Jó 17
Argumento
Neste capítulo, I. A reflexão de Jó sobre as duras censuras que os amigos lhe fizeram e, considerando-se um homem à beira da morte (v. 1), seu apelo a Deus, com o pedido de que aparecesse depressa em seu favor e lhe fizesse justiça, pois os amigos o haviam injustiçado e ele não sabia como defender-se, vv. 2-7.
Jó espera, porém, que vê-lo assim maltratado não seja, para as pessoas boas, motivo de tropeço, embora possa surpreendê-las, v. 8, 9.
II. Sua reflexão sobre as esperanças vãs com que os amigos o alimentaram, de que ainda veria dias bons, e a demonstração de que seus dias estavam prestes a terminar e de que todas as suas esperanças seriam sepultadas no pó com seu corpo, vv. 10-16.
Como os amigos se tornaram estranhos para ele, o que muito o afligia, Jó se familiarizou com a morte e com a sepultura, e isso lhe trouxe algum consolo.
Versículos 1 a 9
A Condição Deplorável de Jó; o Aproveitamento das Aflições de Jó. (a.C. 1520.)
O discurso de Jó é aqui um tanto fragmentado e interrompido. Ele passa subitamente de um assunto a outro, como é comum entre pessoas aflitas; mas podemos organizar o que ele diz em três pontos:
I. A condição deplorável em que o pobre Jó se encontrava. Ele a descreve para acentuar a grande falta de bondade dos amigos e justificar as próprias queixas. Vejamos qual era sua situação.
- Ele era um homem à beira da morte, v. 1. Dissera (Jó 16:22) que, quando viessem alguns anos, faria aquela longa viagem.
Aqui, porém, corrige a si mesmo: “Por que falo de anos futuros? Ai de mim! Estou partindo agora nessa viagem, pronto para ser oferecido, e chegou a hora de minha partida. Meu fôlego já está corrompido, ou interrompido; minhas forças se esgotaram; sou um homem acabado.”
É bom que cada um de nós se considere assim, como alguém à beira da morte, especialmente quando está doente. Estamos morrendo, isto é:
(1.) Nossa vida está passando, pois o fôlego da vida está partindo. Ele sai continuamente; está em nossas narinas (Isaías 2:22), a porta por onde entrou (Gênesis 2:7). Ali está no limiar, pronto para partir. Talvez a doença de Jó dificultasse sua respiração; depois de algum tempo, o fôlego curto se tornará ausência de fôlego.
Que o Ungido do Senhor seja o fôlego de nossas narinas! Recebamos a vida espiritual soprada em nós, e esse fôlego nunca será corrompido.
(2.) Nosso tempo está terminando: “Meus dias se extinguiram”, como uma vela que, desde o primeiro instante em que é acesa, se consome e queima continuamente. Aos poucos se apaga por si mesma, mas também pode ser extinta por mil acidentes. Assim é a vida.
Cabe-nos, portanto, aproveitar cuidadosamente os dias do tempo e passá-los na preparação para os dias da eternidade, que jamais se extinguirão.
(3.) Somos esperados em nossa morada permanente: “As sepulturas estão prontas para mim.” Mas uma sepultura não bastaria? Sim. Jó, porém, fala das sepulturas dos pais, aos quais se juntará: “As sepulturas onde eles foram postos também estão prontas para mim”, sepulturas em conjunto, a congregação dos mortos.
Por onde quer que andemos, há apenas um passo entre nós e a sepultura. Ainda que qualquer outra coisa não esteja pronta, ela está: é uma cama que se faz depressa. Se as sepulturas estão prontas para nós, precisamos estar prontos para elas.
“As sepulturas para mim” — assim está escrito — indica não só sua expectativa da morte, mas também seu desejo por ela: “Já terminei com o mundo e nada mais desejo senão uma sepultura.”
- Ele era um homem desprezado (v. 6): “Ele” — isto é, Elifaz, segundo alguns, ou, mais provavelmente, Deus, a quem Jó sempre reconhece como autor de suas calamidades — “fez de mim um provérbio entre o povo, o assunto do país, motivo de riso para muitos e alvo dos olhares de todos.”
“Antes” — ou publicamente, diante das pessoas — “eu era como um tamborim que qualquer um podia tocar.”
Compuseram canções sobre ele, e seu nome tornou-se um provérbio. Ainda hoje se diz: “Pobre como Jó.”
“Agora ele fez de mim um provérbio”, uma pessoa desacreditada diante dos homens, “ao passo que antes, na prosperidade, eu era como um tamborim, deliciæ humani generis” — o querido do gênero humano, alguém de quem todos gostavam. É comum que os honrados na riqueza sejam desprezados na pobreza.
