Matthew Henry

Jó 6

Argumento

Elifaz concluiu seu discurso com ar de certeza. Estava muito seguro de que o que dissera era tão claro e pertinente que ninguém poderia apresentar objeção em resposta. Mas, embora aquele que primeiro expõe sua causa pareça justo, seu próximo vem e o examina.

Jó não se convenceu com nada do que ele disse. Ainda defende suas queixas e condena Elifaz pela fraqueza de seus argumentos. I. Mostra que tinha justo motivo para se queixar de seus sofrimentos como fez, e isso seria evidente a qualquer juiz imparcial, vv. 2-7.

II. Continua a desejar ardentemente que a morte logo ponha fim à sua vida e assim o alivie de todas as suas misérias, vv. 8-13. III. Censura os amigos por seus juízos sem caridade e pelo tratamento pouco bondoso que lhe dão, vv. 14-30.

Deve-se reconhecer que, em tudo isso, Jó disse muitas coisas razoáveis, mas misturadas com paixão e fraqueza humana. Nessa disputa, como de fato ocorre na maioria delas, houve culpa de ambos os lados.

Versículos 1 a 7

A Resposta de Jó a Elifaz. (a.C. 1520.)

No começo de seu discurso, Elifaz fora muito severo com Jó. Ainda assim, não parece que Jó o tenha interrompido: ouviu-o pacientemente até que ele dissesse tudo o que tinha a dizer. Quem deseja julgar imparcialmente um discurso deve ouvi-lo até o fim e considerá-lo por inteiro. Quando Elifaz terminou, porém, Jó respondeu com palavras carregadas de sentimento.

I. Ele apresenta sua calamidade, em termos gerais, como muito mais pesada do que ele próprio havia expressado ou os amigos haviam percebido, v. 2, 3. Ele não conseguia descrevê-la plenamente; eles não queriam compreendê-la plenamente ou, ao menos, não queriam admitir que a compreendiam.

Por isso, Jó gostaria de recorrer a uma terceira pessoa, que tivesse pesos e balanças justos para pesar sua dor e sua calamidade com mão imparcial. Desejava que pusessem sua dor e todas as suas expressões num prato da balança, e sua calamidade, com todos os seus aspectos, no outro.

Embora não pretendesse justificar inteiramente sua dor, descobririam, como ele diz em Jó 23:2, que o golpe recebido era mais pesado que seus gemidos. Pois, por maior que fosse a dor, sua calamidade pesava mais que a areia do mar: era complexa e agravada, cada sofrimento tinha peso, e todos juntos eram numerosos como a areia.

“Por isso”, diz ele, “minhas palavras foram engolidas”; isto é: “Vocês devem desculpar tanto o caráter entrecortado quanto a amargura de minhas expressões. Não estranhem se minha fala não for tão refinada e elegante quanto a de um orador eloquente, nem tão grave e regular quanto a de um filósofo austero”.

“Nestas circunstâncias, não posso aspirar a nenhuma das duas coisas; minhas palavras, como eu mesmo, estão completamente engolidas.” Agora, veja:

  1. Com isso, ele se queixa da infelicidade de seus amigos terem começado a lhe ministrar um remédio espiritual antes de compreenderem inteiramente seu caso e conhecerem o pior dele. Raramente quem está confortável pesa corretamente as aflições de quem sofre. Cada um sente mais o próprio fardo; poucos sentem o dos outros.

  2. Ele procura desculpar as expressões apaixonadas que usara ao amaldiçoar o dia de seu nascimento. Embora não pudesse justificar tudo o que dissera, achava que os amigos não deveriam condenar suas palavras com tanta violência. Seu caso era de fato extraordinário.

Algo que jamais seria permitido numa dor comum podia ser relevado num homem de dores como ele agora era.

  1. Ele pede a solidariedade caridosa e compassiva dos amigos e espera que, ao lhes mostrar a grandeza de sua calamidade, consiga torná-los mais favoráveis a ele. Para quem sofre, ser objeto de compaixão já traz algum alívio.

II. Jó se queixa da aflição e do terror mental em que se encontrava como a parte mais dolorosa de sua calamidade, v. 4. Nisso, foi um tipo de Cristo, que, em seus sofrimentos, mais se queixou dos sofrimentos da alma: “Agora está perturbada a minha alma” (João 12:27); “Minha alma está extremamente triste” (Mateus 26:38); “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” (Mateus 27:46).

