Matthew Henry

Jeremias 41

Argumento

Este capítulo conta uma história muito trágica e mostra que o mal persegue os pecadores. A nuvem escura que se formava no capítulo anterior desaba aqui em tempestade terrível.

Os poucos judeus que escaparam do cativeiro orgulhavam-se de ainda estar em sua terra, enquanto seus irmãos haviam ido para onde nem sabiam. Apreciavam o vinho e os frutos de verão que tinham colhido e sentiam-se muito seguros sob a proteção de Gedalias. De repente, até esses remanescentes se tornam ruínas.

I. Gedalias é barbaramente assassinado por Ismael, vv. 1-2.

II. Todos os judeus que estavam com ele também são mortos, v. 3, e uma cisterna fica cheia dos corpos, v. 9.

III. Alguns homens piedosos, oitenta ao todo, que iam em direção a Jerusalém, são atraídos por Ismael e igualmente assassinados, vv. 4-7. Só dez escapam, v. 8.

IV. Os que escapam da espada são feitos prisioneiros por Ismael e levados em direção à terra dos amonitas, v. 10.

V. Pela liderança e coragem de Joanã, embora a morte dos que foram mortos não seja vingada, os prisioneiros são resgatados, e ele se torna seu comandante principal, vv. 11-16.

VI. Seu plano é levá-los à terra do Egito, vv. 17-18. Ouviremos mais sobre isso no capítulo seguinte.

Versículos 1 a 10

O Assassinato de Gedalias. (a.C. 588.)

É difícil dizer o que causa mais espanto: Deus permitir ou os homens cometerem perversidades como as que encontramos aqui. Homens que, pelo nascimento, deviam ser nobres e, pela religião, justos, praticam atos tão vis, bárbaros e sangrentos.

Fazem isso contra pessoas da mesma natureza, nação e religião, agora também seus irmãos na aflição. Todos haviam sido submetidos ao poder dos caldeus vitoriosos e sofriam os juízos de Deus. Não houve provocação nem perspectiva de vantagem. Tudo foi feito não apenas a sangue-frio, mas com cálculo e planejamento.

Mal encontramos em toda a Escritura exemplo semelhante de crueldade traiçoeira. Assim, como João quando viu a mulher embriagada com o sangue dos santos, podemos ficar profundamente espantados.

Deus, porém, permitiu isso para consumar a ruína de um povo que não se humilhara e completar a medida de seus juízos, pois já haviam completado a medida de suas iniquidades. Que isso nos inspire indignação diante da maldade dos homens e reverência diante da justiça de Deus.

I. Ismael e seu grupo mataram traiçoeiramente o próprio Gedalias em primeiro lugar. O rei da Babilônia o havia feito um homem importante e o encarregado de governar a terra conquistada.

Deus o havia feito um homem bom e uma grande bênção para seu país; sua atuação em favor dele era como vida dentre os mortos. Ainda assim, nada disso pôde protegê-lo.

Ismael era de linhagem real, v. 1. Por isso, tinha ciúme da crescente importância de Gedalias e indignação porque ele merecera e aceitara uma nomeação sob o rei da Babilônia.

Ismael trazia consigo dez homens que também eram príncipes da casa real, movidos pelos mesmos ressentimentos mesquinhos. Já haviam estado com Gedalias para se colocar sob sua proteção, Jeremias 40:8, e agora voltaram para visitá-lo. Comeram pão juntos em Mispá.

Gedalias os recebeu com generosidade e não desconfiou deles, apesar do aviso que Joanã lhe dera. Fingiram amizade e não lhe deram sinal de que deveria ficar alerta. Ele, por sua vez, era sinceramente amistoso e fazia tudo para tratá-los bem.

Mas os que comiam seu pão levantaram contra ele o calcanhar. Não procuraram um motivo de disputa; esperaram uma oportunidade, quando estivesse sozinho, e o assassinaram, v. 2.

II. Também passaram à espada todos os que encontraram ali armados, tanto judeus quanto caldeus: todos os que serviam sob Gedalias ou tinham condições de vingar sua morte, v. 3. Como se não bastasse o sangue israelita derramado pelos caldeus, os próprios príncipes de Israel o misturam aqui ao sangue dos caldeus.

Os viticultores e lavradores trabalhavam nos campos e nada sabiam desse massacre sangrento; com tanta astúcia ele foi executado e encoberto.

III. Alguns homens bons e honestos que, em lágrimas, iam lamentar a devastação de Jerusalém foram atraídos por Ismael e assassinados com os demais. Observe:

  1. De onde vinham, v. 5: de Siquém, Samaria e Siló, lugares antes famosos, mas agora arruinados. Pertenciam às dez tribos, mas naquelas regiões havia pessoas que conservavam afeição pelo culto ao Deus de Israel.

  2. Aonde iam: à casa do Senhor, o templo de Jerusalém. Sem dúvida tinham ouvido falar de sua destruição e iam prestar homenagem às suas cinzas, ver suas ruínas, para que os olhos despertassem no coração a tristeza por elas. “Têm afeição até pelo seu pó”, Salmos 102:14.

