Matthew Henry

Jó 20

Argumento

Seria de esperar que uma confissão de fé tão excelente quanto a que Jó fez no fim do capítulo anterior satisfizesse seus amigos ou ao menos os abrandasse. Eles, porém, parecem não ter dado atenção a ela. Assim, Zofar toma a palavra, entra na disputa com Jó e o ataca com a mesma veemência de antes.

I. Seu prefácio curto, porém inflamado, v. 2, 3. II. Seu discurso longo e inteiramente dedicado a um único assunto, o mesmo que Bildade tratara extensamente (Jó 18): a miséria certa dos perversos e a ruína que os espera.

  1. A afirmação geral de que a prosperidade do perverso é breve e sua ruína, certa, vv. 4-9. 2. A demonstração da miséria de sua condição por muitos exemplos: corpo doente, consciência perturbada, bens arruinados, família reduzida à mendicância, nome infame e morte sob o peso da cólera divina.

Tudo isso é descrito aqui de modo primoroso, com expressões elevadas e comparações vivas. Muitas vezes se confirma neste mundo e, sem arrependimento, sempre no outro, vv. 10-29.

O grande erro, porém, ou, como diz o bispo Patrick, toda a falha de seu discurso, comum também aos demais amigos, foi imaginar que Deus nunca se afastava desse método. Por isso, Zofar concluiu que Jó sem dúvida era muito mau, embora não houvesse outro indício disso senão sua desventura.

Versículos 1 a 9

Segundo Discurso de Zofar; a Destruição dos Perversos. (a.C. 1520.)

Aqui, I. Zofar começa com grande paixão e parece muito irritado com o que Jó dissera. Resolvido a condená-lo como homem mau, desagradava-lhe ouvi-lo falar como homem bom. Ao que parece, interrompeu Jó e começou abruptamente (v. 2): “Por isso meus pensamentos me levam a responder.”

Não dá atenção ao que Jó dissera para despertar a compaixão dos amigos ou demonstrar sua integridade. Apega-se, porém, à censura que Jó lhes fizera no fim do discurso, considera-a um descrédito e julga-se obrigado a responder: Jó lhes dissera que temessem a espada, e Zofar não queria parecer amedrontado por suas ameaças.

Até o melhor conselho costuma ser mal recebido quando vem de um adversário; por isso, em geral, é melhor poupá-lo. Zofar parecia mais apressado para falar do que convém a um sábio, mas procura justificar sua pressa com duas razões:

  1. Jó lhe fizera forte provocação (v. 3): “Ouvi a censura que me desonra e não posso suportar ouvi-la por mais tempo.” Receio que os amigos de Jó fossem orgulhosos demais para lidar com um homem em condição tão humilde.

Os orgulhosos não toleram contradição e se julgam afrontados se todos ao redor não concordam com eles. Não suportam uma censura sem chamá-la de ofensa à própria honra; então se sentem obrigados, por honra, a revidar, se não a sacar a espada contra quem a fez.

  1. Seu próprio coração lhe dava forte impulso. Seus pensamentos o levavam a responder (v. 2), pois a boca fala do que o coração está cheio. Mas ele atribui o impulso (v. 3) ao espírito de seu entendimento; este, de fato, deve levar-nos a responder.

Devemos compreender bem uma questão e considerá-la devidamente antes de falar sobre ela. Resta saber se foi isso que aconteceu aqui.

As pessoas frequentemente confundem as ordens da paixão com as da razão e, por isso, acham certo irar-se.

II. Zofar passa a mostrar claramente a ruína e a destruição dos perversos. Insinua que, como Jó estava arruinado, era sem dúvida perverso e hipócrita. Observe:

  1. Como introduz essa doutrina, v. 4, apelando:

(1.) Ao conhecimento e à convicção do próprio Jó: “Você não sabe disso? Pode ignorar uma verdade tão clara? Ou pode duvidar de uma verdade confirmada pelo testemunho de toda a humanidade?” Pouco sabem os que não sabem que o salário do pecado é a morte.

(2.) À experiência de todas as épocas. Essa verdade era conhecida desde os tempos antigos, desde que o homem foi colocado sobre a terra. Isto é, desde que o homem foi criado, traz escrita no coração a verdade de que o pecado dos pecadores os arruinará.

Desde que surgiram exemplos de perversidade — e surgiram logo após o homem ser colocado na terra —, também houve exemplos de sua punição. São testemunhas disso a expulsão de Adão e a de Caim.

