Matthew Henry

Jó 30

Argumento

É um melancólico “Mas agora” que abre este capítulo. A adversidade é descrita aqui tão vivamente quanto a prosperidade no capítulo anterior, e o auge da prosperidade apenas acentuava a profundidade da adversidade.

Deus põe uma diante da outra, como também fez Jó, para que suas aflições parecessem mais graves e, por consequência, sua situação mais digna de compaixão.

I. Jó vivera com grande honra; agora, porém, caíra em desgraça e era tão desprezado até pelos mais humildes quanto antes fora exaltado pelos mais importantes. Ele insiste muito nisso, vv. 1-14.

II. Tivera muito consolo e prazer interior; agora, porém, tornara-se para si mesmo motivo de terror e peso (v. 15, 16), e estava dominado pela tristeza, vv. 28-31. III. Por muito tempo desfrutara boa saúde; agora, porém, estava doente e com dor, vv. 17-19, 29, 30.

IV. Houve um tempo em que o segredo de Deus estava com ele; agora, porém, sua comunicação com o céu fora interrompida, vv. 20-22. V. Esperara ter uma vida longa; agora, porém, via a morte à porta, v. 23.

Jó menciona uma circunstância que agravava sua aflição: ela o surpreendeu quando ele esperava paz. Duas coisas, contudo, lhe davam algum alívio: 1. Seus sofrimentos não o seguiriam para a sepultura, v. 24. 2. Sua consciência testemunhava que, em sua prosperidade, ele se compadecera dos que viviam na miséria, v. 25.

Versículos 1 a 14

A Condição Humilhada de Jó. (a.C. 1520.)

Jó apresenta aqui uma queixa extensa e triste da grande desonra em que caíra depois de tanta honra e boa reputação. Isso feria profundamente um espírito franco como o dele. Insiste em duas coisas que agravavam muito sua aflição:

I. A baixa condição das pessoas que o afrontavam. Assim como aumentava sua honra, nos dias de prosperidade, o respeito e a deferência dos príncipes e nobres, aumentava sua desonra na adversidade ser desprezado pelos lacaios e pisoteado por pessoas que eram não só inferiores a ele em todos os aspectos, mas as mais desprezadas e desprezíveis de toda a humanidade.

Sob todos os aspectos, ninguém poderia ser retratado como mais vil do que as pessoas que insultavam Jó aqui descritas.

  1. Eram jovens, mais novos do que ele (v. 1), rapazes (v. 12) que, por sua idade e seriedade, deveriam tê-lo tratado com respeito. Até as crianças, enquanto brincavam, faziam dele motivo de brincadeira, como as crianças de Betel zombaram do profeta: “Sobe, calvo!” As crianças logo aprendem a zombar quando veem os pais fazerem o mesmo.

  2. Tinham origem humilde. Seus pais eram tão desprezíveis que um homem como Jó não os aceitaria nem para o serviço mais baixo em sua casa, como cuidar das ovelhas e auxiliar os pastores junto com os cães do rebanho, v. 1.

Eram tão maltrapilhos que não convinha vê-los entre seus servos, tão tolos que não serviam para ser empregados e tão falsos que não se podia confiar neles nem no cargo mais modesto.

Jó fala aqui do que poderia ter feito, não do que fez. Não era homem de colocar qualquer ser humano junto com os cães de seu rebanho; compreendia muito bem a dignidade da natureza humana para agir assim.

  1. Eles e suas famílias eram um peso inútil para a terra, sem préstimo algum. O próprio Jó, com toda a sua prudência e paciência, não conseguia tirar proveito deles, v. 2.

Os jovens eram incapazes de trabalhar: tão preguiçosos e tão desajeitados ao executar as tarefas. “De que me serviria a força de suas mãos?” Os idosos não serviam nem para dar conselho nas questões menores; tinham idade avançada, mas sua velhice se perdera: eram crianças pela segunda vez.

  1. Eram extremamente pobres, v. 3. Estavam prestes a morrer de fome, pois não queriam cavar e tinham vergonha de mendigar. Se a providência de Deus os tivesse levado à necessidade, os vizinhos os teriam procurado como pessoas merecedoras de caridade e lhes teriam dado ajuda.

Como, porém, tinham chegado à miséria pela própria preguiça e prodigalidade, ninguém se dispunha a socorrê-los. Por isso, foram obrigados a fugir para os desertos em busca tanto de abrigo quanto de sustento.

