Matthew Henry

Jeremias 48

Argumento

Moabe é o próximo a comparecer diante do profeta Jeremias, a quem Deus constituiu juiz de nações e reinos, para ouvir de sua boca a sentença. As profecias de Isaías sobre Moabe (Isaías 15–16) e uma profecia semelhante de Amós 2:1 já se haviam cumprido quando os assírios, sob Salmaneser, invadiram e afligiram Moabe.

Esta, porém, é profecia da devastação de Moabe pelos caldeus, cumprida sob Nebuzaradã cerca de cinco anos depois de destruir Jerusalém. Aqui temos:

I. A destruição anunciada. Seria grande e geral, atingindo todas as regiões do país, vv. 1-6, 8 e novamente vv. 21-25, 34. Saqueadores viriam contra eles e obrigariam alguns a fugir, v. 9, e levariam muitos cativos, v. 12, 46.

O inimigo viria em breve, v. 16, chegaria depressa e os surpreenderia, vv. 40-41. Levaria a destruição até o fim, v. 10, e devastaria a terra inteira, embora Moabe fosse muito forte, vv. 14-15.

Não haveria como escapar, v. 42, 45. Isso os obrigaria a abandonar os ídolos, v. 13, 35, e acabaria com toda sua alegria, vv. 33-34. Seus vizinhos os lamentariam, vv. 17-19, e o próprio profeta também, v. 31, 36, etc.

II. As causas da destruição. O pecado trouxe a ruína: orgulho, sensação de segurança e confiança na força humana, v. 7, 11, 14, além do desprezo e da hostilidade contra Deus e seu povo, v. 26, 27, 30.

III. Uma promessa de restauração de Moabe, v. 47.

Versículos 1 a 13

O Juízo de Moabe. (a.C. 605.)

Nestes versículos podemos observar:

I. O autor da destruição de Moabe: o Senhor dos Exércitos, que comanda todos os exércitos, e o Deus de Israel, v. 1. Ele defenderá a causa de Israel contra um povo que sempre o perturbou e agora punirá Moabe pelas antigas injúrias cometidas contra Israel, embora Israel tivesse sido proibido de atacar Moabe, Deuteronômio 2:9.

Por isso, a destruição de Moabe é chamada de “obra do Senhor” (v. 10), pois é ele quem defende Israel; sua obra corresponderá exatamente à sua palavra (v. 8).

II. Os instrumentos da destruição: “Saqueadores virão”, v. 8, trazendo uma espada que perseguirá os moabitas, v. 2. “Enviarei contra ele andarilhos, homens vindos de longe, como se fossem viajantes errantes ou tivessem perdido o caminho; mas eles o farão andar sem rumo. Parecem andarilhos, mas farão dos moabitas verdadeiros errantes, obrigando uns a fugir e levando outros para o cativeiro.”

Esses destruidores se animam a executar a tarefa. Tramaram o mal contra Hesbom, uma das principais cidades de Moabe, e pretendem nada menos que arruinar o reino: “Vinde, e eliminemo-lo dentre as nações”, v. 2. Menos que isso não satisfará os invasores. Vêm não apenas para saqueá-lo, mas para destruí-lo.

O profeta, em nome de Deus, os compromete a completar a tarefa, v. 10: “Maldito aquele que faz a obra do Senhor com falsidade”. É uma obra sangrenta e destruidora. Embora contrarie a disposição dos compassivos, é obra do Senhor e não deve ser feita pela metade.

Os caldeus receberam a incumbência, por um impulso secreto, como diz o senhor Gataker, de destruir os moabitas. Portanto, não devem poupá-los nem, por pena insensata, impedir a espada de derramar sangue. Desse modo trariam sobre si a espada e, com ela, a maldição, como Saul ao poupar os amalequitas e Acabe ao deixar Ben-Hadade partir. “Tua vida responderá pela dele.”

