Matthew Henry

Jó 21

Argumento

Esta é a resposta de Jó ao discurso de Zofar. Nela ele se queixa menos das próprias misérias do que nos discursos anteriores, pois percebeu que suas queixas não haviam levado os amigos a sentir por ele a menor compaixão.

Jó se aproxima mais da questão geral em disputa entre eles: seria a prosperidade exterior, e sua continuidade, um sinal da verdadeira igreja e de seus verdadeiros membros, de modo que a perda da prosperidade de alguém bastasse para provar que era hipócrita, mesmo sem outra prova contra ele? Os amigos afirmavam que sim; Jó negava.

I. Seu prefácio procura despertar os sentimentos dos amigos para conquistar sua atenção, vv. 1-6.

II. Seu discurso procura convencer o entendimento deles e corrigir seus enganos. Jó reconhece que Deus às vezes parece expor um perverso acorrentado, in terrorem — para servir de terror aos outros —, mediante algum julgamento visível e notável nesta vida.

Mas nega que Deus sempre proceda assim. Pelo contrário, sustenta que comumente faz o oposto: permite que até os piores pecadores vivam todos os seus dias em prosperidade e deixem o mundo sem nenhuma marca visível de sua cólera sobre eles.

  1. Descreve a grande prosperidade dos perversos, vv. 7-13. 2. Mostra sua grande impiedade, na qual a prosperidade os endurece, vv. 14-16. 3. Prediz sua ruína por fim, mas depois de longa suspensão da pena, vv. 17-21.

  2. Observa a grande diversidade nos caminhos da providência de Deus para com as pessoas, até para com as más, vv. 22-26. 5. Derruba o fundamento das duras censuras dos amigos contra ele: mostra que a destruição dos perversos está reservada para o outro mundo e que eles muitas vezes escapam até o fim neste mundo, v. 27 até o fim. Nisso, Jó tinha toda a razão.

Versículos 1 a 6

A Resposta de Jó a Zofar. (a.C. 1520.)

Jó aqui apresenta aos amigos, para sua consideração compassiva, tanto sua situação quanto seu discurso: o que sofria e o que dizia.

  1. O que lhes pede é muito justo: que lhe permitam falar (v. 3) e não o interrompam no meio do discurso, como Zofar havia feito. Entre todas as pessoas, as que sofrem perdas devem ter permissão para falar. Se os acusados e censurados não puderem falar em sua defesa, serão injustiçados sem remédio e não terão como obter justiça.

Jó pede que ouçam atentamente suas palavras (v. 2), como pessoas dispostas a entendê-lo e, se estiverem enganadas, a corrigir o engano. Pede também que prestem atenção nele (v. 5), pois ouvir sem dar atenção e reparar no que se ouve é quase o mesmo que não ouvir.

  1. As razões que apresenta para isso são muito razoáveis:

(1.) Eles haviam vindo para consolá-lo. “Não”, diz ele, “que esta seja a consolação que me oferecem” (v. 2). “Se não têm outro consolo para me dar, pelo menos não me neguem este. Sejam bondosos e justos a ponto de me escutar com paciência, e aceitarei isso como seu consolo.”

Ou melhor, se não lhe permitissem expor sua situação e contar a própria história, não poderiam saber como consolá-lo, mesmo que quisessem. Ou: “Ao refletirem sobre isso, será um consolo para vocês terem tratado o amigo aflito com ternura, e não com dureza.”

(2.) Jó os ouviria falar quando chegasse a vez deles. “Depois que eu falar, vocês poderão continuar a dizer o que quiserem, e não os impedirei, nem mesmo se continuarem a zombar de mim.”

Os que entram numa controvérsia devem contar com palavras duras contra si e decidir suportar pacientemente o descrédito, pois, em geral, quem zomba continua a zombar, não importa o que lhe digam.

(3.) Jó esperava convencê-los. “Se ao menos me ouvirem com justiça, continuem a zombar, se puderem. Creio, porém, que direi algo que mudará seu tom e os levará a ter pena de mim, em vez de zombar.”