Levavam ofertas e incenso nas mãos, para que, se encontrassem ali algum altar, ainda que de terra, e algum sacerdote pronto a ministrar, tivessem o que oferecer. Mesmo que não encontrassem nada, mostrariam sua boa vontade, como Abraão quando foi ao lugar do altar, embora o altar já não existisse.

O povo de Deus costumava ir com alegria à casa do Senhor. Eles, porém, iam vestidos de luto, com roupas rasgadas e cabeças rapadas. A providência divina convocava claramente ao pranto e à lamentação, pois as coisas já não eram para os adoradores fiéis de Deus como nos meses passados.

  1. Como a maldade de Ismael os atraiu a uma armadilha fatal. Ao saber que se aproximavam, resolveu matá-los também, tamanha era sua sede de sangue.

Parecia odiar qualquer pessoa que tivesse o nome de israelita ou o rosto de um homem honesto. Detestava aqueles peregrinos rumo a Jerusalém por causa do propósito da viagem.

Ismael saiu ao encontro deles com lágrimas de crocodilo, fingindo lamentar tanto quanto eles a devastação de Jerusalém. Para descobrir o que pensavam de Gedalias e de seu governo, persuadiu-os a entrar na cidade. Ao perceber que respeitavam Gedalias, ficou ainda mais decidido a matá-los.

Disse: “Vinde a Gedalias”, fingindo querer que viessem viver com ele, quando na verdade pretendia que viessem morrer com ele, v. 6. Haviam ouvido falar tão bem de Gedalias que desejavam conhecê-lo. Mas Ismael, quando os teve no meio da cidade, atacou-os e matou-os, v. 7.

Sem dúvida também tomou as ofertas que traziam e as usou em benefício próprio. Quem não hesitou diante de tal assassinato tampouco hesitaria diante do sacrilégio.

O texto registra o destino dado aos corpos desses homens e dos demais que ele matara: lançou todos numa grande cisterna, v. 7.

Era a mesma cisterna que Asa, rei de Judá, cavara muito tempo antes na cidade ou junto dela, quando construiu ou fortificou Mispá, 1 Reis 15:22, para fazer dela uma guarnição de fronteira contra Baasa, rei de Israel, a quem temia, v. 9.

Repare: os que cavam cisternas com boa intenção não sabem para que fim perverso elas poderão ser usadas algum dia. Ismael matou tantos que não podia dar uma sepultura a cada um, ou não quis honrá-los assim, e lançou todos juntos na mesma cisterna.

Entre esses últimos condenados à morte, dez conseguiram perdão, apelando não à compaixão, mas à cobiça daqueles que tinham suas vidas nas mãos, v. 8. Quando Ismael, como sanguessuga insaciável, estava prestes a sugar-lhes o sangue depois de sugar o dos companheiros, disseram:

“Não nos mates, porque temos tesouros no campo”: riquezas do campo, grandes reservas guardadas na terra, abundância do que ela produz, trigo, cevada, azeite e mel. Sugeriam que revelariam tudo e lhe dariam posse de tudo, se ele os poupasse.

“Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida.” A isca funcionou. Ismael os poupou, não por amor à misericórdia, mas por amor ao dinheiro.

Essas riquezas tinham sido guardadas pelos donos, não para seu mal, Eclesiastes 5:13, nem para fazê-los perder a vida, Jó 31:39, mas para seu bem, preservando-lhes a vida. Salomão observa que às vezes as riquezas de um homem são o resgate de sua vida.

Mas os que imaginam subornar a morte quando ela vem com sua missão e lhe suplicam “Não nos mates, porque temos tesouros no campo” descobrirão que ela é inexorável e que foram miseravelmente enganados.

IV. Ele levou o povo cativo. As filhas do rei, com quem os caldeus não quiseram ocupar-se depois de capturar os filhos dele, e os pobres da terra, viticultores e lavradores confiados aos cuidados de Gedalias, foram todos levados prisioneiros em direção à terra dos amonitas, v. 10.

É provável que Ismael pretendesse oferecê-los como troféus de sua vitória bárbara ao rei daquele país, que o havia instigado. Essa história melancólica nos adverte a nunca nos sentirmos seguros neste mundo.

Algo pior pode vir quando pensamos que o pior já passou. O fim de uma aflição, que imaginamos ser o fim de todas, pode ser o começo de outra ainda maior.

Esses prisioneiros pensaram: “Certamente a amargura da morte e do cativeiro já passou”. Ainda assim, alguns morreram pela espada, enquanto outros foram levados ao cativeiro.

Quando nos julgamos seguros e começamos a descansar, a destruição pode vir de um lado que pouco esperávamos. Muitos navios naufragam no porto. Nunca podemos ter certeza de paz deste lado do céu.

Versículos 11 a 18

Joanã Persegue Ismael; a Fuga de Ismael. (a.C. 588.)

