Jó 41
Argumento
A descrição que se faz aqui do leviatã, peixe ou animal aquático muito grande, forte e temível, tem o desígnio de convencer ainda mais Jó de sua própria falta de poder e da onipotência de Deus, para que se humilhe por sua insensatez ao tomar com Deus as liberdades que tomou.
I. Para convencer Jó de sua fraqueza, Deus o desafia a dominar e amansar o leviatã, se puder, e a tornar-se senhor dele, vv. 1-9. Como não consegue fazê-lo, Jó deve reconhecer que é inteiramente incapaz de permanecer de pé diante do grande Deus, v. 10.
II. Para convencer Jó do poder e da terrível majestade de Deus, são apresentados diversos exemplos da força e do terror do leviatã. Essa força não excede o que Deus lhe deu nem escapa a seu controle, v. 11, 12.
O rosto do leviatã é descrito como terrível (v. 12, 14); suas escamas, bem unidas (vv. 15-17); seu sopro e seus espirros, faiscantes (vv. 18-21); sua carne, firme (vv. 22-24); sua força e seu ânimo, quando atacado, invencíveis (vv. 25-30); seus movimentos, turbulentos e perturbadores das águas (v. 31, 32). Em suma, é uma criatura muito temível, à qual o homem não pode fazer frente, v. 33, 34.
Versículos 1 a 10
Descrição do Leviatã. (a.C. 1520.)
Há grande disputa entre os eruditos sobre se o leviatã é uma baleia ou um crocodilo, e não me comprometo a resolvê-la. Alguns detalhes se ajustam mais facilmente a um, outros ao outro. Ambos são muito fortes e ferozes, e o poder do Criador se manifesta neles.
O engenhoso Sir Richard Blackmore aceita a opinião mais comum de que o beemote é o elefante, mas concorda com a ideia do erudito Bochart de que o leviatã é o crocodilo, tão conhecido no rio do Egito.
Confesso que me inclino a entendê-lo como a baleia, não apenas por ser muito maior e um animal mais nobre, mas também porque, no relato da Criação, ela é mencionada expressamente como nenhuma outra espécie de animal: “Deus criou grandes baleias” (Gênesis 1:21).
Isso mostra não só que as baleias eram bem conhecidas naquelas regiões no tempo de Moisés, que viveu pouco depois de Jó, mas também que a criação delas era geralmente considerada uma demonstração notável do poder eterno e da divindade do Criador.
Podemos conjecturar que esse foi o motivo — pois, de outro modo, parece inexplicável — pelo qual Moisés mencionou a criação das baleias de modo tão particular: Deus havia insistido pouco antes no tamanho e na força dessa criatura, mais do que de qualquer outra, como prova de seu poder.
Além disso, o leviatã é apresentado aqui como habitante do mar (v. 31), o que o crocodilo não é. E em Salmos 104:25, 26, é no mar grande e vasto que se encontra o leviatã. Nestes versículos:
I. Deus mostra que Jó não era capaz de dominar o leviatã.
Não poderia pescá-lo à linha como um peixinho (v. 1, 2). Não tinha isca com que enganá-lo, anzol com que capturá-lo, linha com que tirá-lo da água nem espinho para atravessar-lhe as guelras e carregá-lo para casa.
Não poderia fazê-lo prisioneiro nem obrigá-lo a pedir misericórdia ou a render-se sem condições (v. 3, 4). “Ele conhece bem demais a própria força para fazer muitas súplicas a você ou firmar uma aliança pela qual se torne seu servo sob a condição de que você lhe poupe a vida.”
Não poderia atraí-lo para uma gaiola e ali mantê-lo como pássaro com que as crianças brincam (v. 5). Há criaturas tão pequenas e fracas que podem ser facilmente contidas desse modo e sobre as quais se pode triunfar. O leviatã, porém, não é uma delas: foi feito para inspirar terror à humanidade, não para ser seu brinquedo ou divertimento.
Não poderia servi-lo à própria mesa; nem Jó nem seus companheiros poderiam fazer dele um banquete. Sua carne é forte demais para servir de alimento e, ainda que não fosse, não é fácil capturá-lo.
Não poderiam enriquecer com seus despojos: “Reparti-lo-ão entre os negociantes”, dando os ossos a um e o óleo a outro? Se puderem capturá-lo, farão isso; mas é provável que a arte de pescar baleias ainda não tivesse alcançado a perfeição a que chegou depois.
