Jó 36
Argumento
Depois de censurar longamente Jó por algumas palavras imprudentes que ele não tinha como defender, Eliú passa a corrigir, de maneira mais geral, suas ideias acerca de como Deus o trata. Os outros amigos insistiam que suas aflições eram tão grandes e duradouras porque Jó era perverso.
Eliú, porém, sustentava apenas que a aflição fora enviada para prová-lo e, por isso, se prolongava: Jó ainda não se humilhara plenamente sob ela nem se ajustara devidamente a ela.
Eliú apresenta muitas razões extraídas da sabedoria e justiça de Deus, de seu zelo por seu povo e, especialmente, de sua grandeza e poder onipotente. Com elas, neste capítulo e no seguinte, persuade Jó a submeter-se à mão de Deus. Temos aqui:
I. Seu prefácio, vv. 2-4.
II. A descrição dos métodos da providência de Deus para com os filhos dos homens, conforme eles se conduzem, vv. 5-15.
III. O aviso franco e o bom conselho que, em vista disso, dá a Jó, vv. 16-21.
IV. Sua demonstração da soberania e onipotência de Deus, ilustradas pelas operações da providência comum, razão pela qual todos devemos submeter-nos a ele no modo como nos trata, vv. 22-33. Ele prossegue nesse assunto e o desenvolve no capítulo seguinte.
Versículos 1 a 4
O Discurso de Eliú. (a.C. 1520.)
Mais uma vez, Eliú pede paciência aos ouvintes, especialmente a Jó, pois ainda não disse tudo o que tinha a dizer, mas não os deterá por muito tempo. Fiquem ao meu redor mais um pouco (como alguns leem), v. 2. “Deem-me sua presença e atenção por mais algum tempo; falarei apenas esta vez, com toda a clareza e pertinência que puder.” Para consegui-lo, alega:
- Que tinha uma boa causa e um assunto nobre e muito fecundo: “Ainda tenho algo a dizer em favor de Deus.” Falava como advogado de Deus e, portanto, podia com justiça esperar que o tribunal o ouvisse.
Alguns, de fato, alegam falar em favor de Deus quando, na verdade, falam em causa própria. Aqueles, porém, que sinceramente se apresentam pela causa de Deus e falam em defesa de sua honra, de suas verdades, de seus caminhos e de seu povo certamente não ficarão sem instrução: naquela mesma hora lhes será dado o que falarão. Tampouco perderão sua causa ou seus honorários.
Não precisam recear esgotar o assunto. Por mais que tenham falado, ainda podem encontrar mais a dizer em favor de Deus.
- Que tinha a apresentar algo incomum, fora das observações corriqueiras: “Trarei de longe o meu conhecimento” (v. 3), isto é, “recorreremos aos nossos primeiros princípios e às ideias mais elevadas que pudermos empregar para servir a algum propósito”.
Vale a pena ir longe em busca desse conhecimento de Deus, cavar por ele e viajar para obtê-lo. Ele recompensará nosso esforço e, embora venha de longe, não custa caro.
- Que seu desígnio era inegavelmente honesto, pois só desejava atribuir justiça ao seu Criador, sustentar e esclarecer a verdade de que Deus é justo em todos os seus caminhos.
Ao falar de Deus e em seu favor, convém lembrar que ele é nosso Criador e chamá-lo assim. Por essa razão, devemos estar prontos a prestar a ele e aos interesses de seu reino o melhor serviço possível. Se é nosso Criador, tudo o que temos vem dele; devemos usar tudo para ele e zelar intensamente por sua honra.
Que conduziria sua exposição com justiça e honestidade (v. 4): “Minhas palavras não serão falsas, nem discordarão dos fatos nem do que eu mesmo penso e entendo. Defendo a verdade por amor à verdade, com toda a sinceridade e clareza possíveis.” Usará razões simples e sólidas, não as sutilezas e minúcias das escolas.
“Quem é perfeito, ou reto, em conhecimento está agora argumentando com você. Por isso, não apenas lhe dê uma audiência justa, mas receba de boa vontade o que ele diz, pois suas intenções são boas.” A perfeição do nosso conhecimento neste mundo consiste em buscar a verdade com honestidade e sinceridade, aplicá-la a nós mesmos e usar o que sabemos para o bem dos outros.
