Matthew Henry

Jó 13

Argumento

Jó passa a aplicar o que dissera no capítulo anterior. Agora não está tão sereno quanto estava então, pois:

I. Fala com muita ousadia aos amigos, comparando-se a eles apesar das humilhações que sofre, vv. 1-2. Condena-os pela falsidade, pela precipitação em julgar, pela parcialidade e pelo engano sob o pretexto de defender a causa de Deus (vv. 4-8).

Ameaça-os com os juízos de Deus por isso (vv. 9-12), pede que se calem (v. 5, 13, 17) e se volta deles para Deus, v. 3.

II. Fala com muita ousadia a seu Deus. 1. Em algumas expressões, sua fé é muito ousada, mas não mais ousada do que bem-vinda, v. 15, 16, 18. 2. Em outras, sua paixão é ousada em excesso nas perguntas que dirige a Deus sobre a condição deplorável em que se encontra (v. 14, 19, etc.).

Queixa-se da confusão em que está (vv. 20-22), da dificuldade em descobrir qual pecado levou Deus a afligi-lo assim e, em suma, do rigor com que Deus o trata, vv. 23-28.

Versículos 1 a 12

A Resposta de Jó a Zofar. (a.C. 1520.)

Jó expressa aqui com vigor seu ressentimento diante da falta de bondade dos amigos.

I. Ele lhes responde como alguém que compreendia a questão debatida tão bem quanto eles e não precisava ser ensinado por eles, vv. 1-2. Os amigos o obrigaram, como os coríntios fizeram com Paulo, a elogiar a si mesmo e ao próprio conhecimento, não por vaidade, mas para defender-se.

Tudo o que dissera antes tinha sido confirmado por muitos exemplos que seus olhos viram e corroborado por muitas autoridades que seus ouvidos ouviram. Jó o compreendia bem e sabia como aplicá-lo.

Felizes são os que não apenas veem e ouvem, mas entendem a grandeza, a glória e a soberania de Deus. Jó pensava que isso justificava o que havia dito antes (Jó 12:3), e repete aqui (v. 2):

“O que vocês sabem, eu também sei. Por isso, não preciso vir a vocês para ser ensinado; não sou inferior a vocês em sabedoria.” Repare: quem entra numa discussão fica sujeito à tentação de exaltar-se e de diminuir seus irmãos além do devido. Deve, portanto, vigiar e orar contra o orgulho.

II. Jó se volta deles para Deus (v. 3): “Eu falaria com o Todo-Poderoso”. É como se dissesse: “Não espero obter satisfação conversando com vocês. Ah, se eu tivesse liberdade para argumentar com Deus! Ele não seria tão duro comigo quanto vocês.”

O próprio príncipe talvez receba a audiência de um pobre suplicante com mais mansidão, paciência e condescendência que seus servos. Jó preferia argumentar com Deus a discutir com os amigos. Veja aqui:

  1. A confiança que têm diante de Deus aqueles cujo coração não os acusa de hipocrisia persistente: podem comparecer perante ele e apelar a ele com humilde ousadia.

  2. O consolo que encontram em Deus aqueles que são condenados injustamente pelos vizinhos: se não podem falar com eles com esperança de ser ouvidos com justiça, podem falar com o Todo-Poderoso. Têm fácil acesso a ele e serão aceitos por ele.

III. Jó condena os amigos por tratá-lo injustamente e sem caridade, v. 4.

  1. Acusaram-no falsamente, o que era injusto: “Vocês são fabricantes de mentiras”. Formularam uma hipótese errada sobre a providência divina e a apresentaram de modo falso, como se neste mundo ela nunca afligisse de maneira extraordinária ninguém além dos perversos.

Daí tiraram um juízo falso sobre Jó: certamente era hipócrita. Por esse erro grave, tanto na doutrina quanto na aplicação, ele considera que merecem uma acusação formal por falsificação.

Falar mentiras já é ruim, mesmo quando se repetem as de outros; forjá-las com cálculo e deliberação é muito pior. Contudo, nem a inocência nem a excelência podem proteger alguém desse mal.

