Jó 14
Argumento
Jó havia deixado de falar aos amigos, pois via que não adiantava argumentar com eles. Aqui continua a falar com Deus e consigo mesmo. Lembrara aos amigos sua fragilidade e mortalidade (Jó 13:12); agora lembra a si mesmo as próprias e as apresenta a Deus como argumento para que suas misérias sejam um pouco aliviadas.
Temos aqui um relato: I. Da vida humana, que é 1. Curta, v. 1. 2. Penosa, v. 1. 3. Pecaminosa, v. 4. 4. Limitada, v. 5, 14.
II. Da morte humana, que põe fim definitivo à nossa vida presente, à qual não voltaremos (vv. 7-12); que nos esconde das calamidades da vida (v. 13); destrói as esperanças da vida (v. 18, 19); afasta-nos das ocupações da vida (v. 20); e nos deixa sem saber o que acontece com nossos parentes nesta vida, por mais que antes tenhamos nos preocupado com eles, v. 21, 22.
III. Do uso que Jó faz de tudo isso. 1. Apresenta-o a Deus, que, a seu ver, o tratava com rigor e severidade excessivos (v. 16, 17). Pede que, considerando sua fragilidade, Deus não contenda com ele (v. 3), mas lhe conceda algum descanso, v. 6.
- Dispõe-se a preparar-se para a morte (v. 14) e anima-se com a esperança de que ela lhe trará consolo, v. 15. Este capítulo é apropriado para solenidades fúnebres. Meditar nele com seriedade nos ajudará tanto a tirar proveito da morte dos outros quanto a nos preparar para a nossa.
Versículos 1 a 6
Brevidade e Fragilidade da Vida Humana. (a.C. 1520.)
Somos levados aqui a pensar:
I. Na origem da vida humana. Deus é, de fato, sua grande origem, pois soprou no homem o fôlego da vida, e nele vivemos. Mas contamos a vida a partir do nascimento; dele devemos contar também sua fragilidade e sua contaminação.
- Sua fragilidade: o homem, nascido de mulher, tem por isso poucos dias, v. 1. Isso pode referir-se à primeira mulher, chamada Eva porque era a mãe de todos os viventes.
Todos nascemos dela, que, enganada pelo tentador, foi a primeira a transgredir. Por conseguinte, herdamos dela o pecado e a corrupção que tanto encurtam como entristecem nossos dias.
Ou pode referir-se à mãe imediata de cada pessoa. A mulher é o vaso mais frágil, e sabemos que partus sequitur ventrem — o filho puxa à mãe.
Portanto, o homem forte não se glorie de sua força nem da força do pai. Lembre-se de que nasceu de mulher e de que, quando Deus quer, os valentes se tornam como mulheres, Jeremias 51:30.
- Sua contaminação (v. 4): “Quem poderá tirar coisa limpa de coisa imunda?” Se o homem nasce de uma mulher pecadora, como poderia deixar de ser pecador? Veja Jó 25:4: “Como poderá ser limpo aquele que nasce de mulher?”
Filhos limpos não podem vir de pais impuros, assim como águas puras não vêm de uma fonte impura, nem uvas vêm de espinheiros. Nossa corrupção habitual é herdada com nossa natureza dos pais e, portanto, está entranhada nos ossos.
Nosso sangue não está apenas maculado por uma condenação legal; está também contaminado por uma doença hereditária. De nosso Senhor Jesus, feito pecado por nós, diz-se que nasceu de uma mulher, Gálatas 4:4.
II. Na natureza da vida humana: ela é uma flor, é uma sombra, v. 2. A flor murcha, e toda a sua beleza logo se perde. A sombra passa depressa, e sua própria existência logo se perderá e se dissolverá nas sombras da noite. Não fazemos caso de nenhuma das duas nem depositamos confiança em qualquer delas.
III. Na brevidade e incerteza da vida humana: o homem tem poucos dias. Aqui a vida é contada não em meses ou anos, mas em dias, pois não podemos ter certeza de que um dia qualquer não seja o último.
