Matthew Henry

Jó 28

Argumento

O tom deste capítulo é muito diferente do restante do livro. Jó esquece suas feridas e todas as suas tristezas e fala como filósofo ou estudioso das ciências.

Há neste discurso muita filosofia, tanto natural quanto moral; mas a questão é: como isso entra aqui? Sem dúvida não se trata apenas de um passatempo ou de uma distração da controvérsia, embora, se fosse só isso, talvez não houvesse grande problema.

Quando os debates se acaloram, é melhor perder a discussão do que perder a calma. Mas esse discurso é pertinente ao assunto tratado. Jó e seus amigos vinham falando sobre o modo como a Providência age para com ímpios e justos. Jó havia mostrado que alguns ímpios vivem e morrem em prosperidade, enquanto outros são imediata e publicamente alcançados pelos juízos de Deus.

Se alguém perguntar por que alguns são castigados neste mundo e outros não, devemos dizer que essa pergunta não pode ser respondida. O conhecimento dos motivos do governo de Deus sobre o mundo nos é vedado; não devemos alegar possuí-lo nem tentar alcançá-lo.

Zofar havia desejado que Deus mostrasse a Jó os “segredos da sabedoria” (Jó 11:6). Não, responde Jó: as coisas secretas não nos pertencem, mas as reveladas, Deuteronômio 29:29.

Aqui Jó mostra: I. Quanto às riquezas terrenas, com quanta dedicação os homens as procuram e perseguem, quantos esforços fazem, que maquinações empregam e a que perigos se expõem para obtê-las, vv. 1-11.

II. Quanto à sabedoria, v. 12: em geral, seu preço é muito alto; ela tem valor inestimável, vv. 15-19. Seu lugar é muito oculto, v. 14, 20, 22. Em particular, há uma sabedoria oculta em Deus (vv. 23-27) e outra revelada aos homens, v. 28.

Nossa investigação da primeira deve ser contida; a da segunda, estimulada, pois é ela que nos diz respeito.

Versículos 1 a 13

A Extensão das Descobertas Humanas. (a.C. 1520.)

Jó mostra aqui: 1. Até onde a inteligência humana pode chegar ao penetrar nas profundezas da natureza e apoderar-se de suas riquezas; quantos conhecimentos e bens os homens podem adquirir por suas explorações engenhosas e diligentes.

Segue-se disso que, pela própria inteligência, possam compreender por que alguns ímpios prosperam e outros são castigados, ou por que alguns homens bons prosperam e outros sofrem? Não, de maneira alguma.

As cavernas da terra podem ser descobertas, mas não os conselhos do céu. 2. Quanto cuidado e esforço os homens mundanos dedicam a enriquecer. Jó havia observado, acerca do ímpio (Jó 27:16), que ele acumulava prata como pó.

Agora mostra de onde vinha a prata que ele tanto amava e como era obtida, para deixar claro quão pouco motivo têm os ricos ímpios para se orgulhar de sua riqueza e ostentação. Observe aqui:

I. A riqueza deste mundo está escondida na terra. Dali vêm a prata e o ouro, que depois são refinados, v. 1. Ali estavam misturados com muita sujeira e escória, como algo sem valor, não mais estimado do que a terra comum. Uma grande quantidade deles continuará abandonada ali até que a terra e todas as obras nela sejam queimadas.

O piedoso sr. Herbert repara nisso em seu poema Avarice, para envergonhar os homens e afastá-los do amor ao dinheiro:

Dinheiro, flagelo da alegria, fonte de aflição,
De onde vens, tão novo e reluzente?
Sei que tua origem é baixa e vil;
O homem te encontrou pobre e sujo numa mina.

Decerto contribuíste tão pouco
Para este grande reino que agora possuis
Que ele precisou, quando nada tinhas,
Tirar-te de tua caverna e gruta escuras.

O homem, que te enriqueceu, chama-te sua riqueza
E, ao te desenterrar, cai ele próprio no fosso.

