Jó 27
Argumento
Jó às vezes se queixara de que seus amigos tinham tanto empenho em discutir que mal o deixavam falar: “Permitam-me falar”; e “Ah, se vocês se calassem!” Agora, porém, parece que perderam o fôlego e lhe deram espaço para dizer o que quisesse.
Ou se convenceram de que Jó tinha razão, ou perderam a esperança de convencê-lo de que estava errado. Por isso, largaram as armas e desistiram da causa. Jó fora forte demais para eles e os obrigara a abandonar o campo, pois a verdade é grande e prevalecerá.
O que Jó dissera (Jó 26) bastava para responder ao discurso de Bildade. Então Jó fez uma pausa para ver se Zofar tomaria a palavra novamente; como ele recusou, o próprio Jó prosseguiu e, sem interrupção nem aborrecimento, disse tudo o que queria sobre o assunto.
I. Começa com uma declaração solene de sua integridade e de sua decisão de apegar-se a ela, vv. 2-6. II. Expressa o temor que sentia daquela hipocrisia da qual o acusavam, vv. 7-10. III. Mostra o fim miserável dos perversos apesar de sua longa prosperidade, e a maldição que os acompanha e se transmite a suas famílias, vv. 11-23.
Versículos 1 a 6
A Declaração Solene de Jó sobre Sua Sinceridade. (a.C. 1520.)
O discurso de Jó aqui é chamado de parábola (mashal), nome dado aos provérbios de Salomão, porque era grave, profundo e muito instrutivo, e ele falava como quem tem autoridade.
A palavra vem de uma raiz que significa governar ou exercer domínio; alguns entendem que isso indica que Jó agora triunfava sobre seus adversários e falava como alguém que os havia derrotado.
Dizemos de um excelente pregador que sabe dominari in concionibus — dominar seus ouvintes na pregação. Foi o que Jó fez aqui. Havia muito tempo que ele e os amigos estavam em contenda; eles pareciam dispostos a chegar a um acordo.
Por isso, visto que o juramento de confirmação põe fim à contenda (Hebreus 6:16), Jó sustenta tudo o que dissera em defesa da própria integridade com um juramento solene, a fim de calar as contradições e assumir toda a culpa se faltasse com a verdade. Observe:
I. A forma de seu juramento (v. 2): “Tão certo como vive Deus, que me tirou o direito.” Aqui:
Jó fala de Deus em termos elevados ao chamá-lo de Deus vivo — isto é, eternamente vivo, o Deus eterno, que tem vida em si mesmo — e ao recorrer a ele como único e soberano Juiz. Não podemos jurar por alguém maior, e jurar por qualquer outro é uma afronta a ele.
Contudo, Jó fala de Deus com dureza e de maneira imprópria ao dizer que ele lhe tirou o direito. Quer dizer, teria recusado fazer-lhe justiça nessa controvérsia e aparecer em sua defesa.
Ao prolongar as aflições nas quais os amigos baseavam suas censuras, Deus também lhe teria tirado a oportunidade que Jó esperava já ter tido de provar sua inocência. Eliú o censurou por essas palavras (Jó 34:5), pois Deus é justo em todos os seus caminhos e não tira o direito de ninguém.
Mas veja como somos propensos a perder a esperança de receber favor se ele não nos é mostrado imediatamente: temos o espírito tão fraco e logo nos cansamos de esperar pelo tempo de Deus.
Jó também acusa Deus de ter afligido sua alma. Não apenas deixara de aparecer em seu favor, mas parecia ter-se voltado contra ele e, ao impor-lhe aflições tão graves, tornara-lhe amarga toda a vida e todos os seus consolos.
Nós, pela impaciência, afligimos a própria alma e depois nos queixamos de que Deus a afligiu. Veja, porém, a confiança de Jó na bondade de sua causa e de seu Deus: embora Deus parecesse estar irado com ele e agir contra ele naquele momento, Jó podia entregar-lhe alegremente sua causa.
II. O conteúdo de seu juramento, v. 3, 4:
- Não falaria perversidade nem proferiria engano. Em termos gerais, nunca se permitiria mentir. Assim como, ao longo dessa discussão, dissera o que pensava, nunca violaria a própria consciência falando de outro modo.