  1. Enganaram-no de maneira desprezível, o que mostrava falta de bondade. Comprometeram-se a curá-lo e alegaram ser seus médicos, mas eram todos “médicos sem valor, médicos-ídolos, que não podem fazer-me mais bem do que um ídolo”.

Eram médicos inúteis: não entendiam seu caso nem sabiam o que prescrever. Simples charlatães que alegavam grande competência, mas nada lhe acrescentavam no colóquio; depois de tudo o que disseram, Jó não ficou mais sábio.

Assim, para os corações quebrantados e as consciências feridas, todas as criaturas sem Cristo são médicos sem valor. Alguém pode gastar tudo com eles e não melhorar, mas piorar, Marcos 5:26.

IV. Jó pede que se calem e o ouçam com paciência, vv. 5-6.

  1. Pensa que seria melhor para a reputação deles não falar mais, pois já disseram demais: “Calem-se, e isso será sabedoria para vocês. Assim ocultarão a ignorância e a falta de bondade que agora aparecem em tudo o que dizem.”

Eles alegaram que não conseguiam deixar de falar (Jó 4:2; 11:2, 3). Jó, porém, diz que teriam zelado melhor pela própria reputação se houvessem imposto silêncio a si mesmos.

É melhor não dizer nada do que dizer algo sem propósito ou que desonre a Deus e entristeça nossos irmãos. Até o tolo, quando se cala, é considerado sábio, pois nada demonstra o contrário, Provérbios 17:28.

O silêncio é tanto sinal de sabedoria quanto meio de adquiri-la, pois dá tempo para pensar e ouvir.

  1. Jó pensa que seria justo ouvi-lo: “Ouçam agora meu argumento”. Talvez não o interrompessem enquanto falava, mas parecessem descuidados e desatentos às suas palavras. Por isso pede que não apenas ouçam os sons, mas lhe deem atenção.

Repare: devemos estar dispostos, e até contentes, a ouvir o que têm a dizer em sua defesa as pessoas sobre as quais somos tentados a pensar mal. Muitos, se fossem ouvidos com justiça, seriam absolvidos até pela consciência daqueles que os atacam.

V. Jó procura convencê-los de que desonram a Deus ao fingir que o defendem, vv. 7-8. Orgulhavam-se de falar por Deus; apresentavam-se como seus defensores e se propunham a justificar o modo como ele tratava Jó.

Como julgavam fazer parte da defesa do soberano, esperavam não apenas ser ouvidos no tribunal e ter a última palavra, mas também obter uma decisão a seu favor. Jó, porém, lhes diz claramente:

  1. Deus e sua causa não precisam de defensores como eles. “Pensam que devem contender por Deus, como se sua justiça estivesse encoberta e precisasse ser esclarecida, ou como se ele não soubesse o que dizer e precisasse de sua voz? Vocês, tão fracos e passionais, pretendem defender a honra de sua causa?”

Não se deve pôr uma boa obra em mãos ruins. “Serão parciais a seu favor?” Quando alguém sem razão vence a causa, é pela parcialidade do juiz em favor de sua pessoa. A causa de Deus, porém, é tão justa que não precisa desses meios para ser defendida.

Ele é Deus e pode defender-se (Juízes 6:31). Mesmo que vocês se calassem para sempre, os céus declarariam sua justiça.

  1. A causa de Deus era prejudicada por essa maneira de defendê-la. Sob o pretexto de justificar Deus por afligir Jó, condenaram-no autoritariamente como hipócrita e mau.

“Isso”, diz Jó, “é falar de modo perverso”, pois a falta de caridade e o hábito de censurar são perversidade, grande perversidade. Injustiçar nossos irmãos é ofensa a Deus.

“É falar com engano, pois condenam alguém que, talvez, sua própria consciência não consiga deixar de absolver. Seus princípios são falsos e seus argumentos enganosos. Pensam que basta dizer que o fazem por Deus?”

Não. Uma boa intenção não justifica, muito menos santifica, uma palavra ou uma ação ruim. A verdade de Deus não precisa de nossa mentira; sua causa não precisa de nossos artifícios pecaminosos nem de nossas paixões pecaminosas.

