Matthew Henry

Jó 26

Argumento

Esta é a breve resposta de Jó ao breve discurso de Bildade. Longe de contradizê-lo, Jó confirma o que ele disse e o supera ao engrandecer a Deus e expor seu poder, para mostrar que ainda tinha razão para dizer, como havia dito: “O que vós sabeis, isso também eu sei” (Jó 13:2).

I. Mostra que o discurso de Bildade não dizia respeito ao assunto sobre o qual Jó falava: embora fosse muito verdadeiro e bom, não vinha ao caso, vv. 2-4.

II. Mostra que o discurso era desnecessário para aquele com quem Bildade falava, pois Jó já conhecia e cria essas verdades, podia falar delas tão bem quanto ele, ou melhor, e acrescentar provas às que ele havia apresentado do poder e da grandeza de Deus.

É o que faz no restante de seu discurso (vv. 5-13), concluindo que, mesmo depois de ambos dizerem tudo o que podiam, ainda ficariam aquém do que o assunto merece, sem chegar nem perto de esgotá-lo, v. 14.

Versículos 1 a 4

A Censura de Jó a Bildade. (a.C. 1520.)

Não se esperaria que Jó, em tanta dor e miséria, fosse capaz de zombar do amigo como faz aqui e divertir-se com a falta de pertinência de seu discurso.

Bildade julgava ter feito uma bela exposição, de assunto tão importante e linguagem tão refinada que teria conquistado reputação de oráculo e orador. Jó, porém, mostra com certa irritação que o discurso não tinha o valor que Bildade lhe atribuía e o ridiculariza por isso. Mostra:

I. Que nele não se encontrava nada de extraordinário (v. 3): “Como declaraste abundantemente a coisa tal como é!” Jó fala ironicamente e repreende Bildade pela boa opinião que tinha do próprio discurso.

  1. Bildade julgava ter falado com muita clareza e declarado a coisa tal como é. Gostava muito das próprias ideias, como todos tendemos a gostar, e considerava que só elas eram corretas, verdadeiras e compreensíveis; todas as outras lhe pareciam falsas, equivocadas e confusas.

No entanto, quando falamos da glória de Deus, não conseguimos declarar a coisa tal como é, pois a vemos obscuramente, como através de um espelho, ou apenas por reflexo. Não o veremos como ele é até chegarmos ao céu. Aqui não conseguimos ordenar nosso discurso a respeito dele (Jó 37:19).

  1. Bildade julgava ter falado de modo muito completo, apesar das poucas palavras: teria declarado a questão abundantemente. Ah, mas sua exposição era pobre e escassa diante da amplitude e riqueza imensas do assunto.

II. Que o discurso não tinha grande utilidade. Cui bono — “Que bem fizeste com tudo o que disseste?” “Como ajudaste, com toda essa grande ostentação, aquele que não tem poder?” (v. 2). “Como aconselhaste, com tuas solenes declarações, aquele que não tem sabedoria?” (v. 3). Jó queria convencê-lo:

  1. De que não prestara serviço algum a Deus com o discurso nem lhe criara a menor dívida para com ele. De fato, falar em favor de Deus é nosso dever e nossa honra; mas não devemos pensar que ele precise de nossos serviços ou nos deva algo por eles.

Tampouco Deus aceitará esse serviço se nascer de espírito de contenda e contradição, e não de sincero interesse pela glória divina.

  1. De que o discurso não prestara serviço algum à causa dos amigos. Bildade julgava que eles lhe deviam muito por ajudá-los, quando estavam em extremo aperto, a sustentar sua posição contra Jó, sem força nem sabedoria para fazê-lo.

Até os debatedores fracos, quando se exaltam, tendem a achar que a verdade lhes deve mais do que realmente deve.

  1. De que o discurso não prestara serviço algum a Jó. Bildade alegava querer convencê-lo, instruí-lo e consolá-lo. Infelizmente, o que disse vinha tão pouco ao caso que não serviria para corrigir enganos nem para ajudá-lo a suportar as aflições ou tirar proveito delas.