Jamais defenderia uma doutrina ou afirmaria um fato que não acreditasse ser verdadeiro, nem negaria a verdade, por mais que ela pudesse ser usada contra ele. Como os amigos o acusavam de hipocrisia, Jó estava pronto a responder sob juramento a todas as perguntas deles, se fosse chamado a fazê-lo.
De um lado, por nada neste mundo negaria a acusação se soubesse que era culpado; declararia a verdade, toda a verdade e nada além da verdade, e assumiria a vergonha de sua hipocrisia.
De outro, como tinha consciência da própria integridade e sabia não ser o homem que os amigos descreviam, nunca trairia sua integridade nem se acusaria de algo de que era inocente.
Nem mesmo o instrumento de tortura das censuras injustas deles o levaria a acusar-se falsamente. Se não devemos dar falso testemunho contra o próximo, tampouco devemos dá-lo contra nós mesmos.
- Manteria essa decisão enquanto vivesse (v. 3): “Enquanto houver fôlego em mim.” Nossas decisões contra o pecado devem ser constantes assim, decisões para toda a vida. Em questões duvidosas e indiferentes, não é seguro ser tão categórico.
Não sabemos que motivos encontraremos para mudar de ideia; Deus pode nos revelar algo de que agora não temos consciência. Numa questão tão clara como esta, porém, não podemos ser firmes demais ao declarar que nunca falaremos perversidade.
Aqui se sugere também um motivo para sua decisão: nosso fôlego não ficará em nós para sempre. Em breve daremos o último suspiro. Por isso, enquanto respiramos, nunca devemos exalar perversidade nem engano, nem nos permitir dizer ou fazer algo que deporá contra nós quando nosso fôlego se for.
O fôlego em nós é chamado de espírito de Deus, porque ele o soprou em nós. Este é outro motivo para não falarmos perversidade: Deus nos dá vida e fôlego; portanto, enquanto o tivermos, devemos louvá-lo.
III. A explicação de seu juramento (v. 5, 6): “Deus me livre de dar razão às censuras sem caridade que vocês fazem contra mim, admitindo que sou hipócrita! Não, até morrer não abandonarei minha integridade; apego-me à minha justiça e não a largarei.”
- Jó seria sempre um homem honesto: conservaria a integridade e não amaldiçoaria a Deus, como Satanás, por meio da esposa de Jó, o incitara a fazer, Jó 2:9. Aqui pensa na morte e se prepara para ela; por isso, decide nunca abandonar sua religião, embora tenha perdido tudo o que possuía no mundo.
Repare: a melhor preparação para a morte é perseverar na integridade até morrer. “Até morrer” significa: “Ainda que esta aflição me mate, não perderei por isso a boa opinião que tenho de meu Deus e de minha religião. Ainda que ele me abata, confiarei nele.”
- Jó continuaria a afirmar que era um homem honesto. Não abriria mão da consciência, do consolo nem do crédito de sua integridade; estava decidido a defendê-la até o fim.
“Deus sabe, e meu coração sabe, que sempre tive boas intenções e nunca me permiti omitir um dever conhecido nem cometer um pecado conhecido. Nisso está minha alegria, e ninguém a tirará de mim; nunca mentirei contra meu direito.”
Muitas vezes pessoas íntegras são censuradas e condenadas como hipócritas. Convém-lhes, porém, resistir com coragem a essas censuras, sem desanimar por causa delas nem passar a pensar pior de si mesmas. Como diz o apóstolo (Hebreus 13:18): “Temos boa consciência em todas as coisas, desejando viver honestamente.”
Hic murus aheneus esto, nil conscire sibi.
Seja esta sua muralha de bronze em defesa: Conservar sempre a consciência de sua inocência.
Jó se queixava muito das censuras dos amigos; mas, diz ele, “meu coração não me censurará”. Isto é: “Nunca darei ao coração motivo para me censurar; manterei a consciência livre de ofensa e, enquanto o fizer, não permitirei que meu coração me censure.”
“Quem apresentará alguma acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica.” Decidir que o coração não nos censurará quando lhe damos motivo para fazê-lo é afrontar a Deus, de quem a consciência é representante, e prejudicar a nós mesmos. Pois, quando alguém peca, é bom ter dentro de si um coração que o fira por isso, 2 Samuel 24:10.