Versículos 5 a 14
Eliú, ao falar em favor de Deus e, em particular, ao atribuir justiça ao seu Criador, mostra aqui que tudo que a Providência divina dispõe segue não apenas os conselhos eternos de sua vontade, mas também as regras eternas da equidade. Deus age como governante justo, pois:
I. Não considera indigno de si reparar nos mais humildes de seus súditos; a pobreza e a obscuridade não afastam ninguém de seu favor. Os poderosos costumam olhar com altivo desprezo para os que não têm distinção nem posição de destaque. Deus, porém, é poderoso, infinitamente poderoso, e ainda assim não despreza ninguém, v. 5.
Ele se humilha para tomar conhecimento dos assuntos dos mais humildes, fazer-lhes justiça e mostrar-lhes bondade. Jó pensava que Deus desprezava sua pessoa e sua causa por não aparecer imediatamente em sua defesa. “Não”, diz Eliú: “Deus não despreza ninguém”, uma boa razão para honrarmos todas as pessoas.
Deus é poderoso em força e sabedoria e, mesmo assim, não olha com desprezo para os que têm pouca força e sabedoria, desde que suas intenções sejam honestas. Ou melhor, é por sua sabedoria e força serem incontestavelmente infinitas que ele não despreza ninguém: a condescendência de sua graça em nada o diminui. Os sábios e bons não olharão para ninguém com escárnio ou desprezo.
II. Não favorece nem mesmo os mais importantes, se forem maus (v. 6): “Não preserva a vida dos perversos”. Embora sua vida possa prolongar-se, não o é por um zelo especial da Providência divina, mas apenas por sua proteção comum.
Jó dissera que “os perversos vivem, envelhecem e são poderosos em força”, Jó 21:7. “Não”, diz Eliú: “Raramente ele permite que os perversos envelheçam. Não lhes preserva a vida por tanto tempo quanto esperavam, nem com o conforto e a satisfação que são de fato nossa vida. Sua preservação é apenas uma reserva para o dia da cólera”, Romanos 2:5.
III. Está sempre pronto a fazer justiça aos que sofrem qualquer dano e a defender sua causa (v. 6): “Faz justiça aos pobres”, vinga sua desavença contra seus perseguidores e obriga estes a restituir aquilo que lhes roubaram. Se os homens não fizerem justiça aos pobres lesados, Deus a fará.
IV. Zela especialmente pela proteção de seus bons súditos, v. 7. Ele não apenas olha para eles: jamais desvia deles o olhar. “Não retira os olhos dos justos.” Às vezes, eles podem parecer negligenciados e esquecidos, e lhes pode acontecer algo que parece descuido da Providência. Contudo, o olhar terno e atento do Pai celestial nunca se afasta deles.
Se nossos olhos se voltam sempre para Deus no cumprimento do dever, os dele estarão sempre sobre nós com misericórdia. Mesmo quando estivermos no ponto mais baixo, ele não deixará de nos ver.
- Às vezes, ele eleva pessoas boas a posições de confiança e honra (v. 7): “Com os reis estão no trono”, e todo feixe se inclina diante do feixe delas. Quando os justos são promovidos a cargos honrosos e poderosos, isso é misericórdia para eles. A graça de Deus neles os fortalecerá contra as tentações ligadas ao cargo e os capacitará a aproveitar a oportunidade de fazer o bem.
É também misericórdia para aqueles sobre quem são colocados: quando os justos governam, a cidade se alegra. Se os justos forem elevados, serão firmados. Aqueles que conservam boa consciência em posições de honra pisam em terreno seguro; os lugares altos não são tão escorregadios para eles quanto para outros.
Como, porém, não vemos com frequência homens bons tornarem-se grandes neste mundo, talvez isso se refira à honra à qual os justos chegarão quando seu Redentor se levantar sobre a terra no último dia. Somente então serão exaltados e firmados para sempre; todos resplandecerão como o sol e serão feitos reis e sacerdotes para o nosso Deus.
- Se em algum momento os conduz à aflição, é para o bem da alma deles, vv. 8-10. Algumas pessoas boas são elevadas à honra e ao poder, enquanto outras passam por tribulações. Observe agora:
(1.) A situação de sofrimento apresentada (v. 8): “Se estiverem presos em grilhões”, encarcerados como José, ou retidos pelas cordas de alguma outra aflição, confinados pela dor e pela doença, embaraçados pela pobreza, impedidos de realizar seus planos e, apesar de todos os esforços, mantidos por muito tempo nessa aflição.
Esse era o caso de Jó: fora apanhado e mantido preso pelas cordas da angústia, como alguns leem. Observe, porém:
(2.) O desígnio de Deus ao conduzir seu povo a tais angústias: é para o benefício da alma deles. Essa consideração deve reconciliar-nos com a aflição e levar-nos a pensar bem dela. Deus pretende três coisas quando nos aflige:
[1.] Revelar-nos os pecados passados e trazê-los à nossa memória. Então nos mostra o que havia de errado em nós e antes não percebíamos. Revela-nos o fato do pecado: “Mostra-lhes sua obra”. O pecado é obra nossa; se existe algum bem em nós, é obra de Deus. Precisamos ver o que fizemos por meio do pecado.
