Matthew Henry

Jeremias 32

Argumento

Neste capítulo temos:

I. Jeremias preso por predizer a destruição de Jerusalém e o cativeiro do rei Zedequias, vv. 1-5.

II. A compra de um campo por Jeremias, por ordem divina, como garantia de que, no tempo devido, as aflições presentes teriam um desfecho feliz, vv. 6-15.

III. A oração que ele dirigiu a Deus nessa ocasião, vv. 16-25.

IV. Uma mensagem que, em seguida, Deus lhe confiou para transmitir ao povo:

  1. Ele deve predizer a destruição completa de Judá e Jerusalém por causa dos pecados deles, vv. 26-35.

Mas, 2. Ao mesmo tempo, deve lhes assegurar que, embora a destruição seja total, não será definitiva: por fim, seus descendentes recuperarão a posse pacífica da própria terra, vv. 36-44.

As predições deste capítulo, tanto ameaças quanto promessas, são muito semelhantes às que já encontramos repetidas vezes; mas aqui há algumas circunstâncias bem particulares e notáveis.

Versículos 1 a 15

Juízos Preditos; Jeremias Preso. (a.C. 589.)

Pela data deste capítulo, parece que estamos chegando muito perto do ano fatal em que os caldeus consumaram a devastação de Judá e Jerusalém. Os juízos de Deus vieram gradualmente sobre eles; mas, como não se voltaram a ele com arrependimento no caminho de seus juízos, Deus prosseguiu em sua contenda até que tudo ficou devastado.

Isso ocorreu no décimo primeiro ano de Zedequias; o que se registra aqui aconteceu no décimo. O exército do rei da Babilônia já havia cercado Jerusalém e conduzia o cerco com vigor, sem duvidar de que em pouco tempo tomaria a cidade, enquanto os sitiados haviam decidido desesperadamente não se render, mas resistir até o extremo. Agora:

I. Jeremias profetiza que tanto a cidade quanto a corte cairão nas mãos do rei da Babilônia. Diz expressamente que os sitiantes tomarão a cidade como presa, pois Deus, a quem ela pertencia de modo especial, a entregará nas mãos deles e a retirará de sua proteção (v. 3).

Embora Zedequias tente fugir, será alcançado e entregue como prisioneiro nas mãos de Nabucodonosor. Será levado à presença dele, para sua grande confusão e terror, pois se expôs à sua ira ao quebrar a palavra que lhe dera. Ouvirá o rei da Babilônia pronunciar sua condenação e verá com que fúria e indignação ele o olhará: “Seus olhos contemplarão os olhos dele” (v. 4).

Zedequias será levado para a Babilônia e permanecerá ali como cativo miserável até que Deus o visite, isto é, até que Deus ponha fim à sua vida por morte natural, assim como Nabucodonosor já havia posto fim a seus dias de luz ao lhe arrancar os olhos.

Repare: pode-se dizer, com toda a verdade, que Deus visita com misericórdia os que vivem em sofrimento quando os leva para junto de si pela morte.

Por fim, Jeremias prediz que todas as tentativas de expulsar os sitiantes de suas trincheiras serão inúteis: “Ainda que vocês combatam os caldeus, não prosperarão”. Como poderiam prosperar, se Deus não lutava por eles? V. 5. Veja Jeremias 34:2, 3.

II. Por profetizar assim, ele é preso, não na cadeia comum, mas numa prisão de melhor condição, situada nos limites do palácio, na casa do rei de Judá. Ali não ficava rigorosamente confinado, mas em custodia libera, no pátio da prisão, onde podia ter boa companhia, ar puro e receber notícias, além de ficar protegido dos maus-tratos da multidão.

Ainda assim, era uma prisão, e Zedequias o encerrou nela por profetizar como fazia, v. 2, 3. Longe de se humilhar diante de Jeremias, como devia ter feito (2 Crônicas 36:12), endureceu-se contra ele.

Embora antes o tivesse reconhecido como profeta a ponto de lhe pedir que consultasse o Senhor em favor deles (Jeremias 21:2), agora o repreende por profetizar (v. 3) e o encerra na prisão. Talvez não pretendesse castigá-lo mais, mas apenas impedi-lo de continuar profetizando, o que já era crime suficiente.

Silenciar os profetas de Deus, embora não seja tão ruim quanto zombar deles e matá-los, ainda é uma grande afronta ao Deus do céu. Veja como o engano do pecado endurece miseravelmente o coração dos pecadores.

A perseguição era um dos pecados pelos quais Deus então contendia com eles; ainda assim, Zedequias persistia nela até mesmo quando se encontrava no auge da angústia. Nenhuma providência nem aflição, por si só, separará as pessoas de seus pecados, a menos que a graça de Deus aja por meio delas. Ou melhor, alguns se tornam piores por causa dos mesmos juízos que deveriam torná-los melhores.

