Jó 35
Argumento
Como Jó permanece calado, Eliú reforça o golpe. Pela terceira vez, compromete-se a mostrar-lhe que falou de maneira imprópria e deve retratar-se. Aqui lhe atribui três afirmações inadequadas e responde a cada uma separadamente:
I. Jó apresentou a religião como algo indiferente e inútil, que Deus ordena em benefício próprio, não em nosso benefício. Eliú demonstra o contrário, vv. 1-8.
II. Jó se queixara de que Deus não ouvia os clamores dos oprimidos; Eliú defende Deus dessa acusação, vv. 9-13.
III. Jó perdera a esperança de voltar a receber o favor de Deus porque este demorava tanto. Eliú, porém, mostra-lhe o verdadeiro motivo da demora, vv. 14-16.
Versículos 1 a 8
O Discurso de Eliú. (a.C. 1520.)
Temos aqui:
I. As palavras impróprias que Eliú atribui a Jó, v. 2, 3. Para demonstrar que são impróprias, apela ao próprio Jó e a seus pensamentos mais ponderados quando refletisse sobre elas: “Julgas tu isto justo?” Eliú confiava que sua censura era justa, pois podia deixar o julgamento dela ao próprio Jó.
Quem tem a verdade e a justiça a seu favor cedo ou tarde terá também a consciência de todas as pessoas. Isso revela igualmente a boa opinião que Eliú tinha de Jó: julgava que ele pensava melhor do que falava e que, ao perceber o erro, não insistiria nele.
Quando dizemos às pressas algo que não está certo, convém reconhecermos que uma reflexão posterior nos convenceu do erro. Eliú censura Jó por duas coisas:
- Por justificar a si mesmo mais do que a Deus, o que primeiro provocara Eliú, Jó 32:2. “Na prática, você disse: ‘Minha justiça é maior que a de Deus’”, isto é: “Fiz mais por Deus do que ele fez por mim; assim, ao acertarmos as contas, ele ficará em dívida comigo.”
Era como se Jó pensasse que seus serviços haviam recebido recompensa menor do que mereciam e que seus pecados haviam recebido castigo maior do que mereciam. É um pensamento profundamente injusto e perverso para qualquer pessoa nutrir, e sobretudo expressar.
Ao insistir tanto na própria integridade e na severidade com que Deus o tratava, Jó dizia, na prática, que sua justiça era maior que a de Deus. Contudo, por melhores que sejamos e por maiores que sejam nossas aflições, a injustiça pode ser atribuída a nós, não a Deus.
- Por negar os benefícios e as vantagens da religião em razão de seus sofrimentos: “Que proveito terei se for limpo do meu pecado?”, v. 3. Eliú deduz isso de Jó 9:30, 31: ainda que Jó tornasse suas mãos inteiramente limpas, de que lhe valeria? Deus o lançaria na vala. E de Jó 10:15: se fosse perverso, ai dele; mas, se fosse justo, tudo continuaria igual.
Ao comparar as próprias aflições com a prosperidade dos perversos, o salmista foi levado a dizer: “Na verdade, limpei meu coração em vão”, Salmos 73:13. Se Jó disse algo semelhante, na prática disse que sua justiça era maior que a de Deus (v. 2); pois, se nada ganhava com sua religião, Deus lhe devia mais do que ele devia a Deus.
Mas, embora houvesse alguma aparência que sustentasse a acusação, não era justo atribuir essas palavras a Jó. Ele próprio as havia apresentado como palavras perversas de pecadores prósperos (Jó 21:15): “Que proveito teremos se orarmos a ele?” E logo as rejeitara: “Longe de mim esteja o conselho dos perversos”, Jó 21:16.
Não é justo, numa discussão, atribuir a alguém consequências de suas opiniões que ele rejeita expressamente.
II. A boa resposta de Eliú a isso (v. 4): “Eu me disponho a responder a você e também a seus companheiros”, isto é, a todos os que aprovam as palavras de Jó e se prontificam a defendê-lo nelas, e a todos os outros que dizem o mesmo que ele. “Tenho algo a apresentar que calará todos eles.”
Para tanto, Eliú recorre a seu antigo princípio (Jó 33:12): Deus é maior que o homem. Se aproveitada como convém, essa verdade serve a muitos bons propósitos, especialmente a provar que Deus não deve nada a ninguém.
