Matthew Henry

Jó 23

Argumento

Este capítulo inicia a resposta de Jó a Elifaz. Nela, Jó não faz caso dos amigos, seja porque percebeu que isso não adiantaria, seja porque gostou tanto do bom conselho que Elifaz lhe deu ao fim do discurso que não quis responder às observações irritadiças com que ele começou.

Em vez disso, apela a Deus, pede que sua causa seja ouvida e não duvida de que conseguirá defendê-la, pois tem o testemunho da própria consciência acerca de sua integridade. Ao longo de todo o capítulo, parece haver uma luta entre a carne e o espírito, o temor e a fé.

I. Jó se queixa de sua condição desastrosa e, sobretudo, do afastamento de Deus, pelo qual não conseguia que seu recurso fosse ouvido (vv. 2-5), nem discernir o sentido do trato de Deus com ele (v. 8, 9), nem obter esperança alguma de alívio, v. 13, 14.

Isso o perturbou e aterrorizou profundamente, vv. 15-17. Mas, II. Em meio a essas queixas, consola-se com a certeza da clemência de Deus (v. 6, 7) e da própria integridade, da qual o próprio Deus era testemunha, vv. 10-12.

Assim, a luz de seu dia era como a descrita em Zacarias 14:6, 7: nem perfeitamente clara nem perfeitamente escura, mas ao entardecer havia luz.

A Resposta de Jó a Elifaz; Jó Apela do Homem para Deus. (a.C. 1520.)

Versículos 1 a 7

Jó tem certeza de que seus amigos lhe fizeram injustiça e, por isso, embora esteja tão mal, não desistirá da causa nem lhes deixará a última palavra. Aqui:

I. Ele justifica o que sente diante de sua aflição (v. 2): “Ainda hoje, reconheço, minha queixa é amarga”, pois a aflição, que dá motivo à queixa, também o é. Há absinto e fel na aflição e na miséria; sua alma ainda se lembra deles e por eles se amarga, Lamentações 3:19, 20.

“Ainda hoje minha queixa é considerada rebelião” (assim leem alguns). Seus amigos interpretavam as expressões inocentes de sua dor como críticas a Deus e à sua providência, e as chamavam de rebelião.

“Mas”, diz Jó, “não me queixo mais do que tenho motivo para fazê-lo, pois o golpe que recebi pesa mais do que meu gemido.”

“Ainda hoje, depois de tudo o que vocês disseram para me convencer e consolar, as dores do meu corpo e as feridas do meu espírito são tais que tenho motivos de sobra para me queixar, mesmo que minhas queixas fossem mais amargas do que são.”

Fazemos injustiça a Deus se nossos gemidos pesam mais do que o golpe recebido, como crianças teimosas que choram sem motivo e recebem, com justiça, um motivo para chorar. Mas não fazemos injustiça a nós mesmos quando o golpe pesa mais do que nossos gemidos, pois é fácil corrigir o pouco que se disse.

II. Jó apela das censuras dos amigos ao justo julgamento de Deus. Para ele, isso provava que não era hipócrita, pois, se fosse, não ousaria fazer tal apelo.

São Paulo se consolava por ser o Senhor quem o julgava e, por isso, pouco se importava com o julgamento humano (1 Coríntios 4:3, 4). Estava, porém, disposto a esperar até que chegasse o dia designado para a decisão.

Jó, ao contrário, está impaciente e deseja ardentemente antecipar o dia do juízo e ter sua causa julgada logo, como que por uma comissão especial.

O apóstolo julgou necessário insistir com os cristãos que sofriam para que esperassem pacientemente a vinda do Juiz, Tiago 5:7-9.

  1. Jó tem tanta certeza da retidão do tribunal de Deus que anseia por comparecer diante dele (v. 3): “Ah, se eu soubesse onde poderia encontrá-lo!” Isso pode expressar bem os anseios piedosos da alma convencida de que perdeu a Deus pelo pecado e estará arruinada para sempre se não recuperar seu lugar no favor divino.