Revela-nos a culpa do pecado, nossas transgressões da lei de Deus, e também a pecaminosidade do pecado: “Excederam-se” e pecaram além de toda medida. Os verdadeiros penitentes põem sobre si uma carga; não atenuam seus pecados, mas os agravam e admitem que neles se excederam.
Às vezes, a aflição corresponde ao pecado; de todo modo, desperta a consciência e leva os homens a refletir.
[2.] Preparar nosso coração para receber instruções no presente: “Então lhes abre os ouvidos à disciplina”, v. 10. A quem Deus castiga, ele ensina (Salmos 94:12). A aflição torna as pessoas dispostas a aprender, amolecendo a cera para que receba a impressão do selo.
Todavia, não é a aflição, por si mesma, que faz isso, mas a graça de Deus agindo com ela e por meio dela. É Deus quem abre os ouvidos e o coração; ele tem a chave de Davi.
[3.] Dissuadir-nos da iniquidade e afastar-nos dela no futuro. A aflição é enviada com essa incumbência: é uma ordem para abandonar a iniquidade, não ter mais parte com o pecado, afastar-se dele com aversão e com a resolução de jamais voltar a ele, Oseias 14:8.
- Se a aflição cumprir sua obra e alcançar o propósito para o qual foi enviada, Deus os consolará novamente, em proporção ao tempo em que os afligiu (v. 11): “Se obedecerem e o servirem”. Se corresponderem ao seu desígnio e servirem ao seu propósito nessas providências.
Se, removida a aflição, continuarem na mesma boa disposição que tinham sob sua dor e cumprirem os votos que então fizeram; se viverem em obediência aos mandamentos de Deus, especialmente os relativos ao seu serviço e culto, e em tudo cumprirem conscienciosamente seu dever para com ele, então passarão de novo seus dias em prosperidade e seus anos em verdadeiros prazeres.
A piedade é o único caminho seguro para a prosperidade e o prazer; é uma verdade certa, embora poucos creiam nela. Se servirmos fielmente a Deus:
(1.) Temos a promessa de prosperidade exterior, a promessa da vida presente e de seus consolos, até onde isso sirva à glória de Deus e ao nosso bem. Quem desejaria mais do que isso?
(2.) Possuímos prazeres interiores: o consolo da comunhão com Deus e da boa consciência, bem como a grande paz daqueles que amam a lei divina. Se não nos alegramos sempre no Senhor e na esperança da vida eterna, a culpa é nossa. Em que prazeres melhores poderíamos passar nossos anos?
- Se a aflição não cumprir sua obra, esperem que a fornalha seja aquecida sete vezes mais até que sejam consumidos (v. 12): “Se não obedecerem”, se suas aflições não os tornarem melhores, nem os trouxerem de volta e os reformarem, perecerão pela espada da cólera de Deus.
Aqueles que sua vara não cura serão mortos por sua espada. Se o fogo que refina não prevalecer, prevalecerá o fogo que consome, pois Deus vencerá quando julgar. Se Acaz, em sua angústia, pecar ainda mais contra o Senhor, será aquele rei Acaz assinalado para a ruína, 2 Crônicas 28:22; Jeremias 6:29, 30.
Deus os teria instruído por meio das aflições, mas não receberam a instrução, não quiseram aceitar os sinais que lhes foram dados. Por isso, morrerão “sem conhecimento”, de repente e sem receber novas advertências prévias.
Ou morrerão porque permaneceram sem conhecimento, apesar dos meios de adquiri-lo com que foram abençoados. Os que morrem sem conhecimento morrem sem graça e ficam perdidos para sempre.
V. Deus traz ruína aos hipócritas, inimigos secretos de seu reino (como os que Eliú descreveu no v. 12). Embora contados entre os justos de quem Eliú falara antes, não obedeceram a Deus. Sendo filhos da desobediência e das trevas, tornam-se filhos da cólera e da perdição. São os “hipócritas de coração”, que “acumulam cólera”, v. 13.
Veja a natureza da hipocrisia: reside no coração, voltado para o mundo e a carne, enquanto a aparência exterior parece dedicada a Deus e à religião. Muitos que aparentam ser santos e falam como santos são hipócritas de coração. A fonte está corrompida, e ali há um tesouro maligno.