III. Estando preso, Jeremias compra de um parente próximo um terreno em Anatote, v. 6, 7, etc.

  1. Ninguém esperaria:

(1.) Que um profeta se envolvesse tanto nos negócios deste mundo. Mas por que não? Embora os ministros não devam se embaraçar, podem cuidar das questões desta vida.

(2.) Que alguém sem mulher nem filhos comprasse terra. Sabemos (Jeremias 16:2) que ele não tinha família própria; ainda assim, podia comprar para uso pessoal enquanto vivesse e deixá-la aos filhos de seus parentes quando morresse.

(3.) Poucos imaginariam que um prisioneiro pudesse ser comprador. Como teria conseguido guardar dinheiro para comprar terras?

É provável que vivesse com economia e tivesse poupado algo do que lhe cabia como sacerdote, o que não mancha em nada seu caráter. Mas não temos motivo para pensar que o povo fosse generoso com ele nem que a poupança resultasse da generosidade deles.

Antes, (4.) O mais estranho de tudo era comprar um terreno sabendo que toda a terra estava prestes a ser devastada e a cair nas mãos dos caldeus. Que proveito isso lhe traria? Mas era a vontade de Deus que ele a comprasse, e Jeremias obedeceu, embora o dinheiro parecesse jogado fora.

Seu parente veio oferecer-lhe a propriedade; ele mesmo não a procurou. Não cobiçou juntar casa a casa e campo a campo, mas a Providência lhe trouxe a oportunidade, e provavelmente era um bom negócio. Além disso, cabia-lhe o direito de resgate (v. 8) e, se recusasse, deixaria de cumprir seu papel de parente.

É verdade que podia recusar legalmente; mas, sendo profeta, numa questão dessa natureza devia fazer o que honrasse sua vocação. Convinha-lhe cumprir toda a justiça.

O terreno ficava nos arredores de uma cidade sacerdotal. Se Jeremias o recusasse, havia o perigo de que, nesses tempos de desordem, fosse vendido a alguém de outra tribo, contra a lei. Para evitar isso, convinha que o comprasse. Seria também uma bondade para com seu parente, que provavelmente precisava muito de dinheiro naquela ocasião.

Jeremias tinha pouco, mas estava disposto a gastar o que possuía da maneira que mais contribuísse para a honra de Deus e para o bem dos amigos e da pátria, que ele preferia aos próprios interesses.

  1. Duas coisas podem ser observadas acerca desta compra:

(1.) A lisura com que o negócio foi feito. Quando a chegada de Hanameel, conforme Deus predissera, mostrou a Jeremias que aquela era a palavra do Senhor e que ele queria que fizesse a compra, Jeremias não criou mais dificuldades: comprou o campo.

[1.] Foi muito honesto e cuidadoso ao pagar. Pesou o dinheiro para o parente; embora fossem parentes próximos, não insistiu em que este aceitasse sua palavra, mas lhe pesou o dinheiro corrente. Eram dezessete siclos de prata, equivalentes a cerca de quarenta xelins da nossa moeda.

O terreno provavelmente era pequeno e de pouco rendimento anual, pois o preço foi baixo. Além disso, o direito à herança pertencia a Jeremias, de modo que ele precisava apenas comprar a parte vitalícia de seu parente, pois já tinha o direito à posse futura.

Alguns pensam que a quantia era apenas o sinal de um valor maior. Mas o preço baixo não nos surpreenderá se considerarmos a escassez de dinheiro naquele tempo e o pouco valor atribuído às terras.

[2.] Foi muito prudente e criterioso ao guardar os documentos. Eles foram assinados perante testemunhas. Uma cópia foi selada, e a outra ficou aberta. Uma era o original, e a outra, a segunda via; ou talvez a selada fosse para seu uso particular, enquanto a aberta seria depositada no registro público de transferências, para consulta de qualquer interessado.

O devido cuidado e a cautela em questões assim podem evitar muita injustiça e contenda. As escrituras de compra foram entregues a Baruque perante testemunhas, e ele recebeu ordem de guardá-las num vaso de barro, símbolo da natureza de todas as garantias que este mundo pretende nos dar: coisas frágeis, que logo se quebram.

Ali deveriam permanecer muitos dias, para uso dos herdeiros de Jeremias depois do retorno do cativeiro, pois então poderiam aproveitar a compra. Adquirir direitos futuros pode ser uma bondade para com os que vêm depois de nós; assim, o homem bom acumula uma herança para os filhos de seus filhos.

(2.) O propósito desse negócio. Era mostrar que, embora Jerusalém estivesse sitiada e todo o país provavelmente fosse devastado, chegaria o tempo em que casas, campos e vinhas voltariam a ser possuídos naquela terra, v. 15.

