Jó 5
Argumento
No capítulo anterior, Elifaz, para sustentar sua acusação contra Jó, invocou uma palavra do céu que lhe fora enviada numa visão. Neste capítulo, apela àqueles que dão testemunho na terra: os santos, testemunhas fiéis da verdade de Deus em todos os tempos, v. 1.
Eles testemunharão: I. Que o pecado dos pecadores é sua ruína, vv. 2-5. II. Que, ainda assim, a aflição é o destino comum da humanidade, v. 6, 7. III. Que, quando estamos aflitos, nossa sabedoria e nosso dever são recorrer a Deus, pois ele pode e deseja nos ajudar, vv. 8-16.
IV. Que as aflições suportadas com retidão terminarão bem. Jó em particular, se adquirisse uma disposição melhor, poderia ter certeza de que Deus lhe reservava grande misericórdia, vv. 17-27. Assim, Elifaz conclui seu discurso num estado de espírito um pouco melhor do que aquele com que o iniciou.
Versículos 1 a 4
O Discurso de Elifaz. (a.C. 1520.)
Tendo começado uma discussão muito acalorada entre Jó e seus amigos, Elifaz faz aqui uma proposta razoável: submeter a questão à arbitragem. Em todos os debates, talvez seja melhor fazê-lo quanto antes, se os contendores não conseguirem resolvê-la entre si.
Elifaz está tão seguro de que sua causa é boa que propõe ao próprio Jó escolher os árbitros (v. 1): “Chama agora, se há alguém que te responda.” Isto é:
“Se há alguém que sofre como você sofre. Pode apresentar algum exemplo de alguém que fosse realmente santo e tenha sido reduzido ao extremo em que você se encontra agora? Deus nunca tratou alguém que ama seu nome como trata você; portanto, certamente você não é um deles.”
“Se há alguém que fala como você fala. Algum homem bom já amaldiçoou o dia do próprio nascimento como você faz? Ou algum dos santos o justificará nesses arroubos e paixões, ou dirá que essas são as marcas dos filhos de Deus? Você não achará nenhum santo que seja seu defensor ou meu adversário.”
“A qual dos santos você se voltará? Volte-se a qualquer um e verá que todos pensam como eu. Tenho do meu lado o communis sensus fidelium — o voto unânime dos fiéis; todos concordarão com o que estou para dizer.” Observe:
(1.) As pessoas boas eram chamadas santas até no Antigo Testamento. Por isso, não sei por que, no falar comum — a não ser porque devemos loqui cum vulgo, falar como nossos vizinhos —, reservaríamos o título aos personagens do Novo Testamento.
Por que não dizer Santo Abraão, Santo Moisés e Santo Isaías, assim como São Mateus e São Marcos? E São Davi, o salmista, assim como São Davi, o bispo britânico? Arão é chamado expressamente de santo do Senhor.
(2.) Todos os que são santos se voltarão para outros santos. Eles os escolherão como amigos, conviverão com eles, os escolherão como juízes e os consultarão. Veja Salmos 119:79. “Os santos julgarão o mundo”, 1 Coríntios 6:1, 2. “Anda pelo caminho dos homens bons” (Provérbios 2:20): o antigo caminho, as pegadas do rebanho.
Cada pessoa escolhe algum grupo ao qual procura recomendar-se e cujos juízos toma por medida de honra e desonra. Todos os verdadeiros santos, portanto, procuram ser bem-vistos pelos que também são santos e ter a aprovação deles.
(3.) Algumas verdades são tão claras, tão universalmente conhecidas e aceitas, que podemos ousar apelar a qualquer dos santos a respeito delas. Embora, infelizmente, discordem sobre algumas coisas, há muitas outras, ainda mais importantes, com as quais todos concordam: o mal do pecado, a vaidade do mundo, o valor da alma, a necessidade de uma vida santa e assim por diante.
Embora nem todos vivam como deveriam de acordo com a crença nessas verdades, todos estão prontos a dar testemunho delas.
Elifaz sustenta aqui duas coisas com as quais, não duvida, todos os santos concordam:
I. Que o pecado dos pecadores conduz diretamente à própria ruína (v. 2): “A cólera mata o insensato.” É sua própria cólera que o mata; por isso, ele é insensato ao alimentá-la. Ela é como fogo nos ossos e no sangue, suficiente para causar-lhe febre. “A inveja é a podridão dos ossos”; assim mata o tolo que se consome com ela.
“É isso que acontece com você”, diz Elifaz. “Enquanto contende com Deus, causa a si mesmo o maior dano. Sua ira diante das próprias dificuldades e sua inveja de nossa prosperidade só aumentam sua dor e miséria. Volte-se aos santos e verá que eles entendem melhor seus próprios interesses.”
