Matthew Henry

Jó 37

Argumento

Eliú continua aqui a exaltar o maravilhoso poder de Deus nos fenômenos atmosféricos e em todas as mudanças do tempo. Se, nessas mudanças, nos submetemos à vontade de Deus, aceitamos o tempo como ele é e procuramos tirar dele o melhor proveito, por que não faríamos o mesmo nas demais mudanças de nossa condição? Aqui ele observa a mão de Deus:

I. Nos trovões e relâmpagos, vv. 1-5.

II. Na geada e na neve, nas chuvas e no vento, vv. 6-13.

III. Aplica isso a Jó e o desafia a explicar os fenômenos dessas obras da natureza, para que, ao confessar sua ignorância a respeito delas, reconheça que não é juiz competente dos procedimentos da Providência divina, vv. 14-22.

IV. Conclui, então, com o princípio que se propôs a demonstrar: Deus é grande e deve ser grandemente temido, vv. 23-24.

Versículos 1 a 5

O Discurso de Eliú. (a.C. 1520.)

O trovão e o relâmpago, que costumam vir juntos, são sinais palpáveis da glória e majestade, do poder e terror de Deus Todo-Poderoso: um se dirige ao ouvido, e o outro, aos olhos. Neles, Deus não deixa de dar testemunho de sua grandeza, assim como, na chuva do céu e nas estações frutíferas, não deixa de dar testemunho de sua bondade (Atos 14:17), mesmo aos mais obtusos e irrefletidos.

Embora tenham causas naturais e efeitos úteis, que os filósofos se propõem a explicar, ainda assim parecem ter sido destinados pelo Criador principalmente a sobressaltar e despertar o mundo adormecido dos homens para a consideração de um Deus acima deles.

Os olhos e os ouvidos são os dois sentidos pelos quais aprendemos; por isso, embora tal circunstância seja possível, dizem que nunca se soube de fato que alguém tenha nascido ao mesmo tempo cego e surdo.

Pela palavra de Deus, as instruções divinas chegam à mente por meio do ouvido; por suas obras, por meio dos olhos. Mas, como essas visões e esses sons comuns não impressionam devidamente os homens, Deus às vezes tem por bem assombrá-los pelos olhos com seus relâmpagos e pelos ouvidos com seu trovão.

É muito provável que, enquanto Eliú falava, houvesse trovões e relâmpagos, pois ele trata esses fenômenos como presentes. E, estando Deus prestes a falar (Jó 38:1), eles eram, como mais tarde no monte Sinai, os prelúdios apropriados para exigir atenção e reverência. Observe aqui:

  1. Como o próprio Eliú foi afetado pela manifestação da glória de Deus nos trovões e relâmpagos e desejou afetar Jó com ela (v. 1, 2): “Quanto a mim”, diz Eliú, “meu coração treme diante disso; embora eu muitas vezes tenha ouvido o trovão e visto o relâmpago, continuam a me causar terror, fazem tremer cada junta do meu corpo e meu coração bater como se fosse sair de seu lugar”.

O trovão e o relâmpago têm sido terríveis para os ímpios: o imperador Calígula se escondia num canto ou debaixo da cama por medo deles. Dizemos que as pessoas muito atônitas ficam fulminadas. Mesmo as pessoas piedosas consideram o trovão e o relâmpago muito temíveis.

O que os torna ainda mais terríveis é o dano que o relâmpago muitas vezes causa, pois muitos morreram atingidos por ele. Sodoma e Gomorra foram reduzidas a ruínas por ele. É um sinal palpável do que Deus poderia fazer a este mundo pecador e do que, por fim, fará pelo fogo para o qual ele está reservado.

Nossos corações, como o de Eliú, devem tremer diante disso por temor dos juízos de Deus, Salmos 119:120. Ele também conclama Jó a prestar atenção (v. 2): “Escuta atentamente o ruído da sua voz”. Talvez o trovão ainda estivesse distante e não pudesse ser ouvido sem atenção.

Ou, antes, embora se ouça o trovão e, seja o que for que façamos, não possamos deixar de prestar atenção a ele, precisamos ouvir com grande atenção e aplicação da mente para perceber e entender as instruções que Deus nos dá por meio dele.