Esses dias são poucos, menos do que imaginamos. São poucos, no máximo, comparados com os dias dos primeiros patriarcas, e muito mais comparados com os dias da eternidade. Mas são ainda menos para a maioria, que não chega ao que chamamos de idade do homem.
Às vezes o homem mal aparece e já é cortado: mal sai do ventre e morre no berço; mal entra no mundo e em suas ocupações e é levado embora assim que põe a mão no arado.
Mesmo que não seja cortado imediatamente, foge como uma sombra e nunca permanece no mesmo estado nem na mesma forma; sua aparência passa. Assim também passa este mundo e nossa vida nele, 1 Coríntios 7:31.
IV. Na condição calamitosa da vida humana. Assim como o homem vive pouco, também vive tristemente. Se pudesse alegrar-se nos poucos dias que tem aqui, seria bom; alguns se gabam de uma vida curta e alegre. Mas não é assim.
Durante esses poucos dias ele está cheio de aflição; não apenas aflito, mas cheio de aflição, ora trabalhando, ora se inquietando, lamentando ou temendo. Não se passa um dia sem algum aborrecimento, alguma agitação, alguma desordem. Os que amam o mundo terão dele o bastante.
O homem é satur tremore — cheio de comoção. A escassez de seus dias lhe causa constante aflição e inquietação enquanto espera seu fim, e ele sempre vive na incerteza quanto à própria vida.
Contudo, como os dias do homem são tão cheios de aflição, é bom que sejam poucos. Assim, a prisão da alma no corpo e seu exílio longe do Senhor não são perpétuos nem duram muito.
Quando chegarmos ao céu, nossos dias serão muitos e inteiramente livres de aflições; enquanto isso, a fé, a esperança e o amor contrabalançam as dificuldades presentes.
V. Na natureza pecaminosa da vida humana, decorrente da natureza pecaminosa do homem. Alguns entendem assim a pergunta (v. 4): “Quem poderá tirar coisa limpa de coisa imunda?” Isto é, uma ação limpa de um princípio impuro?
Repare: as transgressões praticadas são o produto natural da corrupção habitual. Esta é chamada pecado original porque é a origem de todos os nossos pecados.
O santo Jó lamenta isso aqui, como fazem todos os santificados, seguindo as correntes até a fonte (Salmos 51:5). Alguns pensam que ele apresenta esse fato a Deus como apelo à compaixão:
“Senhor, não observes com extremo rigor os pecados decorrentes de minha fragilidade e fraqueza humanas, pois conheces minha fraqueza. Ah, lembra-te de que sou carne!”
A paráfrase caldaica traz uma leitura digna de nota deste versículo: “Quem pode tornar limpo um homem contaminado pelo pecado? Acaso não pode um só?”, isto é, Deus. Ou: quem, senão Deus, que é um só, o poupará?
Pela graça onipotente, Deus pode mudar a pele do etíope e a pele de Jó, ainda que coberta de vermes.
VI. No prazo estabelecido para a vida humana, v. 5.
- Temos aqui certeza de três coisas:
(1.) Nossa vida chegará ao fim. Nossos dias na terra não são incontáveis nem intermináveis; são contados e logo terminarão, Daniel 5:26.
(2.) O conselho e o decreto de Deus determinam por quanto tempo viveremos e quando morreremos. O número de nossos meses está com Deus, sujeito ao dispor de seu poder, que ninguém pode conter, e diante de sua onisciência, que ninguém pode enganar.
É certo que a providência de Deus ordena o fim de nossa vida; nossos tempos estão em sua mão. As forças da natureza dependem dele e agem sob sua autoridade. Nele vivemos e nos movemos. As doenças são servas suas; ele mata e dá vida.
Nada acontece por acaso, nem mesmo a morte causada por uma flecha disparada ao acaso. Portanto, é certo que a presciência de Deus determinou de antemão esse prazo, pois todas as suas obras são conhecidas por ele.
Tudo o que Deus faz, ele determinou; contudo, leva em conta, em parte, o curso estabelecido da natureza — o fim e os meios são determinados juntos — e as regras estabelecidas do governo moral, que nesta vida pune o mal e recompensa o bem. Não somos governados pelo destino cego dos estoicos, nem pela sorte cega dos epicuristas.
