Jeremias 34
Argumento
Neste capítulo temos duas mensagens que Deus enviou por Jeremias.
I. Uma para predizer o destino de Zedequias, rei de Judá: cairia nas mãos do rei da Babilônia e viveria cativo, mas, por fim, morreria em paz no cativeiro, vv. 1-7.
II. Outra para anunciar a condenação tanto do príncipe quanto do povo por sua deslealdade para com Deus: haviam escravizado de novo os servos que tinham libertado conforme a lei e, assim, tratavam Deus conforme a própria conveniência.
Tinham agido para com Deus sem se importar com sua lei (vv. 8-11); por isso, Deus os deixaria enfrentar as consequências de seus atos, trazendo novamente contra eles o exército caldeu quando começavam a esperar que dele já se haviam livrado, vv. 12-22.
Versículos 1 a 7
O Cativeiro de Zedequias Predito; O Cativeiro Babilônico Anunciado. (a.C. 589.)
Esta profecia a respeito de Zedequias foi dada a Jeremias e, por meio dele, aos interessados antes que o profeta fosse encerrado na prisão. Vemos que esta predição serviu de fundamento para sua prisão, como mostra a repetição de algumas de suas passagens em Jeremias 32:4. Observe:
I. O momento em que essa mensagem foi enviada a Zedequias. Foi quando o rei da Babilônia, com todas as suas forças, incluindo contingentes de todos os reinos da terra sob seu domínio, lutava contra Jerusalém e suas cidades (v. 1), pretendendo destruí-las depois de tê-las saqueado muitas vezes.
As cidades que ainda restavam e resistiam são nomeadas no v. 7: Laquis e Azeca. Isso indica que a situação chegara ao extremo, mas Zedequias persistia obstinadamente na resistência, com o coração endurecido para sua própria destruição.
II. A mensagem que lhe foi enviada:
- Aqui há uma ameaça de cólera. Dizem-lhe outra vez o que muitas vezes já lhe haviam dito: a cidade será tomada pelos caldeus e queimada (v. 2); ele próprio cairá nas mãos do inimigo, será feito prisioneiro, levado à presença daquele príncipe furioso, Nabucodonosor, e conduzido cativo para a Babilônia (v. 3).
Contudo, Ezequiel profetizara que ele não veria a Babilônia; e não a viu, pois lhe vazaram os olhos, Ezequiel 12:13. Zedequias trouxe isso sobre si: da parte de Deus, por seus outros pecados; da parte de Nabucodonosor, por quebrar a palavra que lhe dera.
- Aqui a misericórdia se mistura à ameaça. Ele morrerá cativo, mas não morrerá à espada; terá morte natural (v. 4). Encerrará seus dias com algum consolo; morrerá em paz, v. 5.
Nunca fora um dos piores reis, e queremos crer que, no cativeiro, se arrependeu do mal que praticara aos olhos do Senhor, como Manassés fizera, e que lhe foi perdoado. Reconciliado com Deus, poderia realmente dizer-se que morreu em paz. Repare: Uma pessoa pode morrer numa prisão e, ainda assim, morrer em paz.
Ou melhor: encerrará seus dias com certa reputação, mais do que se esperaria à vista de tudo. Será sepultado com as queimas fúnebres que se fizeram por seus pais, isto é, com o respeito habitualmente demonstrado a seus reis, sobretudo aos que haviam feito o bem em Israel.
Parece que, no cativeiro, comportou-se tão bem para com seu próprio povo que este quis prestar-lhe tal honra; e tão bem para com Nabucodonosor que ele permitiu que a homenagem fosse feita.
Se Zedequias tivesse permanecido próspero, talvez se tornasse pior e, por fim, partisse sem que ninguém sentisse sua falta. Suas aflições, porém, produziram nele tal mudança que sua morte foi considerada uma grande perda. É melhor viver e morrer arrependido numa prisão do que viver e morrer impenitente num palácio.
“Eles te lamentarão”, dizendo: “Ah, senhor!” Seu irmão Jeoaquim não recebeu essa honra, Jeremias 22:18.
Os judeus dizem que assim se lamentaram por ele: “Ai! Zedequias morreu, ele que bebeu a borra de todas as épocas anteriores”, ou seja, sofreu pelos pecados de seus antepassados, tendo-se completado em seus dias a medida da iniquidade.
“Assim o lamentarão”, diz o Senhor, “pois eu pronunciei a palavra”; e aquilo que Deus falou se cumprirá sem falta.
