Matthew Henry

Jeremias 43

Argumento

Jeremias havia exposto fielmente a mensagem recebida de Deus no capítulo anterior. Ela deixou a situação tão clara que se poderia pensar não haver mais nada a dizer a respeito. Encontramos, porém, algo bem diferente. Temos aqui:

I. O desprezo do povo pela mensagem. Negaram que fosse a palavra de Deus, vv. 1-3, e então não tiveram dificuldade em agir diretamente contra ela. Foram para o Egito e levaram o próprio Jeremias com eles, vv. 4-7.

II. Deus os persegue com outra mensagem, que anuncia que o rei da Babilônia os perseguirá até o Egito, vv. 8-13.

Versículos 1 a 7

A Resposta Insolente do Povo. (a.C. 588.)

O que Deus disse aos construtores de Babel pode na verdade ser dito deste povo com quem Jeremias agora trata: “Agora nada do que imaginaram fazer lhes será impedido”, Gênesis 11:6. Cismaram com o Egito e para lá irão, diga o próprio Deus o que disser em contrário.

Jeremias fez com que ouvissem tudo o que tinha a dizer, embora percebesse seu incômodo. Era a mensagem que o Senhor, seu Deus, o enviara para lhes falar, e eles a ouviriam inteira. Vejamos agora o que têm a dizer a isso.

I. Negam que seja mensagem de Deus: Joanã e todos os homens orgulhosos disseram a Jeremias: “Falas falsamente”, v. 2. Veja aqui:

  1. A causa da desobediência deles: o orgulho. Só dele vem a disputa, tanto com Deus quanto com os homens. Foram homens orgulhosos os que chamaram o profeta de mentiroso. Não suportavam que suas opiniões fossem contrariadas nem seus desígnios refreados, não, nem mesmo pela sabedoria divina, pela própria vontade divina.

Faraó perguntou: “Quem é o Senhor, para que eu lhe obedeça?”, Êxodo 5:2. O coração humano orgulhoso e não humilhado é um dos inimigos mais atrevidos que Deus tem deste lado do inferno.

  1. O pretexto para sua desobediência. Não quiseram reconhecer que era a palavra de Deus: “O Senhor não te enviou a nós com esta missão.” Ou não estavam convencidos de que aquilo vinha de Deus ou, o que considero mais provável, embora estivessem convencidos, recusavam-se a admitir.

A luz brilhava intensamente em seu rosto, mas eles ou fechavam os olhos para ela ou não queriam confessar que a viam. Repare: o motivo por que os homens negam que as Escrituras sejam a palavra de Deus é estarem decididos a não se conformar às regras das Escrituras. Assim, uma incredulidade obstinada torna-se o triste refúgio de uma desobediência deliberada.

Se Deus lhes tivesse falado por meio de um anjo ou como falou no monte Sinai, teriam dito que era ilusão. Não haviam consultado Jeremias como profeta? Ele não esperara as instruções de Deus para saber o que lhes dizer? Sua mensagem não tinha todas as marcas habituais da profecia?

O próprio profeta não estava no mesmo barco que eles? Que interesses poderia ter separados dos seus? Não havia sempre demonstrado ser um israelita de fato? Deus não havia demonstrado que ele era um profeta de fato? Alguma palavra sua tinha caído por terra?

Ora, na verdade, tinham certa boa opinião de Jeremias, mas insinuaram, v. 3: “Baruque te instiga contra nós”. Como se fosse provável que Baruque participasse de uma trama para entregá-los nas mãos dos caldeus! O que ganharia com isso?

Se ele e Jeremias tivessem sido tão favoráveis aos caldeus quanto queriam fazer parecer, teriam ido logo para a Babilônia com Nebuzaradã, quando este os convidou, em vez de ficar e compartilhar o destino daquele remanescente desprezado e ingrato.

Os melhores serviços, porém, não são barreira contra a maldade e a calúnia. Ou, se Baruque tivesse intenções tão ruins, poderiam acreditar que Jeremias seria influenciado por ele a ponto de usar o nome de Deus como autoridade para apoiar um propósito tão vil?

Repare: os que estão decididos a contrariar os grandes objetivos do ministério empenham-se em difamá-lo. Quando persistem no pecado, apresentam os que procuram desviá-los dele como pessoas com desígnios para si mesmas; ou melhor, pessoas de maus desígnios contra seus vizinhos.

É bom para os que são assim difamados saber que sua testemunha está no céu e seu testemunho, nas alturas.

