Matthew Henry

Jeremias 24

Argumento

No fim do capítulo anterior, tivemos uma predição geral da ruína completa de Jerusalém: ela seria abandonada e esquecida. Qualquer que tenha sido o efeito disso sobre os outros, temos razão para pensar que deixou o próprio profeta muito abatido.

Agora, neste capítulo, Deus o anima ao lhe mostrar que, embora a desolação parecesse universal, nem todos estavam igualmente envolvidos nela. Deus sabia distinguir e separar o precioso do vil.

Alguns já tinham ido para o cativeiro com Jeconias. Jeremias lamentava por eles, mas Deus lhe diz que isso resultaria em bem para eles. Outros ainda permaneciam endurecidos em seus pecados, e Jeremias sentia justa indignação contra eles. Deus, porém, lhe diz que também iriam para o cativeiro, o que resultaria em prejuízo para eles. Para informar o profeta disso e sensibilizá-lo, temos aqui:

I. Uma visão de dois cestos de figos, um de figos muito bons e o outro de figos muito ruins, vv. 1-3.

II. A explicação dessa visão, aplicando os figos bons aos que já tinham sido enviados ao cativeiro para o seu bem (vv. 4-7), e os figos ruins aos que, depois, seriam enviados ao cativeiro para o seu prejuízo, vv. 8-10.

Visão dos Figos Bons e Ruins; Promessas e Ameaças. (a.C. 599.)

Versículos 1 a 10

Este breve capítulo nos ajuda a dar uma interpretação muito consoladora a muitos capítulos longos. Ele nos mostra que a mesma providência que para alguns é cheiro de morte para morte pode, pela graça e bênção de Deus, tornar-se para outros cheiro de vida para vida.

Embora o povo de Deus participe da mesma calamidade que os outros, ela não é para esse povo o que é para os demais: destina-se ao seu bem e resultará em seu bem. Para ele, é vara de correção na mão de um Pai bondoso, ao passo que, para os outros, é espada de vingança na mão de um Juiz justo. Observe:

I. A data deste sermão. Foi depois, pouco depois, do cativeiro de Jeconias, v. 1. O próprio Jeconias era um vaso desprezado e quebrado, mas com ele foram levadas algumas pessoas de grande valor, entre elas Ezequiel (Ezequiel 1:1-2).

Muitos dos príncipes de Judá foram então para o cativeiro; Daniel e seus companheiros tinham sido levados pouco antes. Entre o povo, somente os carpinteiros e os ferreiros foram levados à força, ou porque os caldeus precisavam de homens hábeis nesses ofícios, ou porque os judeus sentiriam intensamente a falta deles.

Os caldeus tinham grande abundância de astrólogos e observadores dos astros, mas grande escassez de ferreiros e carpinteiros. Sem estes, os judeus seriam incapazes de fortificar suas cidades e de se prover de armas de guerra.

Ao que parece, muitas pessoas boas foram levadas naquele cativeiro, o que o profeta piedoso sentiu profundamente, enquanto alguns se alegravam com isso e insultavam aqueles a quem coube ir para o cativeiro.

Repare: não devemos concluir que os primeiros e maiores sofredores eram os piores e maiores pecadores. Talvez se revele exatamente o contrário, como aconteceu aqui.

II. A visão pela qual essa distinção entre os cativos foi apresentada à mente do profeta. Ele viu dois cestos de figos postos diante do templo, prontos para serem oferecidos como primícias em honra de Deus.

Talvez os sacerdotes, negligentes em seu dever, não estivessem prontos para recebê-los e dispor deles segundo a lei, e por isso Jeremias os viu ali, diante do templo. O significado da visão, porém, estava em que os figos de um cesto eram extraordinariamente bons, ao passo que os do outro eram extremamente ruins.

Todos os filhos dos homens são como frutos da figueira, capazes de se tornar úteis a Deus e aos homens (Juízes 9:11). Alguns, porém, são como figos bons, mais agradáveis que qualquer outra coisa; outros, como figos estragados e podres, mais repugnantes que qualquer outra coisa.