III. A fidelidade de Jeremias ao transmitir essa mensagem. Embora soubesse que ela desagradaria ao rei e poderia revelar-se perigosa para ele próprio, como de fato aconteceu, pois por isso foi preso, ainda assim disse todas essas palavras a Zedequias, v. 6.
É misericórdia para com os homens importantes terem ao seu redor pessoas que os tratem com fidelidade e lhes mostrem as consequências más de seus maus caminhos, para que se reformem e vivam.
Versículos 8 a 22
Reforma Passageira; Os Servos Escravizados de Novo. (a.C. 589.)
Temos aqui outra profecia dada numa ocasião particular. Precisamos considerar a história dessa ocasião, pois ela é necessária para esclarecer a profecia.
I. Quando Jerusalém estava cercada de perto pelo exército caldeu, os príncipes e o povo concordaram em reformar um ponto: o tratamento de seus servos:
- A lei de Deus era muito expressa: os de sua própria nação não deviam ser mantidos em servidão por mais de sete anos. Depois de cumprirem um período de aprendizado, seriam dispensados e receberiam liberdade.
Isso valia mesmo que tivessem vendido a si próprios para pagar dívidas ou fossem vendidos pelos juízes como punição por crimes.
Estabelecia-se esta diferença entre seus irmãos e os estrangeiros: pessoas de outras nações, capturadas na guerra ou compradas com dinheiro, podiam ser mantidas em escravidão perpétua, elas e seus descendentes; seus irmãos, porém, deviam servir por sete anos no máximo.
Deus chama essa lei de aliança que fizera com eles quando os tirou da terra do Egito, v. 13, 14. Foi a primeira das leis judiciais que lhes deu (Êxodo 21:2), e havia boa razão para ela:
(1.) Deus honrara aquela nação e queria que eles próprios preservassem assim a honra dela e a distinguissem das outras nações.
(2.) Deus os tirara da escravidão no Egito e queria que demonstrassem gratidão por esse favor libertando aqueles para quem suas casas eram casas de servidão, assim como o Egito fora para seus antepassados. Por isso aquela libertação é mencionada aqui (v. 13) como fundamento da lei.
Repare: A compaixão de Deus por nós deve levar-nos a ter compaixão de nossos irmãos; devemos libertar como fomos libertados, perdoar como fomos perdoados e socorrer como fomos socorridos.
Isso é chamado de aliança porque o cumprimento do dever exigido de nós é a condição para que continuem os favores que Deus concedeu.
- Eles e seus pais haviam transgredido essa lei. Seu lucro material pesava mais para eles do que o mandamento ou a aliança de Deus. Depois de sete anos de serviço, seus servos conheciam o trabalho e sabiam aplicar-se a ele melhor do que quando haviam chegado.
Por isso, seus senhores de modo algum queriam separar-se deles então, embora o próprio Deus os tivesse libertado por sua lei: “Vossos pais não me ouviram” nessa questão (v. 14). Assim, desde os dias de seus pais haviam persistido nessa transgressão.
Pensavam que podiam agir assim porque seus pais o haviam feito, e seus servos, em razão do desuso, haviam perdido o benefício da provisão que Deus lhes dera.
Mas, contra uma lei expressa, sobretudo uma lei expressa de Deus, nenhum costume, uso ou prescrição pode ser admitido como defesa. Por esse pecado deles e de seus pais, Deus agora os submeteu à servidão, e com justiça.
- Quando o exército caldeu os sitiou e encerrou de perto na cidade, foram advertidos de sua falta nesse ponto.
Reformaram-se imediatamente e libertaram todos os servos que tinham direito à liberdade pela lei de Deus, como Faraó, que, enquanto a praga o atingia, consentiu em deixar o povo partir. E firmaram uma aliança obrigando-se a fazê-lo.
(1.) Os profetas os advertiram fielmente de seu pecado. Deles ouviram que deviam libertar seus servos hebreus, v. 10. Poderiam ter lido isso por si mesmos no livro da lei, mas não o fizeram, ou não lhe deram atenção; por isso os profetas lhes disseram o que a lei ordenava.
Veja como é necessária a pregação da palavra: as pessoas precisam ouvir a palavra pregada porque não fazem da palavra escrita o uso que deveriam.
(2.) Todas as classes e posições sociais se uniram nessa reforma. O rei, os príncipes e todo o povo concordaram em libertar seus servos, qualquer que fosse a perda ou o prejuízo que sofressem com isso.