O ferro e o cobre, metais menos caros, mas mais úteis, são extraídos da terra (v. 2). Ali se encontram em grande abundância, o que, de fato, reduz seu preço, mas é uma grande bondade para com o homem, que poderia viver muito melhor sem ouro do que sem ferro.

Ou melhor: da terra vem o pão, isto é, o cereal para fazê-lo, sustento indispensável à vida, v. 5. Dali o homem tira seu sustento, para que se lembre de sua própria origem: é da terra e se apressa a voltar à terra.

Debaixo da terra há como que fogo revolvido: pedras preciosas que cintilam como fogo; enxofre, que facilmente pega fogo; e carvão, que serve para alimentá-lo. Assim como nosso alimento, nosso combustível também vem da terra. Ali estão as safiras e outras gemas; dali se escava o pó de ouro, v. 6.

A sabedoria do Criador colocou essas coisas: 1. Fora de nossa vista, para nos ensinar a não fixar os olhos nelas, Provérbios 23:5. 2. Sob nossos pés, para nos ensinar a não guardá-las junto ao peito nem pôr nelas o coração, mas a pisá-las com santo desprezo.

Veja como a terra está cheia das riquezas de Deus (Salmos 104:24). Disso podemos concluir não apenas quão grande é o Deus a quem pertencem a terra e tudo o que nela há (Salmos 24:1), mas também quão repleto de suas riquezas deve ser o céu, cidade do grande Rei, diante da qual esta terra é uma região pobre.

II. A riqueza escondida na terra só pode ser obtida com muita dificuldade. 1. É árduo encontrá-la: um veio de prata aparece apenas aqui e ali, v. 1. As pedras preciosas, embora sejam brilhantes, são chamadas pedras da escuridão e da sombra da morte porque estão enterradas nas trevas, fora da vista. Os homens podem explorar por muito tempo antes de encontrá-las.

  1. Mesmo encontradas, é árduo extraí-las. A inteligência humana precisa maquinar meios para pôr as mãos nesse tesouro oculto. Com lâmpadas, os homens precisam pôr fim às trevas. Se um recurso não dá certo ou um método falha, devem tentar outro, até investigarem tudo quanto é possível e revirarem cada pedra para alcançar o objetivo, v. 3.

Precisam enfrentar águas subterrâneas (v. 4, 10, 11) e abrir caminho através das rochas, que são como as raízes das montanhas, v. 9. Deus tornou tão difícil obter ouro, prata e pedras preciosas: (1.) Para despertar e estimular o esforço. Dii laboribus omnia vendunt — O trabalho é o preço que os deuses fixam para todas as coisas.

Se as coisas valiosas fossem obtidas com demasiada facilidade, os homens nunca aprenderiam a empenhar-se. A dificuldade de conquistar as riquezas terrenas, porém, pode lembrar-nos da violência que o reino dos céus sofre.

(2.) Para conter e refrear a ostentação e o luxo. O que é necessário se obtém com pouco trabalho da superfície da terra; o que serve de adorno exige muita escavação em suas entranhas. Alimentar-se custa pouco; enfeitar-se custa caro.

III. Embora seja tão árduo obter as riquezas subterrâneas, os homens insistem em consegui-las. Quem ama a prata não se satisfaz com ela, mas também não se satisfaz sem ela; quem já possui muito sente necessidade de possuir ainda mais. Veja aqui:

  1. Quantos artifícios empregam para obter essa riqueza. Investigam tudo quanto é possível, v. 3. Dispõem de técnicas e máquinas para secar e escoar as águas quando estas invadem as minas e ameaçam inundar o trabalho, v. 4.

Têm bombas, tubos e canais para desobstruir o caminho. Removidos os obstáculos, percorrem uma senda desconhecida das aves (v. 7, 8), que nem mesmo os olhos penetrantes e atentos do abutre veem, e que os filhotes dos leões, apesar de cruzarem todas as trilhas do deserto, jamais pisaram.

  1. Quanto trabalho fazem e que enormes despesas assumem para obter essa riqueza. Abrem caminho pelas rochas e escavam por baixo das montanhas, v. 10.