(3.) Não podemos ultrapassar os limites fixados por Deus, pois seus conselhos são imutáveis, uma vez que sua presciência é infalível.
- Jó apresenta essas considerações como motivos:
(1.) Para que Deus não o observe nem observe seus deslizes e falhas com tanto rigor (v. 3): “Já que trago dentro de mim uma natureza tão corrupta e estou sujeito a tanta aflição, que é uma tentação constante vinda de fora, abres os olhos e os fixas em alguém como eu para notar com extremo rigor tudo o que faço de errado?”, Jó 13:27.
“E trazes a julgamento contigo alguém tão desprezível quanto um verme, diante de ti, que enxergas tão bem a menor falha, és tão santo que a odeias, tão justo que a condenas e tão poderoso que a punes?”
Considerar nossa incapacidade de contender com Deus, nossa natureza pecaminosa e nossa fraqueza deve levar-nos a orar: “Senhor, não entres em juízo com teu servo”.
(2.) Para que Deus não o trate com tanta severidade: “Senhor, tenho pouco tempo de vida. Em breve, certamente partirei daqui, e os poucos dias que me restam são, na melhor hipótese, cheios de aflição. Ah, concede-me algum descanso!”, v. 6.
“Deixa de afligir assim uma pobre criatura e permite-lhe repousar um pouco. Concede-lhe tempo para respirar, até que cumpra seu dia como um trabalhador contratado.”
“Está determinado que eu morra uma vez. Que esse único dia me baste; não me deixes morrer continuamente, mil mortes. Que baste o fato de minha vida ser, na melhor hipótese, como o dia de um trabalhador contratado, um dia de labuta e trabalho.”
“Estou disposto a cumpri-lo e a enfrentar da melhor maneira as agruras comuns da vida humana, o peso e o calor do dia. Mas não me deixes sentir esses tormentos incomuns. Não permitas que minha vida seja como o dia de um criminoso, inteiramente um dia de execução.”
Desse modo podemos encontrar algum alívio em grandes aflições ao nos confiarmos à compaixão do Deus que conhece nossa constituição e a levará em conta, assim como nosso estado debilitado.
Versículos 7 a 15
A Expectativa da Morte. (a.C. 1520.)
Vimos o que Jó diz sobre a vida; vejamos agora o que diz sobre a morte, assunto em que seus pensamentos se ocupavam muito agora que estava doente e dolorido.
Não é inoportuno pensar na morte quando temos saúde. Mas é uma falta de reflexão indesculpável considerá-la distante quando já fomos postos sob a custódia dos mensageiros da morte.
Jó já havia mostrado que a morte virá e que sua hora está fixada. Agora mostra:
I. Que a morte é uma partida definitiva deste mundo. Ele já falara disso (Jó 7:9, 10) e volta ao assunto. Embora essa verdade não precise ser provada, precisa ser muito considerada para que tiremos dela o devido proveito.
- O homem cortado pela morte não voltará à vida como uma árvore cortada. Jó mostra de maneira muito bela a esperança que existe para uma árvore, vv. 7-9.
Se o corpo da árvore for cortado e apenas o tronco ou toco ficar na terra, mesmo que pareça morto e seco, voltará a lançar ramos novos como se tivesse acabado de ser plantado.
É como se o toco da árvore sentisse e percebesse o cheiro da umidade da terra e da chuva do céu; elas agem sobre ele e o fazem reviver. O corpo morto de um homem, porém, não as perceberia nem seria afetado por elas em grau algum.
No sonho de Nabucodonosor, a perda do uso da razão foi representada pelo corte de uma árvore. Sua recuperação foi representada pelo toco deixado na terra, preso com uma cinta de ferro e bronze, para ser molhado pelo orvalho do céu, Daniel 4:15.
O homem, porém, não tem semelhante perspectiva de voltar à vida. A vida vegetal custa pouco e é fácil de restaurar: o cheiro da água a recupera. A vida animal de alguns insetos e aves também: o calor do sol a faz voltar.
Mas a alma racional, uma vez retirada, é grande e nobre demais para ser trazida de volta por qualquer força da natureza. Está fora do alcance do sol e da chuva e só pode ser restaurada pela ação direta da própria Onipotência.