- Ele era um homem de dores, v. 7. Chorara tanto que quase perdera a visão: “Meu olho se escureceu por causa da dor”, Jó 16:16. Assim, a tristeza do mundo produz trevas e morte. Afligira-se tanto que sua carne definhara por completo e ele se tornara um esqueleto, só pele e ossos.
“Todos os meus membros são como uma sombra. Fiquei tão pobre e magro que já não devo ser chamado homem, mas sombra de homem.”
II. O mau uso que os amigos fizeram dos sofrimentos de Jó. Pisotearam-no, insultaram-no e o condenaram como hipócrita por estar tão gravemente aflito. Que tratamento duro! Observe agora:
- Como Jó descreve esse tratamento e interpreta os discursos que os amigos lhe dirigem. Ele se vê como vítima de graves abusos.
(1.) Maltrataram-no com censuras cruéis, condenando-o como homem mau, justamente rebaixado e exposto ao desprezo, v. 2: “São zombadores, que escarnecem de minhas calamidades e me insultam porque fui abatido. Estão comigo para me maltratar diante de meus olhos: fingem amizade ao visitar-me, mas pretendem causar dano.”
“Não consigo livrar-me deles. Continuamente me dilaceram, e nem a razão nem a compaixão os convencem a desistir da acusação.”
(2.) Maltrataram-no também com belas promessas, pois nelas apenas zombavam dele. Jó os coloca (v. 5) entre os que lisonjeiam os amigos. Todos vieram lamentar com ele. Elifaz começara elogiando-o, Jó 4:3. Todos lhe prometeram que seria feliz se seguisse seus conselhos.
Jó considerou tudo isso lisonja destinada a afligi-lo ainda mais. Chamou tudo isso de provocação, v. 2. Fizeram o possível para provocá-lo e depois o condenaram por sua reação; mas ele se julga desculpável quando seu olho permanece fixo nessa provocação: ela não cessa, e ele não consegue desviar o olhar.
Repare: a falta de bondade daqueles que pisoteiam os amigos em sua aflição, zombando deles e maltratando-os, basta para provar, senão esgotar, até a paciência do próprio Jó.
- Como ele condena esse tratamento.
(1.) Era sinal de que Deus impedira o coração deles de compreender (v. 4): nessa questão, estavam privados do bom senso, e sua sabedoria costumeira os abandonara. A sabedoria é dom de Deus. Ele a concede a alguns e a nega a outros; concede-a em certas ocasiões e a nega em outras.
Quem não tem compaixão, nessa medida não tem entendimento. Onde não há a ternura própria de um ser humano, pode-se perguntar se há nele o entendimento humano.
(2.) Isso lhes traria descrédito duradouro e os diminuiria: “Por isso, não os exaltarás.” Certamente ficam afastados da honra aqueles cujo coração está oculto ao entendimento. Quando Deus confunde as pessoas, ele as rebaixa.
Quem mostra tão pouco conhecimento dos caminhos da Providência certamente não terá a honra de decidir esta disputa! Isso fica reservado para alguém de mais entendimento e melhor temperamento, como depois se mostrou Eliú.
(3.) Isso acarretaria uma maldição sobre suas famílias. Quem assim viola as leis sagradas da amizade perde o benefício dela, não só para si, mas também para seus descendentes: “Até os olhos de seus filhos desfalecerão.”
“Quando buscarem ajuda e consolo dos próprios amigos e dos amigos do pai, buscarão em vão, como eu, e ficarão tão decepcionados quanto estou com vocês.”
Repare: os que prejudicam seus vizinhos podem, no fim, prejudicar os próprios filhos mais do que imaginam.
- Como ele apela deles para Deus (v. 3): “Dá agora uma garantia; designa um fiador para mim junto a ti”, isto é: “Que eu tenha a certeza de que Deus tomará em suas próprias mãos a audiência e a decisão da causa; nada mais desejo. Que alguém se comprometa por Deus a levar adiante esta questão.”
Assim, aqueles cujo coração não os condena têm confiança diante de Deus e podem pedir-lhe, com ousadia humilde e cheia de fé, que os examine e prove.
Alguns entendem que Jó alude aqui à mediação de Cristo, pois fala de um fiador junto a Deus. Sem esse fiador, não ousaria aparecer diante de Deus nem apresentar a própria causa ao seu tribunal. As acusações dos amigos eram inteiramente falsas, mas ele não podia justificar-se perante Deus senão por meio de um mediador.
