.

Em geral é assim. O sono foi designado para esse fim; muitas vezes nos aliviou, e acordamos revigorados, com novas forças. Quando isso acontece, temos bons motivos para agradecer. Mas não foi assim com o pobre Jó: em vez de consolá-lo, a cama o aterrorizava; em vez de aliviar sua queixa, o leito a agravava.

Se adormecia, sonhos assustadores o perturbavam; ao despertar deles, visões terríveis continuavam a assombrá-lo. Era isso que tornava a noite tão indesejável e exaustiva para ele (v. 4): “Quando me levantarei?”

Repare: quando quer, Deus pode nos encontrar com o terror até onde esperamos alívio e descanso. Ou melhor, pode fazer de nós um terror para nós mesmos.

Muitas vezes incorremos em culpa pelas divagações de uma imaginação não santificada; Deus também pode, pelo poder dessa mesma imaginação, causar-nos muita dor, transformando em castigo o que tantas vezes foi nosso pecado.

Os sonhos de Jó talvez fossem causados em parte por sua enfermidade, pois em febres ou na varíola, quando todo o corpo está dolorido, é comum ter um sono agitado. Ainda assim, temos motivos para pensar que Satanás participou disso: ele se deleita em aterrorizar aqueles que não pode destruir.

Jó, porém, olhava para Deus, que concedera a Satanás fazer aquilo: “Tu me assustas”. Confundia as imagens apresentadas por Satanás com os terrores de Deus enfileirados contra ele.

Temos motivos para pedir a Deus que nossos sonhos não nos maculem nem nos perturbem, não nos tentem a pecar nem nos atormentem de medo. Que aquele que guarda Israel, sem cochilar nem dormir, nos guarde quando cochilamos e dormimos.

Assim o diabo não nos cause dano, seja como serpente insinuante, seja como leão que ruge. Devemos bendizer a Deus se nos deitamos, nosso sono é doce e não somos aterrorizados dessa maneira.

  1. Jó anseia por descansar na sepultura, cama onde ninguém se revira de um lado para outro nem tem sonhos assustadores, vv. 15-16.

(1.) Estava cansado da vida e detestava até pensar nela: “Eu a abomino; já tive o bastante. Não quereria viver para sempre, não só nesta condição de dor e miséria, mas nem mesmo na condição mais fácil e próspera, correndo continuamente o risco de ser reduzido a isto.”

“Meus dias são vaidade, mesmo quando estão no melhor momento: vazios de consolo sólido e expostos a dores reais. Não quero ficar para sempre preso a tamanha incerteza”.

Repare: um homem bom não desejaria viver para sempre neste mundo, mesmo que pudesse e mesmo que o mundo lhe sorrisse, pois é um mundo de pecado e tentação, e ele espera um mundo melhor.

(2.) Jó ansiava pela morte e se agradava de pensar nela. Sua alma, ou seu juízo, segundo ele pensava, mas na verdade sua paixão, preferia o estrangulamento e a morte à vida: qualquer morte lhe parecia melhor que tal vida.

Sem dúvida, essa era uma fraqueza de Jó. Embora um homem bom não desejasse viver para sempre neste mundo e, como os mártires, preferisse o estrangulamento e a morte ao pecado, ele se contentará em viver enquanto Deus quiser.

Não escolherá a morte em vez da vida, porque a vida é a oportunidade que temos de glorificar a Deus e nos preparar para o céu.

Versículos 17 a 21

Jó aqui argumenta com Deus:

I. A respeito de como Deus trata o homem em geral (vv. 17-18): “Que é o homem para que o engrandeças?” Isso pode ser visto de duas maneiras:

  1. Como crítica apaixonada aos procedimentos da justiça divina, como se o grande Deus se rebaixasse e diminuísse ao contender com o homem.

“Os homens importantes julgam indigno de si prestar tanta atenção aos que lhes são muito inferiores, a ponto de censurar e corrigir suas insensatezes e indecências. Por que, então, Deus engrandece o homem, visitando-o, provando-o e fazendo tanto caso dele?”

“Por que lança todas as suas forças contra alguém que não pode competir com ele? Por que o visita com aflições que, como uma febre diária, retornam tão pontual e constantemente quanto a luz da manhã, e a cada momento põe à prova o quanto ele pode suportar?”

Entendemos mal a Deus e a natureza de sua providência se pensamos que reparar na mais humilde de suas criaturas o diminui.

  1. Como piedosa admiração pela condescendência da graça divina, semelhante à expressa em Salmos 8:4; 144:3. Jó reconhece o favor de Deus para com os homens em geral, mesmo ao se queixar das próprias aflições.

“Que é o homem, o homem miserável, criatura pobre, pequena e fraca, para que você, o Deus grande e glorioso, o trate como trata?” Que é o homem:

(1.) “Para que lhe conceda tamanha honra e o engrandeça, recebendo-o em aliança e comunhão consigo?”

(2.) “Para que se interesse tanto por ele e ponha nele o coração, considerando-o querido e tratando-o com bondade?”

(3.) “Para que o visite todas as manhãs com compaixão, como visitamos diariamente um amigo querido ou como o médico visita seus pacientes todas as manhãs para ajudá-los?”

(4.) “Para que o ponha à prova, verifique seu pulso e observe sua aparência a cada momento, cuidando dele e zelando por ele?” É motivo de admiração permanente que um verme da terra como o homem seja o querido e favorecido do céu.