A essa obra se aplica a regra geral dada a todos os que servem a Deus: “Maldito aquele que faz a obra do Senhor com falsidade ou negligência”. Trata-se daquele que finge trabalhar, mas não executa a tarefa a sério; que aparenta promover a glória de Deus, mas na verdade busca os próprios interesses e só leva a obra do Senhor até onde ela serve a seus planos.

Inclui também o preguiçoso no serviço de Deus, que não se dedica nem se esforça para fazer a obra como deve ser feita, Malaquias 1:14. Que essas pessoas não se enganem: Deus não se deixa zombar desse modo.

III. Os exemplos e efeitos lamentáveis dessa destruição. As cidades ficarão em ruínas: serão saqueadas, v. 1, e derrubadas, v. 2; ficarão desertas, v. 9, sem moradores. Ou não haverá casas para morar, ou pessoas que as ocupem, ou segurança e tranquilidade para quem tente viver nelas.

Todas as cidades serão saqueadas, nenhuma escapará. A mais forte não poderá proteger-se do poder inimigo, nem a mais bela despertará sua compaixão ou seu favor. O campo também será devastado: o vale perecerá e a planície será destruída, v. 8.

Os cereais e rebanhos que cobriam as planícies e alegravam os vales serão destruídos, devorados, pisoteados ou levados embora. Nem as pessoas mais sagradas escaparão: sacerdotes e príncipes irão juntos para o cativeiro.

Até Quemós, o deus que adoram e do qual esperam proteção, partilhará a ruína. Seus templos serão reduzidos a cinzas, e sua imagem será levada com o restante do despojo. Disso resultarão:

  1. Grande vergonha e confusão. Quiriataim ficará confundida, assim como Misgabe. Os moabitas se envergonharão das grandes vanglórias que fizeram de suas cidades: “Não haverá mais orgulho em Moabe por causa de Hesbom”, como se poderia ler o v. 2. Quando o mal planejado contra essa cidade chegar, não se orgulharão mais de sua força.

Tampouco se orgulharão dos deuses, v. 13. Terão vergonha de Quemós: de todas as orações que lhe fizeram e da confiança depositada nessa divindade vil.

Assim Israel teve vergonha de Betel, do bezerro de ouro que possuía ali e no qual confiava como protetor. Israel foi enganado, pois o ídolo não conseguiu salvá-lo dos assírios. Quemós também não salvará os moabitas dos caldeus.

Repare: os que não se convencem nem se envergonham da insensatez de sua idolatria pela palavra de Deus acabarão convencidos e envergonhados pelos juízos divinos, quando a triste experiência lhes mostrar que os deuses que serviam são totalmente incapazes de ajudá-los.

  1. Grande tristeza. Ouve-se voz de pranto, v. 3, e o clamor só anuncia saque e grande destruição. “Ai! Ai! Moabe foi destruído”, v. 4.

Como os grandes deixaram as cidades para cuidar da própria segurança, até os pequenos fazem ouvir seu clamor: o povo mais humilde, ou as criancinhas, inocentes e indefesas, cujos gritos nesses momentos são os mais comoventes.

Suba os montes, desça os vales e encontrará choro incessante, choro sobre choro. Todos estão em lágrimas; não se encontra ninguém de olhos secos.

Até os inimigos ouviram o clamor. Seria mais prudente escondê-lo deles, pois isso os incitará e animará. Mas o pranto é tão grande que não pode ser ocultado.

  1. Grande correria. Gritarão uns aos outros: “Fujam, fujam! Salvem a vida”, v. 6. “Escapem o mais depressa possível, ainda que saiam nus e sem nada, como urze, moita ou arbusto seco no deserto. Não pensem em levar seus bens: a tentativa pode custar-lhes a vida”, Mateus 24:16-18.

“Abriguem-se, ainda que num deserto estéril, para conservar a vida como despojo. O perigo virá de repente e depressa. Por isso, dai asas a Moabe”, v. 9. Esse seria o maior favor que se lhes poderia fazer. É o que pedirão: “Ah, se tivéssemos asas como a pomba!”, pois, sem asas para voar, ninguém escapará.