A ira do homem não produz a justiça de Deus; tampouco podemos fazer o mal para que venha o bem, Romanos 3:7, 8. As chamadas fraudes piedosas são embustes ímpios, e as perseguições devotas são profanações terríveis do nome de Deus.

Assim fizeram aqueles que odiavam seus irmãos e os expulsavam, dizendo: “Seja glorificado o Senhor”, Isaías 66:5; João 16:2.

VI. Jó procura infundir-lhes temor do juízo de Deus para levá-los a uma disposição melhor. Não devem pensar que podem iludir a Deus como iludiriam um homem semelhante a eles, nem esperar sua aprovação para práticas ruins sob o pretexto de zelar por ele e por sua honra.

“Assim como alguém zomba de outro com lisonjas, pensam poder zombar de Deus e enganá-lo?” Certamente, os que pensam em enganar a Deus descobrirão que enganaram a si mesmos. “Não se enganem: de Deus não se zomba.”

Para que não pensem em brincar com Deus e afrontá-lo, Jó deseja que considerem tanto a Deus quanto a si mesmos. Então perceberão que não podem enfrentar um julgamento com ele.

  1. Devem considerar quem é o Deus a cujo serviço se lançaram e a quem, na realidade, prestaram tão mau serviço, e perguntar-se se poderão prestar-lhe boas contas do que fizeram. Considere:

(1.) O rigor com que ele os examinará e interrogará (v. 9): “Será bom que ele os investigue? Suportarão que sejam examinados os princípios que orientam suas censuras e que se descubra o fundo da questão?”

Repare: cabe a todos nós considerar seriamente se será vantajoso que Deus sonde nosso coração. Para o homem reto e sincero, é bom que Deus o examine. Por isso ele pede: “Sonda-me, ó Deus, e conhece meu coração.” A onisciência de Deus testemunha sua sinceridade.

Mas, para quem olha numa direção e rema em outra, é ruim que Deus o investigue e o exponha à vergonha.

(2.) A severidade de suas repreensões e de seu desagrado contra eles (v. 10): “Se forem parciais, ainda que secretamente, no coração, ele certamente os censurará.”

“Longe de se agradar de suas censuras contra mim, embora feitas sob o pretexto de defendê-lo, Deus as considerará uma grave provocação, como faria qualquer príncipe ou pessoa importante se um ato vil fosse praticado sob a chancela de seu nome e sob o pretexto de promover seus interesses.”

Repare: pelo mal que fazemos certamente seremos censurados, de uma forma ou de outra, em algum momento, por mais secretamente que o tenhamos feito.

(3.) O terror de sua majestade. Se os amigos a temessem devidamente, não fariam nada que os expusesse à sua ira (v. 11): “Sua excelência não os fará temer? Vocês, que têm grande conhecimento de Deus, professam a religião e dizem temê-lo, como ousam falar desse modo e dar tanta liberdade à língua?”

“Não deveriam andar e falar no temor de Deus?”, Neemias 5:9. “O temor dele não deveria cair sobre vocês e refrear suas paixões?” Parece-me que Jó fala como alguém que conhece o terror do Senhor e vive em santo temor dele, apesar das insinuações contrárias dos amigos.

Repare: [1.] Há em Deus uma excelência que inspira temor. Ele é o Ser mais excelente, reúne em si todas as excelências e em cada uma supera infinitamente qualquer criatura.

Suas excelências são, em si mesmas, amáveis e encantadoras. Ele é o Ser mais belo. Mas, por causa da distância natural entre o homem e Deus e do afastamento e da degeneração do homem pelo pecado, essas excelências inspiram temor.

Seu poder, santidade, justiça e até bondade são excelências que inspiram temor. Temerão ao Senhor e à sua bondade.

[2.] Uma reverência santa por essa excelência deve cair sobre nós e levar-nos a temer. Ela despertaria os pecadores impenitentes e os conduziria ao arrependimento; também levaria todos a cuidar de agradar a Deus e a ter medo de ofendê-lo.