Pois (v. 10) o homem morre e se consome; sim, o homem expira, e onde está? Aqui se usam duas palavras para homem: Geber, um homem poderoso, que morre apesar do poder; Adam, um homem da terra, que expira por ser terreno.
Repare: o homem é uma criatura mortal. Jó o descreve pelo que lhe acontece:
(1.) Antes da morte: ele se consome. Consome-se continuamente, morrendo a cada dia e gastando o capital da vida. A doença e a velhice consomem a carne, a força e a beleza.
(2.) Na morte: ele expira. A alma deixa o corpo e volta a Deus, que a deu, o Pai dos espíritos.
(3.) Depois da morte: onde está ele? Já não está onde estava; seu lugar não o conhece mais. Mas será que não está em parte alguma? Alguns leem assim. Sim, está em algum lugar.
É muito solene pensar onde estão os que expiraram e onde estaremos quando expirarmos. A alma foi para o mundo dos espíritos, entrou na eternidade e não voltará mais a este mundo.
- O homem deitado na sepultura não se levantará de novo, vv. 11-12. Toda noite nos deitamos para dormir e pela manhã despertamos e nos levantamos. Na morte, porém, devemos deitar-nos na sepultura.
Não voltaremos a despertar nem a nos levantar para um mundo e uma condição como os atuais. Só despertaremos e nos levantaremos quando os céus, fiéis medidas do tempo, deixarem de existir e, consequentemente, o próprio tempo chegar ao fim e for absorvido pela eternidade.
Assim, a vida humana pode ser comparada às águas de uma inundação que se espalha pela terra. Alcançam longe e impressionam, mas são rasas. Quando se separam do mar ou do rio cuja cheia as causou, logo diminuem, secam, e seu lugar não as conhece mais.
As águas da vida logo evaporam e desaparecem. O corpo, como parte dessas águas, afunda e penetra na terra, onde é sepultado. A alma, como outra parte delas, é elevada para misturar-se às águas acima do firmamento.
O erudito sir Richard Blackmore vê aqui também uma diferença. Se as águas diminuem e secam no verão, retornam no inverno; com a vida do homem, porém, não é assim. Eis parte de sua paráfrase, em suas próprias palavras:
Um rio corrente, ou um lago parado,
Pode deixar as margens secas e as praias descobertas;
Suas águas podem evaporar e subir,
Deixar seu leito para rolar nas nuvens do alto;
Mas as águas que voltam restaurarão
O que no verão haviam perdido antes.\
Mas se, ó homem, tuas correntes vitais deixarem
Seus canais púrpuras e privarem o coração,
Jamais receberão novas provisões,
Nem sentirão a maré pulsante da vida voltar.
II. Que, ainda assim, o homem voltará à vida em outro mundo, no fim dos tempos, quando os céus deixarem de existir. Então os mortos despertarão e serão levantados do sono.
A ressurreição dos mortos era, sem dúvida, um artigo da fé de Jó, como se vê em Jó 19:26. Parece que ele a tem em vista aqui. Na convicção dessa verdade, encontramos três coisas:
- Um pedido humilde por um esconderijo na sepultura, v. 13. Jó desejava morrer não só por um cansaço apaixonado desta vida, mas também pela certeza piedosa de uma vida melhor, para a qual enfim ressuscitaria.
“Ah, se me escondesses na sepultura!” Para o povo de Deus, a sepultura não é apenas lugar de descanso, mas também esconderijo. Deus tem a chave dela, para permitir a entrada agora e a saída na ressurreição.
Deus esconde as pessoas na sepultura como escondemos um tesouro em lugar secreto e seguro. Aquele que esconde encontrará, e nada se perderá.
“Ah, se me escondesses, não só das tempestades e aflições desta vida, mas também para a felicidade e glória de uma vida melhor! Deixa-me repousar na sepultura, reservado para a imortalidade, oculto de todo o mundo, mas não de ti.”