IV. Os pecados pelos quais Deus agora chamará Moabe a prestar contas e que justificam a severidade de suas ações contra ele:

  1. Sentiram-se seguros e confiaram na riqueza e na força, em suas obras e tesouros, v. 7. Haviam trabalhado muito para fortificar as cidades, erguer grandes construções defensivas ao redor delas e encher o tesouro público e os cofres particulares.

Assim, julgavam-se tão preparados para a guerra quanto qualquer povo poderia estar e acreditavam que ninguém ousaria invadi-los. Por isso, desprezavam o perigo. “Confiavam na abundância das riquezas e se fortaleciam na maldade”, Salmos 52:7.

Para fazê-los perceber a vaidade e a insensatez dessa confiança na força humana, Deus enviará um inimigo que dominará as fortificações e saqueará os tesouros. Repare: perdemos o consolo da coisa criada na qual depositamos a confiança que deveríamos reservar somente a Deus. A cana em que nos apoiamos se quebrará.

  1. Não souberam aproveitar devidamente os dias de paz e prosperidade, v. 11.

(1.) Por muito tempo viveram sem ser perturbados: “Moabe esteve em sossego desde a juventude”. Era reino antigo, anterior a Israel, e desfrutava de grande tranquilidade, embora fosse um país pequeno cercado por vizinhos poderosos.

O Israel de Deus sofria aflição desde a juventude, Salmos 129:1, 2; Moabe, porém, descansava desde a sua. Não fora esvaziado de recipiente em recipiente nem conhecera mudanças dolorosas e enfraquecedoras.

Era como vinho conservado sobre a borra, sem ser transferido para outro recipiente nem decantado, conservando assim força e corpo. Não fora desalojado nem perturbado; não havia ido ao cativeiro, como Israel fora tantas vezes. Ainda assim, Moabe era uma nação ímpia e idólatra, aliada contra os protegidos de Deus, Salmos 83:3, 6.

Repare: muitos persistem na iniquidade sem arrependimento e, mesmo assim, desfrutam de prosperidade sem interrupção.

(2.) Por igual período permaneceram corrompidos e sem reforma: “Assentou-se sobre a borra”. Na prosperidade, Moabe se tornou seguro de si e entregue aos prazeres. Descansava nela e dela extraía toda a força e o vigor da alma, como o vinho os extrai da borra.

Seu gosto permaneceu nele, e seu cheiro não mudou. Continua o mesmo, tão mau quanto sempre. Repare: enquanto os maus forem tão felizes no mundo quanto costumavam ser, não surpreende que continuem tão maus quanto antes.

Não experimentam mudanças na paz e na prosperidade; por isso, não temem a Deus. Seu coração e sua vida permanecem inalterados, Salmos 55:19.

Versículos 14 a 46

O Juízo de Moabe. (a.C. 605.)

A destruição de Moabe é aqui profetizada ainda mais amplamente, com grande riqueza e variedade de expressões, em linguagem comovente e profundamente tocante.

O propósito não é apenas despertá-los para, mediante o arrependimento e a reforma nacionais, evitar a calamidade, ou, mediante o arrependimento e a reforma pessoais, preparar-se para ela.

Isso também nos leva a sentir quão calamitosas podem ser as condições da vida humana, sujeita a acontecimentos tão lamentáveis, e a considerar o poder da ira de Deus e o terror de seus juízos quando ele sai para contender com um povo provocador.

Ao ler este longo rolo de ameaças e meditar sobre seu terror, será mais útil manter isso em vista e deixar que nosso coração se encha de santo temor de Deus e de sua cólera do que investigar criticamente todas as vívidas figuras e metáforas usadas aqui.

I. É anunciada uma destruição surpreendente e muito repentina.

Moabe vivia seguro, julgava-se forte para a guerra e capaz de enfrentar o inimigo mais poderoso (v. 14); ainda assim, a calamidade está próxima, e o povo não poderá afastá-la nem sequer manter o inimigo por muito tempo em negociações, pois a aflição se aproxima depressa (v. 16) e logo chegará ao momento decisivo.