“Ah, se eu soubesse como recuperar seu favor! Como poderia entrar em sua aliança e comunhão com ele!”, Miquéias 6:6, 7.

É o clamor de uma pobre alma abandonada: “Vocês viram aquele a quem minha alma ama? Ah, se eu soubesse onde poderia encontrá-lo! Ah, se aquele que abriu o caminho para si me dirigisse para ele e me conduzisse por ele!”

Aqui, porém, Jó parece queixar-se com ousadia excessiva de que seus amigos lhe fizeram injustiça e de que não sabia como recorrer a Deus para que lhe fizesse justiça; se soubesse, iria até o seu trono para exigi-la.

Esperar pacientemente a morte e o julgamento é nossa sabedoria e nosso dever; se pensarmos bem nessas coisas, não poderemos fazê-lo sem santo temor e tremor. Mas desejar impetuosamente a morte ou o julgamento, sem esse temor e tremor, é pecado e insensatez, e não nos convém.

Sabemos o que são a morte e o julgamento? Estamos tão prontos para eles que não precisamos de tempo para nos preparar melhor? Ai dos que, tomados pela impetuosidade, desejam o dia do Senhor, Amós 5:18.

  1. Jó tem tanta certeza da justiça de sua causa que anseia por expô-la diante do tribunal de Deus (v. 4): “Exporia minha causa diante dele e a apresentaria sob a verdadeira luz. Apresentaria em ordem apropriada as provas de minha sinceridade e encheria minha boca de argumentos para demonstrá-la.”

Podemos aplicar isso ao dever da oração, na qual temos confiança para entrar no lugar santíssimo e chegar até ao escabelo do trono da graça. Temos não só liberdade de acesso, mas também de fala. É-nos permitido:

(1.) Ser específicos em nossos pedidos: expor nossa causa diante de Deus, contar-lhe tudo e apresentar-lhe todas as nossas queixas na ordem que julgarmos mais apropriada. Não ousaríamos falar com tal liberdade aos príncipes da terra como uma alma humilde e santa pode falar a Deus.

(2.) Ser insistentes em nossos pedidos. Podemos não apenas orar, mas também pleitear; não apenas pedir, mas também argumentar; sim, encher a boca de argumentos.

Não para mover a Deus — ele conhece perfeitamente os méritos da causa sem que os mostremos —, mas para mover a nós mesmos, despertar nosso fervor e animar nossa fé na oração.

  1. Jó tem tanta certeza de receber uma sentença favorável que anseia até por ouvi-la (v. 5): “Conheceria as palavras com que ele me responderia”, isto é: “Gostaria muito de ouvir o que Deus dirá sobre esta disputa entre vocês e mim, e aceitarei plenamente seu julgamento.”

Isso nos convém em todas as controvérsias: deixemos que a palavra de Deus as decida; saibamos o que ele responde e compreendamos o que diz. Jó sabia muito bem o que seus amigos lhe responderiam: iriam condená-lo e desacreditá-lo.

“Mas”, diz ele, “gostaria de saber o que Deus me responderia, pois tenho certeza de que seu julgamento corresponde à verdade, ao contrário do julgamento deles. Não consigo compreendê-los: o que dizem vem tão pouco ao caso. Mas compreenderia o que Deus dissesse e, por isso, ficaria plenamente satisfeito.”

III. Jó se consola com a esperança de que Deus o trataria com favor nessa questão, v. 6, 7. Repare: em tudo o que temos a tratar com Deus, é muito útil conservar bons pensamentos a respeito dele. Jó crê:

  1. Que Deus não o esmagaria com seu poder nem o trataria por soberania absoluta ou por justiça estrita, nem com mão elevada ou mão forte: “Contenderá comigo com seu grande poder?” Não.

