Jeremias 36
Argumento
Aqui se tenta outro meio de agir sobre esse povo desatento e rebelde, mas a tentativa é inútil. Prepara-se um rolo de livro que contém um resumo de todos os sermões que Jeremias lhes pregara, para lembrar-lhes o que haviam ouvido e ajudá-los a entendê-lo melhor quando pudessem ver tudo junto. Temos aqui:
I. A escrita desse rolo por Baruque, conforme o ditado de Jeremias, vv. 1-4.
II. A leitura pública do rolo por Baruque a todo o povo num dia de jejum (vv. 5-10), depois sua leitura particular aos príncipes por Baruque (vv. 11-19) e, por fim, sua leitura ao rei por Jeudi, v. 20, 21.
III. A queima do rolo pelo rei e suas ordens para perseguir Jeremias e Baruque, vv. 22-26.
IV. A escrita de outro rolo, com muitos acréscimos, sobretudo a condenação de Jeoaquim por ter queimado o primeiro, vv. 27-32.
Versículos 1 a 8
O Rolo Escrito por Baruque. (a.C. 607.)
No começo da profecia de Ezequiel encontramos um rolo escrito numa visão para revelar ao próprio profeta seu conteúdo, que ele devia receber e assimilar, Ezequiel 2:9, 10; 3:1.
Aqui, perto do fim da profecia de Jeremias, encontramos um rolo realmente escrito para revelar seu conteúdo ao povo, que devia ouvi-lo e dar-lhe atenção. A palavra escrita e outros bons livros são muito úteis tanto aos ministros quanto ao povo. Temos aqui:
I. A ordem que Deus deu a Jeremias para escrever um resumo de seus sermões, de todas as repreensões e advertências que, em nome de Deus, fizera a seu povo desde que começou a pregar, no décimo terceiro ano de Josias, até aquele dia, no quarto ano de Jeoaquim, v. 2, 3.
O que antes fora apenas falado devia agora ser escrito, para que pudesse ser revisto, difundido mais longe e conservado por mais tempo. O que fora dito extensamente, com repetições frequentes das mesmas coisas, talvez nas mesmas palavras, o que tem suas vantagens, devia agora ser resumido e ocupar menos espaço.
Assim, suas diversas partes poderiam ser mais bem comparadas entre si, o que traz outra vantagem. Aquilo que tinham ouvido uma vez devia ser recapitulado e repetido a eles, para que voltassem a lembrar o que haviam esquecido e para que aquilo que não os impressionara na primeira audição pudesse alcançá-los na segunda.
E aquilo que talvez já tivesse sido escrito e publicado em sermões separados devia ser reunido num só volume, para que nada se perdesse. Repare: A escrita das Escrituras é uma determinação divina.
Observe também o motivo dado aqui para a escrita desse rolo (v. 3): “Talvez a casa de Judá ouça.” Isso não quer dizer que a presciência divina tivesse alguma incerteza quanto ao desfecho: para ela não existe talvez; Deus sabia com certeza que eles agiriam com grande deslealdade, Isaías 48:8.
Mas a sabedoria divina indicou esse meio como apropriado para alcançar o fim desejado; se falhasse, eles seriam ainda menos desculpáveis.
Embora Deus previsse que não ouviriam, não disse isso ao profeta. Prescreveu-lhe esse método como um meio provavelmente útil, a ser empregado na esperança de que ouvissem, isto é, dessem atenção e consideração ao que escutassem, reparassem nisso e o recebessem com fé.
De outro modo, ouvir a palavra, ainda que um anjo do céu a lesse ou pregasse a nós, de nada nos serviria. Observe agora:
O que se espera que assim ouçam: “Todo o mal que penso fazer-lhes.” Repare: Considerar seriamente as consequências certas e fatais do pecado será muito útil para nos conduzir a Deus.
O que se espera que isso produza: Ouvirão, “para que cada um se converta de seu mau caminho”. Repare: A conversão dos pecadores de seus maus caminhos é o objetivo que os ministros devem ter ao pregar; o povo ouve a palavra em vão se esse resultado não for alcançado nele.
Para que serve ouvir falar do mal que Deus trará sobre nós por causa do pecado se, apesar disso, continuamos a fazer o mal contra ele?
- A grande vantagem que sua consideração e conversão lhes trarão: “Para que eu perdoe sua iniquidade.” Isso implica claramente a honra da justiça de Deus, com a qual seria incompatível perdoar o pecado se o pecador não se arrependesse nem se afastasse dele.