II. A respeito de como Deus trata Jó em particular. Observe:

  1. A queixa que Jó faz de suas aflições, que aqui exagera e, como todos somos propensos a fazer, interpreta da pior maneira, por meio de três expressões:

(1.) Que era o alvo das flechas de Deus: “Tu me puseste como um alvo contra ti”, v. 20. “Meu caso é singular; ninguém recebe tantos disparos quanto eu.”

(2.) Que se tornara um fardo para si mesmo, prestes a sucumbir sob o peso da própria vida. Por mais prazer que tenhamos em nós mesmos, Deus pode, quando quer, tornar-nos um fardo para nós mesmos. Que consolo podemos achar em nós mesmos se Deus parece voltar-se contra nós como inimigo e já não temos consolo nele?

(3.) Que não havia pausa em suas dores (v. 19): Quanto tempo falta para que retire de mim a vara ou ao menos diminua o rigor da correção, pelo tempo necessário para que eu engula minha saliva?

Ao que parece, a enfermidade de Jó afetava muito sua garganta e quase o sufocava, a ponto de não conseguir engolir a saliva. Ele se queixa (Jó 30:18) de que a doença o apertava como a gola de sua roupa. “Senhor”, pergunta, “não me dará algum alívio, algum tempo para respirar?”, Jó 9:18.

  1. Sua preocupação com os próprios pecados. Mesmo os melhores homens têm pecados dos quais se queixar; quanto melhores são, mais se queixam deles.

(1.) Ele reconhece francamente sua culpa diante de Deus: “Pequei”. Deus dissera que Jó era homem perfeito e reto; contudo, ele mesmo declara: “Pequei”. Uma pessoa pode ser reta sem estar livre de pecado; os que se arrependem com sinceridade são aceitos, mediante um Mediador, como perfeitos no sentido do evangelho.

Jó sustentava diante dos amigos que não era hipócrita nem perverso; diante de Deus, porém, reconhecia ter pecado. Se fomos preservados de atos graves de pecado, isso não significa que somos inocentes. Os melhores devem reconhecer perante Deus que pecaram.

Ao chamar Deus de observador ou protetor dos homens, Jó talvez pretendesse agravar a própria culpa: “Embora Deus tenha mantido os olhos sobre mim, olhando-me para meu bem, ainda assim pequei contra ele”.

Quando sofremos, convém confessar o pecado como causa de nossa aflição. Confissões arrependidas afogariam e calariam queixas apaixonadas.

(2.) Jó pergunta seriamente como pode fazer as pazes com Deus: “O que farei para com você, depois de ter feito tanto contra você?” Se estamos convencidos de que pecamos e chegamos a reconhecê-lo, não podemos deixar de concluir que algo deve ser feito para impedir suas consequências fatais.

Não podemos deixar a questão como está: é preciso tomar alguma medida para desfazer o mal cometido. Se percebemos, na verdade, o perigo em que nos colocamos, estaremos dispostos a fazer qualquer coisa, a aceitar o perdão sob quaisquer condições.

Por isso perguntaremos o que devemos fazer (Miquéias 6:6-7), o que devemos fazer diante de Deus; não para satisfazer as exigências de sua justiça, o que somente o Mediador faz, mas para nos preparar para receber as demonstrações de seu favor, conforme os termos da aliança do evangelho.

Ao fazer essa pergunta, é bom considerar Deus como protetor ou Salvador dos homens, não como seu destruidor. No arrependimento, devemos conservar bons pensamentos sobre ele: Deus não tem prazer na ruína de suas criaturas, mas prefere que se convertam e vivam.

“Você é o Salvador dos homens; seja também meu Salvador, pois me lanço à sua misericórdia.”

(3.) Jó implora com fervor o perdão de seus pecados, v. 21. Seu espírito inflamado, por um lado, tornava mais amargas as queixas e, por outro, mais vivas e insistentes as orações, como aqui:

“Por que não perdoas minha transgressão?” Não é um Deus de misericórdia infinita, pronto a perdoar? Não produziu arrependimento em mim? Por que, então, não me concede o perdão do pecado e me deixa ouvir a voz da alegria e do contentamento?

Certamente Jó deseja mais do que a simples remoção da aflição exterior. Insiste na volta do favor de Deus, de cuja falta se queixara em Jó 6:4. “Senhor, perdoe meus pecados e dê-me o consolo desse perdão; então suportarei facilmente minhas aflições”, Mateus 9:2; Isaías 33:24.

Quando a misericórdia de Deus perdoa a transgressão que cometemos, a graça de Deus remove a iniquidade que reina em nós. Onde Deus remove a culpa do pecado, também quebra o poder do pecado.

(4.) Para reforçar o pedido de perdão, Jó invoca a perspectiva de morrer em breve: “Pois agora dormirei no pó”. A morte nos deitará no pó e nos fará dormir ali, talvez logo, dentro de pouco tempo.

Jó se queixara das noites inquietas e da perda do sono (vv. 3-4, 13-14). Mas os que não conseguem dormir numa cama de plumas em breve dormirão numa cama de pó, sem serem assustados por sonhos nem se revolverem de um lado para outro.

Você me procurará pela manhã para mostrar favor, mas eu já não existirei; então será tarde demais. Se meus pecados não forem perdoados enquanto vivo, estarei perdido e arruinado para sempre.

Repare: a consciência de que morreremos em breve, talvez de repente, deve tornar-nos muito ansiosos por obter o perdão dos pecados e a remoção da iniquidade.


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