Jó 29
Argumento
Depois do excelente discurso sobre a sabedoria no capítulo anterior, Jó se sentou e fez uma breve pausa. Não porque tivesse ficado sem fôlego de tanto falar, mas porque não queria monopolizar a conversa sem o consentimento dos presentes; desejava dar aos amigos a oportunidade de comentar o que ele dissera, se quisessem.
Eles, porém, nada tinham a dizer. Por isso, depois de recompor-se um pouco, Jó prosseguiu falando de seus próprios assuntos, como se registra neste capítulo e nos dois seguintes. Neles, I. Descreve o auge da prosperidade da qual havia caído e II. A profundidade da adversidade em que se encontrava.
Faz isso para despertar a compaixão dos amigos e justificar, ou ao menos desculpar, suas próprias queixas. Mas, III. Para evitar as censuras deles, declara de maneira extensa e detalhada que, apesar de tudo, permanecia íntegro.
Neste capítulo, recorda os dias de prosperidade e mostra: 1. O consolo e a satisfação que tinha em sua casa e família, vv. 1-6. 2. A honra e o poder que tinha em sua região e o respeito que recebia de todo tipo de pessoa, vv. 7-10.
- O muito bem que fazia em sua posição de magistrado, vv. 11-17. 4. A justa expectativa de que seu consolo em casa (vv. 18-20) e sua influência fora dela (vv. 21-25) continuariam.
Jó se detém em tudo isso para acentuar suas calamidades presentes. Como Noemi, “Saí cheia”, mas fui trazida “de volta para casa vazia”.
Versículos 1 a 6
A Antiga Prosperidade de Jó. (a.C. 1520.)
Os que sofreram perdas devem ter permissão para falar, e de nada falam com mais sentimento do que dos consolos de que foram privados. Sua antiga prosperidade é um dos assuntos mais agradáveis de seus pensamentos e conversas.
Assim era para Jó, que começa com um desejo (v. 2): “Ah, se eu fosse como nos meses passados!” É dessa maneira que introduz o relato de sua prosperidade. Ele deseja:
- “Ah, se eu estivesse numa condição tão boa quanto naquela época, com tanta riqueza, honra e prazer como tinha então!” Deseja isso não tanto por preocupação com o próprio conforto, mas por sua reputação e pela glória de seu Deus, que lhe pareciam obscurecidas pelas aflições presentes.
“Ah, se eu recuperasse minha prosperidade! Então as censuras e o descrédito lançados pelos amigos se calariam de modo definitivo, até mesmo pelos princípios deles, e seriam afastados para sempre.”
Se desejamos vida, saúde e prosperidade para que Deus seja glorificado e para que o bom nome de nossa santa profissão de fé seja recuperado, preservado e promovido, esse desejo não é apenas natural, mas espiritual.
- “Ah, se meu espírito estivesse tão bem disposto quanto naquela época!” O que agora mais afligia Jó era um peso sobre o espírito, causado pelo afastamento de Deus. Por isso, desejava que seu espírito fosse tão aberto e animado no serviço divino como antes e que tivesse com Deus a mesma liberdade e comunhão nas quais encontrava felicidade.
Isso acontecia nos dias de sua juventude (v. 4), quando estava na melhor fase da vida para desfrutar dessas coisas e podia apreciá-las com o maior prazer.
Repare: os que prosperam na juventude não sabem quantos dias escuros e nublados ainda lhes estão reservados. Duas coisas tornavam agradáveis para Jó os meses passados:
I. Ele encontrava consolo em seu Deus. Era nisso que mais se alegrava durante a prosperidade. O favor de Deus e os sinais desse favor eram a fonte e a doçura de tudo.
Jó não atribuía sua prosperidade a uma virada favorável da sorte, à própria força ou ao poder de suas mãos. Reconhecia, como Davi: “Tu, pelo teu favor, fizeste firme o meu monte” (Salmos 30:7). A alma agraciada se deleita no sorriso de Deus, não nos sorrisos deste mundo. Quatro coisas eram muito agradáveis ao santo Jó naquela época:
- A confiança que tinha na proteção divina. Aqueles eram os dias em que “Deus me preservava” (v. 2). Mesmo então, Jó percebia que estava exposto. Não fazia da riqueza sua cidade forte nem confiava na abundância de seus bens: o nome do Senhor era sua torre forte.