II. Resolvem, apesar de tudo, ir para o Egito. Não querem morar na terra de Judá, como Deus lhes havia ordenado, v. 4. Decidem, de comum acordo, partir eles próprios e levar consigo para o Egito todos os que estão sob seu poder.

Os que haviam vindo de todas as nações para onde foram expulsos, a fim de morar na terra de Judá por sincera afeição àquela terra, não receberam liberdade de escolha. Foram obrigados a seguir para o Egito, v. 5, homens, mulheres e crianças, v. 6.

Era uma longa viagem a um país estranho, idólatra, que nunca havia sido bondoso nem fiel a Israel. Ainda assim, queriam ir para lá, embora desertassem de sua própria terra e se lançassem para fora da proteção de Deus.

A insensatez dos homens está em não perceberem quando estão em boa situação e muitas vezes se arruinarem tentando melhorar sua condição. É orgulho dos grandes homens obrigar os que estão sob seu domínio a segui-los, mesmo que isso contrarie profundamente o dever e o interesse dessas pessoas.

Esses homens orgulhosos forçaram até o profeta Jeremias e Baruque, seu escriba, a acompanhá-los ao Egito. Levaram-nos como prisioneiros, em parte para castigá-los. Não poderiam infligir-lhes castigo maior que obrigá-los a agir contra suas consciências.

A pior tirania é a dos que dizem à alma dos homens, até à dos homens bons: “Curvai-vos, para que passemos sobre vós”. Em parte, levaram-nos para dar alguma reputação a si mesmos e ao seu próprio caminho.

Embora os profetas fossem forçados a ir, queriam fazer o mundo acreditar que iam por vontade própria. Quem poderia censurá-los por contrariar a palavra do Senhor se os próprios profetas tivessem agido assim?

Chegaram a Tafnes, cidade famosa do Egito, assim chamada em homenagem a uma rainha desse nome, 1 Reis 11:19; é a mesma cidade de Hanes, Isaías 30:4. Era então a capital, pois o palácio de Faraó ficava ali, v. 9.

Esses homens orgulhosos não aceitariam estabelecer-se em outro lugar senão na cidade real, perto da corte. Tão pouco se lembravam da sabedoria de José, que quis ver seus irmãos estabelecidos em Gósen.

Se tivessem espírito de israelitas, teriam preferido morar no deserto de Judá às cidades mais esplêndidas e populosas do Egito.

Versículos 8 a 13

As Profecias de Jeremias no Egito. (a.C. 588.)

Aqui, assim como também no capítulo seguinte, vemos Jeremias profetizar no Egito. Agora estava em Tafnes, pois ali estavam seus senhores e dominadores. Encontrava-se entre egípcios idólatras e israelitas traiçoeiros. Mas ali:

  1. Recebeu a palavra do Senhor; ela veio a ele. Deus pode encontrar seu povo com as visitas de sua graça onde quer que esteja. Quando seus ministros são presos, ainda assim a palavra do Senhor não fica presa. O espírito de profecia não estava limitado à terra de Israel.

Jeremias foi ao Egito por obrigação, não por escolha, e Deus não retirou dele seu favor habitual.

  1. Expôs ao povo o que recebera do Senhor. Onde quer que estejamos, devemos procurar fazer o bem, pois essa é nossa tarefa neste mundo.

Agora encontramos duas mensagens que Jeremias foi designado e incumbido de expor durante sua permanência no Egito. Podemos supor que prestasse a seus compatriotas no Egito os serviços que podia, ao menos na medida em que fossem bem recebidos, cumprindo os deveres comuns de um profeta: orar por eles, instruí-los e consolá-los.

Foram registradas, porém, apenas duas de suas mensagens, recebidas de Deus sem mediação: uma neste capítulo, que trata do próprio Egito e prediz sua destruição; outra no capítulo seguinte, que trata dos judeus no Egito.

Deus já lhes dissera que, se fossem ao Egito, a espada que temiam os seguiria. Aqui lhes diz ainda que a espada de Nabucodonosor, que temiam de modo especial, os seguiria até lá.

I. Isso é predito por um sinal. Jeremias deve pegar pedras grandes, usadas em alicerces, e assentá-las no barro do forno, ou olaria, que fica na via pública, ou ao lado do caminho que leva ao palácio de Faraó, v. 9: um lugar de destaque, visível do palácio real.

O Egito era famoso por suas olarias, como mostra a escravidão dos israelitas ali, quando foram obrigados a fabricar tijolos, Êxodo 5:7. Talvez Deus agora se lembrasse desse fato contra os egípcios. O fundamento da desolação do Egito foi posto naquelas olarias, naquele barro.