Que criatura é mais vil que uma pessoa ímpia, e quem é mais valioso que uma pessoa piedosa? Os figos bons eram como os primeiros a amadurecer, os mais apreciados (Miquéias 7:1) e os mais estimados quando acabavam de chegar à estação.

Os figos ruins eram tão ruins que não podiam ser comidos. Não correspondiam ao propósito para o qual foram criados: não eram agradáveis nem bons para alimento. Para que, então, serviam?

Se Deus não recebe honra dos homens, nem a geração deles recebe serviço algum, eles são como os figos ruins, que não podem ser comidos e não servem a nenhum bom propósito. Se o sal perdeu o seu sabor, dali em diante não serve para nada, a não ser para o monturo.

Entre as pessoas apresentadas ao Senhor à porta do seu tabernáculo, algumas são sinceras e muito boas; outras dissimulam diante de Deus e são muito ruins. Os pecadores são os piores entre os homens; os hipócritas, os piores entre os pecadores. Corruptio optimi est pessima — Aquilo que é melhor torna-se o pior quando se corrompe.

III. A exposição e aplicação dessa visão. Por meio dela, Deus pretendia levantar o ânimo abatido dos que tinham ido para o cativeiro, assegurando-lhes um retorno feliz, e humilhar e despertar os espíritos orgulhosos e confiantes demais dos que ainda permaneciam em Jerusalém, assegurando-lhes um cativeiro miserável.

  1. Aqui está o sentido dos figos bons, que eram muito bons, os primeiros a amadurecer. Eles representavam os cativos piedosos, que pareciam ser os primeiros a amadurecer para a ruína, pois foram os primeiros a ir para o cativeiro. Mas seriam os primeiros a amadurecer para receber misericórdia, e o cativeiro ajudaria a amadurecê-los.

Eles agradam a Deus, como os figos bons agradam a nós, e serão cuidadosamente preservados para uso. Agora observe aqui:

(1.) Os que já tinham sido levados para o cativeiro eram os figos bons que Deus reconheceria como seus. Isso mostra: [1.] Que não podemos determinar o amor ou o ódio de Deus apenas pelo que temos diante dos olhos. Quando os juízos de Deus se espalham, nem sempre os piores são os primeiros a ser atingidos por eles.

[2.] Que sofrer cedo às vezes resulta no melhor para nós. Quanto mais cedo a criança é corrigida, melhor tende a ser o efeito da correção. Os primeiros a ir para o cativeiro eram como o filho a quem o pai ama e corrige cedo, enquanto ainda há esperança; e a correção lhes fez bem.

Os que ficaram para trás, porém, eram como uma criança deixada por muito tempo por conta própria. Quando depois é corrigida, ela se mostra obstinada e piora com isso, Lamentações 3:27.

(2.) Deus reconhece que o cativeiro deles foi obra sua. Quaisquer que tenham sido seus instrumentos, foi ele quem o ordenou e dirigiu (v. 5): “Eu os enviei deste lugar para a terra dos caldeus”.

É Deus quem põe seu ouro na fornalha para ser provado. Sua mão deve ser vista de maneira especial nas aflições das pessoas boas. O juiz entrega o malfeitor às mãos de um executor, mas o pai corrige o filho com a própria mão.

(3.) Mesmo esse cativeiro vergonhoso e penoso foi destinado por Deus ao benefício deles; e temos certeza de que seus desígnios nunca são frustrados: “Eu os enviei à terra dos caldeus para o seu bem”.

Parecia prejudicá-los de todos os modos: não só arruinava seus bens, sua honra e sua liberdade, separava-os dos parentes e amigos e os submetia ao poder de seus inimigos e opressores, como também lhes abatia o ânimo, desanimava-lhes a fé, privava-os do benefício das palavras e ordenanças de Deus e os expunha a tentações.