(4.) Eles não eram seus juízes (v. 4): “Dirijo minha queixa a homens? Não. Se assim fosse, vejo que pouco adiantaria queixar-me. Minha queixa, porém, é dirigida a Deus, e a ele recorro. Que ele julgue entre vocês e mim.”

“Diante dele estamos em igualdade de condições; portanto, tenho tanto quanto vocês o direito de ser ouvido. Se minha queixa fosse dirigida a homens, meu espírito estaria perturbado, porque não me dariam atenção nem me entenderiam corretamente. Mas dirijo minha queixa a Deus, que me permitirá falar, embora vocês não permitam.”

Seria triste se Deus nos tratasse com a mesma falta de bondade com que às vezes nos tratam os amigos.

(5.) Havia na situação de Jó algo muito surpreendente e espantoso, que precisava e merecia a mais séria consideração deles. Não era um caso comum, mas extraordinário:

[1.] Jó se espantava com as aflições que Deus lhe impusera e as censuras dos amigos (v. 6): “Quando me lembro daquele dia terrível em que de repente fui privado de todos os meus consolos, daquele dia em que fui atingido por chagas dolorosas, e de todas as palavras duras com que vocês me afligiram, confesso que tenho medo, e um tremor toma conta de minha carne.”

“Isso acontece especialmente quando comparo minha situação à prosperidade de muitos perversos e aos elogios de seus vizinhos, em meio aos quais atravessam a vida.”

Repare: os atos da providência de Deus no governo do mundo às vezes espantam até pessoas sábias e boas e as deixam sem saber o que pensar.

[2.] Jó queria que eles também se espantassem (v. 5): “Olhem para mim e espantem-se. Em vez de tentar explicar minhas aflições, vocês deveriam adorar com reverência os mistérios insondáveis da Providência, que aflige dessa maneira alguém em quem vocês não conhecem mal algum.”

“Por isso, ponham a mão sobre a boca, esperem o desfecho em silêncio e não julguem coisa alguma antes do tempo. O caminho de Deus está no mar, e sua vereda, nas grandes águas.”

Quando não conseguimos explicar o que Deus faz ao permitir que os perversos prosperem e os piedosos sejam afligidos, nem sondar a profundidade desses procedimentos, convém sentar-nos e admirá-los. “Os homens retos se espantarão com isso” (Jó 17:8). “Sejam vocês assim.”

Versículos 7 a 16

A Prosperidade dos Perversos; O Mau Uso da Prosperidade Terrena. (a.C. 1520.)

Nos últimos discursos, os três amigos de Jó haviam descrito longamente a condição miserável do perverso neste mundo. “É verdade”, diz Jó, “que às vezes recaem julgamentos notáveis sobre pecadores conhecidos, mas nem sempre.”

“Temos muitos exemplos da grande e duradoura prosperidade de pessoas aberta e declaradamente perversas. Embora sua prosperidade as endureça na perversidade, ainda lhes é permitido prosperar.”

I. Jó descreve aqui a prosperidade delas em sua altura, extensão e duração: “Se isso é verdade, como vocês dizem, digam-me por que vivem os perversos?” (v. 7).

  1. O fato é dado como certo, pois vemos exemplos dele todos os dias:

(1.) Eles vivem e não são subitamente eliminados pelos golpes da vingança divina. Ainda falam aqueles que dirigiram a boca contra os céus; ainda agem aqueles que estenderam a mão contra Deus.

Não só vivem, isto é, recebem uma suspensão da pena, mas vivem em prosperidade (1 Samuel 25:6). Ou melhor:

(2.) Envelhecem. Têm a honra, a satisfação e a vantagem de viver muito tempo, o bastante para estabelecer a família e aumentar os bens. Lemos sobre um pecador de cem anos (Isaías 65:20). E isso não é tudo:

(3.) São poderosos; são promovidos a posições de autoridade e confiança. Não apenas ostentam uma posição elevada, mas exercem grande influência. Vivit imo, et in senatum venit — Não apenas vive, mas aparece no senado. Por que isso acontece?