Em contrapartida, decidir que nosso coração não nos censurará enquanto continuarmos apegados à integridade é frustrar os planos do espírito maligno — que induz os bons cristãos a duvidar de sua adoção: “Se és o Filho de Deus” — e cooperar com a obra do bom Espírito, que testemunha a favor dessa adoção.
Versículos 7 a 10
A Condição dos Hipócritas. (a.C. 1520.)
Depois de declarar solenemente sua satisfação com a própria integridade, Jó, para deixar ainda mais clara sua inocência, expressa aqui o pavor que sentia de ser descoberto como hipócrita.
I. Ele nos conta quanto o assustava essa ideia, pois considerava a condição de um hipócrita e perverso certamente a mais miserável em que qualquer pessoa poderia estar (v. 7): “Seja meu inimigo como o perverso”, expressão proverbial semelhante a esta (Daniel 4:19): seja o sonho para os que te odeiam.
Jó estava tão longe de permitir-se seguir algum caminho perverso e iludir-se a esse respeito que, se pudesse desejar ao pior inimigo do mundo o maior mal que imaginasse, desejaria para ele a porção do perverso, pois sabia que não poderia desejar-lhe algo pior.
Isso não significa que nos seja lícito desejar que alguém se torne perverso ou que alguém que não é perverso seja tratado como tal. Mas todos deveríamos preferir a condição de mendigo, de proscrito, de escravo das galés, qualquer condição, à do perverso, ainda que este desfrute enorme pompa e prosperidade exterior.
II. Jó nos dá os motivos desse temor:
- Porque as esperanças do hipócrita não serão coroadas (v. 8): “Pois qual é a esperança do hipócrita?” Bildade a condenara (Jó 8:13, 14), assim como Zofar (Jó 11:20). Jó concorda com eles e anuncia a morte dessa esperança com a mesma certeza que eles demonstraram.
Isso vem a propósito como motivo para não abandonar sua integridade, mas continuar apegado a ela. Repare: considerar a condição miserável dos perversos, sobretudo dos hipócritas, deve levar-nos a ser íntegros, pois estaremos arruinados para sempre se não formos.
Também deve levar-nos a obter a prova consoladora de nossa integridade; como podemos estar tranquilos se a questão mais importante permanece incerta? Os amigos de Jó queriam persuadi-lo de que toda a sua esperança era apenas a esperança do hipócrita, Jó 4:6.
“Não”, diz ele, “por nada neste mundo eu seria tão tolo a ponto de construir sobre um alicerce tão podre; pois qual é a esperança do hipócrita?” Veja aqui:
(1.) O hipócrita enganado. Ele obteve ganhos e tem esperança: este é seu lado favorável. Admite-se que ganhou com sua hipocrisia: conquistou o louvor e os aplausos das pessoas e as riquezas deste mundo. Jeú ganhou um reino por sua hipocrisia, e os fariseus, as casas de muitas viúvas.
É sobre esses ganhos que ele constrói sua esperança, tal como ela é. Espera estar bem situado para o outro mundo porque se vê bem situado neste e se considera abençoado em seu próprio caminho.
(2.) O hipócrita desenganado. Por fim verá que foi vítima de um miserável embuste, pois:
[1.] Deus lhe tirará a alma, muito contra a sua vontade. Lucas 12:20: “Tua alma te será exigida.” Deus, como Juiz, a toma para julgá-la e decidir seu estado eterno. Então o hipócrita cairá nas mãos do Deus vivo, para ser tratado diretamente.
[2.] Que será então de sua esperança? Será vaidade e mentira; não lhe servirá de nada. As riquezas deste mundo, nas quais esperava, terá de deixá-las para trás, Salmos 49:17. A felicidade do outro mundo, que esperava alcançar, certamente perderá.
Esperava ir para o céu, mas sofrerá uma vergonhosa decepção. Invocará sua profissão religiosa exterior, seus privilégios e suas obras, mas todos os seus argumentos serão rejeitados como frívolos: afaste-se de mim, não conheço você.