Quando o pecado entrou no mundo, a morte entrou com ele. Todos sabem que o mal persegue os pecadores, “a quem a vingança não permite viver” (Atos 28:4), e concordam com estas palavras de Isaías 3:11: “Ai do perverso! Mal lhe irá”, mais cedo ou mais tarde.

  1. Como a doutrina é enunciada (v. 5): “O triunfo dos perversos é breve, e a alegria do hipócrita dura só um instante.” Observe:

(1.) Zofar afirma a miséria não apenas dos que são abertamente perversos e profanos, mas também dos hipócritas, que praticam o mal em segredo sob uma aparência e profissão de religião. Isso porque ele julgava que Jó era um perverso desse tipo.

É verdade que uma aparência de piedade usada como capa da maldade apenas torna o mau ainda pior. A piedade fingida é iniquidade em dobro, e a ruína que a acompanha será proporcional. O lugar mais quente do inferno caberá aos hipócritas, como sugere nosso Salvador, Mateus 24:51.

(2.) Ele admite que os perversos podem prosperar por algum tempo, viver seguros e tranquilos, e até muito alegres. Podemos vê-los triunfar e alegrar-se com sua riqueza, seu poder, sua grandeza e seu êxito; triunfar e alegrar-se sobre os vizinhos pobres e honestos que atormentam e oprimem. Não sofrem mal algum nem o temem.

Os amigos de Jó, a princípio, relutavam em admitir que os perversos pudessem prosperar (Jó 4:9), até que Jó o demonstrou claramente (Jó 9:24; 12:6). Agora Zofar concede isso.

(3.) Contudo, ele afirma como verdade certa que não prosperarão por muito tempo. Sua alegria dura apenas um instante e logo terminará em tristeza sem fim. Por maior, mais rico e mais alegre que seja, o hipócrita será humilhado, abatido e reduzido à miséria.

  1. Como a doutrina é ilustrada, vv. 6-9:

(1.) Zofar supõe que a prosperidade do perverso seja muito elevada, tão elevada quanto se possa imaginar, v. 6. Não é sua sabedoria nem sua virtude, mas a riqueza ou grandeza mundana que ele considera sua excelência e da qual se orgulha.

Suponhamos que essa prosperidade suba até os céus. Como seu espírito sempre se eleva com sua condição, também se pode supor que sua cabeça alcance as nuvens. Ele está elevado em todos os aspectos; o mundo já fez por ele tudo o que podia.

Olha com desdém para todos ao redor, enquanto eles o olham com admiração, inveja ou medo. Suponhamos que esteja perto de conquistar uma monarquia universal. Embora certamente tenha feito muitos inimigos antes de chegar a tal prosperidade, julga-se tão fora do alcance de suas flechas como se estivesse nas nuvens.

(2.) Zofar tem certeza de que sua ruína, por isso mesmo, será muito grande; sua queda será mais terrível porque ele se ergueu tanto: “Perecerá para sempre”, v. 7. Seu orgulho e sua falsa segurança eram sinais certos de sua miséria.

Isso certamente acontecerá no outro mundo a todos os pecadores que não se arrependerem: serão arruinados, arruinados para sempre.

Zofar, porém, refere-se à ruína neste mundo. De fato, às vezes pecadores notórios são abatidos de modo extraordinário por juízos presentes; têm motivos de sobra para temer o que Zofar ameaça aqui até ao pecador triunfante:

[1.] Uma destruição vergonhosa: “Perecerá como seu próprio esterco”, ou como um monturo. Tão repugnante ele é para Deus e para todos os homens bons, e tão disposto o mundo estará a livrar-se dele, Salmos 119:119; Isaías 66:24.

[2.] Uma destruição surpreendente. Será lançado na desolação num instante (Salmos 73:19); assim, os que o viram há pouco perguntarão: “Onde está ele? Um homem tão importante poderia desaparecer e morrer tão de repente?”

[3.] Uma destruição rápida, v. 8. Fugirá nas asas dos próprios terrores e será expulso pelas justas imprecações de todos ao redor, que se alegrariam em se livrar dele.

[4.] Uma destruição total. Ele desaparecerá como um sonho ou uma visão noturna, que não passava de uma imagem ilusória. Por mais que agradasse à imaginação, desapareceu por completo, sem deixar nada além do que nos faz rir de sua tolice.

Também será definitiva (v. 9): o olho que o viu, e estava pronto a adorá-lo, não o verá mais; o lugar que ocupava não tornará a contemplá-lo. Deu-lhe adeus para sempre quando ele foi para seu próprio lugar, como Judas, Atos 1:25.