A necessidade os levou a recursos lamentáveis: arrancavam malvas junto aos arbustos e se alegravam em comê-las, por falta de alimento adequado, v. 4. Veja a que a fome pode levar as pessoas: uma metade do mundo não sabe como vive a outra.

Mesmo assim, os que têm abundância devem pensar de vez em quando naqueles cuja comida é muito grosseira e que ainda recebem dela apenas uma pequena porção. Mas precisamos reconhecer a justiça de Deus e não achar estranho que a preguiça vista as pessoas de trapos e que a alma ociosa sofra fome. Este mundo de mendigos está cheio dos pobres do diabo.

  1. Eram pessoas de conduta perversíssima e escandalosa: não apenas um peso, mas uma praga para os lugares onde viviam, patifes completos, a escória da região. “Foram expulsos do meio dos homens”, v. 5.

Eram tão mentirosos, ladrões, furtivos e dados a causar dano que o melhor serviço que os magistrados podiam prestar era livrar a região deles, enquanto até a multidão gritava atrás deles como atrás de um ladrão. Que esses sujeitos sumam da terra; não merecem viver.

Eram preguiçosos e não queriam trabalhar; por isso, eram denunciados como ladrões, e com razão. Quem não ganha o próprio pão por trabalho honesto, na prática, rouba o pão da boca dos outros.

Uma pessoa ociosa é um transtorno público. É melhor, porém, mandar pessoas assim para uma casa de trabalho do que, como aqui, para o deserto, que pode puni-las, mas nunca reformá-las.

Foram obrigados a morar em cavernas na terra e zurravam como jumentos entre os arbustos, v. 6, 7. Veja a sorte dos que têm contra si o clamor da região e da própria consciência: não podem deixar de viver em contínuo terror e confusão.

Gemem entre as árvores, segundo Broughton, e sofrem entre as urtigas. São picados e arranhados ali mesmo onde esperavam encontrar abrigo e proteção. Veja a miséria que os perversos causam a si mesmos neste mundo; ainda assim, nada é comparável ao que os espera no outro.

  1. Não tinham nada que os recomendasse à estima de ninguém. Eram de uma espécie vil; sim, gente sem reputação, da qual ninguém podia dizer algo de bom nem a quem desejava coisa boa. Foram banidos da terra como gente mais vil do que ela.

Mal se pode imaginar que a natureza humana chegue a rebaixar-se e degenerar tanto quanto nessas pessoas. Quando agradecemos a Deus por sermos humanos, temos motivos para agradecer-lhe também por não sermos humanos desse tipo.

Mesmo assim, pessoas desse tipo maltratavam Jó: (1.) Por vingança, porque, quando ele tinha prosperidade e poder, aplicara, como bom magistrado, as leis vigentes contra vagabundos, malfeitores e mendigos robustos; essa gente vil agora guardava rancor contra ele por isso.

(2.) Por triunfarem sobre ele, pois julgavam que agora Jó se tornara um deles, Isaías 14:10, 11. Os desprezíveis, pessoas de espírito mesquinho, insultam os miseráveis, Salmos 35:15.

II. A gravidade das afrontas que lhe faziam. Não se pode imaginar quanto o maltratavam:

  1. Compunham cantigas sobre ele, com as quais se divertiam e divertiam os companheiros (v. 9): “Sou sua canção e seu provérbio.” Tem espírito muito vil quem transforma em piada as calamidades de vizinhos honestos e consegue divertir-se com suas dores.

  2. Evitavam Jó como se fosse um espetáculo repugnante; tinham aversão a ele e fugiam para longe (v. 10), como de um monstro horrendo ou de alguém infectado. Os que haviam sido expulsos do meio dos homens queriam que ele também o fosse.

Pois, 3. Expressavam por ele o maior desprezo e indignação. Cuspiam-lhe no rosto, ou estavam prestes a fazê-lo; faziam-no tropeçar, empurravam-lhe os pés (v. 12) e o chutavam, fosse por ódio, fosse por brincadeira, para divertir-se com ele como faziam com os companheiros num jogo de bola.

Os melhores santos às vezes sofreram as piores injúrias e humilhações de um mundo perverso, rancoroso e zombador; não devem achar isso estranho. O próprio Mestre sofreu abusos semelhantes.

  1. Tinham grande malícia contra Jó. Não apenas faziam dele motivo de riso, mas também uma presa; não só o afrontavam, como se esforçavam para causar-lhe todo o dano real que conseguissem imaginar: “Levantam contra mim os caminhos de sua destruição.”