  1. Devem considerar a si mesmos e quão desiguais são diante desse grande Deus (v. 12): “As lembranças que deixarão — tudo aquilo pelo que esperam ser lembrados depois da morte — são como cinzas: sem valor, frágeis, fáceis de pisar e de dispersar pelo vento.”

“Seus corpos são como corpos de barro, que se desmancham e desaparecem. Pensam que a memória de vocês sobreviverá ao corpo; mas, infelizmente, ela é como cinza, que será recolhida junto com seu pó.”

Repare: considerar nossa própria pequenez e mortalidade deve levar-nos a temer ofender a Deus. Também nos dá uma boa razão para não desprezar e pisotear nossos irmãos.

O bispo Patrick interpreta o versículo de outro modo: “Seus argumentos em favor de Deus não valem mais do que pó, e os argumentos que acumulam são apenas montes de terra.”

Versículos 13 a 22

Jó volta a apegar-se à sua integridade, e com firmeza, decidido a não abandoná-la nem permitir que lhe seja tirada. Sua firmeza nessa questão é louvável, e seu fervor é desculpável.

I. Pede aos amigos e a todos os presentes que o deixem em paz e não interrompam o que está prestes a dizer (v. 13), mas o ouçam com atenção, v. 17.

Queria que sua própria declaração fosse decisiva, pois apenas Deus e ele conheciam seu coração. “Calem-se, portanto, e não me façam ouvi-los mais; prestem muita atenção ao que digo, e que meu juramento de confirmação ponha fim à contenda.”

II. Jó decide manter-se fiel ao testemunho de integridade dado por sua consciência. Ainda que os amigos chamem isso de teimosia, tal opinião não abalará sua constância:

“Falarei em minha defesa, venha sobre mim o que vier”, v. 13. “Que meus amigos interpretem isso como quiserem e pensem pior de mim por essa razão. Espero que Deus não transforme minha defesa necessária em culpa, como vocês fazem.”

“Ele me justificará” (v. 18); então nada que me aconteça poderá prejudicar-me. Repare: os retos, seguros de sua retidão, podem receber com serenidade qualquer acontecimento. Venha o que vier, bene præparatum pectus: estão preparados para ele.

Jó decide (v. 15) que defenderá seus próprios caminhos. Nunca abriria mão da satisfação de ter andado retamente com Deus. Embora não pudesse justificar cada palavra que dissera, seus caminhos, de modo geral, eram bons, e ele manteria sua retidão.

Por que não o faria, já que isso lhe dava grande apoio nas provações presentes? Foi também o apoio de Ezequias: “Agora, Senhor, lembra-te de como andei diante de ti”.

Mais ainda: Jó não apenas se recusaria a trair ou abandonar sua causa, mas afirmaria abertamente sua sinceridade. Pois (v. 19) “se eu me calar e não falar em minha defesa, meu silêncio agora me calará para sempre, porque certamente morrerei”.

“Se não posso ser declarado inocente, ao menos que minhas palavras me aliviem”, como disse Eliú, Jó 32:17, 20.

III. Jó se queixa da intensidade da dor e da miséria em que está (v. 14): “Por que levo minha carne nos dentes?” Isto é:

  1. “Por que sofro tais agonias? Não posso deixar de me espantar que Deus me imponha tanto, sabendo que não sou perverso.” A aflição era tão grande que Jó estava pronto não só a rasgar as roupas, mas até dilacerar a própria carne.

Via-se à beira da morte, com a vida nas mãos. Ainda assim, os amigos não podiam acusá-lo de nenhum crime grave, nem ele próprio conseguia encontrar algum. Não surpreende que estivesse tão confuso.

  1. “Por que sufoco e reprimo minhas declarações de inocência?” Quando alguém contém com muita dificuldade o que deseja dizer, morde os lábios. “Por que, então, não posso falar livremente, se ao me conter apenas me atormento, aumento minha dor e ponho a vida em perigo?”

Repare: mesmo o homem mais paciente se afligiria se, depois de perder tudo o mais, lhe fosse negado o consolo, caso o merecesse, de uma boa consciência e de um bom nome.

