Jó 22
Argumento
Elifaz conduz aqui um terceiro ataque contra o pobre Jó. Bildade o acompanhou, mas Zofar recuou e deixou o campo. Uma das infelicidades de Jó, como acontece com muitos homens honestos, foi ser mal compreendido pelos amigos.
Ele havia falado da prosperidade dos ímpios neste mundo como um mistério da Providência, mas eles entenderam isso como uma crítica à Providência, como se ela favorecesse a maldade daqueles homens, e o desacreditaram por isso.
Neste capítulo, I. Elifaz o repreende por suas queixas contra Deus e pelo modo como Deus o trata, como se Jó pensasse que Deus lhe fez uma injustiça, vv. 2-4. II. Acusa-o de muitos crimes graves e transgressões, pelos quais supõe que Deus agora o castiga: 1. Opressão e injustiça, vv. 5-11. 2. Ateísmo e incredulidade, vv. 12-14.
III. Compara o caso dele ao do mundo antigo, vv. 15-20. IV. Dá-lhe conselhos muito bons e assegura que, se os aceitasse, Deus voltaria a tratá-lo com misericórdia e ele recuperaria sua antiga prosperidade, vv. 21-30.
Versículos 1 a 4
Terceiro Discurso de Elifaz. (a.C. 1520.)
Elifaz insinua aqui que, por Jó se queixar tanto de suas aflições, ele julgava Deus injusto por afligi-lo; mas era uma insinuação forçada. Jó estava longe de pensar assim. Portanto, o que Elifaz diz aqui é aplicado injustamente a Jó, embora seja, em si, muito verdadeiro e bom:
I. Que, quando Deus nos faz o bem, não é porque esteja em dívida conosco. Se estivesse, haveria algum motivo para dizer, quando ele nos aflige: “Ele não nos trata com justiça”. Mas quem alegar ter feito de Deus seu devedor por alguma ação meritória prove essa dívida, e certamente não a perderá, Romanos 11:35. “Quem lhe deu, e isso lhe será recompensado de novo?”
Elifaz mostra aqui, porém, que a justiça e a perfeição do melhor homem do mundo não trazem benefício ou vantagem real para Deus e, por isso, não podem ser consideradas mérito que dê direito a receber coisa alguma dele.
- A piedade do homem não traz proveito nem ganho para Deus, v. 1, 2. Se pudéssemos merecer alguma coisa de Deus, seria por nossa piedade, por sermos justos e tornarmos perfeito o nosso caminho. Se isso não constitui mérito, certamente nada mais constituirá.
Se um homem não pode fazer de Deus seu devedor por sua devoção, honestidade e obediência às leis divinas, muito menos poderá fazê-lo por sua inteligência, erudição e sagacidade mundana.
Elifaz pergunta aqui se algum homem pode de algum modo ser útil a Deus. É certo que não pode, de maneira alguma. Quem é sábio pode ser útil a si mesmo. Repare: nossa sabedoria e piedade são aquilo por meio do qual nós mesmos obtemos e provavelmente obteremos grande proveito.
“A sabedoria é proveitosa para dirigir”, Eclesiastes 10:10. “A piedade para tudo é proveitosa”, 1 Timóteo 4:8. “Se fores sábio, para ti mesmo serás sábio”, Provérbios 9:12.
Os ganhos da religião são infinitamente maiores que suas perdas, e isso ficará evidente quando forem pesados. Mas pode o homem ser assim útil a Deus? Não, pois Deus é tão perfeito que não pode receber benefício ou vantagem alguma dos homens.
O que se pode acrescentar ao que é infinito? E o homem é tão fraco e imperfeito que não pode oferecer benefício ou vantagem alguma a Deus. Poderia a luz de uma vela beneficiar o sol, ou a gota de um balde, o oceano?
Quem é sábio é útil a si mesmo, para sua própria orientação e defesa, seu próprio crédito e consolo; pode entreter-se e enriquecer-se com sua sabedoria. Mas pode, do mesmo modo, ser útil a Deus? Não. Deus não precisa de nós nem dos nossos serviços. Sem ele estamos arruinados, arruinados para sempre; mas ele é feliz, feliz para sempre, sem nós.
É algum ganho para ele, algum acréscimo real à sua glória ou riqueza, que tornemos perfeito o nosso caminho? Suponhamos que fosse absolutamente perfeito: o que Deus ganharia com isso? Muito menos ganharia quando nosso caminho está tão longe da perfeição.
- Tampouco isso lhe dá prazer. De fato, Deus declarou em sua palavra que se agrada dos justos; seu rosto os contempla, e ele se deleita neles e em suas orações.
Mas nada disso acrescenta coisa alguma à satisfação e ao contentamento infinitos que a Mente Eterna encontra em si mesma. Deus pode desfrutar de si mesmo sem nós, embora nós pouco possamos desfrutar de nós mesmos sem nossos amigos.
Isso engrandece sua condescendência: embora nossos serviços não lhe tragam proveito ou prazer real, ele nos convida a prestá-los, anima-nos a fazê-lo e os aceita.
II. Quando Deus nos restringe ou repreende, não é porque esteja em perigo por nossa causa ou tenha receio de nós (v. 4): seria por temer Jó que Deus o censuraria e o rebaixaria da prosperidade, receoso de que ele se tornasse grande demais, como às vezes os príncipes julgaram prudente conter a grandeza crescente de um súdito, para que não se tornasse temível?