Só nela se julgava seguro, e a ela atribuía sua segurança de então e a preservação de seus consolos. O diabo viu a cerca que Deus pusera ao redor dele (Jó 1:10); Jó também a viu e reconheceu que a visitação de Deus preservava seu espírito (Jó 10:12).
Só estão seguros e podem descansar aqueles a quem Deus protege. Portanto, por mais bens deste mundo que alguém tenha, não deve julgar-se seguro se Deus não o preservar.
- A satisfação que encontrava no favor divino (v. 3): a candeia de Deus brilhava sobre sua cabeça. Deus fazia resplandecer sobre ele a luz de seu rosto, dava-lhe a certeza de seu amor e a alegria de experimentá-lo.
As melhores manifestações do favor divino aos santos neste mundo são apenas luz de candeia em comparação com o que lhes está reservado no estado futuro.
Jó, porém, encontrava tamanha satisfação no favor divino que caminhava pelas trevas à luz dele. Essa luz o guiava nas dúvidas, consolava nas dores, sustentava sob os fardos e ajudava a atravessar todas as dificuldades.
Mesmo os que gozam do sol mais brilhante da prosperidade exterior devem esperar alguns momentos de escuridão. Às vezes enfrentam contratempos, às vezes ficam sem rumo, às vezes se entristecem.
Mas os que têm parte no favor de Deus e sabem apreciá-lo podem caminhar com alegria e consolo, à luz dele, através de todas as trevas deste vale de lágrimas. Esse favor põe no coração alegria suficiente para contrabalançar todas as aflições do tempo presente.
- A comunhão que tinha com a palavra divina (v. 4): “O segredo de Deus estava sobre minha tenda.” Isto é, Deus conversava livremente com Jó, como um amigo íntimo com outro. Jó conhecia a mente de Deus e não estava no escuro a respeito dela, como acontecera recentemente.
Diz-se que o segredo do Senhor está com os que o temem, pois ele lhes mostra em sua aliança o que outros não veem (Salmos 25:14). Deus comunica seu favor e sua graça ao povo, e recebe a devoção que este lhe oferece, de um modo que permanece secreto ao mundo.
Alguns leem: “Quando o convívio com Deus estava em minha tenda.” O rabino Salomão entende isso como uma assembleia do povo de Deus que se reunia na casa de Jó para adorar, sob a direção dele. Jó encontrava muito prazer nisso, e a dispersão dessa assembleia o afligiu. Ou a frase pode referir-se aos anjos de Deus que armavam suas tendas ao redor de sua morada.
- A certeza da presença divina (v. 5): “O Todo-Poderoso ainda estava comigo.” Agora Jó julgava que Deus se afastara dele, mas naqueles dias Deus estava com ele, e isso significava tudo para Jó. A presença de Deus na casa de alguém, mesmo que seja uma cabana, torna-a ao mesmo tempo castelo e palácio.
II. Ele encontrava consolo na família. Tudo era agradável ali: tinha bocas para seu alimento e alimento para suas bocas; a falta de qualquer uma dessas coisas é grande aflição.
- Tinha muitos descendentes para desfrutar de seus bens: “Meus filhos estavam ao meu redor.” Eram tantos que bastavam para cercá-lo, e lhe davam atenção e o atendiam de boa vontade. Estavam perto dele para saber o que desejava e como poderiam servi-lo.
É consolo para pais afetuosos ver os filhos ao redor. Jó fala desse consolo com profundo sentimento agora que o perdeu. Considerava a presença dos filhos um sinal de que Deus estava com ele. No entanto, calculamos mal se, ao perder os filhos, não conseguimos consolar-nos com o fato de que não perdemos nosso Deus.
- Tinha bens abundantes para sustentar essa família numerosa (v. 6). Sua produção de laticínios era tão farta que poderia, se quisesse, lavar os passos com manteiga. Seus olivais eram tão férteis, além de toda expectativa, que parecia que a rocha derramava para ele rios de azeite.
Jó mede a riqueza não pela prata e pelo ouro, que se guardam, mas pela manteiga e pelo azeite, que se usam. Pois de que servem os bens, se não desfrutarmos deles e não os empregarmos para fazer o bem aos outros?
Versículos 7 a 17
Vemos aqui Jó numa posição de honra e poder. Embora tivesse bastante consolo em casa, não se limitava a ela. Não nascemos apenas para nós mesmos, mas também para o bem público.