O maior dos homens pode estar em dívida com o mais humilde; mas há uma distância infinita entre Deus e o homem. O grande Deus não pode receber benefício algum do homem e, portanto, não se pode supor que tenha obrigação para com ele. Se está obrigado por seu propósito e sua promessa, está obrigado apenas para consigo mesmo.
Há um desafio que ninguém pode aceitar (Romanos 11:35): quem primeiro deu algo a Deus? Prove-o, e isso lhe será recompensado de novo. Por que exigir, como dívida justa, que ganhemos algo com nossa religião, como Jó parecia fazer, se o Deus a quem servimos nada ganha com ela?
- Eliú não precisa provar que Deus está acima do homem; todos concordam com isso. Procura, porém, gravar essa verdade em Jó e em nós por meio da demonstração visível da altura dos céus e das nuvens, v. 5.
Estão muito acima de nós, e Deus está muito acima deles. Assim, quanto mais distante ele se encontra do alcance de nossos pecados e de nossos serviços! “Olha para os céus e contempla as nuvens.” Deus criou o homem ereto, coelumque tueri jussit — e lhe ordenou que olhasse para o céu.
Os idólatras olhavam para cima e adoravam os astros do céu, o sol, a lua e as estrelas. Nós, porém, devemos olhar para o céu e adorar o Senhor desses astros. Eles são mais altos do que nós, mas Deus está infinitamente acima deles.
Sua glória está acima dos céus (Salmos 8:1), e o conhecimento dele é mais alto do que o céu, Jó 11:8.
- Daí Eliú conclui que nada do que fazemos afeta Deus, para o bem ou para o mal.
(1.) Reconhece que as pessoas podem ser beneficiadas ou prejudicadas por nossos atos (v. 8): sua perversidade talvez prejudique alguém como você, causando-lhe problemas em seus assuntos externos. O perverso pode ferir, roubar ou caluniar o próximo, ou levá-lo ao pecado e assim prejudicar sua alma.
Sua justiça, equidade, caridade, sabedoria e piedade talvez beneficiem o filho do homem. Nossa bondade alcança os santos que estão na terra, Salmos 16:3. Podemos causar injúria ou mostrar bondade a pessoas como nós.
Em ambos os casos, o soberano Senhor e Juiz de todos intervirá: recompensará os que fazem o bem e castigará os que prejudicam seus semelhantes, criaturas e súditos como eles.
Mas (2.) Eliú nega por completo que Deus possa realmente ser prejudicado ou beneficiado pelo que alguém faça ou possa fazer, ainda que seja o maior homem da terra.
[1.] Os pecados dos piores pecadores não lhe causam estrago (v. 6): se você pecar voluntariamente contra ele, com malícia premeditada e mão levantada; ou melhor, se multiplicar suas transgressões e repetir seus pecados muitas e muitas vezes, o que fará contra ele?
É um desafio à mente carnal: desafia o pecador mais ousado a fazer o pior que puder. Diz muito sobre a grandeza e a glória de Deus o fato de que nem seus piores inimigos têm poder para lhe causar algum prejuízo real.
Diz-se que o pecado é contra Deus porque assim o pecador o pretende, assim Deus o considera e ele constitui injúria à sua honra. Apesar disso, não pode fazer nada contra ele. A malícia dos pecadores é impotente: não pode destruir a existência nem as perfeições de Deus.
Não pode destroná-lo de seu poder e domínio, perturbar sua paz e seu repouso, frustrar seus conselhos e desígnios nem diminuir sua glória essencial.
Portanto, Jó falou de maneira imprópria ao perguntar: “Que proveito há em eu ser limpo de meu pecado?” Deus não ganhou nada com sua reforma. Se o próprio Jó não ganhava, quem ganharia?
[2.] Os serviços dos melhores santos não trazem proveito a Deus (v. 7): se uma pessoa for justa, o que dará a Deus? Ele não precisa de nosso serviço; mesmo que precisasse que a obra fosse feita, tem à disposição mãos melhores que as nossas. Nossa religião não aumenta em nada a felicidade dele.
Longe de Deus nos dever algo, nós lhe devemos o fato de que nos torna justos e aceita nossa justiça. Não podemos, portanto, exigir nada dele nem temos motivo para nos queixar se não recebemos o que esperamos. Devemos agradecer por recebermos mais do que merecemos.