Satanás, de fato, sugeriu aos nossos primeiros pais que Deus lhes havia proibido a árvore do conhecimento por temê-los, para que não se tornassem como deuses e, assim, seus rivais; mas essa foi uma insinuação vil. Deus repreende os bons porque os ama, mas nunca repreende os grandes porque os teme.
Ele não entra em juízo com os homens, isto é, não procura uma desavença com eles nem ocasião contra eles por temer que ofusquem sua honra ou ponham seus interesses em risco. Os magistrados castigam os infratores por temê-los. Faraó oprimiu Israel porque temia os israelitas.
Foi por medo que Herodes abateu as crianças de Belém e que os judeus perseguiram Cristo e seus apóstolos. Deus, porém, não perverte a justiça por medo de ninguém, como eles fizeram. Veja Jó 35:5-8.
Versículos 5 a 13
Jó Acusado de Vários Crimes. (a.C. 1520.)
Elifaz e seus companheiros haviam condenado Jó, em termos gerais, como homem ímpio e hipócrita. Nenhum deles, porém, havia entrado em detalhes ou formulado acusações específicas contra ele, até Elifaz fazê-lo aqui.
Agora ele o acusa expressa e categoricamente de muitos crimes graves e transgressões que, se Jó realmente os tivesse cometido, bem poderiam justificar as duras censuras que lhe fizeram.
“Vamos”, diz Elifaz, “já faz tempo demais que rodeamos o assunto, delicados demais com Jó e receosos de entristecê-lo, o que só o confirmou em sua autojustificação. Já é hora de falar-lhe com franqueza.”
“Condenamo-lo por meio de parábolas, mas isso não alcança o objetivo: não conseguimos levá-lo a condenar a si mesmo. Portanto, precisamos dizer-lhe claramente: Tu és o homem, o tirano, o opressor, o ateu de quem falamos todo esse tempo.”
“Não é grande a tua maldade? Certamente é; caso contrário, teus sofrimentos não seriam tão grandes. Apelo a ti mesmo e à tua consciência: não são infinitas as tuas iniquidades, tanto em número quanto em gravidade?”
Em sentido estrito, nada é infinito além de Deus. Elifaz quer dizer, porém, que os pecados de Jó eram mais numerosos do que se podia contar e mais graves do que se podia conceber. O pecado, por ser cometido contra a Majestade Infinita, encerra em si uma espécie de malignidade infinita.
Mas, quando Elifaz faz acusações tão graves contra Jó e se arrisca a entrar em detalhes, atribuindo-lhe aquilo de que nada sabia, podemos aproveitar a ocasião para: 1. Indignar-nos com aqueles que censuram e condenam injustamente seus irmãos.
Até onde sei, Elifaz, ao acusar Jó falsamente como faz aqui, cometeu um pecado e uma injustiça contra ele tão grandes quanto os dos sabeus e caldeus que o roubaram; pois o bom nome de uma pessoa é mais precioso e valioso do que sua riqueza.
Contraria todas as leis da justiça, da caridade e da amizade criar ou acolher calúnias, suspeitas e conjecturas maldosas a respeito dos outros. É ainda mais vil e pouco franco quando atormentamos desse modo os aflitos e aumentamos seu sofrimento.
Elifaz não podia apresentar nenhum caso que provasse a culpa de Jó em qualquer dos pontos que seguem, mas parece decidido a caluniá-lo ousadamente e a lançar sobre ele todo o descrédito possível, sem duvidar de que algo ficaria grudado nele.
- Ter compaixão dos que são assim censurados e condenados. Nem mesmo a inocência protegerá alguém contra uma língua falsa e maldosa. Jó, a quem o próprio Deus elogiou como o melhor homem do mundo, é aqui retratado por um de seus amigos, também sábio e bom, como um dos maiores vilões que existem.
Não estranhemos se um dia formos difamados dessa maneira; aprendamos a deixar passar tanto a má fama quanto a boa e a entregar nossa causa, como Jó entregou a sua, àquele que julga com justiça.
Vejamos os pontos específicos dessa acusação.
I. Ele o acusou de opressão e injustiça: quando gozava de prosperidade, Jó não somente deixou de fazer o bem com sua riqueza e seu poder, como também causou muito dano por meio deles. Isso era inteiramente falso, como mostra o relato que Jó faz de si mesmo (Jó 29:12, etc.) e o testemunho que Deus deu a respeito dele em Jó 1. Ainda assim:
- Elifaz desdobra essa acusação em diversos pontos, com tanta segurança como se pudesse chamar testemunhas para provar cada um deles sob juramento. Diz-lhe: (1.) Que havia sido cruel e impiedoso com os pobres.
Como magistrado, Jó deveria tê-los protegido e providenciado o necessário para eles; Elifaz, porém, suspeita que nunca lhes fez bem algum, mas todo o dano que seu poder lhe permitia fazer.
Por uma dívida insignificante, teria exigido e tomado à força um penhor de grande valor, até mesmo de seu irmão, cuja honestidade e solvência não podia desconhecer (v. 6): “Tomaste penhor de teu irmão por nada”. Ou, como lê a Septuaginta: “Tomaste teus irmãos como penhores”, e isso por nada; prendeu-os e escravizou-os porque não tinham com que pagar.