  2. Quantos perigos enfrentam. Os que escavam minas trazem a vida nas próprias mãos: são obrigados a conter as águas para que não transbordem (v. 11) e correm o risco constante de sufocar por causa dos vapores ou de ser esmagados ou enterrados vivos pela queda da terra sobre eles.

Veja como o homem insensato aumenta seu próprio fardo. Foi condenado a comer pão com o suor do rosto; mas, como se isso não bastasse, arrisca a vida para obter ouro e prata, embora quanto mais se obtenha deles, menor seja seu valor. No tempo de Salomão, a prata era como pedras.

Mas, 4. Observe o que conduz os homens através de todo esse trabalho e perigo: o olhar deles vê toda coisa preciosa, v. 10. Para eles, prata e ouro são coisas preciosas, mantidas diante dos olhos em toda essa busca. Imaginam vê-los brilhar diante do rosto e, diante da perspectiva de apoderar-se deles, não fazem caso de nenhuma dessas dificuldades.

Por fim, recebem algo pelo esforço: o que estava oculto ele traz à luz, v. 11. O que estava escondido debaixo da terra é posto na superfície; o metal oculto no minério é separado da escória pelo refino e sai puro da fornalha. Então o homem julga que seus esforços valeram a pena.

Vá até os mineiros, você que é preguiçoso na religião; considere seus caminhos e seja sábio. Que a coragem, a diligência e a constância com que buscam a riqueza que perece nos envergonhem da preguiça e da falta de ânimo com que trabalhamos pelas verdadeiras riquezas.

Quanto melhor é adquirir sabedoria do que ouro! E quanto mais fácil e seguro! Ainda assim, busca-se o ouro e despreza-se a graça. A esperança de obter coisas preciosas da terra — assim as chamam, embora de fato sejam insignificantes e perecíveis — estimula tanto o esforço. A perspectiva certa de coisas que na verdade são preciosas no céu não deveria estimular-nos muito mais?

Versículos 14 a 19

A Excelência da Sabedoria. (a.C. 1520.)

Depois de falar das riquezas do mundo, às quais os homens dão tanto valor e pelas quais se esforçam tanto, Jó passa a tratar de uma joia mais preciosa: a sabedoria e o entendimento, o conhecimento e o desfrute de Deus e de nós mesmos. Os que descobriram tantos meios de enriquecer se julgavam muito sábios, mas Jó não reconhece nisso sabedoria.

Ele admite que alcancem o objetivo e tragam à luz o que procuravam (v. 11); ainda assim, pergunta: “Onde está a sabedoria? Pois ela não está aqui”. Esse caminho deles é sua insensatez. Devemos, portanto, buscá-la em outro lugar: não será encontrada senão nos princípios e nas práticas da religião.

Há mais conhecimento verdadeiro, satisfação e felicidade numa teologia sólida, que nos mostra o caminho para as alegrias do céu, do que na filosofia natural ou na matemática, que nos ajudam a encontrar o caminho para as entranhas da terra. Duas coisas não podem ser descobertas acerca dessa sabedoria:

I. Seu preço, que é incalculável. Seu valor é infinitamente maior do que todas as riquezas deste mundo: “O homem não conhece o seu preço” (v. 13). Isto é: 1. Poucos lhe dão o devido valor. Os homens não conhecem seu valor, sua excelência intrínseca, a necessidade que têm dela nem a vantagem indescritível que lhes trará.

Assim, embora tenham nas mãos muitas possibilidades de adquirir essa sabedoria, não têm vontade de fazê-lo, Provérbios 17:16. O galo da fábula não conhecia o valor da pedra preciosa que encontrou no monturo e, por isso, preferiria ter encontrado um grão de cevada. Os homens não conhecem o valor da graça; por isso não se esforçam para obtê-la.

  1. Ninguém pode oferecer por ela um pagamento à altura, ainda que disponha de toda a riqueza que este mundo pode dar. Jó desenvolve isso no v. 15 e seguintes, apresentando um inventário dos bona notabilia — os tesouros mais valiosos deste mundo.

O ouro é mencionado cinco vezes; a prata também aparece; e depois vêm diversas pedras preciosas: o ônix, a safira, as pérolas, os rubis e o topázio da Etiópia.