O trovão é chamado a voz do Senhor (Salmos 29:3, etc.), porque, por meio dele, Deus fala aos filhos dos homens para que o temam. Ele deve nos lembrar daquela poderosa palavra pela qual o mundo foi criado no princípio e que é chamada trovão. Salmos 104:7: “À voz do teu trovão, elas fugiram apressadas”, isto é, as águas, quando Deus disse que fossem reunidas num só lugar.

Os que são afetados pela grandeza de Deus devem esforçar-se para afetar os outros.

  1. Como Eliú os descreve.

(1.) Sua origem: não as causas secundárias, mas a primeira. Deus dirige o trovão, e o relâmpago é dele, v. 3. Sua produção e seu movimento não vêm do acaso, mas do conselho de Deus e estão sob a direção e o domínio de sua providência, embora nos pareçam acidentais e ingovernáveis.

(2.) Sua extensão. Os estrondos do trovão rolam sob todo o céu e são ouvidos perto e longe; da mesma forma, os relâmpagos são lançados até os confins da terra. Saem de uma parte debaixo do céu e brilham até a outra, Lucas 17:24.

Embora o mesmo relâmpago e o mesmo trovão não alcancem todos os lugares, atingem lugares muito distantes num instante. Não há lugar que, em alguma ocasião, não receba esses alarmes do céu.

(3.) Sua ordem. Primeiro é dirigido o relâmpago e, depois dele, ruge uma voz, v. 4. O clarão do fogo e o ruído que ele produz numa nuvem carregada de água acontecem, na verdade, ao mesmo tempo. Mas, como a luz se move muito mais depressa que o som, vemos o relâmpago algum tempo antes de ouvir o trovão, assim como vemos ao longe o disparo de um grande canhão antes de ouvir seu estrondo.

O trovão é aqui chamado a voz da excelência de Deus, porque, por meio dele, Deus proclama seu poder e sua grandeza transcendentes. “Ele faz ouvir sua voz, e uma voz poderosa”, Salmos 68:33.

(4.) Sua violência. Ele não os detém, isto é, não precisa contê-los nem segurá-los por receio de que se tornem indisciplinados e escapem ao seu poder de refreá-los. Deixa-os seguir seu curso; diz-lhes: “Vão”, e eles vão; “Venham”, e eles vêm; “Façam isto”, e eles o fazem.

Segundo alguns, ele não detém as chuvas fortes e os aguaceiros que costumam seguir-se ao trovão, dos quais já falara em Jó 36:27, 29, mas os derrama sobre a terra quando sua voz é ouvida. As tempestades com trovões trazem chuvas torrenciais, e para elas ele faz os relâmpagos, Salmos 135:7.

(5.) A inferência que tira de tudo isso, v. 5. Deus troveja tão maravilhosamente com sua voz? Devemos, então, concluir que suas outras obras são grandes e tais que não podemos compreendê-las.

A partir deste único exemplo, podemos concluir acerca de todos os demais que, nas dispensações de sua providência, há coisas grandes e fortes demais para que nos oponhamos a elas ou contra elas lutemos, e elevadas e profundas demais para que as levemos a julgamento ou entremos em contenda com elas.

Versículos 6 a 11

As mudanças e os extremos do tempo, úmido ou seco, quente ou frio, são assunto frequente de nossas conversas e observações. Mas quão raramente pensamos e falamos dessas coisas, como Eliú faz aqui, com reverência a Deus, que as dirige, manifesta nelas seu poder e por meio delas cumpre os propósitos de sua providência!

Devemos reparar na glória de Deus não só no trovão e no relâmpago, mas também nas mudanças mais comuns do tempo, que são menos terríveis e fazem menos barulho. Por exemplo:

I. Na neve e na chuva, v. 6. Trovões e relâmpagos costumam ocorrer no verão, mas aqui Eliú considera o tempo de inverno. Então Deus diz à neve: “Sê sobre a terra”. Ele a comissiona, ordena e designa onde cairá e por quanto tempo permanecerá.

Ele fala, e acontece: como na criação do mundo disse “Haja luz”, assim também nas obras da providência comum diz: “Neve, sê sobre a terra”. Dizer e fazer não são duas coisas para Deus, embora o sejam para nós.