Portanto, é certo que o hipócrita de mera aparência, com todos os seus ganhos e esperanças, será miserável na hora da morte.
- Porque a oração do hipócrita não será ouvida (v. 9): “Deus ouvirá seu clamor quando a aflição vier sobre ele?” Não: não ouvirá, nem seria de esperar que o fizesse.
Se houver verdadeiro arrependimento, Deus ouvirá seu clamor e o aceitará (Isaías 1:18). Mas, se continuar sem arrependimento e sem mudança, não pense que encontrará favor junto a Deus. Observe:
(1.) A aflição virá sobre ele, certamente. As aflições deste mundo muitas vezes surpreendem aqueles que se sentem mais seguros de uma prosperidade ininterrupta. De todo modo, a morte virá, e com ela a aflição, quando ele tiver de deixar o mundo e todos os seus prazeres. O julgamento do grande dia virá, e o pavor surpreenderá os hipócritas, Isaías 33:14.
(2.) Então clamará a Deus: orará, e com fervor. Aqueles que, na prosperidade, desprezaram a Deus, não oraram de modo algum ou oraram com frieza e descuido, recorrerão a ele quando chegar a aflição e clamarão como quem fala a sério.
(3.) Mas Deus os ouvirá então? Nas aflições desta vida, Deus nos disse que não ouvirá as orações daqueles que abrigam a iniquidade no coração (Salmos 66:18) e ali erguem seus ídolos (Ezequiel 14:4), nem daqueles que afastam os ouvidos para não ouvir a lei, Provérbios 28:9.
Procurem os deuses a quem serviram, Juízes 10:14. No juízo futuro, é certo que Deus não ouvirá o clamor dos que viveram e morreram em sua hipocrisia. Ninguém terá compaixão de suas lamentações dolorosas. “Zombarei da calamidade de vocês.”
Todas as suas súplicas insistentes serão descartadas, e seus argumentos, rejeitados. Não se pode influenciar a justiça inflexível nem revogar a sentença irreversível. Veja Mateus 7:22, 23; Lucas 13:26 e o caso das virgens insensatas, Mateus 25:11.
- Porque a religião do hipócrita não lhe traz consolo nem é constante (v. 10): “Terá ele prazer no Todo-Poderoso?” Não, em tempo algum, pois sente mais prazer nos lucros do mundo e nos prazeres da carne do que em Deus, especialmente quando está aflito.
“Invocará sempre a Deus?” Não. Na prosperidade, desprezará a Deus em vez de invocá-lo; na adversidade, o amaldiçoará em vez de invocá-lo. Cansa-se de sua religião quando não ganha nada com ela ou corre o risco de perder. Repare:
(1.) São hipócritas aqueles que, embora professem uma religião, nem sentem prazer nela nem perseveram nela. Consideram-na tarefa, trabalho penoso e enfadonho, e a desprezam.
Usam-na apenas para conseguir o que querem e a deixam de lado assim que alcançam seu objetivo. Invocam a Deus enquanto isso está na moda ou enquanto dura o ímpeto de devoção, mas param quando passam a andar com outras pessoas ou quando termina aquele fervor passageiro.
(2.) Os hipócritas não perseveram na religião porque não encontram prazer nela. Quem não tem prazer no Todo-Poderoso não o invocará sempre. Quanto mais consolo encontramos em nossa religião, mais firmemente nos apegamos a ela.
Quem não tem prazer em Deus é facilmente seduzido pelos prazeres dos sentidos e, assim, afastado da religião. Também é facilmente abatido pelas aflições desta vida e, assim, impelido a abandonar a religião, deixando de invocar sempre a Deus.
Versículos 11 a 23
A Herança dos Perversos. (a.C. 1520.)
Os amigos de Jó tinham observado muito da miséria e destruição que acompanham os perversos, sobretudo os opressores.
Enquanto durara o calor da discussão, Jó falara com igual insistência e segurança da prosperidade deles. Agora, porém, quase terminada a disputa, estava disposto a reconhecer até que ponto concordava com os amigos e onde sua opinião diferia da deles.
- Concordava que os perversos são pessoas miseráveis, que Deus certamente pedirá contas aos opressores cruéis e que, cedo ou tarde, de um modo ou de outro, sua justiça se vingará de todas as afrontas que fizeram a Deus e de todas as injustiças que cometeram contra o próximo.