Ainda assim, destinava-se ao bem deles e, no fim, foi assim para muitos. Do devorador saiu alimento.

Por suas aflições, foram convencidos do pecado, humilhados sob a mão de Deus, desapegados do mundo, levados a tratar a vida com seriedade, ensinados a orar e afastados de sua iniquidade. Em particular, foram curados de sua inclinação à idolatria. Assim, foi bom para eles terem sido afligidos, Salmos 119:67, 71.

(4.) Deus lhes promete que os reconhecerá como seus durante o cativeiro. Embora pareçam abandonados, serão reconhecidos. Os parentes desdenhosos que deixaram para trás dificilmente os reconhecerão ou reconhecerão o parentesco com eles, mas Deus diz: “Eu os reconhecerei”.

Repare: o Senhor conhece os que são seus e os reconhecerá em todas as condições. Nem a nudez nem a espada os separarão do seu amor.

(5.) Deus lhes assegura sua proteção na tribulação e uma libertação gloriosa dela no tempo devido, v. 6. Tendo sido enviados ao cativeiro para o seu bem, não se perderão ali. Acontecerá com eles como com o ouro que o refinador põe na fornalha.

[1.] Ele mantém os olhos sobre o ouro enquanto ele está ali, e são olhos atentos para que não sofra estrago algum: “Porei os meus olhos sobre eles para o seu bem, para ordenar tudo da melhor maneira, de modo que todas as circunstâncias da aflição contribuam para cumprir o grande propósito dela”.

[2.] Ele certamente retirará o ouro da fornalha assim que a obra pretendida estiver concluída: “Eu os trarei de volta a esta terra”. Foram enviados para fora por algum tempo, para seu aperfeiçoamento sob uma disciplina severa. Quando tiverem passado por sua provação ali, serão trazidos de volta à casa de seu Pai.

[3.] Ele dará forma ao seu ouro depois de refiná-lo, fazendo dele um vaso de honra apropriado para seu uso. Assim, quando Deus os trouxer de volta de sua provação, ele os edificará e fará deles uma habitação para si; ele os plantará e fará deles uma vinha para si.

O cativeiro deles se destinava a esquadrar as pedras brutas e torná-las adequadas à sua construção, a podar as árvores novas e torná-las adequadas ao seu plantio.

(6.) Ele se compromete a prepará-los para essas misericórdias temporais que lhes destinou, concedendo-lhes misericórdias espirituais, v. 7. É isso que fará o cativeiro resultar em seu bem. Será tanto o proveito de sua aflição quanto a preparação deles para a libertação. Quando nossas tribulações são santificadas para nós, podemos estar certos de que terminarão bem. O que é prometido é:

[1.] Que conhecerão melhor a Deus. Pelos atos da providência divina na Babilônia, aprenderão mais sobre Deus do que tinham aprendido por todas as suas palavras e ordenanças em Jerusalém, por ação da graça divina. Se esta não tivesse atuado poderosamente neles na Babilônia, teriam se esquecido de Deus para sempre.

Aqui se promete: “Eu lhes darei”, não tanto uma cabeça para conhecer a Deus, mas “um coração para me conhecer”. O verdadeiro conhecimento de Deus não consiste em noções e especulações, mas nas convicções do juízo prático, que dirige e governa a vontade e os afetos.

“Bom entendimento têm todos os que cumprem seus mandamentos”, Salmos 111:10. Onde Deus concede um desejo sincero e uma inclinação para conhecê-lo, também dará esse conhecimento. É o próprio Deus quem dá um coração para conhecê-lo; caso contrário, pereceríamos para sempre em nossa ignorância.

[2.] Que serão inteiramente convertidos a Deus: à sua vontade como regra deles, ao seu serviço como sua ocupação e à sua glória como seu fim. “Eles voltarão para mim de todo o coração”. O próprio Deus assume o compromisso de que voltarão; e, se ele nos converter, seremos convertidos.