Quando ele dá a ordem, a chuva fina goteja e a chuva forte cai em torrentes, como lhe agrada. Trata-se da chuva de inverno, segundo a Septuaginta, pois naquelas regiões, quando o inverno passava, a chuva acabava e ia embora, Cantares de Salomão 2:11.

A distinção no hebraico entre chuva fina e chuva forte é que a primeira é chamada aguaceiro de chuva, e a segunda, de chuvas: muitos aguaceiros num só. Todas, porém, são chuvas de sua força. O poder de Deus deve ser observado tanto na chuva fina que penetra na terra quanto na chuva forte que golpeia os telhados e arrasta tudo diante de si.

Repare: a providência de Deus deve ser reconhecida em cada pancada de chuva, tanto pelos agricultores no campo quanto pelos viajantes na estrada, quer lhes faça bem, quer lhes traga prejuízo. É pecado e insensatez contender com a providência de Deus no tempo: se ele envia neve ou chuva, podemos impedi-las? Ou devemos ficar irados com elas?

É igualmente absurdo entrar em contenda com qualquer outro modo pelo qual a Providência dispõe de nós ou do que é nosso. O efeito do rigor do inverno é obrigar homens e animais a recolher-se, pois sair se torna desconfortável e perigoso.

  1. Os homens deixam o trabalho no campo, recolhem-se às casas e permanecem dentro delas (v. 7): “Ele sela a mão de todo homem”. Sob a geada e a neve, os agricultores não podem continuar sua atividade; alguns profissionais também não podem, nem os viajantes quando o tempo é extremo.

O arado é posto de lado, os navios ficam parados, nada se pode fazer nem ganhar. Assim, afastados de sua própria obra, os homens podem conhecer a obra de Deus, contemplá-la e dar-lhe glória por ela. Ao considerar essa obra dele no tempo, que lhes sela as mãos, são levados a celebrar suas outras obras grandes e maravilhosas.

Repare: quando, por qualquer motivo, ficamos incapacitados de cuidar dos negócios deste mundo e somos afastados deles, devemos dedicar o tempo mais aos exercícios da piedade e da devoção, conhecendo as obras de Deus e louvando-o por elas, do que a jogos e divertimentos tolos e ociosos.

Quando nossas mãos estão seladas, nosso coração deve abrir-se desse modo. Quanto menos temos para fazer no mundo em determinado momento, tanto mais isso deve nos impelir à Bíblia e à oração de joelhos.

  1. Os animais também se recolhem às tocas e permanecem em seus abrigos, v. 8. Refere-se aos animais selvagens, que precisam buscar abrigo por si mesmos e são guiados pelo instinto, enquanto os animais domésticos, úteis ao homem, são recolhidos e protegidos pelos cuidados dele, como em Êxodo 9:20.

O jumento não tem toca; tem apenas a manjedoura de seu dono, para onde vai não só em busca de segurança e calor, mas também de alimento. A natureza ensina todas as criaturas a abrigar-se da tempestade; seria apenas o homem a ficar sem uma arca?

II. Nos ventos, que sopram de diferentes direções e produzem diferentes efeitos (v. 9): do lugar oculto, como se pode ler, vem o redemoinho. Ele gira, de modo que é difícil dizer de que ponto vem; mas vem da câmara secreta, como significa a palavra.

Não estou tão disposto a entender essa câmara como o sul, pois Eliú diz aqui (v. 17) que o vento do sul, longe de ser um redemoinho, é um vento que aquece e acalma. Talvez, porém, neste momento ele visse uma nuvem de redemoinho vir do sul em direção a eles, de onde o Senhor falou pouco depois, Jó 38:1.

Ou, se os ventos turbulentos que trazem aguaceiros vêm do sul, do norte vêm rajadas frias e secas para dispersar os vapores e limpar o ar.

III. Na geada, v. 10. Veja sua causa: é produzida pelo sopro de Deus, isto é, pela palavra de seu poder e pela ordem de sua vontade. Ou, segundo alguns, pelo vento, que é o sopro de Deus, assim como o trovão é sua voz. Ela é causada pelo vento frio e gelado que vem do norte.