Veja o dano causado pela hipocrisia: os hipócritas acumulam cólera. Dia após dia praticam o que provoca a Deus e, no grande dia, prestarão contas de tudo junto. Acumulam cólera para o dia da cólera, Romanos 2:5. Seus pecados estão guardados junto de Deus entre os seus tesouros, Deuteronômio 32:34. Compare com Tiago 5:3.
Assim como o que sobe em forma de vapor desce como chuva, o que sobe como pecado, se não houver arrependimento, descerá como cólera. Eles pensam acumular riqueza e méritos, mas, quando os tesouros forem abertos, ficará claro que acumulavam cólera. Observe:
O que fazem para acumular cólera. O que provoca tanto a Deus? “Não clamam quando ele os prende.” Isto é, quando sofrem aflição, presos pelas cordas da tribulação, seus corações estão endurecidos. São teimosos e não se humilham; não clamam a Deus nem recorrem a ele. São estúpidos e irrefletidos como troncos e pedras e desprezam a disciplina do Senhor.
Quais são os efeitos dessa cólera? “Morrem na juventude, e sua vida está entre os impuros”, v. 14. Esse é o destino dos hipócritas, contra os quais Cristo pronunciou muitos ais. Se permanecerem impenitentes:
(1.) Morrerão de morte súbita, morrerão jovens, quando a morte mais surpreende. A morte, ou seja, sua consequência, sempre surpreende os hipócritas. Assim como os que morrem jovens partem quando esperavam viver, os hipócritas, ao morrerem, vão para o inferno quando esperavam ir para o céu. Quando o perverso morre, suas expectativas perecem.
(2.) Sofrerão a segunda morte. Sua vida depois da morte, pois é disso que aqui se trata, ficará entre os impuros, entre os fornicadores, como alguns entendem, entre os piores e mais vis pecadores, apesar da profissão de fé atraente e plausível que fizeram.
Segundo a leitura marginal, ficará entre os sodomitas, aqueles miseráveis imundos que, “indo após carne estranha, são postos como exemplo, sofrendo a vingança do fogo eterno”, Judas 1:7. As almas dos perversos continuam vivas depois da morte, mas vivem entre os impuros, os espíritos imundos, o diabo e seus anjos. Ficam para sempre separadas da nova Jerusalém, na qual nada impuro entrará.
Versículos 15 a 23
Aqui Eliú se dirige mais diretamente a Jó:
I. Diz-lhe o que Deus já teria feito por ele, se Jó tivesse se humilhado devidamente sob a aflição. “Todos sabemos como Deus está pronto a livrar o pobre em sua aflição (v. 15); sempre foi assim. Ele olha com ternura para os pobres de espírito, os de coração quebrantado e contrito, e está pronto a ajudá-los quando são afligidos.”
“Abre-lhes os ouvidos e os faz ouvir alegria e regozijo, mesmo em meio à opressão. Enquanto ainda não os livra, fala-lhes palavras boas e consoladoras, para o ânimo de sua fé e paciência, para silenciar seus temores e equilibrar suas dores.”
“Assim também Deus teria feito a você (v. 16), se tivesse se submetido à sua providência e agido corretamente. Teria livrado e consolado você, e não ouviríamos estas queixas. Se você tivesse ajustado sua conduta à vontade de Deus, sua liberdade e abundância teriam sido restauradas com vantagem.”
“Você teria sido colocado em lugar espaçoso, em vez de permanecer assim confinado pela doença e pelo descrédito. Ele o teria levado a um lugar amplo, sem aperto; você não estaria mais limitado dessa maneira, nem veria todos os seus planos frustrados.”
“Você teria enriquecido, em vez de continuar nesta condição pobre. Sua mesa estaria fartamente posta, não apenas com o alimento necessário, mas com o melhor do trigo” (ver Deuteronômio 32:14) “e as carnes mais suculentas”.
Repare: deve nos calar em meio às aflições a consideração de que, se fôssemos melhores, tudo estaria melhor para nós. Se tivéssemos correspondido aos propósitos de uma aflição, ela seria removida; o livramento viria se estivéssemos prontos para recebê-lo. Deus nos teria feito o bem, se tivéssemos agido bem, Salmos 81:13, 14; Isaías 48:18.
II. Acusa Jó de prejudicar a si mesmo e o responsabiliza pela continuidade de sua tribulação (v. 17): “Mas tu cumpriste o juízo dos perversos”, isto é: “Seja qual for seu verdadeiro caráter, neste caso você agiu como um perverso, falou e procedeu como eles, agradou-lhes e serviu à causa deles”.