Essa verdade é amplamente confirmada pelo acordo unânime até desses debatedores irados. Mas, 2. Nisto discordavam: os amigos afirmavam que os juízos merecidos vinham imediatamente e de forma visível sobre os opressores perversos.
Diziam que eles sofrem dores por todos os seus dias; que, em meio à prosperidade, vem sobre eles o destruidor; que não serão ricos nem terão os ramos verdes; e que sua destruição se completará antes do tempo, segundo Elifaz (Jó 15:20, 21, 29, 32).
Diziam que os passos de sua força seriam restringidos e que terrores os assustariam por todos os lados, segundo Bildade (Jó 18:7, 11); e que o próprio perverso vomitaria suas riquezas e, no auge da abundância, se veria em aperto, segundo Zofar (Jó 20:15, 22).
Jó, porém, sustentava que, em muitos casos, os juízos não caem depressa sobre os perversos, mas são adiados por algum tempo. Já mostrara que a vingança tarda a atingi-los (Jó 21 e 24); agora passa a mostrar que os atinge de maneira certa e severa, e que adiamento não é perdão.
I. Jó se propõe aqui a apresentar essa questão sob a verdadeira luz (v. 11, 12): “Eu lhes ensinarei.” Não devemos desprezar o ensino de quem está doente e pobre, sim, mesmo de quem está irritado, se o que ensina é verdadeiro e bom. Observe:
- O que Jó lhes ensinaria: “O que está com o Todo-Poderoso”, isto é, os conselhos e propósitos de Deus acerca dos perversos, ocultos junto dele e sobre os quais os amigos não podiam julgar apressadamente, bem como os modos habituais de sua providência para com eles.
“Isso”, diz Jó, “não esconderei.” O que Deus não nos ocultou não devemos ocultar daqueles a quem nos cabe ensinar. As coisas reveladas pertencem a nós e a nossos filhos.
Como Jó lhes ensinaria: pela mão de Deus, isto é, com sua força e ajuda. Quem assume a tarefa de ensinar os outros deve buscar a mão de Deus para receber direção, para que ele lhe abra os ouvidos (Isaías 50:4) e os lábios. Aqueles a quem Deus ensina com mão forte são os mais capazes de ensinar os outros, Isaías 8:11.
Que motivos tinham para aprender o que Jó estava prestes a ensinar (v. 12). Sua própria observação confirmava essas coisas: “Vocês mesmos as viram.” Mas até sobre o que ouvimos, vimos e conhecemos precisamos ser ensinados, para que aprendamos perfeitamente a lição.
Esse ensino também corrigiria o juízo deles a respeito de Jó: “Por que, então, vocês são tão inteiramente vãos, condenando-me como perverso porque estou aflito?” A verdade bem compreendida e aplicada pode curar-nos desse pensamento vão que nasce de nossos erros.
O que Jó se dispõe especialmente a expor é a porção do perverso junto a Deus, sobretudo a dos opressores, v. 13. Compare Jó 20:29. Sua porção neste mundo pode ser riqueza e cargos, mas sua porção junto a Deus é ruína e miséria. Talvez estejam acima do controle de qualquer poder terreno, mas o Todo-Poderoso pode lidar com eles.
II. Jó o faz mostrando que os perversos podem prosperar em certos aspectos, mas a ruína os acompanha justamente nesses aspectos. Esta é sua porção, sua herança, aquilo com que terão de ficar.
- Podem prosperar nos filhos, mas a ruína os acompanha. Talvez seus filhos se multipliquem (v. 14) ou sejam engrandecidos, segundo alguns; são muito numerosos e alcançam honras e grandes patrimônios.
Diz-se que as pessoas voltadas para o mundo estão cheias de filhos (Salmos 17:14) e, como registra a nota à margem desse versículo, seus filhos estão cheios. Os pais esperam continuar a viver neles e ser honrados pela elevação deles a cargos.
Quanto mais filhos deixam, porém, e quanto maior é a prosperidade em que os deixam, mais numerosos e visíveis são os alvos que oferecem às flechas dos juízos de Deus: seus três juízos severos, a espada, a fome e a peste, 2 Samuel 24:13.