Versículos 9 a 13
Eliú responde aqui a outra afirmação de Jó que, a seu ver, lançava uma sombra sobre a justiça e a bondade de Deus e, por isso, não deveria passar sem comentário. Observe:
I. De que Jó se queixava: Deus não atendia aos clamores dos oprimidos contra seus opressores (v. 9). “Os tiranos orgulhosos fazem os oprimidos clamar por causa das numerosas opressões, das muitas agruras que impõem aos pobres e da barbárie com que os tratam. Mas isso de nada adianta: Deus não aparece para lhes fazer justiça.”
“Eles clamam e continuam a clamar por causa do braço dos poderosos, que pesa sobre eles.” Isso parece referir-se às palavras de Jó (Jó 24:12): homens gemem na cidade, e a alma dos feridos clama contra os opressores; contudo, Deus não atribui culpa a esses opressores nem lhes pede contas.
Jó não sabia como entender isso nem como conciliá-lo com a justiça e o governo de Deus. Há um Deus justo? Como pode ele demorar tanto para ouvir e enxergar?
II. Como Eliú resolve a dificuldade. Se os clamores dos oprimidos não são ouvidos, a culpa não está em Deus: ele está pronto para ouvi-los e ajudá-los. A culpa está neles mesmos. Pedem e não recebem porque pedem de maneira imprópria, Tiago 4:3.
Clamam por causa do braço dos poderosos, mas seu clamor é de queixa e lamento, não de oração penitente; é clamor da natureza e da paixão, não da graça. Veja Oseias 7:14: “Não clamaram a mim de coração quando uivavam sobre suas camas.” Como, então, esperar que Deus lhes responda e os socorra?
- Não procuram a Deus nem buscam conhecê-lo em meio à aflição (v. 10): “Mas ninguém diz: onde está Deus, meu Criador?” As aflições são enviadas para nos conduzir e impelir a buscar a Deus desde cedo, Salmos 78:34.
Muitos, porém, gemem sob grandes opressões sem pensar em Deus nem reparar em sua mão nas dificuldades. Se o fizessem, suportariam os problemas com mais paciência e tirariam mais proveito deles. Entre tantos aflitos e oprimidos, poucos recebem todo o bem que poderiam receber por meio da aflição.
Ela deveria levá-los a Deus; mas quão raramente isso acontece! É lamentável ver tão pouca religião entre os pobres e miseráveis da humanidade. Todos se queixam de seus problemas, mas ninguém diz: “Onde está Deus, meu Criador?”
Isso significa que ninguém se arrepende dos pecados, ninguém volta àquele que o fere, ninguém busca a face e o favor de Deus nem o consolo nele capaz de contrabalançar as aflições externas.
Estão inteiramente absorvidos pela miséria de sua condição, como se isso desculpasse sua vida sem Deus no mundo, quando deveria levá-los a apegar-se a ele com ainda mais firmeza. Observe:
(1.) Deus é nosso Criador, o autor de nossa existência. Sob esse aspecto, importa que nos voltemos para ele e nos lembremos dele, Eclesiastes 12:1. “Deus, meus Criadores”, no plural, o que alguns consideram, se não uma indicação, ao menos uma sugestão da Trindade de pessoas na unidade da Divindade: “Façamos o homem.”
(2.) Portanto, é nosso dever buscá-lo. Onde está ele, para que lhe prestemos homenagem e reconheçamos nossa dependência dele e nossas obrigações para com ele? Onde está ele, para que lhe peçamos sustento e proteção, recebamos sua lei e busquemos a felicidade em seu favor, pois foi de seu poder que recebemos a existência?
(3.) É lamentável que os seres humanos o busquem tão pouco. Todos perguntam: “Onde está a diversão? Onde está a riqueza? Onde está um bom negócio?” Mas ninguém pergunta: “Onde está Deus, meu Criador?”
- Não reparam nas misericórdias que recebem durante as aflições nem são gratos por elas. Por isso, não podem esperar que Deus os livre das aflições.
(1.) Ele provê consolo e alegria interiores em meio aos problemas externos. Devemos fazer uso disso e esperar o tempo dele para a remoção dos problemas: ele dá cânticos na noite, isto é, por mais escura, triste e melancólica que seja nossa condição, há em Deus, em sua providência e em sua promessa, o suficiente para nos sustentar.