Quando havia algum assunto a resolver à porta da cidade, lugar do julgamento, Jó atravessava a cidade para ir até lá (v. 7). Fazia isso não por gosto pela pompa, mas por amor à justiça. Observe:
O julgamento acontecia à porta, na rua, nos lugares onde as pessoas se reuniam e aos quais todos podiam ter livre acesso. Assim, qualquer um que quisesse poderia testemunhar tudo o que se dizia e fazia; quando uma sentença era dada contra o culpado, os outros poderiam ouvir e temer.
Jó era príncipe, juiz, magistrado e homem investido de autoridade entre os filhos do Oriente. Aqui se conta:
I. O profundo respeito que recebia de todo tipo de pessoa, não só pela dignidade do cargo, mas por seus méritos pessoais: sua notável prudência, integridade e boa administração.
- O povo o honrava e o respeitava com temor (v. 8). A gravidade e a majestade de seu olhar e de seu porte, assim como seu conhecido rigor ao censurar tudo o que era mau ou indecoroso, levavam todos ao redor a comportar-se com o devido decoro.
Os jovens, incapazes de controlar a expressão do rosto, ou talvez conscientes de alguma falta, escondiam-se e saíam de seu caminho. Os idosos permaneciam onde estavam, mas se levantavam dos assentos para honrá-lo. Aqueles que esperavam receber honra dos outros lhe prestavam honra.
A virtude e a piedade merecem o respeito de todos e geralmente o recebem. Mas os que, além de ser bons, fazem o bem são dignos de dupla honra. A modéstia convém aos jovens e subordinados tanto quanto a majestade convém aos idosos e poderosos.
Honra e temor são devidos aos magistrados e devem ser-lhes prestados (Romanos 13:7). Mas, se um homem grande e bom era reverenciado dessa maneira, quanto mais devemos temer o Deus grande e bom!
- Os príncipes e nobres lhe mostravam grande deferência (v. 9, 10). Alguns julgam que eram magistrados inferiores, subordinados a Jó, e que o respeito deles se devia à posição de soberano e superior que ele ocupava.
Parece, porém, que eram seus iguais em posição, associados a ele no exercício do cargo, e que a honra especial que lhe prestavam vinha de suas capacidades e serviços extraordinários.
Todos reconheciam que Jó os superava na rapidez de compreensão, na solidez do julgamento, na dedicação diligente e na clareza e abundância da expressão. Por isso, entre os colegas, era um oráculo em matéria de lei, conselho e justiça. Todos ouviam o que dizia e aceitavam seu parecer.
Quando entrava no tribunal, especialmente quando se levantava para falar sobre algum assunto, os príncipes paravam de conversar e os nobres se calavam. Assim, ouviam-no com mais atenção e tinham certeza de compreender o que queria dizer.
Mesmo os que antes se apressavam a expor as próprias ideias, gostavam de ouvir a própria voz e pouco se importavam com o que os outros diziam, quando chegava a vez de Jó falar desejavam conhecer seu pensamento tanto quanto antes haviam desejado expor o seu.
Os que desconfiavam do próprio julgamento confiavam no dele e admiravam a habilidade com que distinguia as sutilezas e desatava os nós que os confundiam e que não sabiam resolver.
Quando príncipes e nobres altercavam entre si, todos concordavam em submeter a Jó as questões em disputa e aceitar sua decisão. Felizes os que recebem dons tão notáveis: têm grandes oportunidades de honrar a Deus e fazer o bem, mas precisam vigiar muito contra o orgulho.
Feliz também o povo que conta com homens tão notáveis; isso é um sinal de bem em seu favor.
II. O muito bem que Jó fazia em sua posição. Com o poder que tinha, prestava grande serviço à região. Vemos aqui o que ele considerava motivo de valor pessoal nos dias de prosperidade.
É natural que as pessoas se atribuam algum valor, e podemos conhecer algo de nosso próprio caráter ao observar aquilo de que nos orgulhamos.
Jó não se valorizava pela honra da família, pelos muitos bens, pela grande renda, pela mesa farta, pelos numerosos servos às suas ordens, pelas insígnias do cargo, pela carruagem e comitiva, pelos banquetes esplêndidos ou pelas homenagens que recebia, mas pela utilidade que tinha.
