Jeremias 47
Argumento
Este capítulo anuncia a condenação dos filisteus, assim como o anterior anunciou a dos egípcios, executada pela mesma mão: a de Nabucodonosor. É breve, mas terrível. Tiro e Sidom, embora ficassem a certa distância dos filisteus, também participarão da destruição aqui anunciada.
I. Anuncia-se que as forças dos reinos do norte virão contra eles, causando-lhes grande terror, vv. 1-5.
II. A guerra continuará por muito tempo, e seus esforços para encerrá-la serão inúteis, vv. 6-7.
Versículos 1 a 6
O Julgamento dos Filisteus. (a.C. 588.)
Assim como os egípcios muitas vezes se mostraram falsos amigos do Israel de Deus, os filisteus sempre foram inimigos declarados. Sua proximidade os tornava ainda mais perigosos e incômodos.
Foram muito humilhados no tempo de Davi, mas parece que se recuperaram e continuaram a ser um povo importante até que Nabucodonosor os eliminou juntamente com seus vizinhos. É esse o acontecimento previsto aqui.
A data da profecia merece atenção: foi antes de Faraó ferir Gaza. Não se sabe ao certo quando o rei do Egito atacou Gaza: se durante sua campanha contra Carquemis, se na volta de lá depois de matar Josias, ou se quando veio mais tarde com a intenção de socorrer Jerusalém.
O fato é mencionado para mostrar que a palavra do Senhor veio a Jeremias contra os filisteus quando estavam em pleno vigor e esplendor, com suas cidades em boas condições, sem perigo diante de adversário algum nem de qualquer desgraça iminente.
Quando nenhuma probabilidade humana apontava para a perda de sua tranquilidade, ainda assim Jeremias anunciou sua ruína. O ataque de Faraó a Gaza pouco depois seria apenas sinal antecipado dela, por assim dizer, o início das dores daquele país. Aqui se anuncia:
- Que virá contra eles um inimigo estrangeiro e muito temível: “Águas sobem do norte”, v. 2. Às vezes, águas representam multidões de povos e nações, Apocalipse 17:15; em outras ocasiões, grandes calamidades ameaçadoras, Salmos 69:1. Aqui representam ambas.
Sobem do norte, de onde se diz que vêm o bom tempo e o vento que afasta a chuva. Agora, porém, daquele clima frio vem uma tempestade terrível. O exército caldeu inundará a terra como um dilúvio.
Provavelmente isso aconteceu antes da destruição de Jerusalém, pois parece que, na época de Gedalias, logo depois dela, o exército caldeu já se havia retirado completamente daquelas regiões.
O território dos filisteus era pequeno, de modo que logo seria inundado por um exército tão vasto.
- Que todos ficarão aterrorizados. Os homens não terão coragem de lutar; sentarão e chorarão como crianças: “Todos os moradores da terra uivarão”. Em toda parte só se ouvirá lamentação.
A causa do medo é descrita com elegância, v. 3. Antes mesmo de começarem a matar e abater, o bater dos cascos dos cavalos e o estrondo dos carros, quando o inimigo se aproximar, lançarão sobre o povo tamanho terror que os pais parecerão perder o afeto natural.
Não olharão para trás para ver os filhos, cuidar da segurança deles ou sequer saber o que lhes aconteceu. Suas mãos estarão tão fracas que não terão esperança de levá-los consigo.
Por isso, nem desejarão vê-los; deixarão que enfrentem o próprio destino. Ou o pavor será tão grande que esquecerão até esses que são parte de si mesmos.
Ninguém deve apegar-se excessivamente aos filhos ou idolatrá-los. Pode sobrevir aflição tão intensa que a pessoa deseje não tê-los ou se esqueça de que os tem, sem coragem sequer para olhar para eles.
- Que a terra dos filisteus será saqueada e devastada, assim como os países vizinhos aliados a eles. Chegou o dia de saquear os filisteus, pois o Senhor os saqueará, v. 4. Repare: aqueles a quem Deus quer saquear serão saqueados; se ele está contra eles, quem poderá estar a seu favor?
Tiro e Sidom eram cidades fortes e ricas e costumavam ajudar os filisteus nas dificuldades. Agora, porém, também estarão envolvidas na ruína comum. Deus os privará de todo aliado que ainda possa socorrê-los.
Repare: os que confiam na ajuda de criaturas descobrirão que ela lhes faltará quando mais precisarem e, por isso, ficarão extremamente confusos.
Não sabemos ao certo quem era o remanescente da terra de Caftor. Sabemos, porém, que os caftorins eram parentes próximos dos filisteus, Gênesis 10:14. Provavelmente, quando sua terra foi destruída, os sobreviventes vieram morar com os parentes filisteus e agora seriam saqueados com eles.
Algumas cidades são nomeadas, Gaza e Ascalom, v. 5. A calvície veio sobre elas: os invasores as despojaram de todos os ornamentos ou os moradores raparam a cabeça em sinal de extrema tristeza.
Elas são eliminadas com as outras cidades da planície ou do vale ao redor. Os produtos do vale fértil serão saqueados e tomados pelos conquistadores.
- Que essas calamidades durarão muito tempo. Antecipando isso, o profeta, com a ternura habitual, pergunta primeiro, v. 5: até quando vocês se cortarão, como fazem os que padecem dor e tristeza extremas? Como será demorada a calamidade! Eles não apenas se ferirão, mas continuarão a fazê-lo por muito tempo.
O profeta, porém, passa do efeito à causa: cortam-se porque a espada do Senhor os corta. Por isso:
(1.) Pede à espada que pare, v. 6: “Ah, espada do Senhor! Até quando não te aquietarás?” Implora que volte à bainha, que não devore mais carne nem beba mais sangue.
Isso expressa o desejo ardente do profeta de ver o fim da guerra. Como convinha a um ser humano, olhava com compaixão até para os próprios filisteus, quando a terra deles era devastada pela espada.
Repare: a guerra é a espada do Senhor. Com ela, ele pune os crimes dos inimigos e defende a causa do próprio povo. Depois que começa, a guerra muitas vezes dura muito. Uma vez desembainhada, a espada não volta depressa para a bainha. Há até quem jogue fora a bainha ao sacar a espada, porque se deleita na guerra.
Tão lamentável é a devastação da guerra que as bênçãos da paz se tornam necessariamente muito desejáveis. Ah, se as espadas fossem forjadas em relhas de arado!
(2.) Ainda assim, Jeremias explica satisfatoriamente por que a guerra continua e cala a própria queixa, v. 7: como se aquietará, se o Senhor lhe deu uma missão contra tais e tais lugares, nomeados especificamente nela? “Ali ele a designou.” Repare:
[1.] A espada da guerra recebe sua missão do Senhor dos Exércitos. Cada projétil tem uma missão. Vocês os chamam de projéteis cegos, mas são dirigidos por um Deus que tudo vê.
A própria guerra tem sua missão. Ele lhe diz “Vai”, e ela vai; “Vem”, e ela vem; “Faz isto”, e ela o faz. Ele é o comandante supremo.
[2.] Quando a espada é desembainhada, não podemos esperar que volte à bainha antes de cumprir sua missão. Assim como a palavra de Deus, sua vara e sua espada realizarão aquilo para que ele as enviou.