Versículos 10 a 22

A Miséria dos Perversos. (a.C. 1520.)

Os exemplos da condição miserável do perverso neste mundo são apresentados aqui com grande riqueza e fluência de palavras. A mesma ideia reaparece e é repetida em outros termos. Organizemos, portanto, os detalhes nos pontos apropriados e observemos:

I. Qual é a perversidade pela qual ele é castigado:

  1. Os desejos da carne, chamados aqui de pecados de sua juventude (v. 11), pois são os pecados aos quais as pessoas mais são atraídas nessa idade.

Diz-se que os prazeres proibidos dos sentidos são doces em sua boca (v. 12). Ele se entrega a todas as satisfações dos apetites carnais e sente prazer desordenado nelas, por considerá-las as delícias mais agradáveis.

É essa satisfação que esconde sob a língua e ali saboreia como a iguaria mais delicada que se possa imaginar. Conserva-a na boca (v. 13); se a tiver, não deseja mais nada. Jamais a trocará pelos prazeres espirituais e divinos da religião, pelos quais não tem gosto nem afeição.

Conservá-la na boca indica que persiste obstinadamente no pecado: poupa-o quando deveria matá-lo e mortificá-lo; não o abandona, mas se apega a ele e nele prossegue com obstinação. Indica também que repete o pecado ao revolvê-lo na lembrança com prazer.

É como aquela mulher adúltera (Ezequiel 23:19) que multiplicou suas prostituições ao recordar os dias da juventude. Assim faz aqui esse perverso. Ou esconder o pecado e conservá-lo sob a língua indica o cuidado com que encobre seu desejo preferido.

Sendo hipócrita, frequenta lugares de pecado em segredo para preservar a reputação de sua profissão de fé. Mas aquele que conhece o que está no coração também conhece o que está sob a língua e logo o revelará.

  1. O amor ao mundo e à sua riqueza. Ele põe a felicidade nos bens mundanos e, por isso, neles fixa o coração. Veja aqui:

(1.) Como é ávido por eles (v. 15): “Engoliu riquezas” com a mesma sofreguidão com que um homem faminto engole alimento e continua clamando: “Dê, dê!” É isso que desejava (v. 20); a seus olhos, era o melhor presente, aquilo que cobiçava ardentemente.

(2.) Quanto esforço faz para obtê-los. Por eles trabalhou (v. 18), não com diligência honesta numa ocupação lícita, mas perseguindo sem descanso todos os meios e métodos, per fas, per nefas — por meios lícitos ou ilícitos —, para enriquecer.

Devemos trabalhar, não para enriquecer (Provérbios 23:4), mas para sermos caridosos e termos o que dar (Efésios 4:28), não o que gastar.

(3.) Quantas coisas grandiosas promete a si mesmo por meio deles, sugeridas nos rios, nas correntes e nos ribeiros de mel e manteiga (v. 17). Sua frustração mostra que ele se lisonjeara com a esperança dessas coisas: esperava rios de prazeres sensuais.

  1. Violência, opressão e injustiça contra os vizinhos pobres, v. 19. Esse era o pecado dos gigantes do mundo antigo e um dos que mais trazem os juízos de Deus sobre nações e famílias. Acusa-se esse perverso:

(1.) De ter abandonado os pobres: não cuidou deles, não lhes mostrou bondade nem tomou providência alguma em favor deles. Talvez no começo desse esmolas, como os fariseus, para ganhar fama; mas, depois de obter com isso o que queria, abandonou a prática e deixou os pobres pelos quais antes parecia importar-se.

Quem faz o bem sem partir de um bom princípio, embora possa fazê-lo em abundância, não perseverará nele.

(2.) De tê-los oprimido e esmagado, aproveitando todas as oportunidades para lhes causar dano. Para enriquecer, roubou até o hospital dos pobres e os tornou ainda mais pobres.

(3.) De lhes ter tomado as casas pela força, sem ter direito a elas, como Acabe tomou a vinha de Nabote. Não por fraude secreta, falsificação, falso testemunho ou alguma manobra jurídica, mas abertamente, com violência declarada.

II. Qual é o castigo por essa perversidade:

  1. Suas expectativas serão frustradas, e ele não encontrará na riqueza mundana a satisfação que em vão prometeu a si mesmo (v. 17): jamais verá os rios, as correntes e os ribeiros de mel e manteiga com que esperava se empanturrar. Para os que amam, cortejam e admiram o mundo, ele não é aquilo que imaginam. O desfrute fica muito aquém da expectativa elevada.