Os amigos de Jó usaram contra ele todo o poder que tinham; mas Deus faria o mesmo? Não. Seu poder é inteiramente justo e santo, seja qual for a natureza do poder dos homens.

Deus contenderá com seu grande poder contra os que persistem obstinados na incredulidade e na falta de arrependimento; a destruição deles virá da glória de seu poder. Mas tratará com terna compaixão os seus, que o amam e confiam nele.

  1. Que, ao contrário, Deus o fortaleceria para defender diante dele a própria causa: “Ele me daria força para me sustentar e amparar enquanto defendesse minha integridade.”

Repare: o mesmo poder que age contra pecadores orgulhosos age em favor dos santos humildes, que prevalecem com Deus mediante a força dele recebida, como Jacó, Oseias 12:3. Veja Salmos 68:35.

  1. Que o desfecho certamente lhe traria consolo, v. 7. Ali, no tribunal do céu, quando a sentença final for pronunciada, “o justo poderia discutir com ele” e sair de lá com sua justiça reconhecida.

Agora, mesmo os íntegros muitas vezes são disciplinados pelo Senhor e não podem contestar isso. A integridade, por si só, não protege nem da calamidade nem da calúnia; mas naquele dia eles não serão condenados com o mundo, embora Deus possa afligi-los por sua prerrogativa.

Então se distinguirá entre o justo e o perverso (Malaquias 3:18), tão grande será a diferença entre eles em seu estado eterno. Agora mal conseguimos distingui-los, tão pequena é a diferença entre eles quanto à condição exterior, pois tudo acontece igualmente a todos.

Então, quando for dada a sentença final, Jó poderá dizer: “Serei libertado para sempre de meu Juiz”, isto é: “Serei salvo das censuras injustas de meus amigos e daquela sentença divina que agora tanto me aterroriza.”

Os que são entregues a Deus como seu dono e governante serão libertados para sempre dele como juiz e vingador. Não há como fugir de sua justiça senão fugindo para sua misericórdia.

Versículos 8 a 12

O Mistério da Providência. (a.C. 1520.)

Aqui, I. Jó se queixa de não conseguir compreender o sentido das providências de Deus a seu respeito; está completamente perdido quanto a elas (v. 8, 9): “Vou adiante, mas ele não está lá”, etc. Elifaz lhe recomendara que procurasse conhecer a Deus.

“É o que eu faria de todo o coração”, diz Jó, “se soubesse como conhecê-lo.” Ele próprio desejava muito comparecer diante de Deus e conseguir que sua causa fosse ouvida, mas não encontrava o Juiz. Para onde quer que olhasse, não via sinal de que Deus surgiria em seu favor para deixar clara sua inocência.

Jó certamente cria que Deus está presente em toda parte; mas parece que se queixa aqui de três coisas:

  1. De não conseguir firmar os pensamentos nem formar na própria mente um juízo claro das coisas. Sua mente estava tão agitada e perturbada pelas aflições que ele parecia alguém tomado de medo ou sem saber o que fazer, correndo de um lado para outro, mas, em meio à confusão, sem chegar a conclusão alguma.

Por causa da desordem e do tumulto em seu espírito, não conseguia fixar-se no que sabia a respeito de Deus. Se ao menos pudesse unir a isso a fé e meditar nessas verdades, encontraria nelas amparo. É queixa comum dos doentes ou melancólicos que, quando querem pensar no que é bom, não conseguem tirar proveito disso.

  1. De não conseguir descobrir a causa de suas aflições nem o pecado que provocara Deus a contender com ele. Examinou toda a sua conduta, observou-a de todos os lados e não percebeu em que teria pecado mais que os outros para ser castigado mais que eles. Tampouco conseguia discernir que outro propósito Deus poderia ter ao afligi-lo assim.