Assim como Deus mandara Jeremias confirmar suas predições da destruição próxima de Jerusalém com a própria conduta, vivendo sem se casar, agora lhe mandava confirmar suas predições da restauração futura de Jerusalém com a própria conduta, comprando o campo.

Repare: os ministros devem mostrar em toda a sua conduta que eles próprios creem no que pregam aos outros. Para isso, e para gravar a mensagem mais profundamente nos ouvintes, muitas vezes precisam negar a si mesmos, como Jeremias fez nos dois casos.

Como Deus prometera que esta terra voltaria a pertencer a seu povo, Jeremias, em favor dos herdeiros, reivindicou uma parte. Repare: é bom administrar até mesmo nossos assuntos terrenos com fé e tratar dos negócios comuns de olho na providência e na promessa de Deus.

Lúcio Floro relata como grande exemplo de coragem dos cidadãos romanos que, durante a segunda guerra púnica, quando Aníbal sitiava Roma e estava muito perto de tomá-la, um campo ocupado por parte de seu exército foi posto à venda e imediatamente comprado, na firme convicção de que a coragem romana levantaria o cerco, livro II, capítulo 6.

E nós não temos razão muito maior para arriscar tudo na palavra de Deus e nos comprometer com os interesses de Sião, que sem dúvida acabarão prevalecendo? Non si male nunc et olim sic erit: embora agora soframos, não sofreremos para sempre.

Versículos 16 a 25

A Oração de Jeremias. (a.C. 589.)

Temos aqui a oração de Jeremias a Deus por ocasião do que Deus lhe revelara sobre seus propósitos para aquela nação: derrubá-la e, com o tempo, reconstruí-la. Isso deixava perplexo o próprio profeta. Embora transmitisse fielmente suas mensagens, ao refletir sobre elas ficava sem saber como conciliá-las.

Nessa perplexidade, derramou sua alma diante de Deus em oração e encontrou alívio. O que o inquietava não era o negócio ruim que parecia ter feito ao comprar um campo do qual provavelmente não tiraria proveito, mas a situação de seu povo, por quem continuava a interceder com bondade e fidelidade.

Jeremias queria esperar que, se Deus lhes reservava no futuro tanta misericórdia quanto prometera, agora não agiria contra eles com tanta severidade quanto ameaçara. Antes de orar, entregou a Baruque as escrituras de sua nova compra. Isso pode nos ensinar que, quando vamos adorar a Deus, devemos livrar a mente, tanto quanto possível, dos cuidados e embaraços deste mundo.

Jeremias estava preso, aflito e sem compreender o sentido das providências de Deus; então orou. Repare: a oração é bálsamo para toda ferida. Qualquer que seja o peso que nos aflige, podemos lançá-lo sobre o Senhor pela oração e assim encontrar alívio.

Nesta oração, ou meditação:

I. Jeremias adora a Deus e suas perfeições infinitas, dando-lhe a glória devida a seu nome como Criador, sustentador e benfeitor de toda a criação. Reconhece assim seu poder irresistível, pelo qual pode fazer o que quiser, e sua soberania incontestável, pela qual lhe é lícito fazer o que quiser, vv. 17-19.

Repare: quando ficamos perplexos com os métodos e os atos particulares da Providência, é bom voltar aos primeiros princípios e encontrar segurança nas doutrinas gerais da sabedoria, do poder e da bondade de Deus. Consideremos, como Jeremias faz aqui:

  1. Que Deus é a fonte de todo ser, poder, vida, movimento e perfeição: ele fez os céus e a terra com seu braço estendido. Portanto, quem pode controlá-lo? Quem ousa contender com ele?

  2. Que nada lhe é impossível e nenhuma dificuldade é insuperável: “Nada é difícil demais para ti”. Quando a habilidade e o poder humanos ficam sem recursos, Deus tem força e sabedoria suficientes para vencer toda oposição.

  3. Que ele é um Deus de misericórdia ilimitada e insondável. A misericórdia é seu atributo predileto, e sua bondade é sua glória: “Tu não és apenas bondoso; também mostras tua bondade amorosa, não a alguns poucos, a uma pessoa aqui e outra ali, mas a milhares, milhares de pessoas e milhares de gerações”.

  4. Que ele é um Deus de justiça imparcial e inflexível. Suspender a pena não é perdoar. Se, por misericórdia, poupa os pais para levá-los ao arrependimento, ainda assim odeia tanto o pecado e se desagrada tanto dos pecadores que faz recair a iniquidade deles sobre seus filhos, sem lhes cometer injustiça. Tão odiosa é a injustiça humana e tão zelosa de sua própria honra é a justiça de Deus.