  2. Seu corpo adoecerá e ficará debilitado. E quão pouco consolo alguém encontra nas riquezas sem ter saúde! A doença e a dor, sobretudo quando extremas, tornam amargo tudo o que desfruta.

Esse perverso levou todos os prazeres dos sentidos ao máximo. Mas que felicidade verdadeira pode ter quando seus ossos estão cheios dos pecados de sua juventude (v. 11), isto é, dos efeitos desses pecados?

Pela embriaguez e pela gula, pela impureza e pela devassidão da juventude, contraiu doenças que lhe causam dor muito tempo depois. Talvez tornem sua vida miserável e, como diz Salomão, consumam sua carne e seu corpo, Provérbios 5:11.

Talvez gostasse de brigar quando jovem e então não desse importância aos cortes e hematomas recebidos numa luta. Muito tempo depois, porém, sente-os nos ossos. Não pode encontrar algum alívio? Não. Provavelmente levará as dores e doenças para a sepultura, ou melhor, serão elas que o levarão para lá.

Assim, os pecados de sua juventude se deitarão com ele no pó. Até a decomposição do corpo na sepultura é, para ele, efeito do pecado (Jó 24:19); sua iniquidade está ali sobre seus ossos, Ezequiel 32:27. O pecado dos pecadores os acompanha para o outro lado da morte.

  1. Sua mente ficará inquieta e perturbada: “Certamente não sentirá sossego no ventre”, v. 20. Não tem no íntimo a tranquilidade que as pessoas imaginam, mas vive em agitação constante.

A riqueza mal adquirida que engoliu o adoece e, como alimento mal digerido, o repreende sem cessar. Ninguém espere desfrutar tranquilamente aquilo que obteve de maneira injusta.

Sua inquietação nasce: (1.) Da consciência voltada para trás, que o enche de medo da cólera de Deus contra sua perversidade. Até o pecado que era doce ao ser cometido e era saboreado sob a língua como um bocado delicado se torna amargo quando lembrado. Ao revê-lo, sente horror e aflição.

Em suas entranhas, ele se transforma (v. 14), como o livro de João, doce como mel na boca, mas amargo no ventre depois de comido, Apocalipse 10:10. Assim é o pecado: transforma-se em fel de áspides, o mais amargo que há, e no veneno de áspides (v. 16), o mais mortal; assim será para ele.

Aquilo que sugou com tanto prazer se revelará veneno de áspides; o mesmo acontecerá com todo ganho ilícito. A língua aduladora se revelará língua de víbora. Todas as graças encantadoras que se supõem existir no pecado se transformarão, quando a consciência despertar, em outras tantas fúrias violentas.

(2.) Das preocupações voltadas para o futuro, v. 22. No auge de sua abundância, quando se julga mais feliz e mais seguro de que continuará assim, estará em aperto. Isto é, pensará estar, por causa das ansiedades e perplexidades da própria mente, como o rico cuja terra produziu muito e que exclamou: “Que farei?”, Lucas 12:17.

  1. Perderá seus bens; eles diminuirão até nada restar, de modo que não se alegrará com eles, v. 18. Não apenas nunca se alegrará de verdade, mas também não se alegrará por muito tempo de modo algum.

(1.) Será obrigado a devolver o que engoliu injustamente (v. 15). “Engoliu riquezas” e pensou que eram suas para sempre, tanto quanto a comida que comera; mas se enganou: “Tornará a vomitá-las.” Talvez a própria consciência lhe torne tão penoso guardar o que obteve que, para ter sossego, fará restituição.

Não o fará com a alegria de praticar uma virtude, mas com a dor de quem vomita e com a maior relutância. Ou, se não devolver por conta própria o que tomou pela força, Deus, por sua providência, o obrigará. De um modo ou de outro, os bens mal adquiridos voltarão aos donos legítimos: “Deus os lançará para fora de seu ventre”, embora o amor ao pecado ainda esteja em seu coração.

Tão altas serão as queixas dos pobres que ele empobreceu que será obrigado a enviar seus filhos para acalmá-los e pedir-lhes perdão (v. 10): “Seus filhos procurarão agradar aos pobres”, enquanto as próprias mãos dele lhes devolverão os bens com vergonha (v. 18).

“Devolverá aquilo pelo qual trabalhou” com todos os artifícios da opressão. Não o engolirá de modo a digeri-lo: não permanecerá com ele. A restituição será proporcional à sua vergonha; como obteve injustamente muito, terá de devolver muito. Quando cada um receber o que é seu, pouco restará para ele.