  2. De não conseguir prever o desfecho disso tudo: se Deus o libertaria e, caso o fizesse, quando e de que modo.

Não via seus sinais, nem havia quem lhe dissesse até quando, como se queixa a igreja, Salmos 74:9. Estava completamente perdido quanto ao que Deus pretendia fazer com ele; e, qualquer que fosse a hipótese que formulasse, surgia sempre algo contra ela.

II. Jó se satisfaz com o fato de que o próprio Deus era testemunha de sua integridade e, por isso, não duvida de que o desfecho seria bom.

  1. Depois de quase se perder no labirinto dos conselhos divinos, com quanta serenidade ele por fim se detém neste pensamento: “Embora eu não conheça o caminho que ele segue” — pois seu caminho está no mar e sua vereda, nas grandes águas, seus pensamentos e caminhos estão infinitamente acima dos nossos, e seria presunção pretendermos julgá-los —, “ele conhece o caminho que sigo”, v. 10.

Isso significa: (1.) Deus conhece esse caminho. Os amigos de Jó julgavam o que não conheciam e, por isso, o acusavam de coisas das quais nunca fora culpado; Deus, porém, que conhecia cada passo que Jó dera, não agiria assim, Salmos 139:3.

Repare: é grande consolo para os que têm intenções honestas saber que Deus as compreende, mesmo quando as pessoas não as compreendem, não conseguem compreendê-las ou não querem fazê-lo.

(2.) Deus aprova esse caminho: “Sabe que, embora por vezes eu tenha dado um passo em falso, tenho seguido um bom caminho, escolhi o caminho da verdade e, portanto, ele o conhece”, isto é, o aceita e se agrada dele, assim como se diz que conhece o caminho dos justos, Salmos 1:6.

Isso consolava o profeta, Jeremias 12:3: “Tu provaste meu coração para contigo.” Daí Jó infere: “Quando me tiver provado, sairei como ouro.” Os que guardam o caminho do Senhor podem consolar-se, quando estão aflitos, com estas três coisas:

[1.] Que estão apenas sendo provados. A prova não visa prejudicá-los, mas trazer-lhes honra e benefício; é a prova de sua fé, 1 Pedro 1:7.

[2.] Que, quando tiverem sido suficientemente provados, sairão da fornalha e não serão deixados nela para ser consumidos como escória ou prata rejeitada. A prova terá um fim. Deus não contenderá para sempre.

[3.] Que sairão como ouro, puros em si mesmos e preciosos para o refinador. Sairão como ouro aprovado e aperfeiçoado: terão sua bondade comprovada e serão tornados melhores. As aflições são para nós conforme aquilo que somos; os que entram na fornalha como ouro não sairão dela piores.

  1. O que animava Jó a esperar que suas aflições presentes terminassem bem era o testemunho de sua consciência a seu favor: ele tinha levado uma vida boa no temor de Deus.

(1.) O caminho de Deus era aquele por onde andava (v. 11): “Meu pé se apegou a seus passos”, isto é, manteve-se junto deles e a eles aderiu firmemente, aos passos que Deus dá. “Procurei seguir seu exemplo.” As pessoas boas seguem a Deus.

Ou então: “Adaptei-me à sua providência e procurei corresponder a todos os seus desígnios, seguindo a Providência passo a passo.” Ou ainda: “Seus passos são os passos que ele determinou para mim; o caminho da religião e da piedade sincera. Esse caminho guardei e dele não me desviei.”

Não só deixou de voltar atrás por uma apostasia total, como também de se desviar por alguma transgressão deliberada. O fato de apegar-se aos passos de Deus e guardar seu caminho indica que o tentador empregara todos os seus artifícios, por fraude e força, para desviá-lo.

Jó, porém, até então perseverara pela graça de Deus, com cuidado e firmeza. Quem quiser fazer o mesmo deve apegar-se e guardar: apegar-se com determinação e guardar com vigilância.

(2.) A palavra de Deus era a regra pela qual andava, v. 12. Governava-se pelo mandamento dos lábios de Deus e não voltaria atrás dele, mas seguiria adiante conforme esse mandamento.