“Por isso, o juízo e a justiça se apoderam de você como de um perverso: você anda com eles e age como se fosse aliado deles, ajudando-os e apoiando-os. Você defendeu a causa dos perversos, e o juízo de Deus sobre um homem corresponderá à causa que ele defende.” Assim explica o bispo Patrick. É perigoso estar do lado errado: os cúmplices da traição serão tratados como seus autores.
III. Aconselha Jó a não persistir em sua obstinação. Apresenta-lhe diversas cautelas úteis nesse sentido:
- Não deve fazer pouco caso da vingança divina nem sentir-se seguro, como se não estivesse em perigo (v. 18): “Porque há cólera”, isto é, “porque Deus é um governante justo que se indigna com todas as ofensas a seu governo, revelou do céu sua cólera contra toda impiedade e injustiça dos homens, e você tem motivo para temer estar sob o desagrado de Deus.”
“Portanto, tenha cuidado para que ele não o leve subitamente com um golpe. Seja sábio: faça logo as pazes com ele e procure afastar sua ira.” Jó dera aviso semelhante aos amigos (Jó 19:29): “Temam a espada, pois a cólera traz o castigo da espada”.
Os que contendem costumam, com excessiva ousadia, entregar uns aos outros ao juízo de Deus e ameaçar-se mutuamente com sua cólera. Aquele que conserva boa consciência, porém, não precisa temer as ameaças impotentes de homens orgulhosos. A cautela de Eliú a Jó, contudo, era amigável e necessária. Até os homens bons precisam ser mantidos no dever pelo temor da cólera de Deus.
“Você é um homem sábio e bom, mas cuide para que ele não o leve, pois até os mais sábios e melhores trazem em si o suficiente para merecer seu golpe.”
- Jó não deve supor que, caso a cólera de Deus se acenda contra ele, possa encontrar meios de escapar de seus golpes.
(1.) Não se escapa pelo dinheiro; não se compra o perdão com prata, ouro e tais coisas perecíveis: “Nem mesmo um grande resgate poderá livrá-lo quando Deus entrar em juízo com você”. “Sua justiça não aceita suborno, nem o aceita nenhum dos ministros de sua justiça.”
“Estimará ele suas riquezas e as aceitará como substituição da pena? Não, nem o ouro”, v. 19. “Se você tivesse toda a riqueza que um dia possuiu, isso não lhe traria alívio nem o protegeria dos golpes da cólera de Deus, no dia de sua revelação, quando as riquezas não aproveitam”, Provérbios 11:4. Ver Salmos 49:7, 8.
(2.) Não se escapa por meio de um resgate armado: “Se todas as forças estivessem sob seu comando, se pudesse reunir servos e vassalos, por mais numerosos que fossem, que se apresentassem em sua defesa, para arrancá-lo das mãos da vingança divina, tudo seria inútil. Deus não daria importância a isso. Ninguém pode livrar da mão dele”.
(3.) Não se escapa escondendo-se (v. 20): “Não desejes a noite”, que muitas vezes favorece e encobre a retirada de um exército vencido. “Não pense que assim poderá escapar ao justo juízo de Deus, pois as trevas não ocultam nada dele”, Salmos 139:11, 12. Ver Jó 34:22.
“Não pense que, porque à noite as pessoas se recolhem a seus aposentos e vão para a cama, de modo que é fácil escapar de sua vista, Deus também se retira para seu lugar e deixa de vê-lo.” Não: ele não cochila nem dorme. Seus olhos estão abertos sobre os filhos dos homens, não apenas em todos os lugares, mas em todos os momentos. Nem rochas nem montanhas podem abrigar-nos de seu olhar.
Alguns entendem que se trata da noite da morte, quando os homens são retirados de seu lugar. Jó ansiara intensamente por essa noite, como o trabalhador deseja o anoitecer, Jó 7:2. “Não faça isso”, diz Eliú, “pois você não sabe o que é a noite da morte”.
Os que desejam ardentemente a morte, esperando encontrar nela refúgio da cólera de Deus, talvez estejam enganados. Há pessoas que a cólera persegue até essa noite.
- Jó não deve continuar sua desavença injusta com Deus e sua providência, na qual até então persistira quando deveria ter se submetido à aflição (v. 21): “Tenha cuidado, vigie seu próprio espírito e não dê atenção à iniquidade”. Alguns entendem: “Não volte a ela”, pois fazê-lo será por sua conta e risco.