Teria tomado as próprias roupas de seus arrendatários e devedores insolventes, despindo-os e deixando-os nus (a lei de Moisés proibia isso, Êxodo 22:26; Deuteronômio 24:13). Não teria sido caridoso com os pobres, nem sequer com viajantes necessitados e viúvas pobres:
“Não deste nem mesmo um copo de água fria ao cansado para beber, embora nada te custasse, quando ele te pediu” (v. 7) e estava prestes a morrer por falta dela. “Ou melhor: retiveste o pão do faminto em sua extrema necessidade. Não apenas deixaste de dá-lo, mas proibiste que o dessem”, o que é negar o bem a quem de fato tem direito a ele, Provérbios 3:27.
“Viúvas pobres, que não incomodavam ninguém enquanto seus maridos viviam, mas agora precisavam buscar socorro, mandaste embora de tua porta de mãos vazias e coração triste”, v. 9. “Aqueles que vinham a ti em busca de justiça, despediste sem ouvi-los e sem ajudá-los. Ou melhor: embora viessem com algo, tu os espremias e os mandavas embora sem nada.”
“E, pior que tudo, os braços dos órfãos foram quebrados. Aqueles que mal podiam ajudar a si mesmos, tu os incapacitaste inteiramente de fazê-lo.”
Essa parte, a mais sombria da acusação, é apenas insinuada: “Os braços dos órfãos foram quebrados”. Ele não diz: “Tu os quebraste”, mas quer que isso seja entendido. Se foram quebrados e os que têm poder não os socorrem, estes também são responsáveis.
“Foram quebrados por teus subordinados, e tu fechaste os olhos para isso, o que te torna culpado.” (2.) Que Jó havia favorecido os ricos e poderosos (v. 8): “Quanto ao homem poderoso, se era culpado de algum crime, ninguém o questionava por isso. Ele possuía a terra e nela habitava.”
“Se movesse uma ação, por mais injusta que fosse, ou se uma ação inteiramente justa fosse movida contra ele, tinha certeza de vencer a causa em teus tribunais.”
“Os pobres não recebiam alimento à tua porta, enquanto os ricos eram festejados à tua mesa.” A regra de Cristo para a hospitalidade é contrária a isso (Lucas 14:12-14); e Salomão diz que quem dá ao rico acabará na pobreza.
- Ele atribui todos os sofrimentos presentes de Jó a esses supostos pecados (v. 10, 11): “Os que praticam tais coisas normalmente acabam exatamente na condição em que agora te encontras; por isso concluímos que és culpado delas.”
(1.) “A providência de Deus costuma contrariar e embaraçar essas pessoas; assim, há laços ao teu redor, de modo que, por onde quer que dês um passo ou olhes, te vês em aflição. Os outros te tratam com a mesma dureza com que trataste os pobres.”
(2.) “É de esperar que a consciência os aterrorize e acuse. Nenhum pecado clama ali mais alto do que a falta de misericórdia. Por isso, o medo repentino te perturba e, embora não queiras admiti-lo, é a culpa desse tipo que te causa todo esse terror.” Zofar já havia insinuado isso em Jó 20:19, 20.
(3.) “Eles ficam sem saber o que fazer, tão espantados e desnorteados que não encontram saída; e esse também é o teu caso. Estás em trevas, sem poder ver por que Deus contende contigo nem qual é o melhor caminho a tomar, pois uma abundância de águas te cobre”, isto é, “estás numa névoa, no meio de águas escuras, nas nuvens densas do céu”.
Repare: os que não demonstraram misericórdia podem justamente ser privados da esperança consoladora de encontrá-la. Que mais podem esperar, então, senão laços, trevas e medo constante?
II. Ele o acusou de ateísmo, incredulidade e impiedade flagrante, julgando que isso estava na raiz de sua injustiça e opressão: quem não temia a Deus não respeitava os homens.
Queria que se acreditasse que Jó era um epicurista, alguém que de fato reconhecia a existência de Deus, mas negava sua providência e imaginava que ele se limitava aos prazeres do mundo superior, sem jamais se ocupar dos habitantes e acontecimentos deste mundo.
- Elifaz recorreu a uma verdade importante que, em sua opinião, teria impedido Jó de se mostrar tão exaltado em suas queixas e tão ousado em se justificar, caso a tivesse considerado devidamente (v. 12): “Não está Deus na altura dos céus?” Sim, sem dúvida está.
Não há céu tão alto que Deus não esteja nele. Nos mais altos céus, os céus dos bem-aventurados, onde habita sua glória, ele está presente de modo especial.
Ali ele tem por bem manifestar-se de uma maneira própria do mundo superior e, dali, manifestar-se de maneira adequada a este mundo inferior. Ali estão seu trono e sua corte; ele é chamado de “Céus” em Daniel 4:26.
Assim, Elifaz prova que o homem não pode ser útil a Deus (v. 2), que não deve contender com Deus — e será tolo se o fizer — e que devemos sempre nos dirigir a ele com profundo respeito.
Quando contemplamos a altura das estrelas e o quanto estão elevadas, devemos, ao mesmo tempo, considerar a majestade transcendente de Deus, que está acima delas, e quão elevado ele é.
- Ele acusou Jó de fazer mau uso dessa doutrina, da qual poderia ter tirado tão bom proveito, v. 13. “Isso é deter a verdade em injustiça, combater a religião com as próprias armas dela e voltar sua própria artilharia contra ela: estás disposto a reconhecer que Deus está na altura dos céus, mas daí concluis: ‘Como Deus sabe?'”