“Não estarei oculto daqueles olhos que viram minha substância quando fui formado com primor nas profundezas da terra”, Salmos 139:15, 16. Ali, Jó deseja repousar:
(1.) Até passar a cólera de Deus. Enquanto os corpos dos santos permanecem na sepultura, restam alguns efeitos da cólera de que eram filhos por natureza; continuam sob alguns efeitos do pecado. Quando o corpo ressuscitar, ela terá passado por completo: a morte, último inimigo, será então totalmente destruída.
(2.) Até chegar o tempo determinado para que eu seja lembrado, como Noé foi lembrado na arca (Gênesis 8:1). Ali Deus não só o escondeu da destruição do mundo antigo, mas o reservou para a restauração de um novo mundo.
Os corpos dos santos não serão esquecidos na sepultura. Há um tempo designado, um tempo determinado, para serem procurados.
Não podemos ter certeza de que enxergaremos, através da escuridão das aflições presentes, dias bons depois delas neste mundo. Mas, se ao menos chegarmos bem à sepultura, poderemos, com os olhos da fé, enxergar através de suas trevas, como Jó aqui, dias melhores do outro lado, num mundo melhor.
- Uma decisão santa de aguardar pacientemente a vontade de Deus tanto na morte quanto na ressurreição (v. 14): “Se o homem morrer, voltará a viver? Todos os dias do tempo que me foi designado esperarei, até que venha minha mudança.”
Como os amigos se mostraram consoladores miseráveis, Jó passou a consolar-se ainda mais por conta própria. Sua situação era ruim, mas a expectativa de uma mudança lhe trazia satisfação.
Creio que ele não podia referir-se ao retorno a uma condição próspera neste mundo. Seus amigos, de fato, o lisonjeavam com essa esperança, mas ele próprio havia perdido toda esperança disso.
Consolos fundados em incertezas serão, na melhor hipótese, incertos. Portanto, aquilo cuja expectativa o sustenta aqui é, sem dúvida, algo mais seguro.
A mudança pela qual ele espera deve ser entendida de uma destas maneiras:
(1.) Como a mudança da ressurreição, quando o corpo desprezível será transformado (Filipenses 3:21). Será uma mudança grandiosa e gloriosa. Nesse caso, a pergunta “Se o homem morrer, voltará a viver?” expressa admiração:
“Que extraordinário! Esses ossos secos viverão? Se assim for, minha alma separada esperará durante todo o tempo determinado para a separação entre alma e corpo, até chegar a mudança, quando voltará a unir-se ao corpo; e também minha carne descansará em esperança”, Salmos 16:9.
Ou, (2.) Como a mudança na morte: “Se o homem morrer, voltará a viver? Não, não uma vida como a que vive agora. Por isso esperarei pacientemente até chegar a mudança que porá fim às minhas calamidades, sem desejar impacientemente que ela venha antes da hora, como tenho feito.” Observe aqui:
[1.] Morrer é coisa séria, uma tarefa à parte. É uma mudança: o corpo muda visivelmente, sua aparência se altera e suas ações chegam ao fim. Mas a mudança da alma é maior: ela deixa o corpo e vai ao mundo dos espíritos, encerra seu estado de prova e entra no de retribuição.
Essa mudança virá e será definitiva, ao contrário das transformações dos elementos, que retornam ao estado anterior. Não: devemos morrer sem voltar a viver deste modo.
Morre-se uma só vez, e é preciso fazer bem aquilo que só se faz uma vez. Um erro aqui é fatal, definitivo e não pode ser corrigido depois.
[2.] Por isso, é dever de cada um de nós esperar por essa mudança e continuar esperando durante todos os dias do tempo que nos foi designado.
O tempo de vida é um tempo designado; deve ser contado em dias, e esses dias devem ser gastos na espera por nossa mudança. Isto é:
Primeiro, devemos esperar que ela venha e pensar muito nela. Segundo, devemos desejar que venha, como quem anseia estar com Cristo. Terceiro, devemos estar dispostos a aguardar até que venha, por crer que o tempo de Deus é o melhor. Quarto, devemos empenhar-nos em preparar-nos para ela, para que seja uma mudança bendita para nós.