Nossas anotações inglesas oferecem esta leitura do versículo: “Designa, peço-te, meu fiador junto a ti, isto é, Cristo, que está contigo no céu e assumiu o compromisso de ser meu fiador. Que ele defenda minha causa e se levante por mim. Quem, então, baterá em minha mão?”
Isto é: “Quem ousará contender comigo? Quem me acusará de alguma coisa, se Cristo for meu advogado?” (Romanos 8:32, 33). Cristo é o fiador de um testamento melhor (Hebreus 7:22), um fiador designado por Deus. Se ele se responsabilizar por nós, não precisamos temer o que possam fazer contra nós.
III. O bom uso que os justos devem fazer das aflições de Jó, vindas de Deus, dos inimigos e dos amigos, v. 8, 9. Observe aqui:
- Como os santos são descritos.
(1.) São homens retos, honestos e sinceros, que agem segundo um princípio firme e com olhar singelo. Esse era o caráter do próprio Jó (Jó 1:1). É provável que ele se refira especialmente a homens retos que haviam sido seus íntimos e associados.
(2.) São os inocentes; não perfeitamente, mas a inocência é o alvo a que se dirigem e que procuram alcançar. A sinceridade é a inocência evangélica, e dos retos se diz que são “inocentes da grande transgressão”, Salmos 19:13.
(3.) São os justos, que andam no caminho da justiça.
(4.) Têm as mãos limpas, conservadas livres das grandes contaminações do pecado e, quando manchadas por fraquezas, lavadas na inocência, Salmos 26:6.
- Como devem reagir ao relato dos sofrimentos de Jó. Sem dúvida, muitos procurariam saber o que lhe acontecera, e todos falariam dele e de sua situação. Que uso as pessoas boas fariam disso?
(1.) Ficariam espantadas: “Os homens retos se espantarão com isso.” Admirar-se-iam de ouvir que um homem tão bom quanto Jó estivesse tão gravemente aflito no corpo, no nome e nos bens; que Deus pusesse a mão com tanta força sobre ele; e que seus amigos, que deveriam consolá-lo, acrescentassem dor à sua dor.
Que um santo tão notável fosse um sofredor tão notável e um homem tão útil fosse posto de lado em meio à sua utilidade: que diremos dessas coisas?
Os homens retos, embora em geral estejam certos de que Deus é sábio e santo em tudo o que faz, não podem deixar de espantar-se com tais atos da Providência. São paradoxos que só serão esclarecidos quando se cumprir o mistério de Deus.
(2.) Ficariam animados. O tratamento duro dispensado a esse fiel servo de Deus, em vez de afastá-los ou desanimá-los no serviço divino, lhes daria ainda mais ousadia para prosseguir e perseverar.
A preocupação de Paulo (1 Tessalonicenses 3:3) também era a de Jó: que nenhum homem bom fosse afastado de sua santidade ou de seu consolo por essas aflições, e que ninguém, por causa delas, passasse a pensar mal dos caminhos ou da obra de Deus.
O consolo de Paulo também era o de Jó: os irmãos no Senhor ganhariam confiança por causa de suas prisões, Filipenses 1:14. Com isso seriam animados:
[1.] A se opor ao pecado e enfrentar as conclusões corruptas e perniciosas que homens maus tirariam dos sofrimentos de Jó: que Deus abandonou a terra, que é inútil servi-lo e coisas semelhantes. “O inocente se levantará contra o hipócrita”; não suportará ouvir isso (Apocalipse 2:2), mas lhe resistirá face a face.
Ele se animará a investigar o sentido de tais atos da providência e estudar esses capítulos difíceis para poder lê-los com facilidade. Animar-se-á a defender a causa justa, porém lesada, da religião contra todos os seus opositores.
Repare: a ousadia dos ataques que os profanos fazem à religião deve aguçar a coragem e a determinação de seus amigos e defensores. É hora de se levantar quando se anuncia à entrada do acampamento: “Quem está do lado do Senhor?” Quando o vício age com ousadia, não é hora de a virtude esconder-se por medo.
[2.] A perseverar na religião. Em vez de recuar ou sequer dar um passo atrás diante desse espetáculo assustador, ou de parar para decidir se deve prosseguir — alusão a 2 Samuel 2:23 —, o justo continuará seu caminho com constância e determinação ainda maiores e avançará.
Embora veja em Jó que prisões e aflições o aguardam, o justo não se deixará abalar por nada disso (Atos 20:24). Os que mantêm os olhos no céu como destino manterão os pés nos caminhos da religião como percurso, sejam quais forem as dificuldades e os desânimos que encontrarem.