O pobre Jó se queixa tristemente aqui: 1. Do que sentia: “As flechas do Todo-Poderoso estão em mim”. Não eram tanto seus sofrimentos em si que o deixavam confuso — a pobreza, a desonra e a dor física —, mas pensar que o Deus a quem amava e servia fizera tudo isso cair sobre ele e o pusera sob aqueles sinais de seu desagrado. Isso o feriu no coração e o agitou.

Repare: a aflição da mente é a mais dolorosa de todas. Quem pode suportar um espírito ferido? Seja qual for o fardo de aflição que Deus tenha por bem colocar sobre nosso corpo ou nossos bens, podemos submeter-nos a ele enquanto nos conserva o uso da razão e a paz da consciência.

Se, porém, uma dessas duas coisas for perturbada, nossa situação será realmente triste e digna de muita compaixão. Para impedir que as setas de fogo da aflição enviadas por Deus nos atinjam, devemos apagar com o escudo da fé as setas de fogo da tentação enviadas por Satanás.

Observe: Jó as chama flechas do Todo-Poderoso, pois o fato de poder alcançar a alma com suas flechas mostra que o poder de Deus supera o de qualquer homem. Aquele que fez a alma pode fazer sua espada chegar até ela.

Diz-se que o veneno ou calor dessas flechas consumia o espírito de Jó, pois perturbava sua razão, abalava sua determinação, esgotava suas forças e ameaçava sua vida. Por isso, suas expressões apaixonadas, embora não pudessem ser justificadas, podiam ser desculpadas.

  1. Do que temia. Ele se via atacado pelos terrores de Deus, como por um exército disposto em ordem de batalha, e cercado por eles. Deus combatia contra ele por meio de seus terrores.

Assim como não encontrava conforto quando se recolhia ao próprio íntimo, tampouco o encontrava ao erguer os olhos para o Céu. Antes era animado pelas consolações de Deus; agora não apenas carecia delas, mas estava atônito diante dos terrores de Deus.

III. Jó censura os amigos por seus juízos severos contra suas queixas e pela maneira inábil com que lidaram com seu caso. 1. Suas censuras não tinham motivo. É verdade que Jó se queixava agora, em sua aflição, mas não costumava queixar-se quando estava em prosperidade, como fazem as pessoas de espírito irritadiço e inquieto.

Não zurrava quando tinha capim, nem mugia diante da forragem, v. 5. Agora, porém, privado de todos os confortos, teria de ser um tronco ou uma pedra, sem sequer a sensibilidade de um boi ou de um jumento selvagem, para não dar alguma vazão à sua dor.

Era obrigado a comer alimentos sem sabor e estava tão pobre que não tinha um grão de sal para temperá-los, nem para dar algum gosto à clara de ovo, agora o prato mais requintado de sua mesa, v. 6. Até mesmo a comida que antes desprezaria tocar agora aceitava com gratidão, e ela era seu alimento penoso, v. 7.

Repare: é sábio não acostumarmos a nós mesmos ou a nossos filhos a ser exigentes e delicados quanto à comida e à bebida. Não sabemos a que situação nós ou eles podemos ser reduzidos, nem como a necessidade pode tornar aceitável aquilo que hoje desprezamos.

  1. Os consolos dos amigos eram sem vigor e sem sabor; assim alguns entendem o v. 6, 7. Jó se queixa de que nada do que lhe ofereciam para aliviá-lo era adequado: nenhum tônico, nada que reanimasse e alegrasse seu espírito.

O que lhe deram era, em si mesmo, tão insípido quanto a clara de um ovo e, ao ser aplicado a ele, tão repulsivo e pesado quanto o mais penoso alimento. Lamento que ele tenha dito isso sobre o que Elifaz havia dito de maneira tão excelente (Jó 5:8, etc.). Mas pessoas de espírito irritadiço tendem muito a tratar assim seus consoladores.

Versículos 8 a 13

Muitas vezes a paixão desgovernada se torna mais violenta quando encontra repreensão e resistência. O mar agitado se enfurece ainda mais quando se choca contra uma rocha. Jó vinha buscando a morte como o fim feliz de suas misérias (Jó 3).