Repare: vale a pena investigar os motivos da prosperidade exterior dos perversos. Não é porque Deus abandonou a terra, não vê ou não odeia sua perversidade, ou não pode puni-la; é porque a medida de suas iniquidades ainda não se completou.

Este é o dia da paciência de Deus. De um modo ou de outro, ele se serve dessas pessoas e de sua prosperidade para cumprir seus próprios desígnios, enquanto essa prosperidade as amadurece para a ruína. O motivo principal, porém, é que ele mostrará que o mundo da retribuição é o outro, não este.

  1. A prosperidade dos perversos é descrita aqui como:

(1.) Completa e consumada:

[1.] Eles se multiplicam, sua família se estabelece, e têm a satisfação de vê-la prosperar (v. 8): “Sua descendência se firma diante de seus olhos.” Isso vem primeiro porque proporciona tanto uma satisfação presente quanto uma perspectiva agradável.

[2.] Vivem tranquilos e sossegados (v. 9). Zofar falara de seus sustos e terrores contínuos, mas Jó diz que suas casas estão seguras, tanto do perigo quanto do medo dele.

Tão longe estão dos ferimentos mortais da espada ou das flechas de Deus que não sentem sequer a dor de sua vara sobre eles.

[3.] São ricos, e seus bens prosperam. Jó dá apenas um exemplo disso (v. 10): seu gado aumenta, e nada os decepciona nessa criação; nem mesmo uma vaca perde a cria. Assim, seus muitos bens necessariamente crescem ainda mais. Isso é prometido em Êxodo 23:26 e Deuteronômio 7:14.

[4.] São alegres e levam uma vida festiva (v. 11, 12): enviam seus pequeninos em grande número para brincar entre os vizinhos, como um rebanho.

Promovem bailes e reuniões musicais em que os filhos dançam. A dança é mais apropriada às crianças, que não sabem empregar melhor o tempo e cuja inocência as protege dos danos que geralmente a acompanham.

Embora os pais não sejam tão jovens e folgazões a ponto de dançar, pegam o tamborim e a harpa. Tocam a flauta, e os filhos dançam ao som dela. Não conhecem dor que desafine seus instrumentos ou afaste o coração de alguma alegria.

Alguns observam que isso é exemplo tanto de sua vaidade quanto de sua prosperidade. Não há aqui o cuidado que Abraão tinha de ensinar a seus filhos o caminho do Senhor (Gênesis 18:19).

Os filhos deles não oram nem recitam o catecismo: dançam, cantam e se alegram ao som do órgão. Os prazeres sensuais são todo o deleite das pessoas carnais; elas criam os filhos à própria semelhança.

(2.) Contínua e constante (v. 13): passam seus dias, todos eles, na riqueza, sem jamais conhecer a carência; na alegria, sem jamais conhecer a tristeza.

Por fim, sem alarmes anteriores que os assustem, sem angústia nem agonia, num instante descem à sepultura, e não há amarras em sua morte.

Se não houvesse outra vida depois desta, seria muito desejável morrer pelos golpes mais rápidos e breves da morte. Já que precisamos descer à sepultura, se ela fosse o fim da jornada, desejaríamos descer num instante, engolindo a pílula amarga sem mastigá-la.

II. Jó mostra como eles fazem mau uso da prosperidade e como ela os confirma e endurece na impiedade (v. 14, 15).

  1. O ouro e a prata servem para torná-los inflexíveis, mais insolentes e mais descarados em sua perversidade. Jó menciona isso para:

(1.) Aumentar a dificuldade da questão. É estranho que qualquer perverso prospere assim; sobretudo que prosperem os que chegaram a tal extremo de perversidade que desafiam abertamente o próprio Deus e lhe dizem na face que não se importam com ele.