Jeremias não deve fazer isso à vista dos egípcios, que não conheciam sua condição de profeta, mas à vista dos homens de Judá aos quais fora enviado, para que, já que não pudera impedi-los de ir ao Egito, pudesse levá-los a arrepender-se de terem ido.

II. Isso é predito em palavras expressas, tão expressas quanto possível:

  1. Que o rei, o atual rei da Babilônia, Nabucodonosor, o mesmíssimo que fora usado na destruição de Jerusalém, viria pessoalmente contra a terra do Egito. Tomaria até essa cidade real, como indicaria o fato de estabelecer seu trono naquele mesmo lugar onde foram postas aquelas pedras, v. 10.

Essa circunstância minuciosa é predita especificamente para que, quando se cumprisse, eles se lembrassem da profecia e fossem confirmados na crença na amplitude e na certeza da presciência divina, à qual os menores e mais contingentes acontecimentos são evidentes.

Deus chama Nabucodonosor de seu servo porque, nessa ação, ele cumpria a vontade divina, realizava seus propósitos e servia de instrumento para levar adiante seus desígnios.

Repare: os príncipes deste mundo são servos de Deus, e ele os usa como quer. Até os que não o conhecem nem procuram honrá-lo são instrumentos de sua providência.

  1. Que destruiria muitos dos egípcios e teria todos à sua mercê (v. 11): “Ferirá a terra do Egito”. E, embora ela sempre tenha sido uma nação guerreira, ainda assim ninguém conseguirá resistir-lhe.

Mas abaterá quem quiser e pelo tipo de morte que quiser, seja pela peste, pois é isso que aqui se entende por morte, como em Jeremias 15:2, encerrando-os em lugares infectados, seja pela espada da guerra ou da justiça, a sangue-frio ou no calor do combate. E conservará vivos os que quiser e os levará cativos.

Os judeus, ao irem para o Egito, atraíram os caldeus até lá e retribuíram mal a hospitalidade dos que os acolheram. Os que prometeram proteger Israel do rei da Babilônia acabaram por expor-se a ele.

  1. Que destruirá os ídolos do Egito, tanto os templos como as imagens de seus deuses, v. 12: queimará as casas dos deuses do Egito. O fogo, porém, será aceso por Deus. O fogo da cólera de Deus se apodera deles. Então Nabucodonosor queima alguns deles e leva outros cativos, Isaías 46:1.

Bete-Semes, ou casa do sol, recebeu esse nome por causa de um templo erguido ali em honra do sol, onde, em certas ocasiões, havia uma reunião geral dos adoradores do sol. Nabucodonosor despedaçará as estátuas ou imagens erguidas ali, v. 13, e levará os materiais valiosos de que eram feitas.

Isso indica que devastaria tudo, pois nem mesmo o templo e as imagens escaparão da fúria do exército vitorioso. O próprio rei da Babilônia era grande idólatra e defensor da idolatria; tinha seus templos e imagens em honra do sol, assim como os egípcios. Ainda assim, é usado para destruir os ídolos do Egito.

Desse modo, Deus às vezes faz de um homem ímpio ou de uma nação ímpia um flagelo e uma praga para outro homem ou outra nação.

  1. Que se tornará senhor da terra do Egito, e ninguém poderá defender sua causa nem vingá-la em sua desavença, v. 12. Vestir-se-á com os ricos despojos da terra do Egito, tanto se embelezará quanto se fortalecerá com eles. Usará esses despojos como ornamentos e como armadura.

Embora seja um despojo rico e pesado, ele, experiente e rápido na guerra, o vestirá com tanta facilidade e em tão pouco tempo, comparativamente, quanto um pastor veste sua roupa quando sai para soltar suas ovelhas de manhã.

E, carregado das riquezas de muitas outras nações, frutos de suas conquistas, dará aos despojos do Egito tão pouca importância quanto à capa de um pastor.

Depois de tomar o que quiser, como Ben-Hadade ameaçou fazer, 1 Reis 20:6, sairá em paz, sem perturbação alguma nem precipitação por receio dela. Tão eficazmente terá sido subjugada a terra do Egito.

Essa destruição do Egito pelo rei da Babilônia é predita em Ezequiel 29:19; 30:10. A Babilônia ficava muito longe do Egito; ainda assim, é de lá que vem a destruição do Egito. Pois Deus pode fazer com que juízos vindos de longe atinjam seu alvo em cheio.


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