Por isso, Elifaz o censurara com gravidade. Jó, porém, em vez de retirar o que dissera, repete aqui suas palavras com mais veemência. É uma das piores coisas ditas em todos os seus discursos e foi registrada para nos advertir, não para que a imitemos.

I. Ele ainda deseja morrer com extrema paixão, como se fosse impossível voltar a ver dias bons neste mundo, ou tornar bons até mesmo esses dias de aflição pelo exercício da graça e da devoção. Não enxergava fim para seu sofrimento senão a morte e não tinha paciência para esperar o tempo designado para ela.

Ele tem um pedido a fazer, algo por que anseia (v. 8). O que seria? Poderíamos pensar: “Que Deus tenha por bem libertar-me e devolver-me a prosperidade”. Não: “Que Deus tenha por bem destruir-me”, v. 9.

“Assim como antes soltou sua mão para me empobrecer e depois para me adoecer, solte-a mais uma vez para pôr fim à minha vida. Que desfeche o golpe fatal; para mim, será o coup de grâce, o golpe de favor.”

Assim chamam na França o último golpe que mata aqueles cujos membros foram quebrados na roda. Houve um tempo em que a destruição vinda do Todo-Poderoso aterrorizava Jó (Jó 31:23). Agora, porém, ele busca a destruição da carne, esperando que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus.

Observe: embora Jó desejasse intensamente a morte e se irritasse muito com sua demora, não tentou destruir a si mesmo nem tirar a própria vida; limitou-se a pedir a Deus que o destruísse.

A moral de Sêneca, que recomenda o suicídio como remédio legítimo para sofrimentos insuportáveis, não era conhecida então nem jamais será aceita por quem tenha o menor respeito pela lei de Deus e da natureza. Por mais penoso que seja para a alma ficar confinada no corpo, ela de modo nenhum deve fugir da prisão, mas esperar sua libertação legítima.

II. Jó transforma esse desejo numa oração, pedindo que Deus lhe conceda tal pedido, que tenha por bem fazê-lo por ele. Foi pecado desejar com tanta paixão que sua morte fosse apressada; apresentar esse desejo a Deus não o tornou melhor.

Ao contrário, aquilo que soava mal em seu desejo soou pior em sua oração. Não devemos pedir a Deus nada que não possamos pedir com fé; e só podemos pedir com fé aquilo que está de acordo com a vontade de Deus. Orações movidas pela paixão são as piores expressões de paixão, pois devemos levantar mãos puras, sem cólera.

III. Ele espera encontrar, pelo golpe da morte, alívio eficaz e reparação para todos os seus sofrimentos (v. 10): “Então ainda teria consolo, que agora não tenho nem espero ter até esse momento”. Veja:

  1. A vaidade da vida humana. É um bem tão incerto que muitas vezes se torna o maior fardo dos homens, e nada lhes parece mais desejável que se livrar dela. Que a graça nos torne dispostos a deixá-la quando Deus nos chamar; pois pode acontecer que até aquilo que sentimos nos faça desejar partir antes do chamado dele.

  2. A esperança que os justos têm na morte. Se Jó não tivesse boa consciência, não poderia falar com tanta certeza do consolo do outro lado da morte, que inverte a situação entre o rico e Lázaro: “Agora ele é consolado, e tu és atormentado”.

IV. Ele desafia a morte a fazer o pior. Mesmo que não pudesse morrer sem o terrível prelúdio de dores amargas, agonias e fortes convulsões, mesmo que tivesse de ser torturado antes da execução, a perspectiva de afinal morrer o faria considerar insignificantes as dores da morte:

“Eu me endureceria na dor, abriria o peito para receber as flechas da morte e não recuaria diante delas. Que ele não poupe; não desejo alívio para a dor que porá um fim feliz a todas as minhas dores. Antes morrer sentindo a morte do que não morrer”.

São palavras apaixonadas que teria sido melhor calar. Devemos deixar que a dor nos amoleça, a fim de receber suas boas impressões, e que a tristeza do semblante torne nosso coração mais sensível e melhor.