Os maus expulsam do coração o temor de Deus ao banirem do mundo o olhar divino (Ezequiel 8:12); e não se importam com o que fazem, desde que consigam convencer a si mesmos de que Deus não sabe.
Elifaz suspeitava que Jó tinha esta ideia de Deus: como ele está na altura dos céus, (1.) seria impossível ver e ouvir o que se faz a uma distância tão grande quanto a desta terra.
Haveria ainda uma nuvem escura (v. 13), muitas nuvens densas (v. 14), entre ele e nós, cobrindo-o de modo que não pode ver e, muito menos, julgar os acontecimentos deste mundo inferior, como se Deus tivesse olhos de carne, Jó 10:4.
O firmamento que está entre nós é, para ele, transparente como cristal, Ezequiel 1:22. A distância no espaço não cria dificuldade alguma para aquele que preenche a imensidão, assim como a distância no tempo não cria dificuldade para aquele que é eterno.
Ou, (2.) estaria abaixo dele e diminuiria sua glória tomar conhecimento desta parte inferior da criação: “Ele anda pelo circuito dos céus e já tem muito que fazer desfrutando de si mesmo, de suas próprias perfeições e de sua glória naquele mundo luminoso e sereno. Por que se preocuparia conosco?”
Além de flagrante impiedade, essa é uma flagrante insensatez, que Elifaz atribui aqui a Jó. Ela supõe que administrar o governo seja um fardo e um rebaixamento para o governante supremo e que os atos de justiça e misericórdia sejam trabalhos penosos para uma mente infinitamente sábia, santa e boa.
Se o sol, criatura inanimada, consegue, com sua luz e influência, alcançar esta terra e todas as suas partes (Salmos 19:6), mesmo daquela imensa altura dos céus visíveis onde está e por cujo circuito anda, e atravessando tantas nuvens densas e escuras, haveríamos de questionar se o Criador pode fazê-lo?
Versículos 15 a 20
Juízos Executados contra os Ímpios. (a.C. 1520.)
Elifaz tentara provar a culpa de Jó, expondo diante dele os pecados que lhe atribuía. Agora procura despertá-lo para a percepção de sua miséria e do perigo em que o pecado o colocou, comparando seu caso ao dos pecadores do mundo antigo.
É como se dissesse: “Tua condição já é ruim, mas, se não te arrependeres, será pior, como foi a deles: os que foram cobertos por um dilúvio, como o mundo antigo (v. 16), e aqueles cujo remanescente o fogo consumiu” (v. 20), isto é, os sodomitas, que, em comparação com o mundo antigo, eram apenas um remanescente.
Esses dois exemplos da cólera de Deus contra o pecado e os pecadores são reunidos mais de uma vez como advertência a um mundo descuidado, tanto por nosso Salvador (Lucas 17:26, etc.) quanto pelo apóstolo, 2 Pedro 2:5, 6. Elifaz queria que Jó observasse o caminho antigo trilhado pelos ímpios (v. 15) e visse no que resultou, qual foi o fim desse caminho.
Repare: há um caminho antigo trilhado pelos ímpios. A religião mal havia começado quando o pecado a seguiu imediatamente. Mas, embora seja antigo, largo e muito percorrido, esse caminho é perigoso e conduz à destruição. É bom observá-lo para que não ousemos andar por ele.
Elifaz o lembra disso talvez em oposição ao que Jó havia dito sobre a prosperidade dos ímpios. É como se dissesse: “Talvez consigas encontrar aqui e ali um caso isolado de um ímpio que terminou seus dias em paz. Mas o que isso representa diante daqueles dois grandes exemplos da perdição final dos ímpios: o afogamento do mundo inteiro e o incêndio de Sodoma?”
Foram destruições em massa, nas quais Elifaz pensa que Jó pode ver o próprio rosto, como num espelho. Observe: 1. A ruína daqueles pecadores (v. 16): “Foram cortados antes do tempo”, isto é, eliminados no meio de seus dias.
Pela duração da vida humana naquela época, muitos deles poderiam, no curso natural das coisas, ter vivido ainda algumas centenas de anos; isso tornou sua eliminação precoce ainda mais penosa.
Foram cortados antes do tempo para serem precipitados na eternidade. Seu fundamento, a terra sobre a qual haviam edificado a si mesmos e todas as suas esperanças, foi coberto pelo dilúvio que veio sobre o mundo dos ímpios, 2 Pedro 2:5.
Repare: os que edificam sobre a areia escolhem um fundamento que será submerso quando caírem as chuvas e vierem as enxurradas (Mateus 7:27). Então sua construção inevitavelmente cairá, eles perecerão entre as ruínas e se arrependerão de sua insensatez quando já for tarde demais.
- O pecado daqueles pecadores, que trouxe tal ruína (v. 17): “Disseram a Deus: Retira-te de nós”. Jó havia falado de alguns que diziam isso e, ainda assim, prosperavam, Jó 21:14. “Mas estes não prosperaram”, diz Elifaz; “aprenderam à própria custa o que significa desafiar a Deus.”
Os que estavam decididos a soltar as rédeas dos próprios apetites e paixões começaram por isso: disseram a Deus que se retirasse. Abandonaram toda a religião, odiaram até pensar nela e desejaram viver sem Deus no mundo. Esquivaram-se da palavra dele e calaram a consciência, representante de Deus. “E que pode o Todo-Poderoso fazer em favor deles?”