(1.) Alguns morrerão pela espada, talvez a espada da guerra. Foram criados para viver pela espada, como Esaú (Gênesis 27:40), e quem vive assim costuma, cedo ou tarde, morrer pela espada. Outros podem morrer pela espada da justiça em razão de seus crimes ou pela espada de um assassino interessado em seus bens.
(2.) Outros morrerão de fome (v. 14): “Seus descendentes não se fartarão de pão.” O perverso pensava ter-lhes garantido grandes patrimônios, mas talvez sejam reduzidos à pobreza, sem o sustento necessário à vida, ou ao menos sem condições de viver com conforto.
Serão tão necessitados que não terão alimento suficiente; ou tão ávidos ou descontentes que o alimento disponível não os satisfará, por ser menos abundante ou menos refinado do que aquele a que estavam acostumados. “Vocês comem, mas não se fartam”, Ageu 1:6.
(3.) Os que restarem serão sepultados na morte, isto é, morrerão de peste, chamada de morte (Apocalipse 6:8), e serão sepultados em particular e às pressas, logo após morrerem, sem solenidade alguma, com a sepultura de um jumento.
Nem mesmo suas viúvas chorarão, pois não terão meios de vestir luto. Ou isso indica que esses perversos, assim como viveram sem ser desejados, morrerão sem ser lamentados, e até suas viúvas ficarão felizes por se verem livres deles.
- Podem prosperar nos bens, mas a ruína os acompanha também, vv. 16-18.
(1.) Suponhamos que sejam ricos em dinheiro e objetos de prata, roupas e móveis. Amontoam prata em abundância como pó e preparam roupas como barro; têm ao redor montes de roupas tão numerosos quanto montes de barro. Ou isso indica que possuem tantas roupas que elas se tornam até um peso para eles.
Carregam-se de barro espesso, Habacuque 2:6. Veja qual é o cuidado e a ocupação das pessoas voltadas para o mundo: acumular riquezas mundanas. Quem muito tem quer ainda mais, até que a prata se corroa e as roupas sejam comidas pelas traças, Tiago 5:2, 3.
Mas o que resulta disso? O perverso não tirará proveito algum disso: a morte o despirá e roubará, caso não seja roubado e despojado antes, Lucas 12:20. Sim, Deus providenciará para que o justo vista suas roupas e o inocente reparta sua prata:
[1.] Eles possuirão os bens e os dividirão entre si. De um modo ou de outro, a Providência fará com que homens bons adquiram honestamente a riqueza que o perverso adquiriu desonestamente. “A riqueza do pecador está guardada para o justo”, Provérbios 13:22.
Deus dispõe dos bens das pessoas como quer e muitas vezes faz com que seus testamentos contrariem suas vontades.
O justo, a quem o perverso odiou e perseguiu, terá domínio sobre todo o fruto do trabalho dele e, no devido tempo, recuperará com juros o que lhe foi tomado à força. As joias dos egípcios foram o pagamento dos israelitas.
Salomão observa (Eclesiastes 2:26) que Deus faz dos pecadores trabalhadores forçados a serviço dos justos, pois ao pecador dá o trabalho de ajuntar e acumular, para que dê àquele que é bom diante de Deus.
[2.] Eles usarão os bens para fazer o bem. O inocente não guardará a prata em depósito como fez quem a acumulou; ele a repartirá com os pobres e dará uma porção a sete e também a oito, o que significa obter as melhores garantias.
O dinheiro é como o adubo: não serve para nada se não for espalhado. Quando Deus enriquece pessoas boas, elas devem lembrar-se de que são apenas administradoras e prestarão contas.
Aquilo que os maus, por obtê-lo de modo injusto, usam para trazer maldição a suas famílias, os bons, por usá-lo bem, empregam para trazer bênção às suas. “Quem aumenta seus bens pelo ganho injusto os ajunta para aquele que terá compaixão dos pobres”, Provérbios 28:8.
(2.) Suponhamos que tenham construído para si casas fortes e imponentes. Mas elas são como a casa que a traça faz para si numa roupa velha, da qual logo será sacudida, v. 18. Ele se sente muito seguro nela, como uma traça, sem pressentir perigo algum.