“A quem proferiste palavras?” (v. 4). “Foi a mim que dirigiste teu discurso? Julgas que sou uma criança que precisa dessas instruções? Ou pensas que elas convêm a alguém em minha condição?”

Nem tudo o que é verdadeiro e bom é apropriado e oportuno. A alguém humilhado, quebrantado e aflito de espírito como Jó, Bildade deveria ter pregado a graça e a misericórdia de Deus, e não sua grandeza e majestade; deveria ter-lhe apresentado os consolos do Todo-Poderoso, e não seus terrores.

Cristo sabe falar o que é apropriado ao cansado (Isaías 50:4). Seus ministros devem aprender a repartir corretamente a palavra da verdade e a não entristecer aqueles que Deus não quis entristecer, como Bildade fez.

Por isso Jó pergunta: “De quem é o espírito que saiu de ti?”, isto é: “Que alma aflita poderia ser reanimada, aliviada e restaurada por discursos como esses?”

Assim, muitas vezes nos decepcionamos com os amigos de quem esperávamos consolo; mas o Consolador, o Espírito Santo, nunca erra em sua ação nem deixa de alcançar seu objetivo.

Versículos 5 a 14

A Sabedoria e o Poder de Deus. (a.C. 1520.)

A verdade recebeu muita luz da disputa entre Jó e seus amigos sobre os pontos em que divergiam. Agora, porém, tratam de um assunto com que todos concordam: a glória e o poder infinitos de Deus.

Como a verdade triunfa e como brilha intensamente quando a única disputa entre os debatedores é sobre quem falará de Deus com mais exaltação e honra e quem será mais abundante ao proclamar seu louvor!

Seria bom que todas as discussões religiosas terminassem assim: glorificando a Deus como Senhor de tudo e nosso Senhor, com um só pensamento e uma só voz (Romanos 15:6). Quanto a isso, todos chegamos ao mesmo ponto e concordamos.

I. São apresentados aqui muitos exemplos notáveis da sabedoria e do poder de Deus na criação e preservação do mundo.

  1. Se olharmos ao redor, para a terra e as águas aqui embaixo, veremos exemplos impressionantes da onipotência, que podemos colher destes versículos:

(1.) Ele suspende a terra sobre o nada (v. 7). O imenso globo de terra e água não repousa sobre colunas nem pende de um eixo. Ainda assim, pelo poder onipotente de Deus, permanece firme em seu lugar, equilibrado pelo próprio peso.

A habilidade humana não conseguiria suspender uma pena sobre o nada; a sabedoria divina, porém, suspende assim a terra inteira. Ponderibus librata suis — equilibrada pelo próprio peso, diz o poeta. É sustentada pela palavra do poder de Deus, diz o apóstolo.

Aquilo que está suspenso sobre o nada pode servir para apoiarmos os pés e sustentar o peso do corpo, mas nunca servirá para firmarmos nele o coração ou para suportar o peso da alma.

(2.) Ele estabelece limites às águas do mar e as encerra (v. 10), para que não voltem a cobrir a terra. Esses limites permanecerão imóveis, inabalados e intactos até que o dia e a noite acabem, quando o tempo não mais existir.

Nisso vemos o domínio da Providência sobre as águas furiosas do mar, prova de seu poder (Jeremias 5:22). Vemos também o cuidado que ela tem com os pobres habitantes pecadores da terra.

Embora estejam expostos à justiça de Deus e inteiramente à sua mercê, ele os preserva de ser submersos, como já foram pelas águas do dilúvio. Continuarão assim preservados, pois estão reservados para o fogo.

(3.) Ele forma coisas mortas debaixo das águas. Os Rephaim, gigantes, formam-se sob as águas: criaturas enormes, de tamanho prodigioso, como as baleias, semelhantes a gigantes entre os incontáveis habitantes das águas. Essa é a interpretação do bispo Patrick.

(4.) Por poderosas tormentas e tempestades, ele abala as montanhas, aqui chamadas colunas do céu (v. 11), divide até o mar e golpeia suas ondas orgulhosas (v. 12). Diante do Senhor, o mar foge e as montanhas saltam (Salmos 114:3, 4). Veja Habacuque 3:6, etc.