É ainda mais estranho que sua prosperidade continue, embora se apoiem nela para se opor a Deus: combatem-no com essa arma e, ainda assim, não são desarmados. Ou Jó menciona isso para:

(2.) Diminuir a dificuldade. Deus permite que prosperem, mas não devemos nos espantar: a prosperidade dos insensatos os destrói ao endurecê-los no pecado (Provérbios 1:32; Salmos 73:7-9).

  1. Veja como esses pecadores prósperos fazem pouco caso de Deus e da religião, como se, por possuírem tanto deste mundo, não precisassem procurar outro:

(1.) Veja quão indispostos estão para com Deus e a religião: abandonam-nos e afastam de si os pensamentos a seu respeito.

[1.] Temem a presença de Deus e lhe dizem: “Afasta-te de nós. Que nunca nos perturbe a percepção de que estamos sob os olhos de Deus, nem nos refreie o temor dele.” Ou mandam que se afaste como alguém de quem não precisam e de quem não têm motivo para se servir.

Escolheram o mundo como sua porção, contentam-se com ele e nele julgam encontrar felicidade. Enquanto o tiverem, conseguem viver sem Deus.

Com justiça Deus dirá “Apartai-vos” (Mateus 25:41) aos que lhe disseram que se afastasse; e com justiça já os toma pela palavra.

[2.] Temem o conhecimento de Deus, de sua vontade e do dever que têm para com ele: “Não desejamos conhecer teus caminhos.” Os que decidiram não andar nos caminhos de Deus não desejam conhecê-los, pois esse conhecimento censurará continuamente sua desobediência (João 3:19).

(2.) Veja como argumentam contra Deus e a religião (v. 15): “O que é o Todo-Poderoso?” É estranho que criaturas falem com tamanha insolência e que criaturas racionais falem de maneira tão absurda e irracional.

Os dois grandes vínculos pelos quais somos atraídos e mantidos na religião são o dever e o interesse. Eles procuram romper ambos:

[1.] Não querem crer que ser religiosos é seu dever: “O que é o Todo-Poderoso, para que o sirvamos?” Como Faraó: “Quem é o SENHOR, para que eu obedeça à sua voz?” (Êxodo 5:2). Observe:

Primeiro, com quanto desprezo falam de Deus: “O que é o Todo-Poderoso?”, como se ele fosse apenas um nome, um zero, ou alguém com quem nada têm a ver e que nada tem a ver com eles.

Segundo, com quanta dureza falam da religião. Chamam-na de serviço e querem dizer serviço penoso. Pensam que não basta manter uma boa relação com o Todo-Poderoso: também devem servi-lo, o que lhes parece uma tarefa árdua e servil.

Terceiro, quão elevada é a opinião que têm de si mesmos: “Para que o sirvamos? Nós, ricos e poderosos, estaremos sujeitos a ele e lhe prestaremos contas? Não; nós somos senhores” (Jeremias 2:31).

[2.] Não querem crer que ser religiosos é de seu interesse: “Que proveito teremos se orarmos a ele?” Todos no mundo buscam o que podem ganhar; por isso negligenciam a mercadoria da sabedoria, pensando que nada se ganha com ela.

“É inútil servir a Deus” (Malaquias 3:13, 14). Orar não paga dívidas nem garante herança aos filhos. Pode ser até que a piedade séria impeça alguém de obter um cargo e o exponha a perdas. E então? Só a riqueza e a honra deste mundo podem ser chamadas de ganho?

Se obtivermos o favor de Deus e bênçãos espirituais e eternas, não teremos motivo para reclamar de prejuízo causado por nossa religião. Mas, se não obtemos proveito da oração, a culpa é nossa (Isaías 58:3, 4): pedimos mal (Tiago 4:3).

A religião em si não é inútil. Se for inútil para nós, a culpa é nossa por nos contentarmos com sua aparência externa (Tiago 1:26).