Veja seu efeito: a extensão das águas é restringida. Isto é, as águas que se haviam espalhado e corriam livremente ficam congeladas, entorpecidas, detidas e presas em grilhões de cristal. Trata-se de uma demonstração do poder de Deus que, se não fosse comum, seria quase um milagre.

IV. Nas nuvens, o ventre onde são concebidos todos esses fenômenos aquosos, dos quais Eliú já falara em Jó 36:28. Ele menciona aqui três tipos de nuvens:

  1. Nuvens fechadas, negras e espessas, carregadas de aguaceiros; ele as fatiga de tanto regarem a terra (v. 11). Isto é, elas se gastam e se esgotam com a chuva em que se transformam e se dissolvem, derramando água até se cansarem e não poderem derramar mais.

Veja quanto esforço, por assim dizer, fazem as criaturas, até mesmo as que estão acima de nós, para servir ao homem: as nuvens regam a terra até se cansarem. Gastam-se e são gastas em nosso benefício, o que nos envergonha e condena pelo pouco bem que fazemos em nosso lugar, embora isso fosse vantajoso para nós mesmos, pois quem rega também será regado.

  1. Nuvens brilhantes e finas, sem água; essas ele dispersa. Espalham-se por si mesmas e não se dissolvem em chuva, mas não sabemos o que acontece com elas. A nuvem brilhante ao entardecer, quando o céu está vermelho, se dispersa e é sinal antecipado de um dia de bom tempo, Mateus 16:2.

  2. Nuvens que voam, que não se dissolvem em chuva contínua como as espessas, mas são levadas nas asas do vento de um lugar para outro e deixam cair aguaceiros pelo caminho. Delas se diz que são conduzidas de um lado para outro por seus conselhos, v. 12.

O povo costuma dizer que a chuva é determinada pelos planetas, o que é tão ruim em teologia quanto em filosofia. Ela, porém, é guiada e governada pelo conselho de Deus, que se estende até às coisas que parecem mais casuais e pequenas, para que façam tudo o que ele lhes ordena.

Os ventos tempestuosos e as nuvens por eles impelidas cumprem sua palavra. Desse modo, ele faz chover sobre uma cidade e não sobre outra, Amós 4:7, 8.

Assim se cumpre sua vontade sobre a face do mundo, na terra, isto é, entre os filhos dos homens. Deus tem os olhos voltados para eles em todas essas coisas; deles se diz que os fez habitar sobre a face da terra, Atos 17:26.

As criaturas inferiores, incapazes de praticar ações morais, também são incapazes de receber recompensas e castigos. Mas, entre os filhos dos homens, Deus faz vir a chuva ou para corrigir sua terra, ou como misericórdia para ela, v. 13.

(1.) Às vezes, a chuva se transforma em juízo. É um flagelo para uma terra pecadora. Assim como no passado serviu para destruir o mundo inteiro, hoje muitas vezes serve para corrigir ou disciplinar algumas partes dele: impede a semeadura e a colheita, eleva as águas e danifica os frutos.

Alguns disseram que nossa nação sofreu muito mais prejuízo pelo excesso de chuva do que por sua falta.

(2.) Em outras ocasiões, a chuva é uma bênção. Vem para a terra de Deus, a fim de torná-la frutífera; e, além da quantidade estritamente necessária, ele a concede por misericórdia, para enriquecê-la e fazê-la produzir mais.

Veja como dependemos necessariamente de Deus: a mesma coisa, conforme a quantidade em que é dada, pode ser um grande juízo ou uma grande misericórdia; sem Deus, não podemos ter nem um aguaceiro nem um raio de sol.

Versículos 14 a 20

Eliú agora se dirige diretamente a Jó e deseja que ele aplique a si mesmo o que foi dito até aqui. Pede-lhe que escute este discurso (v. 14) e pare por um momento: “Aquieta-te e considera as obras maravilhosas de Deus”. É pouco provável que o que ouvimos nos aproveite, a menos que o consideremos; e é pouco provável que consideremos algo plenamente, a menos que paremos e nos preparemos para isso.

