Jó 25
Argumento
Bildade responde aqui muito brevemente ao último discurso de Jó, como alguém que começava a cansar-se da causa. Deixa de lado a questão principal sobre a prosperidade dos perversos, pois não conseguia responder às provas apresentadas por Jó no capítulo anterior.
Mas, por julgar que Jó havia tomado liberdade excessiva com a majestade divina em seus apelos ao tribunal divino (Jó 23), Bildade mostra em poucas palavras a distância infinita entre Deus e o homem, ensinando-nos: I. A ter um conceito elevado e honroso de Deus, v. 2, 3, 5. II. A ter um conceito humilde de nós mesmos, v. 4, 6.
Embora tenham sido mal aplicadas a Jó, essas são duas boas lições para todos nós aprendermos.
Versículos 1 a 6
Deus Exaltado e o Homem Humilhado. (a.C. 1520.)
Bildade merece elogio aqui por duas coisas: 1. Por não continuar falando do assunto em que discordava de Jó.
Talvez começasse a pensar que Jó tinha razão; nesse caso, era justo não dizer mais nada sobre o assunto, como alguém que contendia pela verdade, não pela vitória, e que, para encontrar a verdade, aceitaria perder a disputa.
Ou, se ainda pensava ter razão, sabia que já dissera o suficiente e não continuaria altercando sem fim apenas para ter a última palavra. Talvez uma razão pela qual ele e os demais abandonaram esse debate fosse perceberem que não discordavam tanto de Jó quanto supunham.
Eles admitiam que os perversos podiam prosperar por algum tempo, e Jó admitia que seriam destruídos no fim. Quão pequena, então, era a diferença! Se os debatedores se compreendessem melhor, talvez descobrissem que suas posições eram mais próximas do que imaginavam.
- Por falar tão bem da questão em que ele e Jó concordavam. Se todos nós enchêssemos o coração de pensamentos reverentes sobre Deus e humildes sobre nós mesmos, não estaríamos tão propensos como estamos a entrar em desavença por assuntos de discussão duvidosa, triviais ou complexos.
Bildade emprega aqui duas maneiras de exaltar a Deus e humilhar o homem:
I. Mostra quão glorioso Deus é e daí conclui quão culpado e impuro o homem é diante dele, vv. 2-4. Vejamos, então:
- Que coisas grandiosas se dizem aqui sobre Deus, com o propósito de infundir reverência em Jó e conter suas críticas a Deus e ao modo como ele o trata:
(1.) Deus é o Senhor soberano de tudo, e com ele está a majestade temível. “Domínio e temor estão com ele”, v. 2. Aquele que deu existência a tudo tem autoridade incontestável para dar leis e pode fazer cumprir as leis que dá.
Aquele que fez todas as coisas tem o direito de dispor de todas segundo a própria vontade, com soberania absoluta. Tudo o que deseja fazer, faz e pode fazer; ninguém lhe pode perguntar “Que fazes?” (Daniel 4:35) ou “Por que fazes assim?”
Seu domínio, ou o fato de ser Dominus — Senhor —, indica que ele é tanto dono quanto governante de todas as criaturas. Todas lhe pertencem e estão sob sua direção e à sua disposição.
Daí se segue que ele deve ser temido, isto é, reverenciado e obedecido; que é temido por todos os que o conhecem — os serafins cobrem o rosto diante dele —; e que, cedo ou tarde, todos serão levados a temê-lo. O domínio humano muitas vezes é desprezível e desprezado, mas Deus é sempre temível.
(2.) Os gloriosos habitantes do mundo superior obedecem-lhe perfeitamente e aceitam por completo sua vontade: “Ele estabelece a paz em seus lugares altos.” Desfruta perfeita tranquilidade.
Os santos anjos nunca entram em desavença com ele nem uns com os outros; aceitam inteiramente sua vontade e a executam em unanimidade, sem murmurar nem discutir. Assim se faz a vontade de Deus no céu; e assim oramos para que nós e os outros a façamos na terra.
O sol, a lua e as estrelas seguem seus percursos sem jamais se chocar uns com os outros. Sim, até nesta região inferior, tantas vezes agitada por tormentas e tempestades, Deus, quando quer, ordena a paz e transforma a tormenta em calmaria, Salmos 107:29; 65:7.
Observe: os lugares altos são os seus lugares altos, pois “os céus, até os céus, pertencem ao Senhor” (Salmos 115:16) de maneira especial. A paz é obra de Deus; onde quer que seja estabelecida, é ele quem a estabelece, Isaías 57:19. No céu há paz perfeita porque ali há santidade perfeita e está Deus, que é amor.
(3.) Deus possui poder irresistível: “Há algum número para seus exércitos?”, v. 3. A grandeza e o poder dos príncipes são avaliados por seus exércitos. Deus não é apenas onipotente em si mesmo; tem sob seu comando e à sua disposição um número incontável de exércitos.
São exércitos permanentes, nunca dispensados; tropas regulares e bem disciplinadas, que nunca ficam sem rumo nem se veem perdidas, e nunca se amotinam; tropas veteranas, há muito a seu serviço; tropas vitoriosas, que nunca deixaram de alcançar êxito nem foram derrotadas.
Todas as criaturas compõem seus exércitos, especialmente os anjos. Ele é Senhor de tudo, Senhor dos Exércitos. Possui exércitos incontáveis e, ainda assim, estabelece a paz. Poderia guerrear contra nós, mas deseja estar em paz conosco.