III. Jó mostra a insensatez dessas pessoas e repudia completamente qualquer concordância com elas (v. 16): “O bem delas não está em suas mãos.” Isto é, não o obtiveram sem Deus e, portanto, são muito ingratas por desprezá-lo assim.

Não foi sua força nem o poder de suas mãos que lhes trouxe essa riqueza; por isso, devem lembrar-se de Deus, que a concedeu. Tampouco podem preservá-la sem ele; são, portanto, muito imprudentes ao perder seu vínculo com Deus e mandar que se afaste.

Alguns entendem assim: “Seus bens estão nos celeiros e nas bolsas, ali acumulados; não estão em suas mãos para que façam o bem aos outros. Que proveito, então, lhes trazem?”

“Por isso”, diz Jó, “o conselho dos perversos está longe de mim. Longe de mim pensar como eles, falar como eles, agir como eles e seguir seu exemplo. Seus descendentes aprovam o que dizem, embora seu caminho seja insensatez” (Salmos 49:13). “Eu, porém, sei o suficiente para não seguir seu conselho.”

Versículos 17 a 26

Os Castigos Certos dos Perversos; A Soberania Divina. (a.C. 1520.)

Jó descreveu longamente a prosperidade dos perversos. Agora, nestes versículos:

I. Contrapõe essa prosperidade ao que os amigos afirmavam sobre a ruína certa deles nesta vida. “Digam-me: com que frequência vocês veem apagar-se a vela dos perversos? Não a veem com a mesma frequência queimar até o castiçal, quando se apaga por si mesma?” (v. 17).

“Com que frequência vocês veem a destruição sobrevir-lhes, ou Deus distribuir entre eles sofrimentos em sua ira? Não veem com a mesma frequência sua alegria e prosperidade continuarem até o fim?”

Talvez sejam tantos os casos de pecadores conhecidos que terminam seus dias em pompa quanto os dos que terminam na miséria. Essa observação basta para invalidar os argumentos dos amigos contra Jó e mostrar que não se pode julgar com certeza o caráter de alguém pela sua condição exterior.

II. Reconcilia esse fato com a santidade e a justiça de Deus. Embora os perversos prosperem assim durante a vida inteira, nem por isso devemos pensar que Deus deixará sua perversidade para sempre sem castigo. Não:

  1. Mesmo enquanto prosperam, são como restolho e palha diante da ventania (v. 18). São leves e sem valor, sem importância para Deus ou para as pessoas sábias e boas.

Estão preparados para a destruição e continuamente expostos a ela. Mesmo no auge da pompa e do poder, apenas um passo os separa da ruína.

  1. Embora passem todos os dias na riqueza, Deus guarda a iniquidade deles para seus filhos (v. 19) e a visitará sobre sua descendência depois que se forem.

O opressor acumula bens para os filhos a fim de torná-los pessoas de posição, mas Deus acumula para eles a iniquidade do pai, a fim de torná-los mendigos.

Deus mantém um registro exato dos pecados dos pais e os sela entre seus tesouros (Deuteronômio 32:34). Castigará justamente os filhos enquanto as riquezas às quais a maldição está presa forem encontradas como bens nas mãos deles.

  1. Embora prosperem neste mundo, prestarão contas em outro. Deus por fim retribuirá ao perverso segundo seus atos (v. 19), ainda que a sentença proferida contra suas obras más não seja executada rapidamente.

Talvez agora não seja levado a temer a cólera futura e se iluda com a esperança de ter paz mesmo persistindo em seu caminho. No dia da revelação do justo julgamento de Deus, porém, será levado a senti-la.

Ele a conhecerá (v. 20): “Seus olhos verão sua destruição”, na qual não quis acreditar. Não querem ver, mas verão (Isaías 26:11). Os olhos deliberadamente fechados à graça de Deus se abrirão para ver sua destruição.

“Beberá da cólera do Todo-Poderoso”; essa será a porção de seu cálice. Compare Salmos 11:6 com Apocalipse 14:10. A miséria dos pecadores condenados é apresentada aqui em poucas palavras, mas terríveis.