Quando o rei e os príncipes deram o exemplo nessa boa obra, o povo, por vergonha, não pôde deixar de segui-los. O exemplo e a influência dos homens importantes contribuiriam muito para extirpar as corrupções mais arraigadas.
(3.) Obrigaram-se por juramento e aliança solenes a agir assim, comprometendo-se com Deus e uns com os outros. Repare: Ao que Deus nos obriga por seu mandamento, é bom que também nos obriguemos por nossa promessa.
Essa aliança foi muito solene: fez-se num lugar sagrado, “diante de mim, na casa que se chama pelo meu nome” (v. 15), na presença especial de Deus. Os sinais dessa presença no templo deviam enchê-los de reverência e torná-los muito sinceros ao apelar a ele.
A aliança foi confirmada por um sinal significativo: cortaram um bezerro ao meio e passaram entre suas partes (v. 18, 19) com esta terrível imprecação: “Se não cumprirmos o que agora prometemos, que sejamos cortados do mesmo modo.”
Provavelmente o bezerro foi oferecido em sacrifício a Deus, que assim se tornou parte da aliança. Quando Deus firmou aliança com Abraão, uma fornalha fumegante e uma tocha de fogo passaram entre os pedaços do sacrifício para confirmá-la, em alusão a esse rito de aliança, Gênesis 15:17.
Repare: Para nos obrigarmos eficazmente ao dever, é bom despertarmos em nós a consciência do terror da cólera e da maldição a que nos expomos se vivermos desprezando-o, essa cólera que cortará os pecadores ao meio (Mateus 24:51).
Sinais perceptíveis podem ajudar a tornar profunda e duradoura essa impressão, como ocorreu aqui.
(4.) Nisso se conformaram ao mandamento de Deus e à aliança com ele: realmente libertaram seus servos, embora naquele momento, com a cidade sitiada, fosse muito difícil dispensá-los.
Assim fizeram o que era reto aos olhos de Deus, v. 15. Embora a tribulação os tivesse levado a isso, ele se agradou do que fizeram. Se houvessem perseverado nesse ato de misericórdia para com os pobres, seus pobres servos, talvez sua tranquilidade tivesse sido prolongada, Daniel 4:27.
II. Quando surgiu alguma esperança de que o cerco fora levantado e o perigo havia passado, arrependeram-se de seu arrependimento, desfizeram o bem que tinham feito e forçaram os servos libertados a voltar aos serviços anteriores:
- O exército do rei da Babilônia se havia afastado deles, v. 21. Faraó trazia um exército de egípcios para se opor ao avanço das vitórias do rei da Babilônia. Ao saber disso, os caldeus levantaram o cerco por algum tempo, como vemos em Jeremias 37:5, e se afastaram de Jerusalém.
Veja como Deus estava pronto a deter seus juízos ao primeiro sinal de reforma, tão tardio para irar-se e tão rápido para mostrar misericórdia. Assim que libertaram seus servos, Deus os libertou.
- Quando começaram a julgar-se seguros contra os sitiantes, fizeram seus servos voltar à sujeição, v. 11 e novamente v. 16. Foi grande abuso contra esses servos, para quem a servidão seria ainda mais penosa depois de experimentarem um pouco dos prazeres da liberdade.
Foi grande vergonha para eles próprios não conseguirem conservar uma boa disposição quando a haviam alcançado. Acima de tudo, porém, foi uma afronta a Deus: ao agir assim, profanaram seu nome, v. 16.
Desprezaram o mandamento que Deus lhes dera, como se ele não tivesse força alguma e pudessem obedecer-lhe ou transgredi-lo conforme quisessem.
Desprezaram a aliança que haviam feito com ele e a cólera que haviam invocado contra si mesmos caso a quebrassem. Zombavam do Deus Todo-Poderoso, como se pudessem iludi-lo com promessas enganosas e, depois de conseguir o que queriam, não se considerassem mais obrigados por elas.
Mentiam a Deus com a boca e o lisonjeavam com a língua. Desprezavam também os juízos de Deus e os desafiavam, como se, uma vez detidos e interrompidos por algum tempo, nunca mais prosseguissem nem voltassem a ocorrer.
Mas as suspensões de pena estão tão longe de ser perdões que, se forem abusadas desse modo e os pecadores se valerem delas para voltar ao pecado, serão apenas preparação para golpes ainda mais pesados da vingança divina.