Alguns entendem que isso indica a justiça de seu castigo: disseram a Deus “Retira-te de nós”; o que poderia o Todo-Poderoso fazer com eles senão eliminá-los? Os que não se submetem ao cetro de ouro de Deus devem esperar ser despedaçados por sua vara de ferro.
Outros entendem que isso indica a injustiça do pecado deles: mas que fez o Todo-Poderoso contra eles? Que iniquidade encontraram nele, ou em que ele os cansou? Miquéias 6:3; Jeremias 2:5. Outros ainda entendem que isso indica o motivo do pecado: dizem a Deus que se retire, perguntando o que o Todo-Poderoso pode fazer com eles.
“Que fez ele por nós para que lhe devamos algo? O que pode fazer por meio da cólera para nos tornar infelizes ou por meio do favor para nos tornar felizes?” Argumentam como em Sofonias 1:12: “O Senhor não fará bem, nem fará mal”. Elifaz mostra o absurdo disso numa só palavra, chamando Deus de Todo-Poderoso; pois, se ele é assim, o que não pode fazer?
Não é estranho, porém, que abandonem toda a religião aqueles que nem temem a cólera de Deus nem desejam seu favor. 3. O que agrava esse pecado: contudo, ele havia enchido de boas coisas as casas deles, v. 18. Tanto os habitantes do mundo antigo quanto os de Sodoma tinham grande abundância de todos os prazeres dos sentidos; comiam, bebiam, compravam, vendiam, etc. (Lucas 17:27).
Assim, não tinham razão para perguntar o que o Todo-Poderoso poderia fazer em favor deles, pois viviam da generosidade divina; tampouco tinham razão para mandar embora aquele que fora tão bondoso com eles. Muitos têm as casas cheias de bens e o coração vazio de graça, e assim estão marcados para a ruína.
- O protesto que Elifaz faz contra os princípios e as práticas daqueles ímpios: “Mas longe de mim o conselho dos ímpios”. Jó havia dito o mesmo (Jó 21:16), e Elifaz não quer ficar atrás dele. Se não conseguem concordar em seus próprios princípios acerca de Deus, concordam ao menos em rejeitar os princípios daqueles que vivem sem Deus no mundo.
Repare: os que discordam entre si em alguns assuntos religiosos e se envolvem em disputas sobre eles devem, ainda assim, opor-se juntos, com vigor, ao ateísmo e à irreligião. Devem cuidar para que suas disputas não enfraqueçam seu vigor nem sua união nessa causa comum de Deus, uma causa justa.
- O prazer e a satisfação que os justos terão nisso: (1.) Ao verem os ímpios destruídos, v. 19. Eles o verão, isto é, observarão e repararão no ocorrido (Oseias 14:9), e se alegrarão.
Não por verem seus semelhantes infelizes, nem por obterem alguma vantagem terrena ou vitória pessoal, mas por verem Deus glorificado, sua palavra cumprida, o poder dos opressores quebrado e, assim, os oprimidos aliviados.
Alegrar-se-ão por ver o pecado envergonhado, ateus e incrédulos confundidos e todos os demais devidamente advertidos a fugir de caminhos tão maus. Ou melhor: rirão deles com desprezo, isto é, poderiam fazê-lo com justiça e o farão de modo santo, como Deus faz, Salmos 2:4; Provérbios 1:26.
Aproveitarão essa ocasião para expor a insensatez dos pecadores e mostrar como são ridículos seus princípios, embora se considerem inteligentes: “Eis o homem que não fez de Deus a sua força”. Vejam o que resultou disso, Salmos 52:7.
Alguns entendem que isso se refere ao justo Noé e à sua família, que contemplaram a destruição do mundo antigo e se alegraram com ela, assim como haviam lamentado sua impiedade. Ló, que viu a ruína de Sodoma, teve a mesma razão para se alegrar, 2 Pedro 2:7, 8.
(2.) Ao verem a distinção feita em seu favor (v. 20): “Ao passo que os nossos bens não foram cortados como os deles e como os teus, continuamos a prosperar; isso mostra que somos favorecidos pelo Céu e estamos certos.” A mesma regra que lhe serviu para condenar Jó serviu-lhe para exaltar a si mesmo e a seus companheiros.
Os bens de Jó foram cortados, portanto ele é ímpio; os nossos não foram, portanto somos justos. Mas é uma regra enganosa para julgar, pois ninguém conhece o amor ou o ódio pelo que está diante de si.
Se outros são consumidos e nós não, em vez de censurá-los e nos exaltarmos, como Elifaz faz aqui, devemos agradecer a Deus e tomar isso como advertência para nos prepararmos para calamidades semelhantes.
O Bom Conselho de Elifaz; Palavras de Ânimo para Voltar a Deus. (a.C. 1520.)
Versículos 21 a 30
Quase me sinto inclinado a perdoar Elifaz pelas duras censuras que fez a Jó no início do capítulo, embora fossem muito injustas e insensíveis, em razão dos bons conselhos e do ânimo que lhe oferece nestes versículos finais. Nada melhor nem mais apropriado poderia ter sido dito. Embora julgasse Jó um homem mau, via motivos para esperar que, apesar de tudo, ele viesse a ser piedoso e próspero.