Estão sob a cólera de um Deus Todo-Poderoso, que, ao destruí-los, tanto demonstra sua cólera quanto dá a conhecer seu poder. Se essa será sua condição no outro mundo, de que lhe servirá a prosperidade neste?

“Que prazer terá em sua casa depois de si?” (v. 21). Nosso Salvador nos fez saber quão pouco prazer o rico no inferno tinha em sua casa depois de si.

A lembrança das coisas boas que recebera em vida não lhe refrescava a língua; antes, aumentava muito sua miséria. O mesmo ocorria com a dor que sentia ao pensar que seus cinco irmãos, deixados em sua casa depois dele, poderiam segui-lo àquele lugar de tormento (Lucas 16:25-28). Tão pouco aproveitará o ganho do mundo àquele que perdeu a alma.

III. Jó atribui essa diferença que a Providência faz entre um perverso e outro à sabedoria e soberania de Deus (v. 22): alguém alegará ensinar conhecimento a Deus? Ousamos acusar formalmente os procedimentos de Deus ou censurar sua conduta?

Assumiremos a tarefa de dizer a Deus como deve governar o mundo, que pecador deve poupar e qual deve punir? Ele tem tanto a autoridade quanto a capacidade de julgar os que estão em posição elevada.

Anjos no céu, príncipes e magistrados na terra prestam contas a Deus e devem receber dele sua condenação. Ele os dirige e se serve deles como lhe agrada. Prestaria, então, contas a nós ou receberia conselhos nossos?

Ele é o Juiz de toda a terra e, portanto, sem dúvida fará o que é certo (Gênesis 18:25; Romanos 3:6). Os atos de sua providência que parecem contradizer-se ele pode não só harmonizar entre si, mas também fazer servir juntos a seus propósitos.

A pequena diferença entre morrer um perverso em dor e miséria e outro sem elas, quando ambos acabarão no inferno, é ilustrada pela pequena diferença entre morrer alguém repentinamente e outro lentamente, quando ambos logo estarão na sepultura.

Tão grande é a desproporção entre o tempo e a eternidade que, se o inferno será por fim a sorte de todo pecador, pouco importa que um vá para lá cantando e outro, suspirando. Veja:

  1. Como variam as circunstâncias da morte das pessoas. Dizemos que há uma maneira de entrar no mundo, mas muitas de sair. Contudo, assim como alguns nascem por um parto rápido e fácil, outros nascem por um parto difícil e demorado.

Do mesmo modo, morrer é muito mais terrível para alguns do que para outros. Já que a morte do corpo é o nascimento da alma para outro mundo, não é impróprio comparar as agonias do leito de morte às dores do parto. Observe a diferença:

(1.) Um morre repentinamente, em pleno vigor, sem estar enfraquecido pela idade ou pela doença (v. 23). Está inteiramente à vontade e tranquilo, sem perceber a aproximação da morte nem temê-la.

Pelo contrário, como seus peitos estão cheios de leite e seus ossos, umedecidos de medula (v. 24), ou seja, como tem saúde, vigor e boa constituição, qual vaca leiteira bem nutrida e em boa condição, conta apenas com muitos anos de alegria e prazer pela frente. Sua perspectiva de viver é tão favorável; no entanto, num instante o golpe da morte o elimina.

Repare: é comum que pessoas sejam levadas pela morte em pleno vigor, no auge da saúde, quando menos a esperam, julgam-se mais protegidas contra ela e estão prontas não só a considerá-la distante, mas a desafiá-la.

Por isso, nunca nos sintamos seguros: conhecemos muitos que estavam bem e morreram na mesma semana, no mesmo dia, na mesma hora ou talvez no mesmo minuto. Estejamos, portanto, sempre preparados.

(2.) Outro morre lentamente e depois de muita dor e miséria (v. 25), na amargura da alma, como o pobre Jó se encontrava naquele momento. Nunca come com prazer: por doença, idade ou tristeza da mente, não tem apetite nem sente sabor no alimento.