Jamais ousemos pensar no pecado com aprovação, alimentá-lo ou consenti-lo em nós. Eliú considera que Jó precisa dessa cautela, pois “escolheu a iniquidade em vez da aflição”. Isto é, preferiu satisfazer seu próprio orgulho e seu temperamento ao contender com Deus, em vez de mortificá-los pela submissão a ele e pela aceitação do castigo.
Podemos entender a afirmação de modo mais geral e observar que fazem uma escolha muito insensata os que preferem a iniquidade à aflição.
Aqueles que aliviam suas preocupações com prazeres pecaminosos, aumentam a riqueza por meios pecaminosos, escapam das dificuldades com projetos pecaminosos e evitam sofrer por causa da justiça fazendo concessões pecaminosas contra a própria consciência acabarão arrependidos de sua escolha.
Há mais mal no menor pecado do que na maior aflição. O pecado é um mal, e somente um mal.
- Jó não deve ousar dar ordens a Deus nem determinar-lhe as medidas de sua ação (v. 22, 23): “Eis que Deus exalta por seu poder”, isto é: “Ele eleva e derruba quem lhe agrada, pode fazê-lo e tem o direito de fazê-lo. Portanto, nem você nem eu devemos contender com ele”. Quanto mais engrandecemos a Deus, mais nos humilhamos e nos abaixamos. Considere agora:
(1.) Que Deus é soberano absoluto: exalta pelo próprio poder, não por força recebida de outro. Exalta quem lhe agrada, exalta os que estavam aflitos e abatidos, pela força e pelo poder que concede a seu povo.
Portanto, “quem lhe prescreveu o caminho?” Quem está acima dele para determinar sua conduta? Existe algum superior de quem receba sua comissão e a quem tenha de prestar contas? Não: ele é supremo e independente.
Alguns leem: “Quem lhe lembra o caminho?” A Mente eterna precisa de alguém que a faça recordar? Não: seu próprio caminho, assim como o nosso, está sempre diante dele. Não recebeu ordens nem instruções de ninguém (Isaías 40:13, 14), nem precisa prestar contas a ninguém.
Ele prescreve o caminho a todas as criaturas. Não pretendamos, então, prescrever o dele; deixemos o governo do mundo com aquele que é capaz de governá-lo.
(2.) Que ele é um mestre incomparável: “Quem ensina como ele?” É absurdo tentarmos ensinar aquele que é a fonte da luz, da verdade, do conhecimento e da instrução. Aquele que ensina conhecimento ao homem como ninguém mais pode, não saberá ele próprio? Salmos 94:9, 10. Acenderíamos uma vela para iluminar o sol?
Observe: ao glorificar a Deus como governante, Eliú o louva como mestre, pois governantes devem ensinar. Deus o faz. Liga com cordas de homem. Nesse aspecto, como nos demais, é incomparável. Ninguém é mais capaz de dirigir os atos de Deus do que ele próprio. Sabe o que deve fazer e como fazê-lo da melhor maneira; não precisa de informações nem conselhos.
O próprio Salomão tinha um conselho privado que o aconselhava, mas o Rei dos reis não tem nenhum. Ninguém tampouco é mais capaz de dirigir nossos atos do que Deus. Nenhum outro ensina com tanta autoridade e evidência persuasiva, com tanta condescendência e compaixão, nem com tamanho poder e eficácia.
Ele ensina pela Bíblia, e esse é o melhor livro; ensina por seu Filho, e ele é o melhor Mestre.
(3.) Que ele é irrepreensivelmente justo em tudo o que faz: “Quem poderá dizer: Tu praticaste iniquidade?” A questão não é “Quem se atreve a dizer isso?”, pois muitos praticam iniquidade, e quem a denuncia corre perigo, mas “Quem pode dizer isso? Quem tem razão para dizê-lo? Quem pode dizê-lo e prová-lo?” É uma máxima indubitavelmente verdadeira, sem restrição: o Rei dos reis não pode fazer mal.
Versículos 24 a 33
Eliú procura aqui incutir em Jó pensamentos elevados e grandiosos a respeito de Deus e, assim, persuadi-lo a submeter-se com alegria à providência divina.
I. Apresenta a obra de Deus em geral como ilustre e evidente, v. 24. Toda a sua obra é assim. Deus não faz nada insignificante. Essa é uma boa razão para aceitarmos todas as operações de sua providência que nos dizem respeito em particular.
Suas obras visíveis, as da natureza e as que dizem respeito ao mundo em geral, são tais que as admiramos e louvamos. Nelas observamos a sabedoria, o poder e a bondade do Criador. Por que, então, criticaríamos as providências relativas a nós e os conselhos de sua vontade acerca de nossos assuntos? Somos chamados aqui a considerar a obra de Deus, Eclesiastes 7:13.