É estranho, porém, que da mesma boca, quase no mesmo fôlego, saiam águas doces e amargas. Homens bons, embora possam se exaltar, às vezes conseguem, falando, recuperar um temperamento melhor, talvez mais depressa do que outra pessoa conseguiria persuadi-los a isso.
Elifaz havia exposto a Jó a condição miserável do ímpio, para assustá-lo e levá-lo ao arrependimento. Agora, por outro lado, mostra-lhe a felicidade da qual os que se arrependem podem estar seguros, para atraí-lo e animá-lo a isso.
Os ministros devem experimentar ambos os caminhos ao lidar com as pessoas: falar-lhes do monte Sinai, pelos terrores da lei, e do monte Sião, pelos consolos do evangelho.
Devem apresentar-lhes tanto a vida quanto a morte, o bem e o mal, a bênção e a maldição. Observe agora:
I. Os bons conselhos que Elifaz dá a Jó; são bons também para todos nós, embora, no caso de Jó, se baseiem na falsa suposição de que ele era um homem mau, agora estranho e inimigo de Deus.
- Relacionar-se agora com Deus. “Aquieta-te em Deus”, segundo alguns. É nosso dever em todo tempo, especialmente quando estamos aflitos, ajustar-nos a tudo o que a Providência divina dispõe e aquietar-nos nisso. “Une-te a ele”, segundo outros; alia-te aos seus interesses e não continues a agir em oposição a ele.
Nossos tradutores expressam bem o sentido com “Relaciona-te com ele”: Jó não deveria permanecer tão estranho a Deus como se tornara ao abandonar seu temor e deixar de orar diante dele. É dever e interesse de cada um de nós conhecer a Deus.
Precisamos adquirir conhecimento dele, firmar nele nossos afetos, unir-nos a ele numa aliança de amizade e então estabelecer e manter uma correspondência constante com ele pelos meios que designou.
É nossa honra termos sido feitos capazes dessa relação; é nossa miséria tê-la perdido pelo pecado; é nosso privilégio sermos convidados, por meio de Cristo, a retomá-la. Estabelecer e cultivar essa relação será uma felicidade que não se pode descrever.
- “Fica em paz: em paz contigo mesmo, sem irritação, inquietação nem confusão.” “Não deixes que teu coração se perturbe; conserva-te quieto, calmo e equilibrado.” “Fica em paz com teu Deus; reconcilia-te com ele.” “Não prolongues esta guerra profana.” “Tu te queixas de que Deus é teu inimigo; torna-te seu amigo.”
É da maior importância para cada um de nós fazer as pazes com Deus, e isso é necessário para uma comunhão agradável com ele; pois como dois podem andar juntos se não estiverem de acordo? Amós 3:3. Devemos fazê-lo prontamente, agora, antes que seja tarde demais: “Concorda com teu adversário enquanto estás a caminho”. Somos instados a isso com insistência.
Alguns leem: “Peço-te que te relaciones com ele e fiques em paz.” O próprio Deus nos suplica; os ministros, em lugar de Cristo, pedem que nos reconciliemos. Podemos rejeitar tais apelos?
- “Recebe a lei da boca dele”, v. 22. “Feita a paz com Deus, submete-te ao seu governo e decide deixar-te conduzir por ele, para permaneceres em seu amor.” De Deus recebemos a vida e o sustento. Dele esperamos receber nossa bem-aventurança; dele também precisamos receber a lei. “Senhor, que queres que eu faça?”, Atos 9:6.
Seja qual for o modo pelo qual recebemos as indicações da vontade divina, devemos manter os olhos nele. Quer ele fale por meio das Escrituras, dos ministros, da consciência ou da Providência, devemos receber a palavra como vinda de sua boca e submeter nossa alma a ela.
Embora não saibamos se havia palavra escrita no tempo de Jó, havia uma revelação da vontade de Deus que devia ser recebida.
Elifaz considerava Jó um homem mau e o pressionava a arrepender-se e corrigir-se. Nisso consiste a conversão do pecador: receber a lei da boca de Deus, e não mais do mundo e da carne. Elifaz, agora em disputa com Jó, apela para a palavra de Deus a fim de encerrar a controvérsia: “Recebe-a e deixa que ela decida”. À lei e ao testemunho.
Guarde a palavra dele no coração. Não basta recebê-la; precisamos conservá-la, Provérbios 3:18. Devemos guardá-la como coisa de grande valor, para que permaneça segura, e no coração, como coisa de grande utilidade, para que esteja à mão quando necessário. Assim não a perderemos inteiramente nem nos veremos sem ela no momento da necessidade.
Volte para o Todo-Poderoso, v. 23. “Não te afastes apenas do pecado, mas volta-te para Deus e para o teu dever.” “Não te voltes apenas na direção do Todo-Poderoso, com algumas boas inclinações e bons começos; volta para ele.”
“Volta para casa, volta completamente, até alcançares o Todo-Poderoso, por meio de uma reforma em tudo, de uma transformação eficaz e completa do coração e da vida e de uma firme decisão de apegar-te a ele”, conforme o sr. Poole.
- Afaste a iniquidade para longe de sua tenda. Zofar já havia dado esse conselho a Jó em Jó 11:14. “Não permitas que a maldade habite em tua tenda.” “Afasta a iniquidade: quanto mais longe, melhor; não apenas de teu coração e de tuas mãos, mas de tua casa.” “Não basta que tu mesmo não sejas mau; deves censurar e conter o pecado daqueles que estão sob tua responsabilidade.”