Mas expressa igualmente a honra de sua misericórdia: ele está muito disposto a perdoar o pecado e apenas espera que o pecador esteja preparado para receber perdão. Por isso emprega diversos meios para levar-nos ao arrependimento, a fim de poder perdoar.
II. As instruções que Jeremias deu a seu escriba Baruque em cumprimento da ordem recebida de Deus e a escrita do rolo conforme essas instruções, v. 4. Deus mandou Jeremias escrever, mas parece que o profeta não tinha a habilidade de um escriba ágil: não escrevia tão depressa nem com letra tão boa quanto Baruque.
Por isso o tomou como amanuense. São Paulo escreveu de próprio punho apenas poucas de suas epístolas, Gálatas 6:11; Romanos 16:22. Deus distribui seus dons de diversas maneiras: alguns têm grande habilidade para falar; outros, para escrever. Nenhum deles pode dizer ao outro: “Não precisamos de vocês”, 1 Coríntios 12:21.
O Espírito de Deus ditou a Jeremias, e Jeremias a Baruque. O profeta já havia confiado a Baruque a compra de um campo em seu nome (Jeremias 32:12) e agora o promovia a escriba e representante em seu ofício profético.
Se podemos dar crédito ao livro apócrifo que leva o nome de Baruque, mais tarde ele próprio foi profeta para os cativos na Babilônia.
Os que começam em posição modesta têm possibilidade de ascender, e é bom que os destinados a ser profetas aprendam sob a orientação de profetas e lhes sejam úteis.
Baruque escreveu o que Jeremias ditava num rolo de livro, em pedaços de pergaminho ou velino unidos uns aos outros, a extremidade superior de um à inferior do outro, formando um rolo comprido, talvez enrolado numa haste.
III. As ordens que Jeremias deu a Baruque para ler ao povo o que escrevera. Jeremias, ao que parece, estava impedido e não podia ir pessoalmente à casa do Senhor, v. 5.
Não era um prisioneiro mantido em confinamento rigoroso, pois, se fosse, não haveria razão para enviar oficiais a fim de prendê-lo (v. 26). Mas o rei o proibira de aparecer no templo; fora excluído do lugar onde poderia servir a Deus e fazer o bem, o que para ele era tão ruim quanto ser encerrado numa masmorra.
Jeoaquim amadurecia rapidamente para a ruína ao silenciar dessa forma os mensageiros fiéis de Deus. Como Jeremias não podia ir pessoalmente ao templo, enviou alguém a quem delegara a leitura para dizer ao povo o que ele mesmo teria dito.
Assim São Paulo escreveu epístolas às igrejas que não podia visitar pessoalmente. Ou melhor, era aquilo mesmo que Jeremias já lhes havia dito muitas vezes.
Repare: Escrever e repetir os sermões já pregados pode contribuir muito para alcançar os grandes objetivos da pregação. É bom ouvirmos outra vez aquilo que já ouvimos e conhecemos, para conhecê-lo melhor.
Pregar e escrever a mesma coisa é seguro e proveitoso, e muitas vezes muito necessário (Filipenses 3:1). Devemos alegrar-nos ao ouvir uma boa palavra de Deus, ainda que a recebamos, como aqui, por intermédio de outra pessoa. Tanto os ministros quanto o povo devem fazer o que podem quando não podem fazer o que desejam.
Observe: Quando Deus ordenou a leitura do rolo, disse: “Talvez ouçam e se convertam de seus maus caminhos”, v. 3. Quando Jeremias a ordena, diz: “Talvez orem”, apresentem suas súplicas diante do Senhor, “e se convertam de seu mau caminho”.
Repare: Orar a Deus pela graça de nos convertermos é necessário para nossa conversão. Os que são convencidos pela palavra de Deus da necessidade de voltar a ele apresentarão suas súplicas por essa graça.
E considerar quão grande é a cólera que Deus anunciou contra nós por causa do pecado deve avivar tanto nossas orações quanto nossos esforços.
Conforme essas ordens, Baruque leu no livro as palavras do Senhor sempre que havia uma santa convocação, v. 8.
Versículos 9 a 18
Baruque Lê o Rolo aos Príncipes. (a.C. 607.)
Parece que Baruque já lia muitas vezes o livro a todos os grupos dispostos a ouvi-lo, antes da leitura mais solene e completa relatada aqui. As instruções lhe foram dadas no quarto ano de Jeoaquim, enquanto essa leitura ocorreu no quinto ano, v. 9.