- Uma alegre expectativa de felicidade e satisfação nisso (v. 15): então Deus chamará, e Jó lhe responderá. Agora Jó estava sob tal nuvem que não podia nem ousava responder (Jó 9:15, 35; 13:22). Mas consolava-se com o pensamento de que viria um tempo em que Deus chamaria e ele responderia. Então, isto é:
(1.) Na ressurreição: “Tu me chamarás para fora da sepultura pela voz do arcanjo, e eu responderei e virei ao chamado.” O corpo é obra das mãos de Deus, e ele terá desejo por ele, pois lhe preparou uma glória.
Ou, (2.) Na morte: “Chamarás meu corpo à sepultura e minha alma para junto de ti, e eu responderei: ‘Pronto, Senhor, pronto. Já vou, já vou; aqui estou’.”
As almas piedosas podem responder alegremente à convocação da morte e comparecer à sua intimação. Seus espíritos não lhes são exigidos à força (como em Lucas 12:20), mas são entregues voluntariamente.
O tabernáculo terreno não é derrubado violentamente, mas deixado de lado por vontade própria, com esta certeza: “Tu desejarás a obra de tuas mãos.” “Tens misericórdia reservada para mim, não só porque me fizeste por tua providência, mas também porque me refizeste por tua graça”.
De outro modo, aquele que os fez não os salvará. Repare: a graça na alma é obra das próprias mãos de Deus. Portanto, ele não a abandonará neste mundo (Salmos 138:8), mas desejará aperfeiçoá-la no outro e coroá-la de glória sem fim.
Versículos 16 a 22
As Queixas de Jó. (a.C. 1520.)
Jó volta aqui às suas queixas. Embora não esteja sem esperança da felicidade futura, acha muito difícil superar as aflições presentes.
I. Queixa-se das agruras particulares que julgava sofrer por causa do rigor da justiça de Deus, v. 16, 17. Por isso ansiava partir para o mundo onde a cólera divina terá passado, pois agora via continuamente os sinais dela.
Era como uma criança que, sob a disciplina severa da vara, anseia chegar à maioridade. “Quando virá minha mudança? Pois agora parece-me que contas meus passos, vigias meu pecado e o selas num saco, como autos de acusação guardados em segurança para serem apresentados contra o prisioneiro.”
Veja Deuteronômio 32:34. “Aproveitas toda oportunidade contra mim; são cobradas antigas dívidas, toda fraqueza é censurada, e mal dou um passo em falso, recebo um castigo.” Aqui:
Jó reconhece corretamente a justiça divina ao admitir que sofria por seus pecados e transgressões e que fizera o suficiente para merecer tudo o que lhe sobreviera. Havia pecado em todos os seus passos e transgressão suficiente para trazer sobre si toda essa ruína, se isso fosse investigado rigorosamente. Está longe de dizer que perece inocente.
Contudo, Jó é injusto com a bondade divina ao sugerir que Deus observa com extremo rigor tudo o que ele faz de errado e interpreta tudo da pior maneira. Já falara nesse sentido em Jó 13:27.
Disse isso sem a devida reflexão; portanto, não nos demoraremos muito no assunto. Deus realmente vê todos os nossos pecados, inclusive os do seu povo. Mas não é severo ao acertar contas conosco, nem se força jamais a aplicação da lei contra nós; somos punidos menos do que nossas iniquidades merecem.
Deus, de fato, sela e costura as transgressões dos impenitentes para o dia da cólera; os pecados do seu povo, porém, ele apaga como uma nuvem.
II. Jó se queixa da condição de desgaste da humanidade em geral. Vivemos num mundo que morre. Quem conhece o poder da ira de Deus, pela qual somos consumidos e afligidos, e sob a qual passam todos os nossos dias? Veja Salmos 90:7-9, 11. E quem pode resistir às suas repreensões? Salmos 39:11.
- Vemos o desgaste da própria terra:
(1.) De suas partes mais fortes, v. 18. Nada durará para sempre: vemos até as montanhas se esfarelarem e desaparecerem; murcham e caem como uma folha. As rochas envelhecem e passam, batidas continuamente pelo mar.