  5. Que ele é um Deus de domínio e autoridade universais: é o grande Deus porque é o Deus poderoso, e entre os homens o poder os torna grandes. Ele é o Senhor dos Exércitos, de todos os exércitos: esse é seu nome, e ele corresponde a esse nome, pois todos os exércitos do céu e da terra, de homens e anjos, obedecem ao seu chamado.

  6. Que ele planeja tudo da melhor maneira e realiza tudo conforme planejou: é grande em conselho, tão amplo é o alcance e tão profundos são os desígnios de sua sabedoria; e é poderoso em ação, segundo o conselho de sua vontade. Com um Deus assim não se deve brigar. Devemos permanecer constantes em seu serviço e aceitar de bom grado tudo o que sua providência dispõe.

II. Ele reconhece que Deus conhece todos os atos dos filhos dos homens e os julga sem erro (v. 19): os olhos de Deus estão abertos sobre todos os filhos dos homens, onde quer que estejam, observando o mal e o bem e todos os seus caminhos, tanto a direção que seguem quanto cada passo que dão.

Deus os observa não como espectador indiferente, mas como juiz atento, para “dar a cada um conforme seus caminhos” e conforme o que merece, fruto de suas ações; pois os homens acharão que Deus os trata conforme os encontra.

III. Ele recorda as grandes coisas que Deus fez no passado por seu povo Israel:

  1. Tirou-os do Egito, daquela casa de servidão, com sinais e maravilhas que permanecem, se não em seus vestígios, ao menos em sua memória, até hoje. Isso jamais seria esquecido, não só em Israel, que a celebração anual da Páscoa fazia lembrar, mas também entre os outros povos.

Todas as nações vizinhas falavam desse acontecimento, que muito contribuiu para a glória do Deus de Israel e lhe deu um nome que permanece até hoje.

Repete-se (v. 21) que Deus os tirou de lá trazendo-lhes não apenas consolo e alegria, mas também glória para si, com sinais e maravilhas, como testemunham as dez pragas; com mão forte, mais forte que os próprios egípcios; com braço estendido, que alcançou até o orgulhoso Faraó; e com grande terror para eles e para todos ao redor. Isso parece remeter a Deuteronômio 4:34.

  1. Levou-os a Canaã, aquela boa terra que mana leite e mel. Jurou a seus pais que lhes daria a terra e, para cumprir o juramento, deu-a aos filhos (v. 22); eles entraram nela e a possuíram.

Jeremias menciona isso tanto para agravar o pecado e a desobediência deles quanto para apelar a Deus por sua libertação. Repare: é bom refletir muitas vezes sobre as grandes coisas que Deus fez no passado por sua igreja, sobretudo em sua fundação, uma obra maravilhosa.

IV. Ele lamenta as rebeliões que cometeram contra Deus e os juízos que Deus trouxe sobre eles por essas rebeliões. O relato que faz da conduta ingrata daquele povo para com Deus é triste. Deus fizera tudo o que prometera, como eles reconheceram (1 Reis 8:56), mas eles não fizeram nada do que lhes ordenara (v. 23).

Não se preocupavam em obedecer a nenhuma de suas leis nem davam atenção a nenhum de seus apelos por meio dos profetas, pois não obedeciam à sua voz. Por isso, Jeremias reconhece que Deus agiu justamente ao trazer sobre eles todo esse mal.

A cidade está sitiada, atacada de fora pela espada, enfraquecida e consumida por dentro pela fome e pela peste. Assim, está prestes a cair nas mãos dos caldeus que lutam contra ela (v. 24); já foi entregue às mãos deles, v. 25.

Agora, 1. Ele compara a situação atual de Jerusalém com as predições divinas e vê que aquilo que Deus falou aconteceu. Deus os havia advertido claramente. Se tivessem dado atenção ao aviso, a ruína teria sido evitada. Mas, se não querem fazer o que Deus ordenou, não podem esperar outra coisa senão que ele faça o que ameaçou.

  1. Ele entrega a situação atual de Jerusalém à consideração e compaixão divinas (v. 24): “Olha os aterros”, ou rampas, ou máquinas usadas para atacar a cidade e derrubar suas muralhas.

E mais uma vez: “Olha, tu o vês e tomas conhecimento disso. É esta a cidade que escolheste para nela pôr teu nome? E será assim abandonada?” Jeremias não se queixa de Deus pelo que fez nem lhe prescreve o que deve fazer; apenas deseja que olhe para a situação deles e encontra consolo em saber que ele a vê.

Seja qual for a aflição que enfrentamos, pessoal ou coletiva, podemos nos consolar com isto: Deus a vê e sabe como remediá-la.

V. Jeremias parece desejar compreender melhor o significado da ordem que Deus acabara de lhe dar para comprar o campo de seu parente (v. 25): “Embora a cidade tenha sido entregue nas mãos dos caldeus, e ninguém provavelmente desfrute do que possui, tu me disseste: Compra o campo”.