A bondade é a glória de Deus e será a nossa. Se formos misericordiosos como Deus, seremos perfeitos como ele.
- Jó se valorizava pelo lugar que tinha na estima, no afeto e nas orações das pessoas sensatas. Não pelos elogios estudados dos homens engenhosos e dos poetas, mas pelo louvor espontâneo de todos ao redor.
Quem ouvia suas palavras e via seus atos, percebendo como se dedicava ao bem público com toda a autoridade e o terno afeto de um pai para com sua região, o abençoava e dava testemunho a seu favor (v. 11). Diziam muitas palavras boas a seu respeito e faziam muitas orações por ele.
Jó não julgava honroso fazer todos o temerem — Oderint dum metuant, que me odeiem, contanto que me temam —, nem governar arbitrariamente e fazer sempre a própria vontade, sem se importar com o que diziam dele.
Como Mardoqueu, preferia ser aceito pela multidão de seus irmãos (Ester 10:3). Valorizava menos os aplausos de quem estava longe do que o testemunho dos que presenciavam sua conduta, conviviam continuamente com ele, viam-no e ouviam-no e podiam falar por experiência própria.
Em especial, valorizava o testemunho daqueles a quem ajudara e que podiam falar pela própria experiência. Entre eles estava quem estava prestes a perecer (v. 13) e foi salvo graças a Jó.
Que homens poderosos e ricos façam o bem dessa maneira, e receberão o devido louvor. Quem recebe benefícios deve reconhecer que tem o justo dever de abençoar seus protetores e benfeitores e dar testemunho a favor deles.
Deve usar sua influência na terra em favor da honra deles e, no céu, em favor de seu consolo: elogiá-los e orar por eles. São realmente ingratos os que relutam em oferecer retribuições tão pequenas.
- Jó se valorizava pelo cuidado dedicado aos que menos conseguiam ajudar a si mesmos: pobres e necessitados, viúvas e órfãos, cegos e coxos. Não se podia esperar que tais pessoas merecessem seu favor ou algum dia tivessem condições de retribuí-lo.
(1.) Quando os pobres eram prejudicados ou oprimidos, podiam clamar a Jó. Se ele verificava que as alegações dos pedidos eram verdadeiras, não lhes dava apenas ouvidos e compaixão, mas também ajuda prática: libertava o pobre que clamava (v. 12) e não permitia que fosse pisado ou esmagado.
Mais ainda, era pai dos pobres (v. 16): não somente juiz que os protegia e garantia que não fossem injustiçados, mas pai que providenciava o necessário para que nada lhes faltasse, aconselhava-os, orientava-os e se apresentava e agia por eles em todas as ocasiões. Não é desonra para um filho de príncipe ser pai dos pobres.
(2.) Os órfãos que não tinham quem os ajudasse encontravam Jó disposto a socorrê-los e, quando estavam em dificuldade, a livrá-los. Ele os ajudava a aproveitar da melhor maneira o pouco que tinham, a pagar o que deviam e a receber o que lhes era devido.
Ajudava-os a estabelecer-se no mundo, a encontrar uma ocupação, a consegui-la e a manter-se nela. É assim que se deve ajudar os órfãos.
(3.) Jó salvava da morte os que estavam prestes a perecer. Socorria os famintos que corriam o risco de morrer por falta de alimento e cuidava dos doentes, dos rejeitados, dos falsamente acusados e dos que corriam perigo de ser expulsos injustamente de seus bens.
De qualquer outra pessoa que estivesse prestes a perecer, ele cuidava. A gravidade do perigo o estimulava a agir com mais vigor por elas, e sua bondade oportuna se tornava mais comovente e mais digna de gratidão, trazendo-lhe suas bênçãos em maior abundância.
(4.) Jó fazia cantar de alegria as viúvas que suspiravam de dor e tremiam de medo, tão cuidadosamente as protegia e sustentava e tão sinceramente defendia seus interesses.
É um prazer para um homem bom, e deveria ser também para um homem poderoso, dar motivo de alegria aos que mais conhecem a dor.
(5.) Jó dava ajuda apropriada e oportuna a quem, por qualquer motivo, estivesse sem saber o que fazer (v. 15): “Eu era olhos para o cego”, aconselhando da melhor maneira os que não sabiam o que fazer, “e pés para o coxo”, ajudando com dinheiro e amigos os que sabiam o que fazer, mas não sabiam como consegui-lo.