Alguns, porém, pensam que a cópia definitiva do livro levou tanto tempo para ser escrita que só ficou pronta no ano seguinte. Talvez, contudo, não tenham passado mais de um ou dois meses: ele poderia começar no fim do quarto ano e terminar no início do quinto, pois o nono mês se refere à contagem geral do ano, não ao ano desse reinado. Observe agora:
- O governo determinou a observância religiosa de um jejum público (v. 9), por causa da aflição causada pelo exército caldeu ou da falta de chuva (Jeremias 14:1): “Proclamaram um jejum” ao povo.
Não sabemos ao certo se o rei e os príncipes ou os sacerdotes ordenaram esse jejum, mas é evidente que Deus, por sua providência, os chamava a ele em voz alta.
Repare: Grandes demonstrações de piedade e devoção podem ser vistas até entre os que mantêm essas formas de religiosidade, mas desconhecem e se opõem à sua força. De que servem, porém, práticas tão hipócritas?
Jejuar sem reforma e sem afastamento do pecado jamais afastará os juízos de Deus, Jonas 3:10. Apesar desse jejum, Deus continuou sua contenda com o povo.
- No dia de jejum, Baruque repetiu publicamente os sermões de Jeremias na casa do Senhor. Ficou numa sala pertencente a Gemarias e, de uma janela ou sacada, leu para o povo reunido no pátio, v. 10.
Repare: Quando falamos com Deus, devemos estar dispostos a ouvi-lo. Por isso, nos dias de jejum e oração, é necessário ler e pregar a palavra. “Ouvi-me, para que Deus vos ouça”, Juízes 9:7. Para nos ajudar a buscar misericórdia e graça, convém que nos falem do pecado e do dever.
- A notícia disso foi levada aos príncipes que serviam na corte e estavam juntos na secretaria, aqui chamada de sala do escriba, v. 12.
Ao que parece, embora tivessem convocado o povo para reunir-se na casa de Deus, jejuar, orar e ouvir a palavra, os príncipes não acharam conveniente comparecer. Isso indicava que haviam proclamado o jejum não por verdadeira devoção, mas apenas por formalidade.
Queremos crer que Micaías informou aos príncipes o que Baruque lera não com a má intenção de causar dificuldades a Jeremias por sua pregação, mas com a boa intenção de inquietar os príncipes por causa de seus pecados. Afinal, seu pai Gemarias apoiara Baruque a ponto de lhe emprestar a sala para a leitura.
Micaías encontra os príncipes sentados na sala do escriba e lhes diz que teriam feito melhor em estar onde ele estivera, ouvindo um bom sermão no templo. Então lhes apresenta seus pontos principais.
Repare: Quando ouvimos alguma boa palavra que nos tocou e edificou, devemos estar prontos a comunicá-la aos que não a ouviram, para edificá-los. “Da abundância do coração fala a boca.”
- Mandam chamar Baruque e ordenam-lhe que se sente entre eles e leia tudo outra vez (v. 14, 15). Ele o faz prontamente, sem se queixar de cansaço pelo serviço público nem pedir dispensa por isso.
Tampouco repreende os príncipes por sua ausência do templo, onde poderiam tê-lo ouvido quando leu ali.
Repare: Os ministros de Deus devem tornar-se tudo para todos, se por algum meio puderem ganhar alguns. Devem adaptar-se a eles nas circunstâncias para preservar o essencial. São Paulo pregou em particular aos de maior reputação, Gálatas 2:2.
- Naquele momento, os príncipes ficaram muito impressionados com a palavra que lhes foi lida, v. 16. Observe: Ouviram todas as palavras. Não o interromperam; acompanharam pacientemente a leitura do livro inteiro. De outro modo, como poderiam formar um juízo competente sobre ele?
Depois de ouvir tudo, ficaram com medo, todos eles, sem exceção, como Félix, que tremeu diante dos argumentos de Paulo. As repreensões eram justas, as ameaças terríveis e as predições estavam a caminho de se cumprir; considerando tudo isso, ficaram muito consternados.
Não somos informados de que impressão a leitura do rolo causou no povo (v. 10), mas ela assustou os príncipes. Segundo alguns, olharam uns para os outros sem saber o que dizer.
Todos estavam convencidos de que o rolo merecia atenção, mas nenhum tinha coragem de apoiá-lo. Apenas concordaram em contar ao rei todas aquelas palavras: se ele julgasse conveniente acreditar nelas, eles também acreditariam; caso contrário, não, mesmo que isso pudesse impedir a ruína da nação.