Jó dissera à esposa que ela falava como as mulheres insensatas. Agora Elifaz lhe diz que ele age como os homens insensatos, como os tolos. Ou talvez o sentido seja este: “Se os homens são arruinados e destruídos, sempre é a própria insensatez que os arruína e destrói.”
“Eles se matam por algum desejo pecaminoso. Portanto, sem dúvida, Jó, você fez alguma coisa insensata pela qual trouxe sobre si essa condição calamitosa.” Muitos entendem a passagem como referência à cólera e ao zelo de Deus.
Jó não precisava inquietar-se com a prosperidade dos perversos, pois os sorrisos do mundo jamais podem protegê-los da desaprovação de Deus. São insensatos e tolos se pensam que podem. A ira de Deus será a morte, a morte eterna, daqueles sobre os quais recair. Que é o inferno senão a ira de Deus sem mistura nem fim?
II. Que sua prosperidade é breve e sua destruição, certa, vv. 3-5. Aqui ele parece traçar um paralelo entre o caso de Jó e o que costuma acontecer aos perversos.
- Jó prosperou por algum tempo, parecia firmemente estabelecido e se sentia seguro nessa prosperidade. É comum que os perversos insensatos façam o mesmo: “Vi-os lançando raízes” — plantados e, aos próprios olhos e aos dos outros, firmes e destinados a durar. Veja Jeremias 12:2; Salmos 37:35, 36.
Vemos homens mundanos lançarem raízes na terra. Nas coisas terrenas fixam o fundamento de suas esperanças e delas extraem a seiva do seu consolo. A condição exterior pode florescer, mas não pode prosperar a alma que lança raízes na terra.
- A prosperidade de Jó chegou agora ao fim, assim como também chegou rapidamente ao fim a prosperidade de outros perversos:
(1.) Elifaz previu sua ruína com os olhos da fé. Os que olhavam apenas para as coisas presentes bendiziam sua morada e os consideravam felizes. Por muito tempo a bendiziam e desejavam estar em sua condição.
Elifaz, porém, a amaldiçoou; amaldiçoou-a imediatamente, assim que os viu começarem a lançar raízes. Isto é, previu claramente e predisse sua ruína. Não orou por ela — “Não desejei o dia da calamidade” —, mas a prognosticou.
Entrou no santuário, onde compreendeu o fim deles e ouviu a leitura de sua sentença (Salmos 73:17, 18): a prosperidade dos insensatos os destruirá, Provérbios 1:32.
Os que creem na palavra de Deus conseguem ver uma maldição na casa do perverso (Provérbios 3:33), por mais bela e sólida que seja sua construção e por mais cheia que esteja de coisas boas. Conseguem prever que essa maldição, com o tempo, certamente a consumirá com sua madeira e suas pedras, Zacarias 5:4.
(2.) Por fim, ele viu acontecer o que havia previsto. Sua expectativa a respeito daquele homem não foi frustrada; o resultado correspondeu a ela. Sua família foi desfeita e seus bens, arruinados. Nesses detalhes, Elifaz faz alusão clara e muito maldosa às calamidades de Jó.
[1.] Seus filhos foram esmagados, v. 4. Eles se julgavam seguros na casa do irmão mais velho, mas estavam longe da segurança, pois foram esmagados junto à porta. Talvez a porta ou entrada da casa fosse a parte mais alta da construção e tenha caído sobre eles com maior peso. Não houve quem os livrasse de morrer entre os escombros.
Geralmente se entende isso como a destruição das famílias dos perversos pela execução da justiça contra elas, obrigando-as a devolver o que foi obtido de modo ilícito. Deixam tais bens aos filhos, mas a herança não impedirá que os legítimos donos os reclamem.
Esses donos esmagarão os filhos e os expulsarão pelos meios devidos da lei, sem que ninguém os ajude; ou talvez o façam por opressão, Salmos 109:9, etc.
[2.] Seus bens foram saqueados, v. 5. Assim aconteceu com Jó. Os saqueadores famintos, sabeus e caldeus, fugiram com seus bens e os devoraram. “Isso”, diz Elifaz, “muitas vezes observei em outros.” O que foi obtido por saque e rapina se perdeu da mesma maneira.
O proprietário cuidadoso cercou seus bens com espinhos e então os julgou seguros. Mas a cerca mostrou-se insignificante diante da cobiça dos saqueadores — se a fome rompe muros de pedra, quanto mais cercas de espinhos — e diante da maldição divina, que atravessará espinhos e sarças e os queimará juntos, Isaías 27:4.