Ou, segundo outra leitura: “Lançam sobre mim a causa de sua desgraça”, isto é: “Culpam-me por terem sido expulsos.” É comum que criminosos odeiem os juízes e as leis pelos quais são punidos. Sob esse pretexto:

(1.) Acusavam Jó falsamente e deturpavam sua conduta anterior, o que aqui é chamado de arruinar seu caminho. Descreviam-no como tirano e opressor porque ele lhes fizera justiça.

Talvez os amigos de Jó baseassem suas censuras sem caridade (Jó 22:6, etc.) nas queixas injustas e desarrazoadas dessas pessoas desprezíveis. Isso demonstraria grande fraqueza e falta de reflexão por parte deles, pois quem poderia ser considerado inocente se fossem aceitas as acusações de gente assim?

(2.) Além de triunfarem em sua calamidade, contribuíam para ela e faziam tudo o que podiam para aumentar e agravar sua miséria. É um grande pecado intensificar a calamidade de alguém, especialmente de pessoas boas.

Nisso não têm quem os ajude: ninguém os incita nem aprova sua conduta, ninguém os defende nem protege. Agem por vontade própria. São tolos em outros assuntos, mas inteligentes o bastante para causar dano; não precisam de ajuda para inventá-lo.

Alguns leem assim: “Consideram minha aflição um lucro, embora não ganhem nada com ela.” Os perversos se alegram com as calamidades dos outros, ainda que nada obtenham com isso.

  1. Os que lhe causavam todo esse dano eram numerosos, unidos e violentos (v. 14): “Vieram contra mim como por uma ampla brecha de águas”, quando um dique se rompe.

Ou então: “Vieram como soldados por uma grande abertura que fizeram no muro de uma cidade sitiada, entrando em massa contra mim com a maior fúria.”

Orgulhavam-se disso e sentiam prazer: “Revolveram-se na desolação”, como alguém que se revira numa cama macia e confortável; lançaram-se sobre ele com todo o peso de sua malícia.

III. Todo esse desprezo por Jó foi causado pelas aflições que sofria (v. 11): “Porque Deus afrouxou minha corda, tirou a honra e o poder com que eu estava cingido (Jó 12:18), dispersou o que eu reunira e desfez todos os meus negócios; porque me afligiu, eles soltaram as rédeas diante de mim”, isto é, “tomaram a liberdade de dizer e fazer contra mim tudo o que querem.”

Os que, pela Providência, são despojados da honra podem esperar ser cobertos de desprezo por pessoas irrefletidas e mal-intencionadas.

“Porque Deus afrouxou sua corda” (o original também permite essa leitura), isto é: “Porque retirou a restrição que mantinha sob controle a malícia deles, rejeitam as rédeas diante de mim”; em outras palavras: “Não fazem caso de minha autoridade nem sentem qualquer temor diante de mim.”

É porque Deus mantém sob controle a consciência até dos maus, impondo-lhes limites, que não sofremos continuamente insultos e abusos desse tipo.

Se alguma vez recebermos tratamento tão ruim, devemos reconhecer a mão de Deus ao retirar esses limites, como Davi fez quando Simei o amaldiçoou: “Que ele amaldiçoe, pois o Senhor lhe ordenou.”

Agora, em tudo isso: 1. Podemos ver como a honra mundana é incerta, sobretudo o aplauso popular, e quão rapidamente alguém pode cair das alturas da dignidade no abismo da desonra.

Quão poucos motivos há, portanto, para ambicionar ou orgulhar-se do que se perde com tanta facilidade, e quão pouca confiança merece! Os que hoje gritam “Hosana!” amanhã podem gritar “Crucifica-o!”

Há, porém, uma honra que vem de Deus. Se a assegurarmos, descobriremos que ela não é tão mutável nem tão fácil de perder.

  1. Podemos ver que muitas vezes pessoas sábias e boas foram pisoteadas e maltratadas.

  2. Os que olham apenas para as coisas visíveis desprezam aqueles a quem o mundo rejeita, ainda que sejam os mais favorecidos do Céu. Nada é mais doloroso na pobreza do que ela tornar as pessoas desprezíveis.

Turba Remi sequitur fortunam, ut semper odit damnatos — A multidão de Roma, fiel às mudanças da fortuna, sempre persegue os caídos.

  1. Podemos ver em Jó um tipo de Cristo, que assim se tornou “alvo de descrédito entre os homens e desprezado pelo povo” (Salmos 22:6; Isaías 53:3) e não escondeu o rosto da humilhação e dos cuspes, mas suportou a indignidade melhor do que Jó.