Até as hostes celestiais foram enviadas para anunciar paz na terra e boa vontade para com os homens, Lucas 2:14.
(4.) Sua providência se estende a todos: “Sobre quem não nasce sua luz?” A luz do sol alcança todas as partes do mundo e, considerado o ano inteiro, a todas por igual. Veja Salmos 19:6.
Isso é um pálido reflexo do conhecimento e do cuidado universais que Deus tem de toda a criação, Mateus 5:45. Todos estão sob a luz de seu conhecimento, nus e expostos diante dele. Todos participam da luz de sua bondade; parece que é sobretudo disso que Bildade fala.
Deus é bom para todos, e a terra está cheia de sua bondade. Ele é Deus optimus — Deus, o melhor dos seres —, assim como maximus — o maior. Tem poder para destruir, mas prefere mostrar misericórdia. Todas as criaturas vivem de sua generosidade.
- Que coisas humilhantes, e muito verdadeiras e justas, se dizem aqui sobre o homem (v. 4): “Como, então, pode o homem ser justificado diante de Deus? Ou como pode ser puro?” O homem não é apenas insignificante, mas vil; não é apenas terreno, mas impuro. Não pode ser justificado nem pode ser puro:
(1.) Em comparação com Deus. A justiça e a santidade humanas, mesmo em sua melhor forma, nada são diante das de Deus, Salmos 89:6.
(2.) Em debate com Deus. Quem entrar em desavença com a palavra e a providência de Deus inevitavelmente levará a pior. Deus será reconhecido como justo, e o homem será condenado, Salmos 51:4; Romanos 3:4. Não há erro no julgamento de Deus; por isso, não cabe objeção nem recurso contra ele.
(3.) Diante dos olhos de Deus. Se ele é tão grande e glorioso, como pode o homem, culpado e impuro, apresentar-se diante dele? Repare:
[1.] Por causa de suas transgressões de fato cometidas, o homem está exposto à justiça de Deus e, por si mesmo, não pode ser justificado diante dele. Não pode alegar “Inocente” nem apresentar mérito próprio que compense ou atenue sua culpa. A Escritura encerrou todos debaixo do pecado.
[2.] Por causa de sua corrupção original, como alguém nascido de mulher, o homem é repugnante à santidade de Deus e não pode ser puro diante dele. Deus vê sua impureza, que certamente o torna inteiramente inapto para a comunhão e o convívio com Deus pela graça aqui e para a visão e o desfrute dele na glória futura.
Precisamos, portanto, nascer de novo da água e do Espírito Santo e ser banhados repetidas vezes no sangue de Cristo, essa fonte aberta.
II. Bildade mostra quão escuros e imperfeitos são até os corpos celestes diante de Deus e em comparação com ele; daí conclui quão pequeno, insignificante e sem valor é o homem:
- As luzes do céu, embora belas criaturas, são diante de Deus como torrões de terra (v. 5). Olhe até para a lua, que caminha em seu brilho, e para as estrelas, aquelas lâmpadas gloriosas do céu cujo esplendor encantou tanto os pagãos que eles as adoraram.
Contudo, aos olhos de Deus e em comparação com ele, elas não brilham, não são puras; não têm glória por causa da glória que as supera, assim como uma vela, embora acesa, não brilha quando colocada sob a luz clara do sol.
A glória de Deus, que resplandece em suas providências, ofusca a glória das criaturas mais brilhantes, Isaías 24:23. “A lua ficará confundida e o sol envergonhado quando o Senhor dos Exércitos reinar no monte Sião.”
Os corpos celestes muitas vezes ficam encobertos por nuvens. Vemos claramente manchas na lua e, com a ajuda de lentes, às vezes conseguimos discernir manchas também no sol.
Deus, porém, vê neles manchas que nós não vemos. Como, então, Jó ousaria apelar com tanta confiança a Deus, que descobriria nele erros dos quais o próprio Jó não tinha consciência?
- Os filhos dos homens, embora criaturas nobres, são diante de Deus apenas como vermes da terra (v. 6). Quanto menos o homem brilha em honra e quanto menos é puro em justiça, sendo um verme, e o filho do homem, seja ele quem for, outro verme!
É um bicho daninho, segundo alguns: não apenas insignificante e desprezível, mas nocivo e repugnante. É um ácaro, segundo outros: o menor dos animais, que não pode ser visto a olho nu, mas apenas por uma lente de aumento. Assim é o homem:
(1.) Tão insignificante, pequeno e sem importância em comparação com Deus e com os santos anjos; tão sem valor e desprezível, tendo sua origem na corrupção e caminhando para ela. Quão poucos motivos o homem tem para se orgulhar e quão grandes motivos para ser humilde!
(2.) Tão fraco e sem forças, tão fácil de esmagar e, portanto, adversário extremamente desigual para o Deus Todo-Poderoso. Seria o homem tolo a ponto de contender com seu Criador, que pode reduzi-lo a pedaços com mais facilidade do que nós podemos esmagar um verme?
(3.) Tão sórdido e imundo. O homem não é puro, pois é um verme, gerado na putrefação e, por isso, repugnante a Deus.
Admiremos, portanto, a condescendência de Deus ao receber vermes como nós em sua aliança e em comunhão consigo, sobretudo a condescendência do Filho de Deus, que se esvaziou a ponto de dizer: “Sou um verme, e não um homem”, Salmos 22:6.