Repare: a reforma da família é uma reforma necessária; nós e nossa casa devemos servir ao Senhor.
II. As boas palavras de ânimo que Elifaz dirige a Jó: ele será muito feliz se aceitar esses bons conselhos. Em geral, “desse modo o bem virá a ti” (v. 21): “O bem que agora se afastou, todo o bem que teu coração possa desejar, temporal, espiritual e eterno, virá a ti.” “Deus virá a ti, em aliança e comunhão contigo; e traz consigo todo o bem, pois todo o bem está nele.”
“Agora estás arruinado e abatido; mas, se voltares a Deus, serás reedificado e tuas ruínas atuais serão reparadas.” “Tua família será reconstruída com filhos; teus bens, com riquezas; tua alma, com santidade e consolo.” As promessas com que Elifaz anima Jó aqui podem ser reunidas em três grupos:
- Seus bens prosperariam e ele receberia abundantes bênçãos temporais, pois a piedade tem a promessa da vida presente. Promete-se:
(1.) Que ele seria muito rico (v. 24): “Amontoarás ouro como pó”, em grande abundância, e “terás fartura de prata” (v. 25), enquanto agora estás pobre e despojado de tudo. Jó havia sido rico. Elifaz suspeitava que tivesse obtido suas riquezas por fraude e opressão e que, por isso, as haviam tirado dele. Mas, se voltasse a Deus e ao dever:
[1.] Teria mais riqueza do que nunca, não apenas milhares de ovelhas e bois, a riqueza dos agricultores, mas milhares em ouro e prata, a riqueza dos príncipes, Jó 3:15. Há riquezas muito mais abundantes, riquezas verdadeiras, a ganhar no serviço de Deus do que no serviço do mundo.
[2.] Ele as possuiria com mais segurança: “Guardarás tua riqueza em boas mãos e conservarás o que obtiveste por tua piedade com garantia mais firme do que aquilo que obtiveste por tua iniquidade.” Terás prata forte, pois esse é o sentido da palavra, que, por ter sido adquirida honestamente, durará muito: prata como aço.
[3.] Pela graça de Deus, ele seria impedido de apegar tanto o coração à riqueza quanto Elifaz pensava que havia feito. A riqueza é, de fato, uma bênção quando não somos enredados pelo amor a ela. Você amontoará ouro; mas como?
Não como seu tesouro e sua porção, e sim como pó e como pedras dos ribeiros. Você lhe dará tão pouco valor e esperará tão pouco dele que o depositará aos seus pés (Atos 4:35), não junto ao peito.
(2.) Que, ainda assim, estaria muito seguro. Embora as riquezas geralmente exponham as pessoas ao perigo, e Jó tivesse reconhecido que não vivia em segurança quando era próspero (Jó 3:26), agora poderia estar seguro: o Todo-Poderoso seria seu defensor; ou melhor, sua defesa, v. 25.
“Ele será o teu ouro”; assim aparece na margem, e é a mesma palavra usada para ouro no v. 24, mas que também significa fortaleza, porque o dinheiro é uma defesa, Eclesiastes 7:12. Os mundanos fazem do ouro seu deus; os santos fazem de Deus seu ouro. Pode-se dizer, na verdade, que os enriquecidos por seu favor e sua graça têm abundância do melhor ouro, guardado da melhor maneira.
Lemos que ele será a defesa de Jó contra as incursões de saqueadores vizinhos; então sua riqueza não ficará exposta como ficou aos sabeus e caldeus. Alguns pensam que esse é o sentido de “Afastarás a iniquidade para longe de tua tenda”, tomado como promessa: a iniquidade ou o desígnio de mal contra Jó será afastado e não o alcançará.
Repare: estão necessariamente seguros os que têm a própria Onipotência por defesa, Salmos 91:1-3.
- Que sua alma prosperaria e seria enriquecida com bênçãos espirituais, as melhores de todas.
(1.) Viveria satisfeito em Deus (v. 26): “Então terás prazer no Todo-Poderoso; é assim que o Todo-Poderoso se torna teu ouro, quando te deleitas nele como os mundanos se deleitam em seu dinheiro.” “Ele será tua riqueza, tua defesa e tua dignidade, pois será teu prazer.”
O caminho para receber o desejo do coração é fazer de Deus o prazer do coração, Salmos 37:4. Se Deus nos der a si mesmo como alegria, não nos negará coisa alguma que seja boa para nós.
“Agora Deus te causa terror, como tu mesmo confessas (Jó 6:4; 16:9; 19:11); mas, se voltares a ele, então, e somente então, será teu prazer.” “Pensar nele te dará tanto prazer quanto antes te causava dor.”
Nenhum prazer se compara ao que as almas agraciadas encontram no Todo-Poderoso. Aqueles que o conhecem e se submetem inteiramente a ele descobrirão que seu favor é não apenas sua força, mas também sua canção.
(2.) Teria diante de Deus uma humilde e santa confiança, como a daqueles cujo coração não os condena, 1 João 3:21. “Então levantarás o rosto para Deus com ousadia e não terás medo, como agora tens, de aproximar-te dele.” “Hoje teu semblante está caído e pareces abatido; mas, depois de fazeres as pazes com Deus, não mais corarás, tremerás ou andarás de cabeça baixa como agora.”