Ser levado a devolver o que se obteve injustamente pela graça santificadora de Deus, como aconteceu com Zaqueu, é uma grande misericórdia. Ele restituiu voluntária e alegremente quatro vezes mais e ainda lhe sobrou muito para dar aos pobres, Lucas 19:8.

Ser forçado a devolver, porém, como Judas, apenas pelos terrores de uma consciência desesperada, não traz nenhum benefício ou consolo. Ele lançou ao chão as moedas de prata e foi enforcar-se.

(2.) Será despojado de tudo o que possui e se tornará mendigo. Aquele que despojou os outros também será despojado (Isaías 33:1), pois a mão de cada perverso estará contra ele.

Os inocentes a quem prejudicou aceitam a própria perda e dizem, como Davi: a perversidade procede dos perversos, mas minha mão não estará contra ele, 1 Samuel 24:13. Embora o tenham perdoado e não façam represálias, a justiça divina as fará.

Muitas vezes ela leva os perversos a vingar a causa dos justos, oprimindo e esmagando um homem mau pela mão de outro. Assim, despojado por todos os lados, ele não conservará nada daquilo que desejava (v. 20): não é apenas que não conservará tudo, mas não conservará coisa alguma.

“Nada restará de seu alimento” — que tanto cobiçava e comia com prazer —, v. 21. Todos os vizinhos e parentes o verão em condição tão ruim que, depois de sua morte, ninguém buscará seus bens.

Nenhum familiar esperará ganhar sequer um centavo com ele, nem desejará requerer a administração do que deixou. Em tudo isso, Zofar alude a Jó, que perdera tudo e fora reduzido à miséria extrema.

Versículos 23 a 29

Depois de descrever os muitos embaraços e aborrecimentos que costumam acompanhar as práticas perversas de opressores e homens cruéis, Zofar passa a mostrar a ruína completa deles no fim.

I. A ruína deles começará na cólera e na vingança de Deus, v. 23. A mão dos perversos estava contra o homem (v. 22), a mão de cada perverso. A mão dele era contra todos; por isso, a mão de todos se voltará contra ele.

Ainda assim, ao lutar com eles, talvez pudesse chegar perto de se defender. Seu coração, porém, não resistirá nem suas mãos serão fortes quando Deus tratar com ele (Ezequiel 22:14), quando Deus lançar sobre ele o furor de sua cólera e fazê-lo chover sobre ele.

Cada palavra aqui inspira terror. Contra ele não se levanta apenas a justiça de Deus, mas sua cólera, o profundo ressentimento pelas provocações feitas à sua pessoa. É o furor dessa cólera, aceso até o grau mais alto; é lançado sobre ele com força e violência; cai em abundância como chuva.

Vem sobre sua cabeça como o fogo e o enxofre que caíram sobre Sodoma, aos quais também se refere o salmista, Salmos 11:6: sobre os perversos Deus fará chover fogo e enxofre. Não há proteção contra isso senão em Cristo, o único abrigo contra a tempestade e a tormenta, Isaías 32:2.

Essa cólera será lançada sobre ele quando estiver prestes a encher o ventre, a empanturrar-se com o que obteve, prometendo a si mesmo satisfação abundante. Então, enquanto come, a tempestade o surpreenderá, quando se sente seguro e tranquilo e não percebe perigo algum.

Assim vieram a ruína do mundo antigo e a de Sodoma, quando seus habitantes estavam no auge da segurança e da sensualidade, como observa Cristo, Lucas 17:26, etc. Talvez Zofar aluda aqui à morte dos filhos de Jó enquanto comiam e bebiam.

II. A ruína deles será inevitável, sem possibilidade de escapar (v. 24): “Fugirá da arma de ferro.” A fuga revela culpa. O perverso não se humilhará sob os juízos de Deus nem buscará fazer as pazes com ele. Sua única preocupação é fugir da vingança que o persegue, mas em vão: se escapar da espada, o arco de aço o traspassará.

Deus dispõe de armas de toda espécie: tanto afia a espada quanto arma o arco (Salmos 7:12, 13). Pode enfrentar os inimigos cominus vel eminus — de perto ou de longe. Tem espada para os que pensam resistir-lhe com a própria força e arco para os que pensam evitá-lo com astúcia. Veja Isaías 24:17, 18; Jeremias 48:43, 44.

Quem está marcado para a ruína, ainda que escape de um juízo, encontrará outro à espera.