Assim que entendeu ser essa a vontade de Deus, obedeceu sem fazer objeções; não desobedeceu à visão celestial. Mas, depois de cumprir a ordem, desejou entender melhor por que Deus a dera, pois o ato parecia estranho e inexplicável.

Repare: embora devamos seguir a Deus mesmo sem compreender plenamente suas ordens, devemos procurar que ela seja cada vez mais esclarecida. Nunca devemos discutir os estatutos e juízos de Deus, mas podemos e devemos perguntar: “Que significam estes estatutos e juízos?” Deuteronômio 6:20.

Versículos 26 a 44

Juízos Preditos; Restauração dos Judeus; Promessas Animadoras. (a.C. 589.)

Temos aqui a resposta de Deus à oração de Jeremias, destinada a tranquilizá-lo e dar-lhe paz. É uma revelação completa dos propósitos de sua ira contra a geração presente e dos propósitos de sua graça para com as gerações futuras. Jeremias não sabia como cantar tanto a misericórdia quanto o juízo, mas Deus aqui o ensina a cantar-lhe sobre ambos.

Quando não sabemos conciliar uma palavra de Deus com outra, podemos estar certos de que ambas são verdadeiras, puras e se cumprirão; nem um jota ou um til de qualquer delas cairá por terra.

Quando recebeu ordem de comprar o campo em Anatote, Jeremias quis esperar que Deus estivesse prestes a revogar a sentença de sua ira e a mandar os caldeus levantar o cerco. “Não”, diz Deus, “a execução da sentença prosseguirá; Jerusalém ficará em ruínas”. Repare: as garantias de misericórdia futura não devem ser entendidas como proteção contra as aflições presentes.

Mas, para que Jeremias não pensasse que a ordem de comprar o campo significava que toda a misericórdia reservada por Deus para seu povo, depois do retorno, se limitava a recuperarem a posse da terra, Deus lhe revela que aquilo era apenas figura das bênçãos espirituais que então lhes seriam concedidas em abundância, de valor incomparavelmente maior que campos e vinhas.

Assim, nesta palavra do Senhor a Jeremias temos, primeiro, ameaças tão terríveis e, depois, promessas tão preciosas quanto talvez quaisquer outras do Antigo Testamento. Vida e morte, bem e mal, são postos aqui diante de nós; consideremos e escolhamos com sabedoria.

I. A ruína de Judá e Jerusalém é aqui pronunciada. O decreto foi promulgado e não será revogado:

  1. Deus afirma sua soberania e seu poder (v. 27): “Eis que eu sou Jeová”, um ser que existe por si mesmo e basta a si mesmo; “Eu sou o que sou”; “Eu sou o Deus de toda carne”, isto é, de toda a humanidade. Aqui os homens são chamados carne por serem fracos e incapazes de contender com Deus (Salmos 56:4), e por serem perversos, corruptos e pouco inclinados a obedecer-lhe.

Deus é o Criador de todos e usa cada um como lhe agrada. Aquele que é Deus de Israel é Deus de toda carne e dos espíritos de toda carne; se Israel fosse rejeitado, poderia levantar de outra nação um povo para seu nome.

Se é o Deus de toda carne, pode muito bem perguntar: “Há alguma coisa difícil demais para mim?” O que não pode fazer aquele de quem procedem todos os poderes humanos, de quem dependem os homens e por quem todas as suas ações são dirigidas e governadas? Nada pode impedi-lo de realizar o que planeja, seja em ira, seja em misericórdia, nem frustrar seus desígnios.

  1. Ele mantém o que tantas vezes dissera sobre a destruição de Jerusalém pelo rei da Babilônia (v. 28): entregará esta cidade nas mãos dele. Agora que ele estende a mão para tomá-la, ele a conquistará e fará dela sua presa, v. 29. Os caldeus virão e lhe atearão fogo, queimando-a com todas as suas casas, sem poupar nem a casa de Deus nem a do rei.

  2. Ele apresenta a razão desse tratamento severo da cidade que tanto desfrutara de seu favor. É o pecado, e somente ele, que a arruína:

(1.) Eles pecavam com insolência e ousadia. Ofereciam incenso a Baal não às escondidas, como pessoas envergonhadas ou temerosas de serem descobertas, mas no alto de suas casas (v. 29), desafiando a justiça de Deus.

(2.) Pretendiam afrontar a Deus com isso. Faziam-no “para me provocar à ira”, v. 29. Apenas provocaram a ira de Deus com as obras de suas mãos, v. 30. Não podiam esperar disso prazer, proveito nem honra; faziam-no de propósito para ofender a Deus. E de novo (v. 32): todo o mal que fizeram foi para provocar sua ira.