O inimigo voará como uma águia: virá com grande rapidez e força (v. 40), como a águia que se lança sobre a presa; estenderá sobre Moabe as asas de seu exército e o cercará, para que ninguém escape. As fortalezas de Moabe serão tomadas de surpresa (v. 41), e toda a sua força de nada lhe servirá.

Isso fará até o coração dos homens mais valentes desfalecer, pois não terão tempo de reunir as ideias e lembrar os motivos que poderiam animá-los. É preciso coragem mais que comum para não temer quando o medo súbito sobrevém.

II. É uma destruição completa, que deixará Moabe em ruínas. “Moabe é saqueado” (v. 15), completamente saqueado; “Moabe está confundido, pois foi derrubado” (v. 20). Suas cidades serão reduzidas a cinzas ou tomadas pelo inimigo, obrigando o povo a abandoná-las (v. 15).

São mencionadas várias cidades sobre as quais veio o juízo, e a lista termina com um “e assim por diante”. Para que citar mais exemplos, se a calamidade atingirá todas as cidades de Moabe, de perto e de longe? (vv. 21-24).

Repare: quando a iniquidade é geral, temos motivo para esperar que a calamidade também o seja.

O reino perderá sua dignidade e autoridade: “O chifre de Moabe foi cortado”, símbolo de sua força e poder, tanto para atacar como para se defender; “seu braço foi quebrado”, e ele não poderá dar golpe algum nem se proteger de um golpe (v. 25).

Não é a juventude do reino sua força e beleza? “Seus jovens escolhidos desceram para a matança” (v. 15). Desceram à batalha prometendo a si mesmos que voltariam vitoriosos, mas Deus lhes disse que desciam para a matança. Certamente cairão aqueles contra quem Deus luta. Em suma, “Moabe será destruído como povo” (v. 42). Os que são inimigos do povo de Deus logo deixarão de ser um povo.

III. É uma destruição lamentável, motivo justo de luto, que transformará a alegria em tristeza.

  1. O próprio profeta que a anuncia lamenta e chora ao prevê-la, movido pela compaixão por seus semelhantes e pela preocupação com a humanidade. O profeta uivará por Moabe; seu coração se lamentará por eles (v. 31). Chorará pela videira de Sibma (v. 32), e seu coração soará como flautas por Moabe (v. 36).

Embora a destruição de Moabe prove que ele é um verdadeiro profeta, não consegue pensar nela sem sofrimento. A ruína dos pecadores não dá prazer a Deus e, por isso, deve causar dor em nós; até os que a anunciam devem levá-la ao coração.

Essas passagens e muitas outras deste capítulo são muito semelhantes às que Isaías usou em suas profecias contra Moabe (Isaías 15 e 16).

Embora tenha decorrido muito tempo entre aquela profecia e esta, ambas foram ditadas pelo mesmo Espírito, e convém que os profetas de Deus falem como os que vieram antes deles. Às vezes, não há plágio em usar expressões antigas, desde que isso seja feito com novos sentimentos e aplicações.

  1. Os próprios moabitas lamentarão; essa será para eles a maior humilhação e dor imaginável. Os que se assentavam em glória, cercados de riquezas, alegria e todo tipo de prazer, se assentarão com sede, numa terra seca e sedenta, sem água nem consolo (v. 18). É hora de se assentarem com sede e se acostumarem às agruras, pois chegou o saqueador, que os despojará de tudo e os deixará sem nada.

Os moabitas que vivem nos cantos mais distantes do país, longe do perigo, desejarão saber o que está acontecendo e pedirão notícias do exército a todos os que escaparem: “O que aconteceu?” (v. 19). Quando souberem que tudo está perdido e que o invasor venceu, uivarão e gritarão, amargurados e angustiados (v. 20).

Entregar-se-ão à solidão para lamentar a devastação de seu país; deixarão as cidades antes cheias de alegria e morarão nas rochas, onde poderão mergulhar na melancolia. Já não serão aves canoras, mas aves de lamento, como a pomba (v. 28), as “pombas dos vales” (Ezequiel 7:16).