[3.] Para isso, a crescer na graça. O justo não apenas seguirá seu caminho apesar das aflições, mas ficará cada vez mais forte. Ao ver as provações de outros homens bons e experimentar as próprias, será mais vigoroso e ativo no cumprimento do dever, mais fervoroso e afetuoso, mais firme e destemido.
Quanto piores forem os outros, melhor ele será; o que desanima alguns lhe dá ousadia. O vento forte faz o viajante apertar o manto ao redor do corpo e cingi-lo com mais firmeza. Os que na verdade são sábios e bons crescerão continuamente em sabedoria e bondade. Progredir na religião é um bom sinal de sinceridade nela.
Versículos 10 a 16
Jó Censura Seus Três Amigos; a Vaidade das Expectativas Mundanas. (a.C. 1520.)
Os amigos de Jó haviam alegado consolá-lo com a esperança de que voltaria a prosperar. Agora ele mostra:
I. Que era insensatez deles falar assim (v. 10): “Voltem e venham agora; convençam-se de que estão errados e deixem-me persuadi-los a pensar como eu, pois não encontro entre vocês um só sábio que saiba explicar as dificuldades da providência de Deus ou aplicar os consolos de suas promessas.”
Não agem com sabedoria ao consolar os aflitos aqueles que buscam consolo na possibilidade de sua recuperação e de uma condição mais próspera neste mundo.
Embora não se deva perder a esperança disso, na melhor das hipóteses é algo incerto. Se não acontecer, como talvez não aconteça, o consolo construído sobre essa possibilidade também falhará.
Por isso, é sábio consolarmos a nós mesmos e aos outros em meio à aflição com aquilo que não falhará: a promessa de Deus, seu amor e sua graça e uma esperança bem fundamentada na vida eterna.
II. Que seria insensatez ainda maior da parte de Jó dar atenção a eles, pois:
- Todos os seus planos já estavam desfeitos, e ele vivia em grande confusão, v. 11, 12. Jó admite que, na prosperidade, muitas vezes se alegrava tanto com projetos do que faria quanto com perspectivas do que desfrutaria.
Agora, porém, considerava seus dias passados ou perto do fim; todos aqueles propósitos foram interrompidos, e suas expectativas, frustradas.
Havia pensado em ampliar seus limites, aumentar seus bens e estabelecer seus filhos. Provavelmente também tivera muitos pensamentos piedosos sobre promover a religião em seu país, reparar injustiças, reformar os profanos, socorrer os pobres e talvez levantar recursos para fins de caridade.
Concluiu, porém, que todos esses pensamentos de seu coração agora chegavam ao fim e que nunca teria a satisfação de ver seus desígnios realizados. Repare: o fim de nossos dias será o fim de todos os nossos planos e esperanças para este mundo. Mas, se nos apegarmos ao Senhor com pleno propósito de coração, a morte não interromperá esse propósito.
Forçado, assim, a buscar novos caminhos, Jó vivia em inquietação constante (v. 12). Como os pensamentos de seu coração haviam sido interrompidos, transformavam a noite em dia e abreviavam a luz.
Alguns, por vaidade e devassidão, transformam a noite em dia e o dia em noite. Jó, porém, fazia isso por causa da aflição e da angústia de espírito, que o impediam:
(1.) De repousar à noite. Seus olhos permaneciam abertos, de modo que a noite lhe era tão cansativa quanto o dia, e as inquietações noturnas o fatigavam tanto quanto os trabalhos diurnos.
(2.) De aproveitar o dia. A luz da manhã é bem-vinda, mas, por causa dessas trevas interiores, seu consolo logo desaparece, e o dia lhe é tão sombrio quanto a noite negra e escura (Deuteronômio 28:67).
Veja quantos motivos temos para agradecer pela saúde e pelo bem-estar que nos permitem acolher tanto as sombras da tarde quanto a luz da manhã.
- Todas as suas expectativas neste mundo logo seriam sepultadas com ele. Por isso, pensar nas grandes coisas com cuja esperança os amigos o lisonjearam (Jó 5:19; 8:21; 11:17) lhe parecia uma zombaria: “Ai de mim! Vocês apenas fazem de mim um tolo.”
(1.) Jó via que estava prestes a descer à sepultura. Uma casa conveniente, uma cama confortável e parentes com quem é agradável conviver são algumas das coisas em que encontramos satisfação neste mundo.