Uma tempestade sulca as águas e, por assim dizer, as divide; depois, a calmaria golpeia as ondas e torna a achatá-las. Veja Salmos 89:9, 10.

Os que julgam que Jó viveu na época de Moisés ou depois dela aplicam isso à divisão do mar Vermelho diante dos filhos de Israel e ao afogamento dos egípcios nele. Por seu entendimento, ele golpeia Raabe, diz a palavra; Raabe é muitas vezes usada para designar o Egito, como em Salmos 87:4 e Isaías 51:9.

  1. Se considerarmos o inferno abaixo, embora não possamos vê-lo, poderemos conceber exemplos do poder de Deus ali. Por inferno e destruição (v. 6) podemos entender a sepultura e os que nela estão enterrados.

Eles permanecem sob os olhos de Deus, mesmo ocultos aos nossos; isso pode fortalecer nossa fé na ressurreição dos mortos. Deus sabe onde encontrar e de onde trazer todos os átomos dispersos de um corpo consumido.

Podemos também entender essas palavras como referentes ao lugar dos condenados, onde as almas dos perversos, separadas do corpo, sofrem miséria e tormento.

Esse é o inferno e a destruição que estão diante do Senhor (Provérbios 15:11) e que aqui se dizem descobertos perante ele. É provável que haja uma alusão a isso em Apocalipse 14:10, onde os pecadores serão atormentados na presença dos santos anjos, que assistiam à Shechinah, e na presença do Cordeiro.

Isso pode lançar luz sobre o v. 5, que algumas versões antigas apresentam assim, a meu ver de modo mais adequado ao sentido da palavra Rephaim: “Eis que os gigantes gemem debaixo das águas, e os que habitam com eles.” Depois vem: “O inferno está descoberto diante dele.”

O afogamento dos gigantes do mundo antigo simbolizaria isso. Assim o entende o erudito sr. Joseph Mede, que usa essa leitura para esclarecer Provérbios 21:16, onde o inferno é chamado de congregação dos mortos.

É a mesma palavra usada aqui e que ele preferiria traduzir ali como “congregação dos gigantes”, numa alusão ao afogamento dos pecadores do mundo antigo.

Haverá algo em que a majestade de Deus pareça mais terrível do que na ruína eterna dos ímpios e nos gemidos dos habitantes da terra das trevas? Os que não quiserem temer e adorar junto com os anjos temerão e tremerão para sempre junto com os demônios; nisso Deus será glorificado.

  1. Se olharmos para o céu acima, veremos exemplos da soberania e do poder de Deus:

(1.) Ele estende o norte sobre o espaço vazio (v. 7). Assim fez no princípio, quando estendeu os céus como uma cortina (Salmos 104:2). Continua a mantê-los estendidos e o fará até a conflagração geral, quando serão enrolados como um pergaminho (Apocalipse 6:14).

Menciona o norte porque o país de Jó, assim como o do comentarista, ficava no hemisfério norte; o ar é o espaço vazio sobre o qual o céu se estende. Veja Salmos 89:12. Como este mundo é um lugar vazio em comparação com o outro!

(2.) Ele impede que as águas que se dizem estar acima do firmamento caiam sobre a terra, como certa vez caíram (v. 8). Prende as águas em suas nuvens espessas, como se as atasse bem apertadas num saco, até haver ocasião de usá-las.

Apesar do enorme peso da água assim elevada e armazenada, a nuvem não se rompe sob ela; se se rompesse, as águas jorrariam como de uma bica. Em vez disso, por assim dizer, atravessam a nuvem por destilação e chegam gota a gota, por misericórdia para com a terra, em chuva fraca ou forte, conforme ele queira.

(3.) Ele encobre a glória do mundo superior, cujo brilho ofuscante nós, pobres mortais, não poderíamos suportar (v. 9). Retém a face de seu trono, a luz em que habita, e estende sobre ela uma nuvem, através da qual julga (Jó 22:13).

Deus quer que vivamos pela fé, não pelos sentidos, pois isso convém a um estado de provação. Não seria uma prova justa se a face do trono de Deus fosse visível agora como será no grande dia.