Ao mesmo tempo, conheciam suficientemente a disposição do rei para aconselhar Baruque e Jeremias a esconder-se (v. 19) e a fazer o que pudessem para salvar-se. Esperavam que o rei, em vez de ser convencido, se irritasse.
Repare: É comum que os pecadores, ao serem convencidos, tentem afastar essa convicção transferindo a continuidade da questão a outros, como fizeram esses príncipes, ou adiando-a para uma ocasião mais conveniente, como Félix.
- Fizeram a Baruque uma pergunta sem importância: como escrevera todas aquelas palavras (v. 17), como se suspeitassem de algo extraordinário no processo.
Baruque lhes responde com simplicidade que nada havia de incomum na maneira de escrever: Jeremias ditava e ele escrevia, v. 18. Mas é comum que aqueles que desejam evitar a convicção produzida pela palavra de Deus levantem perguntas desnecessárias sobre o modo e a forma de sua inspiração.
Versículos 20 a 32
O Rolo de Jeremias Consumido. (a.C. 607.)
Acompanhamos o rolo até o povo e os príncipes; aqui devemos acompanhá-lo até o rei. E descobrimos:
I. Que, ao receber notícias do rolo, o rei mandou buscá-lo e ordenou que lhe fosse lido, v. 20, 21.
Não pediu a Baruque que viesse lê-lo pessoalmente, embora ele pudesse fazê-lo com mais compreensão, autoridade e afeição do que qualquer outra pessoa. Tampouco ordenou que um dos príncipes o lesse, embora isso não diminuísse nem o maior deles; menos ainda se dignou lê-lo por si mesmo.
Mandou que Jeudi, um de seus pajens então de serviço, enviado para buscar o rolo, o lesse. Talvez Jeudi mal soubesse dar sentido ao texto.
Mas os que assim desprezam a palavra de Deus logo mostrarão, como fez esse rei, que também a odeiam: não apenas têm dela uma opinião baixa, mas uma opinião má.
II. Que o rei não teve paciência para ouvi-lo até o fim, como tiveram os príncipes. Depois de ouvir três ou quatro folhas, tomado de ira, cortou o rolo com um canivete e lançou-o ao fogo, pedaço por pedaço, para ter certeza de vê-lo todo consumido, v. 22, 23.
Foi um dos atos de impiedade mais ousados que alguém poderia cometer e uma afronta descaradíssima ao Deus do céu, cuja mensagem estava ali.
Assim demonstrou sua impaciência diante da repreensão: resolvido a persistir no pecado, de modo algum suportava ouvir falar de suas faltas.
Assim demonstrou sua indignação contra Baruque e Jeremias: se os tivesse ao alcance naquele acesso de ira, também os teria cortado em pedaços e queimado.
Assim expressou a obstinada decisão de jamais conformar-se aos desígnios e propósitos das advertências que recebera: faria o que quisesse, dissesse Deus o contrário por meio de seus profetas.
Assim esperava tolamente frustrar as ameaças pronunciadas contra ele, como se Deus não soubesse executar a sentença depois de destruído o rolo em que ela estava escrita.
Assim pensou ter impedido eficazmente que o conteúdo do rolo se espalhasse mais, preocupação semelhante à dos principais sacerdotes a respeito do evangelho, Atos 4:17.
Haviam-lhe contado que o rolo fora lido ao povo e aos príncipes. “Mas”, diz ele, “tomarei uma medida que impedirá qualquer outra leitura.” Veja quanta inimizade contra Deus há na mente carnal e admire a paciência divina em suportar tamanhas afrontas.
III. Que nem o próprio rei nem qualquer de seus príncipes foram tocados pela palavra: “Não tiveram medo” (v. 24), nem mesmo aqueles príncipes que tremeram ao ouvi-la pela primeira vez, v. 16. Tão depressa e tão facilmente se desvanecem as boas impressões!
Demonstraram alguma preocupação até verem o pouco caso que o rei fez do rolo; então afastaram toda essa preocupação.
Não rasgaram as vestes, como fizera Josias, o próprio pai de Jeoaquim, quando lhe leram o livro da lei, embora este não fosse tão específico quanto o conteúdo do rolo nem tão diretamente ajustado à situação presente.
IV. Que três dos príncipes ainda conservavam entendimento e graça suficientes para intervir e tentar impedir a queima do rolo, mas em vão, v. 25.