Versículos 6 a 16
Depois de atingir Jó num ponto muito sensível, mencionando tanto a perda dos seus bens quanto a morte dos seus filhos como justo castigo por seu pecado, Elifaz começa aqui a encorajá-lo, para não levá-lo ao desespero. Indica-lhe um caminho para encontrar tranquilidade.
Agora muda bastante o tom da voz (Gálatas 4:20) e fala com bondade, como se quisesse compensar as palavras duras que lhe dirigiu.
I. Ele lembra a Jó que nenhuma aflição vem por acaso nem deve ser atribuída a causas secundárias: “Não sai do pó nem brota da terra” como a erva, v. 6. Não surge automaticamente, em determinadas épocas do ano, como as produções naturais, por uma cadeia de causas secundárias.
A Providência não observa uma proporção entre prosperidade e adversidade tão exata quanto a que há entre dia e noite, verão e inverno. Ela as distribui conforme a vontade e o conselho de Deus, quando e como ele julga adequado.
Alguns leem: “O pecado não sai do pó, nem a iniquidade, da terra.” Se os homens são maus, não devem lançar a culpa no solo, no clima ou nos astros, mas em si mesmos. “Se você escarnecer, você sozinho o suportará.”
Não devemos atribuir nossas aflições à sorte, pois vêm de Deus, nem nossos pecados ao destino, pois vêm de nós mesmos. Portanto, em qualquer dificuldade, devemos reconhecer que Deus a envia sobre nós e que nós mesmos a atraímos.
O primeiro reconhecimento é razão para termos muita paciência; o segundo, para sermos muito penitentes quando estamos aflitos.
II. Ele lembra a Jó que dificuldades e aflições são o que todos temos motivo para esperar neste mundo: “O homem nasce para a aflição” (v. 7). Não enquanto simplesmente homem — se tivesse conservado a inocência, teria nascido para o prazer —, mas enquanto homem pecador, nascido de mulher (Jó 14:1), que participou da transgressão.
O homem nasce em pecado e, portanto, nasce para a aflição. Até os que nascem para receber honras e bens nascem para sofrer dificuldades na carne. Em nosso estado decaído, pecar se tornou natural para nós, e a consequência natural disso é a aflição, Romanos 5:12.
Neste mundo, não há nada que recebamos ao nascer e possamos realmente chamar de nosso, senão pecado e aflição. Ambos são como as faíscas que voam para cima. As transgressões cometidas são as faíscas que saem da fornalha da corrupção original.
Visto que somos chamados transgressores desde o ventre, não surpreende que procedamos de modo tão desleal, Isaías 48:8. Também são tamanhas a fragilidade do nosso corpo e a vaidade de tudo quanto desfrutamos que daí nossas aflições surgem tão naturalmente quanto as faíscas voam para cima: são numerosas, densas e uma segue depressa a outra.
Por que, então, nos surpreenderíamos com as aflições como se fossem estranhas, ou contenderíamos com elas como se fossem duras, quando são justamente aquilo para que nascemos? “O homem nasce para o trabalho” — assim está na margem — e foi condenado a comer o pão com o suor do rosto. Isso deveria acostumá-lo à dureza e ajudá-lo a suportar melhor as aflições.
III. Ele orienta Jó sobre como se comportar sob a aflição (v. 8): “Eu buscaria a Deus; certamente o faria.” Assim está no original. Há aqui:
Uma censura implícita a Jó por não buscar a Deus, mas contender com ele: “Jó, se eu estivesse em seu lugar, não seria tão irritadiço e apaixonado quanto você. Eu me conformaria com a vontade de Deus.” É fácil dizer o que faríamos se estivéssemos na situação de outra pessoa. Quando chega a prova, porém, talvez descubramos que fazer o que dizemos não é tão fácil.
Um conselho muito bom e oportuno, que Elifaz, por uma figura de linguagem, aplica a si mesmo: “Quanto a mim, se estivesse em sua condição, eu pensaria que o melhor caminho seria recorrer a Deus.” Repare: só devemos dar aos amigos os conselhos que aceitaríamos para nós mesmos se estivéssemos em seu lugar.
Assim poderemos ter tranquilidade em meio às aflições, tirar delas algum bem e ver que terão um bom desfecho.
(1.) Pela oração, devemos buscar em Deus misericórdia e graça; recorrer a ele como Pai e amigo, embora esteja contendendo conosco, e como quem pode nos sustentar e socorrer.
Devemos buscar seu favor quando perdemos tudo o que temos no mundo e dirigir-nos a ele como fonte e Pai de todo bem e de toda consolação. “Alguém está aflito? Ore.” A oração tranquiliza o coração; é bálsamo para toda ferida.