- Ela está claramente diante de nossos olhos; nada é mais evidente: é aquilo que os homens contemplam. Todo homem que tenha o mínimo de visão pode vê-la, mesmo de longe. Para qualquer lado que olhemos, vemos os produtos da sabedoria e do poder de Deus.
Vemos o que foi feito e o que está sendo feito e não podemos deixar de dizer: “Isso é obra de Deus, o dedo de Deus; foi o Senhor quem o fez”. Todo homem pode reconhecer, mesmo de longe, que o céu e todas as suas luzes, a terra e todos os seus frutos são obra da Onipotência; com muito mais razão, quando os observa de perto.
Olhe pelo microscópio as menores obras da natureza: não parecem primorosas? O poder eterno e a divindade do Criador se veem e entendem claramente por meio das coisas criadas, Romanos 1:20. Todo homem pode perceber isso, até quem não recebeu a revelação divina, pois não há língua nem linguagem em que não se ouça a voz desses constantes pregadores naturais, Salmos 19:3.
- Ela deve causar-nos admiração. Devemos lembrar-nos de engrandecer e exaltar grandemente a beleza e a excelência da obra de Deus, bem como a harmonia de todas as suas partes. Não basta reconhecê-la como certa, boa e irrepreensível; devemos exaltá-la como sábia e gloriosa, como obra que nenhuma criatura poderia maquinar ou produzir.
O homem pode ver as obras de Deus e discernir nelas sua mão, capacidade que os animais não possuem. Por isso, deve louvá-las e atribuir a Deus a glória que lhe é devida por elas.
II. Apresenta Deus, autor dessas obras, como infinito e insondável, v. 26. As correntes do ser, do poder e da perfeição devem conduzir-nos à fonte. Deus é grande, infinitamente grande: grande em poder, pois é onipotente e independente; grande em riqueza, pois é autossuficiente e plenamente suficiente; grande em si mesmo e em todas as suas obras.
Ele é grande e, portanto, grandemente digno de louvor; grande e, portanto, não o conhecemos. Sabemos que ele existe, mas não o que ele é. Sabemos o que ele não é, mas não o que ele é. Conhecemos em parte, não perfeitamente.
Isso é apresentado como razão para não fazermos acusação formal contra sua conduta nem censurarmos o que faz. Tal atitude seria falar mal do que não entendemos e responder a uma questão antes de ouvi-la. Não conhecemos a duração de sua existência, pois ela é infinita.
O número de seus anos não pode ser investigado, porque ele é eterno: seus anos não têm número. É um Ser sem princípio, sucessão ou fim, que sempre existiu, sempre existirá e sempre é o mesmo, o grande EU SOU. Essa é uma boa razão para não lhe prescrevermos regras nem termos desavenças com ele: assim como seu ser, suas obras estão muito além do nosso alcance.
III. Apresenta alguns exemplos da sabedoria, do poder e do domínio soberano de Deus nas obras da natureza e nas disposições da providência comum. Neste capítulo, começa pelas nuvens e pela chuva que delas desce. Não precisamos examinar com rigor excessivo nem as expressões nem a filosofia desse nobre discurso.
Seu objetivo geral é mostrar que Deus é infinitamente grande, Senhor de tudo, primeira causa e supremo diretor de todas as criaturas, e que possui todo o poder no céu e na terra. Por isso, devemos adorá-lo, falar bem dele e honrá-lo com toda a humildade e reverência.
É presunção nossa prescrever-lhe as regras e os métodos de sua providência especial para com os filhos dos homens, ou esperar que nos preste contas deles, quando até as operações da providência comum relativas aos fenômenos atmosféricos são tão variadas, misteriosas e inexplicáveis.
Para impressionar Jó com a sublimidade e a soberania de Deus, Eliú o orientara a olhar para as nuvens (Jó 35:5). Nestes versículos, mostra o que podemos observar nas nuvens que vemos e que nos levará a considerar as perfeições gloriosas de seu Criador. Considere as nuvens:
- Como fontes de água para este mundo inferior, origem e reservatório de sua umidade, e grande depósito por meio do qual ela circula. Trata-se de uma provisão indispensável, pois a estagnação dessa umidade seria tão prejudicial para este mundo quanto a estagnação do sangue para o corpo humano.