Versículos 15 a 31

Jó se Queixa de Sua Aflição. (a.C. 1520.)

Nesta segunda parte da queixa de Jó, muito amarga e cheia de expressões de tristeza, podemos observar muitas coisas das quais ele se queixa e algumas poucas com que se consola.

I. Há muito de que ele se queixa:

  1. De modo geral, era um tempo de grande aflição e tristeza:

(1.) A aflição o dominou e surpreendeu. Dominou-o (v. 16): “Os dias de aflição se apoderaram de mim”; agarraram-me, segundo alguns. Prenderam-no como o oficial de justiça prende o devedor: bate-lhe nas costas e o detém. Quando a aflição vem com uma ordem, agarra com firmeza e não solta.

Surpreendeu-o (v. 27): “Os dias de aflição me precederam”, isto é, “vieram sobre mim sem aviso prévio. Eu não os esperava nem me preparara para um dia tão mau.” Observe: Jó conta sua aflição em dias, que logo serão contados e terminarão, e nada são diante das eras da eternidade, 2 Coríntios 4:17.

(2.) Jó sentia grande tristeza por causa da aflição. Suas entranhas ferviam de dor e não descansavam, v. 27. A consciência de suas calamidades consumia-lhe continuamente o ânimo, sem pausa alguma.

Andava de luto dia após dia, sempre suspirando e chorando. Uma nuvem tão constante lhe pairava sobre a mente que, na prática, caminhava sem o sol, v. 28. Nada tinha de que pudesse extrair consolo. Entregara-se à tristeza contínua, como alguém que, à semelhança de Jacó, resolvera descer à sepultura em luto.

Andava fora do sol, segundo alguns, em lugares escuros e sombreados, como costumam fazer as pessoas melancólicas.

Se ia à congregação para participar do culto solene, em vez de se levantar com calma para pedir as orações dos presentes, levantava-se e clamava em voz alta, pela dor do corpo ou angústia da mente, como alguém quase fora de si.

Se aparecia em público para receber visitas, quando uma crise o acometia, não conseguia conter-se nem conservar a compostura apropriada: levantava-se e gritava.

Assim, era irmão dos dragões e das corujas (v. 29), tanto por escolher a solidão e o isolamento, como eles (Isaías 34:13), quanto por fazer ruídos assustadores e horríveis como os deles.

Suas queixas irrefletidas podiam, com razão, ser comparadas aos gritos inarticulados desses animais.

  1. O terror e a perturbação que dominaram sua alma eram a parte mais dolorosa de sua calamidade, v. 15, 16:

(1.) Se olhasse adiante, tudo o que via o assustava. Se tentasse afastar os terrores, eles se voltavam furiosamente contra ele; se tentasse fugir, perseguiam sua alma com a velocidade e a violência do vento.

Desde o início Jó se queixara dos terrores de Deus alinhados contra ele, Jó 6:4. Continuavam a voltar-se contra ele para onde quer que olhasse e a persegui-lo para onde quer que fugisse.

“Minha alma” (em hebraico, “minha parte principal”, “minha princesa”): a alma é a parte principal do ser humano, sua glória, superior ao corpo em todos os sentidos. Por isso, aquilo que persegue e ameaça a alma deve ser o mais temido.

(2.) Se olhasse para trás, via-se privado de todo o bem que antes desfrutara; restava-lhe apenas a lembrança amarga: “Meu bem-estar e minha prosperidade passam”, de modo tão repentino, rápido e irrecuperável quanto uma nuvem.

(3.) Se olhasse para dentro, via o espírito completamente abatido e incapaz de suportar sua enfermidade: não apenas ferido, mas derramado sobre ele, v. 16. Não estava apenas fraco como água, mas, a seu ver, perdido como água derramada no chão. Compare Salmos 22:14: meu coração derreteu-se como cera.

  1. Suas doenças físicas eram muito graves, pois:

(1.) Estava cheio de dor, dor penetrante que chegava aos ossos, a todos eles, v. 17. Era como uma espada em seus ossos, que o feria à noite, quando o sono deveria restaurá-lo. Seus nervos eram acometidos por fortes convulsões; seus tendões não descansavam.

Por causa da dor, não conseguia repousar: o sono fugia de seus olhos. Seus ossos ardiam de calor, v. 30. Sofria de febre constante, que secava a umidade vital e consumia até a medula dos ossos. Veja como nossos corpos são frágeis: carregam em si as sementes de suas próprias doenças e da morte.