(2.) Pela paciência, devemos confiar a ele nossa pessoa e nossa causa: “A Deus entregaria a minha causa.” Depois de expô-la diante dele, eu a deixaria com ele; depois de colocá-la a seus pés, eu a depositaria em suas mãos. “Eis-me aqui; faça o Senhor comigo o que lhe parecer bom.”
Se nossa causa é de fato justa, não precisamos temer confiá-la a Deus, pois ele é justo e bondoso. Quem deseja buscá-lo e obter resposta deve confiar-se a ele.
IV. Ele encoraja Jó a buscar a Deus desse modo e a confiar-lhe sua causa. Isso não será em vão, pois em Deus encontrará ajuda eficaz.
- Elifaz recomenda que Jó considere o poder todo-poderoso e o domínio soberano de Deus. De modo geral, ele “faz grandes coisas” (v. 9). São realmente grandes, pois ele pode fazer qualquer coisa; faz tudo, segundo o conselho de sua própria vontade. São grandes porque as operações do seu poder são:
(1.) Insondáveis: nunca podem ser inteiramente compreendidas, nem descobertas do começo ao fim, Eclesiastes 3:11. As obras da natureza são misteriosas. As investigações mais cuidadosas ficam muito aquém de revelá-las por completo, e os filósofos mais sábios reconheceram sua perplexidade. Os desígnios da Providência são ainda mais profundos e inexplicáveis, Romanos 11:33.
(2.) Inumeráveis: nunca podem ser contadas. Ele faz grandes coisas sem número. Seu poder nunca se esgota, e nem todos os seus propósitos serão cumpridos antes do fim dos tempos.
(3.) Maravilhosas: nunca podem ser suficientemente admiradas. A própria eternidade será pouco tempo para gastar em sua contemplação. Com essa consideração Elifaz pretende:
[1.] Convencer Jó do erro e da insensatez de contender com Deus. Não devemos presumir julgar suas obras, pois são insondáveis e superam nossas investigações. Tampouco devemos lutar contra nosso Criador: certamente é forte demais para nós e pode nos esmagar num instante.
[2.] Encorajar Jó a buscar a Deus e confiar-lhe sua causa. Que poderia ser mais animador do que ver que o poder pertence a Deus? Ele pode realizar coisas grandes e maravilhosas para nosso alívio, por mais fundo que tenhamos caído.
- Elifaz dá alguns exemplos do domínio e poder de Deus.
(1.) Deus realiza grandes coisas no reino da natureza: “Ele dá chuva sobre a terra” (v. 10). A chuva representa aqui todos os dons da providência comum, todas as estações frutíferas pelas quais ele enche nosso coração de alimento e alegria, Atos 14:17.
Observe: quando Elifaz quer mostrar as grandes coisas que Deus faz, fala da chuva que ele dá. Por ser comum, tendemos a considerá-la coisa pequena. Mas, se pensarmos devidamente tanto em como é produzida quanto no que produz, veremos que é uma grande obra de poder e bondade.
(2.) Ele realiza grandes coisas nos assuntos dos filhos dos homens. Não só enriquece os pobres e consola os necessitados com a chuva que envia (v. 10), mas frustra os planos dos astutos para elevar os humildes. Pois o v. 11 deve ser ligado ao v. 12. Compare com Lucas 1:51-53.
Ele dispersou os soberbos nos pensamentos do coração deles, exaltou os de condição humilde e encheu o coração de coisas boas. Veja:
[1.] Como ele frustra os conselhos dos soberbos e dos sagazes, vv. 12-14. Há um poder supremo que dirige e governa homens que se julgam livres e absolutos, e cumpre seus próprios propósitos apesar dos projetos deles. Observe:
Primeiro, os perversos que andam em oposição a Deus e aos interesses do seu reino costumam ser muito astutos, pois são descendência da antiga serpente, conhecida por sua sutileza. Julgam-se sábios, mas, no fim, se mostrarão tolos.
Segundo, os inimigos perversos do reino de Deus têm seus planos, empreendimentos e conselhos contra ele e contra seus súditos leais e fiéis. São incansáveis e inquietos em seus desígnios, reservados em suas deliberações, elevados em suas expectativas, profundos em sua política e estreitamente unidos em suas alianças, Salmos 2:1, 2.
Terceiro, Deus pode facilmente arruinar e frustrar todos os desígnios dos inimigos dele e do seu povo, e certamente o fará na medida em que isso servir à sua glória. Como foram frustradas as conspirações de Aitofel, Sambalate e Hamã!
Como foram desfeitas as alianças da Síria e de Efraim contra Judá, de Gebal, Amom e Amaleque contra o Israel de Deus, e dos reis da terra e dos príncipes contra o Senhor e seu ungido! As mãos estendidas contra Deus e sua igreja não cumpriram sua empresa, e as armas forjadas contra Sião não prosperaram.