Vale a pena observar, nesse acontecimento comum:
(1.) Que as nuvens do alto destilam água sobre a terra abaixo delas. Se os céus se tornam bronze, a terra se torna ferro. Por isso, a promessa de abundância diz: “Ouvirei os céus, e eles ouvirão a terra”. Isso nos indica que toda boa dádiva vem do alto, daquele que é Pai das luzes e Pai da chuva. Também nos ensina a dirigir a ele nossas orações e a erguer os olhos.
(2.) Que se diz aqui que destilam água sobre o homem (v. 28). É verdade que Deus faz chover no deserto onde ninguém habita (Jó 38:26; Salmos 104:11). Contudo, nisso há uma consideração especial pelo homem, a cujo serviço foram destinadas todas as criaturas inferiores e de quem se exige o tributo efetivo do louvor.
Entre os homens, Deus faz cair a chuva sobre justos e injustos, Mateus 5:45.
(3.) Diz-se que destilam a água em pequenas gotas, não em torrentes como quando se abriram as janelas do céu, Gênesis 7:11. Deus rega a terra com aquilo que certa vez usou para inundá-la; apenas o distribui de outro modo.
Assim nos mostra quanto dependemos de sua misericórdia e quão bondoso é ao dar chuva em gotas, para que seus benefícios se espalhem mais longe e de maneira mais uniforme, como por um regador.
(4.) Embora às vezes a chuva venha em gotas muito pequenas, em outras ocasiões cai torrencialmente. Essa diferença entre uma chuva e outra deve ser atribuída à Providência divina, que assim a ordena.
(5.) Embora desça em gotas, a água destila abundantemente sobre o homem (v. 28). Por isso é chamada “o rio de Deus, cheio de água”, Salmos 65:9.
(6.) As nuvens despejam a água conforme o vapor que recolhem, v. 27. Os céus são assim justos com a terra, mas a terra não lhes retribui com a mesma justiça.
(7.) O produto das nuvens ora causa grande terror, ora grande favor à terra, v. 31. Quando lhe agrada, Deus as usa para julgar os povos contra os quais está irado. Tormentas, tempestades e chuvas excessivas que destroem os frutos da terra e causam inundações vêm das nuvens.
Por outro lado, normalmente por meio delas ele dá alimento em abundância. Elas destilam fartura sobre os pastos cobertos de rebanhos e sobre os vales cobertos de cereal, Salmos 65:11-13.
(8.) Às vezes, há sinais da aproximação da chuva, v. 33. Entre outras coisas, seu ruído a anuncia. Por isso lemos em 1 Reis 18:41 sobre “o som de abundante chuva” antes que ela chegasse, ou, como diz a margem, “o som de um ruído de chuva”. Naquela ocasião, era um anúncio bem-vindo.
Assim como o ruído, o aspecto do céu também anuncia a chuva, Lucas 12:56. Os animais, por um instinto estranho, pressentem uma mudança iminente no tempo e procuram abrigo. Com isso envergonham o homem, que não antevê o mal nem se esconde.
- Como sombras para o mundo superior (v. 29): “Pode alguém entender como se espalham as nuvens?” Estendem-se sobre a terra como uma cortina ou cobertura. Não entendemos como chegam a isso, como se estendem e se mantêm suspensas, embora vejamos todos os dias que é assim.
Alegaremos então compreender os motivos e os métodos dos juízos de Deus sobre os filhos dos homens, cujos caracteres e situações são tão diferentes, se não conseguimos explicar a extensão das nuvens que encobrem a luz? V. 32. É uma nuvem que se interpõe, v. 32; Jó 26:9.
Percebemos que, ao se colocarem entre nós e o sol, as nuvens:
(1.) Às vezes nos favorecem, pois servem de guarda-sol, protegendo-nos do calor intenso que, de outro modo, cairia sobre nós. “Uma nuvem de orvalho no calor da colheita” é mencionada como grande alívio, Isaías 18:4.
(2.) Às vezes nos mostram um aspecto ameaçador, pois escurecem a terra ao meio-dia e encobrem a luz do sol. O pecado é comparado a uma nuvem (Isaías 44:22), porque se coloca entre nós e a luz do rosto de Deus e impede que ela brilhe sobre nós.
Embora as nuvens escureçam o sol por algum tempo e derramem chuva, post nubila Phoebus: o sol volta a brilhar depois da chuva. Depois de esgotar a nuvem, Deus espalha sua luz sobre ela, v. 30. Há “um brilho claro após a chuva”, 2 Samuel 23:4.
Os raios de sol avançam e chegam a iluminar até as profundezas do mar. Dali extraem uma nova provisão de vapores e, assim, trazem reforços para as nuvens, v. 30. Em tudo isso, devemos lembrar-nos de engrandecer a obra de Deus.