Matthew Henry

Jeremias 40

Argumento

Assistimos à pira funerária de Jerusalém e nos despedimos dos cativos levados para a Babilônia, sem esperar ouvir falar deles novamente neste livro. Talvez ouçamos em Ezequiel.

Neste capítulo e nos quatro seguintes, porém, devemos acompanhar a história dos poucos judeus que ficaram na terra depois que seus irmãos foram levados. É uma história muito melancólica.

Embora de início houvesse perspectivas promissoras de que viveriam bem, logo se mostraram tão obstinados no pecado como sempre, sem humilhação nem reforma.

Essa obstinação durou até que todos os demais juízos ameaçados em Deuteronômio 28 lhes sobrevieram e se cumpriu a ameaça que encerra o último versículo daquele capítulo terrível: “O Senhor te fará voltar ao Egito”.

Neste capítulo temos: I. Um relato mais detalhado da soltura de Jeremias e de seu estabelecimento com Gedalias, vv. 1-6.

II. A grande afluência a Gedalias dos judeus que permaneciam dispersos nos países vizinhos; ele fora nomeado governador deles pelo rei da Babilônia. Vemos também a boa situação em que estiveram por algum tempo sob seu governo, vv. 7-12.

III. Um plano traiçoeiro de Ismael contra Gedalias, que veremos executado no capítulo seguinte, vv. 13-16.

Versículos 1 a 6

A Preservação de Jeremias; Jeremias Permanece com Gedalias. (a.C. 588.)

O título desta parte do livro, que abre o capítulo, parece mal aplicado (“A palavra que veio a Jeremias”), pois aqui não há profecia alguma. Deve referir-se a Jeremias 42:7, onde temos uma mensagem que Deus enviou por intermédio de Jeremias aos capitães e ao povo que permaneceu.

A história intermediária serve apenas para introduzir aquela profecia e mostrar a ocasião em que foi dada, para que se possa entendê-la melhor. Como o próprio Jeremias participou dos acontecimentos, estava em melhores condições de relatá-los.

Nestes versículos, vemos Jeremias seguir o conselho de Nebuzaradã e ficar com Gedalias. Parece que os príncipes do rei da Babilônia o haviam retirado com grande honra do pátio da prisão, Jeremias 39:13, 14.

Mais tarde, porém, foi encontrado entre o povo da cidade. Como os oficiais inferiores tinham ordens de amarrar todos os que encontrassem de alguma posição para levá-los cativos à Babilônia, ele foi amarrado com os demais por ignorância e engano e levado às pressas.

Pobre homem! Parece ter nascido para sofrer dificuldades e maus-tratos: verdadeiramente, um homem de dores!

Quando os cativos, algemados, foram levados a Ramá, não muito longe dali, onde se reuniu um conselho de guerra, ou tribunal militar, para decidir o destino deles, Jeremias logo foi distinguido dos demais e solto por ordem especial daquele conselho.

  1. O capitão da guarda reconhece solenemente que Jeremias é um profeta verdadeiro, vv. 2-3:

“O Senhor teu Deus, de quem foste mensageiro e em cujo nome falaste, por teu intermédio anunciou este mal contra este lugar. Eles receberam aviso claro, mas não quiseram atendê-lo. Agora o Senhor trouxe o mal e, assim como o disse por tua boca, cumpriu por minha mão o que havia dito”.

Parece que ele justifica desse modo o que fez e até se gloria de ter sido instrumento de Deus para cumprir aquilo que Jeremias fora seu mensageiro para anunciar. Por isso, foi de fato a ação mais gloriosa que ele já praticou.

Ele diz a todo o povo que agora está acorrentado diante dele: “Porque pecastes contra o Senhor, isto vos sobreveio”. Os príncipes de Israel jamais admitiriam isso, embora fosse tão evidente como se estivesse escrito com um raio de sol.

Mas esse príncipe pagão o percebe claramente: um povo tão favorecido pela bondade divina não teria sido abandonado desse modo se não tivesse provocado muito a Deus.

Os profetas haviam dito isso muitas vezes ao povo de Israel do púlpito, mas eles não deram atenção. Agora ouvem a mesma coisa do tribunal do conquistador, a quem não ousam contradizer e que os obrigará a levar o aviso a sério.