Se, porém, nos endurecermos, provocaremos Deus a prosseguir em sua controvérsia, pois, quando ele julgar, vencerá. É grande presunção desafiar o Todo-Poderoso e dizer: “Que ele não poupe”. Somos mais fortes do que ele? (1 Coríntios 10:22).

Devemos muito à misericórdia que nos poupa. Quando nos cansamos dela, nossa situação é realmente má. Digamos antes, com Davi: “Poupa-me um pouco”.

V. Jó fundamenta seu consolo no testemunho da consciência de que fora fiel e firme em sua profissão de fé e, em alguma medida, útil e dedicado ao serviço da glória de Deus em sua geração: “Não escondi as palavras do Santo”. Observe:

  1. As palavras do Santo foram confiadas a Jó. Naquele tempo, o povo de Deus era abençoado com a revelação divina.

  2. Jó se consolava por não as ter escondido nem recebido em vão a graça de Deus nelas presente. (1.) Não as escondera de si mesmo, mas permitira que exercessem plenamente sua ação sobre ele e o guiassem e governassem em tudo.

Não abafara suas convicções, não aprisionara a verdade na injustiça nem fizera coisa alguma que impedisse a digestão desse alimento espiritual e a ação desse remédio espiritual. Nunca escondamos de nós mesmos a palavra de Deus; recebamo-la sempre à sua luz.

(2.) Não guardara as palavras para si, mas estivera pronto a comunicar seu conhecimento para o bem dos outros em todas as ocasiões. Nunca sentira vergonha nem medo de reconhecer a palavra de Deus como sua regra, nem fora negligente nos esforços para levá-los a conhecê-la.

Repare: somente os que são bons e fazem o bem enquanto vivem podem esperar consolo na morte.

VI. Jó justifica seu desejo extremo da morte pela condição deplorável em que se encontrava, v. 11, 12. Ao concluir o discurso, Elifaz lhe dera esperança de que ainda veria um bom desfecho para seus sofrimentos. O pobre Jó, porém, afasta de si esses tônicos, recusa consolo e se entrega ao desespero.

Com muita engenhosidade, mas de modo perverso, argumenta contra as palavras de ânimo que lhe foram oferecidas. Os espíritos inconsoláveis raciocinam de maneira estranha contra si mesmos. Em resposta às perspectivas agradáveis com que Elifaz o lisonjeara, Jó sugere:

  1. Que não tinha motivo para esperar tal coisa: “Qual é a minha força, para que eu espere? Vocês veem como estou enfraquecido e abatido, como sou incapaz de enfrentar minhas doenças. Que motivo tenho, então, para esperar sobreviver a elas e ver dias melhores? Minha força é a força das pedras? Meus músculos são de bronze, e meus tendões, de aço?”

“Não são; portanto, não posso suportar para sempre esta dor e miséria, mas acabarei sucumbindo sob o peso. Se tivesse força para enfrentar minha doença, poderia esperar atravessá-la; mas, infelizmente, não a tenho. O enfraquecimento de minhas forças no caminho certamente abreviará meus dias” (Salmos 102:23).

Repare: considerando tudo, não temos motivo para contar com uma vida longa neste mundo. Qual é a nossa força? É uma força dependente: não temos mais força do que Deus nos dá, pois nele vivemos e nos movemos.

É uma força que se desgasta: consumimos diariamente sua reserva, que aos poucos se esgotará. É desproporcional às lutas que poderemos enfrentar. Como confiar em nossa força, se dois ou três dias de doença nos tornam fracos como a água?

Em vez de esperar uma vida longa, temos motivo para admirar-nos de ter vivido até aqui e perceber que nos aproximamos rapidamente do fim.

  1. Que não tinha motivo para desejar tal coisa: “Qual é meu fim, para que eu deseje prolongar a vida? Que consolo posso esperar da vida comparável ao que espero da morte?”

Repare: aqueles que, pela graça, estão preparados para outro mundo não encontram muito que os convide a permanecer neste ou a se apegar a ele. Se Deus quiser, podemos prestar-lhe mais serviço e tornar-nos mais aptos e maduros para o Céu; esse é um fim pelo qual podemos desejar o prolongamento da vida, subordinado ao nosso fim principal.