Não poderiam matá-lo nem encher-lhe a cabeça de arpões (v. 7). Ele se mantinha fora do alcance de seus instrumentos de morte; ou, se estes o tocassem, não conseguiriam feri-lo profundamente.
Era inútil tentar capturá-lo: a esperança de apanhá-lo é vã (v. 9). Se os homens tentarem agarrá-lo, sua aparência será tão temível que os assustará e fará até um homem valente quase desmaiar: “Não será alguém derrubado só de vê-lo?” Isso não bastará para dissuadir os perseguidores?
Jó recebe a advertência de pôr a mão sobre ele por sua própria conta e risco (v. 8): “Toque nele, se tiver coragem; lembre-se da batalha, de como você é incapaz de enfrentar tamanha força e de qual será, portanto, o provável resultado. Não faça mais nada: desista da tentativa.”
Convém pensar na batalha antes de entrar em guerra e tirar a armadura a tempo, se percebemos que vesti-la será inútil. Com isso, Jó é advertido a não prosseguir na controvérsia com Deus, mas a fazer as pazes com ele, lembrando-se de como a batalha certamente terminará se chegar ao confronto. Veja Isaías 27:4, 5.
II. Daí Deus conclui que Jó não era capaz de contender com o Todo-Poderoso. Ninguém é tão feroz ou temerário que ouse provocar o leviatã (v. 10), pois se sabe que ele certamente será forte demais. Quem, então, pode permanecer de pé diante de Deus, seja para denunciar e acusar formalmente seus atos, seja para enfrentar o poder de sua cólera?
Se as criaturas inferiores, postas debaixo dos pés do homem e sujeitas a seu domínio, assim nos enchem de temor, quão terrível deve ser a majestade de nosso grande Senhor, que tem domínio soberano sobre nós e contra quem o homem há tanto tempo se rebela! Quem pode permanecer de pé diante dele quando se ira?
Versículos 11 a 34
Depois de mostrar nos versículos anteriores como Jó era incapaz de enfrentar o leviatã, Deus expõe aqui seu próprio poder nessa criatura enorme e poderosa. Aqui está:
I. A afirmação do domínio soberano e da independência de Deus (v. 11):
- Ele não deve nada a nenhuma de suas criaturas. Se alguém alega que Deus lhe deve algo, apresente sua cobrança e prove a dívida; receberá tudo, sem desconto: “Quem me precedeu?”, isto é, “quem me impôs alguma obrigação mediante algum serviço que me prestou? Quem pode alegar que me deu algo primeiro?”
“Se alguém o tivesse feito, eu não ficaria muito tempo em dívida com ele; logo lhe retribuiria.”
O apóstolo cita isso para fazer toda criatura calar-se diante de Deus (Romanos 11:35): “Quem primeiro lhe deu, e isso lhe será recompensado de novo?” Assim como Deus não nos inflige os males que merecemos, também nos concede favores que não merecemos.
- Ele é o Senhor e proprietário legítimo de todas as criaturas: tudo o que há debaixo de todo o céu, vivo ou não, é meu, especialmente o leviatã. Tudo está sob sua ordem e seu controle; sua propriedade e seu domínio sobre tudo são incontestáveis.
Tudo lhe pertence: nós, tudo o que temos e tudo o que fazemos. Portanto, não podemos fazer de Deus nosso devedor; mas do que é seu, Senhor, lhe demos. Tudo lhe pertence e, se devesse algo a alguém, teria com que pagar; a dívida estaria em boas mãos.
Tudo lhe pertence e, por isso, não precisa de nossos serviços nem pode ser beneficiado por eles: “Se eu tivesse fome, não te diria, pois meu é o mundo e tudo o que nele há” (Salmos 50:12).
II. A prova e a ilustração desse domínio na estrutura extraordinária do leviatã (v. 12):
- As partes do corpo dessa criatura, o poder que exerce, sobretudo quando é atacada, e a bela proporção do conjunto são coisas que Deus não ocultará. Devemos, portanto, observá-las e reconhecer nelas seu poder.
Embora tenha um corpo de tamanho monstruoso, suas partes guardam bela proporção. A nossos olhos, a beleza está nas coisas pequenas (inest sua gratia parvis — as coisas pequenas têm graça própria), porque nós mesmos somos pequenos. Aos olhos de Deus, porém, até o leviatã é belo.
Se ele assim declara até a baleia ou o crocodilo, não cabe a nós chamar feia ou disforme nenhuma obra de suas mãos; quanto às nossas próprias obras, há motivo para dizê-lo. Deus nos oferece aqui, por assim dizer, uma visão anatômica do leviatã.