Quanta razão têm para agradecer os que gozam de saúde e sempre comem com prazer! E quão pouca razão têm para reclamar os que às vezes não comem assim, quando sabem que muitos nunca comem!

  1. Como essa diferença é imperceptível na sepultura. Assim como ricos e pobres, nela se encontram os saudáveis e os enfermos (v. 26): “Deitar-se-ão igualmente no pó, e os vermes os cobrirão” e se alimentarão deles com prazer.

Desse modo, se um perverso morrer num palácio e outro numa masmorra, ambos se encontrarão na congregação dos mortos e condenados. O verme que não morre e o fogo que não se apaga serão os mesmos para ambos; isso torna insignificantes essas diferenças, que não merecem nos perturbar.

Versículos 27 a 34

O Castigo dos Perversos. (a.C. 1520.)

Nestes versículos:

I. Jó se opõe à opinião que, segundo percebia, os amigos ainda sustentavam: os perversos certamente sofrem ruína tão visível e notável quanto a que Jó sofrera, e só os perversos passam por isso. Com base nesse princípio, condenavam-no como perverso.

“Conheço os pensamentos de vocês”, diz Jó (v. 27). “Sei que não concordarão comigo, pois seus julgamentos estão tingidos e inclinados pelas implicâncias e preconceitos contra mim e pelas maquinações que injustamente imaginam para prejudicar meu consolo e minha honra. Como convencer pessoas assim?”

Os amigos estavam prontos para responder ao discurso de Jó sobre a prosperidade dos perversos: “Onde está a casa do príncipe?” (v. 28). “Onde está a casa de Jó ou a casa de seu filho mais velho, na qual os filhos festejavam?”

“Examinem as circunstâncias da casa e da família de Jó; depois perguntem onde estão as moradas dos perversos e comparem as duas situações. Logo verão que a casa de Jó está na mesma condição das casas dos tiranos e opressores e, portanto, poderão concluir que ele sem dúvida era um deles.”

II. Jó apresenta seu próprio julgamento, contrário ao deles, e, para prová-lo, recorre ao parecer e às observações de toda a humanidade. Está tão certo de ter razão que se dispõe a entregar a causa à primeira pessoa que passe (v. 29):

“Vocês não perguntaram aos que passam pelo caminho, a qualquer pessoa imparcial disposta a responder? Não pergunto, como Elifaz, a qual dos santos vocês recorrerão (Jó 5:1), mas a qual dos filhos dos homens.”

“Recorram a quem quiserem: descobrirão que todos concordam comigo em que o castigo dos pecadores está destinado mais ao outro mundo do que a este, conforme a profecia de Enoque, o sétimo depois de Adão” (Judas 1:14).

“Vocês não conhecem os sinais dessa verdade, que podem ser fornecidos por todos os que observaram os atos da providência de Deus para com a humanidade neste mundo?” Agora:

  1. O que Jó afirma aqui? Duas coisas:

(1.) Que os pecadores impenitentes certamente serão castigados no outro mundo e que, em geral, seu castigo é adiado até então.

(2.) Que, portanto, não devemos achar estranho que prosperem muito neste mundo e não recebam nenhuma marca visível da cólera de Deus.

São poupados agora porque serão castigados depois; os que praticam a iniquidade florescem para que sejam destruídos para sempre (Salmos 92:7). Pressupõe-se aqui que o pecador:

[1.] Viva com tanto poder que seja o terror não só dos poderosos na terra dos viventes (Ezequiel 32:27), mas também dos sábios e bons. Mantém-nos sob tamanho temor que ninguém ousa declarar-lhe sua conduta na face (v. 31).

Ninguém se atreve a censurá-lo, a falar-lhe da perversidade de seu caminho e de seu fim. Assim, peca sem receio e não é levado a sentir vergonha nem medo.