IV. Jó se consola em Deus e mantém firme sua confiança nele. Observe aqui:

  1. Aquilo que espera de Deus: justificação e salvação, as duas grandes coisas que esperamos por meio de Cristo.

(1.) Justificação (v. 18): “Preparei minha causa e, considerando a questão toda, sei que serei justificado”. Jó sabia disso porque sabia que seu Redentor vivia, Jó 19:25.

Aqueles cujo coração é reto diante de Deus, que andam não segundo a carne, mas segundo o Espírito, podem ter certeza de que, por meio de Cristo, não haverá condenação para eles. Se alguém os acusar de alguma coisa, serão justificados: podem saber que o serão.

(2.) Salvação (v. 16): “Ele também será minha salvação”. Jó não se refere à salvação temporal, da qual tinha pouca esperança. Tinha, porém, muita confiança em sua salvação eterna: Deus não seria apenas seu Salvador, para torná-lo feliz, mas sua própria salvação.

Seria feliz por contemplar a Deus e desfrutar dele. Jó confiava em Deus para a salvação porque “o hipócrita não comparecerá diante dele”. Sabia que não era hipócrita e que somente os hipócritas são rejeitados por Deus; por isso concluiu que não seria rejeitado. A sinceridade é nossa perfeição segundo o evangelho; somente a falta dela nos arruinará.

  1. Com que constância Jó depende de Deus: “Ainda que ele me mate, nele confiarei”, v. 15. Essa é uma elevada expressão de fé, à qual todos devemos procurar chegar: confiar em Deus mesmo que ele nos mate.

Isso significa permanecer satisfeitos com Deus como amigo mesmo quando ele parece vir contra nós como inimigo, Jó 23:8-10. Devemos crer que todas as coisas cooperarão para o nosso bem mesmo quando tudo parece conspirar contra nós, Jeremias 24:5.

Devemos continuar e perseverar no caminho do dever, mesmo que isso nos custe tudo o que nos é precioso neste mundo, até a própria vida, Hebreus 11:35.

Devemos confiar no cumprimento da promessa quando todos os caminhos que levam a ela estão fechados, Romanos 4:18. Devemos alegrar-nos em Deus quando nada mais nos dá alegria e apegar-nos a ele mesmo que, por enquanto, não encontremos consolo nele.

Na hora da morte, devemos receber dele consolo que dá vida. Isso é confiar nele ainda que nos mate.

V. Jó deseja argumentar até com o próprio Deus, se puder primeiro acertar as condições preliminares do tratado, vv. 20-22. Já pedira (v. 3) para argumentar com Deus e continua com esse propósito.

Não se esconderá, isto é, não fugirá do julgamento nem temerá seu resultado, mas apresenta duas condições:

  1. Que seu corpo não seja torturado por essa dor extrema: “Afasta de mim tua mão, pois, enquanto sofro tanto, não tenho condições de fazer coisa alguma. Consigo, com esforço, falar com meus amigos, mas não sei como me dirigir a ti”.

Para ter comunhão com Deus, precisamos estar tranquilos e, na medida do possível, livres de tudo o que possa nos inquietar.

  1. Que sua mente não seja aterrorizada pela majestade tremenda de Deus: “Não deixes que teu terror me assuste. Que as manifestações de tua presença me sejam familiares, ou que eu receba condições de suportá-las sem confusão e perturbação”.

O próprio Moisés tremeu diante de Deus, assim como Isaías e Habacuque. Ó Deus, você é temível até em seus lugares santos.

“Senhor”, diz Jó, “não me deixes ser tomado por tamanha perturbação de espírito junto com essa aflição do corpo, pois então certamente abandonarei a causa e não conseguirei defendê-la”.

Veja que insensatez é adiar o arrependimento e a conversão para o leito de doença ou de morte. Como um homem bom, quanto mais um mau, poderá argumentar com Deus de modo a ser justificado diante dele quando estiver sob tortura e aterrorizado pela proximidade da morte?

Nessa hora, é muito ruim ainda ter essa grande tarefa por fazer, mas é muito consolador já tê-la cumprido. Jó já a havia cumprido; se recebesse apenas um pouco de tempo para respirar, estaria pronto:

(1.) Para ouvir Deus falar-lhe por sua palavra e responder: “Chama, e eu responderei”; ou

(2.) Para falar com ele em oração e aguardar resposta: “Deixa-me falar, e responde-me”, v. 22. Compare com Jó 9:34, 35, onde ele fala no mesmo sentido.