Fora disso, que objetivo podemos ter ao desejar ficar aqui? Quanto mais longa a vida, mais pesados serão seus fardos (Eclesiastes 12:1); quanto mais longa, menos agradáveis serão seus prazeres (2 Samuel 19:34, 35). Já vimos o melhor deste mundo, mas não temos certeza de ter visto o pior.

VII. Jó afasta a suspeita de que estivesse delirando (v. 13): “Não está em mim o meu auxílio?”. Isto é: “Não tenho ainda o uso da razão, com a qual, graças a Deus, posso ajudar-me, embora vocês não me ajudem? Acham que a sabedoria se afastou completamente de mim e que perdi o juízo? Não estou louco, nobilíssimo Elifaz; falo palavras de verdade e sobriedade”.

Repare: aqueles que possuem graça, têm provas dela e a exercem possuem sabedoria, que lhes servirá de auxílio nos piores momentos. Sat lucis intus — eles têm luz dentro de si.

Versículos 14 a 21

Elifaz fora muito severo em suas censuras a Jó. Seus companheiros, embora até então tivessem dito pouco, deram a entender que concordavam com ele. O pobre Jó se queixa aqui da falta de bondade deles como agravamento de sua calamidade e mais uma justificativa para o desejo de morrer.

Pois que satisfação poderia esperar neste mundo, se aqueles que deveriam consolá-lo se tornaram seus algozes?

I. Ele mostra por que tinha razão para esperar bondade deles. Sua expectativa se apoiava nos princípios comuns da humanidade (v. 14): ao que sofre, que se consome e definha sob sua aflição, seu amigo deveria mostrar compaixão; quem não mostra essa compaixão abandona o temor do Todo-Poderoso. Repare:

  1. A compaixão é uma dívida para com os aflitos. O mínimo que aqueles que estão confortáveis podem fazer pelos que sofrem dores e angústias é compadecer-se deles: mostrar sincera e terna preocupação e partilhar de seus sentimentos.

Devem tomar conhecimento de sua situação, perguntar por suas aflições, ouvir suas queixas e misturar suas lágrimas às deles; consolá-los e fazer tudo o que puderem para ajudá-los e aliviá-los. Isso convém aos membros de um mesmo corpo, que devem sentir as aflições dos demais membros, pois não sabem quão cedo poderão passar pelo mesmo.

  1. A desumanidade é impiedade e irreligiosidade. Quem nega compaixão a seu amigo abandona o temor do Todo-Poderoso. Assim diz a paráfrase caldeia. Como pode o amor de Deus habitar nesse homem? (1 João 3:17).

Certamente não temem que a vara de Deus os atinja aqueles que não têm compaixão pelos que sentem seus golpes. Veja Tiago 1:27.

  1. Os sofrimentos põem à prova as amizades. Quando alguém é afligido, descobre quem é amigo de verdade e quem apenas finge, pois “o irmão nasce para a adversidade” (Provérbios 17:17; 18:24).

II. Jó mostra como sua expectativa em relação aos amigos foi tristemente frustrada (v. 15): meus irmãos, que deveriam ter-me ajudado, agiram traiçoeiramente como um ribeiro.

Vieram conforme haviam combinado, com grande cerimônia, para lamentar com ele e consolá-lo (Jó 2:11). Esperava-se algo extraordinário de homens tão sábios, instruídos e conhecedores, amigos particulares de Jó.

Ninguém duvidava de que seus discursos procurariam consolá-lo com a lembrança de sua piedade anterior, a certeza do favor de Deus e a perspectiva de um desfecho glorioso. Em vez disso, atacaram-no de modo bárbaro com palavras de descrédito e censuras.

Condenaram-no como hipócrita, tripudiaram sobre suas calamidades e derramaram vinagre, em vez de azeite, nas feridas dele. Assim agiram traiçoeiramente com Jó.

Repare: fraude e engano não consistem apenas em violar compromissos com os amigos, mas também em frustrar as justas expectativas que têm de nós, sobretudo as que nós mesmos criamos. Repare, ainda: é sábio deixar de confiar no homem.

Por menos que esperemos da criatura, nunca será pouco demais; por mais que esperemos do Criador, nunca será demais. Não é novidade que até irmãos ajam traiçoeiramente (Jeremias 9:4, 5; Miquéias 7:5).