Quarto, os desígnios dos inimigos para arruinar a igreja muitas vezes resultaram na própria ruína (v. 13): “Ele apanha os sábios na própria astúcia” e os enreda na obra das próprias mãos, Salmos 7:15, 16; 9:15, 16. O apóstolo cita essas palavras (1 Coríntios 3:19) para mostrar como os eruditos pagãos foram enganados pela própria filosofia vã.
Quinto, quando Deus entrega os homens à insensatez, eles ficam perplexos e perdidos até nas coisas que parecem mais claras e fáceis (v. 14): “Encontram trevas até durante o dia.” Ou melhor, como está na margem, precipitam-se nas trevas pela violência e pressa de seus próprios conselhos. Veja Jó 12:20, 24, 25.
[2.] Como ele favorece e abraça a causa dos pobres e humildes. Primeiro, ele exalta os humildes, v. 11. Ele levanta de sob os pés dos soberbos aqueles que estes maquinam esmagar e os põe em segurança, Salmos 12:5.
Deus eleva e consola os humildes de coração e os que choram, fazendo-os habitar nas alturas, nas fortalezas das rochas, Isaías 33:16. Os que choram por Sião são os selados, marcados para ser protegidos, Ezequiel 9:4.
Segundo, ele livra os oprimidos, v. 15. Os desígnios dos astutos visam arruinar os pobres; língua, mão, espada e tudo mais são empregados para isso. Mas Deus toma sob sua proteção especial os que são pobres e incapazes de ajudar a si mesmos, que são os seus pobres, dedicados ao seu louvor, e que se entregaram a ele.
Ele os salva da boca que lhes dirige palavras duras e da mão que os trata com dureza. Quando quer, pode prender a língua e fazer secar a mão. O resultado disso é (v. 16):
Que os santos fracos e medrosos são consolados: “Assim, o pobre, que começava a desesperar, tem esperança.” A experiência de alguns anima outros a esperar o melhor nos piores tempos, pois é glória de Deus enviar socorro aos desamparados e esperança aos que a perderam.
Que os pecadores ousados e ameaçadores são confundidos: “A iniquidade fecha a boca.” Eles ficam surpresos diante de um livramento tão extraordinário e envergonhados de sua hostilidade contra os que se revelam favorecidos pelo céu.
São abatidos pela frustração e obrigados a reconhecer a justiça dos atos de Deus, sem nada que possam alegar contra eles. Os que dominavam os pobres de Deus, assustando-os, ameaçando-os e acusando-os falsamente, não terão uma palavra a dizer contra eles quando Deus agir em seu favor. Veja Salmos 76:8, 9; Isaías 26:11; Miquéias 7:16.
Versículos 17 a 27
No parágrafo que conclui seu discurso, Elifaz oferece a Jó — embora ele mesmo não soubesse recebê-la — uma perspectiva consoladora sobre o desfecho das aflições, contanto que recuperasse a serenidade e se ajustasse a elas. Observe:
I. A palavra oportuna de advertência e exortação que lhe dá (v. 17): “Não despreze a correção do Todo-Poderoso. Chame-a correção, pois vem do amor do pai e visa ao bem do filho. Chame-a correção do Todo-Poderoso, com quem contender é loucura e a quem se submeter é sabedoria e dever.”
“Ele será um Deus todo-suficiente — pois é isso que a palavra significa — para todos os que nele confiam. Não despreze sua correção.” A palavra original tem sentido amplo:
“Não a rejeite. Que a graça vença a aversão natural ao sofrimento e o reconcilie com a vontade de Deus nessa aflição.” Precisamos da vara e a merecemos; por isso, não devemos julgar estranho ou injusto sentir seu golpe. Que o coração não se rebele contra um comprimido ou remédio amargo prescrito para nosso bem.
“Não pense mal dela; não a afaste como algo prejudicial ou, pelo menos, inútil, sem necessidade ou vantagem, apenas porque, no momento, não é agradável, mas dolorosa.” Jamais devemos desprezar a ideia de nos curvarmos diante de Deus nem pensar que submeter-nos à sua disciplina está abaixo de nós.
Pelo contrário, devemos considerar que Deus realmente engrandece o homem ao visitá-lo e prová-lo desse modo, Jó 7:17, 18.
- “Não a ignore nem a desconsidere, como se fosse mero acaso ou produto de causas secundárias; preste-lhe muita atenção como à voz de Deus e a um mensageiro vindo do céu.” Há mais implícito do que foi dito:
“Reverencie a correção do Senhor. Considere essa mão disciplinadora com humilde temor e trema quando o leão rugir”, Amós 3:8. “Submeta-se à correção e procure responder ao chamado e ao propósito dela. Assim você a reverenciará.”