Essas são as coisas de maior valor nos mercados do mundo. Mas, se alguém oferecesse pela sabedoria não apenas esses bens, amontoados deles, mas todos os bens de sua casa, tudo quanto possui no mundo, sua oferta seria inteiramente desprezada.

Esses bens podem dar a alguém alguma vantagem na busca da sabedoria, como deram a Salomão, mas não servem para comprá-la. Ela é um dom do Espírito Santo, que não se pode comprar com dinheiro, Atos 8:20. Assim como não corre no sangue nem nos chega por herança, também não pode ser obtida por dinheiro nem nos chega por compra.

Os dons espirituais são concedidos sem dinheiro e sem preço, porque dinheiro algum pode pagá-los. A sabedoria é, além disso, um presente mais precioso para quem a possui: torna a pessoa mais rica e feliz do que o ouro ou as pedras preciosas.

É melhor adquirir sabedoria do que ouro. O ouro pertence a outro; a sabedoria, a nós mesmos. O ouro serve ao corpo e ao tempo; a sabedoria, à alma e à eternidade. Aquilo que Deus considera mais precioso deve sê-lo também para nós. Veja Provérbios 3:14, etc.

II. Seu lugar, que não pode ser descoberto. “Onde se achará a sabedoria?”, v. 12. Jó faz essa pergunta: 1. Como alguém que na verdade desejava encontrá-la. Todos devemos fazê-la. Enquanto a maioria pergunta: “Onde se encontrará dinheiro?”, devemos perguntar: “Onde se encontrará sabedoria?”, para buscá-la e achá-la.

Não buscamos filosofia vã nem sagacidade carnal, mas a religião verdadeira. Ela é a única sabedoria verdadeira, a que melhor aproveita nossas faculdades e melhor assegura nosso bem-estar espiritual e eterno. É por ela que devemos clamar e escavar, Provérbios 2:3, 4.

  1. Como alguém que já não esperava encontrá-la em lugar algum senão em Deus, nem por meio algum senão pela revelação divina: ela não se acha nesta terra dos viventes, v. 13. Não podemos chegar a um entendimento correto de Deus e de sua vontade, de nós mesmos e de nosso dever e interesse, lendo quaisquer livros ou homens. Precisamos ler o livro de Deus e os homens de Deus.

Tal é a degeneração da natureza humana que a sabedoria verdadeira só pode ser encontrada naqueles que nasceram de novo e, pela graça, participam da natureza divina. Os demais, mesmo os mais engenhosos e diligentes, nada podem nos dizer dessa sabedoria perdida.

(1.) Pergunte aos mineiros, e por meio deles a profundeza responderá: “Ela não está em mim”, v. 14. Os que escavam as entranhas da terra para saquear seus tesouros não podem encontrar essa joia rara nos recessos escuros nem, com toda a sua arte, apoderar-se dela.

(2.) Pergunte aos marinheiros, e por meio deles o mar responderá: “Ela não está em mim”. Não se pode obtê-la pelo comércio marítimo nem mergulhando nas águas; não se pode extraí-la da abundância dos mares nem dos tesouros escondidos na areia. Onde há um veio de prata, não há veio de sabedoria nem de graça.

Os homens conseguem vencer com mais facilidade as dificuldades de adquirir riquezas terrenas do que as de adquirir a sabedoria celestial. Empenham-se mais em aprender a viver neste mundo do que em aprender a viver para sempre num mundo melhor. O homem se torna tão cego e insensato que é inútil perguntar-lhe onde está o lugar da sabedoria e qual caminho leva a ela.

A Sabedoria Oculta ao Homem; A Sabedoria Revelada ao Homem. (a.C. 1520.)

Versículos 20 a 28

Jó repete aqui a pergunta que havia feito no v. 12, pois ela é importante e profunda demais para ser abandonada antes de obtermos algum resultado na investigação. A respeito dela, devemos buscar até encontrar, até obter alguma resposta satisfatória.