III. Será uma ruína completa e terrível. Quando se arrancar de seu corpo o dardo que o traspassou — pois Deus, quando atira, certamente acerta o alvo e, quando fere, atinge em cheio —, quando sair de sua bílis a espada reluzente, o relâmpago, como indica a palavra, a espada flamejante, a espada banhada no céu (Isaías 34:5), que terrores cairão sobre ele!

Quão fortes as convulsões, quão violentas as agonias da morte! Quão terrível é para um perverso ser capturado pela morte!

IV. Às vezes a ruína lhe sobrevém sem ser percebida, v. 26:

  1. As trevas que o envolvem são trevas ocultas: tudo é escuridão, trevas absolutas, sem a menor mistura de luz. Estão escondidas no seu esconderijo, para onde se retirou e onde espera abrigar-se. Sempre que se recolhe à própria consciência, encontra-se no escuro e completamente perdido.

  2. O fogo que o consome não é atiçado; acende-se sem ruído. É uma consumição cujos efeitos todos veem, mas cuja causa ninguém percebe. Está claro que a planta da cabaça murchou, mas o verme na raiz que a faz murchar não é visto.

Ele é consumido por um fogo brando e suave, com certeza, mas muito devagar. Quando o combustível é muito inflamável, não é preciso soprar o fogo; assim acontece com ele, já maduro para a ruína.

Os arrogantes e os que praticam a maldade serão palha, Malaquias 4:1. Um fogo inextinguível o consumirá, segundo alguns; e isso sem dúvida é verdade do fogo do inferno.

V. A ruína não atingirá apenas a ele, mas também à sua família: “Irá mal àquele que restar em sua tenda”, pois a maldição o alcançará, e talvez seja eliminado pela mesma doença grave. Há uma herança de cólera sobre a família, que destruirá tanto seus herdeiros quanto seus bens, v. 28.

  1. Seus descendentes serão arrancados pela raiz: “A descendência de sua casa partirá”, eliminada por mortes prematuras ou obrigada a fugir do país. Famílias numerosas e em crescimento, quando perversas e vis, logo são reduzidas, dispersas e exterminadas pelos juízos de Deus.

  2. Seu patrimônio se perderá. Seus bens deixarão a família tão depressa quanto entraram nela quando vier o dia da cólera de Deus. Durante todo o tempo em que reunia seus bens por fraude e opressão, ele acumulava cólera para esse dia.

VI. Sua ruína se revelará claramente justa e correta, causada por sua própria perversidade. Pois (v. 27) “o céu revelará sua iniquidade”: o Deus do céu, que vê toda a perversidade secreta dos maus, fará, de uma forma ou de outra, que o mundo inteiro saiba quão vil ele foi, para que todos reconheçam a justiça de Deus em tudo o que lhe acontecer.

“A terra se levantará contra ele”, tanto para descobrir sua perversidade quanto para vingá-la. A terra revelará o sangue derramado sobre ela, Isaías 26:21. A terra se revoltará contra ele, como o estômago rejeita algo repugnante, e não o abrigará mais.

O céu revela sua iniquidade e, portanto, não o receberá. Para onde terá de ir, senão para o inferno? Se o Deus do céu e da terra é seu inimigo, nem o céu nem a terra lhe mostrarão bondade. Todas as forças de ambos estão e estarão em guerra contra ele.

VII. Zofar conclui como um orador (v. 29): “Esta é a porção do perverso vinda de Deus.” Foi-lhe atribuída e designada como sua porção.

No fim a receberá, como um filho recebe sua porção, e a terá em caráter permanente; deverá conformar-se com ela: esta é a herança determinada para ele por Deus. É a regra estabelecida de seu julgamento, da qual recebeu advertência suficiente.

“Ó perverso, certamente morrerás”, Ezequiel 33:8. Embora os pecadores impenitentes nem sempre sofram os juízos temporais descritos aqui — nisso Zofar se enganou —, a cólera de Deus permanece sobre eles. São tornados miseráveis pelos juízos espirituais, muito piores.

Sua consciência, de um lado, pode ser um terror, mantendo-os em constante pavor. De outro, pode estar cauterizada e calada; nesse caso, são entregues a uma mente reprovada e à ruína eterna.

Jamais alguma doutrina foi mais bem explicada e pior aplicada do que esta por Zofar, que pretendia com tudo isso provar que Jó era hipócrita. Recebamos a boa explicação e façamos uma aplicação melhor, como advertência a nós mesmos para temer a Deus e não pecar.


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