Matthew Henry

Jeremias 45

Argumento

A profecia deste capítulo diz respeito apenas a Baruque, mas se destina a sustentar e animar todos os que servem fielmente ao Senhor e permanecem perto dele em tempos difíceis e de prova.

Foi posta aqui, depois do relato da destruição de Jerusalém e da dispersão dos judeus, mas havia sido pronunciada muito antes, no quarto ano de Jeoaquim, como a profecia do capítulo seguinte e, provavelmente, as posteriores. Aqui encontramos:

I. Como Baruque ficou aterrorizado ao enfrentar dificuldades por escrever e ler o rolo de Jeremias, vv. 1-3.

II. Como seus temores foram refreados por uma repreensão às suas grandes expectativas e calados pela promessa de proteção especial, vv. 4-5.

Embora Baruque fosse apenas o escriba de Jeremias, Deus dá atenção a seus temores e providencia consolo para ele. Deus não despreza nenhum de seus servos. Cuida com graça dos mais humildes e fracos: tanto de Baruque, o escriba, quanto de Jeremias, o profeta.

Versículos 1 a 5

A Mensagem de Jeremias a Baruque. (a.C. 607.)

Jeremias 36 relatou como Baruque foi encarregado de escrever e ler as profecias de Jeremias, como o rei o ameaçou por isso, com mandados de prisão contra ele e a necessidade de esconder-se, e como escapou por pouco sob a proteção divina.

Este capítulo deveria vir logo depois daquela história. Por tratar de uma pessoa em particular, porém, foi posto perto do fim do livro, assim como a epístola de Paulo a Filemom vem depois de suas outras epístolas. Observe:

I. A consternação em que o pobre Baruque ficou quando os mensageiros do rei o procuravam e ele teve de se esconder, bem como a atenção que Deus deu a isso. Ele exclamou: “Ai de mim agora!”, v. 3.

Era jovem e começava a abrir seu caminho no mundo. Interessava-se pelas coisas de Deus e estava disposto a servir a Deus e a seu profeta. Mas, quando chegou a hora de sofrer, desejou ser dispensado.

Sendo homem inteligente e instruído, tinha boas perspectivas de promoção. Agora, ver-se encurralado e em risco de prisão ou coisa pior representava para ele uma grande decepção.

Ao ler o rolo em público, esperava conquistar reputação, chamar a atenção e receber alguma função. Ao descobrir, porém, que isso, em vez de ajudá-lo, o expunha ao desprezo e à desonra, exclamou:

“Estou perdido! Caírei nas mãos dos que me perseguem e serei preso, morto ou banido. O Senhor acrescentou tristeza à minha dor, carregando-me de uma aflição depois da outra. Depois da dor de escrever e ler as profecias sobre a ruína do meu país, tenho a tristeza de ser tratado como criminoso por isso.”

“Outra pessoa talvez não desse importância a isso; eu, porém, não consigo suportá-lo. É um peso grande demais para mim. Estou desfalecido de tanto suspirar, ou meus suspiros me deixam exausto; quase me matam. Não encontro descanso nem tranquilidade na mente. Não consigo acalmar-me como deveria e gostaria para aguentar isso, nem vejo perspectiva de alívio ou consolo.”

Baruque era um homem bom, mas devemos reconhecer que essa era sua fraqueza. Repare:

  1. Os que estão começando na religião, como soldados novatos, tendem a desanimar com as pequenas dificuldades que em geral encontram no início do serviço de Deus. Correm apenas com os homens a pé, e já se cansam.

Desfalecem assim que começa a raiar o dia da adversidade, prova de que sua força é pequena, Provérbios 24:10, de que sua fé é fraca e de que ainda são criancinhas que choram por qualquer machucado ou susto.

  1. Alguns dos melhores e mais amados santos e servos de Deus, ao verem tempestades se formando, ficaram assustados e propensos a imaginar o pior, perturbando-se com previsões sombrias mais do que havia razão para isso.