Para que seu trono excelso, de brilho indescritível,
não oprima nossa vista com glória que mata,
ele ergue, para quebrar o fulgor ofuscante,
um anteparo de sombras negras e estende suas nuvens entre o trono e nós.

Sir R. Blackmore.

(4.) Os ornamentos luminosos do céu são obra de suas mãos (v. 13). Por seu Espírito, o Espírito eterno que se movia sobre a face das águas, o sopro de sua boca (Salmos 33:6), ele adornou os céus: não apenas os fez, mas os embelezou.

Salpicou-os primorosamente de estrelas à noite e pintou-os com a luz do sol durante o dia. Deus fez o homem olhar para cima — Os homini sublime dedit, deu ao homem o rosto erguido — e, por isso, adornou os céus para convidá-lo a erguer o olhar.

Ao deleitar seus olhos com a luz ofuscante do sol e o brilho cintilante das estrelas, seu número, sua ordem e seus tamanhos variados, como tantas tachas de ouro que embelezam o dossel estendido sobre nossas cabeças, Deus o conduz a admirar o grande Criador, Pai e fonte das luzes, e a dizer:

“Se o chão está tão ricamente incrustado, como será o palácio! Se os céus visíveis são tão gloriosos, como serão os que não podemos ver!” Da bela ornamentação da antecâmara podemos inferir o mobiliário precioso da sala de audiência. Se as estrelas brilham tanto, como serão os anjos!

Não é certo o que significa aqui a serpente tortuosa que suas mãos formaram. Alguns a consideram parte da ornamentação dos céus: a Via Láctea, segundo uns; uma constelação específica assim chamada, segundo outros.

É a mesma palavra usada para leviatã (Isaías 27:1), e provavelmente se refere à baleia ou ao crocodilo, criaturas em que se manifesta muito do poder do Criador. Por que Jó não poderia terminar com essa inferência, se o próprio Deus o faz? Veja Jó 41.

II. Jó conclui, por fim, com um reverente et cetera (v. 14): “Eis que estas são partes de seus caminhos”, as manifestações de sua sabedoria e de seu poder, os caminhos por onde anda e pelos quais se dá a conhecer aos filhos dos homens. Aqui:

  1. Reconhece com adoração o que foi revelado de Deus. O que ele mesmo e Bildade disseram são caminhos de Deus; algo disso se ouve a respeito dele: é uma parte do conhecimento de Deus.

  2. Admira a profundidade do que permanece oculto. O que disseram é apenas parte dos caminhos de Deus, uma parte pequena. O que sabemos de Deus é nada em comparação com o que há nele e com o que ele é.

Depois de todas as revelações que Deus nos fez e de todas as investigações que fizemos a seu respeito, ainda sabemos muito pouco dele e precisamos concluir: “Eis que estas são apenas partes de seus caminhos.”

Ouvimos algo a seu respeito por suas obras e por sua palavra; mas, ah, quão pequena parte dele é ouvida! Quão pouco ouvimos dele e quão pouco os outros ouvem de nós a seu respeito! Conhecemos em parte e profetizamos em parte.

Depois de dizer tudo o que podemos a respeito de Deus, precisamos fazer como São Paulo (Romanos 11:33): sem esperança de alcançar o fundo, sentar-nos à beira do abismo e adorar sua profundidade: “Ó profundidade da sabedoria e do conhecimento de Deus!”

É apenas uma pequena parte do que ouvimos e sabemos de Deus em nossa condição atual. Ele é infinito e incompreensível; nosso entendimento e nossa capacidade são fracos e limitados, e a revelação plena da glória divina está reservada para o estado futuro.

Não conseguimos compreender sequer o trovão de seu poder, isto é, seu poderoso trovão, uma das manifestações mais baixas de seus caminhos, aqui em nossa própria região. Veja Jó 37:4, 5.

Muito menos podemos compreender a máxima força e extensão de seu poder, suas manifestações e suas operações terríveis, especialmente o poder de sua ira (Salmos 90:11). Deus é grande, e não o conhecemos.


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