A prosperidade dos insensatos os destrói, pois, em sua própria opinião, os põe acima das censuras que poderiam levá-los ao arrependimento, o único meio de impedir sua ruína. Estão marcados para a destruição os que são deixados em paz no pecado (Oseias 4:17).

Se ninguém ousa declarar-lhe sua conduta na face, muito menos alguém ousará retribuir-lhe o que fez e obrigá-lo a devolver o que obteve pela injustiça.

Ele é uma dessas moscas grandes que rompem as teias de aranha da lei, nas quais só as pequenas ficam presas. Os pecadores se tornam ousados em seus caminhos pecaminosos quando podem intimidar a justiça e fazê-la temer intervir.

Virá, porém, o dia em que se falará de suas faltas àqueles que agora não suportam ouvir delas. Seus pecados lhes serão postos diante dos olhos, e sua conduta lhes será declarada na face, para sua confusão eterna, pois recusaram que isso fosse feito aqui para convencê-los. Os que não quiseram reparar as injustiças que cometeram receberão a retribuição delas.

[2.] Morra e seja sepultado com muita pompa e magnificência (v. 32, 33). Não há remédio: ele deve morrer. É a sorte de todos. Contudo, será feito tudo o que se possa imaginar para diminuir o descrédito da morte.

Primeiro, terá um funeral esplêndido. É pouca coisa para que alguém se orgulhe de esperá-la; para alguns, porém, isso passa por grande feito. Será levado à sepultura com pompa, cercado de todas as honras do ofício dos arautos e de todo o respeito que os amigos ainda podem prestar aos seus restos. O rico morreu e foi sepultado, mas nada se diz do sepultamento do pobre (Lucas 16:22).

Segundo, erguerão sobre ele um monumento imponente. Permanecerá no túmulo com um Hic jacet — Aqui jaz — sobre si, seguido de longo elogio.

Talvez isso se refira ao embalsamamento do corpo para preservá-lo, honra que os antigos egípcios prestavam aos seus grandes homens. “Vigiará no túmulo”, segundo a palavra original: ali permanecerá isolado e quieto, como sentinela em sua torre.

Terceiro, os torrões do vale lhe serão agradáveis. Farão tudo o que puderem com aromas preciosos para afastar o mau cheiro da sepultura, assim como com lâmpadas para afastar sua escuridão. Talvez fosse a isso que aludisse a expressão anterior sobre vigiar no túmulo. Tudo, porém, é uma brincadeira: que significam a luz e o perfume para um morto?

Quarto, para diminuir a desonra da morte, alegarão que ela é a sorte comum: ele apenas cedeu ao destino, e todos o seguirão, como inúmeros já foram antes dele.

Repare: a morte é o caminho de toda a terra. Quando precisarmos atravessar aquele vale escuro, devemos considerar:

  1. Que inúmeros já passaram antes de nós. É um caminho percorrido, o que pode ajudar a diminuir seu terror. Morrer é ire ad plures — ir para a grande maioria.

  2. Que todos nos seguirão. Assim como há um caminho nítido à frente, há uma longa fila atrás. Não somos os primeiros nem os últimos a passar por aquela entrada escura. Cada um deve ir em sua própria ordem, designada por Deus.

  3. De tudo isso Jó deduz que os discursos dos amigos não vêm ao caso (v. 34):

(1.) Seu fundamento está podre: partiram de uma hipótese errada. “Nas respostas de vocês resta a falsidade. O que disseram não só ficou sem prova, mas foi refutado e está sob uma acusação de falsidade da qual vocês não conseguem livrá-lo.”

(2.) Portanto, sua construção é frágil e instável. “Vocês me consolam em vão. Nada do que disseram me traz alívio. Afirmam que voltarei a prosperar se me voltar para Deus, mas partem da suposição de que a piedade certamente será coroada de prosperidade. Isso é falso. Como, então, sua conclusão poderia me consolar?” Repare: onde não há verdade, pouco consolo se pode esperar.


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