(2.) Estava coberto de feridas. Alguns sentem dor nos ossos, mas ao menos dormem com a pele inteira. A ordem dada a Satanás contra Jó, porém, estendia-se tanto aos ossos quanto à carne, e ele não poupou nenhum dos dois.

A pele de Jó enegrecera, v. 30. O sangue se acumulava, as feridas supuravam e aos poucos criavam crostas, deixando a pele escura. Até a cor de suas roupas mudara pela secreção contínua das úlceras.

As roupas macias que costumava vestir tinham endurecido tanto que todas eram como uma gola rígida, v. 18. Seria repugnante descrever a condição do pobre Jó por falta de roupa limpa e de bons cuidados, e como todas as suas roupas se tornaram trapos imundos.

Alguns pensam que, entre outras doenças, Jó sofria de uma inflamação grave ou inchaço na garganta e que era isso que o apertava como uma gola rígida. Assim foi lançado na lama (v. 19), ou comparado a ela, segundo alguns; seu corpo parecia mais um monte de sujeira do que qualquer outra coisa.

Ninguém se orgulhe da própria roupa nem da própria limpeza. Não sabe se alguma doença poderá mudar suas vestes, lançá-lo na lama e torná-lo repugnante a si mesmo e aos outros.

Em vez de perfume, haverá mau cheiro, Isaías 3:24. Mesmo em nossa melhor condição, somos apenas pó e cinzas, e nossos corpos são corpos vis; mas tendemos a esquecer isso até que Deus, por alguma doença grave, nos faça sentir e reconhecer de maneira palpável o que somos.

“Já me tornei semelhante ao pó e às cinzas a que logo serei reduzido; aonde quer que eu vá, levo minha sepultura comigo.”

  1. O que mais o afligia era a impressão de que Deus se tornara seu inimigo e lutava contra ele. Fora Deus quem o lançara na lama (v. 19) e parecia pisoteá-lo ali. Isso o feria no coração mais do que qualquer outra coisa:

(1.) Deus não aparecia em seu favor. Jó se dirigia a ele, mas não obtinha resposta favorável; apelava a ele, mas não recebia sentença.

Fazia pedidos muito insistentes, porém em vão (v. 20): “Clamo a ti com toda a seriedade; levanto-me e clamo, à espera de resposta, mas não me ouves nem me dás atenção, pelo que consigo perceber.”

Se nossas orações mais fervorosas não receberem respostas rápidas e perceptíveis, não devemos achar isso estranho. Embora a descendência de Jacó nunca tenha buscado a Deus em vão, muitas vezes pensou que sim, e que Deus não apenas estava surdo, mas irado com as orações de seu povo, Salmos 80:4.

(2.) Deus parecia agir contra ele. O que Jó diz aqui sobre Deus está entre suas piores palavras (v. 21): “Tornaste-te cruel para comigo.” Longe esteja do Deus de misericórdia e graça agir com crueldade para com alguém — sua compaixão não falha —, sobretudo para com seus filhos.

Jó foi injusto e ingrato ao falar assim de Deus, mas nutrir pensamentos duros a seu respeito era o pecado que mais facilmente o envolvia naquele momento. Aqui:

[1.] Pensava que Deus lutava contra ele e mobilizava toda a sua força para arruiná-lo: “Com tua mão forte te opões a mim”, ou te tornas meu adversário. Jó pensara melhor de Deus (Jó 23:6) quando concluíra que ele não contenderia com seu grande poder contra si.

Deus possui soberania absoluta e força irresistível, mas nunca usa uma ou outra para esmagar ou oprimir alguém.

[2.] Jó pensava que Deus triunfava sobre ele (v. 22): “Ergueste-me ao vento”, como uma pena ou a palha com que o vento brinca. Ele se via como adversário tão desigual da Onipotência e tão incapaz de ajudar a si mesmo que fora levado a cavalgar, não em triunfo, mas em terror, sobre as asas do vento.

Os juízos de Deus até lhe dissolviam a substância, como uma nuvem dissolvida e dispersa pelo vento. A substância do homem, mesmo em sua melhor condição, nada é diante do poder de Deus; logo se desfaz.