Portanto, depositemos nossa confiança na rocha eterna, não em canas quebradas; na fonte da vida, não em cisternas rachadas. Deus superará nossas esperanças tanto quanto os homens ficarão aquém delas. Jó ilustra essa decepção pelo desaparecimento dos ribeiros no verão.

  1. A comparação é muito bela, vv. 15-20. (1.) As demonstrações dos amigos são comparadas com propriedade ao grande volume dos ribeiros quando engrossam com as águas de uma inundação provocada pelo derretimento do gelo e da neve. Essas águas os tornam escuros ou turvos, v. 16.

(2.) Jó compara a expectativa que tinham despertado nele, ao virem tão solenemente para consolá-lo, com a esperança de viajantes cansados e sedentos de encontrar água no verão onde muitas vezes a viram em abundância no inverno, v. 19.

Os grupos de Tema e Sabá, caravanas de mercadores dessas regiões cuja rota atravessava os desertos da Arábia, procuravam e esperavam encontrar água nesses ribeiros.

“Bem perto daqui”, diz um; “Um pouco adiante”, diz outro; “na última vez em que passei por aqui, havia bastante água. Ela nos refrescará”. Onde já encontramos alívio ou conforto, tendemos a esperar encontrá-lo novamente; contudo, isso não é certo.

(3.) A frustração da esperança de Jó é comparada à confusão que toma conta dos pobres viajantes quando encontram montes de areia onde esperavam torrentes de água. No inverno, quando não tinham sede, havia água em abundância. Todos aplaudem e admiram quem tem fartura e vive na prosperidade.

No calor do verão, porém, quando precisavam de água, o ribeiro lhes faltou: secou (v. 17), desviou seu curso (v. 18). Quando os ricos e poderosos decaem, empobrecem e precisam de consolo, aqueles que antes os cercavam mantêm distância; os que antes os elogiavam são os primeiros a denegri-los.

Assim, quem espera demais da criatura descobre que ela falha justamente quando deveria ajudar. Quem deposita a confiança em Deus, porém, recebe ajuda no momento da necessidade (Hebreus 4:16).

Os que põem sua esperança no ouro, cedo ou tarde, se envergonharão dele e da confiança que nele depositaram (Ezequiel 7:19). Quanto maior era a confiança, maior será a vergonha: “Ficaram confundidos porque haviam esperado”, v. 20.

Preparamos a própria vergonha com esperanças vãs: as canas se quebram sob nós porque nos apoiamos nelas. Se construirmos uma casa sobre a areia, certamente seremos confundidos, pois ela cairá na tempestade. Só poderemos culpar a nós mesmos pela tolice de esperar que ela permanecesse de pé. Não somos enganados a menos que enganemos a nós mesmos.

  1. A aplicação é muito direta (v. 21): “Agora vocês não são nada”. Pareciam ser alguma coisa, mas na conversa nada acrescentaram a Jó. Trata-se de uma alusão a Gálatas 2:6. A visita que fizeram não o tornou mais sábio nem melhor.

Repare: por maior que seja a satisfação que encontremos nas criaturas ou a confiança que depositemos nelas, por mais importantes que pareçam e por mais queridas que nos sejam, cedo ou tarde diremos: “Agora vocês não são nada”.

Quando Jó prosperava, seus amigos significavam algo para ele; apreciava-os e gostava do convívio com eles. “Agora, porém, vocês não são nada; não encontro conforto senão em Deus.”

Seria bom que conservássemos sempre a mesma convicção da vaidade da criatura e de sua incapacidade de nos fazer felizes que por vezes tivemos, ou teremos, no leito de enfermidade ou de morte, ou quando a consciência estiver aflita:

“Agora vocês não são nada. Não são o que já foram, o que deveriam ser, o que afirmam ser, nem o que eu pensava que seriam. Vocês me veem abatido e têm medo. Quando me viam elevado, cercavam-me de carinhos; agora que me veem caído, se afastam de mim”.

“Têm medo de mostrar bondade, receando que isso me anime a lhes pedir algo ou a tomar emprestado” (compare v. 22). “Têm medo de que, se reconhecerem nossa amizade, sejam obrigados a me sustentar.”

Talvez receassem contrair sua doença ou sentir o mau cheiro que ela exalava. Não é bom afastar-nos das pessoas aflitas e ter medo de nos aproximar delas, seja por orgulho ou excesso de delicadeza, seja por amor ao dinheiro ou ao próprio corpo. A situação delas logo poderá ser a nossa.