Em suma, a gravidade de sua condição atual o abatia tanto que ele não conseguia superar esse obstáculo. Fora isso, tinha certeza da justiça de sua causa e não duvidava de que, quando a nuvem presente passasse, encontraria consolo nela.

Com igual ousadia santa os retos podem aproximar-se do trono da graça, sem duvidar de que ali encontrarão misericórdia.

Versículos 23 a 28

Aqui, I. Jó pergunta quais são seus pecados e pede que lhe sejam revelados. Volta-se para Deus e pergunta quantos são: “Quantas são minhas iniquidades?” Também quer conhecer cada um deles e pede a Deus que lhe dê a conhecer suas transgressões, v. 23.

Os amigos estavam mais que dispostos a dizer-lhe quantos e quão graves eram seus pecados, Jó 22:5. “Mas, Senhor”, diz ele, “quero conhecê-los de ti, pois teu julgamento segue a verdade; o deles, não.” Isso pode ser entendido:

  1. Como uma queixa apaixonada de tratamento severo: Jó era punido por suas faltas, mas não lhe diziam quais eram.

  2. Como uma apelação prudente a Deus contra as censuras dos amigos. Jó desejava que todos os seus pecados fossem trazidos à luz, pois sabia que então se mostrariam menos numerosos e menos graves do que os amigos supunham.

  3. Como um pedido piedoso semelhante ao que Eliú mais tarde lhe recomendou, Jó 34:32: “O que não vejo, ensina-me”. Repare: quem se arrepende de verdade está disposto a conhecer o pior de si mesmo.

Todos devemos desejar saber quais são nossas transgressões, para confessá-las especificamente e guardar-nos delas no futuro.

II. Jó se queixa amargamente de que Deus se afastou dele (v. 24): “Por que escondes o rosto?” Isso deve significar mais que as aflições exteriores, pois a perda dos bens, dos filhos e da saúde podia coexistir com o amor de Deus.

Quando apenas essas coisas lhe tinham sido tiradas, Jó bendisse o nome do Senhor. Agora, porém, sua alma também estava gravemente aflita, e é disso que se lamenta.

  1. Os favores do Todo-Poderoso haviam sido suspensos. Deus escondia o rosto como alguém que se tornou estranho a Jó, que estava descontente com ele e se mostrava distante e indiferente.

  2. Os terrores do Todo-Poderoso haviam caído sobre ele e se gravado em seu espírito. Deus o considerava inimigo, lançava-lhe flechas (Jó 6:4) e fizera dele um alvo, Jó 7:20.

Repare: o Espírito Santo às vezes retira seus favores e revela seus terrores até aos melhores e mais queridos de seus santos e servos neste mundo. Isso acontece não só no começo, mas às vezes também durante o progresso da vida espiritual.

As provas de nossa esperança do céu ficam encobertas; a comunicação perceptível de Deus é interrompida; imprime-se o pavor de sua ira, e, por algum tempo, perde-se a esperança de que o consolo volte, Salmos 77:7-9; 88:7, 15, 16.

Esses são fardos penosos para a alma piedosa, que considera a bondade amorosa de Deus melhor que a vida, Provérbios 18:14. Quem pode suportar um espírito ferido?

Ao perguntar “Por que escondes o rosto?”, Jó nos ensina que, quando sentimos Deus afastar-se de nós, devemos investigar o motivo: por qual pecado ele nos corrige e que bem pretende realizar em nós.

Os sofrimentos de Jó prefiguravam os de Cristo, de quem não apenas os homens esconderam o rosto (Isaías 53:3), mas Deus também escondeu o seu. Testemunha disso foi a escuridão que o cercou na cruz, quando clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”

Se isso foi feito a essas árvores verdes, que se fará às secas? Estas serão abandonadas para sempre.