Repare: mais cedo ou mais tarde, os homens serão levados a reconhecer que o pecado é a causa de todas as suas misérias.

  1. Ele dá a Jeremias plena liberdade para decidir o que fazer. Solta-o de suas correntes pela segunda vez, v. 4, e o convida a acompanhá-lo à Babilônia, não como cativo, mas como amigo e companheiro.

“Porei sobre ti os meus olhos” (assim diz a expressão) significa mais que “cuidarei bem de ti”: significa “tratar-te-ei com respeito, te darei apoio e me certificarei de que estejas seguro e bem provido”.

Se não estivesse disposto a ir para a Babilônia, Jeremias poderia morar onde quisesse em sua terra, pois agora tudo estava à disposição dos conquistadores. Poderia ir a Anatote, se quisesse, e desfrutar do campo que comprara ali.

Que grande mudança para esse homem bom! Quem até pouco tempo era lançado de uma prisão a outra agora pode caminhar em liberdade de uma propriedade a outra.

  1. Ele aconselha Jeremias a ir até Gedalias e estabelecer-se com ele. Gedalias, nomeado governador da terra sob o rei da Babilônia, era um judeu honesto. É provável que tenha passado cedo com seus amigos para o lado dos caldeus e se mostrado tão digno de confiança que recebeu essa grande responsabilidade, v. 5.

Jeremias ainda não tinha voltado e permanecia ali, pensando no que faria. Nebuzaradã, percebendo que ele não se inclinava a ir para a Babilônia nem havia decidido aonde ir, ajudou-o a decidir e lhe recomendou enfaticamente que fosse até Gedalias. Uma ideia que surge de repente às vezes pode ser sábia.

Ao dar esse conselho, porém, não pretendia obrigá-lo a segui-lo nem se ofenderia se Jeremias não o fizesse: “Vai para onde te parecer conveniente”. Em situações assim, dar conselho é amistoso; impor uma decisão e irritar-se se o conselho não for seguido não é.

Que Jeremias escolha o caminho que quiser: Nebuzaradã concordará e acreditará que ele faz o melhor. Não lhe dá apenas a liberdade e aprova as medidas que tomar; também provê seu sustento. Deu-lhe alimento e um presente, talvez roupas ou dinheiro, e então o deixou ir.

Veja como o capitão da guarda foi atencioso em sua bondade para com Jeremias. Deu-lhe liberdade, mas numa terra devastada onde, no estado em que ela agora se encontrava, ele poderia ter perecido, embora fosse sua própria terra, se não tivesse recebido com bondade o necessário para viver.

Jeremias não apenas aceitou sua bondade, mas também seguiu o conselho: foi até Gedalias, em Mispá, e morou com ele, v. 6. Não sei se podemos elogiar sua prudência nisso; o desfecho não a recomenda, pois a decisão não lhe trouxe conforto algum.

Podemos, contudo, elogiar seu afeto piedoso pela terra de Israel. A menos que fosse obrigado a sair dela, como Ezequiel, Daniel e outros homens bons, ele não a abandonaria. Preferiu morar com os pobres na terra santa a viver com príncipes numa terra profana.

Versículos 7 a 16

O Discurso de Gedalias ao Povo. (a.C. 588.)

Nestes versículos temos:

I. Um céu claro que se abre sobre o remanescente dos judeus deixados em sua terra, oferecendo-lhes a perspectiva consoladora de alguma paz e tranquilidade depois de tantos anos de aflição e terror. Jeremias, é verdade, nunca havia profetizado dias tão bons reservados aos judeus logo após o cativeiro.

Mas a Providência parecia despertar e animar tal esperança, que para aquele povo miserável seria como vida dentre os mortos. Observe os detalhes.

  1. Gedalias, um dos seus, é nomeado governador da terra pelo rei da Babilônia, v. 7. Para mostrar que pretendia dar-lhes uma vida tranquila e mantê-la assim, o rei não confiou a função a um dos príncipes babilônicos, mas a um dos irmãos deles, que certamente procuraria a paz do povo.