Ele não esperava encontrar nenhuma delas acima da terra; tudo o que sentia e via adiante era desagradável. Sob a terra, porém, esperava encontrá-las.
[1.] Não contava com outra casa senão a sepultura (v. 13): “Se espero, se existe algum lugar onde tornarei a ficar tranquilo, será na sepultura. Eu me enganaria se contasse com outra saída da aflição além daquela que a morte me dará. Nada é tão certo quanto isso.”
Repare: mesmo em toda a prosperidade, é bom manter a morte diante dos olhos. Seja o que for que esperamos, devemos esperar também a morte: ela pode impedir que aconteçam outras coisas que esperamos, mas nada a impedirá.
Veja, porém, como Jó procura não só reconciliar-se com a sepultura, mas também considerá-la desejável: “É minha casa.” A sepultura é uma casa; para os perversos, uma casa de prisão (Jó 24:19, 20); para os piedosos, Betábara, uma casa de passagem no caminho de volta ao lar.
“É minha casa por herança: nasci para ela; é a casa de meu pai. Também é minha por aquisição: tornei-me sujeito a ela.” Em breve todos teremos de nos mudar para essa casa. É sábio preparar-nos para isso; pensemos na mudança e enviemos adiante para nossa morada permanente.
[2.] Não contava com uma cama tranquila senão nas trevas: “Ali fiz minha cama”, diz ele. “Está feita, pois está pronta, e estou prestes a ir para ela.” A sepultura é uma cama: nela descansaremos ao entardecer de nosso dia na terra e dela nos levantaremos na manhã de nosso dia eterno, Isaías 57:2.
Que isso disponha as pessoas boas a morrer. É apenas ir para a cama; estão cansadas e sonolentas, e é hora de se deitarem. Por que não iriam de boa vontade quando o pai as chama?
“Ou melhor, fiz minha cama ao preparar-me para ela e procurei torná-la confortável, mantendo a consciência pura, vendo Cristo deitado nessa cama — transformando-a assim numa cama de especiarias — e olhando para além dela, para a ressurreição.”
[3.] Não contava com parentes com quem fosse agradável conviver senão os que teria na sepultura (v. 14): “Clamei à corrupção” — isto é, à sepultura, onde o corpo se corromperá —: “Tu és meu pai”, pois nossos corpos foram formados da terra. E disse aos vermes de lá que eram sua mãe e sua irmã, com quem tinha parentesco, pois o homem é um verme.
Também terei de conviver com eles, pois os vermes nos cobrirão, Jó 21:26. Jó se queixara de que seus parentes se haviam afastado dele (Jó 19:13, 14). Por isso, aqui reivindica familiaridade com outros parentes, que permanecerão junto dele quando os primeiros o rejeitarem. Repare:
Primeiro, todos nós somos parentes próximos da corrupção e dos vermes. Segundo, é bom familiarizarmo-nos com eles, pensando e meditando muitas vezes neles. Isso nos ajudaria muito a superar o amor desordenado à vida e o medo da morte.
(2.) Jó via todas as suas esperanças neste mundo descerem com ele à sepultura (v. 15, 16): “Já que em breve deixarei o mundo, onde está agora minha esperança? Como posso esperar prosperar, se não espero continuar vivo?”
Ele não estava sem esperança, mas sua esperança não estava onde os amigos queriam que estivesse. Se esperasse apenas nesta vida, seria o mais miserável de todos os homens.
“Não. Quanto à minha esperança, aquela com que me consolo e me sustento, quem a verá? Espero algo que está fora da vista, não as coisas que se veem e são temporais, mas as que não se veem e são eternas.”
Jó nos dirá qual é sua esperança (Jó 19:25): Non est mortale quod opto, immortale peto — Não busco o que perece, mas o que permanece para sempre.
“Mas as esperanças com que vocês querem me sustentar descerão comigo às trancas da cova. Vocês são homens mortais e não podem cumprir suas promessas. Eu sou um homem mortal e não posso desfrutar o bem que prometem. Portanto, já que descansaremos juntos no pó, deixemos todos de pensar neste mundo e voltemos o coração para outro.”
Em breve estaremos no pó, pois somos pó, pó e cinza na cova, sob suas trancas, ali retidos, sem jamais soltar as amarras da morte antes da ressurreição geral. Mas ali descansaremos, e descansaremos juntos.
Jó e seus amigos não conseguiam concordar agora, mas ambos ficarão quietos na sepultura; o pó dela logo lhes fechará a boca e encerrará a disputa. Que a previsão disso esfrie o ardor de todos os que contendem e modere os debatedores deste mundo.