Versículos 22 a 30

O pobre Jó continua aqui a repreender os amigos por sua falta de bondade e pelo tratamento duro que lhe dispensaram. Apela ao próprio julgamento deles em vários pontos que serviam tanto para justificá-lo quanto para condená-los. Se pensassem com imparcialidade e falassem de acordo com o que pensavam, teriam de reconhecer:

I. Que, embora necessitado, Jó não mendigava nem era um fardo para os amigos. Aqueles que se valem dos sofrimentos para pedir ajuda costumam receber menos compaixão que os pobres silenciosos.

Jó se alegraria em ver os amigos, mas não lhes dissera: “Tragam-me” (v. 22), nem “Livrem-me”, v. 23. Não queria causar-lhes despesa alguma nem insistiu para que:

  1. Fizessem uma coleta em seu favor para restabelecê-lo no mundo. Ele poderia alegar que suas perdas vieram pela mão de Deus, não por erro ou insensatez próprios; que estava totalmente arruinado e empobrecido; que antes vivera em boa condição e, quando tinha recursos, fora generoso e pronto a ajudar os aflitos; e que os amigos eram ricos e tinham condições de ajudá-lo.

Apesar disso, não disse: “Deem-me de seus bens”. Repare: um homem bom, quando está aflito, receia tornar-se incômodo para os amigos.

Ou 2. Mobilizassem os homens da região para ajudá-lo a recuperar seu gado das mãos dos sabeus e caldeus, ou para retaliar contra eles: “Pedi que viessem libertar-me das mãos dos poderosos? Não. Nunca esperei que se expusessem a perigo ou tivessem despesas por minha causa”.

“Prefiro aceitar minha aflição com contentamento e tirar o melhor dela a viver às custas dos amigos”. O apóstolo Paulo trabalhava com as próprias mãos para não ser um fardo para ninguém.

O fato de Jó não ter pedido ajuda não desculpava os amigos de deixar de oferecê-la quando ele precisava e eles podiam dá-la. Sua falta de bondade era ainda mais grave porque Jó não pedia deles mais do que um olhar e uma palavra bondosos, e nem isso conseguiu.

Muitas vezes acontece que recebemos dos homens menos do que esperamos, mesmo quando esperamos pouco; de Deus, porém, recebemos mais do que esperamos, mesmo quando esperamos muito (Efésios 3:20).

II. Que, embora discordasse dos amigos, Jó não era obstinado, mas estava pronto a ceder diante de uma demonstração convincente e a baixar as velas diante da verdade assim que lhe mostrassem seu erro (v. 24, 25):

“Se, em vez de críticas maldosas e insinuações sem caridade, vocês me derem instruções claras e argumentos sólidos, que tragam consigo suas próprias provas, estarei pronto a reconhecer meu erro e admitir minha falta: ‘Ensinem-me, e me calarei’, pois muitas vezes percebi, com prazer e admiração, quanto vigor têm as palavras corretas”.

“Mas o método de vocês jamais conquistará adeptos. Que coisa seus argumentos censuram? Sua hipótese é falsa, suas suspeitas não têm fundamento, sua maneira de conduzir a questão é fraca, e a aplicação que fazem é irritadiça e sem caridade.” Repare:

  1. A argumentação justa tem grande poder de convencimento; seria espantoso se não vencesse os homens. A injúria e a linguagem grosseira, porém, são impotentes e insensatas, e não surpreende que irritem e endureçam as pessoas.

  2. É traço indiscutível de todo homem honesto desejar sinceramente a correção de seus enganos e compreender onde errou. Ele reconhecerá que as palavras corretas, quando lhe parecerem corretas, embora contrárias às suas opiniões anteriores, são vigorosas e bem-vindas.

III. Que, mesmo que Jó tivesse de fato cometido alguma falta, os amigos não deveriam tratá-lo tão duramente (v. 26, 27): “Vocês pensam em censurar palavras, ou maquinam fazê-lo com muita astúcia” — pois é isso que a palavra significa — “algumas de minhas expressões apaixonadas nesta condição desesperadora, como se fossem provas certas de impiedade dominante e ateísmo?”