Suas obras se mostram mais belas e excelentes, e sua sabedoria e seu poder aparecem mais claramente nelas, quando são desmembradas e observadas em suas diversas partes e proporções.
(1.) O leviatã, mesmo prima facie — à primeira vista —, parece temível e inacessível (v. 13, 14). Quem ousa aproximar-se tanto dele, enquanto vive, a ponto de descobrir ou observar nitidamente a face de sua veste, a pele que o cobre como roupa?
Quem ousa chegar perto o bastante para pôr-lhe freio como a um cavalo e levá-lo embora, ou para ficar ao alcance de suas mandíbulas, que são como um freio duplo? Quem se arrisca a olhar-lhe a boca, como olhamos a de um cavalo?
Quem abre as portas de sua face vê ao redor dentes terríveis, fortes, afiados e próprios para devorar. Só de imaginar uma perna ou um braço entre eles, qualquer um tremeria.
(2.) Suas escamas são sua beleza e sua força e, portanto, seu orgulho (vv. 15-17). O crocodilo, de fato, se distingue pelas escamas. Se entendemos o leviatã como baleia, devemos entender esses escudos, pois essa é a palavra usada, como as diversas camadas de sua pele; ou talvez houvesse baleias escamosas naquela região.
O notável nas escamas é que se unem tão estreitamente que não só o mantêm aquecido, pois o ar não consegue penetrá-las, mas também o protegem, pois nenhuma espada as atravessa. Os peixes que vivem na água recebem as defesas de que precisam pela sabedoria da Providência, que fornece roupa assim como fornece frio.
(3.) Ele espalha terror com o próprio sopro e o olhar. Quando espirra ou lança água para cima, parece uma luz que brilha, seja pela espuma, seja pela luz do sol que a atravessa (v. 18). Diz-se que os olhos da baleia brilham à noite como chama ou, como aqui, como as pálpebras da manhã; o mesmo se diz do crocodilo.
O sopro dessa criatura é tão quente e ardente, por causa do grande calor natural que há nela, que se diz saírem de sua boca lâmpadas acesas, faíscas de fogo, fumaça e chama, que parecem bastar para acender carvões (vv. 19-21).
É provável que essas expressões hiperbólicas sobre o leviatã indiquem o terror da cólera de Deus, pois todo o discurso pretende nos convencer disso.
O fogo que sai de sua boca devora (Salmos 18:7, 8). O sopro do Todo-Poderoso, como um rio de enxofre, acende Tofete e o manterá aceso para sempre (Isaías 30:33). O perverso será consumido pelo sopro de sua boca (2 Tessalonicenses 2:8).
(4.) Ele tem força invencível e ferocidade terrível. Assusta todos os que encontra, mas nenhum deles o assusta. Observe seu pescoço: nele permanece a força (v. 22). A cabeça e o corpo estão firmemente unidos.
A tristeza se alegra, ou marcha triunfante, diante dele, pois provoca terríveis estragos por onde passa. Ou as tempestades que trazem tristeza a outros são sua alegria: aquilo que sacode os demais é dança para ele.
Sua carne é bem compacta (v. 23). Suas dobras estão tão unidas e são tão firmes que é árduo atravessá-las; ele parece feito inteiramente de osso. Sua carne é de bronze, coisa que Jó se queixara de que a sua não era (Jó 6:12).
“Seu coração é tão firme quanto uma pedra” (v. 24). Seu ânimo corresponde à força do corpo e, embora seja enorme, é vigoroso, não desajeitado. Assim como sua carne e pele não podem ser perfuradas, sua coragem não pode ser abatida.
Ao contrário, ele abate o ânimo de todos os que encontra e os deixa consternados (v. 25). Quando se ergue como montanha em movimento nas grandes águas, até os poderosos temem que vire seus navios ou lhes cause algum outro dano.
Por causa da agitação que produz na água e da ameaça de morte, eles se purificam, confessam os pecados, entregam-se à oração e se preparam para morrer.
Lemos em Jó 3:8 sobre pessoas que, ao despertarem um leviatã, ficam tão apavoradas que amaldiçoam o dia. Ao que parece, o temor levava uns a amaldiçoar e outros a orar.
Tanto naquela época quanto hoje havia navegantes de índoles diferentes, em quem os terrores do mar produziam efeitos opostos. Todos, porém, concordam que há grande pavor entre eles quando o leviatã se ergue.
(5.) Nenhum instrumento de morte usado contra ele lhe causa prejuízo; por isso, não lhe causa terror (vv. 26-29). A espada e a lança, que ferem de perto, nada são para ele. Os dardos, as flechas e as pedras de funda, que ferem de longe, não lhe causam estrago.