  1. Jó agora não esperava outra coisa senão que, por meio dessas aflições, Deus logo lhe pusesse fim: “Se sou levado a cavalgar sobre o vento, não espero outra coisa senão quebrar o pescoço em breve.” Ele fala como se Deus não tivesse outro desígnio para ele em tudo o que fazia:

“Sei que me levarás, com muito mais terror, à morte, embora eu pudesse ter chegado lá sem toda esta agitação, pois ela é a casa destinada a todos os viventes”, v. 23.

A sepultura é uma casa: estreita, escura, fria, pouco mobiliada, mas será nossa morada, onde repousaremos em segurança. É nossa morada duradoura, nossa própria casa, pois é o colo de nossa mãe, e nela somos reunidos aos nossos pais.

É uma casa que nos foi destinada por aquele que determinou os limites de todas as nossas moradas. Destina-se a todos os viventes. É o abrigo comum onde ricos e pobres se encontram, o local designado para a reunião geral. Em breve todos seremos levados para lá.

É Deus quem nos leva, pois as chaves da morte e da sepultura estão em suas mãos, e todos podemos saber que, cedo ou tarde, ele nos conduzirá até ali. Seria bom se refletíssemos devidamente sobre isso. Os vivos sabem que morrerão; cada um de nós deve saber disso e aplicar essa verdade a si mesmo.

  1. Duas coisas agravavam a aflição de Jó e a tornavam menos suportável:

(1.) A enorme frustração de sua expectativa (v. 26): “Quando eu esperava o bem, mais bem, ou ao menos a continuação do que tinha, veio o mal.” Tão incertas são todas as alegrias mundanas, e tão insensato é alimentar grandes expectativas a partir delas!

Os que esperam receber luz das faíscas de seus consolos terrenos sofrerão amarga decepção e prepararão sua cama na escuridão.

(2.) A enorme mudança em sua condição (v. 31): “Minha harpa não foi apenas posta de lado e pendurada nos salgueiros; ela se transformou em instrumento de luto, e meu órgão, na voz dos que choram.” Em sua prosperidade, Jó tomara o tamborim e a harpa e se alegrara com o som do órgão, Jó 21:12.

Apesar de sua seriedade e de sua graça, encontrara tempo para estar alegre; agora, porém, sua música mudara. Portanto, aqueles que se alegram vivam como se não se alegrassem, pois não sabem quão cedo sua risada poderá transformar-se em luto e sua alegria em tristeza. Vemos, assim, quanto Jó tinha de que se queixar; mas:

II. Em meio a tudo isso, há algo com que ele se consola, embora seja pouco:

  1. Jó prevê, com consolo, que a morte será o fim de todas as suas calamidades (v. 24). Embora Deus agora se oponha a ele com mão forte, “não estenderá a mão à sepultura”, diz Jó.

A mão da cólera de Deus o levaria à morte, mas não o seguiria além dela: sua alma estaria segura e feliz no mundo dos espíritos, e seu corpo, seguro e em repouso no pó.

Embora as pessoas clamem em sua destruição — isto é, embora haja muita agonia e muitos gritos quando estão morrendo, com suspiros, gemidos e queixas —, na sepultura nada sentem e nada temem: ali tudo está quieto.

“Ainda que no inferno, chamado destruição, clamem, não o fazem na sepultura; e, como serei livrado da segunda morte, a primeira me trará alívio real.” Por isso Jó desejava ser escondido na sepultura, Jó 14:13.

  1. Jó se lembra com consolo da preocupação que sempre tivera com as calamidades alheias quando ele próprio vivia em paz (v. 25): “Não chorei eu por aquele que estava em aflição?”

Alguns pensam que aqui ele se queixa de Deus, julgando muito duro que alguém que mostrara misericórdia aos outros não encontrasse misericórdia para si. Prefiro entender isso como pensamento que o tranquilizava: a consciência de Jó testemunhava que sempre se compadecera dos miseráveis e fizera o possível para ajudá-los.

Por isso, tinha motivos para esperar que, por fim, Deus e os amigos se compadecessem dele. Os que choram com os que choram suportarão melhor as próprias tristezas quando chegar sua vez de beber o cálice amargo.

“Não ardia minha alma pelos pobres?”, segundo outra leitura, que pode ser comparada às palavras de São Paulo em 2 Coríntios 11:29: “Quem é levado a tropeçar sem que eu arda?”

Aqueles que foram impiedosos e duros de coração para com os outros podem esperar que a própria consciência lhes lembre disso quando estiverem em aflição. Do mesmo modo, os que olharam pelos pobres e os socorreram terão a lembrança disso para tornar mais confortável o leito em sua enfermidade, Salmos 41:1, 3.


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