Ajudamos melhor aqueles a quem apoiamos precisamente naquilo em que lhes faltam condições e em que mais precisam de ajuda. Podemos vir a ser cegos ou coxos; por isso, devemos ter compaixão e socorrer os que assim se encontram (Isaías 35:3, 4; Hebreus 12:13).
- Jó se valorizava pelo zelo da consciência na justiça e na equidade de todos os seus procedimentos. Os amigos o haviam censurado injustamente como opressor. “Muito pelo contrário”, diz ele, “sempre me dediquei a manter e sustentar o direito.”
(1.) Dedicava-se à administração da justiça (v. 14): “Vesti-me de justiça, e ela me revestiu.” Isto é, tinha uma disposição habitual para fazer justiça e tomara a decisão firme de agir assim.
A justiça era o cinto de seus lombos (Isaías 11:5), mantendo-o firme e constante em todos os movimentos. Ele sempre se apresentava revestido dela, como de uma roupa, e nunca sem ela.
A justiça revestirá os que a vestirem: os aquecerá e consolará; os manterá seguros e protegidos das intempéries; os adornará e lhes alcançará o favor de Deus e dos homens.
(2.) Sentia prazer na justiça, um deleite santo, por assim dizer. Considerava sua maior glória fazer justiça a todos e não prejudicar ninguém: “Meu juízo era como um manto e uma coroa.” Talvez ele próprio não usasse manto nem coroa: era indiferente a essas insígnias de honra, mais valorizadas pelos que tinham menos mérito próprio.
Mas os princípios firmes de justiça pelos quais se governava e governava ocupavam para ele o lugar de todos esses ornamentos. Se o magistrado cumpre o dever do cargo, isso lhe traz honra muito maior que ouro ou púrpura e deveria, portanto, ser seu prazer.
Se, porém, não cumpre esse dever com zelo da consciência e não corresponde, ao menos em alguma medida, ao propósito de sua elevação, manto e coroa, toga e barrete, espada e maça são apenas motivo de descrédito.
São como o manto púrpura e a coroa de espinhos com que os judeus procuraram ridicularizar nosso Salvador. Assim como vestir um morto nunca o aquecerá, vestir um homem vil de insígnias nunca lhe dará honra.
(3.) Esforçava-se nos deveres do cargo (v. 16): a causa que não conhecia, investigava. Informava-se diligentemente dos fatos, ouvia os dois lados com paciência e imparcialidade, punha tudo sob a verdadeira luz e eliminava as falsas aparências.
Reunia todas as circunstâncias para descobrir a verdade e o mérito de cada causa; só então proferia o julgamento. Nunca respondia a uma questão antes de ouvi-la nem considerava alguém justo só porque parecia sê-lo ao ser o primeiro a apresentar sua própria causa (Provérbios 18:17).
- Jó se valorizava por conter a violência dos homens orgulhosos e maus (v. 17): “Eu quebrava as mandíbulas dos perversos.” Não diz que lhes quebrava o pescoço. Não lhes tirava a vida; ao quebrar-lhes as mandíbulas, tirava-lhes o poder de causar dano.
Humilhava-os, reprimia-os e continha sua insolência; assim arrancava a presa de seus dentes e livrava as pessoas honestas e seus bens de se tornarem presa deles.
Quando já tinham a presa entre os dentes e a devoravam avidamente, Jó a resgatava com coragem, como Davi tirou o cordeiro da boca do leão, sem medo, embora rugissem e se enfurecessem como leão privado da presa.
Os bons magistrados devem, assim, inspirar temor e impor limites aos malfeitores, além de proteger os inocentes. Para isso precisam armar-se de zelo, firmeza e coragem destemida. O juiz em seu tribunal precisa ser tão ousado e corajoso quanto um comandante no campo de batalha.
Versículos 18 a 25
O que coroava a prosperidade de Jó era a agradável expectativa de que ela continuaria. Embora soubesse, em termos gerais, que estava sujeito a aflições e, por isso, não se sentisse seguro — “Eu não estava em segurança, nem tinha descanso” (Jó 3:26) —, não tinha motivo específico para temer.
Tinha tanta razão quanto qualquer outra pessoa para esperar que sua tranquilidade se prolongasse.