As obras de Deus, por serem maravilhosas, merecem e requerem nossa consideração. Considerá-las devidamente nos ajudará a aceitar todas as suas providências. Para humilhar Jó, Eliú lhe mostra:

I. Que Jó não tinha conhecimento das causas naturais; não podia ver de onde procediam nem prever seus efeitos (vv. 15-17). Você conhece isto e conhece aquilo, obras maravilhosas daquele que é perfeito em conhecimento? Aqui aprendemos:

  1. A perfeição do conhecimento de Deus. Uma das mais gloriosas perfeições de Deus é ser perfeito em conhecimento; ele é onisciente. Seu conhecimento é intuitivo: ele vê, não depende de relatos. É íntimo e completo: conhece as coisas verdadeiramente, não apenas por sua aparência; conhece-as por inteiro, não em partes.

Para seu conhecimento, nada é distante, pois tudo está perto; nada é futuro, pois tudo está presente; nada está oculto, pois tudo está aberto. Devemos reconhecer isso em todas as suas obras maravilhosas. Quanto àquelas cujo sentido desconhecemos, basta-nos saber que são obras de alguém que sabe o que faz.

  1. A imperfeição do nosso conhecimento. Os maiores filósofos pouco entendem dos poderes e das obras da natureza. Somos um paradoxo para nós mesmos, e tudo ao nosso redor é um mistério. A gravitação dos corpos e a coesão das partes da matéria são fatos incontestáveis, mas inexplicáveis.

É bom sermos levados a perceber nossa ignorância. Alguns a confessaram; os que não quiseram fazê-lo a revelaram sem querer. Todos, porém, devemos concluir quão incompetentes somos para julgar o governo divino, já que entendemos tão pouco até mesmo dos mecanismos divinos.

(1.) Não sabemos que ordens Deus deu a respeito das nuvens nem que ordens lhes dará, v. 15. Temos certeza de que tudo é feito por determinação e com um desígnio; mas não sabemos o que foi determinado, qual foi o desígnio nem quando o plano foi traçado.

Deus muitas vezes faz brilhar a luz de sua nuvem: no arco-íris, segundo alguns; no relâmpago, segundo outros. Mas previmos ou poderíamos predizer quando ele o faria? Se, por observação comum, prevemos a mudança do tempo algumas horas antes, ou por meio do barômetro, quando as causas secundárias já começaram a agir, quão pouco isso nos revela dos propósitos de Deus nessas mudanças!

(2.) Não sabemos como as nuvens se equilibram no ar. Seu equilíbrio é uma das obras maravilhosas de Deus. São equilibradas e espalhadas de tal modo que nunca nos privam do benefício do sol, pois mesmo o dia nublado continua sendo dia. Também não caem todas de uma vez nem rebentam em cataratas ou trombas-d'água.

O arco-íris é um sinal do favor de Deus ao equilibrar as nuvens de modo que não afoguem o mundo. Ou melhor, ele as equilibra de tal maneira que distribuem seus aguaceiros imparcialmente pela terra, e todos os lugares recebem sua parte em alguma ocasião.

(3.) Não sabemos como vem a agradável mudança quando passa o inverno, v. 17.

[1.] Como o tempo fica quente depois do frio. Sabemos como nossas roupas se tornam quentes sobre nós, isto é, como nos aquecemos com elas por causa do calor do ar que respiramos. Sem a bênção de Deus, nós nos vestiríamos, mas não nos aqueceríamos, Ageu 1:6.

Quando Deus assim o ordena, porém, as roupas nos aquecem, embora, no rigor do frio, não bastassem para nos manter aquecidos.

[2.] Como vem a calmaria depois da tempestade. Ele acalma a terra com o vento sul quando chega a primavera. Assim como tem um vento norte ruidoso e gelado, também tem um vento sul que descongela e tranquiliza. O Espírito é comparado aos dois, porque tanto convence como consola, Cantares de Salomão 4:16.

II. Que Jó não teve participação alguma na criação do mundo (v. 18): “Estendeste tu com ele o céu? Não podes alegar que o estendeste sem ele, nem sequer que o fizeste em conjunto com ele, pois Deus estava longe de precisar de ajuda para concebê-lo ou realizá-lo”.