Quando Deus, por meio de uma aflição, nos apresenta uma cobrança referente a alguns bens que nos confiou, devemos honrar essa ordem, aceitá-la, assiná-la e devolver-lhe o que é dele quando o pedir.
II. As palavras consoladoras de encorajamento com as quais Elifaz o chama a ajustar-se à sua condição e — como o próprio Jó havia dito — a receber o mal da mão de Deus, sem desprezá-lo como dom indigno de aceitação.
- Se Jó suportasse assim sua aflição:
(1.) A natureza e a qualidade dela seriam alteradas. Embora parecesse a miséria de um homem, seria na verdade sua felicidade: “Feliz é o homem a quem Deus corrige”, se ele aproveitar devidamente a correção.
Um homem bom é feliz mesmo quando sofre, pois, não importa o que perdeu, não perdeu a comunhão com Deus nem seu direito ao céu. Ou melhor: é feliz porque sofre. A correção é evidência de sua condição de filho e meio de sua santificação.
Ela mortifica sua corrupção, desprende seu coração do mundo, aproxima-o de Deus, leva-o à Bíblia, põe-no de joelhos e o prepara para um peso de glória muito maior e eterno; assim, também contribui para essa glória. Feliz, portanto, é o homem a quem Deus corrige, Tiago 1:12.
(2.) Seu desfecho e suas consequências seriam muito bons, v. 18.
[1.] Embora Deus fira o corpo com feridas dolorosas e a mente com pensamentos tristes, ao mesmo tempo faz curativos. É como o cirurgião habilidoso e cuidadoso que trata os ferimentos que precisou fazer com seu bisturi.
Quando Deus faz feridas pelas repreensões de sua providência, ele as trata com as consolações do seu Espírito. Muitas vezes elas abundam na mesma medida que as aflições e as contrabalançam, para satisfação indizível dos que sofrem com paciência.
[2.] Embora fira, suas mãos curam no tempo devido. Assim como sustenta seu povo e o ajuda a suportar as aflições com tranquilidade, no momento certo o livra e lhe abre um caminho de escape. Tudo volta a ficar bem, e Deus o consola em proporção ao tempo em que o afligiu.
O método habitual de Deus é primeiro ferir e depois curar, primeiro convencer e depois consolar, primeiro humilhar e depois exaltar. Como observa o sr. Caryl, ele nunca faz uma ferida grande ou profunda demais para que ele próprio a cure.
Una eademque manus vulnus opemque tulit — a mesma mão que causa a ferida aplica a cura. Deus dilacera os perversos e vai embora; que os cure quem quiser, se puder (Oseias 5:14). Mas os humildes e arrependidos podem dizer: “Ele nos dilacerou e nos curará”, Oseias 6:1. Isso vale em geral, mas:
- Nos versículos seguintes, Elifaz dirige-se diretamente a Jó e lhe oferece muitas promessas preciosas de coisas grandes e bondosas que Deus faria por ele, contanto que se humilhasse sob sua mão.
Embora, pelo que sabemos, eles ainda não tivessem Bíblias, Elifaz tinha fundamento suficiente para dar essas garantias a Jó, com base nas revelações gerais que Deus fizera de sua boa vontade para com seu povo.
E embora os amigos de Jó não fossem guiados pelo Espírito de Deus em tudo o que disseram — pois falaram coisas incorretas tanto sobre Deus quanto sobre Jó —, as doutrinas gerais que formularam expressavam o pensamento piedoso da era patriarcal.
Como São Paulo citou o v. 13 como Escritura canônica e a ordem do v. 17 sem dúvida também nos obriga, as promessas desta passagem podem e devem ser recebidas e aplicadas como promessas divinas. Pela paciência e consolação que esta parte das Escrituras oferece, podemos ter esperança.
Procuremos, portanto, assegurar nossa participação nessas promessas; então consideremos cada uma delas e recebamos seu consolo.
(1.) Promete-se aqui que, sempre que aflições e dificuldades voltarem, o sustento e os livramentos se repetirão pela graça, por mais vezes que isso aconteça: “Em seis tribulações ele estará pronto para livrar você; sim, e ainda em sete”, v. 19.
Isso mostra que, enquanto estivermos neste mundo, devemos esperar uma sucessão de dificuldades: as nuvens voltarão depois da chuva. Depois de seis tribulações pode vir a sétima; depois de muitas, espere outras ainda. Mas Deus livrará os seus de todas elas, 2 Timóteo 3:11; Salmos 34:19.
Os livramentos anteriores não são, como entre os homens, desculpa para deixar de livrar novamente, mas garantias de novos livramentos, Provérbios 19:19.