Sabiam que ele era um Deus zeloso no que dizia respeito ao culto e resolveram pôr seu zelo à prova, desafiando-o em sua presença. “Jerusalém tem sido para mim uma provocação de minha ira e de meu furor”, v. 31. Toda a conduta deles o provocava.

(3.) Começaram cedo e continuaram o tempo todo a provocar a Deus: “Fizeram o mal diante de mim desde sua juventude”, desde que se tornaram um povo (v. 30), como mostram suas murmurações e rebeliões no deserto.

Quanto a Jerusalém, embora fosse a cidade santa, ela tem provocado o Deus santo desde o dia em que a construíram até hoje, v. 31. Ah, que motivo temos para lamentar a pouca honra que Deus recebe deste mundo e a grande desonra que lhe fazem!

Até em Judá, onde ele é conhecido e seu nome é grande, e em Salém, onde está seu tabernáculo, sempre se encontrou algo que o provocasse.

(4.) Todas as classes e posições sociais contribuíram para a culpa comum e, por isso, foram justamente envolvidas na ruína comum. Não só os filhos de Israel, que haviam abandonado o templo, mas também os de Judá, que ainda lhe permaneciam ligados.

Não só o povo comum, os homens de Judá e os habitantes de Jerusalém, mas também os que deviam censurar e refrear o pecado alheio eram líderes do pecado: seus reis e príncipes, seus sacerdotes e profetas.

(5.) Deus os chamara repetidas vezes ao arrependimento, mas fecharam os ouvidos e deram grosseiramente as costas àquele que os chamava, embora fosse seu senhor, a quem deviam obediência, e seu benfeitor, a quem estavam ligados pela gratidão e pelo próprio interesse, v. 33.

“Ensinei-lhes a agir melhor com tanto cuidado quanto um pai amoroso jamais dedicou a um filho. Levantei-me cedo para ensiná-los, procurei adaptar o ensino à sua capacidade e comecei cedo, quando estavam mais dispostos a aprender. Mas tudo em vão: não voltaram o rosto para mim, nem sequer quiseram olhar-me; antes, viraram-me as costas”, expressão do mais profundo desprezo.

À medida que ele os chamava, afastavam-se dele como filhos rebeldes, Oseias 11:2. “Não deram ouvidos para receber instrução”; não prestaram atenção a nenhuma palavra que lhes foi dita, embora fosse para seu próprio bem.

(6.) Havia em sua idolatria um desprezo ímpio por Deus, pois (v. 34) puseram suas abominações, os ídolos que sabiam ser extremamente detestáveis para ele, “na casa que é chamada pelo meu nome, para contaminá-la”. Seus ídolos não estavam apenas nos lugares altos e nos bosques, mas no próprio templo de Deus.

(7.) Foram culpados da mais desumana crueldade contra os próprios filhos, pois os sacrificaram a Moloque, v. 35. Como não quiseram conservar o conhecimento de Deus e trocaram sua glória por vergonha, foram justamente entregues a paixões vis e privados dos afetos naturais; sua glória se transformou em vergonha.

(8.) Qual foi a consequência de tudo isso?

[1.] Fizeram Judá pecar, v. 35. O país inteiro foi infectado pelas idolatrias e iniquidades contagiosas de Jerusalém.

[2.] Trouxeram ruína sobre si mesmos. Foi como se tivessem agido de propósito para que Deus os afastasse de sua presença (v. 31); lançaram-se para fora de seu favor.

II. A restauração de Judá e Jerusalém é aqui prometida, v. 36 e seguintes. No juízo, Deus se lembrará da misericórdia, e chegará o tempo determinado para favorecer Sião. Observe:

  1. O desespero a que esse povo chegou por fim. Quando o juízo era anunciado de longe, não sentiam medo; quando os atingiu, já não tinham esperança. Diziam a respeito da cidade (v. 36): “Será entregue nas mãos do rei da Babilônia”, não por covardia ou má condução nossa, mas pela espada, pela fome e pela peste.

Quanto ao país, diziam com aflição (v. 43): “Está desolado, sem homens nem animais”; não há socorro nem remédio. “Foi entregue nas mãos dos caldeus.” Repare: a profunda falsa segurança costuma terminar em profundo desespero; já os que conservam sempre o santo temor têm boa esperança para sustentá-los nos piores tempos.

  1. A esperança que Deus lhes dá da misericórdia reservada para o futuro. Embora seus cadáveres tenham de cair no cativeiro, seus filhos voltarão a ver essa boa terra e a bondade de Deus nela:

(1.) Serão trazidos de volta do cativeiro e se estabelecerão novamente nessa terra, v. 37. Estiveram sob a ira, o furor e a grande cólera de Deus; agora participarão de sua graça, de seu amor e de seu grande favor.

Ele os dispersara e expulsara para todos os países. Os que fugiram se dispersaram por conta própria; os que caíram nas mãos dos inimigos foram dispersos por eles, por estratégia, para impedir que se organizassem. A mão de Deus estava nas duas coisas.