“Um pouco de benevolência e caridade bastaria para desculpá-las e interpretá-las de maneira melhor. Deve-se julgar a condição espiritual de um homem por algumas palavras precipitadas que um sofrimento inesperado lhe arranca? É justo, bondoso e correto criticá-lo numa situação dessas? Vocês gostariam de receber o mesmo tratamento?”

Duas coisas agravavam o tratamento cruel que lhe deram:

  1. Aproveitaram-se de sua fraqueza e da condição desamparada em que se encontrava: “Vocês esmagam o órfão”. É uma expressão proverbial para aquilo que há de mais bárbaro e desumano.

“Os órfãos não conseguem proteger-se de insultos, o que anima homens de espírito vil e sórdido a insultá-los e pisoteá-los; é assim que vocês me tratam.” Jó, pai sem filhos, julgava-se tão exposto a maus-tratos quanto uma criança sem pai (Salmos 127:5) e tinha motivo para se ofender com os que, por isso, triunfavam diante dele.

Saibam os que esmagam e oprimem pessoas que, por qualquer motivo, podem ser consideradas órfãs: com isso, não apenas abandonam a compaixão humana, mas combatem a compaixão de Deus, que é e sempre será Pai dos órfãos e ajudador dos desamparados.

  1. Fingiam bondade: “Vocês cavam uma cova para o amigo; não apenas me tratam sem bondade, a mim que sou amigo de vocês, mas me enredam sob aparência de amizade”.

Quando vieram visitá-lo e sentar-se com ele, Jó pensou que poderia abrir-lhes livremente o coração e que, quanto mais amargas fossem suas queixas, mais se empenhariam em consolá-lo. Por isso, falou com mais liberdade do que teria falado em outras circunstâncias.

Embora Davi contivesse seu ressentimento na presença dos perversos, provavelmente lhe daria vazão se estivesse apenas entre amigos (Salmos 39:1).

Essa liberdade de expressão, que as demonstrações de preocupação dos amigos o levaram a usar, expôs Jó às censuras deles. Por isso, podia-se dizer que lhe cavaram uma cova. Assim, quando nosso coração está ardendo, tendemos a representar o que foi malfeito como se tivesse sido feito de propósito.

IV. Que, embora tivesse deixado escapar algumas expressões apaixonadas, Jó estava essencialmente certo. Suas aflições, por mais extraordinárias que fossem, não provavam que era hipócrita nem perverso. Conservava sua justiça e não a deixaria escapar. Para demonstrá-lo, apela:

  1. Ao que os amigos viam nele (v. 28): “Por favor, olhem para mim. O que veem que indique um louco ou um perverso? Ou melhor: olhem em meu rosto e poderão perceber nele, apesar de tudo, sinais de um espírito paciente e submisso. Que a aparência do meu rosto testemunhe que, embora eu tenha amaldiçoado o dia em que nasci, não amaldiçoo meu Deus”.

Ou melhor: “Olhem minhas úlceras e feridas dolorosas; elas lhes mostrarão que não minto”, isto é, “que não me queixo sem motivo. Que seus próprios olhos os convençam de que minha condição é muito triste e de que não estou discutindo com Deus ao descrevê-la como pior do que é”.

  1. Ao que ouviam dele, v. 30: “Vocês ouvem o que tenho a dizer. Há iniquidade em minha língua, aquela de que me acusam? Blasfemei contra Deus ou o renunciei? Meus argumentos de agora não são corretos?”

“Não percebem pelo que digo que consigo discernir coisas perversas? Posso descobrir suas falácias e seus erros; se eu próprio estivesse errado, perceberia. Pensem de mim o que quiserem; eu sei o que digo”.

  1. Aos pensamentos renovados e ponderados dos amigos (v. 29): “Voltem, peço-lhes, a considerar a questão sem preconceito nem parcialidade. Que o resultado não seja iniquidade nem sentença injusta; vocês verão que minha justiça está nela”, isto é, “que tenho razão nesta questão”.

“Embora não controle meu temperamento como deveria, conservo minha integridade. Não disse, fiz nem sofri coisa alguma que prove que não sou um homem honesto.” Uma causa justa não pede nada além de uma audiência justa e, se necessário, uma nova audiência.


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