A criação da vasta expansão dos céus visíveis (Gênesis 1:6-8), que até hoje vemos existir, é uma manifestação gloriosa do poder divino, considerando:

  1. Que, embora seja fluida, é firme. É forte e recebe seu nome de sua estabilidade. Continua como sempre foi e não sofre desgaste; tampouco as ordenanças do céu serão alteradas até que, com o fim do tempo, vença o prazo de seu arrendamento.

  2. Que, embora seja vasta, é brilhante e refinada com grande primor: é um espelho fundido, liso e polido, sem a menor imperfeição ou rachadura. Nele, como num espelho, podemos contemplar a glória de Deus e a sabedoria da obra de suas mãos, Salmos 19:1.

Ao olhar para o céu acima de nós, devemos lembrar que ele é um espelho destinado não a mostrar nosso próprio rosto, mas a representar, embora de modo tênue, a pureza, a dignidade e o esplendor do mundo superior e de seus gloriosos habitantes.

III. Que nem Jó nem os demais eram capazes de falar da glória de Deus em proporção alguma com a grandeza do assunto, v. 19, 20.

  1. Eliú desafia Jó a orientá-los, caso se atreva a assumir a tarefa. Fala ironicamente: “Ensina-nos, se podes, o que lhe diremos, v. 19. Desejas argumentar com Deus e gostarias que contendêssemos com ele em teu favor; então, ensina-nos o que diremos. Consegues enxergar mais longe nesse abismo do que nós? Se consegues, favorece-nos com tuas descobertas e dá-nos instruções”.

  2. Eliú reconhece sua própria insuficiência, tanto para falar a Deus quanto para falar sobre ele: “Não podemos ordenar nossas palavras por causa das trevas”. Repare: mesmo os melhores homens pouco entendem das gloriosas perfeições da natureza divina e dos atos do governo divino.

Os que, pela graça, conhecem muito de Deus ainda conhecem pouco, sim, nada em comparação com o que há para conhecer e com o que será conhecido quando vier o que é perfeito e o véu for rasgado.

Quando tentamos falar de Deus, falamos de maneira confusa e muito incerta; logo ficamos sem saber como continuar e encalhamos, não por falta de assunto, mas por falta de palavras.

Assim como devemos começar sempre com temor e tremor, para não falar de modo incorreto (De Deo etiam vera dicere periculosum est — até mesmo ao afirmar o que é verdadeiro a respeito de Deus, corremos risco), também devemos terminar com vergonha e rubor por não termos falado melhor.

Eliú, de sua parte, havia falado bem em favor de Deus. Ainda assim, estava tão longe de esperar honorários, de pensar que Deus lhe devia algo por isso ou de se julgar apto a ser seu advogado permanente, que:

(1.) Ele chega a sentir vergonha do que disse, não da causa, mas da maneira como a defendeu: “Será dito a ele que eu falo? (v. 20). Isso lhe será apresentado como serviço meritório, digno de sua atenção? De modo nenhum; que jamais seja mencionado”.

Ele teme que sua tentativa tenha prejudicado o assunto, como um mau pintor desfigura um belo rosto; seu trabalho, longe de merecer agradecimento, necessita de perdão.

Quando fizermos tudo o que pudermos por Deus, devemos reconhecer que somos servos inúteis e nada temos de que nos gloriar.

Ele tem receio de dizer mais: se um homem falar, se empreender a defesa de Deus, e muito mais se se oferecer para argumentar contra ele, certamente será tragado. Se falar presunçosamente, a cólera de Deus logo o consumirá; mas, por melhor que fale, logo se perderá no mistério e será vencido pelo esplendor divino. O espanto o deixará cego e mudo.

Versículos 21 a 24

Eliú conclui seu discurso com algumas afirmações breves, porém grandiosas, acerca da glória de Deus. Ele próprio estava tomado de santo temor diante dela e desejava despertar nos outros o mesmo sentimento. Fala de modo conciso e apressado porque, ao que parece, percebeu que Deus estava prestes a assumir a tarefa.

  1. Eliú observa que Deus, que disse que habitaria nas densas trevas e faria delas seu pavilhão (2 Crônicas 6:1; Salmos 18:11), avança em direção a eles nesse temível carro, como se preparasse seu trono para o julgamento, cercado de nuvens e trevas, Salmos 97:2, 9.