Mas agora Deus os encontrará e reunirá de todos os países para onde foram levados, conforme prometeu na lei (Deuteronômio 30:3, 4) e os santos pediram em oração, Salmos 106:47; Neemias 1:9. Ele os banira, mas os trará de volta a este lugar, pelo qual não podiam deixar de ter afeto.

Durante muitos anos, mesmo em sua terra, ficaram continuamente expostos e amedrontados pelos alarmes da guerra. Mas agora: “Farei que habitem em segurança”. Reformados e de volta a Deus, nem a própria consciência, por dentro, nem os inimigos, por fora, lhes causarão terror.

Ele promete (v. 41): “Eu os plantarei nesta terra com toda a certeza”. Não apenas o fará certamente; também lhes dará ali santa segurança e descanso. Criarão raízes, serão plantados com firmeza e não voltarão a ser arrancados e abalados.

(2.) Deus renovará com eles sua aliança, uma aliança de graça cujas bênçãos são espirituais e produzirão neles coisas boas, preparando-os para as grandes coisas que Deus pretende fazer-lhes.

É chamada “aliança eterna” (v. 40), não apenas porque Deus lhe será fiel para sempre, mas porque seus efeitos durarão para sempre. Sem dúvida, essas promessas vão além do Israel segundo a carne e são certas para todos os crentes, para cada verdadeiro israelita.

Os bons cristãos podem aplicá-las a si mesmos e apresentá-las diante de Deus, reivindicar seus benefícios e receber seu consolo:

[1.] Deus os reconhecerá como seus e lhes dará a si mesmo para ser o Deus deles (v. 38): “Eles serão meu povo”. Ele os fará seus, produzindo neles todas as características e disposições de seu povo; então os protegerá, guiará e governará como seu povo.

“E, para torná-los verdadeiramente, completamente e eternamente felizes, eu serei seu Deus.” Eles o servirão e adorarão como seu Deus, apegar-se-ão somente a ele, e ele se mostrará Deus deles. Tudo o que ele é e tudo o que tem será empenhado e empregado para o bem deles.

[2.] Deus lhes dará um coração para temê-lo, v. 39. O que ele exige daqueles que acolhe em aliança como seu povo é que o temam: reverenciem sua majestade, receiem sua ira, respeitem sua autoridade, prestem-lhe homenagem e lhe deem a glória devida a seu nome.

O que Deus exige deles, promete aqui produzir neles, de acordo com sua escolha deles como povo seu. Repare: assim como é prerrogativa de Deus formar o coração humano, ele também promete ao seu povo formar-lhe o coração corretamente. Um coração que teme a Deus é, de fato, bom e bem formado.

Repete-se (v. 40): “Porei meu temor no coração deles”, isto é, produzirei neles princípios e disposições de graça que influenciarão e governarão toda a sua conduta. Os mestres podem pôr coisas boas em nossa cabeça, mas só Deus pode pô-las em nosso coração e produzir em nós tanto o querer quanto o realizar.

[3.] Ele lhes dará “um coração e um caminho”. Para que andem num só caminho, dar-lhes-á um só coração. Assim como for o coração, será o caminho, e ambos serão um. Isso significa:

Primeiro, cada um deles terá unidade dentro de si. Um só coração equivale a um coração novo, Ezequiel 11:19. O coração é um só quando está plenamente decidido a favor de Deus e inteiramente dedicado a ele.

Quando o olhar é simples e visa somente à glória de Deus, quando nosso coração está firme e confia nele e quando lhe obedecemos de modo uniforme e integral, então o coração e o caminho são um só. Se o coração não for firme assim, os passos não serão constantes.

Dessa promessa podemos receber orientação e ânimo para orar com Davi (Salmos 86:11): “Une meu coração para temer teu nome”, pois Deus diz: “Eu lhes darei um só coração, para que me temam”.

Segundo, todos eles terão unidade uns com os outros. Todos os bons cristãos serão incorporados num só corpo; judeus e gentios se tornarão um só rebanho. Na medida em que forem santificados, todos estarão dispostos a amar uns aos outros, pois o evangelho que professam contém os mais fortes motivos para o amor mútuo, e o Espírito que neles habita é o Espírito do amor.

Embora possam ter opiniões diferentes sobre coisas menores, serão unidos nas grandes coisas de Deus, renovados conforme a mesma imagem. Podem percorrer muitas trilhas, mas têm um só caminho: o da piedade sincera.

[4.] Ele cuidará eficazmente para que perseverem na graça e para que a aliança entre ele e seu povo perdure. Quando foram plantados em Canaã pela primeira vez, teriam sido felizes como Adão no paraíso se não tivessem se afastado de Deus.