Isso decorre do que veio antes. Os que têm um coração para conhecer a Deus corretamente não apenas se voltarão para ele, mas o farão de todo o coração. Pois os que são obstinados em sua rebelião ou hipócritas em sua religião podem ser chamados, com razão, de ignorantes a respeito de Deus.

[3.] Que, assim, serão novamente acolhidos na aliança com Deus, para consolo deles tanto quanto antes: “Eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus”.

Deus os reconhecerá, como anteriormente, como seu povo: nas revelações de si mesmo a eles, na aceitação dos serviços que lhe prestarem e em suas manifestações graciosas em favor deles. E eles terão liberdade de reconhecê-lo como seu Deus nas orações que lhe dirigirem e nas expectativas que nele depositarem.

Repare: os que se afastaram de Deus, se voltarem a ele com sinceridade, são admitidos tão livremente quanto qualquer pessoa a todos os privilégios e consolos da aliança eterna. Ela é bem ordenada neste aspecto: nem toda transgressão cometida no âmbito da aliança nos exclui dela, e as aflições não apenas são compatíveis com o amor da aliança, mas também procedem dele.

  1. Aqui está o sentido dos figos ruins. Zedequias, seus príncipes e seus partidários ainda permaneciam na terra, bastante orgulhosos e confiantes demais, Ezequiel 11:3. Muitos tinham fugido para o Egito em busca de abrigo.

Pensavam ter escapado bem e garantido a própria segurança, e se gabavam de que, embora tivessem agido contra a ordem de Deus, tinham agido com prudência em benefício próprio.

Agora, quanto a esses dois grupos, que olhavam com tanto desprezo para os que tinham ido para o cativeiro, aqui se anuncia:

(1.) Que, ao passo que os já levados tinham sido estabelecidos em um só país, onde gozavam do consolo do convívio uns com os outros, mesmo no cativeiro, estes seriam dispersos e removidos para todos os reinos da terra, onde não teriam a alegria do convívio uns dos outros.

(2.) Que, ao passo que aqueles foram levados cativos para o seu bem, estes seriam removidos para todos os países para o seu prejuízo. Suas aflições, longe de humilhá-los, os endureceriam. Não os aproximariam de Deus, mas os colocariam ainda mais longe dele.

(3.) Que, ao passo que aqueles teriam a honra de ser reconhecidos por Deus em suas tribulações, estes passariam pela vergonha de ser abandonados por toda a humanidade: “Em todos os lugares para onde eu os lançar, eles serão objeto de descrédito e servirão de provérbio”.

“Fulano é tão falso e orgulhoso quanto um judeu”; “Fulano é tão pobre e miserável quanto um judeu”. Todos os seus vizinhos zombariam deles e das calamidades que lhes sobreviessem.

(4.) Que, ao passo que aqueles voltariam à sua própria terra, estes nunca mais a veriam. Não lhes adiantaria alegar que era a terra que Deus havia dado a seus pais, pois eles a receberam de Deus, e Deus a concedeu sob a condição de que lhe obedecessem.

(5.) Que, ao passo que aqueles foram reservados para tempos melhores, estes foram reservados para tempos piores. Para onde quer que fossem removidos, a espada, a fome e a peste seriam enviadas atrás deles, logo os alcançariam e, vindo com a missão de fazê-lo, os venceriam.

Deus dispõe de diversos juízos com os quais perseguir os que fogem da justiça. E os que escaparam de um deles podem esperar outro, até que sejam levados a se arrepender e a reformar sua conduta.

Sem dúvida, essa profecia se cumpriu nos homens daquela geração. Contudo, como não lemos sobre nenhuma diferença tão marcante entre os do cativeiro de Jeconias e os do cativeiro de Zedequias, é provável que ela tenha uma referência simbólica à última destruição dos judeus pelos romanos.

Nessa ocasião, os que creram foram preservados, mas os que permaneceram obstinados na incredulidade foram expulsos para todos os países, onde se tornaram objeto de escárnio e maldição. E assim permanecem até hoje.


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