Ao prosseguir com diligência nessa investigação, ele chega enfim a esta conclusão: há duas formas de sabedoria, uma oculta em Deus, secreta e que não nos pertence, e outra que ele deu a conhecer e revelou aos homens, pertencente a nós e a nossos filhos.

I. O conhecimento da vontade secreta de Deus, a vontade de sua providência, está fora do nosso alcance e foi reservado para ele. Pertence ao Senhor nosso Deus. Saber os detalhes do que Deus fará no futuro e os motivos do que faz agora é o primeiro tipo de conhecimento de que Jó fala.

  1. Esse conhecimento está oculto para nós. É elevado demais para que o alcancemos (v. 21, 22): “Está escondido dos olhos de todos os viventes”, até dos filósofos, dos políticos e dos santos. Está oculto às aves do céu.

Embora voem alto, no firmamento aberto, e pareçam um pouco mais próximas do mundo superior onde está a fonte dessa sabedoria, e embora seus olhos enxerguem de longe (Jó 39:29), ainda assim não conseguem penetrar os conselhos de Deus.

Não: o homem é mais sábio que as aves do céu e, ainda assim, não alcança essa sabedoria. Mesmo os que voam mais alto em suas especulações e se julgam, como as aves, acima dos demais, não podem alegar que possuem tal conhecimento.

Jó e seus amigos vinham discutindo os métodos e os motivos do modo como a Providência governa o mundo. “Como somos insensatos”, diz Jó, “por lutar assim no escuro e discutir aquilo que não entendemos!” A linha e o prumo da razão humana jamais poderão sondar o abismo dos conselhos divinos.

Quem poderia explicar os motivos da Providência ou dar conta dos princípios, medidas e métodos do governo de Deus, daqueles arcana imperii — conselhos reservados da sabedoria divina? Contentemo-nos, pois, em desconhecer os acontecimentos futuros da Providência até que o tempo os revele (Atos 1:7) e seus motivos secretos até que a eternidade os revele.

Deus é agora um Deus que se esconde (Isaías 45:15); nuvens e escuridão o cercam. Embora essa sabedoria esteja oculta a todos os viventes, a destruição e a morte dizem: “Ouvimos a fama dela”. Elas não podem dar conta de si mesmas, pois na sepultura não há sabedoria, engenho nem conhecimento algum, muito menos esse.

Há, porém, um mundo do outro lado da morte e da sepultura, com o qual essas regiões escuras fazem fronteira e ao qual só podemos chegar passando por elas. Ali veremos com clareza aquilo que agora ignoramos. “Tenha um pouco de paciência”, diz a Morte à alma curiosa. “Logo a levarei a um lugar onde até essa sabedoria será encontrada.”

Quando o mistério de Deus estiver concluído, será revelado, e conheceremos como somos conhecidos. Quando o véu da carne se romper e as nuvens entre nós e ele se dissiparem, saberemos o que Deus faz, embora agora não saibamos, João 13:7.

  1. Esse conhecimento está oculto em Deus, como diz o apóstolo em Efésios 3:9. “Todas as suas obras são conhecidas por Deus”, embora não por nós, Atos 15:18. Há bons motivos para aquilo que ele faz, mesmo que não possamos apontá-los (v. 23): “Deus entende o caminho dela”. Às vezes os homens fazem coisas sem saber o que fazem; Deus nunca.

Os homens às vezes fazem coisas que não faziam parte de seus desígnios: novos acontecimentos os levam a novos conselhos e os obrigam a tomar outras medidas. Deus, porém, faz tudo segundo o propósito que se propôs em si mesmo, o qual nunca altera.

Às vezes os homens fazem coisas para as quais não podem apresentar um bom motivo; mas em toda vontade de Deus há um conselho. Ele sabe tanto o que faz quanto por que o faz, conhece toda a sequência dos acontecimentos e a ordem e o lugar de cada um deles. Possui esse conhecimento com perfeição, mas o guarda para si.