Repare: os que se entregam à alegria devem saber que Deus pode mudar depressa o seu canto.

A tristeza será tão extrema que rasparão a cabeça e farão cortes no corpo (v. 37), expressões de um desespero tão profundo que levava as pessoas a se destruírem. Jó de fato rasgou o manto e raspou a cabeça, mas não fez cortes em si mesmo. Mesmo quando a torrente da paixão sobe ao máximo, a sabedoria e a graça precisam pôr limites e erguer barreiras para impedir tamanha crueldade.

O lamento será geral (v. 38): haverá pranto em todos os terraços de Moabe, onde adoravam seus ídolos, aos quais apresentarão em vão seu lamento, e em todas as ruas, onde conversavam uns com os outros; poderão compartilhar livremente sua dor e seus temores e espalhá-los, pois verão que tudo está perdido: “Quebrei Moabe como um vaso sem valor, que ninguém estima e que não pode ser consertado”.

Moabe costumava alegrar-se com seus frutos deliciosos e com a abundância de seus vinhos finos. Os prazeres dos sentidos eram toda a sua alegria. Tire-os, destrua seus jardins e vinhas, e toda a sua alegria cessará (Oseias 2:11, 12).

Haverá grande choro quando suas plantas forem transplantadas e levadas para além do mar (v. 32), para serem plantadas em outros países. “O saqueador caiu sobre teus frutos de verão e tua vindima”; por isso, o grito de Hesbom chega até Eleale (v. 34).

Se tirarmos a alegria e o júbilo do campo fértil, nós os tiraremos da terra de Moabe (v. 33). Se o vinho faltar nos lagares, que antes eram pisados ao som de aclamações alegres, toda a alegria deles será cortada. Tire esse clamor, e não haverá mais clamor.

Repare: os que fazem dos prazeres dos sentidos sua alegria principal, sua alegria suprema, sujeitam-se à tirania da mais profunda dor, pois podem ser privados desses prazeres em pouco tempo. Já os que se alegram em Deus podem continuar alegres mesmo quando a figueira não floresce e não há fruto na videira.

Os moabitas perderão não só o vinho, mas também a água: “Até as águas de Ninrim ficarão desoladas” (v. 34). Por isso, sua dor se tornará desmedidamente alta e ruidosa; seus lamentos serão ouvidos por toda parte como o mugido de uma novilha de três anos. As expressões aqui foram tomadas de Isaías 15:5, 6.

  1. Todos os vizinhos de Moabe são chamados a lamentar com ele e a expressar pesar por sua ruína (v. 17): “Todos os que estais ao redor dele, lamentai-o”. Que isso alivie um pouco sua dor: que ele veja que os países vizinhos têm compaixão dele.

Até os que estão longe, que apenas conhecem seu nome e ouviram falar de sua fama, devem notar sua queda e dizer: “Como se quebrou o forte bastão, cuja força aterrorizava os inimigos, e o belo cetro, que era o orgulho de seus amigos!” Que as nações prestem atenção e aprendam.

Ninguém deve se orgulhar de sua força ou beleza nem confiar nelas, pois nenhuma das duas o protegerá dos juízos de Deus.

IV. É uma destruição vergonhosa, que os exporá ao desprezo. Moabe está embriagado (v. 26), e quem fica bêbado torna-se vil; rolará no próprio vômito, será um espetáculo repulsivo e, com justiça, motivo de zombaria.

Que os moabitas se embriaguem com o cálice da cólera de Deus até cambalearem, caírem e perderem o juízo, tornando-se ridículos não apenas por suas paixões descontroladas, mas também por seus planos insensatos.

E, novamente (v. 39), Moabe será objeto de zombaria e espanto para todos ao redor; rirão da queda de seu esplendor e poder, dos quais tanto se orgulhava. Repare: os arrogantes preparam para si mesmos o descrédito e a desonra.