A natureza o armou tão bem cap-a-pie — de alto a baixo — contra todos eles. Até as armas defensivas que os homens usam ao enfrentá-lo, como a cota de malha ou a couraça, muitas vezes lhes servem tão pouco quanto as ofensivas. Ferro e bronze são para ele como palha e madeira podre, e ele ri deles.
Ele retrata o pecador de coração endurecido, que despreza os terrores do Todo-Poderoso e ri de todas as ameaças de sua palavra. O leviatã teme tão pouco as armas usadas contra ele que, para mostrar sua resistência, escolhe deitar-se sobre pedras afiadas e objetos pontiagudos (v. 30).
Ali repousa tão confortavelmente como se estivesse sobre lama macia. Quem deseja suportar agruras precisa acostumar-se a elas.
(6.) Seus movimentos na água a perturbam e agitam (v. 31, 32). Quando rola, se debate e agita as águas, ou persegue a presa, “faz ferver o abismo como uma panela”. Levanta tanta espuma quanto a que se vê numa panela fervente, especialmente numa de unguento em ebulição.
“Faz brilhar um rastro atrás de si”, coisa que nem mesmo um navio no meio do mar faz (Provérbios 30:19). Pode-se seguir o leviatã debaixo da água pelas bolhas na superfície; mas quem ousa usar essa vantagem para persegui-lo? Os homens seguem lebres pela neve e as matam; quem segue o leviatã não ousa aproximar-se dele.
- Depois dessa descrição das partes, do poder e da bela proporção do leviatã, Deus conclui com quatro observações gerais sobre ele:
(1.) É incomparável entre as criaturas inferiores: “Sobre a terra não há semelhante a ele” (v. 33). Nenhuma criatura neste mundo se compara a ele em força e capacidade de inspirar terror. Ou talvez haja aqui um contraste entre a terra e o mar: seu domínio não é sobre a terra, segundo alguns, mas sobre as águas.
Nenhum dos animais selvagens da terra se aproxima dele em tamanho e força. É bom para o homem que o leviatã esteja confinado às águas e ali seja vigiado pela divina Providência (Jó 7:12). Se tal criatura pudesse percorrer e devastar a terra, esta seria morada insegura e desconfortável para os seres humanos a quem foi destinada.
(2.) É mais ousado e destemido que qualquer outra criatura: Foi feito sem temor. As criaturas são como foram feitas. O leviatã tem coragem em sua constituição; nada o assusta. Outras criaturas, pelo contrário, parecem ter sido feitas para fugir, tanto quanto ele foi feito para lutar. Assim também, entre os homens, alguns são naturalmente ousados, e outros, tímidos.
(3.) Ele próprio é muito orgulhoso: embora more no abismo, “contempla todas as coisas altas” (v. 34). As ondas revoltas, os rochedos suspensos, as nuvens que pairam e os navios à vela com velas de gávea e joanetes içados: ele olha para tudo com desprezo, pois não julga que essas coisas o diminuam ou ameacem. Os grandes tendem a ser desdenhosos.
(4.) É rei sobre todos os filhos do orgulho, isto é, o mais orgulhoso de todos. Segundo a explicação do Sr. Caryl, ele tem mais de que se orgulhar do que as pessoas mais orgulhosas do mundo; isso humilha a soberba e o olhar altivo dos homens.
Seja qual for a qualidade do corpo de que os homens se orgulhem e com a qual se ensoberbeçam, o leviatã os supera e reina sobre eles.
Alguns interpretam as palavras como referência a Deus: aquele que contempla todas as coisas altas é o Rei sobre todos os filhos do orgulho. Ele pode domar o beemote (Jó 40:19) e o leviatã, apesar de seu tamanho e coragem.
O discurso sobre esses dois animais foi introduzido para provar que somente Deus pode olhar para os orgulhosos e humilhá-los, rebaixá-los, pisá-los e escondê-los no pó (Jó 40:11-13).
Assim, conclui-se com um quod erat demonstrandum — o que se queria demonstrar: há alguém que contempla todas as coisas altas e está acima dos homens quando eles agem com orgulho. Ele é Rei sobre todos os filhos do orgulho, irracionais ou racionais, e pode fazer todos se dobrarem ou se quebrarem diante dele (Isaías 2:11).
“Os olhos altivos do homem serão humilhados, e a arrogância dos homens será abatida”; assim, somente o Senhor será exaltado.