Mais que isso, há o suficiente para nos encher de alegria e consolação, capacitando-nos a dar graças em todas as circunstâncias e a sentir alegria até na tribulação. Quando só contemplamos as aflições que sofremos e desprezamos os consolos que Deus reservou para nós, é justo que ele rejeite nossas orações.
(2.) Ele preserva nossa capacidade de raciocinar e entender (v. 11): “Quem nos ensina mais do que aos animais da terra”, isto é, quem nos dotou de capacidades e faculdades mais nobres do que as deles e nos tornou capazes de prazeres e ocupações superiores, agora e para sempre. Isso é mencionado aqui:
[1.] Como motivo de gratidão, mesmo sob o mais pesado fardo da aflição. Seja qual for a privação que soframos, nossa alma imortal, joia de maior valor do que o mundo inteiro, continua conosco. Até os que matam o corpo não podem feri-la.
Se a aflição não perturba o exercício de suas faculdades, mas continuamos capazes de raciocinar e conservamos a paz de consciência, temos muitos motivos para agradecer, por mais pesadas que sejam as demais calamidades.
[2.] Como motivo para, em meio às aflições, buscarmos a Deus, nosso Criador, e recorrermos a ele. A maior excelência da razão é nos tornar capazes de praticar a religião. É sobretudo nisso que somos ensinados mais do que os animais e as aves.
Eles possuem instintos e habilidades extraordinários para encontrar alimento, remédio e abrigo; nenhum deles, porém, é capaz de perguntar: “Onde está Deus, meu Criador?” Entre os animais irracionais, observaram-se coisas semelhantes à lógica, à filosofia e à política, mas nunca algo semelhante à teologia ou à religião. Estas são próprias do ser humano.
Se, portanto, os oprimidos apenas clamam por causa do braço dos poderosos sem olhar para Deus, não fazem mais do que os animais, que se queixam quando são feridos. Esquecem a instrução e a sabedoria pelas quais foram elevados tanto acima deles.
Deus socorre os animais porque clamam a ele da melhor maneira de que são capazes (Jó 38:41; Salmos 104:21). Que motivo teriam os seres humanos para esperar socorro se, embora capazes de buscar a Deus como seu Criador, não clamam a ele de modo diferente dos animais?
- Permanecem orgulhosos e não se humilham em meio às aflições, que foram enviadas para mortificá-los e livrá-los do orgulho (v. 12): “Ali eles clamam”; ficam se queixando dos opressores e enchendo os ouvidos de todos com seus lamentos. Não hesitam em lançar críticas até contra o próprio Deus e sua providência.
“Mas ninguém responde.” Deus não lhes concede livramento, e talvez nem os homens lhes deem muita atenção. Por quê? Por causa do orgulho desses homens maus. São maus, abrigam a iniquidade no coração e, por isso, Deus não ouvirá suas orações, Salmos 66:18; Isaías 1:15. Deus não ouve tais pecadores.
Talvez tenham provocado as próprias dificuldades por sua perversidade: são os pobres do diabo. Nesse caso, quem pode compadecer-se deles? Mas isso não é tudo. Continuam orgulhosos e, por isso, não buscam a Deus (Salmos 10:4).
Mesmo que clamem a ele, não recebem resposta, pois Deus só ouve o desejo dos humildes (Salmos 10:17). Por sua providência, ele livra aqueles a quem primeiro preparou e tornou aptos para o livramento por sua graça. Não estamos aptos se, sob aflições humilhantes, nosso coração permanece sem humildade e nosso orgulho não é mortificado.
O caso, portanto, é claro: se clamamos a Deus para que retire a opressão e a aflição, mas elas permanecem, não é porque a mão do Senhor esteja encurtada ou seus ouvidos sejam pesados. É porque a aflição ainda não cumpriu sua obra. Ainda não nos humilhamos o suficiente; por isso, devemos atribuir a nós mesmos sua continuação.
- Não são sinceros, íntegros nem íntimos de Deus em suas súplicas; por isso, ele não os ouve nem responde (v. 13): “Deus não ouvirá a vaidade”, isto é, a oração hipócrita e vã, que sai de lábios fingidos. É vão pensar que Deus a ouviria, pois ele sonda o coração e exige verdade no íntimo.
Versículos 14 a 15
Aqui está: I. Outra afirmação imprópria pela qual Eliú censura Jó (v. 14): “Tu dizes que não o verás.” Isto é: 1. “Você se queixa de não compreender o sentido do tratamento severo que Deus lhe dispensa nem discernir seu intuito e desígnio”, Jó 23:8, 9.