Gedalias era filho de Aicão, filho de Safã, um dos príncipes. Lemos que seu pai tomou o partido de Jeremias contra o povo, Jeremias 26:24. Parece ter sido homem de grande sabedoria e temperamento brando, sob cujo governo os poucos que restavam poderiam ter sido muito felizes.

O rei da Babilônia tinha boa opinião a seu respeito e confiava nele, pois entregou aos seus cuidados todos os que ficaram na terra.

  1. Muita gente vem a ele de todas as partes. Todos os judeus então dispersos chegam e se colocam sob seu governo e proteção.

(1.) Os homens influentes que haviam conseguido escapar dos caldeus lutando vêm e se submetem pacificamente a Gedalias, para sua própria segurança e a preservação de todos. Vários são citados aqui, v. 8. Vieram com seus homens, servos e soldados, fortalecendo-se uns aos outros.

O rei da Babilônia tinha opinião tão boa de Gedalias, seu representante, que não via com suspeita o aumento do número deles; antes, agradava-se disso.

(2.) Os pobres que haviam escapado fugindo para os países vizinhos de Moabe, Amom e Edom foram levados pelo amor à própria terra a voltar assim que ouviram que Gedalias exercia autoridade nela, vv. 11-12.

A própria Canaã seria uma terra insegura e desagradável se não houvesse ali governo nem governantes. Mesmo os que a amavam profundamente não voltariam até saber que havia autoridade estabelecida.

Que alívio seria para os dispersos reunir-se de novo; para os espalhados por países estrangeiros, reunir-se na própria terra; para os sujeitos a reis estrangeiros, ficar sob um governador de sua própria nação.

Vemos aqui que Deus, em sua ira, lembrou-se da misericórdia e ainda admitiu alguns deles a uma nova prova de obediência.

  1. O modelo desse novo governo é traçado e estabelecido por um acordo inicial, que Gedalias confirma com juramento solene, v. 9. Ele jura aos homens e aos seus seguidores, provavelmente segundo a autorização e as instruções que recebera do rei da Babilônia, que lhe dera poderes para oferecer-lhes essas garantias.

(1.) Devem reconhecer que a propriedade de suas terras pertence aos caldeus. “Vinde”, diz Gedalias, “não temais servir aos caldeus. Não temais que isso seja pecado”. Embora a lei divina os tivesse proibido de fazer pactos com os pagãos, a sentença divina os obrigara a render-se ao rei da Babilônia.

“Não temais o descrédito disso nem a desonra que trará à vossa nação. Foi a essa condição que Deus vos trouxe e obrigou, e ninguém se desonra por submeter-se a ele. Não temais as consequências, como se isso necessariamente tornasse a vós e aos vossos miseráveis.”

“Não achareis o rei da Babilônia um senhor de terras tão severo como imaginais. Se viverdes em paz, em paz vivereis. Não perturbeis o governo, e ele não vos perturbará. Servi ao rei da Babilônia, e vos irá bem.”

Se tivessem dificuldade em prestar homenagem pessoalmente ou receassem perigo quando os caldeus viessem entre eles, Gedalias, provavelmente instruído pelo rei da Babilônia, assumia o compromisso de agir por eles em todas as ocasiões e fazer com que seus pedidos fossem bem recebidos pelo rei, v. 10:

“Quanto a mim, eis que habitarei em Mispá, para servir aos caldeus, prestar-lhes homenagem em nome de todo o povo se necessário, receber ordens e pagar-lhes o tributo quando vierem a nós.”

Tudo o que se passasse entre eles e os caldeus passaria por suas mãos. E, se os caldeus depositavam nele tamanha confiança, seus próprios compatriotas certamente podiam confiar nele.

Gedalias se dispõe assim a garantir sob juramento que fará sua parte para protegê-los. Mas, inclinado como muitos homens bons a errar pelo excesso de confiança, não exigiu deles juramento de fidelidade a ele; caso contrário, talvez se pudesse ter evitado a desgraça que veio depois.

Ainda assim, a proteção gera lealdade mesmo sem juramento. Ao se juntarem a Gedalias, consentiram de fato nos termos do governo: servir ao rei da Babilônia.