III. Jó apresenta humildemente a Deus sua completa incapacidade de resistir-lhe (v. 25): “Quebrarás uma folha? Perseguirás o restolho seco? Senhor, honra-te pisotear alguém que já está caído ou esmagar alguém que não tem nem alega ter poder para resistir a ti?”

Repare: devemos ter tal compreensão da bondade e da compaixão de Deus que creiamos que ele não quebrará a cana esmagada, Mateus 12:20.

IV. Jó lamenta a severidade com que Deus o trata. Reconhece que Deus contende com ele por causa de seus pecados, mas considera duro:

  1. Que seus pecados antigos, cometidos há muito tempo, sejam agora lembrados contra ele e que lhe sejam cobradas dívidas antigas (v. 26): “Escreves coisas amargas contra mim”. As aflições são coisas amargas.

Escrevê-las indica reflexão e decisão, como num mandado de execução. Também indica que a aflição prossegue, pois o que foi escrito permanece.

“Nisso me fazes herdar as iniquidades da minha juventude”, isto é: “Punindo-me por elas, fazes-me lembrar delas e me obrigas a renovar meu arrependimento por elas”. Repare:

(1.) Deus às vezes escreve coisas muito amargas contra os melhores e mais queridos de seus santos e servos, tanto em aflições exteriores quanto em inquietações interiores: aflição no corpo e na mente, para humilhá-los, prová-los e fazer-lhes bem no fim.

(2.) Os pecados da juventude muitas vezes causam dor na velhice, tanto pela tristeza interior (Jeremias 31:18, 19) quanto pelo sofrimento exterior, Jó 20:11. O tempo não apaga a culpa do pecado.

(3.) Quando Deus escreve coisas amargas contra nós, seu propósito é fazer-nos tomar posse de nossas iniquidades, trazer à lembrança pecados esquecidos e despertar remorso suficiente para nos afastarmos deles. Esse é todo o fruto: remover nosso pecado.

  1. Jó considera duro que Deus observe tão estritamente seus erros e falhas atuais e os censure com tamanha severidade (v. 27):

“Você também põe meus pés no tronco, não só para me afligir e expor à vergonha, nem apenas para me impedir de escapar dos golpes de sua ira, mas para examinar criticamente todos os meus movimentos e vigiar de perto todos os meus caminhos.”

“Assim me corrige por cada passo em falso, até por um olhar desviado ou uma palavra imprópria. Mais ainda, você deixa uma marca nos meus calcanhares e anota cada erro para cobrá-lo depois. Ou, mal dou o menor passo errado, já sinto imediatamente a dor: a punição vem colada aos calcanhares do pecado.”

“A culpa antiga e a recente se juntam para formar a causa de minha calamidade.” Aqui:

(1.) Não era verdade que Deus procurasse desse modo motivos para acusar Jó. Ele não observa nossos erros com tamanho rigor; se o fizesse, nenhum de nós permaneceria de pé, Salmos 130:3.

Ao contrário, Deus não nos trata segundo o que merecemos, nem mesmo pelos pecados evidentes, que não precisam de investigação secreta para serem descobertos, Jeremias 2:34. Essa, portanto, era a linguagem da melancolia de Jó; em momentos de lucidez, ele nunca apresentava Deus como senhor tão severo.

(2.) Nós, porém, devemos observar a nós mesmos e nossos passos com igual rigor e vigilância, tanto para descobrir os pecados passados quanto para evitá-los no futuro. É bom que todos ponderemos a vereda de nossos pés.

V. Jó percebe que se consome rapidamente sob a mão pesada de Deus, v. 28. Ele, isto é, o homem, apodrece como algo que traz em si o princípio da própria decomposição; consome-se como uma roupa comida pela traça, que piora continuamente.

Ou: ele, isto é, Deus, consome-me como podridão e como traça. Compare Oseias 5:12: “Serei para Efraim como traça, e para a casa de Judá como podridão”; veja também Salmos 39:11.

Repare: mesmo na melhor condição, o homem se desgasta depressa; sob as repreensões de Deus, desaparece ainda mais rapidamente. Enquanto há tão pouca saúde na alma, não surpreende que haja tão pouca saúde na carne, Salmos 38:3.


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