Ele vira a nuvem, com um redemoinho em seu interior, vir do sul. Agora, porém, ela pairava tão densa e escura sobre suas cabeças que nenhum deles podia ver a luz brilhante que pouco antes estava nas nuvens. A luz do sol estava eclipsada.

Isso lhe lembrou as trevas por causa das quais não conseguia falar (v. 19) e o fez temer continuar, v. 20. Assim, os discípulos tiveram medo quando entraram numa nuvem, Lucas 9:34.

No entanto, ele olha para o norte e vê o céu claro naquela direção. Isso lhe dá esperança de que as nuvens não estão se juntando para um dilúvio: estão cobertos por elas, mas não cercados.

Espera que o vento passe, como também se pode ler, e as dissipe, tal como o vento que passou sobre a terra para limpá-la das águas do dilúvio de Noé (Gênesis 8:1), em sinal do retorno do favor de Deus. Então o tempo bom virá do norte (v. 22), e tudo ficará bem. Deus não franzirá sempre o cenho nem contenderá para sempre.

  1. Eliú se apressa a concluir, agora que Deus está prestes a falar. Por isso, diz muito em poucas palavras, como resumo de tudo o que vinha expondo. Se for devidamente considerado, esse resumo não só firmará o prego que ele vinha cravando, mas preparará o caminho para o que Deus dirá. Ele observa:

(1.) Que junto de Deus há majestade temível. Ele é um Deus de glória e de perfeição tão transcendente que necessariamente inspira reverência em todos os que o servem e terror em todos os seus adversários. Junto de Deus há louvor temível, segundo alguns, pois ele é terrível em louvores, Êxodo 15:11.

(2.) Que, ao falar do Todo-Poderoso, devemos reconhecer que não podemos descobri-lo plenamente; nosso entendimento finito não pode compreender suas perfeições infinitas, v. 23. Podemos colocar o mar numa casca de ovo? Não conseguimos seguir os passos que ele dá em sua providência. Seu caminho está no mar.

(3.) Que ele é excelente em poder. A excelência de seu poder está em poder fazer tudo o que lhe agrada no céu e na terra. Sua extensão universal e sua força irresistível constituem essa excelência. Nenhuma criatura tem braço como o dele, tão longo e tão forte.

(4.) Que ele não é menos excelente em sabedoria e retidão, em juízo e abundância de justiça; caso contrário, haveria pouca excelência em seu poder. Podemos ter certeza de que aquele que pode fazer tudo fará tudo da melhor maneira, pois é infinitamente sábio, e de que não praticará injustiça em coisa alguma, pois é infinitamente justo.

Mesmo quando executa juízo sobre os pecadores, há abundância de justiça na execução, e ele não lhes inflige mais do que merecem.

(5.) Que ele não afligirá, isto é, que não aflige de boa vontade. Não lhe dá prazer entristecer os filhos dos homens, muito menos seus próprios filhos. Jamais aflige sem causa ou necessidade; tampouco nos sobrecarrega de aflição, mas leva em conta nossa constituição.

Alguns leem assim: “O Todo-Poderoso, a quem não podemos descobrir plenamente, é grande em poder, mas não afligirá no julgamento, e com ele há abundância de justiça; tampouco é rigoroso em apontar nossos erros”.

(6.) Ele não dá valor às censuras dos que são sábios aos próprios olhos: não os respeita, v. 24. Não alterará seus conselhos para agradá-los; e os que pretendem ditar-lhe o que fazer não conseguem levá-lo a agir como desejam. Ele atende à oração dos humildes, mas não aos estratagemas dos astutos. Não: “a loucura de Deus é mais sábia que os homens”, 1 Coríntios 1:25.

(7.) De tudo isso, é fácil concluir que, sendo Deus grande, deve ser grandemente temido. Ou melhor, justamente por ser gracioso e não afligir, os homens o temem, pois com ele há perdão, para que seja temido, Salmos 130:4.

É dever e interesse de todos os homens temer a Deus. Os homens o temerão, segundo alguns; cedo ou tarde, o temerão. Os que não quiserem temer ao Senhor e à sua bondade tremerão para sempre sob o derramamento das taças de sua cólera.


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