  2. Deus percebe a irritação e o descontentamento de seu povo e se desagrada com eles. Baruque deveria alegrar-se por ter sido considerado digno de sofrer por uma causa tão boa e em tão boa companhia. Em vez disso, irritou-se e queixou-se de sua sorte. Mais que isso, censurou a Deus, como se o Senhor o tivesse tratado com dureza.

Ele falou sob emoção e irritação, mas Deus se ofendeu, assim como se ofendeu com Moisés, que pagou caro por ter falado imprudentemente quando seu espírito foi provocado. “Disseste isto e aquilo, e não falaste bem.” Deus leva em conta o que dizemos, mesmo quando falamos às pressas.

II. A repreensão que Deus lhe fez por falar desse modo. Jeremias se afligiu ao vê-lo tão agitado e não sabia bem o que lhe dizer. Não queria censurá-lo, mas achava que ele merecia a censura. Desejava consolá-lo, mas não sabia como fazê-lo. Então Deus lhe disse o que devia falar, v. 4.

Jeremias não podia ter certeza do que estava por trás das queixas e dos temores, mas Deus via a causa: vinham das inclinações corrompidas de Baruque. Para que a ferida não fosse tratada superficialmente, Deus a sondou e mostrou a Baruque que havia criado expectativas altas demais para este mundo e esperado demais dele.

Era isso que tornava sua aflição tão dolorosa e difícil de suportar. Repare: as carrancas do mundo não nos perturbariam tanto se não nos iludíssemos tolamente com a esperança de seus sorrisos, cortejando-os e cobiçando-os demais.

Nosso apego exagerado às coisas boas do tempo presente nos torna impacientes diante das coisas ruins. Agora, Deus mostra a Baruque que era erro e insensatez, especialmente naquele momento, desejar ou esperar grande riqueza e honra deste mundo. Pois:

  1. O navio estava afundando. A ruína se aproximava da nação judaica, total e geral: “Estou derrubando o que edifiquei para ser minha casa e arrancando o que plantei para ser minha vinha, toda esta terra, a comunidade religiosa e o Estado dos judeus. E agora buscas grandezas para ti? Esperas enriquecer, receber honras e destacar-te? Não.”

  2. “É absurdo enfeitar tua própria cabine agora. Esperas estar no alto quando todos são abatidos, ou farto quando todos ao teu redor estão vazios?” Buscar os próprios interesses acima do bem público, especialmente buscar grandezas para si quando o povo corre perigo, é atitude muito imprópria a israelitas.

Podemos aplicar isso a este mundo e à nossa condição nele. Em sua providência, Deus derruba e arranca. Tudo é incerto e perecível; não podemos esperar encontrar aqui cidade permanente. Que insensatez, então, buscar grandes coisas para nós neste lugar onde tudo é pequeno e nada é certo!

III. Como Deus o animou a esperar que, embora não se tornasse grande, permaneceria seguro: “Trarei o mal sobre toda carne, sobre todas as nações, classes e posições sociais. Mas te darei a tua vida por despojo” (a tua alma, conforme a expressão) “em todos os lugares para onde fores”.

“Deves esperar ser levado às pressas de um lugar para outro e encontrar perigo aonde quer que vás. Ainda assim, escaparás, muitas vezes por muito pouco. Conservarás a vida, mas como despojo conquistado em meio a grande dificuldade e perigo; serás salvo como que através do fogo.”

Repare: preservar e prolongar a vida são grandes misericórdias, e devemos reconhecê-las como tal. A vida estende nossa oportunidade de glorificar a Deus neste mundo e de preparar-nos para outro melhor.

Em certas ocasiões, especialmente quando as flechas da morte voam densamente ao redor, a vida é favor extraordinário pelo qual devemos ser muito gratos. Enquanto a temos, não devemos reclamar por não alcançarmos as grandezas que esperávamos. “Não é a vida mais que o alimento?”


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