A casa, porém, durará tão pouco quanto a cabana que o vigia constrói, logo desmontada e desaparecida; o lugar do perverso não voltará a conhecê-lo.
- A destruição atinge a própria pessoa deles, embora tenham vivido muito tempo com saúde e conforto (v. 19). O rico se deitará para dormir, repousando na abundância de sua riqueza — “Alma, descansa” —, e nela se deitará como em sua cidade fortificada. Aos olhos dos outros, parecerá muito feliz e tranquilo.
Mas não conseguirá recolher-se, isto é, não terá a mente serena, firme e concentrada para desfrutar os bens. Não dorme tão satisfeito quanto imaginam. Ele se deita, mas sua abundância não o deixa dormir, ao menos não tão bem quanto o trabalhador, Eclesiastes 5:12.
Deita-se, mas se revira de um lado para outro até o amanhecer. Então abre os olhos, e já não existe: vê a si mesmo e tudo o que possui desaparecendo rapidamente, como num piscar de olhos.
As preocupações aumentam seus temores, e umas e outros o inquietam. Assim, quando o acompanhamos até a cama, não o encontramos feliz ali. Por fim, porém, somos chamados a acompanhar sua partida e a ver quão miserável é na morte e depois dela.
(1.) Ele é miserável na morte. Para ele, ela é o rei dos terrores, v. 20, 21. Quando uma doença mortal o atinge, que pavor sente! Os terrores o agarram como águas, como se estivesse cercado pela maré crescente.
Treme só de pensar em deixar este mundo e, mais ainda, em ir para outro. Isso mistura tristeza e cólera à sua doença, como observa Salomão, Eclesiastes 5:17. Esses terrores o lançam:
[1.] Ou num desespero calado e sombrio. Então se pode dizer que a tempestade da cólera de Deus, a tempestade da morte, o leva às escondidas durante a noite, sem que ninguém perceba ou dê atenção.
[2.] Ou num desespero aberto e ruidoso. Então se diz que ele é carregado e arremessado para fora de seu lugar como por uma tempestade, com um vento oriental violento, barulhento e aterrador.
Para o piedoso, a morte é como um vento favorável que o leva à pátria celestial. Para o perverso, é como um vento oriental, um temporal, uma tempestade que o arrasta, confuso e atônito, para a destruição.
(2.) Ele é miserável depois da morte:
[1.] Sua alma cai sob a justa indignação de Deus, e é o terror dessa indignação que tanto o perturba à aproximação da morte (v. 22): “Pois Deus o atingirá e não o poupará.” Enquanto vivia, beneficiava-se da misericórdia que o poupava. Agora, porém, o tempo da paciência de Deus terminou.
Deus não o poupará; derramará sobre ele as taças cheias de sua cólera. Daquilo que Deus lança sobre alguém não há como fugir nem como suportar seu peso. Lemos que lançou do céu grandes pedras sobre os cananeus (Josué 10:11), causando-lhes terrível mortandade.
Mas o que foi isso comparado a lançar sua ira com todo o peso sobre a consciência do pecador, como o talento de chumbo? Zacarias 5:7, 8.
Ao ver a cólera de Deus irromper sobre si, o pecador condenado desejaria muito escapar de sua mão, mas não consegue. As portas do inferno estão fechadas e trancadas, e o grande abismo está estabelecido; de nada adiantará pedir abrigo às rochas e montanhas.
Aqueles que hoje não se deixam persuadir a correr para os braços da graça divina, estendidos para recebê-los, não conseguirão fugir dos braços da cólera divina, que em breve se estenderão para destruí-los.
[2.] Sua memória cai sob a justa indignação de toda a humanidade (v. 23): “Os homens baterão palmas contra ele”, isto é, se alegrarão com os juízos de Deus que o eliminam e verão sua queda com satisfação.
“Quando os perversos perecem, há gritos de alegria”, Provérbios 11:10. Quando Deus o sepultar, os homens o expulsarão de seu lugar com assobios e deixarão marcas perpétuas de infâmia sobre seu nome. No mesmo lugar onde fora adulado e exaltado, será alvo de riso (Salmos 52:7), e suas cinzas serão pisoteadas.