Aqui são apresentadas duas razões pelas quais Deus necessariamente conhece seu próprio caminho, e somente ele:

(1.) Porque todos os acontecimentos são agora dirigidos por uma Providência que tudo vê e tudo pode, v. 24, 25. Aquele que governa o mundo é: [1.] Onisciente, pois vê os confins da terra, tanto no espaço quanto no tempo. As eras e regiões distantes estão diante de seus olhos.

Nós nem sequer entendemos o nosso próprio caminho, muito menos o de Deus, porque enxergamos pouco. Quão pouco sabemos do que acontece no mundo, menos ainda do que acontecerá!

Os olhos do Senhor, porém, estão em todo lugar; ou melhor, percorrem toda a terra. Nada está nem pode estar oculto para ele. Assim, ele conhece os motivos — secretos para nós — pelos quais alguns ímpios prosperam de modo notável enquanto outros recebem castigos igualmente notáveis neste mundo.

Os acontecimentos de um dia e os assuntos de uma pessoa se relacionam e dependem tanto dos de outras que somente aquele diante de quem todos os acontecimentos e assuntos estão nus e descobertos, e que vê o todo num único olhar completo e certo, é um Juiz competente para cada parte.

[2.] Ele é onipotente: pode fazer tudo e é muito exato em tudo que faz. Como prova, Jó menciona os ventos e as águas, v. 25. O que é mais leve que o vento? Deus, contudo, tem meios de pesá-lo.

Sabe estabelecer o peso dos ventos que tira de seus tesouros (Salmos 135:7), mantendo uma conta minuciosa do que retira, como os homens fazem com as quantias pagas de seus cofres, e não ao acaso, como quem tira de lá coisas sem valor.

Entre as coisas que percebemos, nenhuma nos parece mais inexplicável do que o vento. Ouvimos seu som, mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. Deus, porém, o distribui por peso, determinando sabiamente tanto a direção de onde soprará quanto sua força.

Ele pesa e mede tanto as águas do mar quanto as da chuva, fixando a proporção de cada maré e de cada pancada de chuva. Há uma comunicação grande e constante entre as nuvens e os mares, entre as águas acima e abaixo do firmamento. Os vapores sobem, as chuvas descem, o ar se condensa em água e a água se rarefaz em ar.

Mas o grande Deus mantém uma conta exata de todo o suprimento usado nesse intercâmbio para o benefício comum e cuida para que nada se perca. Se a Providência é tão exata nessas coisas, quanto mais ao distribuir sinais de desagrado e favor, recompensas e castigos aos homens, segundo as regras da justiça.

(2.) Porque todos os acontecimentos foram concebidos em seus desígnios e determinados desde a eternidade por uma presciência infalível e um decreto imutável, v. 26, 27. Ao estabelecer o curso da natureza, Deus preordenou todas as operações de seu governo. [1.] Estabeleceu o curso da natureza. Jó menciona especialmente uma lei para a chuva e um caminho para os trovões e relâmpagos.

O modo e o método gerais, bem como os usos e tendências particulares desses fenômenos extraordinários, suas causas e seus efeitos, foram designados pelo propósito divino. Por isso se diz que Deus prepara relâmpagos para a chuva, Salmos 135:7; Jeremias 10:13.

[2.] Ao fazê-lo, Deus definiu todas as medidas de sua providência e traçou um plano exato de toda a obra, do começo ao fim. Então, desde a eternidade, viu em si mesmo e declarou a si mesmo o plano de seus atos. Preparou-o, fixou-o e estabeleceu-o, deixando tudo pronto para todas as suas obras.

Assim, quando algo tinha de ser feito, nada faltava nem poderia surgir imprevisto algum capaz de alterar o método ou o tempo da obra. Tudo foi ordenado com tanta exatidão como se ele o tivesse estudado e investigado, de modo que nada se pode acrescentar nem tirar daquilo que faz; por isso durará para sempre, Eclesiastes 3:14.

Alguns entendem que Jó fala aqui da sabedoria como pessoa e traduzem: “Então ele a viu e a mostrou”, etc. Nesse caso, há um paralelo com o que Salomão diz da sabedoria essencial do Pai, a Palavra eterna, Provérbios 8:22, etc.: antes de existir a terra, eu já estava junto dele, João 1:1, 2.