(2.) Quaisquer que sejam as dificuldades dos homens bons, nenhum mal os atingirá; elas não lhes causarão dano real. A malignidade das aflições, seu ferrão, será removida. Elas podem sibilar, mas não ferir, Salmos 91:10. O maligno não toca os filhos de Deus, 1 João 5:18. Ao serem guardados do pecado, são guardados do mal que poderia haver em qualquer dificuldade.
(3.) Quando juízos devastadores se espalharem, eles receberão proteção especial, v. 20. Muitos à sua volta perecem por falta do sustento necessário à vida? Eles serão supridos.
“Na fome, ele resgatará você da morte; aconteça o que acontecer aos outros, você será conservado vivo”, Salmos 33:19. “Certamente receberá alimento; mais ainda, até nos dias de fome ficará satisfeito”, Salmos 37:3, 19.
“Em tempo de guerra, quando milhares caírem à direita e à esquerda, ele resgatará você do poder da espada. Se Deus quiser, ela não o tocará. Mesmo que o fira ou mate, não lhe causará dano. Ela só pode matar o corpo, e nem isso pode fazer sem receber permissão do alto.”
(4.) O que for dito maldosamente contra eles não os atingirá nem lhes causará dano, v. 21. “Você não será protegido apenas da espada mortal da guerra, mas também escondido do açoite da língua, que, como um açoite, incomoda e causa dor, embora não mate.”
Nem mesmo os melhores homens, os mais inofensivos, conseguem proteger-se de calúnia, descrédito e falsas acusações por sua inocência. Um homem não pode esconder-se disso, mas Deus pode escondê-lo.
Assim, as calúnias mais maldosas serão tão pouco consideradas por ele que não perturbarão sua paz, e tão pouco consideradas pelos outros que não mancharão sua reputação. Deus pode conter, e contém, o resto da cólera.
É porque Deus domina a consciência dos homens maus que o açoite da língua não destrói todos os consolos dos homens bons neste mundo.
(5.) Eles terão uma santa segurança e serenidade de espírito, nascidas da esperança e da confiança em Deus, mesmo nos piores tempos. Quando os perigos parecerem mais ameaçadores, ficarão tranquilos por crer que estão seguros.
Não terão medo da destruição, nem mesmo quando a virem aproximar-se (v. 21), nem dos animais do campo quando os atacarem, nem dos homens tão cruéis quanto feras. Mais ainda: “Você rirá da destruição e da fome” (v. 22).
Não se trata de desprezar as correções de Deus ou zombar de seus juízos, mas de triunfar em Deus, em seu poder e sua bondade. Assim triunfarão sobre o mundo e todos os seus males, estando não apenas tranquilos, mas animados e alegres na tribulação.
O bendito Paulo riu da destruição quando disse: “Ó morte, onde está o teu aguilhão?” Em nome de todos os santos, desafiou todas as calamidades do tempo presente a nos separarem do amor de Deus e concluiu que, em todas essas coisas, somos mais que vencedores, Romanos 8:35, etc. Veja Isaías 37:22.
(6.) Por estarem em paz com Deus, haverá uma aliança de amizade entre eles e toda a criação, v. 23. “Ao andar por suas terras, você não precisará temer tropeçar, pois estará em pacto com as pedras do campo, para que não machuque o pé em nenhuma delas. Tampouco estará em perigo por causa dos animais do campo, pois todos estarão em paz com você.”
Compare Oseias 2:18: “Farei por eles uma aliança com os animais do campo.” Isso indica que, enquanto o homem estiver em inimizade com seu Criador, as criaturas inferiores estarão em guerra com ele. Mas tranquillus Deus tranquillat omnia — um Deus reconciliado reconcilia todas as coisas.
Nossa aliança com Deus é uma aliança com todas as criaturas: elas não nos causarão dano, mas estarão prontas a nos servir e nos fazer bem.
(7.) Suas casas e famílias lhes trarão conforto, v. 24. A paz e a piedade na família produzirão esse resultado. “Você saberá e terá certeza de que sua tenda está e estará em paz; poderá confiar tanto na prosperidade presente quanto na futura.”
“A paz é a sua tenda” — assim está na palavra original. A paz é a casa em que vivem os que habitam em Deus e nele encontram seu lar. “Você visitará” — isto é, investigará os assuntos de — “sua habitação, passará tudo em revista e não pecará.”
[1.] Deus providenciará uma morada para seu povo. Talvez seja humilde e móvel, uma cabana, uma tenda, mas será uma habitação estável e tranquila. “Você não pecará”, ou não andará errante. Segundo alguns intérpretes, significa: “Você não será fugitivo nem vagabundo”, como na maldição de Caim. “Você habitará na terra e certamente será alimentado, sem a incerteza dos errantes.”