I. Veja o que pensava durante a prosperidade (v. 18): “Então eu disse: morrerei em meu ninho.” Tendo preparado para si um ninho aconchegante e confortável, esperava que nada o perturbasse ali nem o tirasse dele antes que a morte o fizesse.
Sabia que nunca havia roubado do altar uma brasa capaz de incendiar seu ninho. Não via tempestade se formando para derrubá-lo e, portanto, concluía: “Amanhã será como hoje.” Assim pensava Davi (Salmos 30:6), para quem seu monte estava firme e não seria abalado. Observe:
Em plena prosperidade, pensava na morte, e essa ideia não o perturbava. Sabia que, por mais alto que fosse seu ninho, não estava fora do alcance das flechas da morte.
Ainda assim, iludia-se com esperanças vãs:
(1.) De que viveria muito e multiplicaria seus dias como a areia. Referia-se à areia à beira-mar, mas seria melhor contarmos os dias pela areia da ampulheta, que se escoará em pouco tempo.
Veja como até pessoas boas tendem a imaginar a morte distante e a afastar de si aquele dia mau, que na realidade será para elas um dia bom.
(2.) De que morreria na mesma condição próspera em que vivera. Se essa expectativa brotar de uma fé viva na providência e na promessa de Deus, está bem. Mas, se brotar de uma opinião elevada de nossa própria sabedoria e da estabilidade das coisas terrenas, não tem bom fundamento e se torna pecado.
Esperamos que a confiança de Jó fosse semelhante à de Davi — “A quem temerei?” (Salmos 27:1) —, não à do rico insensato — “Alma, descansa” (Lucas 12:19).
II. Veja em que se apoiavam esses pensamentos:
- Ao olhar para casa, Jó encontrava uma boa base. Seus bens pertenciam inteiramente a ele, e nenhum vizinho tinha qualquer direito a reclamá-los. Não percebia doença alguma desenvolvendo-se em seu corpo; seus bens não estavam onerados, nem notava algum verme em sua raiz.
Progredia nos negócios, não regredia. Não perdia reputação; antes, a aumentava. Não conhecia rival que ameaçasse ofuscar sua honra ou limitar seu poder. Veja como descreve isso (v. 19, 20):
Era como árvore cuja raiz não apenas se estende, dando-lhe firmeza e impedindo que caia, mas se estende junto às águas, que a alimentam e a fazem frutificar e florescer, sem risco de murchar.
Jó se julgava abençoado tanto pela fertilidade da terra quanto pelas influências favoráveis do céu, pois o orvalho passava a noite sobre seu ramo. A Providência o favorecia, tornando agradáveis todos os seus bens e bem-sucedidos todos os seus empreendimentos.
Ninguém pense que pode sustentar a prosperidade apenas com o que tira da terra, sem a bênção que vem do alto. Como o favor de Deus continuava com Jó, por sua força a glória dele permanecia renovada.
As pessoas ao redor sempre tinham algo novo a dizer em seu louvor e não precisavam repetir as histórias antigas. Somente a bondade constante preserva assim a glória de alguém, impedindo-a de murchar e envelhecer.
Seu arco também se renovava em sua mão: crescia continuamente seu poder para proteger-se e atingir os que o atacavam. Por isso, julgava ter tão pouco motivo quanto qualquer pessoa para temer os ataques dos sabeus e caldeus.
- Ao olhar para fora, via que sua influência era forte e estava bem consolidada. Não tinha motivo para temer o poder dos inimigos nem para duvidar da fidelidade dos amigos. Até o último momento de sua prosperidade, eles continuaram a respeitá-lo e a depender dele.
Que teria a temer alguém cujo conselho, na prática, funcionava como lei para todos os vizinhos? Certamente nada poderia ser feito contra Jó quando, de fato, nada se fazia sem ele.
(1.) Era o oráculo de sua região. Consultavam-no como a um oráculo e aceitavam seus pareceres como respostas de oráculo (v. 21). Quando ninguém conseguia ser ouvido, todos prestavam atenção a Jó e permaneciam em silêncio diante de seu conselho.
Sabiam que nada poderia ser dito contra seu conselho e nada precisava ser acrescentado a ele. Por isso, depois que ele falava, não voltavam a falar (v. 22). Por que continuar tratando de um assunto já esgotado?