Agora que recuperam a felicidade, serão confirmados nela por meio da prevenção de seu afastamento de Deus, e isso completará sua bem-aventurança.

Primeiro, Deus jamais os deixará nem abandonará: “Não deixarei de lhes fazer o bem”. Os príncipes terrenos são inconstantes, e até seus favoritos mais próximos já perderam seu favor; mas a misericórdia de Deus dura para sempre. Aos que ama, ama até o fim.

Deus pode parecer afastar-se deste povo (Isaías 54:8), mas, mesmo então, não deixa de lhes fazer o bem nem de planejar fazê-lo.

Segundo, eles jamais o deixarão nem abandonarão; é esse o perigo que corremos. Não temos motivo para duvidar da fidelidade e constância de Deus, mas temos motivo para duvidar das nossas.

Por isso se promete aqui que Deus lhes dará um coração para temê-lo para sempre, todos os dias, permanecendo em seu temor a cada dia e o dia todo (Provérbios 23:17), até o fim da vida. Ele lhes porá no coração um princípio que os impedirá de se afastar dele.

Mesmo os que dedicaram seu nome a Deus se afastarão dele se forem deixados a si mesmos; mas o temor de Deus governando o coração impedirá esse afastamento. Só ele o fará. Se permanecemos perto de Deus e fiéis a ele, isso se deve inteiramente à sua graça onipotente, não à nossa força nem à nossa resolução.

[5.] Ele estenderá uma bênção aos descendentes deles; dar-lhes-á a graça de temê-lo para o bem deles e de seus filhos depois deles. Assim como seu afastamento de Deus prejudicara os filhos, sua fidelidade a Deus lhes traria benefício.

Não há melhor maneira de olhar pelo bem das gerações futuras do que estabelecer e conservar o temor e o culto de Deus em nossas famílias.

[6.] Ele terá prazer na prosperidade deles e fará tudo para promovê-la (v. 41): “Eu me alegrarei por causa deles, para lhes fazer o bem”. Deus certamente lhes fará o bem porque se alegra com eles. São queridos para ele, que se orgulha deles; por isso não apenas lhes fará o bem, mas se alegrará em fazê-lo.

Quando os castiga, o faz com relutância: “Como te entregaria, Efraim?” Mas, quando os restaura, o faz com satisfação; alegra-se em lhes fazer o bem. Portanto, devemos servi-lo com prazer e alegrar-nos em toda oportunidade de fazê-lo. Ele mesmo dá com alegria e, por isso, ama um servo alegre.

“Eu os plantarei”, diz Deus, “de todo o meu coração e de toda a minha alma”. Ele se dedicará a isso e terá prazer nessa obra. Fará do restabelecimento deles em Canaã o propósito de sua providência, e os diversos atos de sua providência contribuirão para isso.

Por fim, ficará evidente que tudo operou para o bem da igreja, de modo que se dirá: “O Governante do mundo está inteiramente ocupado com o cuidado de sua igreja”.

[7.] Essas promessas se cumprirão com a mesma certeza com que se cumpriram as ameaças anteriores. Apesar da falsa segurança do povo, o cumprimento daquelas ameaças poderia confirmar sua expectativa do cumprimento dessas promessas, apesar do desespero atual (v. 42):

Assim como Deus trouxe sobre eles todo este grande mal, conforme as ameaças e para a glória da justiça divina, também trará sobre eles todo este bem, conforme a promessa e para a glória da misericórdia divina.

Aquele que é fiel às suas ameaças será ainda mais fiel às suas promessas. Consolará seu povo na mesma medida do tempo em que o afligiu. As igrejas descansarão depois dos dias de adversidade.

[8.] Como garantia de tudo isso, casas e terras voltarão a alcançar bom preço em Judá e Jerusalém. Embora agora ninguém as queira, haverá outra vez compradores em número suficiente (v. 43, 44): “Campos serão comprados nesta terra”, e as pessoas desejarão ter terras aqui mais do que em qualquer outro lugar.

As terras serão vendidas em toda parte, não só nos arredores de Jerusalém, mas também nas cidades de Judá e de Israel, quer estejam nos montes, nos vales ou no sul. Em todas as regiões, as pessoas comprarão campos e assinarão escrituras.

O comércio reviverá, pois terão dinheiro suficiente para comprar terras. A agricultura reviverá, pois quem tiver dinheiro desejará aplicá-lo na terra. As leis voltarão a vigorar devidamente, pois as pessoas assinarão e selarão escrituras.

Isso é mencionado para que Jeremias se conforme com sua nova compra. Embora tenha comprado um terreno e não possa ir vê-lo, deve crer que essa compra é o sinal de muitas outras. Todas elas, porém, são apenas imagens tênues das propriedades adquiridas na Canaã celestial, reservadas para os que têm o temor de Deus no coração e não se afastam dele.


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