Quaisquer que sejam as dificuldades que encontremos no caminho dos mandamentos de Deus, ainda que nos conduzam através de um deserto, nunca devemos pensar em voltar, mas prosseguir rumo ao alvo.

Jó se apegava à lei de Deus em sua conduta, pois tanto seu juízo quanto seu afeto o levavam a isso: “Estimei as palavras de sua boca mais do que meu alimento necessário.” Isto é, considerava-as seu alimento necessário; não conseguiria viver sem a palavra de Deus, assim como não conseguiria viver sem o pão de cada dia.

“Guardei-a” (assim diz a palavra), como quem armazena provisões para um cerco ou como José armazenou trigo antes da fome. Elifaz lhe dissera que guardasse as palavras de Deus no coração, Jó 22:22.

“É o que faço”, diz Jó, “e sempre fiz, para não pecar contra ele e para, como o bom pai de família, tirar dali coisas que beneficiassem os outros.” Repare: a palavra de Deus é para nossa alma o que o alimento necessário é para nosso corpo. Sustenta a vida espiritual e nos fortalece para as atividades da vida.

É aquilo sem o qual não podemos subsistir e cuja falta nada mais pode suprir. Devemos, portanto, estimá-la dessa maneira: esforçar-nos para obtê-la, ter fome dela, alimentar-nos dela com prazer e nutrir com ela a nossa alma. Isso será motivo de alegria para nós no dia da adversidade, assim como foi para Jó aqui.

Versículos 13 a 17

O Consolo de Jó em Sua Integridade. (a.C. 1520.)

Alguns entendem que Jó se queixa aqui de que Deus agiu com ele de modo injusto e sem equidade, castigando-o sem o menor abrandamento ou alívio, embora ele tivesse provas incontestáveis de sua inocência para apresentar.

Reluto em pensar que o santo Jó acusaria o Deus santo de iniquidade. Sua queixa, porém, é de fato amarga e irritada, e ele raciocina até chegar a uma espécie de paciência forçada.

Não consegue fazê-lo sem insinuar que Deus o trata com dureza, mas tem de suportar isso porque não pode evitá-lo. O pior que diz é que Deus age com ele de maneira incompreensível.

I. Jó enuncia verdades boas, das quais poderia ter tirado bom proveito, v. 13, 14:

  1. Os conselhos de Deus são imutáveis: “Ele tem um só pensamento, e quem o pode fazer mudar?” Ele é um só (assim leem alguns) ou está unido em si mesmo. Não tem conselheiros cuja influência possa levá-lo a mudar seu propósito. Está em acordo consigo mesmo e nunca muda de ideia nem altera seus procedimentos.

A oração já conseguiu mudar o caminho de Deus e sua providência, mas nunca mudou sua vontade ou seu propósito, pois todas as obras de Deus lhe são conhecidas.

  1. Seu poder é irresistível: o que sua alma deseja ou planeja, isso mesmo ele faz; nada pode impedi-lo nem levá-lo a formular novos planos. As pessoas desejam muitas coisas que não lhes é permitido fazer, que não conseguem fazer ou que não ousam fazer.

Deus, porém, possui uma soberania incontestável. Sua vontade é tão perfeitamente pura e justa que é inteiramente adequado que realize todas as suas determinações. E seu poder é impossível de conter. Ninguém pode deter sua mão. “Tudo o que agradou ao Senhor, ele fez” (Salmos 135:6) e sempre fará, pois é sempre o melhor.

  1. Tudo o que Deus faz segue o conselho de sua vontade (v. 14): “Ele realiza aquilo que me foi determinado.” Seja o que for que nos aconteça, é Deus quem o realiza (Salmos 57:2), e o conjunto se revelará uma realização admirável quando o mistério de Deus se cumprir.