As águas desgastam as pedras por pingarem continuamente, non vi, sed sæpe cadendo — não pela violência, mas pela constância com que caem. Nesta terra, tudo piora com o desgaste. Tempus edax rerum — o tempo devora todas as coisas. Não é assim com os corpos celestes.
(2.) De seus produtos naturais. Aquilo que brota da terra e parece estar firmemente enraizado nela às vezes é arrastado pelo excesso de chuva, v. 19.
Alguns pensam que Jó apresenta isso como argumento por alívio: “Senhor, minha paciência não resistirá para sempre; até as rochas e as montanhas acabarão cedendo. Portanto, põe fim à contenda.”
- Portanto, não surpreende que vejamos o desgaste do homem na terra, pois ele é da terra, terreno. Jó começa a pensar que seu caso não é singular e que, por isso, deve conformar-se com o destino comum. Muitos exemplos nos mostram:
(1.) Como é vão esperar muito daquilo de que desfrutamos na vida: “Tu destróis a esperança do homem”, isto é, “pões fim a todos os planos que ele fez e a todas as perspectivas de satisfação com as quais se iludiu”.
A morte destruirá todas as esperanças fundadas em confianças mundanas e restritas a consolos mundanos. A esperança em Cristo e a esperança no céu, porém, a morte levará à plenitude, não destruirá.
(2.) Como é vão lutar contra os ataques da morte (v. 20): “Tu prevaleces para sempre contra ele”. Repare: o homem não é adversário à altura de Deus. Deus certamente prevalecerá contra aquele com quem contende; prevalecerá para sempre, de modo que ele jamais poderá resistir novamente.
Repare ainda: o golpe da morte é irresistível. É inútil contestar sua convocação. Deus prevalece contra o homem, e ele passa; eis que já não está. Olhe para um homem à morte e veja:
[1.] Como sua aparência muda: “Tu mudas o semblante dele”, e isso de duas maneiras. Primeiro, pela doença do corpo. Que mudança se vê no rosto de alguém após poucos dias de enfermidade! Quanto maior após alguns minutos de morte!
O rosto que era majestoso e imponente torna-se insignificante e desprezível; o que era belo e agradável torna-se medonho e assustador. “Sepulta meu morto longe da minha vista.” Onde está, então, a beleza admirada?
A morte muda o rosto e depois nos manda embora deste mundo; dispensa-nos daqui de uma vez por todas, sem retorno. Segundo, pela perturbação da mente.
Repare: a aproximação da morte fará até os mais fortes e corajosos mudarem de semblante. Fará o rosto mais alegre e sorridente parecer grave e sério, e o rosto mais ousado e destemido parecer pálido e temeroso.
[2.] Como pouco se ocupa dos assuntos da família, que antes lhe eram tão caros. Quando cai nas mãos dos precursores da morte, talvez atingido por paralisia ou apoplexia, delirando de febre ou lutando contra a morte, conte-lhe as notícias mais agradáveis ou as mais dolorosas a respeito dos filhos: para ele dá no mesmo.
Não as conhece nem as percebe, v. 21. Está partindo para o mundo onde será completamente alheio a tudo aquilo que aqui o ocupava e comovia.
Pensar nisso deve moderar nossa preocupação com filhos e famílias. Deus saberá o que lhes acontecerá quando partirmos. Portanto, confiemo-los a ele, deixemo-los com ele e não nos sobrecarreguemos com preocupações inúteis e sem resultado por eles.
[3.] Como são terríveis as agonias da morte (v. 22): enquanto a carne está sobre ele — assim se pode ler —, isto é, o corpo que ele tanto reluta em deixar, ela sofre; e, enquanto sua alma está dentro dele, isto é, o espírito que ele tanto reluta em entregar, ela se lamenta.
Repare: morrer é tarefa árdua; as dores da morte costumam ser intensas. Portanto, é insensato adiar o arrependimento para o leito de morte e deixar por fazer a única coisa necessária justamente quando se está incapaz de fazer qualquer coisa.
A verdadeira sabedoria é fazer as pazes com Deus em Cristo e manter a boa consciência, acumulando assim os consolos que nos sustentarão e aliviarão diante das dores e tristezas da hora da morte.