III. Por essa deslealdade para com Deus, são aqui severamente ameaçados. Não se enganem: de Deus não se zomba.
Aqueles que pensam iludir Deus com arrependimento fingido, aliança enganosa e reforma parcial e temporária descobrirão, no fim, que enganaram sobretudo suas próprias almas; pois o Senhor, cujo nome é Zeloso, é Deus zeloso.
Aqui são ameaçados, com um notável tom de desagrado contra eles:
- Uma vez que não deram a seus servos liberdade para ir aonde quisessem, Deus daria plena liberdade a todos os seus juízos para seguirem contra eles sem impedimento (v. 17): “Não proclamastes liberdade” a vossos servos.
Embora o tivessem feito (v. 10), podia-se dizer com verdade que não o fizeram, pois não sustentaram a decisão e a desfizeram: factum non dicitur quod non perseverat — não se considera feito aquilo que não permanece.
A justiça abandonada, da qual alguém se desvia, será esquecida e não voltará a ser mencionada, como se nunca tivesse existido, Ezequiel 18:24.
“Portanto, proclamarei liberdade para vós: eu vos dispensarei de meu serviço e vos retirarei de minha proteção, que perdem aqueles que deixam de me ser leais. Tereis liberdade de escolher por qual destes juízos sereis abatidos: espada, fome ou peste.”
Tal foi a liberdade oferecida a Davi, que o colocou em grande aperto, 2 Samuel 24:14. Repare: Os que não se sujeitam à lei de Deus sujeitam-se à sua cólera e maldição. Isso mostra, porém, o que realmente é a liberdade para pecar: apenas liberdade para os juízos mais severos.
Uma vez que haviam obrigado os servos a voltar ao confinamento em suas casas, Deus os faria ser levados a todos os reinos da terra, onde viveriam em servidão e, como estrangeiros, não poderiam esperar os privilégios de cidadãos nascidos livres.
Uma vez que haviam quebrado a aliança confirmada por uma imprecação solene, Deus traria sobre eles o mal que invocaram contra si mesmos caso a quebrassem.
Pela boca deles mesmos Deus os julgaria, e assim seria sua condenação; a penalidade da aliança seria cobrada porque não cumpriram sua condição. Alguns, por isso, leem assim o v. 18: “Farei dos homens que transgrediram minha aliança como o bezerro que cortaram ao meio; dividirei esses homens como eles o dividiram.”
- Uma vez que não quiseram soltar seus servos de suas mãos, Deus entregaria às mãos dos que os odiavam os próprios príncipes e nobres tanto de Judá quanto de Jerusalém, do campo e da cidade, os eunucos, camareiros ou grandes oficiais da corte, os sacerdotes e todo o povo, v. 19.
Todos haviam agido com deslealdade para com Deus e, portanto, todos sem exceção participariam da ruína comum. Seriam entregues às mãos de seus inimigos, que buscavam não só seus bens ou seus serviços, mas também sua vida, e obteriam o que buscavam.
Mas nem isso os satisfaria: depois de lhes tirarem a vida, deixariam seus cadáveres insepultos, espetáculo repugnante para toda a humanidade e presa fácil de aves e feras. Assim ficaria sobre eles uma marca duradoura de ignomínia, v. 20.
- Uma vez que a retirada do exército caldeu os animara a voltar ao pecado, contrariando sua aliança, Deus traria novamente esse exército contra eles:
“Agora se afastaram de vós, e por enquanto vosso medo passou; mas eu lhes ordenarei que deem meia-volta. Retornarão a esta cidade, tomarão a cidade e a queimarão”, v. 22. Repare:
(1.) Assim como a confiança em Deus é sinal esperançoso de uma libertação que se aproxima, a segurança no pecado é triste presságio da destruição que se aproxima.
(2.) Quando os juízos se afastam de um povo antes de cumprirem sua obra, deixam-no, mas deixam-no sem se humilhar nem se reformar; é cum animo revertendi — com a intenção de voltar. Recuam apenas para atacar de novo com força ainda maior, pois, quando Deus julga, ele vencerá.
(3.) É justo que Deus frustre as expectativas de misericórdia que sua providência nos deu motivo para ter quando frustramos as expectativas de obediência que nossas declarações, alegações e belas promessas haviam criado.
Se nos arrependermos do bem que havíamos planejado, Deus se arrependerá do bem que havia planejado. “Com o perverso, tu te mostrarás perverso.”