V. A destruição levará aquilo que lhes é querido: não apenas seus frutos de verão e sua vindima, mas também suas riquezas (v. 36). Os bens que ajuntou desapareceram. Embora pensasse tê-los guardado com segurança e prometesse a si mesmo que os desfrutaria por muito tempo, ainda assim perdeu tudo.

Repare: o dinheiro guardado no cofre corre tanto risco de perecer quanto os frutos de verão expostos no campo. As riquezas são coisas que se esvaem: como o pó que são, escapam por entre nossos dedos mesmo quando nos esforçamos ao máximo para segurá-las com força.

Mas essa não é a pior perda. Até os que seguiam uma religião falsa e insensata eram devotados a ela acima de tudo e, tal como ela era, não queriam abandoná-la.

Por isso, aquilo que de fato era uma promessa foi, para eles, uma ameaça (v. 35): Deus fará cessar aquele que oferece nos lugares altos; os lugares altos serão destruídos, os campos de oferendas ficarão desolados, e os próprios sacerdotes que queimavam incenso aos seus deuses serão mortos ou levados cativos (v. 7).

Repare: somente a religião verdadeira, e a adoração e o serviço ao Deus verdadeiro, nos valerão no dia da aflição.

VI. É uma destruição justa e reta, que Moabe mereceu e trouxe sobre si por causa do pecado.

  1. O pecado de que eram mais notoriamente culpados, e pelo qual Deus agora os julgava, era o orgulho. Ele é mencionado seis vezes no v. 29. Todos já ouvimos falar do orgulho de Moabe; seus vizinhos o notaram, e isso depôs contra ele, assim como o orgulho de Israel.

Moabe é extremamente orgulhoso e fica cada vez pior. Observe sua altivez, arrogância, orgulho e presunção. A repetição de palavras de sentido semelhante mostra em quantas situações ele revelou seu orgulho e como isso era ofensivo tanto a Deus quanto aos homens.

Esse pecado foi denunciado contra eles em Isaías 16:6, mas aqui é descrito com mais detalhes. Desde então, eles haviam passado por providências humilhantes; mesmo assim, não se humilharam.

Pelo contrário, tornaram-se mais arrogantes e presunçosos, sinal claro de que estavam destinados à destruição completa, pois o orgulho precede a queda.

Aqui são dados dois exemplos do orgulho de Moabe:

(1.) Moabe se comportou insolentemente para com Deus. Será humilhado com vergonha (v. 26), pois se engrandeceu contra o Senhor; pelo mesmo motivo, será destruído como povo (v. 42). Os moabitas preferiram Quemós a Jeová e se julgaram páreos do Deus de Israel, a quem desafiaram.

(2.) Moabe tratou Israel com desprezo, especialmente em suas recentes aflições. Por isso, Moabe passará pelas mesmas aflições, cairá nas mesmas mãos e será motivo de zombaria, pois Israel foi motivo de zombaria para ele (v. 26, 27).

A maioria dos moabitas, quando soube das calamidades e da devastação de seus vizinhos judeus, em vez de lamentá-los, alegrou-se e saltou de alegria.

Em situações assim, muitos sentem secretamente prazer com a queda daqueles de quem não gostam, mas têm discrição suficiente para esconder esse sentimento, tão malvisto ele é. Os moabitas, porém, anunciaram sua alegria abertamente e declararam a inimizade que tinham contra Israel.

Triunfavam sobre cada israelita que encontravam em aflição e riam dele, numa atitude tão desumana quanto ímpia e afrontosa tanto ao ser humano, de cuja natureza participavam, quanto a Deus, por cujo nome os israelitas eram chamados.

Repare: os que zombam de outros em sua aflição, justa e certamente, mais cedo ou mais tarde, cairão eles próprios em aflição e serão motivo de zombaria. Os que se alegram com as calamidades, especialmente com as que atingem a igreja de Deus, não ficarão muito tempo sem castigo.

  1. Além disso, eram culpados de malícia contra o povo de Deus e de traição no modo de lidar com ele (v. 30). Zombavam da devastação de Judá e de Jerusalém e, ao rir, fingiam que tudo não passava de brincadeira e diversão.