Teria sido bom se Joanã, ao avisar Gedalias do plano traiçoeiro de Ismael, tivesse ficado com ele, embora não tivesse conseguido autorização para matar Ismael e assim impedir o crime.

Joanã, seus capitães e suas tropas poderiam ter servido de guarda pessoal a Gedalias e infundido temor em Ismael, evitando o desastre sem derramamento de sangue.

Parece, porém, que estavam fora em alguma expedição, talvez nada boa, e por isso ausentes quando poderiam ter prestado o melhor serviço. Os que gostam de andar de um lado para outro muitas vezes estão longe do seu lugar quando são mais necessários.

Por fim, porém, ouviram falar de todo o mal que Ismael havia praticado, v. 11, e decidiram tentar reverter a situação. É disso que tratam estes versículos.

  1. Bem gostaríamos que Joanã pudesse ter-se vingado dos assassinos, mas ele só conseguiu resgatar os cativos. Era lamentável que aqueles que tanto sangue derramaram não tivessem o próprio sangue derramado. É estranho que a vingança os tenha deixado viver, mas foi o que aconteceu.

Joanã reuniu as forças que pôde e foi lutar contra Ismael, v. 12, ao saber dos assassinatos que este cometera, pois, embora os tivesse escondido por um tempo, v. 4, o homicídio acaba vindo à luz.

Soube também por onde Ismael havia seguido. Perseguiu-o e alcançou-o junto ao grande tanque de Gibeom, mencionado em 2 Samuel 2:13.

Ao ver Joanã aparecer com tamanha força, Ismael perdeu a coragem. Sua consciência culpada se voltou contra ele, e ele não ousou manter sua posição diante de um inimigo que podia enfrentá-lo em condições semelhantes. Os mais cruéis muitas vezes são os mais covardes.

Os pobres cativos se alegraram ao ver Joanã e os capitães que o acompanhavam, pois os consideraram seus libertadores, v. 13. Logo encontraram um modo de dar meia-volta e juntar-se a eles, v. 14; Ismael, ao ver Joanã, não tentou retê-los.

Repare: os que desejam ajuda precisam ajudar a si mesmos. Esses cativos não esperaram que seus captores fossem derrotados. Aproveitaram a primeira oportunidade de fugir, assim que viram os amigos aparecerem e os inimigos perderem o ânimo.

Ismael abandonou sua presa para salvar a própria vida e escapou com oito homens, v. 15. Parece que dois dos dez homens do seu bando de salteadores ou assassinos, mencionados no v. 1, o abandonaram ou morreram no confronto.

Ele, porém, fugiu o mais depressa que pôde para os amonitas, como verdadeiro renegado que rompera por completo com a comunidade de Israel, embora fosse de linhagem real. Não ouvimos mais falar dele.

  1. Bem gostaríamos que Joanã, depois de resgatar os cativos, tivesse se estabelecido tranquilamente com eles e os governado em paz como Gedalias. Em vez disso, quis levá-los à terra do Egito, assim como Ismael pretendia levá-los à terra dos amonitas.

Embora tivesse assumido o comando de modo melhor que Ismael e com honestidade, ainda assim não o exerceu muito melhor.

Gedalias, homem manso e pacífico, fora grande bênção para eles. Joanã, de espírito impetuoso e inquieto, foi colocado sobre eles para seu mal e para consumar sua ruína, mesmo depois de julgarem-se resgatados.

Assim Deus continuou a agir contra eles. (1.) A decisão de Joanã e dos capitães foi muito precipitada. Nada os satisfaria senão entrar no Egito, v. 17. Para isso, acamparam por algum tempo na morada de Quimã, perto de Belém, cidade de Davi.

Provavelmente era alguma terra que Davi dera a Quimã, filho de Barzilai, e que, embora tivesse voltado à família de Davi no ano do jubileu, ainda conservava o nome de Quimã.

Ali Joanã estabeleceu seu quartel-general, seguindo para o Egito por afeição pessoal àquele país ou pela antiga confiança nacional dos israelitas na ajuda egípcia em tempos de aflição.

Parece que alguns homens de guerra valentes haviam escapado. Joanã os levou consigo, bem como as mulheres e crianças que resgatara de Ismael e que assim eram passadas de um recipiente a outro, porque continuavam sem mudança interior.

(2.) O motivo apresentado para essa decisão era muito frívolo. Alegavam temer que os caldeus viessem e lhes fizessem sabe-se lá o quê, porque Ismael matara Gedalias, v. 18.

Não creio que realmente temessem algum perigo por esse motivo. É verdade que os caldeus tinham razão suficiente para ressentir-se do assassinato de seu representante. Mas não eram tão insensatos nem injustos a ponto de vingar-se dos que haviam agido com tanto vigor contra os assassinos.

Usavam esse pretexto apenas para encobrir a inclinação corrupta, tão forte neles, que herdaram dos antepassados incrédulos: voltar ao Egito. Aqueles que se desculpam pelo pecado com temores fingidos perderão, com justiça, o consolo quando enfrentarem temores reais.


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