II. O conhecimento da vontade revelada de Deus, a vontade expressa em seus preceitos, está ao nosso alcance. É adequado à nossa capacidade e nos fará bem (v. 28): “Ao homem disse: Eis que o temor do Senhor é a sabedoria”.

Não se diga que Deus ocultou seus conselhos dos homens e lhes proibiu aquela árvore do conhecimento por invejar-lhes algo que contribuiria para sua verdadeira felicidade e satisfação.

Não. Ele lhes revelou tudo de que precisavam saber para cumprir seu dever e ser felizes. Ser-lhes-á confiado tanto da mente soberana de Deus quanto é necessário e adequado a súditos; não devem, porém, julgar-se aptos a ser seus conselheiros íntimos.

Alguns entendem que Deus disse isso a Adão, o primeiro homem, no dia de sua criação. Disse-lhe claramente que não lhe cabia investigar, por curiosidade excessiva, os mistérios da criação nem alegar que podia resolver todos os fenômenos da natureza. Descobriria que isso não era possível nem proveitoso.

É necessária, diz o arcebispo Tillotson, sabedoria não menor do que a que criou o mundo para compreender plenamente sua filosofia. Adão, porém, devia reconhecer nisto a sua sabedoria: temer o Senhor e afastar-se do mal. Se aprendesse isso, teria aprendido o suficiente; esse conhecimento lhe bastaria.

Quando Deus proibiu ao homem a árvore do conhecimento, consentiu-lhe acesso à árvore da vida, e esta é essa árvore, Provérbios 3:18. Não podemos alcançar a verdadeira sabedoria senão por revelação divina. “O Senhor dá a sabedoria”, Provérbios 2:6.

O assunto dessa revelação não se encontra nos segredos da natureza nem nos da providência, mas nas regras para nossa própria conduta. Ao homem ele não disse: “Sobe ao céu para de lá buscar a felicidade”, nem: “Desce às profundezas para de lá tirá-la”. Não: “A palavra está perto de ti”, Deuteronômio 30:14.

“Ele te mostrou, ó homem”, não o que é grandioso, mas o que é bom; não o que o Senhor teu Deus tem em seus desígnios fazer contigo, mas o que exige de ti, Miquéias 6:8. “A vós, ó homens, eu chamo”, Provérbios 8:4. Senhor, que é o homem para receber tal atenção, tal visita?

Veja, observe e repare nisso. Quem tem ouvidos ouça o que o Deus do céu diz aos homens: O temor do Senhor, isso é a sabedoria. Aqui está: 1. A descrição da religião verdadeira, pura e sem mácula: temer ao Senhor e afastar-se do mal. Isso concorda com o testemunho que Deus deu de Jó em Jó 1:1.

O temor do Senhor é a fonte e a síntese de toda a religião. Há um temor servil de Deus, nascido de pensamentos duros a seu respeito, que é contrário à religião, Mateus 25:24. Há um temor egoísta de Deus, nascido de pensamentos assustadores a seu respeito, que pode ser um bom passo em direção à religião, Atos 9:5.

Há, porém, um temor filial de Deus, nascido de pensamentos grandiosos e elevados a seu respeito, que é a vida e a alma de toda a religião. Onde quer que esse temor governe o coração, aparecerá no cuidado constante de afastar-se do mal, Provérbios 16:6. Isso é essencial à religião. Primeiro precisamos deixar de fazer o mal; caso contrário, nunca aprenderemos a fazer o bem.

Virtus est vitium fugere — Até mesmo em fugir do vício há certa virtude. 2. O elogio da religião: ela é sabedoria e entendimento. Ser, na verdade, religioso é ser, na verdade, sábio. Assim como a sabedoria de Deus aparece ao instituir a religião, a do homem aparece ao praticá-la e observá-la.

Ela é entendimento, pois constitui o melhor conhecimento da verdade. É sabedoria, pois constitui a melhor condução dos nossos assuntos. Nada guia nosso caminho e nos leva ao objetivo com mais segurança do que ser religioso.


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