Mas Deus diz: “Conheço a sua cólera; sei que ela vem da antiga inimizade contra a descendência de Abraão e os adoradores do Deus verdadeiro. Sei que ele pensa que as calamidades da nação judaica acabarão em sua completa extinção.

Agora diz aos caldeus que os judeus são gente má e os incita contra eles; mas as coisas não acontecerão como espera, e suas mentiras não produzirão esse resultado. A nação cuja queda ele celebra se reerguerá.” Alguns leem: “Conheço a sua fúria”. Não é assim? Ele não está furioso contra o povo de Deus?

“E também conheço suas mentiras.” Não é assim? Ele não os calunia? Repare: toda a fúria e toda a falsidade dos inimigos da igreja são perfeitamente conhecidas por Deus, quaisquer que sejam os pretextos com que tentem encobri-las (Isaías 37:28).

VII. É uma destruição complexa, que se completará por meio de uma calamidade após outra, pois os que escapam de um juízo perecem em outro: terror, cova e laço virão sobre eles (v. 43). O terror os levará à cova, e o laço os prenderá nela quando caírem; assim, não escaparão nem da destruição nem de dentro dela.

O que foi dito em geral sobre os pecadores (Isaías 24:17, 18), que os que fogem do terror cairão na cova e os que saem da cova serão apanhados no laço, é aqui profetizado especificamente a respeito dos pecadores de Moabe (v. 44).

Esse é o ano de seu castigo, quando Deus virá julgá-los e se dará a conhecer pelos juízos que executa, pois ele é o Rei cujo nome é Senhor dos Exércitos (v. 15): não é apenas o Rei com autoridade para julgar, mas também o Senhor dos Exércitos, capaz de realizar o que determinou.

As imagens figuradas do v. 44 são explicadas com um exemplo (v. 45). Os que fugirem das aldeias, com medo das tropas inimigas, buscarão abrigo à sombra de Hesbom; ficarão ali, supondo-se seguros, como os exércitos às vezes recuam para a proteção dos canhões de uma cidade fortificada.

Mas se decepcionarão: ao saírem da cova, cairão no laço. Hesbom, que julgavam capaz de abrigá-los, os devorará, como Moisés predisse havia muito tempo (Números 21:28): “Saiu fogo de Hesbom, e uma chama da cidade de Seom”; esse fogo devora os que vêm de todos os cantos de Moabe e alcança o alto da cabeça dos tumultuosos, ou dos festeiros, ou dos filhos do barulho.

Não se trata da multidão rude e barulhenta, mas dos grandes, que alardeiam, ameaçam e fazem barulho. Os juízos de Deus os atingirão.

Vamos ouvir a conclusão de tudo isso? Nós a temos no v. 46: “Ai de ti, ó Moabe! Estás arruinado. O povo que adora Quemós perece e desaparece. Adeus, Moabe!” “Teus filhos e tuas filhas, a esperança da geração seguinte, foram levados cativos, depois dos judeus, cujas calamidades os alegraram.”

VIII. Ainda assim, a destruição não será permanente. O capítulo termina com uma breve promessa de que Moabe voltará do cativeiro nos últimos dias. Deus, que o leva ao cativeiro, também o trará de volta (v. 47). Deus trata os moabitas com tanta ternura; quanto mais tratará seu próprio povo!

Nem mesmo contra os moabitas contenderá para sempre nem manterá sua cólera eternamente. Quando Israel voltou, Moabe também voltou. Talvez a profecia tenha sido dada principalmente para dar ânimo ao povo de Deus para esperar a salvação, da qual até os moabitas participarão.

Ainda assim, ela aponta para além desse tempo, para os dias do evangelho. Os próprios judeus a relacionam aos dias do Messias. Então, o cativeiro dos gentios sob o jugo do pecado e de Satanás será revertido pela graça divina, que os tornará livres, verdadeiramente livres. Esta profecia sobre Moabe é longa, mas aqui termina; termina com consolo: “Até aqui é o juízo de Moabe”.


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