E 2. “Você perdeu a esperança de ver Deus voltar a tratá-lo com bondade e de viver dias melhores; está prestes a considerar tudo perdido.” Assim também Ezequias disse (Isaías 38:11): “Não verei o Senhor.”
Quando prosperamos, tendemos a pensar que nosso monte nunca será abaixado; quando sofremos, tendemos a pensar que nosso vale nunca será preenchido. Em ambos os casos, concluímos que amanhã terá de ser igual a hoje.
Isso é tão absurdo quanto imaginar que o tempo, seja bom ou ruim, permanecerá assim para sempre; que a maré enchente continuará sempre enchendo ou que a vazante continuará sempre vazando.
II. A resposta de Eliú a essa afirmação desesperada de Jó:
- Ao olhar para Deus, Jó não tinha motivo justo para falar com tanto desespero: “O juízo está diante dele.” Isto é: “Ele sabe o que deve fazer e fará tudo com sabedoria e justiça infinitas. Tem diante de si o plano e o modelo completos da providência e sabe o que fará, ao contrário de nós; por isso não entendemos o que ele faz.”
“Há diante dele um dia de juízo no qual todas as aparentes desordens da providência serão corrigidas e seus capítulos obscuros serão explicados. Então você compreenderá plenamente esses acontecimentos obscuros e verá o desfecho final dessas ocorrências sombrias. Então verá o rosto de Deus com alegria.”
“Portanto, confie nele, dependa dele, espere por ele e creia que o resultado será bom no fim.” Quando consideramos que Deus é infinitamente sábio, justo e fiel, e que é um Deus de juízo (Isaías 30:18), não vemos motivo para desesperar de seu socorro. Temos, sim, todos os motivos para esperar nele, confiantes de que o socorro virá no tempo devido, no melhor tempo.
- Se Jó ainda não vira o fim de suas dificuldades, era porque não confiava em Deus nem esperava por ele desse modo (v. 15): “Porque isso não acontece, porque você não confia assim nele, a aflição que inicialmente veio do amor agora tem o desagrado divino mesclado a ela.”
“Deus o visitou agora em sua ira. Ele considera muito grave que você não encontre em seu coração disposição para confiar nele e, em vez disso, abrigue pensamentos tão duros e desconfiados a seu respeito.”
Se nossas aflições tiverem alguma mistura da cólera divina, a culpa é nossa. Isso acontece porque não nos conduzimos corretamente sob elas: criamos desavença com Deus, ficamos irritados e impacientes e desconfiamos da divina Providência. Era o caso de Jó.
A insensatez do homem perverte seu caminho, e então seu coração se irrita contra o Senhor, Provérbios 19:3. Ainda assim, Eliú considera que Jó, em meio a grande sofrimento, não percebia nem ponderava como devia que era culpa sua ainda não ter sido liberto.
Eliú conclui, portanto, que Jó abre a boca em vão (v. 16) ao se queixar de suas aflições e pedir reparação, ou ao justificar-se e provar a própria inocência. Tudo é vão porque não confia em Deus, não espera por ele nem o considera devidamente em meio às aflições.
Jó já havia dito muito e multiplicado as palavras, mas tudo sem conhecimento e sem proveito, porque não buscava ânimo em Deus nem se humilhava diante dele. Em vão recorremos a Deus ou procuramos absolver-nos se não nos esforçamos para cumprir o propósito da aflição; em vão pedimos socorro se não confiamos nele.
Pois quem desconfia de Deus não deve pensar que receberá algo dele, Tiago 1:7. Ou talvez a conclusão de Eliú se refira a tudo o que Jó havia dito. Depois de mostrar o absurdo de algumas passagens de seu discurso, conclui que muitas outras também resultavam de sua ignorância e de seus erros.
Eliú não o condenou como hipócrita, como fizeram os outros amigos; atribuiu-lhe apenas o pecado de Moisés: falar sem ponderar quando seu espírito estava irritado.
Quando isso nos acontece — e quem nunca peca com as palavras? —, é uma misericórdia que alguém nos aponte o erro. Devemos recebê-lo com paciência e gratidão, como Jó fez, retratando-nos do que dissemos de maneira imprópria em vez de repeti-lo.