(2.) Era a pessoa mais querida de sua região. Todos ao redor se agradavam de tudo o que Jó dizia e fazia, como o povo de Davi se agradava dele (2 Samuel 3:36). Tinha o coração e o afeto de todos os vizinhos, servos, arrendatários e súditos. Nunca houve homem tão admirado e amado.
[1.] Considerava-se feliz quem recebia a palavra de Jó, e assim se sentia. O orvalho do céu nunca foi tão bem-vindo à terra ressequida quanto seus discursos sábios aos que os ouviam, especialmente àqueles a quem eram adaptados e dirigidos.
Sua fala caía sobre eles como gotas, e esperavam por ela como pela chuva (v. 22, 23). Admiravam as palavras bondosas que saíam de sua boca, recebiam-nas prontamente, apegavam-se a elas e as guardavam como máximas memoráveis.
Os servos que estavam continuamente diante dele para ouvir sua sabedoria não teriam invejado os de Salomão. São sábios, ou tendem a ser, os que sabem apreciar palavras sábias, desejam-nas, esperam por elas e as absorvem como a terra absorve a chuva frequente (Hebreus 6:7).
Os que, como Jó, têm tanto prestígio que seu ipse dixit — sua simples afirmação — pesa tanto têm grande oportunidade de fazer o bem. Também precisam cuidar muito para não causar dano, pois uma palavra má saída de sua boca se espalha facilmente.
[2.] Ainda mais feliz se considerava quem recebia um sorriso dele, e assim se sentia (v. 24): “Se eu sorrisse para eles, para mostrar que me agradava deles ou que queria tratá-los com amabilidade, esse favor lhes daria tanta alegria que mal acreditariam nele.” Talvez também fosse raro ver sorrir aquele homem sério.
Muitos procuram o favor do governante. Jó era um governante cujo favor era buscado e muito valorizado. Alguém que recebeu o beijo de um grande príncipe foi invejado por outro que dele recebera apenas uma taça de ouro.
A familiaridade muitas vezes gera desprezo. Mas, se Jó às vezes julgava conveniente, para seu próprio divertimento, tratar com liberdade aqueles ao redor, isso em nada diminuía a reverência que lhe tinham: não abatiam a luz de seu rosto.
Ele concedia seus favores com sabedoria, sem vulgarizá-los. Eles os recebiam com igual sabedoria, sem se tornar indignos de recebê-los novamente.
(3.) Era o soberano de sua região (v. 25). Escolhia o caminho para os outros, sentava-se ao leme e os conduzia. Todos confiavam em sua direção e se submetiam às suas ordens.
Talvez seja assim que a monarquia tenha surgido em muitos países. Alguém como Jó, que superava tanto os vizinhos em sabedoria e integridade, naturalmente ocuparia o lugar principal; e o insensato, como é natural, serviria ao sábio de coração.
Se a sabedoria permanecesse por algum tempo na mesma linhagem, honra e poder certamente a acompanhariam e, aos poucos, se tornariam hereditários. Duas coisas recomendavam Jó ao governo:
[1.] Tinha a autoridade de comandante ou general. Habitava como rei entre o exército, dando ordens que ninguém contestava. Nem todos os que têm espírito de sabedoria possuem espírito de governo, mas Jó tinha ambos.
Quando necessário, sabia assumir a posição de autoridade, como o rei entre o exército, e dizer: “Vai”, “Vem” e “Faze isto” (Mateus 8:9).
[2.] Ainda assim, tinha a ternura de um consolador. Estava tão disposto a socorrer os aflitos como se seu ofício fosse consolar os que choram. O próprio Elifaz reconhecera que Jó fora muito bom nesse aspecto: “Fortaleceste as mãos fracas” (Jó 4:3).
Jó agora se lembrava disso com prazer, enquanto ele mesmo sofria. Porém, é mais fácil consolar os outros com os consolos que recebemos no passado do que consolar a nós mesmos com aqueles que antes oferecemos aos outros.
Creio que podemos considerar Jó um tipo e figura de Cristo em seu poder e prosperidade. Nosso Senhor Jesus é um rei como Jó: o rei dos pobres, que ama a justiça e odeia a iniquidade e sobre quem vem a bênção de um mundo prestes a perecer. Veja Salmos 72:2, etc. Portanto, ouçamo-lo e deixemos que ocupe o primeiro lugar em nosso coração.