“Com alegria e confiança nascida da graça, tu te apresentarás diante dele, orarás em sua presença e esperarás suas bênçãos.”
(3.) Manteria comunhão constante com Deus: “A correspondência, uma vez estabelecida, será mantida para tua satisfação indescritível.” “Cartas serão trocadas entre ti e o céu, tanto regularmente quanto nas ocasiões especiais”, v. 27.
[1.] “Por meio da oração, enviarás cartas a Deus: farás tua oração” (a palavra é: “Multiplicarás tuas orações”) “a ele, e ele não achará tuas cartas incômodas, ainda que muitas e longas.”
“Quanto mais vezes nos aproximamos do trono da graça, mais bem recebidos somos.” “Em todos os teus fardos, carências, cuidados e temores, buscarás no céu orientação e força, sabedoria e consolo, além de bom êxito.”
[2.] “Por sua providência e graça, ele responderá a essas cartas e te dará o que lhe pedires, seja a coisa pedida, seja uma demonstração de sua bondade.” “Ele te ouvirá e mostrará que te ouviu por aquilo que fizer por ti e em ti.”
[3.] “Então responderás, com louvores, às respostas bondosas que ele te enviou: cumprirás teus votos, o que lhe será agradável e trará mais misericórdia.” Repare: quando Deus realiza aquilo que pedimos em nossa aflição, devemos fazer questão de cumprir aquilo que prometemos na ocasião; caso contrário, não agimos com honestidade.
Se não prometemos mais nada, prometemos ser gratos, e isso basta, pois abrange tudo, Salmos 116:14.
(4.) Teria satisfação interior ao administrar todos os seus negócios exteriores (v. 28): “Determinarás uma coisa, e ela te será estabelecida”, isto é, “formularás todos os teus planos e propósitos com tanta sabedoria, graça e resignação à vontade de Deus que o resultado deles satisfará teu coração, exatamente como desejarias.”
Jó confiaria suas obras ao Senhor pela fé e pela oração, e então seus pensamentos seriam estabelecidos.
“Ficarás tranquilo e satisfeito, aconteça o que acontecer”, Provérbios 16:3. A graça de Deus produzirá isso em você. Ou melhor, às vezes a providência divina lhe concederá precisamente o que desejou e pediu, e o fará pelo caminho, do modo e no tempo que você queria: “Seja-te feito como queres”.
Quando um negócio se realiza exatamente conforme o plano que traçamos, sem que nenhuma das nossas medidas seja frustrada nem precisemos adotar novos conselhos, devemos reconhecer o cumprimento desta promessa: “Determinarás uma coisa, e ela te será estabelecida”.
“Agora te queixas das trevas ao teu redor; então a luz brilhará em teus caminhos.” Isto é: “Deus te guiará e dirigirá; por consequência, fará prosperar teus empreendimentos e te dará êxito em todos eles.”
“A sabedoria divina será teu guia, seu favor será teu consolo, e teus caminhos estarão sob essas duas luzes; assim desfrutarás com alegria do presente e contemplarás o futuro com esperança”, Salmos 90:17.
(5.) Mesmo em tempos de calamidade e perigo gerais, teria muita alegria e esperança (v. 29): “Quando os homens ao teu redor forem abatidos em seus negócios e em seu ânimo, quando estiverem desanimados, sem esperança e perto do desespero, tu dirás: ‘Há exaltação'.”
“Encontrarás em ti aquilo que não apenas te sustentará sob os sofrimentos e impedirá que desfaleças, mas também te elevará acima deles e te tornará capaz de alegrar-te sempre.”
Quando o coração dos homens desfalecer de medo, os discípulos de Cristo levantarão a cabeça de alegria, Lucas 21:26-28. Assim, Deus os faz cavalgar sobre os lugares altos da terra (Isaías 58:14). O que os eleva é crer que Deus salvará a pessoa humilde. Os que se humilham serão exaltados, não apenas em honra, mas também em consolo.
- Que seria uma bênção para seu país e um instrumento de bem para muitos (v. 30): em resposta às orações de Jó, Deus livrará a ilha dos inocentes e, nisso, levará em conta a pureza das mãos dele, necessária para que nossas orações sejam aceitas, 1 Timóteo 2:8.
Mas, como podemos supor que os inocentes não precisem de livramento — foi a culpada Sodoma que necessitou do benefício da intercessão de Abraão —, inclino-me à leitura da margem: “Os inocentes livrarão a ilha”, por seus conselhos (Eclesiastes 9:14, 15), por suas orações e por sua influência no céu, Atos 27:24.
Ou, segundo outra leitura, e provavelmente a mais correta: “Ele livrará os que não são inocentes, e eles são livrados pela pureza das tuas mãos”. Repare: um homem bom é um bem público. Os pecadores se beneficiam da presença dos santos, quer percebam, quer não.
Se Elifaz pretendia com isso — como alguns pensam — insinuar que as orações de Jó não prevaleciam nem suas mãos eram puras, pois, de outra forma, ele teria socorrido outros e, mais ainda, a si mesmo, mais tarde viu seu erro.
Ficou claro que Jó tinha maior influência no céu do que Elifaz: este e os outros dois amigos, que nesse caso não eram inocentes, foram livrados pela pureza das mãos de Jó, Jó 42:8.