(2.) Embora reconheçam que a propriedade de suas terras pertence aos caldeus, sob essa condição poderão desfrutar livremente delas e de todos os seus frutos, v. 10:

“Ajuntai vinho e frutos de verão e tomai-os para vosso uso. Guardai-os em vossos recipientes como provisão para o inverno, como fazem os que vivem numa terra em paz e esperam comer do trabalho das próprias mãos. Mais que isso, comereis do trabalho das mãos de outros, pois colheis o que eles semearam.”

Ou talvez fossem frutos espontâneos daquela terra fértil, pelos quais ninguém trabalhara. De fato, lemos que colheram vinho e frutos de verão em grande quantidade, v. 12, aqueles que então havia na terra, pois a colheita de cereais terminara algum tempo antes da tomada de Jerusalém.

Enquanto Gedalias cuidava da segurança pública, deixava que desfrutassem das vantagens da abundância comum e, pelo que se vê, não lhes exigia tributo algum. Não buscava o próprio proveito, mas o proveito de muitos.

II. Aqui se forma uma nuvem escura sobre esse estado nascente, ameaçando uma tempestade terrível. Como essa perspectiva promissora se desfaz depressa! Pois, quando Deus começa a julgar, leva seu juízo até o fim. Aqui nos é indicado:

  1. Que Baalis, rei dos amonitas, nutria um rancor especial contra Gedalias e tramava eliminá-lo, seja por maldade contra a nação dos judeus, cuja prosperidade detestava, seja por uma ofensa pessoal contra Gedalias, v. 14.

Alguns entendem que Baalis designa a mãe do rei dos amonitas, a rainha-mãe ou rainha viúva, como se ela fosse a primeira instigadora daquele plano sangrento e traiçoeiro.

Alguém imaginaria que esse pequeno remanescente estaria seguro sob a proteção do grande rei da Babilônia; ainda assim, foi arruinado pelas intrigas desse príncipe ou dessa princesa de pouca importância.

Felizes os que têm o Rei dos reis ao seu lado, pois ele pode apanhar os sábios na própria astúcia deles. Nem mesmo o maior rei terreno, com todo o seu poder, consegue proteger-nos contra fraude e traição.

  1. Que ele empregou Ismael, filho de Netanias, como instrumento de sua maldade: instigou-o a assassinar Gedalias e, para que tivesse boa oportunidade de fazê-lo, orientou-o a apresentar-se como súdito de Gedalias e prometer-lhe fidelidade.

Nada poderia ser mais bárbaro que o próprio plano, nem mais vil que o modo de executá-lo. Como a natureza humana se corrompeu e degenerou miseravelmente, até entre os que alegam ter a melhor linhagem, quando é capaz de acolher a ideia de tamanha perversidade abominável!

Ismael era de linhagem real e, portanto, facilmente seria levado a invejar e odiar alguém nomeado governador de Judá que, ao contrário dele, não pertencia à linhagem de Davi, ainda que Gedalias tivesse muito do espírito de Davi.

  1. Que Joanã, homem enérgico e ativo, descobriu essa conspiração e avisou Gedalias. Contudo, presumiu que Gedalias já soubesse do assunto, tão claras eram as provas: “Porventura sabes de fato? Certamente sabes”, v. 14.

Joanã lhe transmitiu a informação em particular, v. 15, esperando que assim ele lhe desse mais atenção. Ofereceu-se para impedir o crime, eliminando Ismael, cujo próprio nome era de mau agouro para toda a descendência de Isaque: “Eu o matarei. Por que haveria ele de matar-te?”

Nisso demonstrou mais coragem e zelo que senso de justiça. Pois, se fosse lícito matar alguém para evitar um crime futuro, quem estaria seguro, já que a maldade sempre suspeita do pior?

  1. Que Gedalias, sendo ele próprio um homem sincero, de modo algum quis acreditar na informação sobre a traição de Ismael. Ele disse: “Falas falsamente acerca de Ismael”. Nisso demonstrou mais bondade que prudência, mais da inocência da pomba que da sabedoria da serpente.

Os príncipes tornam a vida penosa para si e para todos à sua volta quando são desconfiados. A rainha Elizabeth disse que não acreditaria em mais maldade de seu povo do que uma mãe acreditaria dos próprios filhos. Ainda assim, muitos foram arruinados por confiar demais na fidelidade dos que os cercavam.


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