Se desde o início tivessem demonstrado, como deviam, que a palavra os tocara, talvez tivessem levado o rei a mudar de atitude e o persuadido a ouvi-la com paciência. Mas muitas vezes os que deixam de fazer o bem que deveriam acabam perdendo a capacidade de fazer o bem que gostariam.
V. Que Jeoaquim, depois de queimar assim, na prática, o mandado de Deus pelo qual havia sido intimado, assinou, como que por vingança e supondo-se vencedor, um mandado para prender Jeremias e Baruque, ministros de Deus (v. 26). “Mas o Senhor os escondeu.”
Os príncipes os haviam aconselhado a esconder-se (v. 19), mas não foi nem o cuidado dos príncipes por eles nem o cuidado deles consigo mesmos que os protegeu. Estavam seguros sob a proteção divina.
Repare: Deus encontrará abrigo para seu povo, por mais que seus perseguidores se esforcem para apanhá-lo, até chegar sua hora. Ou melhor: mesmo quando essa hora chegar, ele próprio será seu esconderijo.
VI. Que Jeremias recebeu ordens e instruções para escrever em outro rolo as mesmas palavras que estavam no rolo queimado por Jeoaquim, v. 27, 28.
Repare: Embora as investidas do inferno contra a palavra de Deus sejam muito ousadas, nem um iota nem um til dela cairá por terra; a incredulidade humana não tornará a palavra de Deus sem efeito.
Os inimigos podem conseguir queimar muitas Bíblias, mas não podem abolir a palavra de Deus: não podem extirpá-la nem impedir seu cumprimento. Embora as tábuas da lei fossem quebradas, foram renovadas. Assim, das cinzas do rolo queimado, surgiu outra Fênix. A palavra do Senhor permanece para sempre.
VII. Que o rei de Judá, embora fosse rei, teve de prestar contas severamente ao Rei dos reis por essa afronta à palavra escrita.
Deus observou o que, no rolo, tanto ofendera Jeoaquim. O rei ficou irado porque nele estava escrito: “Certamente o rei da Babilônia virá e destruirá esta terra”, v. 29.
O rei da Babilônia não havia vindo dois anos antes e avançado bastante na destruição da terra? Sim, havia (2 Crônicas 36:6, 7), em seu terceiro ano, Daniel 1:1.
Assim, Deus e seus profetas se haviam tornado inimigos dele porque lhe diziam a verdade, anunciando a desolação que se aproximava e, ao mesmo tempo, mostrando-lhe um caminho viável para impedi-la. Mas, se é isso que tanto o desagrada, saiba:
- Que a cólera de Deus virá primeiro sobre ele e sua família pela mão de Nabucodonosor. Ele será eliminado e, em poucas semanas, seu filho será destronado e trocará as vestes reais pelas de prisioneiro.
Assim, não terá descendente que se sente no trono de Davi. A glória daquela casa ilustre será obscurecida e morrerá nele. Seu cadáver ficará insepulto ou, o que dá no mesmo, receberá sepultura de jumento, isto é, será lançado à vala mais próxima.
Ficará exposto a toda espécie de clima, calor e geada, o que acelerará sua decomposição e tornará o corpo repugnante.
“Não que seu corpo”, diz o sr. Gataker, “pudesse sentir tal tratamento, ou que ele próprio, depois de morto, pudesse sentir o que acontecesse ao corpo; mas o corpo do rei nessa condição seria um espetáculo horrível e um terrível monumento da pesada cólera e indignação de Deus contra ele para todos os que o vissem.”
Até seus descendentes e servos sofrerão mais por sua ligação com ele (v. 31), pois serão punidos não pela iniquidade dele, mas tanto mais cedo pela deles.
- Que todo o mal anunciado contra Judá e Jerusalém naquele rolo virá sobre eles. Embora a cópia tenha sido queimada, o original permanece no conselho divino, de onde será novamente copiado de outra maneira, em caracteres de sangue.
Repare: Não se escapa dos juízos de Deus lutando contra eles. Quem já endureceu o coração contra Deus e prosperou?
VIII. Que, quando o rolo foi escrito de novo, muitas palavras semelhantes foram acrescentadas às anteriores (v. 32), com muitas outras ameaças de cólera e vingança. Como eles ainda insistem em agir contrariamente a Deus, ele aquecerá a fornalha sete vezes mais.
Repare: Assim como Deus mantém seu propósito e ninguém pode fazê-lo mudar, também tem mais flechas na aljava. Os que resistem às desgraças anunciadas por Deus apenas preparam para si outras do mesmo tipo, ainda mais pesadas.