Ele realiza tudo o que foi determinado, e somente isso, no tempo e do modo determinados. Isso pode nos calar, pois não se pode alterar o que foi determinado.

Mas considerar que, quando Deus nos destinou à vida eterna e à glória como nosso fim, também determinou que passássemos por esta condição e por esta aflição, seja ela qual for, em nosso caminho, pode fazer mais do que nos calar. Pode convencer-nos de que tudo é para o melhor. Embora agora não saibamos o que ele faz, saberemos depois.

  1. Tudo o que Deus faz segue o curso habitual de sua providência: “Muitas coisas assim há com ele.” Isto é, no curso de sua providência Deus faz muitas coisas que não conseguimos explicar e que precisamos atribuir à sua soberania absoluta.

Seja qual for a aflição em que nos encontremos, outros já passaram por algo semelhante. Nosso caso não é singular; as mesmas aflições se cumprem em nossos irmãos, 1 Pedro 5:9.

Estamos doentes ou doloridos, empobrecidos e despojados? Nossos filhos morreram ou nossos amigos nos tratam sem bondade? Foi isso que Deus determinou para nós, e muitas coisas assim há com ele. Acaso a terra será abandonada por nossa causa?

II. Jó, porém, faz mau uso dessas boas verdades. Se as tivesse considerado devidamente, poderia ter dito: “Por isso estou tranquilo e contente, em plena paz com o caminho pelo qual meu Deus me conduz; por isso me alegrarei na esperança de que minhas aflições terão, no fim, um bom desfecho.”

Mas ele disse: “Por isso me perturbo em sua presença”, v. 15. Têm de fato o espírito perturbado os que se perturbam com a presença de Deus, como o salmista, que se lembrou de Deus e ficou perturbado, Salmos 77:3.

Veja quão confuso estava o pobre Jó, pois se contradizia: há pouco se perturbava com a ausência de Deus (v. 8, 9); agora se perturba com sua presença. “Quando considero, tenho medo dele.” O que sentia naquele momento o levava a temer algo pior.

De fato, há algo que, se o considerarmos, nos mostrará que temos motivos para temer a Deus: sua justiça e pureza infinitas, comparadas à nossa pecaminosidade e vileza. Mas, se também considerarmos sua graça em um Redentor e nossa aceitação dessa graça, nossos temores desaparecerão e veremos motivos para nele esperar.

Veja que marcas as feridas de seu espírito deixaram nele:

  1. Jó sentia muito medo (v. 16): o Todo-Poderoso o perturbou e, assim, amoleceu-lhe o coração, deixando-o inteiramente incapaz de suportar qualquer coisa e temeroso de tudo o que se movia.

Há uma brandura concedida pela graça, como a de Josias, cujo coração era sensível e tremia diante da palavra de Deus. Aqui, porém, trata-se de uma brandura penosa, que vê em tudo o que está presente uma pressão e em tudo o que virá uma ameaça.

  1. Jó estava muito irritado, de fato impaciente, pois entra em desavença com Deus: (1.) Porque não morreu antes das aflições e, assim, teria deixado de vê-las (“Porque não fui eliminado antes das trevas”, v. 17).

No entanto, se no auge da prosperidade tivesse recebido uma convocação para a sepultura, teria considerado isso duro.

Isso pode ajudar-nos a aceitar a morte quando ela vier, pois não sabemos de que mal ela pode nos livrar. Mas, quando a aflição chega, é insensatez desejar não ter vivido para vê-la; melhor é enfrentá-la da melhor maneira possível.

(2.) Porque foi deixado vivo por tanto tempo em meio às aflições, e as trevas não foram encobertas de seu rosto por ele ter sido escondido na sepultura.

Suportaríamos as trevas melhor do que Jó as suportou se lembrássemos que, às vezes, uma luz maravilhosa surge nas trevas para os íntegros. De todo modo, uma luz ainda mais maravilhosa está reservada para eles depois delas.


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