[2.] As famílias dos seus serão colocadas sob a proteção especial da Providência divina e prosperarão na medida em que isso lhes fizer bem.
[3.] Eles terão certeza da paz, de sua continuidade e de sua transmissão aos descendentes. “Você saberá, para sua satisfação indizível, que a paz está assegurada a você e aos seus, pois tem a palavra de Deus como garantia.” A Providência pode mudar, mas a promessa não.
[4.] Terão sabedoria para governar bem a família, ordenar os assuntos com prudência e observar com atenção os caminhos de sua casa; é a isso que se chama aqui visitar a habitação. Os responsáveis pela família não devem ser estranhos em casa, mas vigiar o que possuem e o que seus servos fazem.
[5.] Terão graça para conduzir os assuntos da família de modo piedoso, sem pecar nessa administração. Cobrarão contas dos servos sem irritação, orgulho, cobiça, apego ao mundo ou coisas semelhantes. Examinarão os assuntos da casa sem descontentamento com o presente nem desconfiança quanto ao futuro.
A piedade familiar coroa a paz e a prosperidade da família. A maior bênção, tanto no que fazemos quanto no que desfrutamos, é sermos guardados do pecado nessas coisas.
Quando estamos fora, é reconfortante ouvir que nossa tenda está em paz. Ao voltar para casa, é reconfortante visitar nossa habitação com satisfação pelo bom resultado — não falhamos em nossos negócios — e com boa consciência — não ofendemos a Deus.
(8.) Seus descendentes serão numerosos e prósperos. Jó havia perdido todos os filhos. “Mas”, diz Elifaz, “se você voltar para Deus, ele edificará de novo sua família. Seus descendentes serão tão numerosos e importantes como antes; sua prole crescerá e florescerá como a relva da terra” (v. 25), “e você saberá disso.”
Deus tem bênçãos reservadas para os descendentes dos fiéis. Eles as receberão se não atrapalharem a si mesmos nem as perderem por sua insensatez.
É consolo para os pais ver a prosperidade dos filhos, sobretudo a prosperidade espiritual. Se os filhos são realmente bons, são realmente grandes, por mais modesta que seja sua posição no mundo.
(9.) Sua morte virá no tempo adequado, e eles terminarão a carreira com alegria e honra, v. 26. É grande misericórdia:
[1.] Viver até uma idade avançada, sem que o número dos nossos meses seja interrompido pela metade. Mesmo que a providência de Deus não nos conceda vida longa, se sua graça nos levar a contentar-nos com o tempo que recebemos, pode-se dizer que chegamos à idade plena. Viveu o suficiente o homem que cumpriu seu trabalho e está preparado para o outro mundo.
[2.] Estar disposto a morrer, chegar alegremente ao túmulo e não ser levado para lá à força, como aquele de quem a alma foi exigida.
[3.] Morrer no tempo adequado, como o trigo cortado e recolhido quando está plenamente maduro: não antes, mas também sem ficar de pé nem mais um dia para que não se percam os grãos. Nossos tempos estão nas mãos de Deus. É bom que estejam, pois ele cuidará para que os seus morram no melhor momento. Por mais prematura que a morte deles nos pareça, veremos que não veio fora de tempo.
- No último versículo, Elifaz recomenda essas promessas a Jó:
(1.) Como afirmações fiéis de cuja verdade ele podia estar seguro: “Veja, examinamos isto e assim é. De fato, recebemos essas coisas pela tradição dos nossos pais, mas não as aceitamos sem exame.”
“Investigamo-las cuidadosamente, comparamos coisas espirituais com espirituais, estudamo-las com diligência e fomos confirmados na crença nelas por nossa própria observação e experiência. Todos concordamos que é assim.”
A verdade é um tesouro pelo qual vale a pena cavar e mergulhar. Quando nos esforçamos por investigá-la, aprendemos tanto a valorizá-la quanto a transmiti-la aos outros.
(2.) Como palavras inteiramente dignas de aceitação, que Jó poderia aproveitar para seu grande benefício: “Ouça isso e saiba-o para o seu bem.” Não basta ouvir e conhecer a verdade; devemos tirar proveito dela e, por meio dela, tornar-nos mais sábios e melhores, receber sua impressão e submeter-nos à sua autoridade.
“Conheça-a por si mesmo” — assim está no original —, aplicando-a a você e ao seu próprio caso. Não basta dizer: “Isso é verdade”, mas: “Isso é verdade a meu respeito.” O que assim ouvimos e sabemos por nós mesmos, ouvimos e sabemos para nosso bem, como somos nutridos pelo alimento que digerimos. Bom sermão para nós é aquele que nos faz bem.